Arquivo da categoria ‘Críticas’

ACONTECEU NAQUELA NOITE (1934)

20 maio, 2013

(It Happened One Night)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #104

Vencedores do Oscar #1934

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas, Alan Hale, Arthur Hoyt, Blanche Friderici, Charles C. Wilson, Irving Bacon, Ward Bond e Eddy Chandler.

Roteiro: Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams.

Produção: Frank Capra.

Aconteceu Naquela Noite[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da história a vencer os cinco principais prêmios da Academia de Hollywood, “Aconteceu Naquela Noite” marcou época também por ser a primeira comédia-romântica de sucesso da história do cinema, misturando dois gêneros com forte apelo popular de maneira orgânica e bastante divertida. Apoiando-se no ótimo texto e nas boas atuações de Gable e Colbert, Frank Capra realizou um longa delicioso, repleto de cenas memoráveis e responsável por estabelecer alguns padrões narrativos que são religiosamente seguidos no gênero ainda hoje.

Escrito por Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams, “Aconteceu Naquela Noite” tem início quando o jornalista desempregado Peter Warren (Clark Gable) encontra Ellie (Claudette Colbert), a filha foragida do milionário Alexander Andrews (Walter Connolly) que abandonou seu iate após este não aprovar seu casamento com o também bem sucedido King Westley (Jameson Thomas). Interessado no potencial jornalístico da trajetória da moça, Peter decide acompanhá-la numa longa viagem, mas acaba se envolvendo com ela no caminho.

Determinada e convicta desde os primeiros segundos em cena, Claudette Colbert compõe a arredia Ellie como uma mulher de personalidade forte, dedicada a conquistar seus objetivos independentemente do que seja preciso para alcançá-los, mas sem jamais perder seu lado frágil e sensual por causa disto. Assim, não surpreende o fato de Peter se apaixonar por ela, já que o próprio espectador é fisgado pelo carisma da personagem. Encarnando um protagonista típico da filmografia de Capra (o homem comum que se vê numa situação desconfortável, mas consegue mudar seu destino através do esforço), Gable se sai bem ao ilustrar como Peter vê em Ellie a grande chance de dar uma resposta ao seu antigo chefe após perder o emprego sem que, para isto, precise adular a moça, o que faz com que os primeiros contatos entre eles sejam rudes, já que ambos têm personalidades muito marcantes.

No entanto, lentamente eles começam a se aproximar, e Capra conduz este processo com exatidão, tornando esta aproximação verossímil e praticamente inevitável – e repare a expressão de Gable quando ela coloca as mãos no peito dele no ônibus que, assim como a reação dela ao acordar, evidencia como eles gostam do contato, ainda que evitem demonstrar isso para o outro. Assim como é fácil entender porque ele é atraído por ela, também não é difícil compreender o que chama a atenção da garota, já que Gable cria um Peter estiloso, com seu charme natural sendo realçado por pequenos detalhes como o uso constante do chapéu e pela aura misteriosa conferida pela fumaça de seu charuto. Determinado a escrever sobre a aventura dela (“Vou escrever um livro sobre isso”, diz sempre que algo lhe interessa), Peter deixa claro que não é tão bom quando parece quando ameaça entregar a garota para o pai, mas este traço só enriquece o personagem e torna sua mudança de comportamento ainda mais interessante.

Arredia EllieHomem comumExpressão de GableSeu conflito de sentimentos começa a ganhar força quando ele decide ajudar Ellie a cuidar de seu dinheiro, num dos primeiros sinais de preocupação por parte dele. Com o passar dos dias, este interesse vai se tornando evidente na medida em que ambos demonstram mudanças no comportamento. Prisioneira da vida luxuosa que levava, ela se encanta com coisas simples da vida como uma música popular cantada por todos no ônibus; e Peter meio que simboliza esta mudança pra ela. Obviamente, tudo isto soa verdadeiro graças à empatia entre Gable e Colbert, que mantém uma dinâmica muito boa e carregam a narrativa com facilidade.

Mas “Aconteceu Naquela Noite” se beneficia também dos excelentes momentos de bom humor espalhados pela narrativa, como o passageiro que ronca e o que fala sem parar no ônibus, a sequência em que Peter e Ellie roubam o carro do homem que roubava quem pedia carona (uma ousadia para a época) e a hilária cena em que Peter explica sua teoria dos polegares pedindo carona, na qual Ellie encontra uma solução prática que realça o lado sensual de sua personagem, também evidenciado em outros momentos como quando ela pendura as roupas no cobertor que separa as camas deles – uma barreira física que simboliza muito bem a tensão sexual existente entre eles. Aliás, Capra procura valorizar sua atriz em diversos momentos, utilizando o rack focus nos closes em seu rosto, numa técnica que era muito usada para amenizar imperfeições na pele das atrizes.

Esta, no entanto, é uma das raras técnicas utilizadas por Capra que chamam a atenção, já que o diretor preza pela discrição adotando poucos movimentos de câmera inventivos e preferindo os planos estáveis que, reforçados pela iluminação da fotografia de Joseph Walker, buscam valorizar os atores, tornando raros os movimentos mais ousados como o travelling que acompanha Ellie indo do quarto para o banho pelo ambiente externo; mas, por outro lado, criando cenas visualmente belíssimas como aquela em que as luzes refletem na água enquanto Peter e Ellie atravessam um rio durante a noite. Obviamente, a montagem de Gene Havlick é importante neste processo, surgindo igualmente discreta apesar do uso constante dos fades com deslocamento lateral da imagem.

Solução práticaCobertor que separa as camas delesPeter e Ellie atravessam um rioCapra encontra espaço ainda para uma pequena crítica social na sequência em que uma mãe passa fome com seu filho no ônibus, mas acerta mesmo na condução de cenas memoráveis, como aquela em que Peter e Ellie fingem ser um casal discutindo diante dos detetives e aquela em que Peter finge ser o sequestrador dela para protegê-la do ambicioso Oscar Shapeley (Roscoe Karns), assustando o pobre homem que desiste de seguir viagem com eles. Além disso, o diretor se sai ainda melhor nas cenas românticas, como quando eles quase se beijam deitados na palha, numa cena em que o silêncio que predomina torna tudo ainda mais interessante, acertando também na bela cena em que ela sai detrás do cobertor e se declara.

Após uma sequência de mal entendidos, “Aconteceu Naquela Noite” finalmente chega ao seu clímax, gerando um conflito que separa o casal e traz tensão à narrativa – um recurso narrativo criado na época e utilizado tantas vezes em filmes do gênero desde então que se tornou um clichê quase insuportável, mas que funciona bem aqui justamente pelo contexto histórico. Desesperado, Peter quase desiste de Ellie – e um plano do pneu de seu carro murchando ilustra perfeitamente seu sentimento diante da eminente perda da amada. Mas, pra sua sorte, uma conversa entre pai e filha antes da cerimônia de casamento com Westley não apenas confirma a inteligência e o grande coração do homem interpretado com carisma por Walter Connolly como abre caminho para que Ellie siga seu desejo, nos levando a divertida e surpreendente fuga da cerimônia que fecha tão bem a narrativa e garante o final feliz.

Comédia leve e repleta de boas atuações, “Aconteceu Naquela Noite” é um marco na história do cinema, exercendo influência num dos gêneros mais conhecidos e rentáveis de Hollywood até os dias de hoje.

Aconteceu Naquela Noite foto 2Texto publicado em 20 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1977)

14 maio, 2013

(Close Encounters of the Third Kind)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #168

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Richard Dreyfuss, Bob Balaban, Teri Garr, François Truffaut, Melinda Dillon, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Cary Guffey e Roberts Blossom.

Roteiro: Steven Spielberg.

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso avassalador de “Tubarão”, Steven Spielberg teria carta branca para tocar o projeto que quisesse. Não surpreende, portanto, que o próximo longa do diretor seja justamente aquele que marca sua primeira incursão num de seus gêneros favoritos. Contando novamente com Richard Dreyfuss no elenco e conseguindo ainda a participação de uma lenda do cinema francês (o diretor François Truffaut), Spielberg tinha tudo nas mãos para emplacar outro grande sucesso e, felizmente, ele não decepcionou. “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é uma ficção científica cativante, que mantém seu encanto mesmo décadas após seu lançamento.

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” era um projeto tão pessoal que Spielberg não apenas dirigiu o filme como também se encarregou de escrever o roteiro, que tem início quando o tranquilo Roy (Dreyfuss) começa a ter visões de uma misteriosa montanha ao mesmo tempo em que presencia estranhas luzes cortarem o céu da pequena cidade em que vive no interior dos EUA. Obcecado pela estranha montanha, ele acaba se distanciando da família e, após ser abandonado, parte em busca de respostas. Em paralelo, o cientista Claude Lacombe (Truffaut) investiga a estranha aparição de um grupo de aviões desaparecidos há muitos anos, enquanto Jillian Guiler (Melinda Dillon) ganha destaque na mídia após afirmar que seu pequeno filho Barry (Cary Guffey) foi levado por uma nave espacial.

Com sua costumeira habilidade na construção de narrativas que misturam eventos grandiosos com dramas extremamente pessoais, Spielberg e seu montador Michael Kahn conduzem as três linhas narrativas de “Contatos Imediatos” num ritmo agradável, priorizando a trajetória de Roy sem jamais tornar os segmentos que acompanham Lacombe ou Jillian menos interessantes. Assim como ocorria em “Tubarão” (e, posteriormente, na maioria dos filmes de Spielberg), a ausência da figura paterna é um tema marcante, surgindo primeiro na casa do menino Barry, criado por uma mãe forte e solitária, e depois na própria trajetória de Roy, que larga mulher e filhos para ir atrás dos OVNI’s e acaba embarcando no disco voador com os extraterrestres. Apesar disto, este não será o tema central do longa, que concentra sua força nas imagens marcantes conseguidas com efeitos visuais extremamente eficientes e na sensação de encanto das pessoas diante do que veem – algo que o diretor faz questão de ressaltar em diversos momentos com planos que realçam o olhar de admiração dos personagens.

Efeitos visuais extremamente eficientesEncanto das pessoasOlhar de admiraçãoPara isto, Spielberg capricha na composição dos planos, como fica evidente desde o impressionante plano geral que mostra toda a cidade escurecendo após a queda da energia elétrica e, logicamente, no deslumbrante ato final. Além disso, o diretor usa sua câmera com habilidade para criar suspense, por exemplo, na cena em que a luz do farol de um carro atrás da caminhonete de Roy se movimenta para o lado quando este o ultrapassa e, minutos depois, outra luz também se movimenta, só que desta vez para cima, indicando para a plateia a presença de algo estranho. Repare ainda como o diretor sabe trabalhar muito bem a expectativa do espectador na cena em que acompanhamos os controladores de voo captando a presença dos OVNI’s e, especialmente, quando nos coloca dentro da casa junto com Barry e sua mãe, criando uma cena absolutamente tensa que culmina no impressionante plano em que ela sai correndo pra fora e vê as naves sumindo no horizonte distante com seu filho.

Cidade escurecendoCarro atrás da caminhonete de RoyDentro da casaObviamente, o diretor de fotografia Vilmos Zsigmond tem participação fundamental neste processo, trabalhando na maior parte do tempo com paletas claras e cenas diurnas que criam um contraste interessante com o espetacular visual do ato final, que se passa praticamente o tempo todo à noite, num cenário perfeito para o festival de cores e luzes que toma conta da tela após a chegada das espaçonaves. Quem também dá um show em “Contatos Imediatos” é o design de som, que se destaca logo de cara ao captar com precisão o barulho do vento e as vozes dos personagens na sequência que abre o longa no México. E finalmente, a trilha sonora do mestre John Williams é responsável por criar as cinco notas icônicas que estabelecem contato com os extraterrestres, além de servir também para aumentar a tensão em alguns momentos pontuais, como na chegada dos ET’s à casa de Barry.

Paletas clarasFestival de cores e luzesCinco notas icônicasEm outro momento bem conduzido por Spielberg, acompanhamos Roy conversando com a esposa por telefone e, no segundo plano, a imagem da montanha Devil’s Tower na televisão – e o próprio movimento de câmera que revela a montanha real é belíssimo. No entanto, “Contatos Imediatos” não se resume apenas ao apuro técnico, já que o diretor é competente também ao extrair boas atuações de praticamente todo o elenco, a começar pelo próprio Richard Dreyfuss, que demonstra a determinação do personagem através de suas expressões marcantes, evidenciando também o quanto sua vida foi afetada por aquele evento incomum – algo que sua esposa e seus filhos não demoram a perceber, o que os leva a deixar a casa (com razão) após um surto de loucura do pai. E se a esposa de Roy vivida por Teri Garr não ganha grande destaque, Melinda Dillon quase rouba a cena com seu desempenho envolvente na pele da desesperada mãe de Barry, comovendo pela maneira determinada com que parte em busca do filho.

Roy conversando com a esposa por telefoneExpressões marcantesDesesperada mãe de BarryApesar de serem impulsionados por motivações distintas (ela vai atrás do filho enquanto ele se distancia deles), Jillian e Roy compartilham a obstinação por algo que eles sequer têm certeza que vão conseguir encontrar, o que justifica a identificação dos personagens e, por consequência, conquista também a empatia da plateia. Assim como eles, nós não sabemos exatamente aonde a narrativa irá nos levar, mas aguardamos ansiosamente pelo contato que dá nome ao filme.

Inteligente, Spielberg constrói o clímax cuidadosamente, criando uma atmosfera perfeita e fazendo com que a plateia aguarde ansiosamente pelo contato com os extraterrestres através de planos belíssimos como aquele que mostra a montanha preparada para a chegada dos discos voadores. Quando o aguardado momento chega, o diretor segue uma linha diferente da maioria das obras relacionadas à invasão de alienígenas, nos apresentando seres pacíficos e interessados somente em comunicar-se com a raça humana. E isto acontece de maneira mágica, num espetáculo de luzes e sons que dificilmente é apagado da memória do espectador. Neste instante, os olhares fascinados dos personagens se confundem com os da própria plateia, maravilhada diante de tamanho espetáculo visual.

Montanha preparadaLuzes e sonsOlhares fascinadosConfirmando sua habilidade ímpar de construir narrativas absolutamente cativantes, Steven Spielberg se consolidava como um diretor com rara capacidade de agradar público e crítica, narrando histórias visualmente marcantes sem jamais deixar de se preocupar com o lado humano de seus personagens. Envolvente e espetaculoso, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é um trabalho memorável na carreira de Spielberg, o que não deixa de ser um feito, considerando a filmografia deste aclamado diretor.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

AS DUAS FACES DE UM CRIME (1996)

29 abril, 2013

(Primal Fear)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #167

Dirigido por Gregory Hoblit.

Elenco: Richard Gere, Edward Norton, Laura Linney, John Mahoney, Frances McDormand, Alfre Woodard, Terry O’Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Maura Tierney e Jon Seda.

Roteiro: Steve Shagan e Ann Biderman, baseado em romance de William Diehl.

Produção: Gary Lucchesi.

As Duas Faces de um Crime[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após a desistência do então astro em ascensão Leonardo Di Caprio de participar de “As Duas Faces de um Crime”, os produtores do projeto passaram a procurar desesperadamente por alguém que pudesse encarnar o personagem chave da trama, chegando a testar mais de dois mil candidatos. Entre eles, um jovem desconhecido conseguiu se destacar de tal maneira que, após conseguir o disputado papel e ter o vídeo de seu teste circulando por toda Hollywood, ele acabou sendo contratado para trabalhar em mais dois filmes importantes daquele ano, dirigidos por ninguém menos que Woody Allen e Milos Forman. Obviamente, estamos falando do talentosíssimo Edward Norton.

A atuação ambígua de Norton é essencial para que “As Duas Faces de um Crime” funcione tão bem, mas o ótimo roteiro escrito por Steve Shagan e Ann Biderman (baseado em romance de William Diehl) também tem grandes méritos, com sua estrutura perfeita funcionando em diversas camadas e desenvolvendo muito bem este precioso personagem, além é claro de contar com reviravoltas atordoantes. A narrativa começa nos mostrando o assassinato de um conhecido Arcebispo de Chicago (Stanley Anderson) e a prisão quase imediata de um de seus coroinhas, o jovem Aaron Stampler (Edward Norton), que é encontrando todo ensanguentado numa ferrovia perto do local do crime. A cobertura midiática do evento chama a atenção do competente advogado Martin Vail (Richard Gere), que decide defender o rapaz sem cobrar nada, apenas pela exposição que teria no caso. Do outro lado, a promotora Janet Venable (Laura Linney), que já viveu um caso com Vail no passado, é contratada pelo estado para tentar a pena de morte.

Além de se destacar pela maneira envolvente com que constrói a relação entre o advogado de defesa e seu cliente, o corajoso roteiro aborda ainda a influencia da Igreja nos negócios do bairro e os crimes sexuais cometidos pelo Arcebispo, criando um complexo jogo de interesses que só prende ainda mais nossa atenção. Por isso, talvez o único escorregão do inteligente roteiro seja o desnecessário caso entre Vail e Janet, que além de não colaborar em nada para o andamento da narrativa, acaba tirando o foco da ação principal sempre que as provocações entre eles ganham espaço na tela.

Relação entre o advogado de defesa e seu clienteCrimes sexuaisDesnecessário casoAuxiliado pela montagem de David Rosenbloom, o diretor Gregory Hoblit conduz a narrativa de maneira fluida, intercalando o trabalho no escritório de Vail, os duelos verbais entre ele e Janet, as conversas com Stampler, sua análise psiquiátrica e as audiências no tribunal, que ganham mais foco somente no empolgante terceiro ato. Até lá, o diretor demonstra habilidade na construção de uma atmosfera tensa e misteriosa, trabalhando em pequenos detalhes que ajudam a confundir o espectador. Mostrando Stampler rapidamente durante a apresentação do coral de coroinhas, Hoblit inicialmente nos faz acreditar que ele é mesmo o assassino, intercalando as fortes imagens do assassinato com planos rápidos de sua fuga alucinada da polícia. No entanto, observe como na prisão o diretor engrandece Vail e diminui Stampler na tela durante as primeiras conversas, o que, somado às expressões vulneráveis de Norton, força nossa identificação com o personagem e faz com que a plateia realmente acredite em sua inocência.

Imagens do assassinatoFuga alucinada da políciaExpressões vulneráveisCompetente também na direção de atores, Hoblit evita distrair nossa atenção com invencionismos, realçando as fortes atuações de seu elenco. Repare, por exemplo, como a câmera se aproxima lentamente do rosto dos personagens conforme os diálogos evoluem, como na primeira conversa entre Vail e Stampler e em muitos outros diálogos, num movimento discreto que jamais chama a atenção para si. Da mesma forma, a fotografia de Michael Chapman cria um mundo acinzentado que realça a frieza necessária na profissão dos advogados – e descobriremos mais tarde que esta frieza remete também ao próprio Stampler -, assim como o design de produção de Jeannine Claudia Oppewall, que concebe ambientes simétricos e organizados como o escritório de Vail e os tribunais. Até por isso, nos raros momentos em que o visual foge ao padrão, o espectador sente claramente o que o diretor pretende transmitir, como na conversa entre Vail e um repórter num bar, onde os tons avermelhados que predominam na cena indicam o inferno astral vivido pelo personagem após a descoberta da suposta doença de Stampler.

Mundo acinzentadoAmbientes simétricosInferno astralEssencial num filme de tribunal onde os argumentos dos advogados precisam ser captados com clareza, o design de som ainda se destaca em sequências especiais, como no próprio assassinato do Arcebispo, no qual um cidadão escuta da rua os violentos golpes desferidos contra ele, e especialmente numa das audiências, onde as vozes de um interessante debate entre os advogados se sobrepõem às imagens da chegada deles ao tribunal. E fechando os destaques da parte técnica, a trilha sonora discreta de James Newton Howard sublinha muito bem momentos especiais, como quando indica a mudança de comportamento de Stampler segundos antes de sua primeira transformação através de uma nota sombria que lentamente ganha força, destoando deste tom discreto somente durante a acelerada perseguição de Alex (Jon Seda) pelas ruas.

Bem vestido e com um corte de cabelo impecável, Richard Gere encarna Vail como um advogado extremamente competente e, por isso, autoconfiante ao ponto de dizer que a única verdade que interessa é aquela em que ele acredita. Com um sorriso falso e um olhar penetrante, o ator faz bem o papel do advogado dissimulado, que faz tudo que está ao seu alcance para defender seus clientes, mantendo ainda um bom relacionamento com eles fora do tribunal, como atesta sua conversa com o traficante Joey Pinero (Steven Bauer). Assumindo inicialmente uma postura dominante que se reflete nas cores fortes de seus ternos (figurinos de Betsy Cox), o advogado lentamente vai sendo domado por seu cliente, o que cria uma confusão momentânea em sua mente tão acostumada a controlar este tipo de situação, refletida até mesmo na falta de cor de seus ternos no segundo ato. Quando finalmente compreende o que se passa com Stampler, Gere volta a adotar uma postura confiante e os ternos escuros novamente aparecem.

Advogado extremamente competenteSorriso falsoPostura dominanteIgualmente confiante profissionalmente, a Janet interpretada por Laura Linney se sai bem nos embates diante do ardiloso Vail, mantendo uma postura firme também fora do âmbito profissional ante as investidas nada elegantes do ex-amante. Vivendo a personagem de maneira centrada e inteligente, Linney confere credibilidade aos julgamentos, fazendo com que a plateia realmente acredite que ela será capaz de vencer Vail e conseguir a condenação de Stampler. Outra presença feminina marcante é a de Frances McDormand, que está serena como a psiquiatra Molly, transmitindo a tranquilidade esperada em sua profissão e demonstrando segurança diante dos fortes questionamentos da promotora Janet no tribunal (numa atuação minimalista que, por contraste, realça sua qualidade como atriz quando comparada a determinada policial Marge, que ela viveu naquele mesmo ano em Fargo”). Fechando o elenco secundário, vale citar o ameaçador John Shaughnessy interpretado por John Mahoney.

Janet postura firmeCentrada e inteligentePsiquiatra MollyE chegamos então ao grande responsável pelo sucesso de “As Duas Faces de um Crime”. Em seu papel de estreia no cinema, Edward Norton entrega uma atuação assombrosa, encarnando duas personalidades tão distintas de maneira mais do que convincente na pele do acusado Stampler. Enquanto o tímido Aaron surge com uma notável gagueira, um tom de voz baixo e evita olhar diretamente para as pessoas, seu alter-ego Roy é exatamente o oposto, surgindo confiante com sua voz firme, o olhar ameaçador e a postura corporal imponente e agressiva. Observe, por exemplo, como sua expressão ameaçadora no primeiro lapso diante da Dra. Molly se contrapõe diretamente ao seu olhar assustado durante as audiências no tribunal. Assim, quando Roy finalmente surge em cena, Norton complementa sua transformação de maneira sensacional, atacando Vail violentamente e se impondo com incrível firmeza, numa postura diametralmente oposta ao reprimido Aaron.

Tímido AaronRoy é exatamente o opostoPrimeiro lapsoSó que “As Duas Faces de um Crime” ainda nos reserva outra reviravolta em seus instantes finais. Preparando cuidadosamente seu explosivo terceiro ato durante toda a narrativa, Hoblit nos leva ao julgamento final e ao esperado depoimento da Dra. Molly, seguido pelo interrogatório do próprio suspeito, no qual os advogados alcançarão o ápice de suas estratégias cuidadosamente elaboradas. Incluindo planos rápidos das mãos ansiosas de Aaron durante o interrogatório, o diretor e seu montador aceleram a sequência através de planos cada vez mais curtos que só ampliam a tensão, nos permitindo antecipar o iminente ataque de fúria do acusado, que inevitavelmente acontece e deixa todos atônitos. Desta forma, o espectador termina a cena pensando que sabe mais do que a maioria dos personagens, só que quando Stampler finalmente revela seu truque para Vail, o choque torna-se inevitável tanto para o advogado quanto para a plateia. Como ilustram os planos finais em plongè que o diminuem em cena, Vail deixa o tribunal completamente desolado por constatar que aquele jovem aparentemente inofensivo foi capaz de enganá-lo durante tanto tempo.

Mãos ansiosas de AaronIminente ataque de fúriaStampler finalmente revela seu truqueQuem não se importa por ter sido enganado é o espectador, que deixa a projeção totalmente atordoado e completamente satisfeito com o que acabou de assistir. Contando com um bom elenco e uma atuação simplesmente fantástica de Edward Norton, “As Duas Faces de um Crime” é um grande filme, que vai além dos tribunais e nos faz refletir sobre até que ponto a primeira impressão é realmente a que fica. Ao menos, a impressão de que este é um dos melhores filmes da década de 90 continua intacta.

As Duas Faces de um Crime foto 2Texto publicado em 29 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ESQUECERAM DE MIM 2 – PERDIDO EM NOVA YORK (1992)

22 abril, 2013

(Home Alone 2: Lost in New York)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #166

 

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, Catherine O’Hara, Brenda Fricker, John Heard, Devin Ratray, Hillary Wolf, Maureen Elisabeth Shay, Kieran Culkin, Tim Curry, Dana Ivey, Rob Schneider, Eddie Bracken, Ally Sheedy e Chris Columbus.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de Mim 2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O primeiro “Esqueceram de mim” é um filme que depende essencialmente da predisposição do espectador em embarcar em sua premissa absurda para funcionar, mas que por outro lado diverte bastante aqueles que se deixam levar por sua narrativa leve através da sádica estratégia do pequeno Kevin para defender sua casa. Este mesmo raciocínio pode ser aplicado na sequência “Esqueceram de mim 2 – Perdido em Nova York”, que, lançada somente dois anos após o primeiro filme, aposta exatamente na mesma estrutura narrativa para funcionar, alterando apenas pequenos detalhes que pouco interferem no objetivo final. Assim, se por um lado temos a oportunidade de dar algumas gargalhadas com as novas peripécias de Kevin, por outro temos a constante sensação de estarmos assistindo ao mesmo filme novamente.

Também escrito e produzido por John Hughes, “Esqueceram de mim 2” tem inicio quando a família McAllister se prepara para passar o natal na Flórida. Assim como ocorreu no natal anterior, eles perdem a hora, mas desta vez o pequeno Kevin (Macaulay Culkin) está junto com eles na van que sai desesperada para o Aeroporto. Só que ao chegar ao terminal de embarque, Kevin se perde de seu pai (John Heard) e acaba embarcando acidentalmente num voo para Nova York, onde ele aproveita para se hospedar num hotel renomado, já que está com o cartão de crédito de seu pai. O problema é que Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), exatamente os mesmos bandidos que tentaram invadir sua casa antes, também estão na cidade após fugirem da prisão.

Como podemos notar, Hughes não hesita em abusar das coincidências para criar a mesma situação que proporcionou os melhores momentos de “Esqueceram de mim”. Assim, mais uma vez temos a casa tumultuada na véspera da viagem (captada com os mesmos movimentos de câmera agitados de Chris Columbus), a mesma época do ano e os mesmos conflitos entre o pequeno Kevin e sua problemática família – especialmente com o irritante Buzz. Ao menos, estas repetições também geram algumas divertidas rimas narrativas com o primeiro longa, como quando a família assiste “A Felicidade não se compra” em versão dublada no hotel. Porém, basta raciocinar um pouquinho para que a inevitável pergunta surja: Que pais deixariam o filho para trás duas vezes? Ou seja, a premissa desta continuação é ainda mais ridícula que a do filme anterior, mas se você conseguir superar isto e embarcar na história será parcialmente recompensado por alguns bons momentos.

Casa tumultuadaConflitosFamília assiste “A Felicidade não se compra”Ciente disto, Columbus aposta outra vez numa abordagem descontraída e se sai bem em alguns momentos particularmente inspirados, como quando os próprios pais de Kevin fazem piada com a situação (“Está virando uma tradição da família”), evidenciando que ao menos o longa não se leva a serio e quer apenas nos divertir – o que até funciona, mas não serve como desculpa para perdoar seus claros equívocos narrativos. O diretor acerta também quando revela que Kevin está no veículo antes de sair da casa, numa subversão de expectativa interessante que quebra pela primeira vez a sensação de estarmos vendo “mais do mesmo”.

Pais fazem piada com a situaçãoKevin está no veículoChegada do garoto ao hotelEnxergando a história como uma fábula, o diretor realça o deslumbramento de Kevin através do tom de cenas como a da chegada do garoto ao hotel e seu passeio de limusine comendo pizza – algo que também ocorria no primeiro filme, já que, nas duas situações, o protagonista vive uma situação desejada por muitas crianças (ficar sozinho em casa e viajar sem a companhia dos pais). Também repetindo o que fizera antes, Columbus procura espalhar dicas importantes no primeiro ato que serão importantes durante a narrativa, como num plano detalhe de um rádio relógio com a hora alterada e nas cenas em que busca destacar o gravador de Kevin. Finalmente, o diretor ainda emprega interessantes movimentos de câmera, como quando acompanha uma espécie de telefone sem fio na descoberta de que Kevin não está com a família, criando também planos divertidos como aquele em que uma estátua indica o caminho que o menino deve seguir.

Passeio de limusine comendo pizzaRádio relógioEstátua indica o caminhoMas isto não seria suficiente para salvar “Esqueceram de mim 2” do fracasso, até porque o trabalho técnico da equipe liderada por Columbus limita-se a repetir as mesmas estratégias do primeiro filme, o que pode ser interpretado como algo coerente, mas acaba reforçando a sensação de “mais do mesmo”. Assim, a trilha sonora do ótimo John Williams outra vez utiliza composições agitadas, como aquela que acompanha todos acordando atrasados; a fotografia de Julio Macat novamente prioriza cores quentes no início – que, aliás, permitem a composição de belos planos da cidade de Nova York -, mudando para um tom sombrio na medida em que a narrativa avança (repare como o parque parece assustador à noite); e, finalmente, se os coloridos figurinos de Jay Hurley mais uma vez reforçam o clima agradável pretendido por Columbus, por outro lado à escolha da mesma roupa para o pai de Kevin e o homem que se parece com ele no Aeroporto, que obviamente tenta justificar a confusão do garoto, acaba soando forçada demais. Ou seja, tudo muito adequado, mas parecido demais com o que já tínhamos visto.

Cores quentesParque parece assustadorMesma roupaSeguindo a saga, novamente temos um trecho de um filme sendo usado para assustar personagens, mas apesar da falta de originalidade, a cena em que Kevin assusta os funcionários do hotel é ótima e ilustra o que “Esqueceram de mim 2” tem de melhor: o bom humor. E neste aspecto, assim como na direção de atores, Columbus faz um bom trabalho, extraindo gargalhadas da plateia em sequências inspiradas que contam com a montagem de Raja Gosnell para funcionar, como quando a mãe de Kevin diz que ele não sabe usar cartão de crédito e, em seguida, o vemos usando seu cartão VISA no hotel. Gosnell, aliás, cria também algumas transições bem elegantes, como no “boa noite” à distancia de Kevin e sua mãe ou quando o sorriso de uma animação e do Concierge do hotel (Tim Curry) se misturam logo após este descobrir que o cartão usado por Kevin tinha sido denunciado na polícia.

Trecho de um filmeSorriso da animaçãoSorriso do Concierge do hotelNo elenco, Devin Ratray continua chato como Buzz, mas ao menos temos alguns personagens novos e interessantes, como a moradora de rua vivida por Brenda Fricker, que tem exatamente a mesma função do homem da neve no filme anterior e, assim como ocorria com o personagem interpretado por Roberts Blossom, também rouba a cena numa conversa com o pequeno protagonista – aliás, nesta bela cena temos um raro momento de crítica social (“As pessoas não me querem na cidade deles”). Temos também o Concierge do hotel interpretado por Tim Curry que, com seu jeito levemente afeminado, consegue provocar o riso da plateia, além da adorável participação de Eddie Bracken como o Sr. Duncan, o simpático dono da loja de brinquedos, e do conhecido e nada talentoso Rob Schneider, que vive Cedric.

Moradora de ruaConciergeSimpático dono da loja de brinquedosE chegamos então ao sádico Kevin, novamente interpretado pelo carismático Macaulay Culkin, que carrega a narrativa com grande desenvoltura e facilidade, sentindo-se ainda mais à vontade no papel, como notamos, por exemplo, em sua conversa com uma recepcionista logo na chegada ao hotel. Vivendo um dos sonhos de qualquer garoto, ele se esbalda num quarto repleto de guloseimas e sai para passear sozinho pelas ruas de Nova York, mas o aparecimento dos bandidos que tentaram roubar sua casa traz novamente a tona sua faceta sarcástica, escondida sob seu rosto angelical. Ainda criança, mas claramente mais desenvolvido, Culkin baseia sua atuação muito mais nos diálogos do que nas caretas que marcaram o primeiro filme – e que aqui só surgem com quase uma hora de projeção. Finalmente, o desempenho divertido do garoto é essencial para que o reencontro com os bandidos funcione.

Sádico KevinConversa com a recepcionistaCaretasEncurtando a sequência de preparação da defesa da casa, Columbus ganha tempo para explorar o que o primeiro filme tinha de melhor, criando outra hilária tentativa de invasão dos ladrões, repleta de gags engraçadas e momentos inspirados que se baseiam puramente no humor pastelão, como na cena dos tijolos atirados por Kevin no pobre Marv – este humor físico, aliás, está presente desde o princípio na cena do canto das crianças no coral de natal. Desta vez vagando por em Nova York após fugirem da prisão (que coincidência, não?), os ladrões estúpidos vividos por Pesci e Stern jamais soam ameaçadores, o que, somado ao que já vimos no filme anterior, faz com que a plateia jamais tema pelo destino de Kevin. Ao menos, os atores mais uma vez não hesitam e se entregam ao humor físico sem reservas.

Tijolos atirados por KevinLadrões estúpidosReencontro de Kevin com a moradora de ruaApós o festival de gargalhadas, “Esqueceram de mim 2” chega ao seu final repleto de clichês, com a redenção de Buzz e o reencontro de Kevin com a moradora de rua, que ao menos emociona pela simplicidade de ambos. Além disso, a piada da conta do hotel encerra o filme com o astral lá em cima, o que é ótimo.

Apesar de seus inúmeros problemas, “Esqueceram de mim 2” ainda consegue nos divertir graças ao enorme carisma de seu protagonista e à engraçada sequência de defesa da casa. Por outro lado, a constante repetição de elementos usados no primeiro filme já evidenciava que a franquia poderia muito bem terminar por ali. E se você observar quantas vezes eu utilizei expressões como “novamente”, “outra vez” e “mais uma vez” neste texto, talvez concorde comigo. Ou simplesmente me considere um péssimo escritor.

Esqueceram de Mim 2 foto 2Texto publicado em 22 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ALADDIN (1992)

14 abril, 2013

(Aladdin)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #165

Dirigido por Ron Clements e John Musker.

Elenco: Vozes de Scott Weinger, Linda Larkin, Robin Williams, Bruce Adler, Douglas Seale, Gilbert Gottfried, Frank Welker, Jonathan Freeman, Brad Kane e Lea Salonga.

Roteiro: Ron Clements, John Musker, Ted Elliott e Terry Rossio.

Produção: Ron Clements e John Musker.

Aladdin[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após atravessar décadas numa crise criativa que praticamente extinguiu as animações do estúdio, a Disney voltou a emplacar um sucesso com “A Pequena Sereia”, em 1989, e conseguiu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme para uma animação com “A Bela e a Fera” dois anos depois. Diante deste cenário positivo, chegava aos cinemas a megaprodução “Aladdin”, que repetiria o sucesso de seus antecessores nas bilheterias e consolidaria de vez a ressurreição do estúdio, apostando novamente na mistura de canções marcantes, bom humor e uma clássica história de amor.

Escrito pelos diretores Ron Clements e John Musker ao lado de Ted Elliott e Terry Rossio, “Aladdin” nos leva ao fantástico mundo árabe onde a bela Princesa Jasmine (voz de Linda Larkin) precisa se casar para manter a tradição das terras de Agrabah, onde seu pai é o Sultão (voz de Douglas Seale). Interessado no posto, o conselheiro do Sultão conhecido como Jafar (voz de Jonathan Freeman) descobre que o pobre Aladdin (voz de Scott Weinger) é o único que pode entrar numa misteriosa caverna no deserto e recuperar uma lâmpada mágica, onde adormece um Gênio (voz de Robin Williams) que pode realizar até três desejos daquele que o despertar.

Como de costume, os animadores da Disney confirmam seu talento na criação de imagens belíssimas e permitem aos diretores Clements e Musker nos levarem pelo deslumbrante deserto árabe, com seu céu rosado e as típicas casas sem telhado nos transportando pra dentro da romântica Arábia dos contos clássicos. Pintados em cores quentes como o amarelo, o vermelho e o roxo, os cenários de “Aladdin” são um espetáculo a parte, um verdadeiro deleite para os olhos do espectador dentre os quais vale destacar a sinistra caverna que guarda a lâmpada e seu impressionante interior, além do lindo palácio onde vive Jasmine.

Romântica ArábiaSinistra cavernaLindo palácioAlém do visual arrebatador, “Aladdin” traz ainda um leve rompimento com o estilo narrativo clássico da Disney ao inserir ousadias de linguagem incomuns na filmografia do estúdio, como quando a câmera bate no rosto do comerciante/narrador (voz de Bruce Adler) logo na abertura. É verdade que a trilha sonora incessante continua lá, assim como as tradicionais musicais que permeiam a narrativa, mas ao menos as músicas compostas por Alan Menken mantém a jovialidade que consagrou “A Pequena Sereia”, como fica evidente na agitada canção de apresentação de Aladdin ou no sensacional número musical protagonizado pelo Gênio.

Câmera bate no rosto do narradorApresentação de AladdinNúmero musical protagonizado pelo GênioPor outro lado, a estrutura narrativa de “Aladdin” não traz nenhuma novidade e segue o padrão clássico das histórias de amor, com a Princesa rica se apaixonando pelo pobre protagonista, que deverá superar grandes desafios para finalmente conquistá-la. Mas isto não prejudica em nada a qualidade do longa, já que os diretores conduzem a narrativa com uma leveza desconcertante, jamais permitindo que ela se torne enfadonha. Além disso, o carisma dos personagens faz com que a plateia se identifique com eles e embarque nesta aventura.

Quando Jafar afirma que precisa encontrar o diamante bruto que pode entrar na caverna e resgatar a lâmpada, um corte seco do montador H. Lee Peterson nos leva até Aladdin, que surge fugindo dos guardas no mercado ao lado de seu fiel macaco Abu (voz de Frank Welker), evidenciando desde então a origem humilde do personagem, que sobrevive dos pequenos furtos que comete na feira da cidade. Divertido e vulnerável, Aladdin carrega alguns dos ingredientes básicos para criar empatia com a plateia, o que é essencial para que o espectador torça por seu sucesso. Assim, quando ele se apaixona por Jasmine, nós já estamos dispostos a acompanhar sua jornada até o fim, por maiores que sejam os obstáculos que surgem diante dele. E neste trajeto reside uma das principais mensagens do longa, que é a importância de assumir quem você é, já que tanto Aladdin quanto Jasmine passam por dificuldades quando tentam ser pessoas diferentes.

Fugindo dos guardasFiel macaco AbuDivertido e vulnerávelApresentada num zoom rápido que nos leva pelo mercado e revela sua aproximação de Aladdin, a encantadora Jasmine confirma a tendência de fortalecer as personagens femininas do estúdio apresentada antes em “A Pequena Sereia” e “A Bela e a Fera”, mostrando-se corajosa para enfrentar seu bondoso, porém facilmente manipulável pai e o cruel Jafar quando necessário, tendo participação ativa ainda no tenso terceiro ato que marca o confronto entre o protagonista e o grande vilão. Vestido com cores fortes como o preto e o vermelho, Jafar é o típico vilão caricatural da Disney, sempre empunhando um cajado em formato de cobra e com um olhar penetrante que busca assustar o público infantil.

Encantadora JasmineBondoso paiJafar o típico vilãoNo entanto, o personagem mais carismático de “Aladdin” é mesmo o divertido Gênio que ganha vida através da marcante voz de Robin Williams, com suas falas rápidas e seu jeito espalhafatoso conquistando o espectador assim que ele entra em cena. Dono de tiradas engraçadíssimas e um coração enorme, o Gênio ainda encontra espaço para nos emocionar ao falar sobre a solidão que enfrenta ao viver sozinho na lâmpada, num dos raros momentos melodramáticos de uma narrativa marcada pelo bom humor.

Divertido GênioJeito espalhafatosoTiradas engraçadíssimasAs piadas, aliás, surgem em profusão em “Aladdin”, seja em gags envolvendo a origem do nariz quebrado da Esfinge, seja na utilização de objetos distantes da realidade daquele ambiente (como carros) ou até mesmo na rápida referencia a “Pinocchio”, quando o Gênio diz que Aladdin está mentindo – e eu juro que vi o Gênio usar o rosto de Jack Nicholson quando falava sobre como Aladdin deveria cortejar Jasmine. Por outro lado, tanto o macaco Abu quanto o papagaio Iago (voz de Gilbert Gottfried) deveriam funcionar como alivio cômico, mas são raros os momentos realmente inspirados envolvendo estes personagens.

Origem do nariz quebrado da EsfingeReferencia a PinocchioRosto de Jack NicholsonO que não são raras em “Aladdin” são as grandes cenas, como a sensacional fuga da caverna após o herói encontrar a lâmpada, o lindo voo no tapete mágico de Aladdin e Jasmine embalado pela ainda mais bela música tema “A whole new world” e o empolgante terceiro ato em que Jafar assume o reino, repleto de imagens surreais e dominado por tons avermelhados que conferem uma aura infernal a sequência até que uma jogada inteligente do protagonista coloque as coisas no lugar e garanta o final feliz.

Sensacional fuga da cavernaLindo vooJafar assume o reinoMais leve e engraçado que as tradicionais animações Disney, “Aladdin” é uma boa diversão que se apoia no visual impactante e no carisma de seus personagens para funcionar e, felizmente, faz isto muito bem. Se não tem a genialidade que origina o nome de seu mais carismático personagem, ao menos esbanja o bom humor que tão bem caracteriza o prisioneiro da lâmpada mágica.

Aladdin foto 2Texto publicado em 14 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ESQUECERAM DE MIM (1990)

4 abril, 2013

(Home Alone)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #164

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, John Heard, Roberts Blossom, Catherine O’Hara, Angela Goethals, Devin Ratray, Gerry Bamman, Hillary Wolf, John Candy, Kieran Culkin e Hope Davis.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de mim[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dono de uma das carreiras infantis mais bem sucedidas da história do cinema, Macaulay Culkin tornou-se o exemplo perfeito de como os problemas externos podem prejudicar as estrelas de Hollywood. Após emplacar um sucesso atrás do outro e registrar uma ascensão meteórica no início dos anos 90, o jovem astro simplesmente sumiu das telonas, ganhando espaço na mídia apenas pela disputa jurídica que travou com seus pais para poder administrar sua fortuna, por seus problemas com drogas e por sua amizade com o astro pop Michael Jackson. E mesmo não sendo o filme de estreia do ator, foi justamente este divertido “Esqueceram de mim” que alçou aquele menino carismático à fama e tornou seu rosto um dos mais conhecidos da época.

Escrito e produzido por John Hughes, responsável por muitos filmes de sucesso voltados para o público adolescente nos anos 80, “Esqueceram de mim” parte de uma premissa que, de tão absurda, deixa evidente desde o princípio que a narrativa não pretender ser levada a serio, funcionando como um leve passatempo que busca simplesmente nos fazer rir. Afinal, por mais relaxados que sejam, que pais em sã consciência seriam capazes de esquecer o próprio filho em casa e partir numa viagem para o exterior? Pois é exatamente o que faz a atrapalhada família de Kevin (Macaulay Culkin), um menino de oito anos que é deixado acidentalmente em casa no Natal enquanto seus parentes viajam para a França. Sozinho, o garoto se torna uma aparente presa fácil para os ladrões Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), que pretendem aproveitar a ausência dos pais para invadir a casa dele. No entanto, esta tarefa não será tão fácil quanto parece.

Partindo desta premissa pouco crível, Chris Columbus procura conferir a “Esqueceram de mim” uma atmosfera quase fabulesca, conduzindo a narrativa com uma leveza que encontra reflexo na fotografia de Julio Macat, com seu visual colorido nas cenas diurnas e às chamativas luzes que enfeitam as casas durante a noite. Da mesma forma, os figurinos de Jay Hurley utilizam cores vivas e coerentes com o espírito do longa, assim como a boa trilha sonora de John Williams faz diversas referências ao Natal (uma festa sempre associada à alegria), mudando o tom somente quando Marley (Roberts Blossom), o “homem da neve”, surge em cena, ao criar uma atmosfera de suspense que funciona corretamente, sem jamais quebrar o clima festivo que permeia as ótimas canções selecionadas por Williams.

Cenas diurnasChamativas luzesCores vivasTambém desde o início, Columbus trabalha bem elementos importantes da narrativa, como o grande número de pessoas presentes na casa de Levin, captado com precisão pela câmera inquieta do diretor. Esta sensação incômoda que sentimos ao ver aquelas pessoas transitando pela casa é importante para estabelecer a confusão que impera no local e tornar menos absurdo o esquecimento do garoto. Assim, quando eles acordam atrasados, fazem a contagem apressada das crianças (atrapalhada pela presença de um garoto vizinho) e partem sem Kevin, o absurdo da situação não deixa de existir, mas acaba funcionando no filme.

Grande número de pessoasSensação incômodaAcordam atrasadosIsto ocorre também porque o roteiro tem o cuidado de inserir elementos que colaboram na construção deste momento crucial, como os problemas de Kevin com a família e a evidente falta de atenção de seus pais, que conseguem se atrapalhar até mesmo no simples pagamento de uma pizza. Da mesma forma, diversas dicas espalhadas ainda no primeiro ato terão reflexo no clímax da narrativa, como o dente dourado do policial Harry, a lenda do homem da neve e a aranha de Buzz (Devin Ratray), o que é sempre divertido. Finalmente, os movimentos de câmera de Columbus ajudam a compreender a geografia da casa, o que é essencial para que a sequência da invasão dos ladrões funcione – e tanto a escolha da mansão como a dos objetos usados por Kevin para evitar a invasão são importantes neste processo, o que é mérito do design de produção de John Muto.

Problemas de Kevin com a famíliaDente dourado do policial HarryAranha de BuzzEmpregando closes nas inúmeras caretas e nos diversos gritos de Macaulay Culkin, Chris Columbus busca valorizar ao máximo seu carismático protagonista, o que se revela uma estratégia inteligente por parte do diretor. Indefeso e maltratado pela família, Kevin logo se coloca numa posição vulnerável e, desta forma, conquista a empatia da plateia com tranquilidade. É claro que o carisma de Culkin é crucial neste processo e, mesmo sendo ainda tão jovem, o garoto se sai muito bem, carregando a narrativa com facilidade. Seu rosto angelical evoca uma aura de inocência que tornará ainda mais surpreendente sua sádica estratégia para proteger a casa (“Fiz minha família desaparecer”, diz sorridente ao descobrir que estava sozinho). Em suma, a presença de Culkin é fundamental para que “Esqueceram de mim” funcione tão bem como comédia.

Indefeso e maltratado pela famíliaRosto angelicalSádica estratégiaComo era de se esperar, Kate, a mãe de Kevin vivida por Catherine O’Hara, se desespera assim que descobre o que aconteceu, mas não ao ponto de quebrar o clima leve da narrativa. Ainda assim, a atriz vive um grande momento quando, com os olhos marejados, implora para embarcar em um avião, demonstrando que está realmente sofrendo pelo que aconteceu com seu filho. Já os outros personagens, como o chato Buzz, obviamente não apresentam muita profundidade, mas isto não é exatamente um problema grave numa comédia leve e despretensiosa como esta. Até por isso, Roberts Blossom consegue roubar a cena nos poucos minutos em que ganha destaque como o homem da neve Marley, emocionando a plateia ao confessar para o pequeno Kevin os problemas de sua família; e aqui impressiona também a desenvoltura de Culkin, que desenvolve o diálogo com naturalidade, sem jamais ser ofuscado pelo momento brilhante de Blossom.

Implora para embarcar em um aviãoConfessa para o pequeno Kevin os problemas de sua famíliaDesenvoltura de Culkin“Esqueceram de mim” traz ainda outras cenas emocionantes, como o inocente pedido de Kevin para um “ajudante” do Papai Noel (“Sei que você não é o Papai Noel, mas pode dar um recado pra ele?”) e o instante em que ele contempla uma família de vizinhos curtindo a noite de Natal, além é claro do esperado reencontro entre Marley e sua família. Mas são mesmo os momentos engraçados que garantem o sucesso do longa, começando pelos excelentes truques do garoto que buscam enganar os ladrões, como a festa promovida com brinquedos e cartazes e o trecho de um filme repetido diversas vezes, além da empolgante sequência de preparação da defesa da casa, que, auxiliada pela montagem dinâmica de Raja Gosnell e pela trilha sonora agitada, consegue criar o clima ideal para o engraçadíssimo terceiro ato.

Reencontro entre Marley e sua famíliaFesta promovida com brinquedosTrecho de um filmeE então chegamos à hilária tentativa de invasão promovida pelos bandidos, recheada de gags divertidas baseadas no humor físico, numa verdadeira sucessão de trapalhadas dignas dos “Três Patetas” ou das animações de Chuck Jones – e se tudo funciona muito bem, é também porque Pesci e Stern se entregam completamente ao humor pastelão, sem jamais hesitarem ou temerem cair no ridículo. Depois dela, até perdoamos a óbvia mensagem moralista sobre a importância da família e a previsível trajetória de redenção do protagonista.

Hilária tentativa de invasãoHumor físicoHumor pastelãoUma boa comédia é aquela que consegue envolver o espectador e fazê-lo rir das situações que apresenta, por mais incoerentes que estas possam parecer. Sendo assim, “Esqueceram de mim” é uma ótima diversão, que cumpre muito bem o que se propõe a fazer.

Esqueceram de mim foto 2Texto publicado em 04 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

KARATÊ KID 3 – O DESAFIO FINAL (1989)

31 março, 2013

(The Karate Kid – Part III)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #163

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Robyn Lively, Thomas Ian Griffith, Martin Kove, Sean Kanan, Jonathan Avildsen, Randee Heller e Christopher Paul Ford.

Roteiro: Robert Mark Kamen.

Produção: Jerry Weintraub. 

Karatê Kid III - O Desafio Final[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após cometerem o grave erro de eliminar elementos básicos do sucesso do primeiro “Karatê Kid” no segundo filme da série, John G. Avildsen e Robert Mark Kamen corrigiram parcialmente este problema neste “Karatê Kid 3 – O Desafio Final”, que, mesmo não tendo a mesma qualidade do longa que inaugurou a franquia, ao menos resgata parte do charme e do carisma que marcou toda uma geração. Apostando novamente na empatia de seus personagens e na superação de seu protagonista, Avildsen entrega um resultado satisfatório, ainda que falhe ao sequer tentar revigorar sua estrutura narrativa já desgastada e formulaica.

Novamente escrito por Robert Mark Kamen, “Karatê Kid 3” nos leva de volta a Los Angeles onde, após retornar do Japão, Daniel Larusso (Ralph Macchio) é desafiado por Mark Barnes (Sean Kanan) a defender seu título no campeonato de caratê. Após recusar o convite, ele recebe uma série de ameaças e acaba aceitando o desafio. Só que desta vez Daniel não poderá contar com o apoio do Sr. Miyagi (Pat Morita), que se recusa a treiná-lo por entender que o caratê deve ser usado somente para defender a honra e não para conquistar troféus. Assim, Daniel acaba se envolvendo com o treinador Silver (Thomas Ian Griffith), mas esta ajuda se revelará mais perigosa do que parece.

Assim como ocorria no segundo e pior filme da franquia, “Karatê Kid” inicia recordando cenas dos longas anteriores, numa decisão que funcionaria muito bem numa série (uma espécie de “Previously on Karatê Kid”?), mas que aqui só realça a falta de confiança do diretor na memória do espectador. Em seguida, somos apresentados ao passado do professor Kreese (Martin Kove) no exército e descobrimos que após a derrota de seus alunos para Daniel ele está falido, num indício interessante de que Kamen finalmente tentará humanizar este personagem que infelizmente não se confirma, já que esta ideia logo é descartada e serve apenas para introduzir o pupilo Silver, amigo de Kreese que será o novo vilão.

Mantendo a tradição de vilões unidimensionais e caricaturais, Thomas Ian Griffith surge sempre com um sorriso cínico no rosto, numa composição que busca irritar o espectador (e consegue!) – e que chega ao auge no plano em que Daniel treina enquanto Silver surge rindo atrás da parede. Aliás, até mesmo quando fala sobre a suposta morte de Kreese, ele surge com este estranho sorriso no canto da boca que denuncia a mentira e não convence. Quase sempre com esta expressão irritante, Griffith ao menos consegue ser mais carismático que os outros vilões da série, convencendo quando finge ser amigo de Daniel e demonstra interesse em treiná-lo, ainda que o roteiro faça questão de revelar suas reais intenções logo de cara, eliminando qualquer possibilidade de surpreender o espectador. Já o garoto Sean Kanan encarna Mike como o novo valentão unidimensional que, ao menos, funciona como uma boa ameaça ao protagonista, enquanto o citado Martin Kove mais uma vez comprova sua incompetência ao compor Kreese da mesma maneira caricata que nos filmes anteriores.

Vilões unidimensionais e caricaturaisRindo atrás da paredeO novo valentãoApenas um ano após a épica vitória no campeonato de caratê, Daniel surge bem diferente fisicamente, numa falta de cuidado que, se não chega a atrapalhar, incomoda o espectador mais atento (afinal, se Daniel estava só um ano mais velho, Ralph Macchio já estava cinco). Compondo um Daniel mais agitado e inconsequente, Macchio talvez se exceda aqui e ali, mas em geral consegue manter parte do carisma do personagem. Com sua falta de confiança crônica cedendo espaço para a ansiedade, ele parece não perceber que, ao tentar corrigir um erro, acaba sempre cometendo outro ainda pior – e sabemos que esta vulnerabilidade torna Daniel mais humano e o aproxima da plateia. No entanto, é mesmo na química excepcional com Pat Morita que Macchio se destaca; e esta continua intacta neste último filme da série.

Bem diferente fisicamenteMais agitado e inconsequenteVulnerabilidadeTransmitindo a decepção de Miyagi com as decisões Daniel com precisão em seu rosto expressivo, Morita mais uma vez rouba a cena com suas frases marcantes (“Caratê por troféu de plástico não significa nada”), que se tornam ainda mais icônicas pela maneira como ele as pronuncia. Além disso, seu Sr. Miyagi volta a protagonizar cenas muito interessantes, como aquela em que ensina o “golpe da vassoura” para Daniel (num excelente alívio cômico) e aquela em que bate nos três vilões ao mesmo tempo – e é interessante notar como o espectador jamais teme pelo personagem, confiando plenamente nas habilidades dele após o que viu anteriormente. Por tudo isso, é decepcionante ter que testemunhar Morita dizendo algumas cafonices do roteiro, como a metáfora nada sutil que relaciona o Bonsai original destruído a Daniel.

DecepçãoGolpe da vassouraNova paixão do garotoPrejudicada pela breve separação entre mestre e pupilo, a amizade de Daniel e Miyagi cede espaço para Jessica, a nova paixão do garoto que deixa claro logo de cara que só quer sua amizade. Felizmente, ao contrário do que ocorria no filme anterior, a química entre Daniel e Jessica existe e, ainda que o romance jamais se concretize, a relação consegue convencer graças à boa atuação de Robyn Lively, que cria uma personagem simpática, confortando Daniel mesmo quando este surge nervoso e impaciente. Assim, a garota consegue suprir parcialmente o vazio provocado pela separação dos grandes amigos.

Conduzindo a narrativa num tom que beira a nostalgia, Avildsen nos brinda com lindas imagens durante o treinamento na montanha com vista para o mar, embalado pela bela trilha sonora instrumental de Bill Conti, que se contrapõe perfeitamente à trilha acelerada que só amplia a tensão na descida da rocha onde o Bonsai estava escondido. Já o diretor de fotografia Stephen Yaconelli decide apostar em tons mais sombrios que nos filmes anteriores, conferindo uma aura ameaçadora ao treinador Silver, por exemplo, quando este surge fumando e lendo num carro ou quando invade a casa de Miyagi. Da mesma forma, as sombras dominam a visita ao local alugado para a nova loja de Bonsai – num indício dos problemas que surgiriam ali -, ao passo em que a obscura despedida de Miyagi da antiga oficina apenas reflete sua tristeza.

Lindas imagens durante o treinamentoFumando e lendo num carroDespedida de Miyagi da antiga oficinaSeguindo outro padrão estabelecido pela série, os figurinos de Michael Chavez trazem Daniel vestido de branco e Mike vestido de preto no torneio final, da mesma forma que Silver sempre surge de preto nos treinamentos do protagonista, numa separação clara entre “o bem e o mal”. Por outro lado, a atmosfera criada por Avildsen na final consegue resgatar um pouco da magia do primeiro filme, ainda que as lutas soem falsas em grande parte do tempo. Entretanto, o maior problema é que Avildsen aposta novamente na desgastada fórmula dos filmes anteriores, com o protagonista apanhando até não poder mais até que, num único golpe, consiga derrotar o adversário. Ao menos, existe aí um componente nostálgico que deixa a plateia satisfeita com o que viu, mas é inegável que ao repetir sua história ao invés de desenvolvê-la, a série “Karatê Kid” estava mesmo fadada ao fim.

Daniel de brancoSilver de preto nos treinamentosLutas soam falsasApresentando uma narrativa muito mais envolvente que no longa anterior, “Karatê Kid 3” tem o mérito de resgatar parte da essência do primeiro filme, ainda que não tenha a mesma qualidade deste. Enriquecido também por vilões mais ameaçadores, o longa acerta justamente por compreender que a razão do sucesso da franquia estava na simplicidade com que abordava a relação extremamente humana entre o protagonista e seu sábio mentor. Prejudicado pela repetição de uma fórmula desgastada, está longe de ser um grande filme, mas pelo menos encerrou a simpática série com dignidade.

Karatê Kid III - O Desafio Final foto 2Texto publicado em 31 de Março de 2013 por Roberto Siqueira

WALL STREET – PODER E COBIÇA (1987)

16 março, 2013

(Wall Street)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #162

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Charlie Sheen, Michael Douglas, Martin Sheen, Daryl Hannah, Hal Holbrook, Sean Young, Franklin Cover, Chuck Pfeiffer, James Karen, John C. McGinley, James Spader, Terence Stamp e Leslie Lyles.

Roteiro: Stanley Weiser e Oliver Stone.

Produção: Edward R. Pressman.

Wall Street - Poder e Cobiça[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tanto tematicamente quanto narrativamente, Oliver Stone nunca foi um diretor de sutilezas. Com seu estilo histriônico e sua maneira direta de se posicionar diante dos temas que escolhe como centro de suas narrativas, Stone rapidamente foi rotulado como um diretor polêmico, gerando simpatia e rejeição em proporções similares. No entanto, existem momentos em que este estilo agressivo casa perfeitamente com o tema abordado, como acontece nos ótimos “Platoon”, “Nascido em 4 de Julho”, “Assassinos por Natureza” e na obra-prima “JFK”. Ao decidir explorar o universo especulativo da bolsa de valores, Stone acertou mais uma vez em cheio e, ao lado de seu talentoso elenco, fez deste “Wall Street – Poder e Cobiça” um ótimo filme.

Escrito pelo próprio Stone ao lado de Stanley Weiser, “Wall Street – Poder e Cobiça” narra à trajetória do jovem corretor da bolsa de Nova York Bud Fox (Charlie Sheen), que encontra a grande chance de se destacar no ramo das ações quando obtém uma importante informação sobre a empresa aérea em que seu pai (Martin Sheen) trabalha e decide repassá-la ao bilionário Gordon Gekko (Michael Douglas), um homem que não mede esforços para fazer sua fortuna crescer através do competitivo mercado financeiro.

Apenas um ano após ser consagrado pela Academia com o Oscar por “Platoon”, Oliver Stone confirmava sua coragem ao abordar outro tema delicado e cutucar o coração financeiro dos EUA: Wall Street. Filho de um corretor da bolsa, Stone enxergava com preocupação as ações dos chamados “Mestres do Universo” (assim intitulados por Tom Wolve em seu livro “A Fogueira das Vaidades”), homens poderosos que manipulavam o mercado financeiro descaradamente, gerando sentimentos contraditórios no cidadão comum, que se via enojado diante da falta de princípios que regrava aquele mundo quase incompreensível e, ao mesmo tempo, fascinado diante de tanta autoconfiança e poder.

Para retratar este ambiente misterioso e nada ético, Stone e seu bom diretor de fotografia Robert Richardson exploram cores sem vida como cinza, azul marinho e preto, que ecoam também nos ternos impecáveis dos figurinos de Ellen Mirojnick, que, por sua vez, ganham ainda mais importância num mundo onde as aparências são tão valorizadas. Da mesma forma, observe o contraste entre o quase asséptico escritório novo de Bud e o caótico escritório em que ele trabalhava (design de produção de Stephen Hendrickson), apresentado num curto plano-sequência logo nos primeiros minutos de projeção que serve também para nos familiarizar com a hierarquia do local. Quanto maior a sala, mais importante é aquela pessoa na corporação. Por outro lado, ainda que tenha a cara dos anos 80, a trilha sonora de Stewart Copeland hoje soa datada e pouco contribui na construção desta atmosfera opressora, salvando-se apenas em momentos onde tem alguma função narrativa, como quando ilustra a preocupação de Bud ao indicar as ações da Bluestar para Gekko, demonstrando que ele sabia o risco que corria ao tomar aquela perigosa decisão.

Ternos impecáveisEscritório novoCaótico escritórioAuxiliado pela montagem dinâmica de Claire Simpson, Stone ainda reflete com precisão a atmosfera de urgência da bolsa de valores, empregando closes, dividindo a tela e agitando a câmera assim que o relógio anuncia a abertura do mercado. Observe ainda como os cortes rápidos ilustram a tensão do ambiente, chegando ao auge na empolgante sequência da venda das ações da Anacott Steel, que reflete a euforia de Bud diante daquela importante transação (vale notar a rápida aparição do próprio Oliver Stone nesta sequência). Por outro lado, observe como quando as ações se passam no escritório de Gekko, tanto o ambiente mais amplo e organizado quanto à câmera mais controlada de Stone refletem o excepcional domínio que aquele homem tem sobre o que faz.

Dividindo a telaRelógio anuncia a abertura do mercadoAmbiente mais amplo e organizadoMas o grande mérito de “Wall Street – Poder e Cobiça” não está nos aspectos técnicos. Ciente de que a narrativa depende muito mais do desempenho dos atores, Oliver Stone consegue extrair boas atuações de quase todo seu elenco, a começar por papeis menores como o de Sean Young, que vive a artificial esposa de Gekko, e Hal Holbrook, que, vivendo o corretor da bolsa Lou Mannheim, faz bem o tipo experiente que já viu de tudo na carreira, enxergando de longe aonde a ganância de Bud poderia levá-lo. E se Martin Sheen encarna o Sr. Fox com simplicidade, isto não o impede de se impor diante do filho quando é preciso, ainda que ele não consiga conter o ímpeto do rapaz diante de tantas possibilidades – e o plano que ilumina o rosto de Bud em certo momento sugere uma aura mística e indica que ele era mesmo “o escolhido” por Gekko para entrar naquele seleto grupo de milionários.

Artificial esposa de GekkoCorretor Lou MannheimSr. FoxPai e filho na vida real, Charlie e Martin estabelecem a química dos personagens naturalmente, o que é essencial para compreender a reação de Bud ao descobrir as reais intenções de Gekko na aquisição da Bluestar. Jovem e ambicioso, Bud rapidamente conquista a confiança do bilionário, sendo recompensado com agrados e a meteórica ascensão social. Na época firmando-se como um ator dramático após o sucesso de “Platoon”, Charlie Sheen transmite este deslumbramento do personagem com precisão, mudando-se em pouco tempo para um apartamento luxuoso e conquistando a bela Darien de Daryl Hannah, que, por sua vez, também tira o máximo proveito daquele bem sucedido grupo social (financeiramente, diga-se) ao envolver-se secretamente com Gekko em troca de novos e importantes clientes.

Envolvendo-se gradualmente numa troca ilegal de informações sigilosas, Bud se torna mais e mais ganancioso, e este mundo luxuoso e repleto de regalias que se abre a sua frente não colabora em nada para impedir sua inserção naquele ambiente. Só que toda esta superficialidade tem um preço. Assim, quando o casal discute, Bud não hesita em deixar claro que sabe que Darien o enxerga apenas como uma oportunidade de continuar sua escalada social, mas as duras respostas dela mostram que ele não era tão diferente assim – e o bom desempenho da atriz neste momento nos faz acreditar que ela de fato gostava dele, o que torna tudo ainda mais intenso.

Química naturalDeslumbramentoCasal discuteControlando este complexo jogo de interesses com maestria, o persuasivo e arrogante Gordon Gekko soa quase como um vilão inabalável, ainda mais pela maneira visceral que Michael Douglas compõe o personagem, surgindo sempre confiante e poderoso, como se fosse capaz de prever tudo que acontece com grande antecedência. Enxergando o dinheiro como a única coisa pela qual vale a pena lutar (“Almoçar é para os fracos”), Gekko demonstra enorme habilidade nas negociações, mas mostra igual capacidade de passar por cima da ética se assim for preciso para conquistar seus objetivos. Destacando-se ainda em momentos marcantes como o icônico discurso feito aos sócios da Teldar Paper (“A ganância é boa”), Douglas consegue transformar um personagem que tinha tudo para ser detestável em alguém cativante através de sua maneira prática de enxergar o mundo e de dizer coisas profundamente cruéis.

Persuasivo e arrogante Gordon GekkoConfiante e poderosoIcônico discursoEntretanto, não são apenas as palavras de Gekko que provocam desconforto em “Wall Street – Poder e Cobiça”, como atesta a forte discussão entre os Fox no elevador, onde os cortes rápidos de Stone ajudam a nocautear a plateia, desnorteada diante das duras palavras trocadas por eles – num grande momento da atuação dos Sheen. Da mesma forma, a câmera inquieta realça a tensão na discussão entre Bud e Gekko sobre a liquidação da Bluestar, na qual o primeiro demonstra que não aceitará tão facilmente ser manipulado pelo bilionário, enquanto o segundo resume muito bem o que é o capitalismo e como funciona a divisão de renda nos EUA (e na maior parte do planeta, porque não?) – e repare como após ser enganado na venda da Bluestar, Gekko surge coberto pelas sombras, indicando sua decadência.

Forte discussão no elevadorDiscussão entre Bud e GekkoGekko surge coberto pelas sombrasObviamente, Oliver Stone não perde a oportunidade de criticar acidamente todo aquele sistema e insere seus comentários sociais em diversos momentos, como quando acompanhamos Bud ganhando uma sala ampla ao mesmo tempo em que um velho funcionário é demitido (“Tenho dois filhos para criar, vou parar na sarjeta”, argumenta). A intenção é clara: criticar o feroz sistema especulativo de Wall Street, responsável por fabricar jovens milionários da noite para o dia – e também por gerar algumas crises marcantes nas últimas décadas, como hoje sabemos bem. Soltas durante a narrativa, frases como “O dinheiro faz você fazer coisas que não quer fazer” e “Pare de ir atrás do dinheiro fácil e produza algo com sua vida” resumem bem a visão de Stone sobre o tema.

É verdade que para alcançar seu objetivo, o diretor acaba pesando a mão em alguns instantes. Assim, o milionário Gekko obviamente acaba punido e preso, enquanto Bud perde a namorada e o dinheiro, vende o apartamento, vê seu pai sofrer um enfarte e ainda é surpreendido em seu escritório pela polícia, num resultado trágico que nem sempre traduz a realidade do mercado financeiro – e é curioso notar como mesmo após fazer tantas coisas erradas, nós sentimos pena dele ao vê-lo deixando o escritório algemado e chorando. É evidente que nem todo trader é como Gekko e que é possível ser bem sucedido como corretor sem deixar-se cegar pela ganância, mas nem por isso “Wall Street – Poder e Cobiça” deixa de ser um grande filme que, curiosamente, acabou antevendo parte do processo de decadência dos “Mestres do Universo”.

Bud ganhando uma sala amplaVelho funcionário é demitidoDeixa o escritório algemado e chorandoEm “Wall Street – Poder e Cobiça”, Oliver Stone aponta sua metralhadora crítica não apenas para o especulativo mercado financeiro, mas também para a mentalidade de uma época em que a qualidade de um terno era mais importante do que a pessoa dentro dele e que o sucesso era medido pelos dígitos de sua conta bancária. O tempo provou que o diretor tinha certa dose de razão e que, ao contrário do que afirma Gordon Gekko, a ganância não é algo tão bom assim.

Wall Street - Poder e Cobiça foto 2Texto publicado em 16 de Março de 2013 por Roberto Siqueira

KARATÊ KID 2 – A HORA DA VERDADE CONTINUA (1986)

13 março, 2013

(The Karate Kid – Part II)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #161

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Martin Kove, Joey Miyashima, Danny Kamekona, Tamlyn Tomita, Nobu McCarthy, Charlie Tanimoto, Arsenio Trinidad, William Zabka e Yuji Okumoto.

Roteiro: Robert Mark Kamen.

Produção: Jerry Weintraub.

Karate Kid II - A Hora da Verdade Continua[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sequência do sucesso de 1984, “Karatê Kid 2 – A Hora da Verdade Continua” chegava aos cinemas apenas dois anos após o lançamento de seu antecessor apostando na química quase palpável de Ralph Macchio e Pat Morita para funcionar. Só que, aparentemente, tanto os produtores quanto o roteirista e o diretor julgaram que somente isto já seria suficiente para a realização de um segundo filme, esquecendo-se de elementos importantes que funcionaram muito bem no longa anterior. O resultado é uma continuação decepcionante, que nem de longe tem a mesma eficiência e o carisma que consagraram o primeiro exemplar da série.

Mais uma vez escrito por Robert Mark Kamen, “Karatê Kid 2” inicia recordando cenas do primeiro filme, o que já sugere uma preocupante falta de confiança na memória do espectador. Ao menos, este início serve para indicar a tendência de explorar mais as habilidades marciais do Sr. Miyagi (Pat Morita), que, desta vez, precisa voltar a sua terra natal após receber uma carta informando o péssimo estado de saúde de seu pai. Acompanhado por Daniel (Ralph Macchio), ele viaja para Okinawa sabendo que também precisará enfrentar Sato (Danny Kamekona), um antigo amigo que se tornou seu rival por causa do amor de Yukie (Nobu McCarthy).

Os problemas de “Karatê Kid 2” começam a ficar evidentes logo em sua premissa. Ao transportar a narrativa para o outro lado do mundo, Kamen elimina um dos elementos essenciais do sucesso do primeiro filme, que é a identificação do espectador com o tema, já que aquele universo gera um distanciamento natural para a maioria dos espectadores (ou pelo menos para aqueles que jamais estiveram em terras nipônicas), que poderia ser compensado se ao menos o longa explorasse melhor o fato de estar no país de origem do caratê. Além disso, sentimos falta de figuras carismáticas como a mãe e a namorada de Daniel encarnadas com tanto carisma por Randee Heller e Elizabeth Shue – de certa forma, tanto o antigo amor de Miyagi como a nova paixão de Daniel surgem como tentativas frustradas de ocupar este vazio. Pra piorar, Kamen escorrega até mesmo na construção de diálogos simples, como quando Daniel diz que para quebrar algumas barras de gelo é preciso usar a mente e não a força, somente para segundos depois dizer desesperado que um cara bem maior que ele não conseguiu.

Mas se o roteiro falha assustadoramente, ao menos tecnicamente “Karatê Kid 2” conta com o bom trabalho da equipe dirigida por John G. Avildsen para nos ambientar a pequena vila em Okinawa, começando pela escolha da locação, que permitiria ao diretor explorar a beleza da região e criar lindos planos a beira mar caso ele quisesse. Por isso, é uma pena constatar que nem Avildsen nem seu diretor de fotografia James Crabe parecem perceber o potencial daquela pequena vila japonesa, explorando o rico visual apenas em raríssimas ocasiões. Ao menos, as casas e as vestimentas tipicamente japonesas criam a atmosfera necessária para transportar o espectador para aquele universo, o que é mérito do design de produção de William J. Cassidy e dos figurinos de Mary Malin. Avildsen também sugere que fará alguma crítica à ocupação norte-americana no local, mas jamais se posiciona com firmeza sobre o tema, o que faz as menções à presença do exército soarem vazias ou deslocadas.

Pequena vila em OkinawaCasas tipicamente japonesasOcupação norte-americana no localMesmo com tantas falhas, “Karatê Kid 2” tem o mérito de tentar focar mais na relação entre Daniel e Miyagi que funcionara tão bem no filme anterior, abrindo mais espaço para o sábio japonês na narrativa – algo refletido até mesmo na trilha sonora de Bill Conti, que desta vez abusa dos sons orientais nas composições instrumentais. Assim, Pat Morita tem a oportunidade de desenvolver melhor seu personagem, demonstrando suas motivações, seus medos e nos apresentando sua história. Confirmando seu talento, Morita protagoniza os melhores momentos do filme, trazendo ainda novas frases emblemáticas que se tornam mais interessantes pela maneira pausada e reflexiva que ele as pronuncia. Assim, se afirmações do tipo “o coração mostra que tive coragem, a medalha mostra que tive sorte” poderiam até soar cafonas, Morita faz com que elas se tornem profundas e belas apenas pela forma como as profere.

Relação entre Daniel e MiyagiSábio japonêsNovas frases emblemáticasDa mesma forma, Ralph Macchio mantém a jovialidade e o ar inocente que fizeram de Daniel “San” um personagem tão adorável, conquistando a empatia da plateia com seu carisma e seu humor autodepreciativo. Consciente de que sua força não está no porte físico e sim na agilidade, ele demonstra evolução como personagem ao surgir mais confiante e consciente de sua capacidade – o que se reflete na maneira mais direta que corteja sua nova paixão. Assim, quando Miyagi diz que “não importa quem é mais forte, importa quem é mais esperto”, Daniel responde que sabe bem disto porque ganhou o torneio assim; e nós acreditamos nele.

Ar inocenteHumor autodepreciativoManeira mais direta que corteja sua nova paixãoPor falar no torneio, em “Karatê Kid 2” temos a oportunidade de acompanhar os acontecimentos seguintes ao apoteótico final da competição, o que, além de demonstrar mais uma vez a habilidade de Miyagi, serve para confirmar que o professor John de Martin Kove continua unidimensional e detestável. Seguindo esta linha de dividir claramente as pessoas entre o bem e o mal, o novo vilão Sato interpretado por Danny Kamekona também se estabelece como um personagem unidimensional que, ao lado do odiável sobrinho vivido por Yuji Okumoto, parece sempre olhar no espelho antes de sair de casa e pensar em qual maldade fará naquele dia. Os dois atores, aliás, oferecem um desempenho tão caricatural que espanta constatar que foram dirigidos pelo mesmo Avildsen que arrancou atuações tão boas de quase todo o elenco do primeiro “Karatê Kid” e de “Rocky, um Lutador”, para citar apenas dois dos mais famosos filmes dele. E finalmente, Kumiko pode até não ter a mesma empatia que Ali tinha com Daniel, mas ao menos Tamlyn Tomita se esforça para transformar a personagem numa moça mais simpática ao longo da narrativa.

Novo vilão SatoOdiável sobrinhoKumikoDurante todo o primeiro ato, “Karatê Kid 2” prepara o espectador para um confronto entre Miyagi e Sato que nunca acontece, o que é decepcionante. Além disso, o irregular segundo ato quebra muito o ritmo da narrativa ao focar demasiadamente nos romances nada empolgantes vividos por Daniel e Miyagi – algo que, infelizmente, o trio de montadores formado por David Garfield, Jane Kurson e pelo próprio Avildsen parece não perceber. Assim, temos a sensação de que falta o espírito jovem do filme anterior, como também faltam mais lutas interessantes e realistas, já que desta vez os confrontos surgem mal coreografados e inverossímeis. E até mesmo a esperada luta final é mal realizada e sem graça, terminando com uma piada pouco inspirada que funciona mais como um anticlímax. Em resumo, se “Karatê Kid” terminava deixando o espectador em êxtase, aqui o que sentimos é uma enorme frustração.

Romances nada empolgantesConfrontos mal coreografadosEsperada luta finalMesmo com tantas falhas na estrutura narrativa, “Karatê Kid 2” tem seus raros momentos de inspiração, como o lindo diálogo em que Daniel conforta seu mentor e fala sobre como se sentiu após a morte do próprio pai – e é comovente notar como Miyagi mal consegue chorar, sofrendo calado e transmitindo apenas com os olhos marejados e a expressão facial a grande dor que sente. O longa traz ainda algumas interessantes rimas narrativas com o primeiro filme, como quando Daniel sai correndo de uma festa após enfrentar o valentão que inferniza sua vida, faltando apenas o esperado golpe da garça, que desta vez surge rapidamente e sem provocar o efeito esperado.

Daniel conforta seu mentorMiyagi mal consegue chorarDaniel sai correndo de uma festaPiorando ou eliminando elementos básicos do primeiro filme, “Karatê Kid 2” decepciona bastante, justamente por evidenciar que seus realizadores não perceberam porque fizeram tanto sucesso com “Karatê Kid”. Assim, além de conhecermos um pouco mais a respeito da história deste personagem icônico chamado Sr. Miyagi, talvez a única lembrança que carregamos desta sequência seja a bela música tema (“Glory of Love”, de Peter Cetera), que tem a força das boas canções e consegue marcar o espectador.

Karate Kid II - A Hora da Verdade Continua foto 2Texto publicado em 13 de Março de 2013 por Roberto Siqueira

GENTE COMO A GENTE (1980)

22 fevereiro, 2013

(Ordinary People)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #103

Vencedores do Oscar #1980

Dirigido por Robert Redford.

Elenco: Donald Sutherland, Timothy Hutton, Mary Tyler Moore, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh, Judd Hirsch e Dinah Manoff.

Roteiro: Judith Guest e Alvin Sargent.

Produção: Ronald L. Schwary.

Gente como a Gente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Assim como aconteceu com “Como era verde meu vale”, “Gente como a Gente” ficou marcado por vencer um filme melhor na cerimônia do Oscar, ganhando a antipatia de muitos cinéfilos com o passar dos anos. Só que, enquanto o longa dirigido por John Ford está longe de ser um grande filme, o drama dirigido por Robert Redford ao menos é bastante competente, ainda que seja inferior à obra-prima “Touro Indomável”, que realmente deveria vencer o premio daquele ano. Nem por isso, é justo desmerecer o bom trabalho realizado neste filme humano, recheado com ótimas atuações e dirigido com tanta simplicidade e talento.

Escrito por Judith Guest e Alvin Sargent, “Gente como a Gente” nos apresenta o triste cotidiano da família Jarrett após a morte do filho mais velho do casal Calvin (Donald Sutherland) e Beth (Mary Tyler Moore) afetar profundamente a vida deles, especialmente a do caçula Conrad (Timothy Hutton), que presenciou o acidente fatal do irmão e, sentindo-se culpado, chegou a tentar o suicídio. Convencido pelo pai a procurar tratamento psicológico com o Dr. Berger (Judd Hirsch), o jovem tenta superar os traumas do passado, mas o processo acaba sendo doloroso não apenas para ele, mas para toda sua família.

Repleto de diálogos carregados de mágoa, “Gente como a Gente” já inicia num tom melancólico, expressado pelas ruas cobertas de folhas secas numa típica tarde de Outono que surgem embaladas pela bela trilha sonora instrumental orquestrada por Jack Hayes e composta por Marvin Hamlisch. Desde então, Robert Redford deixa evidente que apostará numa abordagem discreta, evitando chamar mais a atenção para si do que para a alta carga dramática da narrativa. Seguro atrás das câmeras como costuma ser na frente delas, o diretor conduz o filme com simplicidade e elegância, apostando em planos médios e closes que realçam as atuações, evitando invencionismos desnecessários para o desenvolvimento de uma narrativa baseada nos diálogos. Nem por isso, Redford deixa de imprimir um estilo próprio, que curiosamente remete ao seu estilo sutil e minimalista de atuar. Observe, por exemplo, como durante uma festa dos amigos de Beth, Redford conta com seu montador Jeff Kanew para alternar entre os planos, empregando closes que demonstram o teor artificial das conversas e ainda criam a atmosfera maçante pretendida pelo diretor.

Visualmente, Redford também sabe explorar o bom trabalho de sua equipe técnica, a começar pela fotografia de John Bailey, que começa “Gente como a Gente” apostando numa paleta dessaturada que, por sua vez, realça as cores sem vida dos figurinos de Bernie Pollack como o bege e o azul marinho. Com a evolução da narrativa e dos problemas de Conrad, as sombras e as cenas noturnas passam a predominar (especialmente nas sessões no psiquiatra), ilustrando a agonia do garoto, representada também no escritório sufocante e bagunçado do Dr. Berger – o que é mérito do design de produção de Phillip Bennett e J. Michael Riva. Observe, por exemplo, como quando ele fala sobre a mãe, a fotografia investe pesado nas sombras e torna o escritório num local obscuro – num momento, aliás, em que o leve movimento de câmera de Redford nos aproxima com elegância do rosto de Conrad e evidencia sua tristeza.

Mas se evita exibicionismos na movimentação de sua câmera, Redford demonstra muita habilidade na direção de atores, extraindo atuações que evitam transformar aqueles personagens em caricaturas unidimensionais. Inicialmente, somos apresentados ao cotidiano daquela família comum e, com o passar do tempo, percebemos que existe um conflito ali. Só que estas descobertas acontecem lentamente. Primeiro, fica evidente que Conrad tem problemas, principalmente pela forma como é tratado por seu preocupado pai. Contudo, a razão desta preocupação surge apenas quando o garoto aceita procurar um psiquiatra e decide falar abertamente sobre sua tentativa de suicídio, motivada pela traumatizante morte do irmão que o atormenta todos os dias. Em seguida, percebemos um atrito na relação dele com a mãe, que pouco a pouco vai sendo escancarado, conforme ele toma coragem para enfrentar a situação. Por vezes, Beth e Conrad mais parecem estranhos, tamanha a frieza com que se relacionam.

Demonstrando mais dificuldade para aceitar a perda de um filho e compreender o outro, Beth por vezes chega a irritar com seu jeito egoísta de lidar com os problemas – e a composição cuidadosa de Mary Tyler Moore transmite a sensação de que ela preferia que o filho mais velho tivesse sobrevivido sem que ela jamais diga isto claramente. Mas, nos momentos em que explode e escancara seu sofrimento pela perda do primogênito, Beth se torna mais humana e se aproxima um pouco mais da plateia, o que é ótimo justamente por evitar que ela se torne uma personagem rasa e unidimensional, que poderia facilmente afastar o espectador, ainda mais diante da postura pacificadora do marido dela. Compondo Calvin com uma estranha mistura de carisma e apatia, Donald Sutherland se sai bem como o pai protetor e preocupado que não sabe o que fazer para manter o equilíbrio emocional de uma família afetada por uma tragédia, algo que fica ainda mais evidente pela maneira confusa e nervosa que ele se comporta diante do Dr. Berger.

Sofrimento pela perda do primogênitoMistura de carisma e apatiaJovem amarguradoA razão de tanta preocupação é Conrad. Assumindo o papel mais difícil de “Gente como a Gente”, Timothy Hutton transmite muito bem a insegurança e a ansiedade daquele jovem amargurado, movimentando-se constantemente, evitando olhar diretamente para as pessoas e alterando o tom de voz sempre que se sente intimidado. Bastante instável emocionalmente – como atesta a cena no McDonald´s -, Conrad raramente consegue encontrar a paz e nem mesmo a pratica de um esporte como a natação serve para aliviar a pressão psicológica que ele mesmo se impôs. Inseguro ao ponto de treinar antes de ligar para uma garota, Conrad transmite a constante sensação de que está prestes a desistir da vida, o que é mérito da cuidadosa composição do ator. Hutton se destaca ainda na tocante conversa com o Dr. Berger após a morte da amiga Karen (Dinah Manoff), que ilustra o quanto Conrad se culpa pela morte do irmão.

Firme e direto, Judd Hirsch cria um Dr. Berger bastante seguro, que sabe tratar Conrad como adulto e evita a todo custo fazer com que ele se sinta vítima, mesmo que, para isso, precise recorrer a uma frieza desconcertante que por vezes parece até carregada com requintes de crueldade. Por outro lado, a doçura é representada pela simpática e bela Jeannine, interpretada por Elizabeth McGovern como uma garota simultaneamente atirada e compreensiva, que consegue alegrar e acalmar a vida de Conrad sempre que aparece. No entanto, a chave para compreender melhor a mente do rapaz está na outra moça que surge em seu caminho.

Conversa com o Dr. BergerDr. Berger bastante seguroSimpática e bela JeannineApresentada durante a dolorida conversa ocorrida dentro de um restaurante, a Karen de Dinah Manoff representa um ponto de apoio psicológico para Conrad, um exemplo vivo de que é possível superar o trauma e viver bem, ainda que a garota eventualmente deixe transparecer alguma tristeza – e o diálogo entre eles deixa claro que estamos acompanhando duas pessoas muito sofridas que tentam disfarçar a dor da melhor maneira possível. Mesmo distante, Karen faz com que Conrad se sinta melhor somente por saber que ela está bem e isto é essencial para que o espectador compreenda porque o garoto perde totalmente o equilíbrio quando, já no terceiro ato, ouve a trágica notícia do suicídio da garota.

A dificuldade para compreender o outro é justamente a razão pela qual a família Jarrett tanto sofre. Por isso, os diálogos entre eles escondem sob aquela carcaça polida e formal uma alta carga de tensão e parecem sempre prestes a provocar uma discussão, ainda que seja por um motivo aparentemente fútil, como na emblemática cena da foto de família que escancara os problemas entre mãe e filho ou na pesada discussão também entre eles na véspera do Natal. Estes duelos verbais são o ponto alto de “Gente como a Gente”. Mas existem outros diálogos marcantes, como aquele em que um amigo diz para Calvin que “cedo ou tarde eles se vão”, relembrando a dura realidade que qualquer pai tem dificuldade para encarar.

A perda de um filho é certamente um trauma quase impossível de superar. Assim, quando Calvin, mergulhado nas leves sombras do alvorecer, decide expor para Beth sua insatisfação diante da postura fria dela com seu filho, sabemos que aquela atitude pode jogar a última pá de cal naquela relação já deteriorada. No entanto, a saída dela de casa nos leva a sensível conversa entre pai e filho que, mesmo num tom agridoce, encerra bem este drama humano e belo.

Comandando uma história pesada que poderia facilmente cair no melodrama barato, Robert Redford demonstrou maturidade e competência suficientes para extrair grandes atuações de seu elenco e fazer deste “Gente como a Gente” um filme bastante respeitável.

Gente como a Gente foto 2Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira


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