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O VENCEDOR (2010)

23 fevereiro, 2012

(The Fighter)

 

Filmes em Geral #86

Dirigido por David O. Russell.

Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo, Jack McGee, Melissa McMeekin, Bianca Hunter, Erica McDermott, Jill Quigg, Dendrie Taylor, Kate B. O’Brien, Jenna Lamia, Mickey O’Keefe, Frank Renzulli, Caitlin Dwyer e Ross Bickell.

Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson.

Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy e Mark Wahlberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É sempre interessante ver um bom filme de boxe – não fosse assim, este esporte não teria inspirado tantos filmes de sucesso ao longo da história do cinema. Ainda mais interessante é quando o esporte funciona apenas como pano de fundo para um complexo estudo de personagens, como é o caso deste “O Vencedor”, que, além de trazer a história real de dois irmãos boxeadores e sua complicada família, ainda nos apresenta um elenco afinado, liderado pelo ótimo Mark Wahlberg e que conta ainda com a excepcional atuação de Christian Bale.

Escrito por Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, “O Vencedor” conta a história real dos irmãos Dicky Eklund (Christian Bale) e Micky Ward (Mark Wahlberg), quando o primeiro, famoso por ter derrotado o campeão mundial Sugar Ray e hoje viciado em drogas, está treinando o segundo na pequena cidade de Lowell, sob o olhar atento da mãe e empresária Alice (Melissa Leo). Só que os problemas do irmão e a influência de sua namorada Charlene (Amy Adams) fazem Micky buscar uma alternativa para levar a carreira de forma mais profissional, criando um conflito com seus familiares.

Apresentando uma família disfuncional – um tema apreciado pelo cinema “alternativo” de Hollywood -, a narrativa de “O Vencedor” trabalha cuidadosamente no estabelecimento das relações entre os personagens durante o primeiro ato, preparando o espectador para os conflitos que surgirão, o que, por exemplo, aumenta o impacto da reação de Micky após a prisão de Dicky, que delata sua intenção de abandonar o apoio da família e buscar uma alternativa para a carreira. Quando isto ocorre, o espectador pode até se surpreender pela forma ríspida como Micky responde o irmão, mas compreende perfeitamente sua decisão justamente por já estar familiarizado com seus problemas. Da mesma forma, a platéia se surpreende novamente com a reaproximação deles no terceiro ato, exatamente pela maneira realista que a narrativa aborda o conturbado relacionamento entre eles, o que também é bastante interessante.

Ao priorizar (corretamente) o conturbado relacionamento de Micky e sua família, a montagem de Pamela Martin abre pouco espaço para as cenas de luta, que ainda assim surgem intensas e realistas, graças à câmera movimentada de Russel e ao excepcional design de som, que nos ambienta perfeitamente através do barulho dos golpes, gemidos, gritos da torcida e vozes dos narradores. Vale destacar também como Martin e Russel cobrem as primeiras vitórias de Micky com dinamismo, saltando na narrativa de maneira elegante, e contando ainda com a agitada trilha sonora de Michael Brook, que ilustra a euforia do personagem em seu momento de virada na carreira. Variando entre músicas agitadas, que combinam perfeitamente com a natureza destrutiva do boxe, e canções melancólicas como “Strip my mind” (dos Chili Peppers), a trilha ilustra perfeitamente o carrossel de emoções enfrentado pelo protagonista.

Utilizando imagens de arquivo da verdadeira luta entre Dicky e Sugar Ray, a fotografia de Hoyte Van Hoytema busca manter o realismo através do uso de uma paleta natural, que chega a ser crua em diversos momentos, conferindo um ar documental ao longa. Esta abordagem é confirmada também na direção segura de David O. Russell, que utiliza a câmera de mão constantemente, buscando justamente reforçar a atmosfera realista que a narrativa pede, como na conturbada cena da prisão de Dicky, que ganha ainda mais adrenalina em sua câmera agitada. Além disso, o diretor busca nos aproximar de seus personagens ao abusar dos closes, como nas intensas discussões entre Charlene, Micky e sua conturbada família e na forte cena da crise de abstinência de Dicky.

Apresentando um impressionante emagrecimento que chega perto do inacreditável resultado alcançado no ótimo “O Operário”, Bale interpreta o despojado Dicky com intensidade, movimentando-se constantemente e até mesmo soando um pouco freak, mas se destaca mesmo ao demonstrar muito bem os efeitos do crack através do olhar arregalado, da fala acelerada e da falta de sincronismo quando conversa com alguém – repare como ele mal consegue olhar diretamente para as pessoas, como quando discute com Micky na casa de sua mãe, mas ainda assim é capaz de prestar atenção na conversa. Sempre agitado e em constante movimento, Dicky vive da histórica vitória contra Sugar Ray, talvez porque sua própria família parece não perceber que o tempo passou e o boxeador vitorioso do passado foi substituído por um homem problemático que necessita de ajuda.

Inicialmente mais contido que o irmão, Micky lentamente se rebela contra a família opressora e conquista seu espaço, algo que Wahlberg ilustra muito bem demonstrando confiança no tom de voz e no olhar, como em sua discussão com Dicky dentro do presídio. Esta mudança é perfeitamente compreensível diante da situação complicada em que ele vive. Rodeado por sete irmãs e uma mãe superprotetora, Micky ainda sente a pressão de ter que ser vencedor no boxe assim como foi seu irmão – e novamente, o ator transmite esta aflição do personagem muito bem em seu comportamento inicialmente retraído. Além disso, a amargura de sua ex-esposa indica que eles tiveram sérios problemas no passado, o que só piora sua situação. Talvez por isso ele encontre conforto em Charlene, que representa a tão desejada paz que ele procura e não consegue encontrar em sua família.

Sensual e bastante direta, a Charlene de Amy Adams surge confiante desde o instante em que aceita o convite de Micky para sair, crescendo ao longo da narrativa ao enfrentar a família do boxeador sem medo, o que leva a um inevitável confronto na frente de sua casa que chega às vias-de-fato – numa cena tensa e bem conduzida por Russel. Adams se sai maravilhosamente bem nos afiados diálogos que precedem o conflito, jamais se intimidando diante da resistência das ciumentas irmãs dele, e sua personagem ainda protagoniza um momento curioso, quando reclama de filmes legendados, mostrando uma característica do povo americano (e, infelizmente, que aos poucos está dominando o espectador brasileiro também). Também despojada e até mesmo intrometida, a falastrona Alice de Melissa Leo é a típica mãe superprotetora que não enxerga o quanto interfere na vida de seus filhos – e o fato de fechar os olhos para o problema de Dicky só ressalta seu medo de “perder” a proximidade que tem com eles. Mas, apesar de tudo, ela realmente ama os filhos e expressa isto de corpo e alma, vibrando em cada luta de Micky – ainda que arranje lutas desiguais apenas por dinheiro – e acompanhando Dicky numa canção com uma voz tremula que reflete sua tristeza diante da situação do filho. Por isso, chega a ser tocante o momento em que ela, após ver as filhas brigando com Charlene, demonstra não compreender porque Micky se afasta dela, evidenciando sua cegueira quanto ao próprio comportamento superprotetor.

Além de fazer um belo estudo dos irmãos Dicky e Micky, “O Vencedor” ainda acerta ao mostrar os devastadores efeitos do crack, resumidos no momento em que a HBO transmite um filme sobre Dicky e toda a sua família se envergonha do que está vendo – incluindo o próprio ex-boxeador. Ao levar a questão a sério sem jamais julgar o viciado e, especialmente, ao mostrá-lo como um ser humano normal, capaz de vencer um título mundial no passado e de ajudar o irmão no presente, o filme aborda o vício de maneira adulta, estimulando a discussão e a reflexão a respeito do tema.

Apesar de discutir rispidamente com o irmão, Micky ouve seus conselhos e acaba vencendo a luta contra Sanchez por causa disto. Mas nem por isso ele aceita o irmão de volta quando ele sai da prisão e revela sua insatisfação batendo nele num treinamento, o que gera outra discussão forte que culmina no rompimento de Micky com a namorada e o treinador Mickey O’Keefe (o próprio). E, vejam só, é justamente Dicky quem trata de reatar as relações, confirmando a ambigüidade dos personagens de “O Vencedor”. Aqui não existe certo e errado, pois todos pensam estarem agindo corretamente, por mais absurdas que pareçam suas atitudes. Esta ambigüidade chega ao auge na luta pelo título mundial, quando mesmo contrariados eles se juntam em torno de um único objetivo: fazer Micky ser campeão. Sugando o espectador pra dentro do ringue desde o canto entoado pelos irmãos ao lado do treinador O’Keefe, a luta final é marcante e repleta de energia, impressionando ainda por revelar a incrível mudança física de Wahlberg, que surge musculoso e bem diferente do homem barrigudo que acompanhamos em determinado momento da narrativa. E novamente subvertendo nossa expectativa, Dicky se confirma como peça fundamental na vitória do irmão, estimulando-o com palavras e gritos de incentivo o tempo todo.

Após a vitória, todos sobem juntos no ringue e deixam os problemas pelo menos por um instante para trás, num momento emblemático que fecha muito bem “O Vencedor”. Contando com excelentes atuações e trazendo uma história real, o longa dirigido por David O. Russell entra para a galeria dos bons filmes de boxe, para a alegria dos fãs do esporte – e dos cinéfilos também.

Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira


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