Posts Tagged ‘Charlton Heston’

A MARCA DA MALDADE (1958)

24 novembro, 2011

(Touch of Evil)

 

Filmes em Geral #76

Dirigido por Orson Welles.

Elenco: Orson Welles, Charlton Heston, Janet Leigh, Zsa Zsa Gabor, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Joanna Cook Moore, Marlene Dietrich, Victor Millan, Lalo Rios, Valentin de Vargas e Ray Collins Dennis.

Roteiro: Orson Welles, baseado em livro de Whit Masterson.

Produção: Albert Zugsmith.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dezessete anos depois de dirigir e estrelar aquele que é considerado por muitos críticos como o filme mais importante da história, Orson Welles voltou a comprovar sua genialidade neste legitimo filme noir, que utiliza as características do gênero para fazer também um profundo e brutal estudo de personagem. Em “A Marca da Maldade”, Welles esmiúça um homem amargurado pelo passado, que, superficialmente, parece apenas mais um vilão unidimensional, mas em sua essência, revela-se tragicamente mais complexo.

Escrito pelo próprio Welles, baseado em livro de Whit Masterson, “A Marca da Maldade” nos apresenta a história de Miguel Vargas (Charlton Heston), um chefe de polícia mexicano que decide investigar o assassinato de um milionário no meio de sua lua-de-mel com a esposa Susan (Janet Leigh), numa pequena cidade localizada na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Em pouco tempo, ele se depara com o detetive local Hank Quinlan (Orson Welles), que assume as investigações e começa a se desentender com Vargas, graças à sua maneira nada convencional de resolver o caso.

Utilizando os conflitos da zona de fronteira entre os EUA e o México como pano de fundo, “A Marca da Maldade” nos apresenta uma narrativa complexa, típica dos filmes noir, que nos apresenta diversos personagens num submundo de crime, decadente e repleto de cinismo. Com inteligência, o roteiro aproveita até mesmo as diferentes nacionalidades do casal para criar situações potencialmente tensas, como quando ela se recusa a ficar no México e acaba hospedada num hotel isolado no deserto norte-americano. Contando com o bom trabalho dos montadores Edward Curtiss, Aaron Stell e Virgil W. Vogel, Welles conduz a narrativa num ritmo interessante, alternando bem entre as cenas de Susan no hotel e a investigação de Vargas na cidade. Mas apesar da trama envolver a investigação de um crime, é no estudo do capitão Hank Quinlan que está o grande mérito do longa, que lentamente nos apresenta as diversas facetas daquele homem.

Ainda na parte técnica, no primeiro e no terceiro ato Orson Welles – auxiliado pelo diretor de fotografia Russell Metty – cria um visual sombrio, com muitas cenas noturnas e pouca iluminação, deixando apenas o segundo ato ser predominado por uma fotografia mais clara, com cenas diurnas e em ambientes abertos. A atmosfera noir é completada ainda pelos figurinos de Bill Thomas, que veste os homens com os famosos sobretudos, e a direção de arte de Robert Clatworthy e Alexander Golitzen, que cria cidades decadentes na fronteira dos dois países, refletindo a situação econômica da época. E de maneira inteligente, a trilha sonora diegética de Henry Mancini utiliza instrumentos presentes nos cenários (como rádios e vitrolas) para tocar música mexicana e ambientar o espectador ao local.

Mas apesar do apuro técnico, o grande destaque é mesmo a direção de Orson Welles, que se impõe desde o memorável plano-seqüência que abre o filme, acompanhando a colocação da bomba no carro de um conhecido cidadão local, passando pelo casal Vargas que caminha tranqüilamente pela rua e terminando com a chocante explosão do veículo, que prende imediatamente o espectador à narrativa. Empregando elegantes travelling e movimentos de câmera, como aquele que revela o isolamento do hotel em que Susan está hospedada – e dá a exata noção do perigo que ela corre quando os sobrinhos de Grandi (Akim Tamiroff) chegam ao local -, o diretor se destaca ainda nos pequenos detalhes, como ao utilizar uma caixa de papelão para nos indicar os métodos controversos de trabalho de Hank. Em outro momento, Hank pergunta sobre a esposa de Vargas e a câmera destaca suas mãos mexendo nos ovos em um ninho, numa metáfora interessante para a própria condição do mexicano, que, assim como aquela galinha, deixou sua esposa desprotegida num hotel distante.

Só que além de ser um excepcional diretor, Welles era também um ator extraordinário. Em “A Marca da Maldade”, ele cria um Hank amargo e ambíguo, com seu jeito autoritário de falar contrastando diretamente com os momentos em que a lembrança da esposa assassinada revela sua faceta frágil. Aos poucos, somos apresentados ao seu passado sombrio, entendemos melhor suas motivações e sabemos qual é a ligação entre a morte de sua esposa e a situação do jovem Sanchez (Victor Millan), suspeito de matar o milionário por ser casado com a filha dele. Depois de ter “deixado escapar” o assassino da esposa, Hank entende que para prender um criminoso tudo é valido. Seus polêmicos métodos de trabalho apenas refletem as feridas em sua alma e os sentimentos que se escondem sob aquela carcaça durona e nebulosa. E o pior, ele tem plena certeza de que está certo ao agir daquela maneira. Chega a ser tocante observar como aquele homem acredita verdadeiramente que seus repugnantes métodos de trabalho são legítimos, como se estivesse apenas dando uma contribuição para que a justiça fosse feita. Por fim, o ator se sai bem, por exemplo, quando Hank está bêbado, conferindo bastante realismo à cena com seu olhar e tom de voz, numa atuação fantástica, que conta ainda com duelos verbais marcantes com Vargas, o personagem interpretado por Charlton Heston.

Apesar de jamais convencer como um mexicano com seu inglês perfeito e seu bigode falso, Heston está bem como o determinado Vargas, que de tão obstinado por sua profissão, acaba deixando de lado sua esposa, a charmosa Susan interpretada por Janet Leigh (a garota do chuveiro de “Psicose”, que certamente passou a detestar hotéis após estes dois filmes). Infelizmente, o elenco secundário soa bastante caricato em diversos momentos, especialmente o vigia noturno do hotel e alguns dos sobrinhos do mafioso “Tio Joe” Grandi. Por outro lado, os Grandi soam ameaçadores graças à maneira como o roteiro explora os artifícios da lei, fazendo com que eles evitem tocar em Susan na maior parte do tempo, intimidando a garota de outras maneiras, como através da foto tirada na entrada da casa do “Tio Joe”, que poderia complicar a vida dela.

Só que esta linha é ultrapassada quando Hank decide jogar muito sujo com Vargas – seguindo a tradição noir de que “os fins justificam os meios” – e orquestra (ao lado do “Tio Joe”) uma situação envolvendo drogas e orgia, que busca destruir a imagem de Susan diante da sociedade. Astuto, Hank aproveita para se livrar também do próprio “Tio Joe”, assassinando-o e preparando a cena do crime para incriminar a moça. Mas ele não contava com a revelação de seu grande amigo Pete Menzies (Joseph Calleia), que encontra sua bengala no quarto e, surpreendentemente, avisa Vargas. Mesmo desconfiado, Vargas decide confiar em Pete e tenta armar uma situação que denuncie Hank. Caminhamos então para um final apoteótico, com a tentativa desesperada de Vargas de gravar uma conversa entre Hank e Pete e desmascarar o famoso policial enquanto os três passeiam por lugares obscuros até o desfecho memorável numa ponte. E a grande mensagem de “A Marca da Maldade” surge nas palavras da misteriosa Tanya (Marlene Dietrich), que afirma que “Hank era um policial ruim… mas era um homem extraordinário”. A ambigüidade do ser humano está resumida aí.

Considerado o último grande filme noir, “A Marca da Maldade” encerra com dignidade o período clássico do movimento. Com um fascinante estudo de personagem, muitas cenas marcantes e uma trama envolvente, o longa comprova a competência de Orson Welles tanto na direção quanto na atuação, apresentando a dualidade do ser humano de maneira contundente e deixando o espectador reflexivo. O “toque de maldade” do título original em inglês poderia muito bem se referir ao toque especial que Welles dava em seus filmes.

Texto publicado em 24 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

OS DEZ MANDAMENTOS (1956)

26 agosto, 2011

(The Ten Commandments)

 

Videoteca do Beto #110

Dirigido por Cecil B. DeMille.

Elenco: Charlton Heston, Anne Baxter, Yul Brynner, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Vincent Price, Richard Farnsworth, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch, Martha Scott, Judith Anderson, John Carradine, Olive Deering, Douglass Dumbrille e Robert Vaughn.

Roteiro: Eneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss e Fredric M. Frank, baseado nos livros de J.H. Ingraham, A.E. Southom e Dorothy Clarke Wilson.

Produção: Cecil B. DeMille.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos livros têm tanto potencial cinematográfico como a Bíblia Sagrada. Recheado de histórias grandiosas, o livro sagrado cristão é um prato cheio para cineastas ousados, que podem projetar na tela a sua visão sobre aqueles acontecimentos. Por outro lado, histórias bíblicas podem causar aversão em pessoas não cristãs e, nas mãos de diretores errados, podem se transformar em mera propaganda religiosa. Não é o caso de “Os Dez Mandamentos”, épico grandioso e muito bem conduzido por Cecil B. DeMille, que narra à trajetória de Moisés desde que foi colocado ainda bebê num rio até o momento em que lidera a libertação de seu povo do Egito.

Após o Faraó decretar a morte de todos os bebês do sexo masculino, o recém-nascido Moisés (Charlton Heston) é deixado nas águas de um rio, dentro de um cesto, e encontrado por uma princesa egípcia. Já adulto, ele disputa a atenção da jovem Nefretiri (Anne Baxter) com Ramsés (Yul Brynner), o filho do Faraó e herdeiro do trono. Protegido até mesmo pelo Faraó, Moisés vê tudo mudar quando sua verdadeira origem é revelada e ele é condenado à morte. Ramsés, no entanto, não o mata, preferindo expulsá-lo do Egito. Anos depois, Moisés tem um encontro com Deus e descobre sua missão, voltando para o Egito para libertar seu escravizado povo.

Baseado nos livros bíblicos, “Os Dez Mandamentos” explora muito bem o enorme potencial da história original graças à condução precisa de DeMille, que tinha tanto apreço pela obra que decidiu até mesmo fazer a introdução da narrativa pessoalmente. O roteiro acompanha todas as etapas da vida de Moisés, o que torna a narrativa bastante extensa, ainda que jamais deixe de ser envolvente, graças também ao bom ritmo da montagem de Anne Bauchens. Auxiliado pela direção de fotografia de Loyal Griggs, o diretor cria um universo bastante colorido e vivo, explorando muito bem as belas paisagens para criar planos marcantes, como na linda marcha dos camelos pelo deserto de Sur e na impressionante imagem do anjo destruidor que desce em forma de fumaça para matar os primogênitos egípcios. E se esteticamente o diretor se sai muito bem, é na criação de momentos imponentes que a direção segura de Cecil B. DeMille se destaca, explorando muito bem o visual magnífico das locações e a impressionante quantidade de figurantes, como no plano geral que acompanha a saída dos israelitas do Egito. Neste e em outros momentos, como a famosa seqüência no mar vermelho, fica evidente a excelente condução da mise-en-scène do diretor, que coordena aquele enorme grupo de pessoas com eficiência.

Eficiente também é a citada montagem de Anne Bauchens, ainda que hoje o filme soe pouco comercial devido a sua longa duração e alguém possa argumentar que algumas cenas poderiam ser cortadas. Pessoalmente, me senti sugado por aquele universo e aproveitei cada minuto da jornada sem notar o tempo passar. E isto acontece também porque os excelentes figurinos (crédito para Arnold Friberg, Edith Head, Dorothy Jeakins, John Jensen e Ralph Jester), com as armaduras dos soldados e o manto de Moisés, por exemplo, e a direção de arte (crédito para Albert Nozaki, Hal Pereira e Walter H. Tyler), que recria cenários imponentes como os palácios e trabalha em pequenos detalhes como as carroças e as armas, ambientam perfeitamente o espectador. Além disso, a montagem de Bauchens indica com inteligência os saltos da narrativa evitando que ela se torne episódica, por exemplo, quando o filho pequeno de Moisés surge e nos mostra que se passaram alguns anos desde que ele saiu do Egito.

Embalado ainda pela trilha sonora triunfal de Elmer Bernstein, “Os Dez Mandamentos” é recheado de cenas marcantes e grandiosas, como o momento em que Deus fala pela primeira vez com Moisés, a própria inscrição na pedra dos mandamentos e a descida de Moisés do monte, irado diante de um povo infiel, que havia acabado de presenciar um milagre divino e já tinha se entregado a outro ídolo – e vale citar o belo momento em que o fogo se funde ao bezerro de ouro, numa transição elegante de planos. A conversa com Deus, aliás, revela também os bons efeitos visuais, que funcionam perfeitamente na maior parte do tempo, como quando os cajados são transformados em cobras. Mesmo que hoje soem datados, até mesmo os efeitos menos realistas – como o fogo que segura os egípcios do outro lado do mar – eram muito eficientes na época e não comprometem a narrativa. E se os efeitos visuais parecem envelhecidos em alguns momentos, o design de som e os efeitos sonoros continuam simplesmente espetaculares, destacando-se na fuga do Egito e na passagem pelo mar vermelho.

Já na condução do elenco DeMille não é tão feliz, extraindo atuações irregulares que oscilam entre momentos bons e outros de “overacting”. Heston, por exemplo, jamais foi um ator sutil e, ainda que tenha suas limitações, se sai bem como Moisés, mostrando-se inicialmente viril e retratando muito bem o envelhecimento do personagem com o passar dos anos. Sempre seguro, ele passa a demonstrar cansaço no decorrer da narrativa, através da voz e da forma lenta de caminhar, o que, auxiliado pela excelente maquiagem, da uma boa noção da degradação física de Moisés. Por outro lado, o grande Edward G. Robinson cria um Dathan irregular e até mesmo unidimensional, chegando a ser irritante em sua resistência diante dos milagres divinos. Anne Baxter também oscila bastante, mas cria uma Nefretiri insinuante e decidida, que consegue persuadir Ramsés em muitos momentos. Interpretado por Yul Brynner, Ramsés é duro e autoritário sempre que está em cena, também pela voz firme do ator e por sua postura, que impõe respeito na pele do grande vilão da narrativa (repare a sintonia entre o deus Sokar e as roupas pretas de Ramsés, indicando a aura sombria do personagem).

Envolta em magia, a conversa entre Moisés e Deus no monte Sinai determina sua volta para libertar o povo no Egito. Respeitado pelo pai de Ramsés, que chega a pronunciar seu nome antes de morrer, o hebreu volta a terra em que foi criado, desta vez para retirar seu povo escravo de lá. “Egípcio ou hebreu, sou o mesmo Moisés”, afirma em certo momento, mas isto não era verdade. Ele estava mudado após a conversa no monte Sinai e agora sabia a sua missão na terra. E após Deus castigar o Egito com pragas, Ramsés finalmente se convence e liberta os hebreus, dando início a melhor seqüência de “Os Dez Mandamentos”, que começa com a gloriosa saída do Egito e chega ao seu grande momento diante do mar vermelho. Mesmo após tantos anos, a cena da abertura do mar ainda é impactante e prende a atenção do espectador de maneira impressionante. Os ótimos efeitos visuais, a trilha sonora e a forma como DeMille conduz a seqüência criam uma cena poderosa. Após este grande momento, Ramsés volta derrotado e é envolvido, ao lado de Nefretiri, por tons vermelhos no trono, simbolizando o inferno astral do casal. Mas nem mesmo este milagre amoleceria os corações do povo israelita, que ainda marcharia por 40 anos no deserto até alcançar a terra prometida.

Independente de sua crença, o espectador sai satisfeito com o belo espetáculo visual de “Os Dez Mandamentos”. E é justamente na força de suas grandes cenas que reside o sucesso da narrativa. Espetaculoso, Cecil B. DeMille sabia que a história de Moisés atrairia o grande público e conduziu com muito carinho este ousado projeto. Acabou conseguindo mais do que sucesso de público, entregando um filme que marcou a história do cinema.

Texto publicado em 26 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

BEN-HUR (1959)

27 janeiro, 2010

(Ben-Hur)

 

Videoteca do Beto #39

Vencedores do Oscar #1959

Dirigido por William Wyler.

Elenco: Charlton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O’Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, Terence Longdon, George Relph e André Morell.

Roteiro: Karl Tunberg, baseado em livro de Lew Wallace.

Produção: Sam Zimbalist.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grandiosidade. Esta é a palavra que resume os números megalomaníacos do épico “Ben-Hur”, superprodução dirigida por William Wyler e estrelada por Charlton Heston, que utilizou milhares de figurantes em aproximadamente trezentas locações, felizmente, para contar uma bela estória de forma bastante competente. Com cores vivas e um visual deslumbrante, o longa narra a trajetória de um jovem judaico que vive uma verdadeira odisséia na Judéia dominada por romanos nos tempos de Jesus Cristo – que, aliás, cruza seu caminho em momentos cruciais de sua vida.

O ano é 26 d.C., a cidade é Jerusalém. Lá vive Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um rico mercador judeu que reencontra, após muitos anos, seu amigo de infância Messala (Stephen Boyd), agora retornando ao local como o chefe das legiões romanas que comandam a cidade. Após divergirem em questões políticas, nasce um ódio recíproco e Messala condena o judeu a viver como escravo em um navio romano de guerra, mesmo sabendo da inocência do amigo. Muitos anos depois, após sobreviver milagrosamente ao período de escravidão, Ben-Hur voltará para buscar sua vingança, de uma forma que somente o destino poderia lhe proporcionar.

O visual deslumbrante de “Ben-Hur” é resultado de um trabalho técnico em conjunto da mais alta qualidade. A começar pela perfeccionista Direção de Arte da dupla Edward C. Carfagno e William A. Horning, que trabalha detalhadamente em cada uma das muitas locações que o longa utiliza, conferindo bastante realismo e ambientando perfeitamente o espectador à trama. Colaboram também os belíssimos figurinos de Elizabeth Haffenden, que têm ainda função narrativa, por exemplo, durante a corrida de bigas (ou quadrigas, já que eram puxadas por quatro cavalos). Observe como o cavalo de Judah é branco e sua roupa é azul ao passo que Messala utiliza cavalos negros e roupas pretas, claramente simbolizando o lado bom e o lado mau da disputa. Além disso, a biga grega utilizada por Messala reforça ainda mais sua crueldade junto ao espectador. Já a direção de fotografia de Robert Surtees aproveita ao máximo a beleza da região para criar um esplendor visual repleto de cores vivas e intensas. Como podemos perceber na cena crucial para o destino de Judah, o som também é importante, avisando que a telha está solta momentos antes dela cair em cima dos romanos e selar seu destino. Finalmente, a marcante trilha sonora pontua diversos momentos do longa de forma magnífica e é mérito de Miklós Rózca.

Ainda na parte técnica, note como a narrativa dá alguns saltos longos na estória de forma sutil e elegante, graças à boa montagem de John D. Dunning e Ralph E. Winters. Repare, por exemplo, como logo após ser preso, Ben-Hur é questionado por Arrius sobre há quanto tempo ele é um escravo remador. A resposta (três anos) indica a passagem do tempo (no filme passaram-se apenas alguns minutos). Em outro momento, logo após chegar a Roma, Arrius diz que Ben-Hur é o melhor corredor de bigas que ele tem, com cinco vitórias em cinco anos. Por outro lado, a montagem estende demais o terceiro ato. Após o grande clímax (a vitória de Judah contra Messala) o longa leva muito tempo para resolver o conflito derradeiro (a lepra da família Hur). Felizmente, esta resolução acontece de forma arrebatadora, o que ameniza o problema. A narrativa também cruza de forma interessante com diversos acontecimentos bíblicos, utilizando a história de Jesus (o filme inicia com o nascimento dele e termina com sua crucificação) como pano de fundo para contar a estória de vingança de Judah Ben-Hur. Observe como o inteligente roteiro de Karl Tunberg (baseado em livro de Lew Wallace) insere na narrativa diversas cenas que servem para nos situar cronologicamente na estória, como a chegada de José e Maria à Judéia, o sermão de Jesus no monte, a escolha de Pilatos para comandar a região e, finalmente, a crucificação. Num destes momentos, aliás, acontece o tocante primeiro encontro entre Judah e Jesus. Repare como o rosto de Jesus não é mostrado (algo que se repetiria durante toda a narrativa), já que ele, neste caso, é apenas um coadjuvante na estória. Por outro lado, este homem tem profundo impacto na vida de Judah, como o segundo e ainda mais marcante encontro entre eles mostrará. O roteiro escapa ainda do maniqueísmo ao retratar Arrius como um romano bom, evitando assim o pensamento generalista de que todos romanos são pessoas cruéis e sem coração.

E se os dois encontros entre Ben-Hur e Jesus são emocionantes, é porque as atuações são igualmente convincentes. Charlton Heston tem uma atuação bastante enérgica, explorando muito bem sua força física, mas obtendo sucesso também nos momentos dramáticos, como quando revê a mãe e a irmã assoladas pela lepra, e posteriormente, quando as vê curadas, além dos citados encontros com Jesus Cristo. Jack Hawkins cria um Quintus Arrius incrivelmente ambíguo, capaz de enxergar entre os escravos alguém com potencial para suprir a falta que sentia de seu filho, preenchendo este vazio em sua vida. Stephen Boyd mantém o bom nível das atuações como o cruel Messala. Inicialmente amistoso e até mesmo demonstrando sentimentos por Ben-Hur, sua paixão se transforma em ódio de forma proporcional, o que faz dele um inimigo temível. O primeiro diálogo entre os amigos sugere a existência de um romance, que fica ainda mais evidente quando entrelaçam os braços para tomar vinho. Ele não mede esforços para vingar-se de Judah e não perdoa até mesmo a família Hur na primeira chance que tem de prendê-los. Completando o elenco, Hugh Griffith merece destaque como o Xeique Ilderim, que cuida dos cavalos como se fossem suas esposas e garante momentos de bom humor, como quando aposta com Messala que vencerá a corrida.

William Wyler conduz a narrativa com extrema competência, criando seqüências absolutamente inesquecíveis. A batalha naval que culmina com a fuga de Ben-Hur é sensacional. Extremamente realista, flui em um ritmo alucinante, que é mérito também da excelente montagem, e nos brinda com imagens marcantes, como a das centenas de escravos remando e a invasão dos inimigos romanos no navio. Já a incrivelmente bem orquestrada cena da corrida de bigas é o ponto alto do filme, prendendo o espectador de forma única e criando uma série de imagens absolutamente incríveis. Toda a cena é visualmente perfeita, repleta de planos magníficos e carregada de adrenalina. É impossível não se envolver na competição e torcer pelo sucesso de Ben-Hur e a forma como Wyler conduz a corrida é responsável por isso. O diretor alterna entre planos distantes que mostram a grandiosidade do local, com arquibancadas lotadas e a enorme pista de corrida, e planos inacreditavelmente realistas, muito próximos dos cavalos e dos competidores, praticamente nos jogando dentro da arena e nos fazendo sentir a emoção da corrida. Apesar de aparecer apenas por alguns instantes durante a chegada de Judah, a cidade de Roma apresentada em “Ben-Hur” também é incrivelmente imponente e grandiosa, refletindo o poder daquele império na época. Finalmente, Wyler conduz muito bem os momentos mais importantes dramaticamente, como o reencontro entre Ben-Hur e Messala, quando Judah entra no palácio dizendo “Você está errado Messala!” com o rosto encoberto nas sombras e os dois reencontros opostos entre Ben-Hur e sua família (o primeiro carregado de tristeza e de dor, e o segundo repleto de alegria).

A mensagem de paz e amor de Jesus toca o coração de Judah, que finalmente se convence que a violência só gera mais violência. A forma como Jesus reagiu a toda a dor que sofreu causou grande impacto em Ben–Hur e o interessante final, com o sangue dele sendo lavado pela água da chuva, seguido pelo plano que encerra o longa, com um pastor liderando as ovelhas (que claramente simboliza Jesus Cristo), deixa clara a ligação entre a fé no cristianismo e a cura das doenças da família Hur. A vingança não resultou em redenção para o jovem Judah Ben-Hur, que só encontrou realmente a paz quando olhou na face de um homem infinitamente mais bondoso que ele próprio.

Utilizando a história mais famosa de todos os tempos como pano de fundo, “Ben-Hur” brinda o espectador com um espetáculo visual de enorme escala para narrar a vida do jovem que volta à sua terra natal em busca de vingança, e acaba encontrando a verdadeira paz interior. Dirigido magistralmente por William Wyler e contando ainda com ótimas atuações, prova definitivamente que as superproduções podem ter enorme valor, desde que utilizem seus recursos para contar belas histórias.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

O PLANETA DOS MACACOS (1967)

11 julho, 2009

(The Planet of the Apes) 

4 Estrelas

 

Videoteca do Beto #5

Dirigido por Franklin J. Schaffner.

Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Maurice Evans, Kim Hunter, James Daly, James Whitmore, Robert Gunner, Lou Wagner, Buck Kartalian, Linda Harrison, Wright King, Jeff Burton e Woodrow Parfrey. 

Roteiro: Michael Wilson e Rod Serling, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Arthur P. Jacobs. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grande sucesso no final dos anos 60 e responsável por quatro continuações inspiradas nele (De Volta ao Planeta dos Macacos em 1970, Fuga do Planeta dos Macacos em 1971, A Conquista do Planeta dos Macacos em 1972 e A Batalha do Planeta dos Macacos em 1973), O Planeta dos Macacos é um filme que, embora sua narrativa competente seja suficiente para agradar, para ser completamente entendido e para que sua qualidade seja totalmente absorvida pelo espectador, deve ser corretamente contextualizado.

Um grupo de astronautas viaja pelo espaço por séculos em estado de hibernação quando acidentalmente cai em um planeta desconhecido, avariando imediatamente a nave espacial, que demonstra no visor o ano de 3978. Sem contato com a Terra e com provisão somente para três dias, eles decidem explorar o planeta para descobrir se há vida. Logo após essa introdução, somos jogados dentro de um mundo estranho e proporcionalmente assustador. Os tons em marrom captados pela excelente fotografia de Leon Shamroy e os planos gerais, que buscam destacar as gigantescas planícies desertas e os montes áridos e desocupados, nos dão a sensação de estarmos testemunhando um terreno completamente desabitado. A sensação de solidão é tão grande que os protagonistas, ao avistarem uma árvore e um lago (com um zoom deselegante de Schaffner), ignoram algo importante que haviam avistado e se jogam na água para se divertir.

A primeira aparição de vida habitada no planeta desconhecido é extremamente bem realizada por Schaffner. Enquanto vemos os astronautas caminhando, podemos perceber no segundo plano, em tamanhos minúsculos devido a distância, a presença de seres que correm para acompanhar a caminhada deles. A tensão que começa a ser criada aqui só vai terminar quando o encontro inevitável acontece, e de uma forma contrária à expectativa criada, já que os habitantes do planeta, além de apresentarem uma aparência igual à do ser humano terrestre, demonstram ser extremamente inofensivos. Quando Taylor (Charlton Heston) faz uma piada sobre dominar o planeta em breve, os verdadeiros donos daquele lugar se apresentam em uma fantástica introdução de personagens. Somente o som vindo da selva é suficiente para causar verdadeiro pânico naqueles presentes (e um grande impacto no espectador), iniciando uma das belas cenas do filme, a feroz caçada dos seres humanos. Ao aparecerem pela primeira vez, os macacos que originam o título se mostram seres extremamente avançados, montados em cavalos, com armas poderosas e se comunicando através da fala. A partir daí o filme explora com competência dois temas interessantes: o tratamento dado aos animais por nós seres humanos e o confronto ciência versus religião.

A parte técnica é o grande destaque da produção. A direção de arte, em conjunto com os figurinos, consegue criar um planeta totalmente caracterizado como o habitat dos macacos evoluídos. Observe como as casas são feitas em um formato que lembra os locais onde os macacos normalmente ficam nos zoológicos. Os seres humanos, que não têm o dom da fala, se vestem com panos rasgados e pouco coloridos, lembrando muito o homem pré-histórico. As jaulas onde estes ficam presos passam a sensação de claustrofobia que os personagens sentem, graças também à câmera sempre próxima do rosto deles. A trilha sonora oscila momentos em que ajuda a criar tensão com momentos em que não consegue criar conexão com a cena. E finalmente, o grande trabalho técnico do filme fica por conta da maquiagem. O impressionante trabalho realizado para dar veracidade aos macacos hoje pode parecer estranho, mas na época foi uma verdadeira revolução causando grande impacto e gerando inclusive um prêmio Oscar honorário ao filme, muitos anos depois. Os macacos têm os traços perfeitos, falam e tem expressões faciais, como se fossem verdadeiros macacos falantes.

As atuações de todo o elenco de apoio são competentes. Repare como os seres humanos conseguem transmitir a sensação de serem selvagens através de expressões faciais e corporais. Eles se penduram nas jaulas, chacoalham e mexem as mãos, como verdadeiros homens primatas. Já entre o elenco principal, o destaque fica para o simpático casal de macacos cientistas formado por Dr. Cornelius (Roddy McDowall) e Dra. Zira (Kim Hunter). Observe a expressão de pena no rosto de Hunter quando Taylor é preso e a reação dela ao ler a frase escrita por Taylor em um papel. Da mesma forma, McDowall expressa suas emoções conflitantes de forma brilhante ao mudar de posição sobre determinado assunto em certo momento da projeção, nos causando grande impacto. Já Charlton Heston tem uma atuação apenas razoável, se limitando a gritar e correr em diversos momentos do filme. A sua última e emocionada aparição é o ponto alto de sua atuação.

O roteiro de Michael Wilson e Rod Serling, baseado em livro de Pierre Boulle, aborda (como já citado) dois temas extremamente interessantes e delicados. O primeiro deles, menos polêmico, é uma alusão à forma brutal que o ser humano trata todo e qualquer tipo de animal aqui na terra. Ao inverter os papéis, ele nos coloca numa situação desconfortável, nos sentindo ofendidos pela forma como os seres humanos são tratados no filme. Inteligentemente, nos leva a uma série de questionamentos através da simples inversão dos papéis. Observe a forma como os humanos são caçados com redes e laços, as jaulas, a forma de alimentação e de tomar banho, a escolha arbitrária de um casal para acasalamento e a forma como os humanos são utilizados “para o bem da ciência” em estudos experimentais. Tudo isto é uma crítica pouco sutil à forma que nós agimos contra os animais aqui na terra. Já o outro tema abordado é muito mais profundo e polêmico. O filme aborda o poder que a religião tem de controlar a sociedade, demonstrando como ela pode ser perigosa quando seguida cegamente e sem questionamentos. Neste caso foi o macaco quem criou uma religião para controlar sua população, contornando e moldando o mundo em que vivem de acordo com o que lhes interessa. E aqui também existe o conflito religião versus ciência quanto à teoria da evolução, só que a teoria se apresenta de forma invertida, o que se revela uma engraçada ironia.

[se você ainda não viu o filme, pule para o próximo parágrafo] Mas é o final de O Planeta dos Macacos que causa um impacto devastador no espectador. Confesso que durante o filme identifiquei diversos problemas no mundo criado: o planeta supostamente distante tinha luz do sol, plantas, água, cavalos, bonecas e óculos. Além disso, em determinado momento questionei uma frase dita por um macaco, que faz uma piada com a palavra “terno”. Como eles conheciam a existência do terno? Mas no último plano, o filme revela um dos mais surpreendentes finais que já tive oportunidade de testemunhar, causando uma enorme subversão de expectativa e corrigindo todos os problemas que apontei acima. O inteligente final torna o planeta em questão totalmente verossímil e amarra perfeitamente o roteiro de forma mais que brilhante. Como se não fosse suficiente, ainda aponta em 1967 para algo extremamente discutido nos dias de hoje, a falta de cuidado do homem com o seu planeta.

Discutindo temas polêmicos, utilizando um visual diferente e belo e contando ainda com uma atraente narrativa, é no último ato que O Planeta dos Macacos demonstra sua força de verdade, causando um forte impacto no espectador. Com inteligência e criatividade, o filme consegue prender a atenção e nos faz refletir sobre diversos temas controversos, o que é sempre agradável de se ver.

PS: Ao citar o perigo que a religião representa quando seguida cegamente e sem questionamentos, não pretendo ser interpretado como um ateu. Tenho minha fé, acredito em DEUS e no senhor Jesus Cristo. Só entendo que as pessoas jamais devem seguir qualquer religião que seja sem buscar esclarecer todas suas dúvidas e sem fazer questionamentos.

Texto publicado em 11 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira


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