Arquivo da categoria ‘Filmes em Geral’

ADORÁVEL VAGABUNDO (1941)

22 maio, 2013

(Meet John Doe)

2 Estrelas 

 

Filmes em Geral #106

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Walter Brennan, Edward Arnold, Spring Byington, Gene Lockhart, Sterling Holloway, James Gleason, Rod La Rocque e Regis Toomey.

Roteiro: Robert Riskin, baseado em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr.

Produção: Frank Capra e Robert Riskin (não creditados).

Adorável Vagabundo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Reconhecido pela capacidade de conduzir filmes com mensagens otimistas que ilustravam como poucos o sonho norte-americano daquela época, Frank Capra era um diretor popular, é verdade, mas que tinha também o reconhecimento da crítica justamente pela maneira como utilizava estas características marcantes para realizar bons filmes. Infelizmente, isto não é o que acontece em “Adorável Vagabundo”, longa sofrível estrelado por Gary Cooper e Barbara Stanwyck que, além de narrar uma história extremamente previsível, ainda peca pela abordagem exageradamente melodramática do diretor.

O roteiro escrito por Robert Riskin com base em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr. até parte de uma premissa interessante: após ser demitida pelo novo editor do jornal onde trabalhava, Ann Mitchell (Barbara Stanwyck) publica sua última matéria contando a história de John Doe, um homem amargurado que iria suicidar-se na noite do natal como um protesto contra o que ele achava que estava errado na sociedade. A coluna chama a atenção do público e de toda a mídia, mas o problema é que Ann tinha inventado toda a história e, diante da enorme repercussão da matéria, ela é chamada de volta ao jornal. Após decidirem levar a farsa adiante, eles passam a procurar por alguém que personifique este personagem inventado e escolhem John Willoughby (Gary Cooper), que assume a nova personalidade e passa a rodar o país levando adiante a ideologia criada para o personagem.

Nos primeiros planos de “Adorável Vagabundo”, Capra faz questão de mostrar centenas de pessoas felizes trabalhando ou servindo ao exército, passando a ideia que será à base da narrativa: a força do cidadão comum. Em seguida, a simples troca de uma placa com dizeres sobre a imprensa livre já anuncia a mudança no comando de um jornal que culminará na demissão de todos os 40 funcionários e levará Ann a escrever a matéria que revolucionará o país. E então os diversos problemas do longa vem à tona, a começar por piadas nada inspiradas como no embaraçoso monólogo de Bert (Regis Toomey) na prefeitura e na chegada de John ao jornal, quando um dos presentes diz que não se suicidaria no natal por ser supersticioso.

Capra também erra a mão quando tenta colocar peso dramático na narrativa, apelando para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin em diversos momentos desnecessários e acertando em raras ocasiões, como quando a trilha inspiradora embala o momento em que a mãe de Ann entrega o diário do pai contendo o texto que inspiraria o discurso de esperança de John Doe. Aliás, esta abordagem melodramática ganha força no próprio visual do filme. Repare, por exemplo, como Capra e seu diretor de fotografia de George Barnes procuram valorizar os rostos das pessoas comuns, expondo suas imperfeições através da maneira como iluminam as cenas e forçando nossa identificação com eles, até por contrastar diretamente com as cenas dominadas pelos tons mais escuros que acompanham os homens poderosos como Norton (Edward Arnold), o dono do jornal.

Pessoas felizes trabalhandoRostos das pessoas comunsHomens poderososPor outro lado, “Adorável Vagabundo” também tem sua parcela de acertos. É interessante, por exemplo, acompanhar a guerra nos bastidores da imprensa e os interesses de Norton naquela manifestação popular. Repare também como os instantes que antecedem o primeiro discurso de John Doe são tensos justamente pela maneira que Capra conduz a sequência, não permitindo que o espectador antecipe qual dos dois textos ele vai ler – e aqui vale notar o trabalho de Cooper, que gagueja no início, como se não soubesse exatamente o que fazer, mas com o passar do tempo ganha confiança e começa a gostar da reação das pessoas àquelas palavras, falando com mais firmeza e empolgação. Seria uma grande cena, não fosse o conteúdo da mensagem, que joga para o próprio povo a responsabilidade de buscar soluções para a resolução de seus problemas, praticamente isentando os políticos de seus deveres diante da sociedade.

O problema do roteiro está justamente em seu discurso previsível e apelativo, que dificulta bastante o trabalho dos atores, ainda que o elenco tenha gente talentosa como Gary Cooper e Barbara Stanwyck. Vivendo a esperta e ambiciosa Ann, Stanwyck oscila entre bons momentos, como quando se emociona ao ouvir as palavras de seu pai sendo lidas por Doe, e cenas embaraçosas, como aquela que encerra o longa (voltaremos a ela em instantes). Já a atuação mais contida de Gary Cooper cai bem no personagem, um homem simples que é lentamente sugado pra dentro daquele turbilhão e acaba se envolvendo sem perceber exatamente o que estava acontecendo. Repare, por exemplo, como Cooper olha para a comida com desejo e para os objetos de decoração com deslumbramento quando chega ao jornal, saindo-se bem numa das raras vezes em que o longa consegue nos fazer rir, quando Doe está distraído mexendo na estatua de uma mulher nua e se assusta ao ouvir um empolgado “Olá!”, sem notar que Ann havia chegado ao local.

No restante do elenco, Edward Arnold compõe um Norton imponente com sua voz grave e em tom sempre controlado, destacando-se em momentos especiais como o jantar em que presenteia uma desconfiada Ann e anuncia seu plano eleitoral, provocando a mesma reação nela e na plateia: “Uau!”. Além disso, tanto Arnold quanto Cooper têm um bom desempenho na forte discussão entre John e Norton durante a reunião do poderoso dono do jornal com importantes homens da cidade que precede o clímax da narrativa. Mas o grande destaque do elenco vai mesmo para a atuação de James Gleason na cena em que Connell revela o plano de Norton para Doe num bar, soando convincente como um homem amargurado diante de tudo que estava prestes a acontecer e emocionando quando menciona a morte do pai. No entanto, o problema desta cena reside no teor nacionalista e recheado pelo idealismo norte-americano tão comum na filmografia de Capra, evidenciado nas diversas menções do personagem ao “país livre” e à liberdade de expressão.

Primeiro discurso de John DoeSe emociona ao ouvir as palavras de seu paiForte discussão entre John e NortonEssencial para o sucesso de sequências como aquela que acompanha as viagens de John sobrepondo planos e imagens do mapa dos EUA num ritmo empolgante, a montagem de Daniel Mandell é responsável também pela sensação de desconforto causada no tumulto durante a “Convenção John Doe”, obtida através da rápida justaposição de planos e dos próprios enquadramentos confusos de Capra – que, se soam deselegantes, ao menos tem função narrativa. Além do rápido plano geral empregado por Capra que revela o grande número de pessoas no local, o que impressiona durante a “Convenção John Doe” é o design de som, que capta com precisão o burburinho da plateia, a chuva e a distorção do microfone, além da revolta que explode na multidão após os homens comandados por Norton cortarem os microfones e incentivarem as vaias.

Infelizmente, Capra pesa demais a mão no ato final e, além do visual exageradamente escuro da última cena no alto do prédio, o tom carregado pelo melodrama excessivo e a atuação over de Stanwyck criam um dramalhão típico das novelas mexicanas.

Conhecido como um grande defensor dos ideais norte-americanos, o ítalo-americano Frank Capra desta vez pesou a mão e fez deste “Adorável Vagabundo” um longa decepcionante, com uma mensagem óbvia demais e incrivelmente piegas.

PS: A ideologia associada a John Doe torna o assassino de “Seven” ainda mais especial pela ironia que a escolha de seu nome naturalmente carrega.

Adorável Vagabundo foto 2Texto publicado em 22 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

A MULHER FAZ O HOMEM (1939)

21 maio, 2013

(Mr. Smith Goes to Washington)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #105

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains, Ruth Donnelly, Eugene Pallette, H.B. Warner, Beulah Bondi, Thomas Mitchell, Guy Kibbee, Edward Arnold, Harry Carey e Grant Mitchell.

Roteiro: Sidney Buchman, baseado em história de Lewis R. Foster.

Produção: Frank Capra (não creditado).

A Mulher faz o Homem[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo filme da famosa e bem sucedida parceria entre o diretor Frank Capra e o ator James Stewart, “A Mulher faz o Homem” é também um dos mais notáveis trabalhos realizados por ambos em suas marcantes carreiras no cinema. Mais uma vez trazendo a história de um homem comum que enfrenta os poderosos com sua determinação e moral inabalável, Capra realizou um filme corajoso, que já na década de 30 debatia o conturbado e complexo jogo político e seus bastidores recheados de interesses escusos – um tema que, como sabemos, continua bastante atual.

O roteiro escrito por Sidney Buchman com base em história de Lewis R. Foster nos apresenta a curiosa trajetória de Jefferson Smith (James Stewart), um homem do interior que é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos somente porque sua falta de experiência serviria como uma luva para que seus companheiros pudessem levar adiante um corrupto projeto. O problema é que Smith, auxiliado pela inteligente secretária Clarissa Saunders (Jean Arthur), acaba se empolgando com sua posição e propõe outro projeto social que, por ironia, inviabilizaria o primeiro, criando um conflito de interesses que leva o senador Joseph Paine (Claude Rains), um amigo de seu falecido pai, a acusá-lo em plena câmara do senado de se beneficiar do projeto para enriquecer, o que faz com que Smith passe a questionar os valores e os ideais dos líderes de seu país.

Apesar de um garoto dizer em certo momento que Smith é “o melhor americano que nós temos”, os valores norte-americanos tão presentes na filmografia de Capra são questionados em boa parte de “A Mulher faz o Homem”, o que chega a ser surpreendente. É verdade que no final o homem justo e idealista acaba vencendo os poderosos corruptos e a mensagem otimista do diretor ganha força, mas em grande parte do longa a sensação que temos é a de que aquele complexo jogo político realmente seria capaz de minar aquele pobre homem; e o fato é que mesmo saindo vitorioso, Smith certamente não mantém a visão pura e simplista que tinha quando chegou a Washington. Assim, se este suposto ufanismo é aparentemente reforçado pelo clipe que apresenta as estátuas de ex-presidentes dos EUA intercaladas com trechos da constituição e embalado pelos hinos da Inglaterra e dos Estados Unidos na chegada do protagonista à capital, esta reverência à história norte-americana terá reflexo no impecável terceiro ato, quando o próprio Smith questiona onde aqueles valores estavam.

É fascinante também como Capra aborda o jogo de interesses políticos nos bastidores do senado desde o início frenético do longa, quando, auxiliado pela montagem ágil de Al Clark e Gene Havlick, anuncia a morte de um importante senador e, através da maneira acelerada com que a notícia se espalha, evidencia para o espectador a importância daquele cargo para o qual Smith seria escolhido. Observe também como o movimento de câmera que revela a imponente câmara do senado concebida pela direção de arte de Lionel Banks nos insere naquele ambiente sob a perspectiva do protagonista, assim como o lento travelling que apresenta o grande número de pessoas presentes no local, fazendo com que o espectador perceba como aquilo tudo poderia intimidar Smith e forçando nossa identificação com ele.

Da mesma forma, Capra faz questão de engrandecer o Presidente do Senado durante o juramento de Smith, novamente nos colocando em sua posição e fazendo com que o espectador sinta a pressão que o próprio personagem sente por estar ali. O diretor usa a câmera com inteligência também em outros momentos, como numa conversa com Susan, a filha do senador Paine por quem Smith se apaixona, na qual Capra sequer mostra o rosto dele, ilustrando seu nervosismo através de planos de suas mãos mexendo no chapéu, o que só realça a timidez do rapaz.

Refletindo a euforia de Smith e a sua visão romantizada da capital, a fotografia de Joseph Walker prioriza os tons mais claros, o que torna ainda mais triste a sequência em que ele pensa em desistir e voltar para sua cidade, com o personagem afundado nas sombras após voltar ao Memorial de Lincoln e constatar que os valores de seu povo não passavam de ideais distantes da realidade. Por outro lado, observe como as sombras encobrem o rosto de Jim Taylor quando este discute o nome que será indicado para o cargo no senado, num contraste interessante que reforça a estratégia visual adotada. Já o design de som apresenta oscilações ainda mais fortes, especialmente nos debates no senado, o que vira motivo de piada, por exemplo, quando Smith fala pela primeira vez na câmara.

Estátuas de ex-presidentes dos EUAImponente câmara do senadoVolta ao Memorial de LincolnE se de maneira geral as atuações parecem um pouco exageradas (o que era comum na época), alguns nomes conseguem se destacar, como o manipulador Jim Taylor interpretado por Edward Arnold, que impõe respeito com seu corpo avantajado e sua expressão ameaçadora – aliás, é interessante como muitos políticos surgem gordos e envelhecidos, num indício da vida farta e sedentária que levam. Vale citar também o simpático Presidente do Senado interpretado por Harry Carey, que sorri constantemente, mas nem por isso deixa de contar com o respeito de todos, além é claro do imprevisível senador Paine de Claude Rains, que demonstra bem o conflito do personagem diante daquele ambiente obscuro e corrompido. É ele quem protagoniza um dos momentos tocantes do longa, quando explica para Smith que pra conseguir realizar coisas boas na política é preciso se comprometer e jogar o jogo, demonstrando um incômodo que será essencial para que sua mudança de comportamento no final faça sentido. Até por isso, é chocante o momento em que ele acusa Smith no senado e muda o foco dos debates, provocando a investigação do amigo e a proposta de expulsão dele.

Enojada diante deste desgastante jogo de interesses – especialmente após a paixão por Susan ser usada contra Smith – e cansada daquela vida vazia, a determinada Clarissa Saunders vivida com intensidade por Jean Arthur reencontra alguma razão para seguir naquela jornada somente após a chegada de Smith, que, com seu jeito simples e sonhador, devolve os valores outrora perdidos por ela diante de tanta corrupção. Conhecido como a personificação do homem comum, Stewart cai muito bem no papel do interiorano Smith, surgindo com a voz oscilante, gaguejando e evitando o olhar no início, demonstrando estar claramente assustado diante de tantas mudanças repentinas em sua vida.

Talentoso como poucos, Stewart realiza aqui um de seus melhores trabalhos, encarnando muito bem o tipo caipira que chega a cidade grande e se encanta, demonstrando deslumbramento, por exemplo, diante de obras como a estátua de Lincoln ou o Capitólio dos Estados Unidos. Além disso, os diálogos ágeis da maioria dos personagens só reforçam a grande atuação dele, que fala pausadamente no inicio, evidenciando seu deslocamento naquele local e criando uma aura de inocência que, por exemplo, faz a imprensa se aproveitar para espalhar notícias sensacionalistas com base em pequenas declarações, o que leva o protagonista a distribuidor socos e pontapés – num momento crucial que marca a perda da inocência de Smith, que passa a enxergar a dura realidade da política.

Quando Saunders explica o complexo sistema para aprovar um projeto no senado, Smith demonstra fascínio com seu queixo apoiado em suas mãos, enquanto ela demonstra tédio diante de tamanha burocracia. No entanto, com o passar do tempo o idealismo dele emociona a experiente secretária e a empatia entre eles começa a aflorar, assim como os melhores momentos da marcante atuação de Jean Arthur. Repare, por exemplo, como ela convence quando surge bêbada conversando com Diz ou quando revela a verdade para Smith sobre o esquema de propinas que impediria seu projeto de sair do papel. Já na apresentação do projeto ao senado é Stewart quem dá um show, novamente surgindo nervoso com sua voz trêmula e expressão retraída, o que torna sua postura no ato final ainda mais impressionante, quando surge confiante, determinado e se mantém firme até cair exausto após horas defendendo sua posição, numa atuação soberba e digna de aplausos.

Paine acusa SmithDeterminada Clarissa SaundersConfiante, determinado e se mantém firmeApoiando-se na força de Saunders (daí a origem do inventivo nome do filme em português), Smith encontra forças para defender-se das acusações que sofre no senado, numa batalha comovente que gruda o espectador na cadeira durante todo o eletrizante ato final, quando o poder de Taylor fica ainda mais evidente, controlando a máquina, a imprensa e praticamente todos os integrantes do estado no senado, numa verdadeira luta de gigantes contra um mero cidadão comum – o que, por razões óbvias, força ainda mais nossa identificação com o protagonista e nos leva a torcer por seu sucesso.

Assim, “A Mulher faz o Homem” é um grande filme sobre o complexo jogo de interesses que move a política desde a origem da humanidade. Como podemos perceber, este não é um problema recente, ainda que isto não sirva de desculpa para justificar nossa acomodação diante dos escândalos que de tempos em tempos surgem por aí. Ao que parece, no embate entre o idealismo e os interesses obscuros, foi o primeiro quem levou a pior e ficou esquecido no passado.

A Mulher faz o Homem foto 2Texto publicado em 21 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

ACONTECEU NAQUELA NOITE (1934)

20 maio, 2013

(It Happened One Night)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #104

Vencedores do Oscar #1934

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas, Alan Hale, Arthur Hoyt, Blanche Friderici, Charles C. Wilson, Irving Bacon, Ward Bond e Eddy Chandler.

Roteiro: Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams.

Produção: Frank Capra.

Aconteceu Naquela Noite[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da história a vencer os cinco principais prêmios da Academia de Hollywood, “Aconteceu Naquela Noite” marcou época também por ser a primeira comédia-romântica de sucesso da história do cinema, misturando dois gêneros com forte apelo popular de maneira orgânica e bastante divertida. Apoiando-se no ótimo texto e nas boas atuações de Gable e Colbert, Frank Capra realizou um longa delicioso, repleto de cenas memoráveis e responsável por estabelecer alguns padrões narrativos que são religiosamente seguidos no gênero ainda hoje.

Escrito por Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams, “Aconteceu Naquela Noite” tem início quando o jornalista desempregado Peter Warren (Clark Gable) encontra Ellie (Claudette Colbert), a filha foragida do milionário Alexander Andrews (Walter Connolly) que abandonou seu iate após este não aprovar seu casamento com o também bem sucedido King Westley (Jameson Thomas). Interessado no potencial jornalístico da trajetória da moça, Peter decide acompanhá-la numa longa viagem, mas acaba se envolvendo com ela no caminho.

Determinada e convicta desde os primeiros segundos em cena, Claudette Colbert compõe a arredia Ellie como uma mulher de personalidade forte, dedicada a conquistar seus objetivos independentemente do que seja preciso para alcançá-los, mas sem jamais perder seu lado frágil e sensual por causa disto. Assim, não surpreende o fato de Peter se apaixonar por ela, já que o próprio espectador é fisgado pelo carisma da personagem. Encarnando um protagonista típico da filmografia de Capra (o homem comum que se vê numa situação desconfortável, mas consegue mudar seu destino através do esforço), Gable se sai bem ao ilustrar como Peter vê em Ellie a grande chance de dar uma resposta ao seu antigo chefe após perder o emprego sem que, para isto, precise adular a moça, o que faz com que os primeiros contatos entre eles sejam rudes, já que ambos têm personalidades muito marcantes.

No entanto, lentamente eles começam a se aproximar, e Capra conduz este processo com exatidão, tornando esta aproximação verossímil e praticamente inevitável – e repare a expressão de Gable quando ela coloca as mãos no peito dele no ônibus que, assim como a reação dela ao acordar, evidencia como eles gostam do contato, ainda que evitem demonstrar isso para o outro. Assim como é fácil entender porque ele é atraído por ela, também não é difícil compreender o que chama a atenção da garota, já que Gable cria um Peter estiloso, com seu charme natural sendo realçado por pequenos detalhes como o uso constante do chapéu e pela aura misteriosa conferida pela fumaça de seu charuto. Determinado a escrever sobre a aventura dela (“Vou escrever um livro sobre isso”, diz sempre que algo lhe interessa), Peter deixa claro que não é tão bom quando parece quando ameaça entregar a garota para o pai, mas este traço só enriquece o personagem e torna sua mudança de comportamento ainda mais interessante.

Arredia EllieHomem comumExpressão de GableSeu conflito de sentimentos começa a ganhar força quando ele decide ajudar Ellie a cuidar de seu dinheiro, num dos primeiros sinais de preocupação por parte dele. Com o passar dos dias, este interesse vai se tornando evidente na medida em que ambos demonstram mudanças no comportamento. Prisioneira da vida luxuosa que levava, ela se encanta com coisas simples da vida como uma música popular cantada por todos no ônibus; e Peter meio que simboliza esta mudança pra ela. Obviamente, tudo isto soa verdadeiro graças à empatia entre Gable e Colbert, que mantém uma dinâmica muito boa e carregam a narrativa com facilidade.

Mas “Aconteceu Naquela Noite” se beneficia também dos excelentes momentos de bom humor espalhados pela narrativa, como o passageiro que ronca e o que fala sem parar no ônibus, a sequência em que Peter e Ellie roubam o carro do homem que roubava quem pedia carona (uma ousadia para a época) e a hilária cena em que Peter explica sua teoria dos polegares pedindo carona, na qual Ellie encontra uma solução prática que realça o lado sensual de sua personagem, também evidenciado em outros momentos como quando ela pendura as roupas no cobertor que separa as camas deles – uma barreira física que simboliza muito bem a tensão sexual existente entre eles. Aliás, Capra procura valorizar sua atriz em diversos momentos, utilizando o rack focus nos closes em seu rosto, numa técnica que era muito usada para amenizar imperfeições na pele das atrizes.

Esta, no entanto, é uma das raras técnicas utilizadas por Capra que chamam a atenção, já que o diretor preza pela discrição adotando poucos movimentos de câmera inventivos e preferindo os planos estáveis que, reforçados pela iluminação da fotografia de Joseph Walker, buscam valorizar os atores, tornando raros os movimentos mais ousados como o travelling que acompanha Ellie indo do quarto para o banho pelo ambiente externo; mas, por outro lado, criando cenas visualmente belíssimas como aquela em que as luzes refletem na água enquanto Peter e Ellie atravessam um rio durante a noite. Obviamente, a montagem de Gene Havlick é importante neste processo, surgindo igualmente discreta apesar do uso constante dos fades com deslocamento lateral da imagem.

Solução práticaCobertor que separa as camas delesPeter e Ellie atravessam um rioCapra encontra espaço ainda para uma pequena crítica social na sequência em que uma mãe passa fome com seu filho no ônibus, mas acerta mesmo na condução de cenas memoráveis, como aquela em que Peter e Ellie fingem ser um casal discutindo diante dos detetives e aquela em que Peter finge ser o sequestrador dela para protegê-la do ambicioso Oscar Shapeley (Roscoe Karns), assustando o pobre homem que desiste de seguir viagem com eles. Além disso, o diretor se sai ainda melhor nas cenas românticas, como quando eles quase se beijam deitados na palha, numa cena em que o silêncio que predomina torna tudo ainda mais interessante, acertando também na bela cena em que ela sai detrás do cobertor e se declara.

Após uma sequência de mal entendidos, “Aconteceu Naquela Noite” finalmente chega ao seu clímax, gerando um conflito que separa o casal e traz tensão à narrativa – um recurso narrativo criado na época e utilizado tantas vezes em filmes do gênero desde então que se tornou um clichê quase insuportável, mas que funciona bem aqui justamente pelo contexto histórico. Desesperado, Peter quase desiste de Ellie – e um plano do pneu de seu carro murchando ilustra perfeitamente seu sentimento diante da eminente perda da amada. Mas, pra sua sorte, uma conversa entre pai e filha antes da cerimônia de casamento com Westley não apenas confirma a inteligência e o grande coração do homem interpretado com carisma por Walter Connolly como abre caminho para que Ellie siga seu desejo, nos levando a divertida e surpreendente fuga da cerimônia que fecha tão bem a narrativa e garante o final feliz.

Comédia leve e repleta de boas atuações, “Aconteceu Naquela Noite” é um marco na história do cinema, exercendo influência num dos gêneros mais conhecidos e rentáveis de Hollywood até os dias de hoje.

Aconteceu Naquela Noite foto 2Texto publicado em 20 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

GENTE COMO A GENTE (1980)

22 fevereiro, 2013

(Ordinary People)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #103

Vencedores do Oscar #1980

Dirigido por Robert Redford.

Elenco: Donald Sutherland, Timothy Hutton, Mary Tyler Moore, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh, Judd Hirsch e Dinah Manoff.

Roteiro: Judith Guest e Alvin Sargent.

Produção: Ronald L. Schwary.

Gente como a Gente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Assim como aconteceu com “Como era verde meu vale”, “Gente como a Gente” ficou marcado por vencer um filme melhor na cerimônia do Oscar, ganhando a antipatia de muitos cinéfilos com o passar dos anos. Só que, enquanto o longa dirigido por John Ford está longe de ser um grande filme, o drama dirigido por Robert Redford ao menos é bastante competente, ainda que seja inferior à obra-prima “Touro Indomável”, que realmente deveria vencer o premio daquele ano. Nem por isso, é justo desmerecer o bom trabalho realizado neste filme humano, recheado com ótimas atuações e dirigido com tanta simplicidade e talento.

Escrito por Judith Guest e Alvin Sargent, “Gente como a Gente” nos apresenta o triste cotidiano da família Jarrett após a morte do filho mais velho do casal Calvin (Donald Sutherland) e Beth (Mary Tyler Moore) afetar profundamente a vida deles, especialmente a do caçula Conrad (Timothy Hutton), que presenciou o acidente fatal do irmão e, sentindo-se culpado, chegou a tentar o suicídio. Convencido pelo pai a procurar tratamento psicológico com o Dr. Berger (Judd Hirsch), o jovem tenta superar os traumas do passado, mas o processo acaba sendo doloroso não apenas para ele, mas para toda sua família.

Repleto de diálogos carregados de mágoa, “Gente como a Gente” já inicia num tom melancólico, expressado pelas ruas cobertas de folhas secas numa típica tarde de Outono que surgem embaladas pela bela trilha sonora instrumental orquestrada por Jack Hayes e composta por Marvin Hamlisch. Desde então, Robert Redford deixa evidente que apostará numa abordagem discreta, evitando chamar mais a atenção para si do que para a alta carga dramática da narrativa. Seguro atrás das câmeras como costuma ser na frente delas, o diretor conduz o filme com simplicidade e elegância, apostando em planos médios e closes que realçam as atuações, evitando invencionismos desnecessários para o desenvolvimento de uma narrativa baseada nos diálogos. Nem por isso, Redford deixa de imprimir um estilo próprio, que curiosamente remete ao seu estilo sutil e minimalista de atuar. Observe, por exemplo, como durante uma festa dos amigos de Beth, Redford conta com seu montador Jeff Kanew para alternar entre os planos, empregando closes que demonstram o teor artificial das conversas e ainda criam a atmosfera maçante pretendida pelo diretor.

Visualmente, Redford também sabe explorar o bom trabalho de sua equipe técnica, a começar pela fotografia de John Bailey, que começa “Gente como a Gente” apostando numa paleta dessaturada que, por sua vez, realça as cores sem vida dos figurinos de Bernie Pollack como o bege e o azul marinho. Com a evolução da narrativa e dos problemas de Conrad, as sombras e as cenas noturnas passam a predominar (especialmente nas sessões no psiquiatra), ilustrando a agonia do garoto, representada também no escritório sufocante e bagunçado do Dr. Berger – o que é mérito do design de produção de Phillip Bennett e J. Michael Riva. Observe, por exemplo, como quando ele fala sobre a mãe, a fotografia investe pesado nas sombras e torna o escritório num local obscuro – num momento, aliás, em que o leve movimento de câmera de Redford nos aproxima com elegância do rosto de Conrad e evidencia sua tristeza.

Mas se evita exibicionismos na movimentação de sua câmera, Redford demonstra muita habilidade na direção de atores, extraindo atuações que evitam transformar aqueles personagens em caricaturas unidimensionais. Inicialmente, somos apresentados ao cotidiano daquela família comum e, com o passar do tempo, percebemos que existe um conflito ali. Só que estas descobertas acontecem lentamente. Primeiro, fica evidente que Conrad tem problemas, principalmente pela forma como é tratado por seu preocupado pai. Contudo, a razão desta preocupação surge apenas quando o garoto aceita procurar um psiquiatra e decide falar abertamente sobre sua tentativa de suicídio, motivada pela traumatizante morte do irmão que o atormenta todos os dias. Em seguida, percebemos um atrito na relação dele com a mãe, que pouco a pouco vai sendo escancarado, conforme ele toma coragem para enfrentar a situação. Por vezes, Beth e Conrad mais parecem estranhos, tamanha a frieza com que se relacionam.

Demonstrando mais dificuldade para aceitar a perda de um filho e compreender o outro, Beth por vezes chega a irritar com seu jeito egoísta de lidar com os problemas – e a composição cuidadosa de Mary Tyler Moore transmite a sensação de que ela preferia que o filho mais velho tivesse sobrevivido sem que ela jamais diga isto claramente. Mas, nos momentos em que explode e escancara seu sofrimento pela perda do primogênito, Beth se torna mais humana e se aproxima um pouco mais da plateia, o que é ótimo justamente por evitar que ela se torne uma personagem rasa e unidimensional, que poderia facilmente afastar o espectador, ainda mais diante da postura pacificadora do marido dela. Compondo Calvin com uma estranha mistura de carisma e apatia, Donald Sutherland se sai bem como o pai protetor e preocupado que não sabe o que fazer para manter o equilíbrio emocional de uma família afetada por uma tragédia, algo que fica ainda mais evidente pela maneira confusa e nervosa que ele se comporta diante do Dr. Berger.

Sofrimento pela perda do primogênitoMistura de carisma e apatiaJovem amarguradoA razão de tanta preocupação é Conrad. Assumindo o papel mais difícil de “Gente como a Gente”, Timothy Hutton transmite muito bem a insegurança e a ansiedade daquele jovem amargurado, movimentando-se constantemente, evitando olhar diretamente para as pessoas e alterando o tom de voz sempre que se sente intimidado. Bastante instável emocionalmente – como atesta a cena no McDonald´s -, Conrad raramente consegue encontrar a paz e nem mesmo a pratica de um esporte como a natação serve para aliviar a pressão psicológica que ele mesmo se impôs. Inseguro ao ponto de treinar antes de ligar para uma garota, Conrad transmite a constante sensação de que está prestes a desistir da vida, o que é mérito da cuidadosa composição do ator. Hutton se destaca ainda na tocante conversa com o Dr. Berger após a morte da amiga Karen (Dinah Manoff), que ilustra o quanto Conrad se culpa pela morte do irmão.

Firme e direto, Judd Hirsch cria um Dr. Berger bastante seguro, que sabe tratar Conrad como adulto e evita a todo custo fazer com que ele se sinta vítima, mesmo que, para isso, precise recorrer a uma frieza desconcertante que por vezes parece até carregada com requintes de crueldade. Por outro lado, a doçura é representada pela simpática e bela Jeannine, interpretada por Elizabeth McGovern como uma garota simultaneamente atirada e compreensiva, que consegue alegrar e acalmar a vida de Conrad sempre que aparece. No entanto, a chave para compreender melhor a mente do rapaz está na outra moça que surge em seu caminho.

Conversa com o Dr. BergerDr. Berger bastante seguroSimpática e bela JeannineApresentada durante a dolorida conversa ocorrida dentro de um restaurante, a Karen de Dinah Manoff representa um ponto de apoio psicológico para Conrad, um exemplo vivo de que é possível superar o trauma e viver bem, ainda que a garota eventualmente deixe transparecer alguma tristeza – e o diálogo entre eles deixa claro que estamos acompanhando duas pessoas muito sofridas que tentam disfarçar a dor da melhor maneira possível. Mesmo distante, Karen faz com que Conrad se sinta melhor somente por saber que ela está bem e isto é essencial para que o espectador compreenda porque o garoto perde totalmente o equilíbrio quando, já no terceiro ato, ouve a trágica notícia do suicídio da garota.

A dificuldade para compreender o outro é justamente a razão pela qual a família Jarrett tanto sofre. Por isso, os diálogos entre eles escondem sob aquela carcaça polida e formal uma alta carga de tensão e parecem sempre prestes a provocar uma discussão, ainda que seja por um motivo aparentemente fútil, como na emblemática cena da foto de família que escancara os problemas entre mãe e filho ou na pesada discussão também entre eles na véspera do Natal. Estes duelos verbais são o ponto alto de “Gente como a Gente”. Mas existem outros diálogos marcantes, como aquele em que um amigo diz para Calvin que “cedo ou tarde eles se vão”, relembrando a dura realidade que qualquer pai tem dificuldade para encarar.

A perda de um filho é certamente um trauma quase impossível de superar. Assim, quando Calvin, mergulhado nas leves sombras do alvorecer, decide expor para Beth sua insatisfação diante da postura fria dela com seu filho, sabemos que aquela atitude pode jogar a última pá de cal naquela relação já deteriorada. No entanto, a saída dela de casa nos leva a sensível conversa entre pai e filho que, mesmo num tom agridoce, encerra bem este drama humano e belo.

Comandando uma história pesada que poderia facilmente cair no melodrama barato, Robert Redford demonstrou maturidade e competência suficientes para extrair grandes atuações de seu elenco e fazer deste “Gente como a Gente” um filme bastante respeitável.

Gente como a Gente foto 2Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

O FRANCO-ATIRADOR (1978)

21 fevereiro, 2013

(The Deer Hunter)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #102

Vencedores do Oscar #1978

Dirigido por Michael Cimino.

Elenco: Robert De Niro, Christopher Walken, Meryl Streep, John Cazale, John Savage, Chuck Aspegren, Pierre Segui, George Dzundza, Shirley Stoler e Rutanya Alda.

Roteiro: Deric Washburn, baseado em argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker.

Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall e Barry Spikings.

O Franco-Atirador[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criar expectativas é algo sempre negativo quando falamos de cinema. Quanto maior a expectativa criada, maiores são as chances de nos decepcionarmos com um filme, ainda que este apresente um resultado agradável. Mas como não se empolgar quando os créditos iniciais anunciam nomes como os de Robert De Niro, Meryl Streep e John Cazale, além do menos badalado, mas também competente Christopher Walken? No entanto, ainda que seja tecnicamente bem realizado e tente apostar numa interessante abordagem intimista, “O Franco-Atirador” se perde completamente em seus aspectos políticos e éticos, chegando a soar ofensivo e racista pela maneira desprezível que o diretor Michael Cimino retrata os rivais norte-americanos na guerra do Vietnã.

Escrito por Deric Washburn a partir de argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker, “O Franco-Atirador” narra a trajetória dos amigos Michael (De Niro), Nick (Walken) e Steven (John Savage), que são convocados para a Guerra do Vietnã e se veem obrigados a deixarem a família e os amigos para trás. Após viverem experiências traumáticas no conflito, dois deles conseguem regressar ao país, mas a vida de todos os envolvidos nunca mais será a mesma após eles terem experimentado os horrores da guerra.

Partindo da interessante premissa de nos apresentar as graves consequências psicológicas provocadas pela guerra naquele grupo de trabalhadores de uma pequena cidade no interior dos EUA, “O Franco-Atirador” se apoia ainda em seu excepcional elenco, repleto de nomes capazes de carregar qualquer narrativa com facilidade. Portanto, é uma pena que Cimino utilize um elenco de primeira qualidade num filme tão maniqueísta, que beira o jingoísmo pela forma como retrata os vietnamitas (voltarei ao tema em instantes).

Ainda assim, o longa apresenta um resultado agradável quando observamos somente os aspectos técnicos da produção. Observe, por exemplo, como a fotografia de Vilmos Zsigmond realça o clima melancólico daquela cidade industrial, apostando em cores frias que casam bem com a sujeira das ruas e os galhos secos das árvores, assim como fazem os figurinos sem vida de Eric Seelig e os ambientes poucos iluminados concebidos pelo design de produção de Ron Hobbs e Kim Swados. Da mesma forma, os tristes acordes da canção tema reforçam esta atmosfera, assim como as boas músicas escolhidas para a trilha sonora de Stanley Myers, com exceção apenas da trilha erudita que confere um tom épico à caçada dos cervos nas montanhas.

Montanhas que são captadas com elegância pelos belos enquadramentos de Cimino, que ainda apresenta um bom repertório de planos e movimentos de câmera interessantes. Por isso, mais uma vez é lamentável que o diretor utilize este talento para enviar mensagens nada sutis, como quando faz questão de focar por um longo tempo a bandeira dos Estados Unidos e a faixa com os dizeres “Servimos a Deus e a pátria com orgulho”. Além disso, em certo momento um homem pergunta para Michael se “nós ganhamos a guerra” e fica sem resposta, escancarando a grande fantasia norte-americana de ter vencido no Vietnã, que ficaria ainda mais evidente nas produções vindouras do país durante a “era Reagan”.

Apostando numa abordagem mais intimista na primeira metade do filme, Cimino investe um longo tempo no desenvolvimento das relações entre os personagens, mostrando o grupo bebendo no bar e se divertindo, o que ajuda a criar empatia com a plateia. No entanto, o pretensioso diretor se empolga e estende demais a sequência do casamento e da festa, que claramente poderia ser enxugada pelo montador Peter Zinner para melhorar o ritmo da narrativa. Ainda assim, esta longa sequência serve para nos aproximar daquelas pessoas, especialmente de Michael e Nick, que evidenciam suas fortes personalidades durante a caçada que precede o embarque para o Vietnã. Assim, quando este momento se aproxima, já nos sentimos mais íntimos daqueles jovens, o que confere um tom ainda mais melancólico à cena da despedida no bar, com as expressões tristes dos personagens, a música tocada no piano e o próprio travelling lento de Cimino que é abruptamente cortado pelas explosões das bombas já no Vietnã.

Clima melancólicoServimos a Deus e a pátria com orgulhoPovo do VietnãDemonstrando um maniqueísmo nojento desde o primeiro minuto no Vietnã em que um soldado local surge explodindo mulheres e crianças, Cimino não se envergonha de retratar a guerra como um conflito claramente dividido entre os norte-americanos bonzinhos que vieram pregar a paz e os cruéis vietnamitas que se aglomeram e pagam para ver pessoas explodindo as próprias cabeças, esquecendo-se das motivações políticas desprezíveis que levaram os EUA a intervir naquela guerra. Aliás, o povo do Vietnã é retratado como um bando de idiotas, numa coleção de seres da pior estirpe, como assassinos, jogadores sedentos por sangue e prostitutas que vendem o corpo diante dos próprios filhos. Além disso, as manifestações em massa sempre buscam deteriorar a imagem daquelas pessoas, como no primeiro plano da volta de Michael ao Vietnã que mostra o povo tentando desesperadamente invadir a embaixada norte-americana.

Ciente de que suas cenas de combate não impressionam, Cimino rapidamente salta do momento da chegada ao Vietnã para a sequência em que Michael, Nick e Steven estão presos. Assim, se num instante acompanhamos o grupo sofrendo um bombardeio, na cena seguinte eles já surgem enjaulados, em outro corte abrupto que desta vez depõe contra o trabalho dele e de seu montador. Ao menos, aqui Cimino consegue criar momentos de alta tensão, extraindo ainda excelentes atuações de seu elenco. Observe, por exemplo, como John Savage demonstra com precisão o desespero e a angústia de Steven enquanto aguarda para ser chamado pelos cruéis vietnamitas, ao passo em que De Niro transmite tranquilidade ao parceiro e ao espectador com seu tom de voz baixo e controlado. Durante o jogo da roleta russa, De Niro novamente se destaca, demonstrando muito bem sua ira e, ao mesmo tempo, sua compaixão pelo sofrimento do amigo.

Aliás, Christopher Walken também apresenta um desempenho excepcional nesta sequência eletrizante, com seu riso tenso e o olhar assustado demonstrando que Nick não sabe o que esperar diante daquela angustiante situação, segundos antes de Michael atirar nos vietnamitas e conseguir escapar. E se repito por diversas vezes a expressão “vietnamitas”, é porque Cimino faz questão de sequer dar nome aos habitantes locais, na mais perfeita confirmação de sua visão ufanista do conflito. Deste ponto em diante, o solitário Nick começa a se desapegar do passado e a perder o sentido na vida, perambulando pelo Vietnã até se reencontrar nos perigosos jogos de roleta russa promovidos por um grupo clandestino local. Após as torturas sofridas na guerra, viver ou morrer era indiferente, apenas uma questão de sorte que ele estava disposto a encarar.

Entre os que ficaram nos Estados Unidos, John Cazale encarna Stoch como alguém que parece sempre irritado e desconfiado, ao ponto de andar com uma arma na cintura e transmitir a constante sensação de que está sempre pronto para uma briga, ao passo em que George Dzundza pouco pode fazer com o tempo que tem com seu John. E finalmente, a grande Meryl Streep já demonstrava seu talento neste que é apenas o seu segundo papel na carreira. Mesmo com uma participação relativamente pequena, ela consegue conferir humanidade a Linda, equilibrando-se entre a felicidade ao ver Michael de volta e a tristeza por não reencontrar Nick.

Angústia de StevenNick não sabe o que esperarHumanidade a LindaSentindo-se deslocado nesta volta ao país, Michael sequer consegue caçar e chega ao ponto de fazer a tal roleta russa com Stoch, num momento de pura insanidade que poderia tirar a vida do amigo. Demonstrando este incômodo com precisão, De Niro mais uma vez comprova sua enorme qualidade como ator, compondo outro personagem impactante através de suas expressões viscerais durante as torturas na guerra que se contrapõem diretamente aos olhares contidos em sua volta; que, por sua vez, refletem as graves consequências de tudo que ele sofreu.

Infelizmente, esta sequência da volta de Michael também é mais extensa do que deveria e quebra novamente o ritmo da narrativa, que só retoma o fôlego quando ele decide voltar ao Vietnã para resgatar o amigo perdido, nos levando a outra cena eletrizante envolvendo os jogos de roleta russa que culmina na impressionante morte de Nick – e aqui vale reparar como a fotografia se torna mais sombria, apostando na falta da luz para criar uma atmosfera sufocante. Após ver Steven ficar paralítico, Michael estava agora diante de um novo trauma, testemunhando a morte do amigo de maneira tão idiota.

Só que, aparentemente, nem mesmo os trágicos resultados da guerra fazem com que aquele grupo de pessoas questione as motivações de seu país, o que nos leva à deprimente cena que encerra “O Franco-Atirador”, com todos cantando “Deus abençoe a América” e confirmando a visão míope de Cimino. Assim, a longa extensão e o maniqueísmo exacerbado da narrativa acabam ofuscando a boa intenção de mostrar os trágicos resultados psicológicos e físicos da guerra.

O Franco-Atirador foto 2Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

A UM PASSO DA ETERNIDADE (1953)

20 fevereiro, 2013

(From Here to Eternity)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #101

Vencedores do Oscar #1953

Dirigido por Fred Zinnemann.

Elenco: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Jack Warden, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra, Philip Ober, Mickey Shaughnessy, Ernest Borgnine e George Reeves.

Roteiro: Daniel Taradash, baseado em peça de James Jones.

Produção: Buddy Adler.

A um passo da eternidade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O cotidiano de uma base militar do exército norte-americano é retratado com sensibilidade neste belo “A um passo da eternidade”, um dos grandes vencedores da história do Oscar que, infelizmente, parece um pouco esquecido atualmente. Contando com atuações inspiradas de praticamente todo seu talentoso elenco, o diretor Fred Zinnemann utilizou o tenso período que antecedeu a entrada definitiva dos EUA na segunda guerra mundial para criar um profundo estudo sobre as relações humanas.

Baseado em peça de James Jones, o roteiro de Daniel Taradash se passa praticamente o tempo inteiro numa ilha do Havaí, onde o novato recruta Prewitt (Montgomery Clift) é submetido a um tratamento de choque por parte de seus superiores somente porque não aceita lutar boxe pela companhia do exército. Com o passar do tempo e a ajuda do soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra) e da prostituta Lorene (Donna Reed), ele acaba conquistando o respeito do Sargento Warden (Burt Lancaster), que, por sua vez, se apaixona pela bela Karen Holmes (Deborah Kerr), a esposa de seu superior imediato, o rígido Capitão Holmes (Philip Ober).

Como podemos perceber somente pela premissa da narrativa, “A um passo da eternidade” nos apresenta uma vasta gama de personagens, algo que, nas mãos de um diretor menos habilidoso, poderia tornar o longa confuso. No entanto, a maneira como Zinnemann desenvolve aqueles relacionamentos faz com que o espectador compreenda a narrativa com clareza, ainda que fique intrigado diante das insinuações sobre o passado de alguns deles. Obviamente, é preciso dar crédito também ao roteiro de Taradash, que através de diálogos muito bem construídos confere uma ambiguidade interessante aquele grupo de pessoas, que se tornam ainda mais complexas graças às boas atuações de todo o elenco. Ali, ninguém é exatamente o que parece ser.

Seguindo na linha da direção discreta de Zinnemann, a fotografia de Burnett Guffey abusa das luzes e mesmo nas cenas noturnas não chega a ser obscura, evitando chamar a atenção para si e permitindo que o espectador se concentre exclusivamente no desenvolvimento daquelas relações. Da mesma forma, a econômica trilha sonora de George Duning surge apenas em momentos pontuais, mas sempre de maneira eficiente, como no primeiro encontro entre Warden e Karen e especialmente na icônica cena do beijo deles na praia.

Assim, a narrativa acertadamente se concentra muito mais no relacionamento entre os personagens do que no desenvolvimento da história em si. Num primeiro momento, esta escolha pode dar a sensação de que nada de fato está acontecendo, mas lentamente percebemos as diversas camadas daqueles personagens complexos e a narrativa engrena. Aliás, o longa tem um ritmo bem interessante que jamais se torna aborrecido, também pela forma como o montador William A. Lyon equilibra as diversas linhas narrativas (o caso de Warden e Karen, a relação de Prewitt e Lorene, as ações dentro e fora do exército, etc.).

Em “A um passo da eternidade” tudo é muito sutil, o que pode levar espectadores mais precipitados a criarem uma visão unidimensional daqueles personagens. Só que ninguém ali é exatamente bom ou ruim, com exceção do Capitão Holmes de Philip Ober que, ainda assim, tem seu momento de humanidade quando afirma dolorosamente que só traiu a esposa uma vez. Até mesmo o sexo é sugerido de maneira sutil, como quando Lorene sai para atender um cliente e deixa Prewitt esperando, voltando momentos depois.

Prewitt que é interpretado com competência e carisma por Montgomery Clift, que antes mesmo de dizer qualquer palavra já indica aos seus novos líderes que não deseja mais lutar somente através de um leve movimento no olhar. Determinado, o jovem provoca a ira do Capitão, um apaixonado por boxe que planeja vencer um campeonato e aposta no talento de Prewitt para conquistar seu objetivo. Só que nem mesmo as irritantes punições impostas ao garoto conseguem dobrá-lo; e é impressionante a maneira como Clift demonstra firmeza e, ao mesmo tempo, transmite a sensação de que o personagem está sempre próximo de seu limite, o que é essencial para que o espectador compreenda o único momento em que ele não resiste e parte para a briga com o Sargento Galovitch (John Dennis), ainda que seja numa luta a céu aberto e não no ringue como o Capitão queria. Finalmente, Clift se sai muito bem no tocante momento em que Prewitt revela porque parou de lutar, demonstrando a dor que ainda sente pela fatalidade ocorrida no passado.

Passado que também atormenta o relacionamento entre o Capitão Holmes e sua esposa Karen, como notamos numa discussão que, se não explica muito, já diz o suficiente para indicar o desgaste da relação provocado por uma traição. Deborah Kerr encarna a personagem com um ar misterioso que funciona muito bem, revelando lentamente a razão da infelicidade dela. Primeiro compreendemos que ela foi traída, depois observamos sua solidão e a forma grosseira que é tratada pelo marido e, finalmente, descobrimos seu desejo de ter filhos, que terá reflexo no tocante momento em que ela revela para Warden como perdeu seu bebê. Vulnerável, Karen passou a se envolver com diversos homens em busca da felicidade perdida em algum lugar do passado, o que motiva os comentários nada elegantes feitos pelos colegas de exército de Warden.

Impondo respeito com seu porte físico e grande carisma, Burt Lancaster encarna Warden com a mesma ambiguidade dos outros personagens, intercalando momentos em que parece agressivo e outros em que demonstra grande sensibilidade. Sua trajetória talvez seja a mais interessante dentre todos, especialmente pela forma como se aproxima de Prewitt e, especialmente, pela maneira como se entrega a paixão que sente por Karen, ainda que demonstre grande incômodo diante das insinuações a respeito do passado dela.

Prewitt revela porque parou de lutarKaren revela como perdeu seu bebêSe entrega a paixãoAliás, é interessante notar como os homens se preocupam com o passado das mulheres em “A um passo da eternidade”, já que Prewitt também demonstra uma mórbida curiosidade pelo passado de Lorene e, assim com Warden, se incomoda com isto. Linda e charmosa, a Lorene de Donna Reed é outra mulher misteriosa e ambígua, que num instante parece apaixonada por Prewitt e no outro fala de seus planos para o futuro de maneira assustadoramente ambiciosa (“Não quero casar com um soldado”), demonstrando grande preocupação com sua dignidade e segurança (o que, convenhamos, também é compreensível). Isto não significa que ela não goste de Prewitt de verdade e não se importe com ele; e seu desespero ao vê-lo retornar para o exército durante o ataque dos japoneses comove justamente por acreditarmos na personagem.

Fechando o elenco, Frank Sinatra tem uma boa atuação como o esquentado Angelo Maggio, que se torna o porto seguro de Prewitt naquele mar de hostilidade, saindo-se bem em momentos especiais como quando surge alcoolizado na boate ou quando foge da prisão para morrer nos braços do amigo. Maggio é também o responsável por iniciar uma das grandes cenas do filme, quando, logo após ver o amigo Prewitt dar um pequeno show no bar, não resiste à provocação do grandalhão Sargento Fatso (Ernest Borgnine) e inicia uma briga que só terminará com a imponente intervenção do Sargento Warden, num momento que é vital para selar a amizade entre este último e Prewitt e que também influenciará o trágico destino do próprio Maggio.

Ainda que a grande força da narrativa esteja nos relacionamentos, Zinnemann consegue construir bem os poucos momentos de tensão, como nesta briga em que Warden se impõe e conquista o respeito de Prewitt. Além disso, o diretor encontra espaço para raras ousadias, como quando mostra apenas as caixas que encobrem o momento crucial da briga entre Prewitt e o Sargento Fatso, deixando o espectador ainda mais tenso quando o segundo levanta antes do protagonista, somente para cair ensanguentado logo depois enquanto Prewitt surge no segundo plano. Vale mencionar ainda o impressionante plano aéreo durante o surpreendente ataque dos japoneses à base militar, numa sequência que hoje pode até soar visualmente datada, mas que ainda mantém o senso de urgência planejado pelo diretor.

Desespero ao vê-lo retornar para o exércitoImponente intervenção do Sargento WardenMomento crucial da brigaOutro momento memorável ocorre quando Warden e Prewitt se encontram numa noitada e conversam bêbados sobre seus problemas no meio de uma estrada, num grande momento da atuação de Lancaster e Clift que antecede a triste morte de Angelo. Mas talvez o momento mais sublime do longa seja mesmo o melancólico diálogo em que Warden diz para Karen que “nunca foi tão infeliz quanto é agora com ela” e que “não trocaria isto por nada”, somente para ouvir a mesma resposta duas vezes: “Eu também”. Este pequeno e precioso diálogo define muito bem os personagens de “A um passo da eternidade”.

Encerrado num tom melancólico que nos apresenta os personagens sobreviventes ao ataque a Pearl Harbor seguindo caminhos distintos, “A um passo da eternidade” deixa uma desconfortável sensação de que a felicidade plena jamais poderia ser alcançada por aquelas pessoas. Por mais que elas tentassem superar os obstáculos, novos sempre surgiriam para atrapalharem seus planos. E é justamente este gosto agridoce e tão próximo da realidade que torna o filme dirigido por Fred Zinnemann tão humano e tão belo.

A um passo da eternidade foto 2Texto publicado em 20 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

A MALVADA (1950)

19 fevereiro, 2013

(All About Eve)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Filmes em Geral #100

Vencedores do Oscar #1950

Dirigido por Joseph L. Mankiewicz.

Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Gregory Ratoff, Barbara Bates, Marilyn Monroe e Thelma Ritter.

Roteiro: Joseph L. Mankiewicz, baseado em argumento de Mary Orr.

Produção: Darryl F. Zanuck.

A Malvada[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Assim como sua personagem, Bette Davis já era uma estrela em decadência quando aceitou participar da obra-prima “A Malvada”, longa de Joseph L. Mankiewicz que utiliza o mundo do teatro para retratar com precisão os bastidores do show business de maneira geral. Contando com um elenco formidável, uma atuação antológica de Davis e apoiando-se ainda em seu ótimo roteiro, o diretor entregou um filme memorável, que merece lugar de destaque entre as grandes obras já produzidas pela sétima arte.

Escrito pelo próprio Mankiewicz baseado em conto de Mary Orr, “A Malvada” narra à trajetória de ascensão meteórica de Eve Harrington (Anne Baxter), uma fã da grande estrela do teatro Margo Channing (Bette Davis) que alcançou o estrelato e venceu o respeitado prêmio Sarah Siddons após se envolver com a própria Margo, o marido dela e diretor Bill Sampson (Gary Merrill), sua grande amiga Karen Richards (Celeste Holm), o esposo dela e roteirista Lloyd Richards (Hugh Marlowe) e, finalmente, o crítico Addison DeWitt (George Sanders).

Empregando uma direção clássica e sem firulas que busca valorizar seu talentoso elenco, Mankiewicz demonstra desde o princípio que sabe muito bem onde reside a maior força de “A Malvada”. Não que o longa não tenha aspectos técnicos interessantes, como a fotografia de Milton Krasner que, após iniciar com um visual mais claro e limpo, lentamente vai se tornando mais obscura, simbolizando o lado negro de Eve que aflora com o passar do tempo. Além disso, os charmosos ternos e vestidos que desfilam pela festa na casa de Margo, as roupas e objetos espalhados pelo teatro, a decoração do camarim e a própria roupa simples que Eve veste quando surge pela primeira vez realçam o bom trabalho da figurinista Edith Head e da direção de arte de George W. Davis e Lyle Wheeler.

No entanto, é mesmo no talento de seu elenco e no impecável roteiro que “A Malvada” se ampara. Adotando uma curiosa narração que inicia na voz do crítico DeWitt, passa por Karen no início de um flashback, passa por Margo e volta para DeWitt, o roteiro chama a atenção não apenas pelos diálogos extremamente bem construídos, mas também por sua estrutura narrativa perfeita. De cara, enquanto o apresentador da cerimônia de premiação tece elogios para a jovem Eve, as expressões no rosto de quem conviveu com ela indicam a desaprovação de todos, que se confirma quando Karen e Margo não aplaudem a vencedora do prêmio. Desde então, a estrutura narrativa criada por Mankiewicz deixa claro que o importante não é saber que Eve chegou ao estrelato, mas sim mostrar “como” ela chegou lá. Neste caso, os meios interessam mais do que o fim.

Também é importante compreender que “A Malvada” se passa numa época em que os produtores eram poderosos e os atores eram as grandes estrelas do teatro, como notamos quando DeWitt diz que os “prêmios menores” eram dados para diretores e roteiristas, algo que também ocorria no cinema – somente na Nova Hollywood é que os diretores de cinema se tornariam poderosos nos EUA. Por isso, o longa tem até mesmo um caráter metalinguístico, já que a personagem interpretada pela excepcional Bette Davis era, de certa forma, um retrato da própria estrela decadente do cinema.

Assumindo o papel de Margo Channing com paixão e talento, Davis interpreta a grande estrela do teatro da época que acolhe inocentemente a jovem Eve somente para vê-la tomar seu lugar num curto espaço de tempo. Surgindo confiante e imponente, Margo lentamente vai sendo minada pela situação, ainda que durante o processo ela lute contra tudo e contra todos para permanecer em alta. Ilustrando este processo de degradação com precisão, Davis oferece uma atuação soberba, recheada de momentos antológicos como o tocante monólogo num carro em que ela fala sobre a “carreira de mulher”. Inicialmente tratando Eve como uma simples fã, ela começa a perceber que a garota não é tão ingênua quando a surpreende se imaginando no palco com um vestido dela. Com a convivência, Margo começa a desconfiar de Eve e as expressões de Davis indicam claramente sua mudança de pensamento em relação à garota, reforçada pelas insinuações de sua assistente Birdie. Desconfiada e dona de um humor negro impagável, a ótima Thelma Ritter faz de Birdie o alívio cômico que serve ainda como alerta para o espectador sobre as reais intenções de Eve.

Confiante e imponente MargoCarreira de mulherEve conta sua história de vidaA atuação de Anne Baxter como Eve é igualmente fabulosa. No início, sua fala contida e em tom baixo e o olhar que evita o contato direto com as pessoas criam um contraponto interessante ao olhar superior e confiante da estrela Margo. Só que, embalada pela trilha sonora melancólica de Alfred Newman, Eve conta sua história de vida e, com seu carisma, rapidamente ganha à atenção de todos. Com jeitinho e muito cuidado, ela vai pavimentando seu caminho para o sucesso, ainda que para isto tenha que passar por cima dos outros. Astuta, Eve raramente deixa transparecer suas reais intenções e seu desejo de tornar-se uma estrela, como acontece durante a festa na casa de Margo, quando se empolga sem perceber ao falar sobre os aplausos da plateia. Quando finalmente substitui Margo numa peça, Eve assume sua verdadeira personalidade e Baxter já surge confiante, com o olhar penetrante e a voz firme, sentindo-se capaz até mesmo de seduzir Bill. Não bastava substituir a estrela, ela queria ter tudo que Margo tinha. Esta transformação chega ao auge na excelente cena em que Eve ameaça Karen no banheiro e exige o papel de Cora, surgindo totalmente confiante e persuasiva, com um olhar insinuante que mostra como ela é capaz de fazer qualquer coisa para chegar aonde quer.

Após roubar o estrelato de Margo e tentar roubar até mesmo seu marido, Eve parte para conquistar Lloyd, pensando exclusivamente nos benefícios que esta união traria para sua carreira. E, obviamente, esta jornada trouxe consequências muito graves para todos os envolvidos, gerando discussões calorosas que começam na citada festa na casa de Margo, onde Bette Davis dispara a célebre frase: “Apertem os cintos, esta será uma noite turbulenta”. Comprovando seu controle da misè-en-scene, Mankiewicz extrai ótimas atuações de todo o elenco nestes momentos, como na feroz discussão após um teste em que Eve substitui Margo, onde a guerra de egos entre diretor, roteirista e atriz dá espaço para acusações pesadas enquanto Eve, que provocou tudo aquilo, sai de fininho – observe como após a discussão, Mankiewicz diminui Margo na tela, num plano que indica o início de sua decadência.

Ainda entre os destaques do elenco, Gary Merrill se sai muito bem nas realistas discussões entre Margo e o marido Bill, enquanto Celeste Holm confere humanidade a Karen ao demonstrar seu arrependimento por trair a amiga e, especialmente, quando ri aliviada no jantar após Margo anunciar que não quer mais o papel de Cora. Já Hugh Marlowe ilustra bem como Lloyd é lentamente hipnotizado por Eve, enquanto a linda Marilyn Monroe tem uma rápida participação como uma aspirante ao estrelato que é massacrada por Eve num teste. E finalmente, George Sanders quase rouba a cena como o crítico DeWitt, demonstrando na expressão de seu rosto que desconfia da história contada por Eve desde o princípio e protagonizando a memorável cena em que desmascara a garota e mostra que nem todos caíram na lábia dela.

Confiante, olhar penetrante e voz firmeRi aliviada no jantarCrítico DeWittAliás, é incrível como o tema de “A Malvada” continua atual. Não são raras as ocasiões em que jovens passam por cima de todos para alcançarem o sucesso, não apenas no meio artístico, mas em quase todas as profissões. É possível até mesmo traçar um paralelo entre a trajetória de Eve e a postura de “carreiristas” no meio corporativo. Quem já trabalhou em grandes corporações sabe como este tipo de comportamento é comum e, o que é pior, normalmente é recompensado. Pessoas que fingem serem totalmente altruístas, mas que estão à espreita da primeira oportunidade para chegarem ao topo, independente dos meios que utilizem para isto.

Repleto de diálogos memoráveis e atuações exuberantes, “A Malvada” é destes filmes que não envelhecem. E se o talento de todos os envolvidos é responsável direto por isso, seu tema principal também colabora bastante, já que a ambição pelo sucesso é algo que o ser humano naturalmente carrega, ainda que nem todos precisem de ferramentas tão sujas quanto às utilizadas por Eve Harrington para serem bem sucedidos. Ainda que tenha pisado em todos ao seu redor, Eve de fato chegou ao topo, mas neste mundo tudo é passageiro e a ótima sequência final ilustra que sempre existirão novas “Eves”.

A Malvada foto 2Texto publicado em 19 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

FARRAPO HUMANO (1945)

18 fevereiro, 2013

(The Lost Weekend)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #99

Vencedores do Oscar #1945

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard Da Silva, Frank Faylen, Doris Dowling e Mary Young.

Roteiro: Billy Wilder e Charles Brackett, baseado em novela de Charles R. Jackson.

Produção: Charles Brackett.

Farrapo Humano[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Billy Wilder já era um cineasta reconhecido e respeitado em Hollywood quando finalmente venceu seu primeiro Oscar de direção por este “Farrapo Humano”, um estudo sufocante sobre o alcoolismo que, além de contar com o enorme talento do diretor, traz ainda uma atuação simplesmente estupenda de Ray Milland na pele do protagonista viciado. Incrivelmente atual, o longa está longe de ser um mero libelo antialcoolismo, trazendo um complexo estudo de seu personagem e, mesmo numa época em que os estúdios costumavam interferir muito nas produções, entregando um resultado admiravelmente corajoso.

O longa inicia quando Don Birnam (Ray Milland) se prepara para viajar com o irmão Wick (Phillip Terry) e a namorada Helen (Jane Wyman) para o campo, onde ficaria distante das bebidas e poderia tentar se livrar do alcoolismo. Só que, após convencê-los a alterar o horário da viagem para assistir uma peça, Birnam sai para beber e desencadeia uma série de acontecimentos que só o afundam cada vez mais no vício, deixando-o mais distante de realizar seu sonho de se tornar um escritor.

Como é característico em sua filmografia, o roteiro escrito pelo próprio Wilder ao lado de Charles Brackett é recheado de diálogos ágeis, que se tornam ainda mais velozes pela maneira como são pronunciados pelos atores, numa estratégia que inteligentemente confere ritmo a narrativa. Ainda assim, existe espaço para que a marcante trilha sonora de Miklos Rozsa pontue os momentos mais dramáticos, aumentando o volume dos acordes e ajudando a criar a atmosfera pretendida pelo diretor. Exibindo movimentos de câmera mais estilizados que de costume, Wilder cria sequências muito interessantes, como no zoom que nos aproxima do rosto de Birnam antes do primeiro flashback, que, por sua vez, serve para aliviar um pouco uma narrativa até então sufocante, numa escolha acertada do diretor e seu montador Doane Harrison, que também se destaca pela maneira elegante que realiza as transições do dia para a noite e da noite para o dia, ilustrando como Birnam perde a noção do tempo quando começa a beber.

Ainda na direção, Wilder abre “Farrapo Humano” com um travelling que nos leva até a janela do protagonista, revelando uma garrafa pendurada do lado de fora e, ao mesmo tempo, ilustrando nossa condição de meros observadores daquela trajetória de autodestruição – e repare como um simples plano rápido de um cigarro na janela já permite que o espectador antecipe que Wick descobrirá a garrafa pendurada. E o mais curioso é que desde o início fica evidente a condição peculiar de Birnam, que até tenta deixar o alcoolismo de lado quando conhece Helen, mas nunca chega a realmente desejar parar. As pessoas que o cercam querem que ele pare, o espectador quer que ele pare, mas ele mesmo não quer. Também por isso, vale destacar o plano em que Birnam liga para Helen de dentro de uma cabine no hotel segundos antes de voltar a se afundar no vício, num simbolismo perfeito da verdadeira prisão que o alcoolismo representa para ele.

Garrafa pendurada do lado de foraVerdadeira prisãoRosto suadoProfundo conhecedor da linguagem cinematográfica, Wilder utiliza a câmera para fazer com que o espectador praticamente sinta o desespero de Birnam para beber, empregando closes em seu rosto suado e realçando as expressões marcantes de Milland. Assim, “Farrapo Humano” obtém sucesso absoluto na tarefa de demonstrar com clareza como funciona o alcoolismo. Em certo momento, Birnam diz para o barman Nat (Howard Da Silva) que durante a noite a bebida é um aperitivo, mas de manhã ela funciona como remédio (“Qualquer marca serve, é tudo igual”, diz). Por isso, ele se desespera quando não encontra uma bebida sequer em seu apartamento, demonstrando grande alívio quando acha uma garrafa perdida, após um interessante plano que revela o paradeiro dela. Aliás, observe como na maioria das vezes em que Birnam entra no apartamento portando garrafas, a fotografia de John F. Seitz se torna mais sombria, simbolizando mais um passo do personagem em direção ao fundo do poço.

O visual se torna ainda mais obscuro e sufocante a partir do momento em que ele é internado num hospital, abrindo espaço para os impressionantes delírios de um paciente. Estes delírios também atormentam o próprio protagonista em dois momentos que, mesmo soando um pouco datados visualmente, ainda mantém a capacidade de nos atormentar, especialmente no segundo caso, quando ele imagina o ataque de um morcego em seu apartamento.

Demonstrando que o alcoolismo comanda sua vida desde os primeiros instantes, Birnam mal consegue organizar seus pensamentos, encontrando a felicidade somente quando segura um copo ou uma garrafa – e até mesmo seu apartamento bagunçado e suas roupas amassadas ilustram este descaso com a vida, realçando o bom trabalho de direção de arte de Hans Dreier e Earl Hedrick e da ótima figurinista Edith Head. Assumindo este difícil papel com personalidade e talento, Ray Milland surge agressivo, gritando em diversos momentos e reagindo de maneira visceral a qualquer manifestação que o contrarie. No entanto, o grande mérito do ator é evitar que o personagem se torne uma caricatura e se afaste completamente da plateia, algo que seria muito fácil se nos baseássemos somente em suas atitudes. Afinal, ele rouba dinheiro do irmão, não se importa com o sofrimento da namorada e muito menos com os sentimentos de uma pretendente. Além disso, perambula pela cidade com sua máquina de escrever, na esperança de conseguir uns trocados para poder comprar mais bebidas.

Ataque do morcegoApartamento bagunçadoPerambula pela cidadeEntretanto, ainda que muito sutilmente, podemos perceber que algo de bom existe dentro daquele homem amargurado, seja quando passeia pela cidade e cumprimenta as pessoas (“Este é o moço gentil que bebe”, diz uma mulher), seja quando assume sua condição sufocante, como no sensacional monólogo no bar em que afirma se sentir como Shakespeare quando bebe, num dos inúmeros grandes momentos da atuação de Milland. Em outro instante, chega a ser comovente a maneira como ele admite seu vício diante de Helen e revela seu desejo frustrado de ser escritor; e são justamente estes momentos, além é claro do carisma de Milland, que permitem que o personagem crie empatia com a plateia, o que é essencial para não nos distanciar da narrativa. Mesmo com todos seus problemas, nós torcemos pelo sucesso do deplorável Birnam.

Quem também se preocupa muito com ele é batalhadora e apaixonada Helen, interpretada com carisma por Jane Wyman e que se torna responsável pelos raros momentos em que ele considera a possibilidade de parar, além é claro de seu irmão Wick, vivido por Phillip Terry e que, após muito tempo lutando, acaba se irritando com a situação e decide deixá-lo para trás, talvez por entender que jamais Birnam conseguiria se livrar do alcoolismo.

E esta é basicamente a mensagem de “Farrapo Humano”, evidenciada ao longo de toda a narrativa através da metáfora dos círculos, “a forma geométrica perfeita, sem começo e sem fim”. Wilder faz questão de utilizar constantemente este simbolismo, seja através do close nos círculos formados pelo copo no balcão do bar ou pela própria estrutura da narrativa, que inicia e termina com o mesmo movimento de câmera, ilustrando que, apesar do tom levemente otimista do final (talvez alguma imposição do estúdio na época), o diretor quer ressaltar que o alcoolismo é uma doença praticamente sem cura, como o próprio personagem afirma em diversos momentos. Ou seja, independente do que aconteça, basta um simples gole para que o alcoólatra volte ao seu círculo de autodestruição.

O longa tem ainda sua porção de cenas capazes de nos deixar apreensivos, como quando Birnam rouba a bolsa de uma mulher e é expulso de um bar ou toda a sequência final em que ele se prepara para o suicídio, na qual o espectador realmente teme pelo futuro do personagem. Só que o grande mérito de “Farrapo Humano” reside mesmo no fato de abordar o alcoolismo com tamanha seriedade numa época em que isto representava uma ousadia temática notável. Mais do que isto, o longa de Wilder consegue humanizar aquele personagem que poderia ser detestável, servindo como um belo estudo não apenas daquele homem, mas do próprio alcoolismo, uma doença complexa e mal compreendida por muitos até hoje.

Farrapo Humano foto 2Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

DUELO DE TITÃS (2000)

19 dezembro, 2012

(Remember the Titans)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #95

Dirigido por Boaz Yakin.

Elenco: Denzel Washington, Will Patton, Wood Harris, Ryan Hurst, Ryan Gosling, Donald Faison, Craig Kirkwood, Ethan Suplee e Kate Bosworth.

Roteiro: Gregory Allen Howard.

Produção: Jerry Bruckheimer e Chad Oman.

Duelo de Titãs[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história do esporte é uma fonte inesgotável de inspiração para todo e qualquer artista que se proponha a pesquisá-la. Independente da modalidade escolhida, inúmeros são os casos de superação, ascensão repentina e decadência absoluta, além das diversas oportunidades em que o esporte provou ter influência na política e na sociedade de maneira geral. O problema é que estas histórias tendem a ser repetitivas e, ainda que tenham as melhores intenções por trás do projeto, tornam-se esquemáticas e previsíveis demais nas mãos de um diretor menos habilidoso. Infelizmente, este é o de “Duelo de Titãs”.

Baseado numa história real e com grande potencial, o fraco roteiro escrito por Gregory Allen Howard nos leva ao início dos anos 70 na Virginia, EUA, quando a integração racial começava a ganhar força nas escolas, para o protesto da grande maioria da população local. Assim, a simples substituição do técnico de um time de futebol americano numa universidade é capaz de gerar enorme desconforto tanto entre os jogadores como em toda a sociedade somente porque o antigo treinador Bill Yoast (Will Patton) é branco e o novo técnico Herman Boone (Denzel Washington) é negro. Diante deste contexto, a dura missão do novo treinador vai além de formar uma equipe competitiva, tendo também que forçar os jogadores a superarem suas diferenças e conquistarem o campeonato.

A grande sacada de “Duelo de Titãs” é justamente utilizar o esporte como pano de fundo para abordar o racismo nada velado daquele período da historia norte-americana. Por isso, é muito interessante observar a maneira crua como o roteiro mostra que o racismo estava cravado na cultura do local, com professores, alunos, comerciantes e até mesmo os próprios pais demonstrando enorme preconceito racial, como fica evidente no protesto contra a integração feito pelas mães dos alunos que nos leva a refletir como o ser humano é mesmo capaz de fazer coisas horríveis. Por isso, utilizar o esporte como um fator de união entre as pessoas é algo que normalmente funciona, ainda que isto não seja nada original. Só que os meios utilizados por Howard e pelo diretor Boaz Yakin para nos levar a esta agregação é que são decepcionantes.

Abusando de diversas situações mais que batidas, a dupla cria uma sequência de discussões e conflitos totalmente artificiais, fazendo com que a narrativa soe cada vez menos realista. Aliás, os conflitos entre negros e brancos são tantos que, antes da metade da projeção, já estamos entediados, num excesso que esvazia o efeito que estes embates poderiam causar. Pra piorar, a dupla aposta no velho clichê dos brancos e negros que primeiro se odeiam para depois se adorarem, só que felizmente esta transição ocorre rapidamente e, apesar de soar pouco verossímil, traz uma melhora sensível na narrativa, tornando-a mais interessante quando eles começam a se dar bem, graças também à dinâmica do grupo, que realça a boa atuação coletiva daqueles jovens.

Protesto contra a integraçãoConflitos entre negros e brancosGrupo carismáticoNa verdade, extrair boas atuações do elenco de apoio é um dos raros acertos de Yakin em “Duelo de Titãs”. Com atores certos nos papeis certos, ele consegue criar um grupo carismático, onde se destacam o determinado Gerry (Ryan Hurst), o sensível Julius (Wood Harris), o inteligente “Raios de Sol” (Kip Pardue) e o divertido Alan Bosley, interpretado por um ainda jovem Ryan Gosling. Apesar disso, nem sempre os atores conseguem driblar as falhas gritantes do roteiro. Repare, por exemplo, como num instante “Raio do sol” surge intimidado e sem confiança somente para em seguida se transformar num líder nato, capaz de orientar toda a equipe e virar uma partida – esta vibrante partida, aliás, consegue empolgar mesmo com sua pequena duração, o que não acontece na maioria dos jogos.

Entre os atores mais conhecidos, a postura durona e autoritária de Herman Boone combina muito bem com o estilo de Denzel Washington, mas não com a profissão de treinador, já que este método militar e ultrapassado não se encaixa mais aos modelos modernos de liderança. Ainda assim, o competente Washington leva bem a narrativa, ainda que seu personagem chegue bem perto de se tornar antipático. Já o estilo mais humano e intimista de liderar de Bill Yoast consegue recuperar jogadores e aproximá-lo do grupo, mas isto é insuficiente para que ele se torne o “bom moço” diante da plateia, graças exclusivamente a inexpressividade gritante de Will Patton.

Durão e autoritárioMais humano e intimistaClosesAparentemente sem perceber a falta de expressividade de Patton, Yakin abusa de close-ups não apenas dele, mas de todo o elenco. Além disso, ao imprimir um ritmo acelerado e cheio de cortes secos nos treinamentos e jogos, Yakin e seu montador Michael Tronick tornam as sequências confusas, não permitindo que o espectador compreenda o que está acontecendo com clareza – e mais uma vez o excesso de closes do diretor só piora as coisas nestes momentos. Ao menos, o estádio, os uniformes dos jogadores e a iluminação precisa utilizada nas partidas noturnas nos ambientam com precisão ao clima dos jogos, o que é mérito do design de produção de Deborah Evans, dos figurinos de Judy Ruskin Howell e da fotografia de Philippe Rousselot.

Da mesma forma, o design de som merece destaque por permitir que o espectador ouça desde detalhes como o apito e os gritos dos jogadores até os sons mais intensos dos choques entre eles e da vibração da torcida. Por outro lado, apesar de apresentar músicas empolgantes como a que acompanha um treinamento de madrugada, a trilha sonora de Trevor Rabin se excede constantemente, especialmente quando tenta ressaltar algum momento dramático como no ataque à casa de Boone. Além disso, as músicas diegéticas (cantadas pelos atletas) são repetitivas e enjoam.

Repetição, aliás, é uma palavra que define bem “Duelo de Titãs”, já que constantemente temos aquela sensação de estar assistindo mais do mesmo. O desfile de clichês continua com o mais que previsível acidente de Gerry, anunciado assim que ele convida Julius para sair e o amigo se recusa. Tentando conferir naturalidade a sequência, Yakin escorrega ao focar o rosto do garoto olhando para o lado segundos antes da colisão, permitindo que o espectador antecipe o que irá acontecer e, consequentemente, diminuindo o impacto da cena. Seguindo a tendência de todo o filme, a partida final é totalmente previsível e sem graça, permitindo que o espectador antecipe seu resultado muito tempo antes de sua concretização. Fica óbvio que “Rev” (Craig Kirkwood) será um jogador chave na partida desde o instante em que ele pede para jogar a final, assim como fica óbvio que as mudanças dos treinadores trarão resultado imediato no confronto assim que eles “abrem mão do orgulho” e aceitam conselhos. Assim, todos se reconciliam e vivem felizes, como aconteceria em qualquer novela do horário nobre.

Usar o esporte como pano de fundo para abordar um tema tão complicado quanto o preconceito racial é um dos raros trunfos de “Duelo de Titãs”. Infelizmente, no entanto, este acerto é diluído diante de tantos problemas.

Duelo de Titãs foto 2Texto publicado em 19 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

JERRY MAGUIRE – A GRANDE VIRADA (1996)

18 dezembro, 2012

(Jerry Maguire)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #94

Dirigido por Cameron Crowe.

Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renée Zellweger, Kelly Preston, Jerry O’Connell, Bonnie Hunt, Jay Mohr, Regina King, Jonathan Lipnicki, Todd Louiso, Mark Pellington, Donal Logue, Eric Stoltz, Lucy Liu e Beau Bridges.

Roteiro: Cameron Crowe.

Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark e Richard Sakai.

Jerry Maguire - A Grande Virada[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando decidiu escrever e dirigir “Jerry Maguire”, Cameron Crowe era apenas um ex-colaborador da tradicional revista “Rolling Stone” com dois filmes no currículo. Entretanto, ao apostar na mistura de dois gêneros recheados de clichês e na força do então maior astro de Hollywood, ele finalmente alcançou o sucesso. Com boas atuações, alguns diálogos interessantes e uma abordagem mais humanista de temas batidos, o diretor/roteirista entregou um bom filme, que está longe de ser uma obra-prima, mas nos diverte de maneira delicada e eficiente.

O longa narra a trajetória de Jerry Maguire (Tom Cruise), um agente esportivo picareta e eficiente que, após ser confrontado pelo filho de um jogador lesionado, decide escrever uma declaração sugerindo que os agentes esportivos sejam mais humanos, ganhem menos e deem mais atenção aos seus clientes. Como consequência, ele acaba demitido da agência em que trabalha e acaba abrindo a própria agência, ao lado da também ex-funcionária Dorothy Boyd (Renée Zellweger). O problema é que dentre todos os atletas agenciados por Jerry, somente o jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.) decide continuar com ele.

Se comédias românticas dificilmente conseguem fugir de certos clichês, filmes de esporte não ficam nem um pouco atrás, normalmente trazendo histórias de superação repletas de situações batidas que já estamos mais do que acostumados a ver. Ciente disso, Crowe se mostra inteligente o bastante para não tentar desconstruir estes gêneros, já que esta tarefa exigiria um esforço tremendo e um talento digno de um Tarantino – algo que, convenhamos, Crowe sabe que não é. Ao invés disso, ele aposta numa abordagem mais realista, menos sentimental e mais humana, obtendo um resultado que, se não enche os olhos, ao menos soa sincero e, por isso, agrada.

Ainda assim, Crowe não escapa de situações convencionais dos dois gêneros, mostrando a queda em desgraça do protagonista que, obviamente, se recuperará, o atleta que não é conhecido e que chegará ao sucesso (ainda que, neste caso, seja através de uma situação bem diferente daquela que imaginamos) e o casal que só descobre que se ama de verdade após uma breve separação. Entretanto, se comete alguns equívocos que prejudicam seu trabalho, Crowe ao menos escapa do clichê “mocinha briga com mocinho e deixa a cidade” no último instante ao fazer com que ela fique e se case com ele. No entanto, a briga é apenas adiada e momentos depois eles decidem “dar um tempo”, num diálogo tocante em que Cruise e Zellweger se saem muito bem. Além disso, o igualmente previsível drama que Rod enfrenta no ato final tem um desfecho bem agradável e abre espaço para que Cuba Gooding Jr. abuse de seus maneirismos e exageros sem prejudicar a narrativa, da mesma forma que o esperado reencontro entre Jerry e Dorothy se salva pela forma delicada em que é conduzido pelo diretor – além, é claro, das atuações convincentes da dupla romântica.

Eles decidem dar um tempoDrama de RodReencontroTambém seguindo a fórmula das comédias românticas, a fotografia de Janusz Kaminski investe em cores quentes e cenas diurnas, colaborando para a sensação de bem estar da plateia que é reforçada pela montagem ágil de Joe Hutshing e David Moritz. Igualmente, a econômica trilha sonora aposta em belas músicas como “Secret Garden”, de Bruce Springsteen, para embalar momentos marcantes como a saída de Jerry e Dorothy para um jantar. E se não ganha grande destaque na maior parte do tempo, ao simular as batidas aceleradas do coração de Jerry o design de som nos prepara para uma negociação importantíssima para o futuro dele segundos antes do agente entrar na casa de Cush (Jerry O’Connell), além de se destacar durante as partidas, realçando o barulho das arquibancadas e os choques entre os atletas com precisão.

A abordagem leve da narrativa se confirma através de interessantes tiradas do diretor, como o divertido mentor de Jerry que surge de vez em quando para deixar algumas de suas mensagens motivacionais. Só que, para uma comédia romântica, “Jerry Maguire” tem poucos momentos realmente capazes de provocar o riso, ainda que algumas sequências sejam memoráveis, como quando Jerry grita no telefone (“Show me the Money!”) ou quando Dorothy decide sair da empresa junto com ele, numa cena em que a boa atuação de Cruise ganha ainda mais destaque pelos trejeitos e exageros do ator. Aliás, se a parte técnica e até mesmo a direção de Crowe é discreta, é também porque o diretor sabe que “Jerry Maguire” é um filme essencialmente de personagens e, por isso, são eles que devem brilhar. Empregando constantemente o tradicional plano/contraplano, ele realça o que o longa tem de melhor e evita ofuscar as boas atuações com excesso de virtuosismos. Ainda assim, o diretor utiliza a câmera ágil para nos colocar dentro dos jogos, nos permitindo sentir o calor das partidas.

Jerry Maguire é tão egocêntrico que até mesmo a narração é feita em primeira pessoa. Famoso pela cara de pau com que mente e por enganar qualquer um, ele se beneficia desta fama para conseguir os melhores contratos para seus jogadores – e o sorriso constante de Cruise só colabora para criar esta aura de falsidade no personagem. Agindo com naturalidade em diversos momentos, como quando Jerry tenta cantar diversas músicas no carro até finalmente conseguir encontrar aquela que casa com seu estado de espírito, Cruise confere enorme carisma ao agente, conquistando a plateia quase que instantaneamente, o que é vital para que o espectador torça por seu sucesso profissional e pessoal, a despeito de seus métodos inicialmente desprezíveis. Inteligente, Jerry conquista Dorothy também através de seu filho Ray (Jonathan Lipnicki), afinal, que mãe não gosta de ver alguém tratando bem seu filho? Ele acaba criando tanta afinidade com o garoto que, no fim das contas, é justamente ao vê-lo chorando que Jerry decide propor Dorothy em casamento. Ironicamente, é também o garoto que serve de escudo para que Jerry evite discutir a relação com Dorothy quando fica evidente que ele casou por gratidão e não por amor.

Aura de falsidadeTratando bem seu filhoTímida e atrapalhadaTímida e atrapalhada, a Dorothy de Zellweger se mostra empolgada diante da presença de Jerry desde a saída do avião, ainda na sequência que abre o filme. Constantemente observando casais que trocam carícias, ela escancara sua carência para Jerry de maneira nada sutil, mas compensa sua falta de prática na arte da paquera com grande carisma, desarmando-se completamente enquanto se envolve com o novo chefe. Por isso, chega a ser dolorido acompanhá-los levando aquela relação adiante mesmo sabendo que estão apenas curando sua carência ao lado de outra pessoal igualmente ressentida. E, também por isso, tanto a breve separação quanto o esperado retorno do casal conseguem conquistar o espectador, ainda que seja apenas a repetição de uma velha fórmula do gênero.

Claramente se divertindo no papel, Cuba Gooding Jr. chama a atenção sempre que entra em cena com seu jeito espalhafatoso que cai muito bem no divertido Rod. Seus diálogos com Jerry são sempre envolventes e engraçados, demonstrando a química entre os atores e dando vida a narrativa. Por isso, é uma pena que o roteiro invista pouco na boa dinâmica dos dois, gastando muito tempo no previsível relacionamento entre Jerry e Dorothy. Por sua vez, Bonnie Hunt evita transformar Laurel no estereótipo da irmã mais velha e chata que sente inveja da mais nova, demonstrando carinho e preocupação com ela justamente por não querer vê-la sofrer, mas vibrando com os momentos felizes da irmã (como quando sorri sozinha na janela ao escutar a noite de amor da caçula). E fechando o elenco, Kelly Preston vive a agitada e maluca Avery, a ex-noiva de Jerry que termina com ele por um motivo totalmente artificial e arbitrário inserido pelos roteiristas apenas para liberar o caminho do protagonista.

Longo demais para uma comédia romântica, “Jerry Maguire” ao menos trata a relação entre o casal principal de maneira adulta, tornando seus personagens um pouco mais críveis e aproximando-os da plateia. Com um final alegre, este típico “feel good movie” se destaca também pelas boas atuações, nos divertindo e, ao mesmo tempo, deixando algumas reflexões que podem não mudar o mundo, mas fazem com que o espectador se sinta mais humano.

Jerry Maguire - A Grande Virada foto 2Texto publicado em 18 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira


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