DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (1995)

(The Basketball Diaries)

 

Videoteca do Beto #127

Dirigido por Scott Kalvert.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Lorraine Bracco, Mark Wahlberg, James Madio, Patrick McGaw, Juliette Lewis, Michael Imperioli e Ernie Hudson.

Roteiro: Bryan Goluboff, baseado em romance de Jim Carroll.

Produção: Liz Heller e John Bard Manulis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Freqüentemente, Leonardo DiCaprio é acusado por cinéfilos desavisados de ser apenas um rostinho bonito que explodiu após o sucesso avassalador de Titanic, como se as excelentes escolhas que ele faz na carreira e o óbvio talento demonstrado não significassem nada. Entretanto, basta assistir aos filmes anteriores ao sucesso de James Cameron para constatar como ele já demonstrava talento muito antes da fama, como comprova este “Diário de um Adolescente”, drama inspirado na história real do músico e poeta Jim Carroll.

Escrito por Bryan Goluboff baseado em romance do próprio Carroll, “Diário de um Adolescente” mostra a trajetória nada agradável de seu protagonista (Leonardo DiCaprio) rumo ao fundo do poço, após conhecer e se encantar pelo mundo das drogas. Mas, se por um lado o envolvimento pessoal do verdadeiro Carroll confere peso à narrativa – os trechos narrados por DiCaprio, por exemplo, foram gravados pelo próprio poeta -, por outro a forma exagerada que estes fatos são apresentados distancia o longa da realidade, ainda que Goluboff acerte ao retratá-lo como um jovem talentoso, já que Carroll, além de liderar a banda “The Jim Carroll Band”, é responsável por seis livros que vão de poemas a autobiografias.

Responsável por captar em imagens esta alma romântica do protagonista e, ao mesmo tempo, retratar a degradação física e psíquica do personagem, Scott Kalvert se sai razoavelmente bem na direção, mas falha na condução de aspectos relevantes da narrativa que abordaremos em instantes. Entretanto, o diretor é competente na criação de cenas de impacto, especialmente quando retrata os efeitos do uso das drogas, errando em raros momentos como a pouco convincente briga dos garotos na saída de um restaurante. O diretor acerta também na condução dos jogos de basquete, imprimindo um bom ritmo e transmitindo o calor da partida com eficiência ao colocar a câmera na linha de visão dos jogadores – colabora também o bom design de som, que cria o ambiente ideal para os jogos. Caprichando também na estilização de muitas cenas, como no sonho do massacre na escola em que Jim entra em câmera lenta atirando nos alunos, o diretor reequilibra a balança ao exagerar em outros instantes, como no jogo de basquete embalado pela clássica “Riders on the Storm”, do The Doors, em que os garotos mal conseguem pegar na bola. E são justamente estes exageros que distanciam a mensagem transmitida pela narrativa da realidade e reduzem o impacto do filme sobre o espectador.

Kalvert conta também com o apoio técnico de sua equipe para transmitir algumas das sensações dos personagens, através das ruas sujas da escola e do bairro onde Jim vive que contrastam com as ruas limpas e largas que cercam o ginásio de esportes, ilustrando onde ele se sentia feliz (mérito da direção de arte de Christopher Nowak). Da mesma forma, a trilha sonora agitada de Graeme Revell, composta por algumas músicas da banda do próprio Jim, funciona em muitos momentos ao transmitir a adrenalina daqueles jovens, assim como a fotografia de David Phillips acerta ao iluminar os momentos iniciais, quando os garotos se divertem jogando basquete e pulando no rio, contrastando diretamente com a escuridão da fase decadente do grupo, notável após a morte de Bobby (Michael Imperioli), com a noite fria e chuvosa e os figurinos pesados dos personagens ilustrando a dor de Jim (figurinos de David C. Robinson). Aliás, o próprio diretor se encarrega de ilustrar esta diferença, filmando inicialmente com a câmera levemente inclinada em ângulo baixo enquanto acompanha os personagens saindo da escola, sob a luz do sol e embalados pela trilha agitada, transmitindo a sensação de poder que aqueles jovens estavam sentindo, o que contrasta com os closes freqüentes que realçam a degradação deles no terceiro ato e transmitem a sensação claustrofóbica pretendida por Kalvert.

Infelizmente, Kalvert e seu montador Dana Congdon erram ao acelerar demasiadamente a transformação de Jim de um garoto normal em viciado, apresentando uma droga após a outra rapidamente, como se quisessem levá-lo logo ao fundo do poço, o que soa forçado e pouco convincente (repare como ele salta da cocaína para a heroína e as drogas sintéticas em poucos minutos). Por outro lado, a montagem demonstra elegância em algumas transições, como quando a imagem da mãe de Jim é substituída pela imagem da virgem Maria. E se erra na velocidade com que conduz o processo de degradação de Jim, Kalvert acerta na maneira cadenciada com que desenvolve o relacionamento dos quatro amigos, aproximando aquele grupo do espectador e fazendo com que este se importe com eles.

Obviamente, esta aproximação conta também com o talento do ator responsável por viver o problemático protagonista. Com uma atuação eficiente e alguns momentos realmente marcantes, DiCaprio carrega o papel com facilidade, numa atuação que já dava sinais do grande ator que ele viria a ser – algo, aliás, que já havia acontecido antes em filmes como “Gilbert Grape, aprendiz de sonhador” e “O Despertar de um Homem”. Repare, por exemplo, sua convincente reação após usar cocaína, tremendo, fungando e mexendo a língua como quem tem a boca seca, mal conseguindo abrir os olhos enquanto procura por remédios no banheiro. Transitando com naturalidade do dócil Jim do início para o agressivo garoto que encerra o longa, o ator contorna os problemas causados pela citada transformação acelerada do personagem e convence no papel. Entre os momentos impressionantes de sua atuação, certamente a forte crise de abstinência na casa de Reggie (Ernie Hudson) e a comovente cena em que volta pra casa e implora pela ajuda da mãe (Lorraine Bracco) se destacam, com o ator transmitindo a dor do personagem de maneira muito convincente.

Também demonstrando talento precocemente, Mark Wahlberg convence como o valentão Mickey, o mais conturbado dos amigos de Jim, saindo-se bem em momentos difíceis como nas duas vezes em que eles precisam abandonar a cena de um crime – repare sua voz ofegante num bar após abandonar Pedro, indicando seu cansaço pela corrida e sua tensão. Vale destacar ainda a boa atuação de Ernie Hudson, que confere firmeza e carisma ao ex-viciado Reggie, e Juliette Lewis que, como sempre, se sai muito bem no papel de drogada, mas a redenção de sua Diane soa artificial, especialmente pela rapidez com que esta transformação acontece. Fechando o elenco, James Madio vive o inseguro Pedro e Patrick McGaw interpreta Neutron, o único dos quatro amigos que não se afunda nas drogas.

De certa maneira, “Diário de um Adolescente” tenta forçar uma mensagem moralista, falhando justamente por se distanciar da realidade através de alguns exageros. Por isso, dificilmente alguém evitará o mundo das drogas após assisti-lo. Em todo caso, se falha em seu propósito de “ensinar” os jovens sobre os perigos das drogas, ao menos sua narrativa tem força suficiente para nos envolver.

A cena final, com Jim falando diretamente para a câmera, comprova a intenção de doutrinar a platéia de “Diário de um Adolescente”, mas este excesso de moralismo não arruína completamente a experiência graças à ótima atuação do elenco e a profundidade dramática da história que o inspirou.

Texto publicado em 21 de Maio de 2012 por Roberto Siqueira

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11 Respostas to “DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (1995)”

  1. TITANIC (1997) | Cinema & Debate Says:

    […] época. Ainda bem jovem, mas já dono de grande talento (conforme atestam “Gilbert Grape” e “Diário de um Adolescente”), Leonardo DiCaprio vive Jack com a intensidade e a empolgação que se espera de um jovem que […]

  2. Gabi (@gabri_ella98) Says:

    Eu preciso saber as personalidades de cada um dos melhores amigos do Jim Carroll. Alguém pode me ajudar?

  3. cross98 Says:

    Bom , ainda não assisti o filme, mas isso não é da minha conta: Poruqe você compra os filmes que você acha regulares?

    • Roberto Siqueira Says:

      Já falei sobre isto neste post (http://cinemaedebate.com/2009/07/15/filmes-5-estrelas/).
      Às vezes por memória afetiva. Tem filmes que assisti na infância e mudo minha opinião na revisão. Tem outros que eu compro sem ter assistido (algo mais raro de acontecer).
      Abraço.

    • cross98 Says:

      Vc ja disse que Titanic mereceu o óscar, qual nota vc daria pra ele. (é um bom filme, mas 97 foi realmente fraco)

    • Roberto Siqueira Says:

      Titanic 5/5. E 1997 não foi um ano fraco.
      Abraço.

    • cross98 Says:

      NA minha humilde opnião foi sim, não lembro de filmes bons desse ano, nem de 96 , tirando claro FARGO, que é excelente

    • Roberto Siqueira Says:

      Melhor é Impossível, Boogie Nights, Jackie Brown, Desconstruindo Harry, Gênio indomável, Los Angeles – Cidade Proibída, MIB…

    • Mateus Aquino Says:

      MIB um grande filme???? Pra mim o unico que se salva do Will Smith é à Procura da Felicidade.

    • Roberto Siqueira Says:

      Não é bem assim Mateus.
      “Eu sou a Lenda”, por exemplo, é muito bom. E eu não disse que “MIB” é excelente, disse que é bom, basta você reler seu próprio comentário.
      Abraço.

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