UM CORPO QUE CAI (1958)

(Vertigo)

 

 

Filmes em Geral #61

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Raymond Bailey, Konstantin Shayne, Ellen Corby, Lee Patrick, Henry Jones e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alfred Hitchcock vivia uma fase muito especial nos anos 50, emendando uma série de filmes de excelente qualidade como “Disque M para Matar” e o “O Homem que sabia demais”, além de algumas obras-primas, como “Janela Indiscreta” e este “Um Corpo que Cai”, que marca o ponto alto de sua carreira, confirmado dois anos depois em outra obra-prima, “Psicose”. Curiosamente, por apostar numa faceta espiritualista, o longa estrelado por James Stewart e Kim Novak dá a sensação de fugir das principais características do cinema “hitchcockiano” durante grande parte da narrativa, revertida num momento chave que traz de volta a atmosfera de suspense, tão marcante nos melhores momentos do diretor.

O detetive John “Scottie” Ferguson (James Stewart) vê um colega morrer ao ficar pendurado num prédio, escancarando seu problema de acrofobia e forçando sua aposentadoria. Seu antigo conhecido Gavin Elster (Tom Helmore) entra em contato com ele e pede que “Scottie” vigie sua esposa Madeleine (Kim Novak), que apresenta claras tendências suicidas.

Escrito por Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, “Um Corpo que Cai” acertadamente concentra grande parte da primeira metade da narrativa na história de Carlotta, a suposta antepassada de Madeleine que cometeu suicídio, prendendo a atenção do espectador e desviando seu olhar do que realmente interessa: a farsa de Madeleine e seu “marido” Gavin. Observe, por exemplo, como quando um historiador local conta a vida de Carlotta, a fotografia sombria de Robert Burks reflete o tom triste da história, conquistando a empatia do espectador, que se sente tocado diante daquele passado trágico. Contando com a montagem de George Tomasini para dividir a história claramente em dois períodos, Hitchcock constrói com cuidado o relacionamento entre Madeleine e Scottie na primeira etapa (o que servirá para compreendermos as razões das atitudes de ambos no terceiro ato), para, em seguida, revirar a história com a suposta morte dela e nos apresentar a verdadeira mulher escondida sob aquela capa de loucura, deixando para a parte final da narrativa a reaproximação deles, já quando ela não está mais “disfarçada” de Sra. Elster. Com uma estrutura narrativa bem definida e personagens complexos e ambíguos, o mestre pôde conduzir a narrativa com a costumeira habilidade e construir momentos marcantes, apesar de um ou outro momento “inexplicável”, como quando Madeleine simplesmente some de um hotel – e que serve apenas para criar dúvida no espectador sobre a natureza, sobrenatural ou não, daqueles acontecimentos, reforçada pela fotografia de Burks, recheada de cores fortes que fazem o longa mais parecer um pesadelo.

Acertando ainda na escolha de belas locações externas, como um parque, um lago e até mesmo a aldeia da missão espanhola, que conferem melancolia à narrativa, é mesmo nos locais fechados que Hitchcock entrega as grandes seqüências do filme, como no belo restaurante, extremamente bem decorado (direção de arte de Henry Bumstead e Hal Pereira) e repleto de pessoas bem vestidas (figurinos de Edith Head), em que ele faz um elegante movimento de câmera que revelará Madeleine, de costas, com seu cabelo loiro e seu penteado marcante. Repare a inteligência do diretor ao destacar o rosto dela em perfil quando ela passa, num plano que teria reflexo em outro momento crucial da narrativa no futuro. O diretor sabe ainda inserir lentamente elementos importantes da trama, fazendo com que o espectador se familiarize com eles, mas sem permitir que este possa antecipar o que acontecerá na história. Repare, por exemplo, como quando Scottie chega ao cemitério onde Madeleine visita o túmulo de Carlotta, o plano em ângulo baixo mostra a torre da igreja, numa alusão a outro local que teria grande importância na trama. Em outro momento, a câmera vai até a flor que Madeleine segura, passa por seu cabelo e para no quadro de Carlotta, evidenciando a inspiração daquele visual e dando sinais dos “problemas” da moça. E finalmente, merece destaque o belo plano embaixo da ponte do rio em San Francisco, na cena em que Madeleine pula na água simulando uma tentativa de suicídio, embalada pela impactante trilha sonora de Bernard Herrmann, com acordes sombrios, refletindo durante boa parte da narrativa a atmosfera fantasmagórica do longa.

Em poucos minutos, James Stewart conquista a platéia com seu jeito carismático na pele de Scottie. Obviamente, o fato de o personagem sofrer de acrofobia colabora ainda mais, pois “Scottie” já surge em desvantagem, algo que sempre atrai a empatia do espectador. Além disso, os efeitos na câmera simulam a doença do personagem com eficiência, colocando a platéia em seu lugar, assim como quando a câmera simula o pesadelo de Scottie alterando seguidas vezes a cor da paleta, criando imagens psicodélicas. E se Stewart conquista a platéia, Kim Novak compõe Madeleine muito bem, mantendo um ar misterioso, coerente com a proposta da personagem. Com poucas expressões e palavras, ela cria uma “mulher fantasma”, colaborando bastante para que o espectador fique curioso com toda aquela história de “reencarnação” de Carlotta e não perceba o truque principal da narrativa. Além disso, o próprio Hitchcock colabora com este clima, criando planos que parecem embaçados ou nevoados, como quando Madeleine e Scottie passeiam pela floresta (repare a cor da roupa dela na cena, que reforça esta visão “fantasmagórica”) ou no próprio plano em que ela se joga no rio. Demonstrando fragilidade e parecendo emocionalmente abalada, Madeleine não encontra dificuldade para conquistar Scottie, que a beija com o mar ao fundo, num belo plano. Mas uma estanha conversa sobre um sonho no alto de uma igreja na Espanha deixará Scottie ainda mais preocupado com o destino daquela mulher, com clara tendência suicida. E quando o casal visita a aldeia da missão espanhola, o diálogo que precede a “morte” dela tem duplo sentido, pois, naquele momento, ela já amava Scottie, mas não podia desistir do plano de Gavin e por isso grita que “é tarde demais”.

A fria reação de Gavin após a morte da esposa começa a indicar a grande reviravolta da narrativa. E se o marido parece conformado com o acidente, Scottie sofre um grande choque e Stewart reflete bem o estado do personagem. Praticamente imóvel e sem fala, ele parece estar em transe após a tragédia. Quando sua amiga Midge (Barbara Bel Geddes) o visita no hospital, ele sequer parece notar sua presença (“Você nem sabe que eu estou aqui, mas estou”), o que é doloroso pra ela, que também o ama – e Hitchcock reflete isto no plano que diminui a personagem no corredor do hospital, escurecendo a tela em seguida. Atormentado, Scottie passa a ver Madeleine em todos os lugares, seja na mulher que comprou o carro dela, seja na loira do restaurante, seja na moça que olha o quadro no museu, e isto colabora bastante para que o espectador fique em dúvida quando ela de fato aparece, agora com seu visual verdadeiro, indo para o hotel Empire. Colabora também a excelente maquiagem, que diferencia as duas personagens vividas por Novak, mas mantém traços marcantes que permitem ao espectador mais atento reconhecê-la, especialmente quando ela passa de perfil, numa rima narrativa com sua aparição no restaurante, ainda no primeiro ato. Ciente disto, Hitchcock insere em seguida uma seqüência de lembranças dela, confirmando que Madeleine (na verdade, Judy) não morreu. A carta que ela escreve em seguida revela detalhes do audacioso plano de Elster, mas ela se arrepende e decide ficar. Elster planejou o crime perfeito, matou a esposa, usou a doença de Scottie pra não deixar vestígios e agora sairia livre. Mas ele não contava com a paixão que nasceria entre a mulher escolhida para representar sua esposa e Scottie.

Lentamente, Scottie fica obcecado pela idéia de deixar Judy igual à Madeleine – e Novak demonstra bem o incomodo da personagem nesta situação, com seu olhar aflito e suas reclamações -, e momentos como aquele em que ela senta em frente à janela, com sua silhueta remetendo à Madeleine, só colaboram para aumentar a obsessão dele. Enquanto Scottie aguarda por Judy (ou agora seria Madeleine?) no quarto, a fotografia verde simboliza a esperança no coração dele de reencontrar aquela mulher por quem se apaixonou. E ela surge sob uma névoa verde, somente para que os dois se beijem com a câmera girando e transportando o casal para o local da tragédia, voltando para o apartamento em seguida, ainda com o reflexo verde do neon do hotel ao fundo.

Tudo ia bem, mas Judy resolve colocar o colar de Madeleine e um zoom destaca a reação de Scottie, claramente incomodado. Ele muda repentinamente o comportamento e parece desconfiado. A narrativa ganha contornos sombrios, reforçados pela fotografia escura e pelo cair da noite. Scottie resolve então voltar ao local da tragédia, para subir novamente a escada e visitar o local do crime. A cena é conduzida com perfeição por Hitchcock, que cria uma atmosfera de suspense, reforçada pela trilha sinistra e pela fotografia sombria. O casal sobe pouco a pouco a escadaria, até chegar ao local onde a farsa se passou. Judy, assustada, tenta convencer Scottie, mas uma freira surge como um fantasma na escada e assusta a garota, que cai. E, desta vez, não vemos o corpo caindo, pois Hitchcock faz questão de destacar a reação de Scottie, que é mais impactante naquele momento do que ver o resultado da tragédia. Ele perdia a mulher da sua vida pela segunda vez, e no mesmo local.

Com sua atmosfera fantasmagórica, “Um Corpo que Cai” talvez seja o trabalho de Alfred Hitchcock que mais destoa do restante de sua filmografia. Obviamente, não estou me referindo à qualidade da obra, mas ao tom empregado pelo cineasta, que flerta com uma trama mais espiritualista, intimista, e afunda o espectador num drama sombrio na segunda metade da projeção. E, justamente por isso, este é um dos trabalhos mais marcantes do excepcional diretor inglês.

Texto publicado em 09 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

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12 Respostas to “UM CORPO QUE CAI (1958)”

  1. Ricardo Tenório Rodrigues Says:

    Considero Um Corpo que Cai uma das obras primas de Alfred Hitchcoock. A década de 50 foi uma época de muitos filmes brilhantes do diretor, e Um Corpo que cai está entre eles.
    James Stewart em mais outra parceria bem sucedida vive um personagem que sofre de acrofobia ao ver um colega cair de um prédio. A partir daí, ele se envolve em uma investigação misteriosa que o envolverá numa paixão perigosa. Não adiante falar muito em James Stewart ele é um primor de ator, creio eu que um dos preferidos do diretor inglês.
    Agora, Kim Novak, não era com certeza a escolha desejada do diretor, o qual preferia a “loira gelada” Grace Kelly. Grace nessa época já era casada com o príncipe de Mônaco e recusou o papel. Outra opção foi a atriz Vera Miles que também por outros motivos não quis o papel. Então, Novak entrou na jogada, mesmo a contragosto do diretor, que maus línguas diziam não se relacionar bem com a atriz e que ele era carrasco com suas estrelas, exigindo-lhes demais.
    Kim Novak, praticamente teve que seduzir o diretor com sua sensualidade e convencê-lo de que era a atriz perfeita para aquele papel. E ela conseguiu com méritos. Foi um o melhor papel de sua carreira. Novak inicia o filme um tanto inexpressiva, mas no decorrer da trama ela cresce em sua interpretação, mostrando-se ambígua no incio até a metade de trama e aflitiva na outra metade final. Uma interpretação digna do Oscar ( que creio que não concorreu). Grande interpretação da atriz e o mestre deve ter ficado orgulhosos dela.
    Uma Corpo que Cai tem uma história muito envolvente que vai seduzindo e hipnotizando o telespectador com seus personagens ambíguos em uma trama intricada e difícil de entender até a metade da fita. A partir daí, quando vemos que tudo parte de uma farsa, a outra metade somos seduzidos por um romance bonito e meio doentio de james Stewart por uma garota que ele conhece na rua (Kim Novak) parecidíssima com aquela mulher que se jogou de um telhado. A partir desse momento inicia-se novamente a agustia dos personagens principais, onde tudo culminará para um desfecho melancólico, triste, desesperador proveniente de uma fatalidade ou de uma obsessão.
    Vale destacar a primorosa fotografia e a trilha sonora assinada pelo seu parceiro de costume Bernard Hermann.

    Obra – Prima Incontestável!!!!

  2. Renato Says:

    Agora eu li Roberto toda a sua analise e realmente gostei.
    Um abraço

  3. Renato Says:

    Eu ainda não parei pra ler com a devida atenção a sua analise do Vertigo mas aprecio muito esse filme e tambem Psycho e Frenzy e com relação ao Vertigo o que me marcou foi a bela trilha sonora do Bernard Herrmann e a cena do pesadelo do detetive John “Scottie” Ferguson que é uma das melhores cenas do filme

    • Roberto Siqueira Says:

      É verdade Renato, grande cena e trilha marcante.
      Abraço e obrigado pelo comentário.

  4. Anônimo Says:

    Gostei muito do seu comentário, alguns aspetos referentes à realização do filme passaram-me ao lado, e na sua análise fiquei a perceber muito melhor as técnicas de realização do mestre Hitchcock, porém o ambiente sombrio que o diretor cria envolve o espectador num clima de suspense, quase de forma natural sem nos darmos conta. O filme, agora considerado o melhor de sempre é sem dúvida uma obra-prima da sétima arte. Para mim a mensagem do filme passa muito pelo amor fantasma que Scottie sentia por Madeleine, pois o detetive sentia-se atraído pela personagem distante e misteriosa de Madeleine, contudo quando descobriu a verdade percebeu que se tinha apaixonado por uma mulher que não existia, era apenas um “máscara” da realidade que a tornavam num ser impessoal. Todavia o amor que se formou entre os dois era sentido por Judy, não por Madeleine, mas como Scottie amava Madeleine e não Judy como ficou claramente implícito no filme com a tentativa desesperada de fazer com que Judy se transformasse novamente em Madeleine, o detetive apaixonou-se por um fantasma, e após a sua morte figurada tenta adaptar Judy segundo um estereótipo predefinido por ele. Concluindo, creio que a mensagem do filme é: todos nós vivemos com estereótipos não concretizáveis de uma sociedade imperfeita, e tentamos adaptá-la constantemente a esse mesmos estereótipo, mesmo sabendo que é impossível.

  5. Janerson Says:

    Olá, Roberto. Como sempre, brilhante em suas análises. Hitchcock fez inúmeras obras-primas e seu nome deve ser exaltado sempre que se tocar na palavra “cinema”. Até mesmo filmes considerados menos inspirados como Os Pássaros, são muito bons. Para citar apenas algumas das melhores obras, eu menciono Psicose, Janela Indiscreta e Trama Macabra. Mas o grande mestre pareceu se superar ao fazer esse filme. Um Corpo que Cai eu considero como o “Cidadão Kane” de Hitchcock. Um filme perfeito, brilhante e com um final magnífico. Kim Novak demonstra realmente aflição durante a investigação do detetive Ferguson. O olhar de Stewart ao ver Judy cair é carregado de desesperança… tudo é realmente bem conduzido, até em seus detalhes. Fico por aqui, pois falar mais seria copiar sua ótima resenha.
    Abraço.

    • Roberto Siqueira Says:

      Obrigado por mais este comentário muito bom Janerson.
      É meu Hitchcock favorito também ao lado de Psicose.
      Um forte abraço e agradeço o elogio.

  6. OS 12 MACACOS (1995) « Cinema & Debate Says:

    […] para Kathryn e para o espectador que James falava a verdade. E então a referencia ao clássico “Um corpo que cai” surge no disfarce de Kathryn, nas imagens do longa de Hitchcock dentro de um cinema e até mesmo […]

  7. INTRIGA INTERNACIONAL (1959) « Cinema & Debate Says:

    […] Cinema & Debate Clique aqui para acessar a Página Inicial « UM CORPO QUE CAI (1958) […]

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