Posts Tagged ‘Emmanuelle Seigner’

BUSCA FRENÉTICA (1988)

26 janeiro, 2011

(Frantic)

 

Filmes em Geral #39

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Harrison Ford, Betty Buckley, Emmanuelle Seigner, Gérard Klein, Djiby Soumare, Dominique Virton, Raoulf Ben Amor, Böll Boyer, David Huddleston, Alexandra Stewart, Robert Barr, Stéphane D’Audeville e Alan Ladd.

Roteiro: Roman Polanski e Gérard Brach.

Produção: Tim Hampton e Thom Mount.

[Antes um esclarecimento: Como todos sabem, costumo ler os textos do Pablo Villaça, Rodrigo Carreiro, Luis Carlos Merten e Roger Ebert, críticos que admiro e respeito e que considero os melhores na profissão. Por outro lado, obviamente, só leio algo sobre algum filme que escrevi após ter escrito o meu próprio texto, para evitar qualquer tipo de influência. Mas existem casos de críticas que li muito tempo antes de decidir criar o Cinema & Debate e, obviamente, algumas observações destes renomados críticos ficaram marcadas em minha memória. Em outros casos, como o deste “Busca Frenética”, eu assisti ao filme, li as críticas, e muito tempo depois, por ocasião de alguma semana especial, decidi escrever sobre o filme em questão – o que me obrigou a assistir ao filme novamente, para anotar minhas observações. Obviamente, alguma influência dos textos que li sempre irá existir nestas situações. No caso do Pablo Villaça esta influencia é ainda mais gritante, até porque fiz o seu curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica e sou fã declarado deste importante crítico que tanto respeito e admiro, e não nego que ele tenha enorme influencia em meu trabalho. Por isso, quando terminei de escrever sobre “Busca Frenética”, constatei que grande parte das minhas “observações” pertencia à minha lembrança da crítica do Villaça (que você pode conferir na íntegra clicando aqui), que eu tinha lido muitos meses antes de decidir escrever sobre o filme. Confesso: cheguei a cogitar não divulgar este texto, mas entendo que não posso deixar de fazê-lo por causa disto, já que não plagiei o texto dele de maneira alguma, apenas escrevi minha visão sob influência do que aprendi com o próprio Pablo – algo, aliás, que já ocorreu em outros textos também, onde inclui observações aprendidas no próprio curso. Afinal de contas, muita coisa que escrevo tem forte influencia não só do Villaça, mas também do Rodrigo, do Merten e até mesmo do Ebert. Por isso, resolvi divulgar o texto na íntegra, do jeito que escrevi originalmente, mas não sem antes citar o crítico que primeiro observou todo o subtexto do filme – e quem, afinal, me chamou a atenção para esta interessante leitura do longa de Polanski. É bom poder escrever sobre os filmes que gosto, é bom começar a ter algum reconhecimento do público, mas é vital e no mínimo ético respeitar aqueles que, direta ou indiretamente, me impulsionaram a fazer este trabalho. Por isso, dou todo o crédito ao Pablo por muitas das observações a seguir - e vocês mesmos poderão observá-las comparando os textos.]

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A julgar pelo nome do filme (tanto em inglês, quanto em português), “Busca Frenética” parece ser um thriller daqueles de tirar o fôlego, com muita ação e repleto de situações inesperadas que levam o espectador ao completo desespero. Mas o filme dirigido pelo competente Roman Polanski apresenta, na realidade, um homem pacato que, através da procura por sua mulher desaparecida, acaba se descobrindo numa verdadeira jornada interior em busca de sua real identidade.

O médico Richard Walker (Harrison Ford) viaja com sua esposa Sondra (Betty Buckley) para participar de uma conferência em Paris. Porém, antes mesmo que eles desfrutem a beleza da cidade luz, sua esposa desaparece misteriosamente. Sem entender exatamente o que estava acontecendo, o médico parte em busca dela no sombrio submundo parisiense. Nesta busca, encontra a bela Michelle (Emmanuelle Seigner), que, envolvida numa trama internacional, decide ajudá-lo.

Apesar de utilizar a bela capital francesa como locação, “Busca Frenética” jamais explora os lindos pontos turísticos (ou deveria dizer, cartões postais?) da cidade, com exceção da distante Torre Eiffel que aparece no início e no fim do longa, limitando-se a percorrer as ruas apertadas e sujas do submundo local. Desta forma, a narrativa adota um tom sombrio bastante coerente com o drama do personagem principal, além de sutilmente indicar, através da distante torre, o tema principal da narrativa, simbolizando o romance perdido ao longo dos anos pelo letárgico Walker. A fotografia granulada de Witold Sobocinski, com predominância de tons pastéis e em especial da cor cinza, garante o distanciamento do espectador, confirmando o visual naturalista do longa e refletindo a frieza da narrativa, além de ilustrar o sentimento de tristeza de Walker. Em outro momento, Sobocinski mergulha Walker na escuridão quando este invade o apartamento de Dede (Böll Boyer) e a trilha sonora igualmente sombria indica o trágico desfecho daquela busca (e do próprio traficante procurado por Walker). Trilha sonora que é composta pelo sempre competente Ennio Morriconne, que utiliza uma trilha eficiente, aparecendo somente em raros momentos da narrativa e alterando o tom leve da chegada à Paris para uma trilha mais pesada, coerente com a tensão do decorrer do filme. Vale registrar também que o som é bastante eficiente e de suma importância no momento chave da trama, quando Walker não consegue escutar o que sua esposa tenta dizer enquanto ele toma banho. O espectador, estrategicamente colocado na mesma posição de Walker, através do inteligente plano de Polanski de dentro do boxe, percebe que algo acontece quando vê Sondra atendendo ao telefone, pegando um vestido e saindo de cena (e até mesmo a trilha sonora indica isto), mas não sabe exatamente o que é.

E estas são apenas algumas das muitas decisões acertadas de Polanski e sua equipe. O diretor, por exemplo, acertadamente investe um bom tempo no estabelecimento da relação estável do casal, fazendo com que o espectador perceba o quanto eles se sentem à vontade juntos (o que será vital para fazer com que o espectador sinta a mesma aflição de Walker quando sua mulher desaparecer). Por outro lado, as conversas do casal no hotel sutilmente indicam problemas no relacionamento, provavelmente provocados pela mudança de Walker ao longo dos anos, como quando Sondra reclama ao descobrir que ele avisou o organizador da conferência que estaria em Paris ou quando ela responde ironicamente à promessa de sexo do marido. Polanski ainda utiliza com freqüência o close e até mesmo o zoom, como quando Walker encontra a pulseira de Sondra, realçando o desespero do personagem principal. Além disso, conta com o auxilio do montador Sam O’Steen para evitar imprimir um ritmo frenético à narrativa (ao contrário do que sugere o nome do filme), o que se revela uma estratégia acertada ao impedir que o filme se transforme num simples thriller de suspense, focando na mudança gradual de comportamento de Walker. Finalmente, Polanski explora com competência o segundo plano em diversos momentos, mostrando ações vitais para o andamento da narrativa, como quando vemos Walker no telefone e Sondra, ao fundo, tentando abrir a mala sem sucesso.

Entretanto, se o ritmo do longa evita transmitir a sensação de dinamismo imaginada em um thriller de perseguição, é também porque a situação em que Walker se envolve é capaz de provocar tensão suficiente no espectador. Note, por exemplo, como poucas pessoas realmente se importam com seu drama (repare quantas pessoas insinuam uma traição) e até mesmo como a barreira do idioma dificulta sua busca, o que auxilia no desconforto provocado tanto no personagem quanto no espectador. Porém, “Busca Frenética”, como já afirmei anteriormente, não é um filme simplesmente de perseguição. O roteiro do próprio Polanski, auxiliado por Gérard Brach, aparentemente narra a trajetória de um homem em busca de sua mulher seqüestrada, mas na realidade faz um fascinante estudo de personagem, ao mostrar a busca de Walker por sua própria personalidade. E esta luta é simbolizada de maneira genial através de outra personagem, inserida na trama de maneira despretensiosa e sutil, praticamente impedindo que o espectador antecipe sua importância na trama. E o brilhantismo da personagem, que aparentemente existe somente para auxiliar Walker em sua busca, reside no simbolismo. Michelle é, na realidade, uma mulher que sutilmente remete a época em que Walker era jovem, impulsivo e muito diferente do homem pacato dos dias atuais, que não consegue lembrar nem mesmo de uma cidade marcante como Paris, como notamos no início do filme. E de que maneira Michelle poderia simbolizar esta época? As dicas, sutis, são espalhadas pelo roteiro, fazendo com que Michelle simbolize a jovem Sondra (não por acaso o nome de sua companheira de apartamento é Sonia), por quem Walker se apaixonou um dia, ainda nos tempos de juventude. Olhar para Michelle inconscientemente o faz lembrar esta época, hoje distante graças à passagem dos anos e, principalmente, ao rumo que ele tomou em sua vida, dedicando-se à profissão em detrimento da família. Por isso, não é apenas coincidência que, no terceiro ato, a moça apareça vestida com o mesmo vermelho que Sondra foi seqüestrada, algo reforçado também pela música tema do filme (“I´ve seen that face before”/“Eu já vi este rosto antes”), que embala a dança entre eles numa boate. Finalmente, quando Walker literalmente troca Michelle por Sondra no terceiro ato, esta escolha entre o passado vibrante e o presente seguro e pacato fica evidente, quando uma das duas é literalmente sacrificada, simbolizando a escolha feita por Walker pelo estilo de vida que mais lhe convém. Não por acaso também, a estátua da liberdade aparece diversas vezes durante a narrativa, simbolizando a busca do personagem principal por sua própria liberdade. É importante, no entanto, registrar que, de maneira inteligente, o roteiro jamais aborda a relação entre Michelle e Walker com conotações sexuais, mostrando, na realidade, uma relação carinhosa, como de pai e filha (algo que fica evidente quando Walker fecha a blusa da garota para que ela não passe frio e quando ele fecha a porta enquanto Michelle troca de roupa).

Obviamente, para que este conflito interior do andarilho Walker (que coincidência) seja verossímil, a atuação de Harrison Ford tem papel fundamental. E felizmente Ford oferece uma atuação brilhante na pele do homem comum, que se vê repentinamente forçado a mudar seu comportamento radicalmente. Inicialmente um homem pacato e acomodado (repare como é sua esposa quem pega os passaportes quando chegam ao hotel), Walker se vê obrigado a tomar a iniciativa e partir em busca da esposa, algo que claramente contraria sua natureza contida, refletida até mesmo em sua roupa palidamente cinza (figurinos de Anthony Powell). Sua mudança de comportamento começa a acontecer já no consulado americano, quando ele responde irritado que é de São Francisco, “como está escrito no passaporte”. Constantemente inseguro, o homem jamais se apresenta como o típico herói capaz de superar qualquer obstáculo, o que trabalha a favor da narrativa, pois o espectador teme constantemente por seu destino. E se o espectador teme pelo destino de Walker é porque Ford consegue transmitir esta insegurança do personagem em todo momento, como podemos notar através de sua tocante conversa com a filha pelo telefone ou em sua explosiva reação a um burocrático telefonista, com seu tom de voz trêmulo, o olhar inquieto e a voz ofegante demonstrando sua revolta, indicando claramente sua transformação. O próprio Walker, aliás, percebe o quanto está mudado quando se olha no espelho e vê um homem completamente diferente, o que é refletido até mesmo em seu figurino, quando ele começa a andar descalço e com a camisa pra fora da calça, algo totalmente impensável para um homem inicialmente metódico e pragmático. E o agente motivador desta mudança é indicado sutilmente, através da fotografia recortada que simboliza o racha na família de Walker, responsável por sua mudança de comportamento. E note como até mesmo o quarto do hotel bagunçado reflete o novo estado de espírito dele, cada vez mais distanciado do homem pacato que costumava ser, contrastando com o local limpo e organizado da chegada à Paris. Aliás, o apartamento bagunçado também serve para refletir a personalidade agitada de Michelle, interpretada com carisma por Emmanuelle Seigner.

Portanto, “Busca Frenética” foge do lugar comum ao retratar, através da busca de Walker por sua mulher, um conflito existente no interior daquele homem que, ao longo dos anos, deixou seu lado jovem e visceral lentamente ser substituído pelo pragmatismo e pelo comodismo de uma vida bem sucedida, porém pálida. E o mais interessante é que o longa não mostra isto claramente, mas indica através de simbolismos, o que é extremamente elegante e inteligente.

Roman Polanski oferece muito mais que um thriller de suspense neste “Busca Frenética”, que faz, na realidade, um interessante estudo de personagem e mostra, através da busca incessante por sua esposa, a luta interior de um homem para descobrir sua verdadeira personalidade.

Texto publicado em 26 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

LUA DE FEL (1992)

19 janeiro, 2011

(Bitter Moon)

 

Videoteca do Beto #84

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Peter Coyote, Victor Banerjee, Sophie Patel, Patrick Albenque, Luca Vellani e Stockard Channing.

Roteiro: Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner.

Produção: Roman Polanski.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante grande parte de “Lua de Fel”, Roman Polanski faz um profundo e interessante estudo da paixão sem limites, revelando as melhores e as piores conseqüências de se entregar totalmente a uma pessoa, abdicando de si mesmo. Mas, infelizmente, o diretor escorrega no ato final, diminuindo parte do impacto de um filme que tinha tudo para deixar o espectador completamente atordoado com seu retrato pessimista da relação entre duas pessoas perdidamente apaixonadas. O resultado é um longa correto, que deixa a sensação de que Polanski, com um pouco mais de ousadia, poderia ter realizado uma obra marcante.

Casados há sete anos, os ingleses Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) decidem embarcar num cruzeiro marítimo, como forma de renovar a relação. Durante a viagem, eles conhecem a francesa Mimi (Emmanuelle Seigner) e seu marido norte-americano Oscar (Peter Coyote). Ao perceber o interesse de Nigel por sua esposa, Oscar decide contar sua história de paixão doentia pra ele, lentamente revelando como foi parar numa cadeira de rodas.

Roman Polanski é um diretor talentoso. Por isso, não surpreende que “Lua de Fel” apresente momentos marcantes, como a sensual dança de Mimi para Oscar, e tenha um ritmo envolvente, nos sugando pra dentro da história, especialmente nos momentos que envolvem o passado dos amantes. Também não faltam belos planos, como aquele em que Nigel olha para o mar durante a noite com a lua refletindo na água, e inteligentes mecanismos narrativos, como os planos do mar que antecedem as conversas entre Oscar e Nigel, que indicam a intensidade da história que será contada a seguir (ou seja, quanto mais agitado o mar, mais quente e ousada será a nova parte da história). Contando com a montagem de Hervé de Luze, o diretor cria ainda elegantes transições, como quando a imagem de Mimi na tela do computador se transforma na imagem dela dentro do ônibus, durante uma lembrança de Oscar. Além disso, conta também com a bela trilha sonora de Vangelis, com sua melodia triste se alternando com variações sombrias, coroada pelo lindo tema que embala o inicio da relação de Mimi e Oscar em Paris. Mas apesar destes belos momentos, Polanski deixa escapar a chance de realizar um grande filme e se perde no ato final, quando o longa assume contornos de lesbianismo e um clima festivo que contradizem radicalmente a atmosfera pessimista da narrativa até então, apesar do sutil indício de que isto poderia acontecer quando Mimi vê Fiona pela primeira vez e diz que ela é linda.

Para viver Mimi, a mulher que embalaria os melhores sonhos e os piores pesadelos de Oscar, Polanski escolheu sua esposa Emmanuelle Seigner, com quem já havia trabalhado em “Busca Frenética”. Inexpressiva em boa parte da narrativa, a atriz exagera em alguns momentos, como quando chora nas pernas de Oscar, e se sai bem em outros, como nas intensas discussões com Oscar ou quando se mostra insinuante no bar na ousada primeira conversa com Nigel, entregando uma atuação bastante irregular. Ainda assim, é interessante acompanhar a trajetória de sua personagem, que lentamente se transforma de jovem apaixonada numa mulher dominadora, caindo repentinamente ao fundo do poço e voltando para viver um misto de amor e ódio com Oscar. Com pouco tempo em cena, a talentosa Kristin Scott Thomas vive a entediada Fiona, para quem o momento mais excitante da viagem é uma conversa com um desconhecido no bar, que serve de aviso para seu distante marido (“Não há nada que você faça que eu não faça melhor”, ameaça). Observe o olhar ameaçador de Fiona para Nigel quando diz para o rapaz no bar o dito popular “azar no jogo, sorte no amor”, insinuando que não hesitaria em trair o marido caso ele continuasse agindo daquela maneira. Mas o aviso não surtiu efeito, e logo em seguida ele deixa Fiona passando mal na cabine e volta para ouvir o final da história de Oscar. Interpretado por Hugh Grant, o tímido Nigel é o típico homem de família inglês, sempre polido e educado, mas incapaz de se conter diante da insinuante Mimi. O ator demonstra bem a luta constante de Nigel para não demonstrar interesse no que ouve, enquanto claramente se mostra cada vez mais interessado nos detalhes mais obscenos da relação entre Oscar e Mimi (vale citar o engraçado momento em que Nigel se mostra incomodado com os detalhes escatológicos da história que ouve). Já Peter Coyote exagera em alguns momentos, como quando Mimi derruba Oscar da cama no hospital, mas vai bem em muitos outros, principalmente quando desafia Nigel na cabine a ouvir mais de sua história, além de prender a atenção do espectador com sua narração envolvente.

Escrito por Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner, “Lua de Fel” faz um interessante estudo da paixão sem limites, utilizando uma narrativa que intercala a viagem de navio com os flashbacks que ilustram as memórias de Oscar. E é curioso acompanhar a mudança sistemática no relacionamento do casal apaixonado, ilustrada até mesmo através da fotografia de Tonino Delli Colli, mais clara e iluminada no inicio da narrativa, escurecendo na medida em que a relação avança e se afundando inteiramente nas sombras após a conversa deles numa praça, quando Oscar diz que é melhor cada um seguir o seu caminho. Este momento até mesmo tocante se contrapõe diretamente ao promissor inicio do romance, com direito a jantar de gala, brincadeiras e passeio no parque, terminando na belíssima cena da primeira relação sexual do casal, com lareira ao fundo e os closes de Polanski destacando a sensualidade e o erotismo do encontro. Após o romântico passeio no parque, a sensual dança a luz de velas e as brincadeiras com leite, o casal se mostra cada vez mais íntimo. Só que um pequeno corte feito por Mimi enquanto barbeia Oscar indica que a relação entraria em novos terrenos, explorando novas experiências e revelando o lado sádico da jovem. E após comprarem seus “brinquedos” e se trancarem por dias no apartamento para se divertirem, Oscar começa a perceber que a relação está entrando em decadência, e na tentativa de se renovar, sai com ela e os amigos, nos levando ao momento que mudaria pra sempre aquela história, quando uma crise de ciúmes de Mimi é o estopim para uma serie de atitudes entre eles que os levará ao outro extremo da paixão, o ódio. O choro compulsivo de Mimi após esta briga evidencia sua paixão doentia e desperta as piores idéias na cabeça de Oscar, reforçadas pelo momento em que ele bate nela e ela, após desmaiar, acorda e diz que o ama. Faltava amor próprio a Mimi (algo refletido até mesmo em seu visual dali em diante) e Oscar percebe isto, revelando sua pior faceta com verdadeiros requintes de crueldade. Mas um acidente viraria o jogo novamente, colocando Mimi numa posição favorável e abrindo a possibilidade de vingança pra ela. Revigorada (algo também refletido no visual dela), ela aproveita para devolver o amargo gosto do desprezo ao amante, que, incapaz de reagir, se afunda em solidão, algo ilustrado no obscuro plano em que olha pela janela a distante Torre Eiffel, simbolizando o romance perdido e fazendo-o sentir a humilhação que Mimi sentiu ao olhar para a lua no avião. Oscar finalmente chega ao fundo do poço na melancólica seqüência em que Mimi transa com outro na frente dele e o travelling de Polanski pelo quarto nos leva ao rosto incrédulo daquele homem em ruínas. A paixão tinha se transformado em ódio.

A triste história de Oscar e Mimi desperta Nigel, que finalmente compreende que sua relação com a esposa estava deteriorada, o que o leva a ensaiar uma conversa franca com ela (“Vamos ser adultos”, diz sozinho olhando para o mar). Em seguida, ele se entrega a paixão por Mimi, que não corresponde. Ela não queria sofrer mais, por isso, era melhor nem se envolver com alguém que quisesse mais do que sexo com ela. Assim como Oscar, ela já não acreditava mais no amor. E então o surpreendente (e até certo ponto incompreensível) final contraria toda a atmosfera amarga do longa, quando Mimi e Fiona se beijam na festa e dormem juntas. Embalada pela música “Slave to Love” (a mesma que embalou “9 ½ Semanas de Amor”, outro longa que aborda o tema “paixão sem limites”), a festa destoa do restante da narrativa e parece deslocada. Mas os tiros impiedosos de Oscar contra Mimi e na própria cabeça devolvem o pessimismo à “Lua de Fel”, deixando, com o perdão do trocadilho, um gosto amargo na boca do espectador, refletido no melancólico plano final, com Nigel e Fiona, solitários, diante do mar.

Com muito mais acertos do que erros, “Lua de Fel” apresenta um retrato cruel e pessimista da paixão avassaladora, mas, infelizmente, boa parte de seu impacto é reduzido pelo inexplicável terceiro ato. Talvez se Fiona tivesse ficado com o homem que conheceu no bar e Nigel tivesse perdido as duas mulheres em definitivo, o tom pessimista soaria homogêneo em toda a narrativa. Ainda assim, o longa faz jus ao fel de seu título.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira


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