AMARGO PESADELO (1972)

(Deliverance)

 

Filmes em Geral #29

Dirigido por John Boorman.

Elenco: Jon Voight, Burt Reynolds, Ned Beatty, Ronny Cox, Ed Ramey, Billy Redden e Seamon Glass.

Roteiro: James Dickey, baseado em história de James Dickey.

Produção: John Boorman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inicialmente, “Amargo Pesadelo” parece ser apenas uma despretensiosa aventura de um grupo de amigos num local prestes a ser tomado pela civilização. Mas, repentinamente, o longa dirigido com extremo realismo por John Boorman se transforma num agoniante drama, capaz de chocar a platéia diante da situação em que os personagens se envolvem e ainda gerar diversas reflexões a respeito da natureza selvagem do ser humano.

Os quatro amigos Ed (Jon Voight), Lewis (Burt Reynolds), Bobby (Ned Beatty) e Drew (Ronny Cox) decidem descer um rio a bordo de uma canoa, antes que toda a região seja transformada numa represa. Após se estranharem com os habitantes locais, eles partem nesta aventura. Mas no segundo dia, algo completamente inesperado acontece e altera para sempre a vida de todos eles.

Quando falamos de aventuras nos dias de hoje, pensamos imediatamente (com algumas raras exceções) em filmes voltados para o público adolescente e que normalmente adotam um tom mais leve na narrativa. Não era assim nos anos 70. E para constatar isto, basta assistir a este “Amargo Pesadelo”, uma aventura que apresenta personagens complexos, envolvidos numa situação extremamente angustiante e perfeitamente possível de acontecer, capaz de sugar o espectador pra dentro da história com enorme eficiência. Escrito por James Dickey, “Amargo Pesadelo” aborda a chegada da civilização e o conflito que o progresso gera entre os habitantes da região e as pessoas das grandes cidades. Neste caso em especial, é como se a chegada de forasteiros representasse o fim da vida que aquelas pessoas se acostumaram a viver, algo ilustrado no próprio rio, que antes servia para a pesca e a recreação, e agora passaria a gerar energia (o que, ironicamente, possibilitaria o progresso daquela região). Por outro lado, nem todo habitante da cidade grande está confortável com esta situação, e Lewis é o melhor exemplo disto. Quando Bobby comenta que “existe algo nestas árvores e neste rio que nós perdemos nas cidades”, ele responde “não perdemos, vendemos”, mostrando seu desconforto com as conseqüências do “progresso”. A grande ironia é que a amada natureza revelaria uma face igualmente agressiva e violenta pra todos eles. As grandes cidades não têm o mesmo encanto que as regiões mais afastadas, mas o futuro do grupo serviria para mostrar que nem por isso aquele local poderia ser considerado totalmente seguro como Lewis pensava (“Não acredito em segurança, não há riscos”, diz ele).

Em todo caso, esta face agressiva não pode ser percebida nos primeiros minutos de projeção. Ainda assim, Boorman insere alguns elementos na narrativa que dão pequenas dicas do que poderia vir a acontecer, como no sensacional duelo de banjos entre Drew e um menino da região, que deveria servir para tranqüilizar o grupo naquele ambiente hostil, mas quando Drew tenta cumprimentar o garoto após se empolgar com seu talento e o menino se recusa a tocar sua mão, todos percebem que não são bem vindos ali. Quando o grupo parte para o rio, Boorman faz questão de mostrar a imagem de um rifle na parte de trás da caminhonete, indicando que aquele passeio não seria tão tranqüilo. As dicas aparecem até mesmo através da direção de fotografia de Vilmos Zsigmond, inicialmente limpa e explorando muito bem as lindas paisagens do local, mas que lentamente vai se tornando mais obscura na medida em que o grupo avança pelo rio. E até mesmo o som ajuda no clima de tranqüilidade inicial, quando as únicas coisas que interferem na conversa do grupo são os pássaros cantando e o barulho da água. O passeio inicial representa a verdadeira paz de espírito que o grupo buscava, ilustrada também na trilha sonora de Michael Addiss, toda tocada em banjo.

Graças à boa montagem de Tom Priestley, o ritmo da narrativa alterna corretamente entre momentos de paz, como quando o grupo sai para pescar, e de tensão, como na difícil passagem entre as pedras. Claramente, na medida em que o grupo avança e os problemas aparecem, os momentos de relaxamento deixam de existir e o longa alcança níveis insuportáveis de tensão. Antes de entrar no rio, o grupo parece estar sempre feliz, como podemos perceber no plano em que Ed e Lewis estão dirigindo sorridentes e as folhas refletem no vidro do carro, ilustrando também a integração entre o homem e a natureza que eles tanto buscavam naquele momento. Na primeira vez em que precisam passar entre as pedras no rio, repare como o tom é mais descontraído, até mesmo com sorrisos e brincadeiras entre os amigos. Boorman acompanha toda a trajetória do grupo, nos colocando na mesma posição deles através do posicionamento da câmera e nos aproximando definitivamente de todos eles. Compare este momento com a tensa caçada de Ed ao caipira, onde o diretor provoca calafrios somente através do silêncio e da composição dos planos, como quando vemos o homem armado no segundo plano e Ed dormindo no primeiro. A diferença de clima entre as duas cenas é gritante. Vale observar ainda que durante a subida de Ed pela pedra, Boorman e Zsigmond utilizam um filtro azul para dar a sensação de que a ação se passa durante a noite, numa técnica conhecida como “noite americana”.

E a cena responsável por esta mudança drástica no tom da narrativa acontece de maneira inesperada, pegando o espectador completamente desprevenido. Após o primeiro dia de passeio, o grupo resolve dormir no meio da mata. Neste momento, o silêncio dá a exata noção de isolamento, que era justamente o que eles procuravam, mas que se revelaria algo extremamente perigoso logo em seguida. Na manhã seguinte, o grupo decide se dividir e Ed e Bobby seguem rio abaixo. Mas quando os dois param para descansar na margem do rio, são surpreendidos por dois habitantes locais. O anunciado conflito entre caipiras e forasteiros da cidade grande finalmente acontece. Neste momento, o espectador já se sente parte daquele grupo, o que só aumenta o choque diante da situação. Após uma tensa discussão, os caipiras, armados, informam que o passeio acabou e o medo toma conta do ambiente. E então, sem desviar a câmera para poupar a platéia, Boorman filma uma agressiva cena de violência sexual, que altera todo o destino daquela viagem e da própria vida daquelas pessoas. O diretor confirma seu apreço pelo realismo logo em seguida, mostrando detalhes do assassinato de um dos estupradores, como o sangue pingando da flecha e o homem morto pendurado na árvore. Este violento desfecho do confronto e a complicada situação que o grupo acidentalmente se envolve transformam o filme de uma simples e despretensiosa aventura num drama complexo e real, capaz de provocar angústia em qualquer um.

Pessoas diferentes, mas com um objetivo em comum, os quatro amigos começam a aventura demonstrando entrosamento, ainda que existam divergências de opiniões, como fica evidente quando Lewis se deslumbra diante da primeira imagem do rio enquanto Ed pergunta se existiam cobras ali. Até então, as atuações de Voight, Reynolds, Beatty e Cox são bastante descontraídas e o grupo demonstra uma boa química. Mas é depois da tragédia que o elenco cresce, alterando drasticamente o comportamento de todos eles. Jon Voight se destaca, saindo da posição de mero acompanhante na viagem para se tornar o líder que vai lutar pelo grupo. O ator ainda transmite muita emoção durante um jantar, já depois de sair do rio, quando seu trauma fica evidente. Burt Reynolds demonstra firmeza nas decisões de Lewis, enquanto o Drew de Ronny Cox se revela alguém firme em suas convicções quando o grupo comete um assassinato. Por outro lado, Ned Beatty, que se saiu muito bem na cena mais agressiva do filme demonstrando o desespero do personagem, não apresenta posteriormente a revolta esperada de uma pessoa que sofreu um estupro, o que é até mesmo difícil de julgar, já que as pessoas reagem de maneiras diferentes diante de situações extremas. A partir da tragédia, o grupo passa a enfrentar enormes dificuldades, inclusive com um dos barcos virando após a queda de Drew (que apareceria novamente já morto e totalmente desfigurado, em outra imagem de forte impacto). Boorman nos coloca novamente sob o ponto de vista dos personagens, só que desta vez a passagem entre as pedras é infinitamente mais agoniante, pois carrega um peso dramático enorme diante de tudo que aconteceu. A natureza, assim como os nativos da região, havia revelado sua face cruel e perigosa, mostrando que a violência não é um privilégio das grandes cidades, está na essência do ser humano.

Nos últimos minutos de “Amargo Pesadelo”, vemos a imagem de um corpo boiando no rio, seguida por um desesperado Ed, que acorda suado em sua cama ao lado da esposa. O pesadelo de Ed demonstra o medo que ele tinha da polícia descobrir toda a verdade e reflete o quanto toda aquela situação ainda iria atormentar a vida de todos eles. Este é o tipo de desfecho amargo (com o perdão do trocadilho) que os filmes da nova Hollywood se especializaram em entregar ao espectador. Durante duas horas, somos sugados por uma história tensa, repleta de aventura, é verdade, mas com muito mais a dizer do que podíamos imaginar.

Texto publicado em 17 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

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17 Respostas to “AMARGO PESADELO (1972)”

  1. Ricardo Tenório Rodrigues Says:

    Para mim o melhor filme do diretor John Boorman.
    Tenho na minha DVDTECA este drama aventuresco de 1972, e vez por outra dou uma assistida, e sempre que revejo, tenho a mesma sensação de angústia, me adentro naquelas matas, navego naquele rio de água corrente e perigosa e divido o conflito com os personagens.
    Verdadeiramente é um filme muito real, um pesadelo real e agoniante.
    É importante destacar também aquela cena depois da morte do caipira um discussão entre eles, envolvendo valores éticos e sobrevivência. No qual um dos personagens era contra enterrar o corpo do caipira e falar o que realmente aconteceu de fato ali, enquanto, o personagem do Burt Reynols que era o líder visível do grupo, queria enterrá-lo e partir para sair daquele lugar, em busca da sua sobrevivência. É uma excelente sequencia de diálogos, envolvendo uma discussão moral e ética.
    De certo Roberto, as aventuras da década de 70 é muito diferente das aventuras de hoje. Atualmente filmes que exploram essa temática tem um clima mais leve e descontraído. Diferentemente, do clima agoniante e apreensivo desse excelente longa setentista.
    Já não se fazem filmes assim, no qual uma pequena aventura de fim de semana de quatro executivos, façam-nos refletir sobre o progresso e a tranquilidade da natureza, mas afirmando que ambos podem ser perigosos e violentos.

    Excelente filme!

    • Roberto Siqueira Says:

      Os anos 70 foram o auge do cinema norte-americano.
      O ambiente e a força dos diretores dentro dos estúdios permitiam que idéias mais ousadas ganhassem as telonas.
      Hoje ainda temos bons filmes, mas aventuras como esta são cadas vez mais raras.
      Agradeço seu excelente comentário Ricardo. Volte sempre.
      Um grande abraço.

  2. Caio Fábio Says:

    Filmaço!!!

  3. mcnammara Says:

    Nenhum dos dois acertaram. o menino nuca foi autista, era mesmo um ator contratado.: aqui está ele:

    http://cronicaautista.blogspot.com.br/2011/03/duelo-de-banjos.html

  4. francisco Says:

    Se eu pudesse mudar o título em português do filme , eu trocaria “Amargo pesadelo” por “Amarga Aventura”, porque não é pesadelo é tudo real e assustador e poderia acontecer com qualquer um de nós nestas pescarias da vida. E ao mesmo tempo trata-se de uma aventura maiúscula que consegue divertir, provocar suspense e ao mesmo tempo horrorizar sem ser filme de terror e sem ter nenhum clichê. Gostaria de lembrar que o diretor Boorman se tornou um expert em aventuras na selva, basta citar “Inferno no Pacífico”, “Floresta de Esmeraldas’ e até mesmo o épico “Excalibur”. Obrigado Roberto, e parabéns pela excelente análise.

  5. Anônimo Says:

    O filme é sensasional!!!!!!

  6. Anônimo Says:

    Mas o menino era mesmo autista ou, como actor, fazia de autista?

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá,
      Não sei responder sua pergunta, mas você pode pesquisar no IMDB que deve ter informações sobre o ator.
      Abraço.

  7. altamir Says:

    A tensão toda do filme, a meu ver, é antecipada no duelo dos banjos. O garoto autista não se recusa a dar a mão, sequer entende o gesto. Mas é claro que isto demonstra a incapacidade de interação entre os forasteiros e os moradores do lugar. Anos após assistir este filme ainda ouço o acorde (quem entender de música me perdoe se estiver errado em chamar de acorde aquela célula musical!) do banjo ser replicado pelo violão e mesmo se acontece uma certa síntese entre os músicos, o conflito se repõe e não se resolve mais após o violonista “se perder” no duelo…

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Altamir, obrigado pelo excelente comentário.
      Um grande abraço e fique à vontade sempre que quiser comentar no Cinema & Debate.

  8. Anônimo Says:

    O menino do banjo era autista.

    • Anônimo Says:

      Por isso é incorreto dizer que o menino refletia o comportamento do povo local

    • Roberto Siqueira Says:

      Ok Anônimo, o menino era autista, mas aquela cena simboliza a rejeição que eles sofriam ali, até pela reação dos outros “caipiras” presentes no local. Em todo caso, respeito seu ponto de vista.
      Grande abraço.

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