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CASSINO (1995)

25 janeiro, 2012

(Casino)

 

Videoteca do Beto #124

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Kevin Pollak, Don Rickles, Alan King, L.Q. Jones, Dick Smothers, Frank Vincent, John I. Bloom, Pasquale Cajano, Melissa Prophet, Catherine Scorsese e Catherine T. Scorsese.

Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Nicholas Pileggi.

Produção: Barbara De Fina.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Injustamente ignorado pela crítica no ano de seu lançamento, “Cassino” apresenta muito do que o cinema de Martin Scorsese tem de melhor, com seu visual deslumbrante, cenas memoráveis e atuações inspiradas. Talvez a alta expectativa criada explique a má recepção, afinal, estavam reunidos novamente Scorsese, o roteirista Nicholas Pileggi e os astros De Niro e Joe Pesci, peças fundamentais no sucesso de “Os Bons Companheiros”, lançado cinco anos antes e que também apresentava o ambiente hostil de mafiosos e gângsteres. Mas, ainda que não seja um trabalho tão estupendo quanto “Os Bons Companheiros”, “Cassino” é um belo filme, feito sob medida para agradar aos fãs do gênero.

Escrito por Pileggi, “Cassino” narra a história de Sam “Ace” Rothstein (Robert De Niro), um diretor de cassino em Las Vegas com passado comprometedor que se envolve com Ginger (Sharon Stone), uma prostituta de alta classe que dominava a todos, menos o seu cafetão Lester (James Woods). A combinação explosiva se completa quando o gângster Nicky (Joe Pesci) chega ao local para vigiar Ace, a pedido dos mafiosos que comandavam a cidade.

Auxiliado por Scorsese e baseado em seu próprio livro, Pileggi revela em “Cassino” como funcionava o esquema comandado pela máfia em Las Vegas, criando um painel complexo da cidade na época que precedeu o domínio das grandes corporações. Detalhando cada processo, quem e como cada um participava do esquema, ele explica como eles conseguiam se livrar das autoridades e até mesmo recuperar as “perdas” quando alguém ganhava muito dinheiro nas apostas. Além disso, a excelente estrutura narrativa se preocupa em apresentar pacientemente cada personagem, o que é essencial para que o espectador saiba o que esperar de cada um deles nas diversas situações que surgem ao longo da narrativa.

Logo de cara, temos uma revelação literalmente bombástica e vemos a suposta morte do protagonista, deixando claro em poucos minutos que estamos num filme de Scorsese, através da câmera lenta, da música erudita, da explosão, do personagem misturando-se ao vermelho infernal e da narração que nos leva ao longo flashback. Este recurso, aliás, é utilizado com exaustão em “Cassino”, normalmente na voz de Ace, mas também com Nicky e até mesmo Frank (Frank Vincent), que ganha um “voice-over” num momento de puro exercício estilístico, em que a imagem é congelada enquanto acompanhamos seu raciocínio antes dele responder a pergunta de um dos chefões da máfia. E o estilismo continua, por exemplo, através das legendas superiores que decifram o código na conversa telefônica entre Ace e Nicky (recurso já utilizado, por exemplo, por Woody Allen em “Annie Hall”).

Estilo, aliás, é uma palavra que descreve bem Martin Scorsese. Com seu estilo inconfundível, ele desfila seu arsenal de técnicas de direção, nos presenteando com planos memoráveis, travellings e até mesmo a câmera lenta em diversos momentos, como quando os dados caem na mesa ou uma luz se acende. Este visual elegante conta também com a fotografia de Robert Richardson, que abusa das cores e luzes e transforma “Cassino” numa verdadeira festa para os sentidos, além dos extravagantes figurinos de John A. Dunn e Rita Ryack, que tornam este visual ainda mais rico, tendo também função narrativa ao externar o estado de espírito dos personagens – repare como Ace vai mudando do tom sóbrio de seus ternos no inicio para cores mais vivas no final, refletindo sua empolgação com o império que tem nas mãos, assim como Ginger muda dos tons leves para roupas mais sufocantes, que refletem seu desconforto.

Utilizando um cassino de verdade como locação, o diretor de arte Jack G. Taylor Jr. capricha nos pequenos detalhes, desde os dados e cartas que são jogados nas mesas, passando pela imponente decoração da casa dos Rothstein e terminando na construção de sets impressionantes, como o escritório de Ace. Este excelente trabalho técnico praticamente nos coloca dentro de Las Vegas, captando o clima festeiro da cidade e, ao mesmo tempo, criando uma atmosfera tensa através dos locais obscuros em que os mafiosos se reúnem para tomar decisões em meio a jogatinas e bebidas. Completando esta ambientação, a espetacular trilha sonora mistura de tudo, passando por clássicos do rock, blues e até mesmo músicas dançantes dos anos 70, criando uma atmosfera única típica dos filmes dirigidos por Scorsese.

E ele não para por aí. Observe, por exemplo, o belíssimo travelling que sai das nuvens e nos mostra Las Vegas à noite, passando pela cidade e se perdendo na escuridão do deserto – que, aliás, surge em seguida enquanto a narração nos informa o que é feito no local, num raccord elegante e eficiente. Entre os cuidados enquadramentos e movimentos de câmera que caracterizam o diretor, não poderiam faltar os planos-seqüência, como aquele que acompanha um homem entrando no cassino, passeando por todo local, retirando o dinheiro no restrito setor de contagem, saindo e entrando num carro. E até planos estáticos são belos, como aquele que diminui Ace no deserto após uma discussão com Nicky, simbolizando sua perda gradual de poderes.

Além da beleza plástica, a direção de Scorsese é competente também na condução firme da narrativa. Para isto, ele conta com sua parceira de costume, a montadora Thelma Schoonmaker, que imprime um ritmo quase frenético em certos momentos, como quando acompanhamos quem observa quem no cassino, criando ainda elipses marcantes e/ou bem humoradas, como quando vemos um chefe da máfia pedindo que Ace seja discreto e, em seguida, vemos o anúncio de seu programa de televisão. Além disso, a estrutura narrativa coesa e a fluência na transição entre as cenas resultante da ótima decupagem tornam a longa duração quase imperceptível.

Finalmente, o diretor mostra que é completo ao extrair também excelentes atuações de todo o elenco, dentre as quais merece destaque a de Sharon Stone, que nunca foi considerada uma atriz de alto nível (eu, particularmente, adorei seu trabalho em “Instinto Selvagem”). Nas mãos de Scorsese, entretanto, Stone tem a atuação de sua vida – e a própria Sharon admite a importância do diretor neste aspecto -, transformando Ginger, a sensual e perigosa prostituta que conquista o coração de Ace, numa personagem tridimensional e complexa. Carismática, a atriz está solta no papel e cumpre bem a difícil tarefa de duelar com De Niro e Pesci, sobressaindo-se em discussões calorosas (normalmente bêbada, como no restaurante de Nicky) e até mesmo em momentos mais intimistas, como na conversa telefônica com Ace em que praticamente implora para voltar pra casa. Em outro momento, quando Ace expulsa Ginger de casa, a atriz dá um show ao lado de Robert De Niro, explodindo em cena de maneira convincente.

Além dos duelos verbais envolvendo a atriz, as próprias discussões entre Ace e Nicky merecem destaque, mostrando o enorme talento de Pesci e De Niro, por exemplo, no embate na casa dos Rothstein. Atores que naturalmente impõem respeito (cinéfilos ainda trazem na memória marcantes personagens da carreira deles, como os mafiosos de “Os Bons Companheiros”), a dupla demonstra muita afinidade na tela e cria personagens realmente capazes de intimidar. Inteligente e hábil com números, é no coração que reside o ponto fraco de Ace, que se deixa levar por um sentimento que sabia ser perigoso e acaba dando a chave de sua vida (literalmente) para Ginger. Detalhista, ele toca o cassino como se fosse a sua própria casa, se preocupando com pequenos detalhes como o peso dos dados e a quantidade de recheio nos muffins, mas é incapaz de ter o mesmo cuidado em sua vida pessoal e enxergar o risco que corria. Capaz de quase matar um homem com uma caneta (na cena do bar, a primeira em que a violência gráfica típica dos filmes de Scorsese dá as caras), Nicky é um homem agressivo, que não pensa duas vezes antes de partir pra cima de alguém, por maior e mais forte que seja, mas é também inteligente o bastante para saber quando cruzou o limite do aceitável dentro do “código de moral e ética” dos mafiosos – e Pesci está ótimo na cena em que Nicky confessa para Frank que sabe disto.

Além dos golpes com uma caneta que jorram sangue de um pobre homem, marteladas nas mãos de trapaceiros, tiros a queima roupa e até mesmo golpes com taco de beisebol completam o festival de cenas violentas de “Cassino”, que conta ainda com um elenco de apoio muito bom, com James Woods vivendo o malandro Lester Diamond, Frank Vincent como Frank, Don Rickles interpretando um dos capangas de Ace e L. Q. Jones na pele do cidadão local que avisa Ace do risco que ele corria ao demitir determinado funcionário. Como curiosidade, vale dizer ainda que a mãe de Scorsese, a Sra. Catherine, interpreta a Sra. Piscano, a dona de uma venda que reclama dos palavrões de um personagem chave na trama.

Ao contrário do que imaginamos no inicio de “Cassino”, Ace escapa milagrosamente da morte e sobrevive para narrar o triste fim de Nicky, morto violentamente por Frank e uns comparsas no meio de um milharal. A moral da história? A própria máfia destruiu seu império de sonhos na Las Vegas dos anos 70, abrindo espaço para as grandes corporações que dominaram o local nas décadas seguintes e transformaram a cidade no grande parque de diversões que é hoje.

Com a digital de Scorsese impressa em cada fotograma, “Cassino” é um legítimo representante do tipo de filme que fez a fama deste excepcional diretor, capaz de transitar entre diversos gêneros e, ainda assim, retornar ao seu favorito com inventividade suficiente para não se tornar repetitivo. As atuações inspiradas e o visual de encher os olhos complementam a qualidade deste filme esquecido em meio a tantas pérolas de uma das mais respeitáveis filmografias de Hollywood.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2012 por Roberto Siqueira

VIVENDO NO LIMITE (1999)

27 janeiro, 2011

(Bringing Out the Dead)

 

Filmes em Geral #40

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Nicolas Cage, Patricia Arquette, John Goodman, Ving Rhames, Tom Sizemore, Marc Anthony, Nestor Serrano, Cynthia Roman e Queen Latifah.

Roteiro: Paul Schrader, baseado em livro de Joe Connelly.

Produção: Barbara De Fina e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida noturna da cidade de Nova York, repleta de bêbados, drogados, prostitutas, tiros e todo tipo de situação desagradável, é retratada com fidelidade neste “Vivendo no Limite”, que por mais eficiente que seja, jamais alcança a força e o impacto das grandes obras de Martin Scorsese. Nem por isso, no entanto, podemos afirmar que se trata de um filme ruim, muito pelo contrário. Mas o fato é que o longa não apresenta o nível de excelência de “Taxi Driver” (que também abordava um homem atormentado pelo que via nas ruas de Nova York) ou “Touro Indomável” e marca o início de uma fase menos pungente do diretor, que ainda assim conseguiu realizar grandes filmes como “O Aviador” e “A Ilha do Medo”.

O paramédico Frank Pierce (Nicolas Cage) passa as noites rodando a cidade de Nova York dentro de sua ambulância, cumprindo a estressante rotina dos plantões noturnos, que consiste em tentativas seguidas de salvar os diversos tipos de pessoas que perambulam pela agitada madrugada da cidade norte-americana. Após a frustrada tentativa de salvar uma garota de rua (Cynthia Roman), Frank passa a ter alucinações com os pacientes que não conseguiu salvar e se vê muito perto de sofrer um verdadeiro colapso nervoso diante de sua rotina nada agradável.

Logo nos primeiros minutos de “Vivendo no Limite”, podemos notar o estilo marcante de Martin Scorsese, através do tenso plano-seqüência que nos leva pra dentro de um apartamento, onde Frank encontrará uma vítima de infarto. O desespero da família ao redor daquele homem praticamente pode ser sentido pelo espectador graças à câmera visceral de Scorsese. Entre estes familiares desesperados está Mary Burke (Patricia Arquette), a filha da vítima, que será a responsável pela mudança de comportamento de Frank. Scorsese também volta a apresentar seus tradicionais planos ousados, como o retrovisor, a sirene e o capô da ambulância, entre outros planos nada convencionais. O diretor também acerta a mão na condução dos momentos mais agressivos da narrativa, como o realista acidente sofrido por Frank e um parceiro com a ambulância. Finalmente, vale destacar outra seqüência dirigida com perfeição, quando Frank entra na companhia Daylight em câmera lenta, pisando no sangue esparramado pelo chão até chegar à moça morta e, finalmente, ao traficante preso na grade. As luzes da cidade ao fundo e os fogos de artifício queimando fazem do momento uma espécie de “poesia da cidade grande”, quebrada subitamente pela queda de Frank e do traficante, que ficam pendurados na grade.

O roteiro, escrito por Paul Schrader (baseado em livro de Joe Connelly), é carregado da tensão esperada neste tipo de profissão pouco tranqüila. Mas felizmente, Schrader sabe os momentos corretos de inserir o alivio cômico, através do bêbado que constantemente é atendido por Frank, por exemplo, quebrando a tensão e tornando a experiência mais suportável para o espectador. Schrader toca ainda, de forma curiosa, no complicado tema do conflito entre a fé e a razão, através de uma conversa informal de Frank e seu religioso parceiro Marcus (Ving Rhames) sobre uma jovem irlandesa que tentou o suicídio (“Foi o vento!” alega Frank, somente para ouvir Marcus afirmar que “Foi Jesus!”). A vida dura destes profissionais, que precisam de muita coragem e estômago forte para seguir em suas carreiras, é refletida através da fotografia escura do ótimo Robert Richardson, que em diversos momentos mistura a escuridão das ruas de Nova York com a frenética luz vermelha das sirenes piscando, aumentando a sensação de incomodo no espectador. Richardson e Scorsese utilizam ainda um velho artifício cinematográfico para melhorar a visão noturna, freqüentemente molhando as ruas da cidade, pois a água facilita a filmagem nesta fase do dia. Já a montagem dinâmica da colaboradora tradicional de Scorsese, Thelma Schoonmaker, aumenta o clima de urgência do longa, refletindo o constante estado de alerta daqueles profissionais. Repare como em diversos momentos a imagem é acelerada (uma decisão em conjunto do diretor e da montadora), refletindo a euforia de Frank, provocada pela bebida que ele toma constantemente, na busca de tentar sobreviver a mais uma noite e esquecer os traumas do passado. Scorsese reflete até mesmo nos planos o estado mental do personagem, a beira de um colapso nervoso, como quando enquadra a ambulância em alta velocidade de ponta-cabeça e de lado na tela, sempre embalando a seqüência com a trilha sonora agitada de Elmer Bernstein. Bernstein, aliás, que alterna muito bem entre o tom agitado da frenética profissão de Frank com o som tradicional da noite nova-iorquina, como no inicio do longa onde a trilha soul se mistura ao som da sirene da ambulância.

É evidente, portanto, que Frank é alguém claramente afetado pela vida que leva, sofrendo constantemente com problemas psicológicos, provocados por traumas do passado (em especial a garota Rose, primeira vítima que ele não conseguiu salvar). Nicolas Cage demonstra bem o sofrimento do personagem, através do olhar pesado, sempre baixo e com fortes olheiras, e da oscilação no tom de voz, externando uma instabilidade típica de quem enfrenta problemas e não suporta o peso que tem de carregar. Repare como o ator demonstra bem a revolta de Frank ao saber que não será demitido, socando a mesa e gritando, o que contrasta com a voz tranqüila que ele utiliza em outros momentos da narrativa. “Não salvo vidas. Sou testemunha na hora da morte deles”, diz Frank, refletindo sua descrença, que caminha em direção oposta ao que exige sua complicada profissão. Cage demonstra bem o cansaço de Frank, por exemplo, quando este toma uma pílula para relaxar (e a trilha sonora neste momento leva o espectador junto na viagem), explodindo em seguida devido às alucinações com Rose. Frank parte então com Mary nos braços e, no apartamento dela, se sente muito melhor, algo que se reflete no próprio visual do apartamento, muito mais claro e limpo (direção de arte de Robert Guerra), e na fotografia, menos sombria e destacando a cor branca. Frank diz então que acha que salvou alguém, mas não sabe quem. Podemos entender que ele salvou Mary, mas prefiro pensar que ele salvou a si próprio. Mas o grande momento da atuação de Cage acontece quando Frank, já cheio daquela vida, explode diante de um drogado suicida, dizendo que com tanta gente querendo viver, era um desperdício salvá-lo (“Se mate!”) e provocando a fuga desesperada do cidadão. No restante do elenco, vale destacar a boa atuação de John Goodman como Larry, um dos companheiros de Frank, em especial no momento em que eles atendem o bêbado no meio da rua (repare a cara de enjôo de Goodman), a divertida participação de Ving Rhames na pele do religioso Marcus, principalmente na engraçada cena em que “ressuscita” um jovem (e neste momento, Scorsese o filma por cima, como se fosse a visão divina daquele momento) e a contida participação de Patricia Arquette, bastante coerente com a sofrida Mary Burke.

Obviamente, não faltam momentos tensos em “Vivendo no Limite”, como o marcante atendimento de emergência a uma mulher grávida de gêmeos, que complica ainda mais a situação de Frank quando este, seguindo o seu carma, não consegue salvar um dos bebês, ao passo em que Marcus consegue salvar o outro e se sente renovado por isto. Mas a atitude final de Frank, provocando a morte de um paciente em estado vegetal (e abrindo espaço para discussões intermináveis a respeito da eutanásia), curiosamente o liberta de parte do seu sofrimento. E o plano final, com Frank deitado no colo de Mary até o amanhecer, mostra que finalmente ele encontrou alguma paz, ainda que esta se resuma aqueles minutos de consolo no colo de outra pessoa.

Em certo momento, a mensagem de “Vivendo no Limite” é resumida nas palavras de Frank. “Estamos todos morrendo”, diz ele, e o longa de Scorsese mostra a morte de diversas maneiras. Com algumas das principais marcas do diretor, como a violência, a culpa e um personagem central atormentado, o filme alcança um resultado agradável, mas não consegue ir muito além.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

OS BONS COMPANHEIROS (1990)

10 dezembro, 2010

(Goodfellas)

 

Videoteca do Beto #75

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Frank Sivero, Tony Darrow, Frank Vincent, Chuck Low, Frank DiLeo, Gina Mastrogiacomo, Catherine Scorsese, Charles Scorsese, Illeana Douglas e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Nicholas Pileggi.

Produção: Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Scorsese estava em plena forma quando lançou este maravilhoso “Os Bons Companheiros”, apresentando as melhores características de seu diferenciado modo de fazer cinema. O linguajar despojado, o submundo do crime, as cenas de violência extremamente realistas e os personagens fascinantes que enxergam tudo isto com naturalidade estão presentes neste legítimo representante da elogiada filmografia de Marty, que mais uma vez conta com um elenco talentoso e um trabalho técnico de primeira para desfilar sua habilidade atrás das câmeras e acertar em cheio no alvo.

Henry (Ray Liotta) inicia sua carreira na vida do crime aos 11 anos de idade e se torna o protegido do mafioso Paulie (Paul Sorvino), sendo tratado praticamente como um filho por muitos anos. Já na fase adulta, ele se junta a Tommy (Joe Pesci) e Jimmy (Robert De Niro) para roubar caminhões e, posteriormente, se envolver no tráfico de drogas, o que se revelará uma decisão trágica pra todos eles.

“Até onde eu consigo me lembrar, eu sempre quis ser um gângster”. Logo na introdução deste excelente “Os Bons Companheiros” (que precede a famosa frase do personagem de Ray Liotta), o excepcional roteiro escrito por Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Pileggi, consegue prender a atenção do espectador ao mostrar Tommy, Jimmy e Henry executando um homem, que estava trancado no capô de um carro, com a naturalidade de quem está apenas parando para trocar um pneu. Desta forma, esta espetacular seqüência, além de prender o espectador, tem ainda a função de nos apresentar a personalidade “durona” destes personagens, que pertencem a um mundo completamente diferente do que estamos acostumados, nos preparando adequadamente para o restante da narrativa. Utilizando uma interessante narração em off para nos mostrar aquele mundo através do olhar de Henry, o roteiro (repleto de palavrões, como é marca registrada nos filmes de Scorsese) cobre muitos anos na vida do mafioso, iniciando nos tempos em que ele descobriu que ser um gângster significava ter respeito e poder, ainda quando estacionava os Cadillacs sob os olhares curiosos das garotas. Mas o longa não se resume à trajetória de Henry Hill, abordando também temas interessantes como a culpa católica, simbolizada no tom carregado de vermelho da fotografia de Michael Ballhaus, que remete ao aspecto infernal daquela vida criminosa, e a corrupção da policia, ilustrada quando Jimmy dá cigarros em troca do silêncio dos policiais. Além disso, mostra que para aquelas pessoas, coisas terríveis como ir para a prisão eram até mesmo um motivo de orgulho, algo ilustrado quando Henry é libertado sob aplausos e abraços acalorados dos parceiros de crime – e neste momento, aliás, Jimmy dá um conselho que terá reflexo no futuro da narrativa, ao dizer para Henry “nunca denunciar seus amigos”.

Scorsese utiliza todo o seu arsenal de travellings e panorâmicas, além do tradicional plano-seqüência, para novamente entregar uma direção estilizada, que preza pelo realismo e evita contar a história de maneira convencional. Observe, por exemplo, com em diversos momentos o diretor, auxiliado por seus montadores, utiliza o still (a imagem congelada, acompanhada da voz do narrador, que fez tanto sucesso, por exemplo, em “Cidade de Deus”), como quando o pai de Henry lhe dá uma surra, buscando dar um fôlego na narrativa para enfatizar alguma reflexão do narrador. Já entre os famosos planos-seqüência do diretor, destacam-se a introdução dos mafiosos no bar, quando eles conversam com a câmera enquanto são identificados, novamente sob forte predomínio da cor vermelha, e quando Henry e Karen entram no restaurante pelos fundos, quando o diretor nos leva por dentro da estrutura do local até a mesa colocada especialmente na frente do palco, enquanto no caminho, o respeito das pessoas por Henry fica evidente, através do número de funcionários que o cumprimentam. Scorsese também utiliza bastante o zoom, como quando Henry sai da prisão, e faz uma pequena homenagem a nouvelle vague francesa, quando ouvimos um homem contando piada no palco enquanto vemos a imagem de Tommy e Henry entrando no galpão do aeroporto, numa falta de sincronia entre som e imagem clássica dos filmes de Godard. O diretor conta ainda com a montagem de Thelma Schoonmaker e James Y. Kwei, que emprega um ritmo ágil à narrativa, mas mantém a característica de Scorsese de utilizar poucos cortes, aproveitando ao máximo seus belos enquadramentos e movimentos de câmera, além de fazer uma interessante passagem no tempo da noite para o dia em frente ao prédio da amante de Henry, quando Karen parte para o local para enfrentá-la e, em seguida, tenta assassinar o marido na cama.

Além da montagem, destaca-se também a já citada direção de fotografia de Michael Ballhaus, que adota um tom obscuro e com forte predomínio da cor vermelha em todo o filme, algo notável quando os criminosos matam Batts (Frank Vicent) no capô do carro, quando roubam um caminhão à noite ou nas seqüências dentro do bar. Este tom vermelho claramente remete ao universo violento daqueles gângsteres, onde o sangue é uma presença constante, e também ao citado aspecto infernal daquela vida de crimes. O aspecto infernal também é ilustrado na trilha sonora de Pete Towshend, que utiliza o som clássico de bandas de rock n’ roll como os “Rolling Stones”, o que também colabora com o clima empolgante da narrativa. Vale destacar ainda a maquiagem que envelhece Robert De Niro no terceiro ato e os figurinos de Richard Bruno, que adotam o padrão do gênero, com ternos e gravatas vestindo os respeitados mafiosos.

E já que citei os mafiosos, vale ressaltar que eles são brilhantemente interpretados pelo talentoso elenco de “Os Bons Companheiros”. A começar por Ray Liotta, que tem uma ótima atuação como Henry, apesar das risadas exageradas no bar. Um homem agressivo e explosivo, capaz de agredir brutalmente o vizinho de sua namorada, ele convive em meio aos mafiosos desde pequeno, mas entre todos eles, é o único que está ali mais pelo glamour (até mesmo pela sua origem irlandesa, e não italiana), o que será decisivo quando chegar o momento em que deverá decidir entre voltar para a prisão e entregar todo mundo. Após voltar da prisão pela primeira vez, Liotta demonstra muito bem o desespero de Henry ao procurar as drogas que lhe garantiriam a fuga da cidade e descobrir que Karen jogou tudo fora. Esta busca insana o levaria a ser preso novamente, mas desta vez Henry faria qualquer coisa para salvar a própria pele. Pior para Jimmy. Interpretado brilhantemente por Robert De Niro, Jimmy é um homem sempre prestes a explodir, como podemos notar quando seus amigos entram no bar após o roubo da Lufthansa ostentando objetos de valor, provocando sua imediata irritação por chamar a atenção da policia. E apesar de ter o respeito do grupo, seus conselhos não convencem nem mesmo seu amigo Henry, que gasta imediatamente a grana com presentes para a mulher. De Niro ilustra muito bem o desespero crescente no personagem na medida em que a narrativa avança e ele pressente a traição, resultando numa cena sensacional, quando oferece ajuda para Karen, que recusa por temer o pior e foge em disparada em seu carro. Mas o show mesmo fica por conta de Joe Pesci, que vive um temível Tommy, capaz de provocar calafrios toda vez que aparece em cena, tamanho é o seu poder de intimidação e a sua instabilidade. Logo em sua introdução, na excelente cena em que conversa com os amigos num bar, o espectador tem a exata noção do perigo que aquele homem representa ao observar que nem mesmo o seu melhor amigo demonstra confiar nele. Repare como o silêncio toma conta de todos quando ele finge estar falando sério com Henry, perguntando por que o amigo o achava engraçado. A cena é tensa e serve para transmitir ainda uma série de sensações ao espectador, através da composição visual de Scorsese, que aproxima o grupo na tela (dando um sentido de camaradagem), e do trabalho conjunto de fotografia, de Ballhaus, e direção de arte, de Maher Ahmad, que novamente destaca a cor vermelha através dos objetos na mesa. A cena serve também para dar uma importante dica do que acontecerá no futuro, quando Tommy diz para Henry que “talvez ele se abra num interrogatório”. Finalmente, Tommy demonstra ser capaz de qualquer coisa quando atira no atendente Spider, numa cena chocante que chega até mesmo a surpreender os seus amigos mafiosos (e o espectador também!).

No restante do elenco, temos Paul Sorvino, que se sai muito bem como Paulie, mostrando-se firme, especialmente na cena em que o dono do restaurante pede a morte de Tommy, além de demonstrar sabedoria ao alertar Henry sobre os perigos do envolvimento com as drogas. Assim como Don Corleone em “O Poderoso Chefão”, ele sabia que aquilo poderia significar o começo do fim. Mas Tommy, Jimmy e Henry não lhe deram ouvidos e começaram a fazer fortuna com o tráfico. Só que o tempo se encarregou de dar razão à Paulie. E neste submundo perigoso da máfia, até mesmo Karen, interpretada com competência por Lorraine Bracco, não parece ser uma pessoa normal (repare como ela se empolga ao ver a arma ensangüentada de Henry após este surrar seu vizinho), tendo acessos de loucura repentina, como quando discute com o marido na prisão ou quando a policia finalmente prende Henry por tráfico de drogas. Vale citar ainda a pequena participação de Samuel L. Jackson como Stacks, apenas como curiosidade.

A violenta morte de Billy Batts, um ótimo exemplo do realismo que Scorsese busca empregar em seus filmes, será a razão da queda do trio. Após espancarem o integrante da máfia, eles ainda param para pegar uma pá na casa da mãe de Tommy, comem, batem papo e só depois seguem para enterrar o corpo. Scorsese destaca esta forma corriqueira de lidar com a situação no momento em que a câmera sai da mesa de jantar e vai até o carro, destacando o porta-malas com o som do homem se debatendo lá dentro. Não por acaso, a primeira seqüência do filme se passa nesta etapa da vida deles, pois este momento provocará a morte de Tommy (em outra cena surpreendente e de forte impacto) e a conseqüente queda de todos eles.

Contando com sua costumeira habilidade para contar histórias do submundo do crime, Martin Scorsese nos entrega um filme visceral, empolgante e extremamente competente, que conta com atuações de primeiro nível, um excelente roteiro e cenas de forte impacto para conquistar o espectador. Até onde eu consigo me lembrar, eu sempre quis assistir aos filmes de Scorsese. E posso afirmar que mais uma vez esta experiência foi maravilhosa.

Texto publicado em 10 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

CAMINHOS PERIGOSOS (1973)

18 novembro, 2010

(Mean Streets)

 

Filmes em Geral #30

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Harvey Keitel, Robert De Niro, David Proval, Amy Robinson, Richard Romanus, Cesare Danova, Victor Argo e George Memmoli.

Roteiro: Martin Scorsese.

Produção: E. Lee Perry e Jonathan T. Taplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo das primeiras imagens aparecerem na tela, “Caminhos Perigosos” deixa claro o tema principal de sua narrativa através das palavras ditas por determinado personagem: “Você não paga os pecados na igreja, paga na rua”. A culpa católica e o eterno conflito entre seguir os ensinamentos da igreja e sobreviver naquele mundo extremamente perigoso é o fio condutor deste ótimo filme dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Harvey Keitel e Robert De Niro.

Charlie (Harvey Keitel) trabalha para crescer no submundo de Nova York sob a tutela de seu tio Giovanni (Cesare Danova), ao mesmo tempo em que mantém um caso com Teresa (Amy Robinson) e a indesejada amizade de Johnny Boy (Robert De Niro), um jovem agressivo que vive devendo para todo mundo. Entre os credores está Michael (Richard Romanus), um homem tranqüilo que evita confrontar Johnny por conta da amizade que tem com Charlie.

Não por acaso, a trama de “Caminhos Perigosos” se passa no bairro de Little Italy, o local onde o diretor Martin Scorsese passou boa parte de sua infância e juventude, e que claramente influenciou sua carreira em muitos aspectos (o linguajar de seus filmes, o tema do submundo, etc.). E ainda que este seja um dos seus primeiros trabalhos como diretor, Scorsese já apresenta seu estilo marcante em diversos momentos, como no travelling em câmera lenta que nos leva pela boate ao som de clássicos do rock n’ roll ou quando a câmera presa em Charlie durante uma bebedeira transmite a exata sensação de desorientação que o personagem sentia naquele momento. O diretor emprega freqüentemente o plano-seqüência, os travellings e a câmera lenta, balanceando estes movimentos estilizados com o uso da câmera agitada, buscando empregar realismo em diversas cenas. Observe, por exemplo, a briga que acontece num bar, ao som de “Mr. Postman”, quando Charlie e seus amigos vão cobrar um pagamento. A câmera agitada acompanha os personagens sem fazer muitos cortes, tornando a cena extremamente realista e nos jogando pra dentro da confusão – vale notar também a interessante crítica à corrupção da polícia no final do conflito. O diretor repete a alta dose de tensão e realismo na cena do assassinato dentro do bar de Tony (David Proval), com a vítima tentando estrangular seu assassino enquanto todos saem correndo desesperados pelas ruas tentando escapar da polícia, que já estava a caminho. Obviamente, a montagem de Sid Levin colabora sensivelmente na construção destas cenas, que contrastam diretamente com o ritmo mais lento do restante do longa. Sempre com cenas longas e com poucos cortes, Levin balanceia muito bem o ritmo da narrativa, além de ousar em alguns momentos, como quando Charlie e Johnny caminham pela noite conversando sobre a avó de Charlie. Repare como repentinamente a noite se transforma em dia durante a conversa, numa quebra deliberada de continuidade por parte de Scorsese e Levin. Em outro momento, numa conversa entre Charlie e Teresa dentro do apartamento, o som se inicia antes das imagens aparecerem na tela – imagens estas que remetem a conversa entre Patricia e Michael em “Acossado” e que ainda apresentam uma cena de nu frontal de Teresa. Estas duas cenas exemplificam a clara influência da nouvelle vague (Godard, em especial) sobre Martin Scorsese naquele momento de sua carreira. Scorsese faz ainda sua homenagem ao cinema clássico ao exibir uma cena de “Rastros de Ódio”, revelando sua paixão pela sétima arte.

Scorsese conta ainda com a direção de fotografia de Kent Wakeford, que emprega um visual cru, obscuro e com muitas cenas noturnas, refletindo a escuridão na vida daquelas pessoas à margem da sociedade, contrastando com a fotografia vermelha das cenas que acontecem dentro do bar, repleto de drogas e bebidas, conferindo um ar infernal ao local, afinal de contas, é ali que Charlie comete os seus “pecados”. As ruas sujas e repletas de mendigos, traficantes e prostitutas atestam o bom trabalho de direção de arte de Bill Bates, reforçado pelos figurinos de Norman Salling, que seguem o padrão “O Poderoso Chefão”, com os tradicionais ternos e gravatas. E finalmente, a trilha sonora é certamente um dos grandes destaques do longa, intercalando clássicos do rock n’ roll com óperas,  representando o conflito entre a vida agitada de Charlie no gueto e seu apego às tradições italianas, em especial a religiosidade e a busca pela salvação.

Scorsese acerta também ao apresentar, logo na introdução, as características marcantes de cada personagem, com Charlie buscando orientação na igreja, Johnny fazendo arruaça na rua, Tony cuidando do bar e Michael pacientemente indo cobrar um pagamento, nos preparando para o que aconteceria depois. Escrito pelo próprio Scorsese, o roteiro não tem uma estrutura convencional, nos permitindo acompanhar o cotidiano daquele grupo sem ter um objetivo claro, mas sempre evidenciando o tema da culpa católica, como, por exemplo, através da história que Charlie escuta sobre o casal de jovens que sai para transar e morre. Ainda assim, o foco da narrativa está sempre em Charlie e em sua constante luta por redenção diante da vida que leva. Ele não se importa com os problemas da igreja (“A igreja é uma organização, um negócio”, diz Tony em certo momento), exatamente por não conseguir encontrar outro caminho para aliviar seu conflito interno e buscar a salvação. É como se Charlie quisesse compensar a “vida pecaminosa” que leva freqüentando a igreja e confessando os pecados. Keitel transmite muito bem os conflitos do personagem, que consegue ser ao mesmo tempo durão e paternal, principalmente nos momentos em que passa ao lado de Johnny. Observe, por exemplo, sua reação ao ver uma moça negra dançando, lutando contra seus pensamentos e evidenciando seu racismo – o que se confirma quando ele desiste de um encontro por medo de ser visto com ela. O roteiro, aliás, volta a abordar o preconceito quando um homem diz que “as mulheres judias saem com todo tipo de cara”. Charlie convive ainda com outro dilema, tendo que decidir entre ficar com Teresa e Johnny e herdar o restaurante que seu tio Giovanni lhe prometeu. Neste caso, sua difícil decisão é também inteligente, o que o encoraja a contar pra Teresa a sua escolha, deixando a garota em segundo plano por um tempo, pelo menos até herdar o restaurante – e é apropriado que o plano anterior a esta revelação apresente Charlie colocando o dedo no fogo, pois certamente ele estava brincando com algo extremamente perigoso ao tentar enganar o tio.

Mas não é apenas Keitel que se destaca no elenco. Logo na primeira conversa entre Charlie e Johnny nos fundos do bar, podemos perceber a qualidade da atuação de Robert De Niro. O ator demonstra com competência o jeito desleixado de Johnny através da expressão corporal relaxada e da fala arrastada, que deixam claro o quanto ele pode ser dissimulado e pouco confiável. Durante uma discussão com Tony, Johnny ajeita as calças e arregala os olhos como quem está pronto para brigar, mostrando que ele era capaz de qualquer coisa para se defender. Sua loucura é tão evidente que o espectador não se surpreende quando Johnny resolve atirar no Empire State e na janela de uma mulher, somente para logo em seguida pedir desculpas para a senhora. Aliás, este sentimento de que algo ruim pode acontecer é constante em “Caminhos Perigosos”, muito por causa do elenco formado por atores com cara de “mau”, que dão a sensação de que poderão sair na porrada a qualquer momento. A exceção é Michael, interpretado por Richard Romanus, que exibe uma tranqüilidade atípica para o mundo em que vive, muitas vezes parecendo até mesmo inofensivo. Mas na medida em que o espectador passa a ter certeza de que Johnny não vai pagar a dívida, a eminente explosão de Michael se torna evidente – e o ator transmite esta sensação muito bem, principalmente na tensa seqüência em que Johnny aponta uma arma pra ele no bar. Fechando o elenco, Amy Robinson se sai bem como Teresa, especialmente quando sofre um ataque epilético diante de Charlie. Todos estes personagens sombrios e ambíguos criam um clima tenso sem a necessidade de recorrer à trilha sonora ou a situações inusitadas, somente através da composição dos personagens e da vida que eles levam. Por outro lado, estes mesmos personagens são capazes de citar diversas passagens bíblicas dentro do bar, mostrando a influencia da igreja sobre eles, ainda que não acreditassem nos ensinamentos que memorizaram (ou talvez não aceitassem). Neste dilema está a discussão central do filme.

Quando Michael emparelha o carro e seu parceiro começa a atirar em Johnny, o espectador pode até se sentir surpreso e chocado, mas no fundo todos sabiam que ao agir daquela maneira naquele mundo Johnny estava pedindo por isso. Scorsese encerra o longa com uma interessante rima narrativa, mostrando novamente os diversos personagens em diversos locais diferentes, assim como no início do filme. De diferentes maneiras, todos tentam sobreviver naquele violento ambiente, mas nem todos conseguem sair ilesos.

Texto publicado em 18 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

CABO DO MEDO (1991)

8 janeiro, 2010

(Cape Fear)

 

Filmes Comentados #15

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas, Fred Dalton Thompson e Zully Montero.

Roteiro: Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald.

Produção: Barbara De Fina e Robert De Niro.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

- Remake de “Círculo do Medo”, de 1962, este thriller interessante dirigido por Scorsese garante bons sustos, mas jamais alcança o nível de excelência de outras obras do renomado diretor.

- Scorsese mantém uma de suas características marcantes ao criar planos interessantes e criativos, como aquele em que Sam escova os dentes diante do espelho, além de utilizar muitos zooms para realçar as reações assustadas dos atores. O diretor também demonstra durante uma revista policial o enorme desejo de vingança de Max, através de diversos closes nas tatuagens espalhadas pelo seu corpo de versículos bíblicos como “A vingança será minha” e “O tempo nos vingará”.

- O roteiro de Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald, utiliza de forma inteligente o dialogo expositivo para explicar o motivo da perseguição de Max, quando Sam explica para um colega que sonegou a informação de que a vitima era promiscua no caso dele. Além disso, cria um clima crescente de suspense, culminando com a exagerada (e tensa!) seqüência final no barco.

- A ameaça provocada pela presença de Max causa um conflito na relação entre Sam e Leigh, expondo problemas do passado e criando dúvida sobre o presente do casal. Impressionante como um erro cometido há muito tempo pode prejudicar tanto a vida de uma pessoa. Interessante notar também que com este erro o roteiro evita caracterizar Sam como herói, fugindo do maniqueísmo. Como podemos perceber, não dá pra rotular Sam como uma pessoa boa ou má. E nem mesmo os outros personagens podem ser rotulados desta forma, já que até mesmo Max tem suas qualidades como ser humano.

- Max parece uma sombra na vida de Sam, um verdadeiro pesadelo. Ciente de seus direitos, ele jamais cruza a linha permitida pela lei, mas consegue infernizar a vida de Sam ao ponto de fazê-lo chegar (e ultrapassar) seu limite. Seja no restaurante, seja no cinema, seja na porta da sua própria casa, a imagem de Max dentro de seu conversível persegue Sam.

- A tensa cena em que Max se rebela contra os agressores contratados por Sam e sai à procura dele simboliza também uma inversão de valores na cabeça do espectador (e dentro própria da narrativa). A partir de agora, Max é a vítima.

- Thelma Schoonmaker, responsável pela montagem e costumeira colaboradora de Scorsese, dita um ritmo intenso ao longa, o que é essencial em um filme de suspense.

- Robert de Niro tem outra atuação de alto nível como o determinado e psicopata Max Cady, criando através da fala e dos gestos um vilão aterrorizante. Extremamente inteligente (estudou na prisão livros de direito e filosofia, além de ler a Bíblia), Max é temível até por saber utilizar muito bem a lei a seu favor, o que o transforma num personagem assustador, mas que ao mesmo tempo consegue ser fascinante. Suas ações são calculadas para atingir Sam de uma forma que ele não possa se defender, como quando ataca sua colega de trabalho (numa cena de forte impacto visual) sabendo que ela jamais iria testemunhar contra ele para não expor sua relação com Sam. Cady quer provar que Sam também pode se transformar num criminoso, e alcança seu objetivo.

- Nick Nolte como Sam e Jessica Lange como sua esposa Leigh atuam com competência, mas são ofuscados pela excelente atuação de Robert De Niro. Por outro lado, Juliette Lewis consegue uma atuação fantástica como a rebelde adolescente Danielle, mostrando inocência e agressividade em quantidades colossais. Ela teme e admira Max, agindo como se fosse uma criança fascinada com o perigo. Danielle sabe que corre riscos, mas seu desejo de conhecer melhor aquele homem que ameaça sua família é maior do que seu medo.

- Na cena mais tensa do filme, o encontro entre Max e Danielle no teatro da escola apresenta também um show de interpretação da dupla Lewis e De Niro. Danielle exala sensualidade e inocência diante de um sombrio e ameaçador Max, que por sua vez, utiliza muito bem o sentimento de rebeldia da garota a seu favor.

- Interessante como a lei é ineficaz na defesa de pessoas em constante ameaça. Desde que se conheça a lei (como era o caso de Max) é possível atormentar a vida de alguém e, dependendo da reação do perseguido, ainda sair como vitima do caso.

- O final soa irreal com as muitas tentativas de matar Max, que sempre consegue escapar. Este exagero praticamente o transforma em um super-herói, o que não é coerente com o restante da narrativa. Por outro lado, toda a seqüência é incrivelmente eletrizante e assustadora, cumprindo bem o propósito do filme, que é gerar medo no espectador.

- Vale destacar também na seqüência final o tom obscuro da direção de fotografia de Freddie Francis. O visual sombrio, com o barco desgovernado vagando pelo cabo do medo, cria uma série de imagens marcantes.

- De uma forma geral, “Cabo do Medo” cumpre seu propósito, mas não dá um passo sequer além, o que não é comum nos filmes dirigidos por Martin Scorsese.

Texto publicado em 08 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

TOURO INDOMÁVEL (1980)

2 dezembro, 2009

(Raging Bull) 

 

 

Videoteca do Beto #22

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa Saldana, Mario Gallo, Frank Adonis, Joseph Bono, Frank Topham, Lori Anne Flax, Charles Scorsese e Michael Badalucco.

Roteiro: Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake LaMotta, Joseph Carter e Peter Savage.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas vezes um sentimento foi captado de forma tão brilhante na tela do cinema como em “Touro Indomável”, obra-prima de Martin Scorsese que marcou os anos oitenta e mostrou como o ciúme e o descontrole emocional pode levar qualquer pessoa a total degradação, por mais sucesso que ela tenha na vida. Magnífico em todos os aspectos, o filme é uma aula de cinema de primeira grandeza, alcançando o mais alto nível de excelência técnica e narrativa, além de contar com uma atuação monumental de um dos grandes atores da história do cinema.

“Touro Indomável” conta a história da ascensão meteórica do pugilista peso-médio Jake La Motta (Robert De Niro), conhecido como o “touro do Bronx”, assim como seu incrível processo de decadência, graças ao temperamento explosivo e ao ciúme doentio.

Extremamente realista e ao mesmo tempo sensível, o filme conta com a direção impecável de Martin Scorsese, que como de costume utiliza planos muito criativos, principalmente durante as lutas, através de closes em La Motta, planos da lona e das cordas pingando sangue e até mesmo do uso da câmera lenta para acentuar o efeito de alguns golpes. Incrivelmente realista, a direção de Scorsese permite ao espectador praticamente sentir o peso das luvas, a emoção do combate e a vibração da platéia. O estilo inconfundível do diretor aparece também em um espetacular plano-sequência, que vai desde o vestiário até o ringue, nos mostrando a preparação de Jake e nos levando junto com ele até o local do combate. Podemos sentir o clima, o público, as luzes e o ringue, como se estivéssemos ali dentro da luta válida pelo titulo mundial dos pesos-médios entre La Motta e Cerdan, em 1949. É claro que a firmeza na condução da narrativa e a excelente direção de atores, duas características fortes do diretor, estão presentes também.

O roteiro de Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake La Motta, Joseph Carter e Peter Savage, utiliza a linguagem de rua (verborrágica e repleta de palavrões) tradicional nos filmes de Scorsese para mostrar em detalhes como o temperamento explosivo de Jake o levou ao topo e ao fundo do poço, cobrindo muitos anos da vida do pugilista sem jamais soar cansativo. Mérito também da excelente montagem de Thelma Schoonmaker, que imprime um ritmo interessante ao longo de toda a narrativa, utilizando diferentes estilos visuais para demonstrar a passagem do tempo. Observe, por exemplo, o arquivo de fotos e imagens em câmera lenta das lutas de Jake, seguido por um divertido video colorido que resume os acontecimentos na família La Motta (como os casamentos dos irmãos), sublinhado por uma trilha sonora nostálgica, e que finaliza com imagens desgastadas em um video envelhecido, que lembra imagens de jornal. Esta seqüência dura apenas alguns minutos, mas cobre um período de mais de três anos da vida dele.

Tecnicamente impecável, o longa conta também com a excelente direção de fotografia de Michael Chapman. O lindo contraste entre o preto e o branco cria imagens belíssimas, evita um banho de sangue no espectador e ainda pode ser interpretado como o ponto de vista de Jake, já que teoricamente os “touros” também enxergam o mundo em preto e branco. O magnífico trabalho de som funciona perfeitamente, captando cada golpe desferido pelos boxeadores com um realismo incrível, misturado à veloz narração da luta e a intensa vibração da platéia. E por último, mas não menos importante, a belíssima música tema da linda trilha sonora de Robbie Robertson (Cavalleria Rusticana: Intermezzo, composta por Pietro Mascagni) reflete muito bem o estado de espírito nostálgico de La Motta, que jogou fora tudo que conquistou em sua vida.

Dito tudo isto, chegamos finalmente ao personagem que inspirou toda esta produção. Jake La Motta é um ser humano simples, inocente até, mas explosivo ao extremo, como podemos notar logo em sua primeira aparição fora do ringue, quando reclama do jantar e vira a mesa. Esta cena simboliza perfeitamente a estupenda atuação de Robert De Niro, quando ao ouvir o vizinho gritando na janela (um técnico da equipe colocado de propósito por Scorsese sem ele saber), improvisa um diálogo que não estava no roteiro. Ao invés de parar a gravação da cena, ele entrou no espírito da coisa e mandou ver palavrões no vizinho intrometido. Coisas de quem sabe. Além das inúmeras cenas em que seu talento salta aos olhos da platéia (o choro sentido de Jake após entregar uma luta é uma delas) sua transformação física também é notável logo na primeira transição de 1964 para 1941. Por muitas vezes ingênuo, Jake era dono de um talento enorme e de uma força brutal, capaz de assustar os amigos do irmão Joey (Joe Pesci) quando os dois praticam boxe. Deslocado socialmente, seu jeito direto é também responsável por conquistar a mulher de seus sonhos, a jovem Vickie (Cathy Moriarty). A paixão por Vickie, porém, seria a responsável por expor o quanto ele era possessivo e ciumento, gerando reações extremas. Desconfiado além do limite, como fica evidente em um jantar com os amigos do irmão, Jake começa a demonstrar seu ciúme doentio quando reage de forma grosseira a uma simples frase de sua esposa sobre um adversário que era “jovem e bonito”. Jake passa dias pensando naquilo, chegando a conversar com Vickie sobre o assunto e refletindo seriamente sobre ele, revelando o quanto aquilo lhe perturbava e machucava. O resultado desta frase de Vickie foi o massacre de Janiro, o “jovem bonito”, a ponto de um espectador na platéia dizer que “este aí não vai mais poder ser chamado de bonito”.

Por outro lado, sua grosseria não significava que ele não a amasse ou se preocupasse com ela. Da mesma forma que a ofendia, e até mesmo agredia, ele demonstrava preocupação e carinho, como quando pede para o irmão levá-la pra casa e cuidar dela. Os irmãos, aliás, também se tratavam de forma agressiva, mas tinham profundo respeito e admiração um pelo outro. Nesta mesma discussão na casa de Jake, o próprio Joey é grosseiro com sua esposa, mas trata de aconselhar o irmão a cuidar de Vickie, o que gera a reconciliação dos dois logo em seguida. Joe Pesci, aliás, oferece outra excelente atuação na pele do irmão que cuida da carreira de Jake e é capaz de surrar o amigo Salvy (Frank Vincent) para defendê-lo. Vickie, por sua vez, jamais deixa de conviver com seu ciclo de amizades, por mais que amasse o marido. Por muitas vezes solitária, devido à constante rotina de lutas e viagens dele, procura amenizar a solidão se divertindo, o que só colabora para aumentar a paranóia do pugilista. Interpretada com muita sensualidade por Cathy Moriarty, ela ultrapassa o limite quando beija o empresário Tommy (Nicholas Colasanto) na frente do marido, provocando sua violenta reação. Fica claro então que Jake, por mais que amasse o irmão e a esposa, não media as conseqüências de seus atos, agindo instintivamente. Totalmente emocional e nada racional, era capaz de desconfiar do próprio irmão, como deixa claro na conversa em que, completamente fora de forma e irritado com a televisão, questiona a razão de sua briga com Salvy e chega ao ponto de perguntar se Joey já tinha transado com Vickie. Neste momento, Joey demonstra o quanto conhecia o irmão, pois sabia que se falasse o que tinha acontecido no bar ele explodiria de uma forma que ninguém conseguiria segurar. Vickie, por outro lado, não teve a mesma sabedoria, e talvez até como uma forma de provocar o marido, afirmou que já tinha transado com Joey e todos os amigos dele, provocando a ira do touro que, indomável, sai em fúria para socar o irmão e a mulher na frente da família de Joey, numa cena incrivelmente realista. Ele não pensa, só age, como um verdadeiro animal.

A enorme transformação de De Niro na entrevista de La Motta com a família em casa, seguida por sua assombrosa performance na boate, confirma todo o talento deste incrível ator. Observe como ele, na frente das câmeras, tenta ser mais educado com a esposa, chegando a perguntar se ela já terminou de falar. O final deprimente de La Motta, como um dono de bar gordo e babaca, faz com que sua esposa finalmente consiga deixá-lo. Para piorar ainda mais, ele é preso por permitir a entrada de menores de idade em seu bar, e sequer consegue pagar a fiança, mesmo vendendo as jóias do cinturão de campeão. O plano em que Jake esmurra a parede da cela, afundado nas sombras (refletindo seu estado emocional) e gritando que é um idiota é comovente. Ele repete que “não é mau, não é um animal e não é este cara”, numa performance brilhante e emocionante de Robert De Niro. Ao sair da cadeia, se transforma num apresentador de boteco decadente e deplorável. Porém, sua última frase dentro dos ringues (“Você nunca me derrubou!”) demonstra o outro lado desta fúria interior que carregava, responsável por criar um mito nos ringues. Mesmo derrotado, o gigante nunca caiu.

A conversa de Jake com o espelho, citando Marlon Brando em “Sindicato dos Ladrões”, contém a grande mensagem do filme. Ele podia ter sido alguém muito melhor, mas não foi protegido, caindo repentinamente do topo (céu) para o chão (inferno). No perigoso jogo da fama, não se deslumbrar com o presente e planejar o futuro é essencial para evitar um final decadente como este. Quando a linda trilha sonora, acompanhada de uma passagem bíblica, encerra esta emocionante obra-prima de Scorsese, estamos ainda em estado de transe, completamente hipnotizados pela maravilhosa obra que acabamos de testemunhar. Deslumbrante visualmente e profundo em sua temática, o pungente, vibrante e incrivelmente realista “Touro Indomável” nocauteia o espectador da mesma forma que Jake La Motta destroçava adversários. E de quebra, deixa uma importante reflexão a respeito do estrago que a falta de controle emocional pode causar em nossas vidas.

 

Texto publicado em 02 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

TAXI DRIVER (1976)

18 novembro, 2009

(Taxi Driver) 

 

 

Videoteca do Beto #16

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Sheperd, Harvey Keitel, Albert Brooks, Leonard Harris, Peter Boyle, Norman Matlock, Diahnne Abbott e Martin Scorsese. 

Roteiro: Paul Schrader. 

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O homem solitário de Deus. A solidão nas grandes metrópoles, por mais paradoxal que possa parecer, é mesmo um mal comum. Mesmo com tantas pessoas em volta, por muitas vezes podemos nos sentir deslocados e sozinhos nestas enormes selvas de pedra, como é o caso de Nova York, São Paulo e tantas outras cidades. Em 1975, ano de produção deste maravilhoso “Taxi Driver”, esta sensação já existia, ainda mais em uma Nova York suja e repleta de viciados, criminosos e prostitutas. Logo no primeiro plano – um close no olhar do solitário taxista, seguido por imagens das ruas de Nova York – a obra-prima dirigida por Martin Scorsese mostra de forma sutil que o efeito daquele ambiente na mente desta pessoa será o fio condutor da narrativa.

O veterano de guerra do Vietnã Travis Bickle (Robert De Niro) decide se tornar taxista para ocupar seu tempo, já que não consegue dormir. Após se apaixonar pela bela Betsy (Cybill Sheperd), que trabalha na campanha política de um senador candidato à presidência, conhece a jovem Iris (Jodie Foster) a quem aconselha largar a prostituição e o cafetão Sport (Harvey Keitel) e retornar para a casa de seus pais. O problema é que durante este processo, Travis lentamente se revolta com o que vê à sua volta.

Scorsese gravou seu nome na história do cinema com esta direção impecável. O diretor abusa de planos criativos (a frente, o capô e o retrovisor do taxi, as ruas molhadas) sem medo de arriscar, conseguindo sucesso absoluto na firme condução da narrativa e utilizando os movimentos de câmera para traduzir sentimentos dos personagens. Repare, por exemplo, como o interessante plano do copo borbulhando pode ser considerado uma metáfora para o momento em que começam a borbulhar também idéias na cabeça de Travis. Outro exemplo é a seqüência de foras que Betsy dá no taxista por telefone, nos deixando em uma situação desconfortável. O movimento da câmera, que faz um travelling para a direita e mostra o corredor vazio enquanto ouvimos Travis, demonstra visualmente nosso embaraço com a situação. O diretor simboliza o que o espectador pensa no momento, como se dissemos: “Não quero mais ver isso…”.

O bom roteiro de Paul Schrader trabalha nos detalhes para demonstrar o sentimento crescente de revolta em Travis (“Só se é saudável quando se sente saudável”), além de fornecer a base para as ótimas atuações do elenco. A montagem de Thelma Schoonmaker abusa do estilo, como na caminhada de Travis após conseguir o emprego ou quando repete três vezes seguidas um semáforo verde, demonstrando a rotina que o sufoca e atenua sua solidão (os mesmos lugares, os mesmos problemas). Finalmente, temos transições que significam muito, como o salto do plano de Iris e Sport dançando para Travis treinando tiro ao alvo, demonstrando visualmente o embate que ocorreria depois entre os dois homens. A trilha sonora clássica de Bernard Herrmann tem muito da cara de Nova York e funciona bem como tema do solitário taxista. Na cena da chacina, por exemplo, o tema de Travis é corretamente alterado para um tom mais sombrio. O apartamento bagunçado, com a parede suja e decorado com panfletos de Palantine, diz muito sobre a personalidade atormentada de Travis, mostrando o bom trabalho de Direção de Arte de Charles Rosen. Finalmente, a fotografia granulada (Direção de Michael Chapman) reflete a mente conturbada dele, destacando o festival de cores e luzes da noite de Nova York. Chapman é sábio também ao destacar, por exemplo, a cor vermelha na dança entre Iris e Sport, refletindo a vida infernal da garota ali dentro.

Além da competente direção, Taxi Driver conta também com uma atuação antológica de Robert De Niro. Encarnando com perfeição o taxista solitário, ele é competente ao transmitir o aumento lento e gradual da revolta no personagem. Em seu primeiro diálogo, quando consegue o emprego de taxista, responde as perguntas com um sorriso debochado no rosto, pois a alegria ainda estava presente em sua vida. Travis, porém, é alguém com enorme dificuldade para conviver em sociedade, como podemos perceber no diálogo com a atendente do cinema pornográfico. Ele não sabe seguir as “regras” criadas para se comportar em público, chegando a ser ingênuo. Mas uma pequena esperança floresce quando conhece a bela Betsy. Seu modo direto de falar encanta a garota, que topa sair com ele (De Niro faz um gesto com o braço quando diz que vai protegê-la). Quando Betsy, por razões óbvias, o abandona na porta do cinema pornô, a desilusão se torna o estopim de sua eminente revolta (“Ei, imundos, aqui tem alguém que não agüenta mais. Sou um revoltado!”), já sinalizada anteriormente. Observe, por exemplo, como ele encara um viciado na rua sem piscar os olhos, mostrando seu desprezo por aquele mundo sujo e sua enorme vontade de tomar uma atitude (quando pôde, não hesitou em matar um assaltante). Também demonstra, em um diálogo com seu amigo taxista, que está se sentindo deprimido, tentando contar seus planos (“Estou tendo algumas idéias ruins”), mas o amigo não entende o que ele quer dizer, até mesmo pela sua enorme dificuldade em se expressar. Quando finalmente decide agir (a queima das flores simboliza sua decisão de eliminar de sua vida tudo que lhe incomoda), seu primeiro alvo é o senador, com quem teve uma conversa em seu taxi, causando espanto pela sua franqueza. É então que Travis compra quatro armas, entre elas a Magnum 44 citada por um passageiro (Scorsese, fazendo uma ponta na cena em que ameaça matar a mulher, em frente ao apartamento do amante), decide fazer musculação e não comer mais comidas “ruins”. Essa virada radical na vida simboliza também que ele está determinado a agir (“O germe de uma idéia está crescendo em mim”). O momento sublime da atuação de De Niro acontece aqui, na sensacional cena em que fala sozinho a famosa frase “Está falando comigo?”. Repare como ele olha pra trás quando fala “estou sozinho aqui”, mudando a feição e dando a sensação de que realmente está falando com alguém. Em seguida, Travis diz que descobriu “o único objetivo de sua vida”, e Scorsese, de forma inteligente, corta para o discurso de Palantine, dando a dica de sua intenção de matar o candidato. Na conversa com o agente do Serviço Secreto, De Niro para de falar enquanto dois rapazes passam, e seu sorriso sarcástico faz o homem se preocupar. A bela cena em que olha fixo para a televisão, com uma música triste ao fundo, simboliza muito bem sua solidão. Ao destruí-la, o taxista sinaliza que está enlouquecendo com aquelas idéias na cabeça. Finalmente, quando fala pela primeira vez com Sport, seu olhar fixo para o cafetão nos faz pressentir qual é sua vontade naquele momento (“É a pior escória do mundo”, diz para Iris). O problema com Betsy, a convivência com Iris e sua vivência nos guetos de Nova York criam um sentimento paranóico, dando um nó na cabeça de Travis.

Completando o elenco, podemos destacar Cybill Sheperd, como a bela Betsy. Repare como ela olha pra baixo quando Travis diz que “é a mulher mais linda que ele conheceu na vida”. Seu sorriso incontido e seu brilho no olhar demonstram sua satisfação ao ouvir aquilo. Betsy, porém, não consegue compreender Travis e, com razão, fica indignada ao sair do cinema, enquanto Travis não entende a ofensa que aquilo significa pra ela. Jodie Foster está muito bem como a garota revoltada que vende o corpo, solta, sorrindo e fazendo brincadeiras, em seu diálogo com Travis no café. Em sua primeira aparição, somos ambientados ao mundo sujo em que vive (repare que Travis guarda os 20 dólares amassados, mostrando a importância que a garota teve pra ele desde aquele momento). Harvey Keitel interpreta o cafetão que explora todas aquelas garotas e que curiosamente demonstra algum carinho por Iris quando dança com ela no quarto. Mesmo assim, não hesita em vender o corpo dela, como podemos observar em sua conversa com Travis.

Quando hesita em aceitar o convite de Iris para tomar café, podemos pensar que é efeito do trauma do último encontro com Betsy, mas na verdade Travis já tinha outro plano para o dia seguinte (matar o presidente). Ele não tinha intenções amorosas com Iris, como fica claro quando vai com a garota para o quarto apenas para conversar. O que Travis queria era tirá-la daquele lugar que ele tanto odiava. De Niro expõe a raiva de Travis ao pagar o homem na porta do quarto, dizendo que “voltará com certeza”. Mas apesar de sua atitude final, a conversa com Iris no café demonstra que Travis era uma boa pessoa.

O grande clímax do filme vai sendo construído lentamente. Observe como Scorsese gasta alguns segundos antes de finalmente mostrar o taxista com cabelo moicano, simbolizando sua mudança de atitude. A tensa seqüência em que tenta assassinar Palantine, sem sucesso, mostra que a diferença entre um herói e um monstro muitas vezes pode ser bem pequena. Se tivesse conseguido seu objetivo, Travis seria retratado perante a sociedade como um assassino cruel e lunático, e não como o herói que se transformou após “salvar” Iris. Quando o vemos em casa agitado e, posteriormente, saindo com o taxi sem parar pra ninguém, sabemos que está decidido a resolver seus “problemas”. Após a impressionante e realista seqüência em que mata Sport e entra atirando no prédio, Scorsese faz um excelente travelling, com a cena congelada, desde o quarto onde Travis termina sua chacina, passando pelos mortos e armas, até chegar à barulhenta rua cheia de pessoas curiosas. Este refinado visual do filme é fantástico e colabora para o impacto causado em nossas mentes.

Scorsese acertou em cheio neste maravilhoso estudo da solidão e do isolamento, nos oferecendo uma direção impecável, recheado com atuações maravilhosas e imagens de grande impacto. Taxi Driver se aprofunda na complicada questão do deslocamento social com sucesso absoluto. Diversas pessoas já se sentiram desta forma na vida (eu inclusive) e ao ver a emocionante história do taxista solitário na tela é inevitável a nossa identificação. O mecanismo da solidão é simples, porém perigoso. Gostamos do que não podemos ter, e não gostamos de nada que temos. Desta forma, a pessoa jamais está satisfeita, e a solidão funciona como um escudo, uma proteção contra tudo aquilo que julga estar errado. Todos nós temos momentos em que chegamos perto do nosso limite. A grande questão é como lidar com este sentimento. Travis escolheu a forma mais perigosa e por sorte saiu-se bem.

 

Texto publicado em 18 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira


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