O GABINETE DO DR. CALIGARI (1919)

(Kabinett des Dr. Caligari)

 

Filmes em Geral #32

Filmes Comentados #21 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por Robert Wiene.

Elenco: Werner Kraus, Lil Dagover, Conrad Veidt, Friedrich Feher e H.H. Von Twardowski.

Roteiro: Hans Janowitz e Carl Mayer.

Produção: Erich Pommer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Considerado o marco inicial do expressionismo no cinema, “O Gabinete do Dr. Caligari” conta a estória de um hipnotizador (Werner Kraus) que chega ao circo de uma pequena cidade para apresentar um sonâmbulo (Conrad Veidt) que, misteriosamente, faz profecias macabras, que acabam sendo concretizadas posteriormente. Simultaneamente a sua chegada, crimes começam a acontecer na cidade, e a dupla passa a ser a principal suspeita dos crimes.

O longa que inaugurou o movimento expressionista no cinema apresenta uma atmosfera bastante sombria, que determinou o padrão estilístico que seria seguido pelos filmes seguintes. Mas para entender a importância de “O Gabinete do Dr. Caligari” é preciso contextualizar o seu lançamento. Em 1919, o cinema estava apenas começando a mudar, com os filmes de Griffith, o primeiro a contar uma estória de forma diferente, alternando planos abertos com closes, mas o diretor Robert Wiene preferiu manter a câmera fixa num ponto, com os atores encenando na frente dela, como era costume na época. Em compensação, investiu pesado no tom obscuro, com o forte contraste entre luzes e sombras, cenários distorcidos e muita maquiagem, criando um visual bastante sombrio. Auxiliado pela fotografia (direção de Willy Hameister) também sombria e pelos cenários distorcidos, o diretor conseguiu criar um clima fantasmagórico, conferindo uma atmosfera de pesadelo ao longa. Além disso, a fenomenal direção de arte representa com precisão a principal característica do expressionismo alemão, que é a distorção de imagens buscando representar visualmente os sentimentos dos personagens. Os cenários distorcidos, as ruas e casas tortas e os personagens extremamente maquiados foram utilizados com perfeição em “O Gabinete do Dr. Caligari”.

Vale observar também como as formas geométricas ajudam a expressar os sentimentos dos personagens, como os triângulos maquiados nos olhos que garantem um ar ainda mais mórbido ao sonâmbulo Cesar e as linhas suaves do quarto da bela Jane Olsen (Lil Dagover), que exprimem a paz de espírito da moça. A própria casa do Dr. Caligari parece pequena e apertada por fora, dando uma sensação de incomodo em quem vê, refletindo o distanciamento do espectador com as práticas do doutor. Mas além de contar com um visual exuberante, carregado nos tons sombrios e na distorção das imagens, o longa ainda conta com uma trama muito bem elaborada (mérito do roteiro de Hans Janowitz e Carl Mayer), com interessantes reviravoltas e um final surpreendente. E apesar dos poucos diálogos (como o filme é mudo, as falas aparecem escritas na tela), o longa mantém um ritmo ágil e interessante, se considerarmos as dificuldades técnicas da época, sempre mantendo o espectador ligado na narrativa.

Entre as atuações, vale destacar Conrad Veidt como o assustador Cesar e o próprio Werner Kraus como o macabro Dr. Caligari. Numa época em que os atores não tinham o recurso do diálogo devido à inexistência do som, a expressão facial e corporal era fundamental para provocar o medo e ambos se saem bem nesta tarefa. Além disso, é importante ressaltar que o exagero nas expressões buscando externar os sentimentos dos personagens era uma das marcas do expressionismo.

Contando com uma narrativa interessante, boas atuações e um trabalho excepcional de fotografia e direção de arte, responsável por um dos mais sombrios visuais já vistos num filme, “O Gabinete do Dr. Caligari” iniciou com o pé direito o movimento expressionista no cinema, tendo forte influência nos filmes posteriores do movimento, assim como em diversas outras obras da história da sétima arte.

PS: Comentários divulgados em 02 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

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7 Respostas to “O GABINETE DO DR. CALIGARI (1919)”

  1. Janerson Says:

    Olá, Roberto. Assisti recentemente esse filme e posso dizer que o achei muito bom. A começar pela música de fundo que realmente nos sugere algo lúgubre e assustador, a ótima caracterização do dr Caligari representado por Werner Krauss emprestando ao personagem um ar misterioso seja através de suas expressões, seja através de seu olhar. Hans Heinrich von Twardowski apresenta uma atuação bastante convincente na pele de Alan ao ouvir que morreria ao amanhecer. Sua morte aliás, é um primor, pois a cena remete vagamente às sombras chinesas. Ponto alto para o cenário e para a iluminação que nos faz lembrar o teatro, por exemplo, a cada corte de cena é como se um spot ficasse somente sobre um ator em cena, destacando-o dos demais. Quanto ao final, a reviravolta encontrada foi bastante interessante, mostrando a confusão mental do narrador e encerrando esse filme de forma magnífica.
    Abraço.

  2. cross98 Says:

    Na boa , esse filme me assusta mais que O Exorcista , acho ele tenso

  3. Semanas Especiais « Cinema & Debate Says:

    […] O Gabinete do Dr. Caligari […]

  4. A ÚLTIMA GARGALHADA (1924) « Cinema & Debate Says:

    […] linguagem cinematográfica ao apresentar, ainda que em menor escala do que em outros filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari”, forte influencia do expressionismo alemão, como durante a chegada do porteiro em sua casa, com […]

  5. A ÚLTIMA GARGALHADA (1924) « Cinema & Debate Says:

    […] cinematográfica, utilizando também, ainda que em menor escala do que em outros filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari”, as características marcantes do expressionismo, com imagens distorcidas, como o prédio que […]

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