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WALL STREET – PODER E COBIÇA (1987)

16 março, 2013

(Wall Street)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #162

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Charlie Sheen, Michael Douglas, Martin Sheen, Daryl Hannah, Hal Holbrook, Sean Young, Franklin Cover, Chuck Pfeiffer, James Karen, John C. McGinley, James Spader, Terence Stamp e Leslie Lyles.

Roteiro: Stanley Weiser e Oliver Stone.

Produção: Edward R. Pressman.

Wall Street - Poder e Cobiça[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tanto tematicamente quanto narrativamente, Oliver Stone nunca foi um diretor de sutilezas. Com seu estilo histriônico e sua maneira direta de se posicionar diante dos temas que escolhe como centro de suas narrativas, Stone rapidamente foi rotulado como um diretor polêmico, gerando simpatia e rejeição em proporções similares. No entanto, existem momentos em que este estilo agressivo casa perfeitamente com o tema abordado, como acontece nos ótimos “Platoon”, “Nascido em 4 de Julho”, “Assassinos por Natureza” e na obra-prima “JFK”. Ao decidir explorar o universo especulativo da bolsa de valores, Stone acertou mais uma vez em cheio e, ao lado de seu talentoso elenco, fez deste “Wall Street – Poder e Cobiça” um ótimo filme.

Escrito pelo próprio Stone ao lado de Stanley Weiser, “Wall Street – Poder e Cobiça” narra à trajetória do jovem corretor da bolsa de Nova York Bud Fox (Charlie Sheen), que encontra a grande chance de se destacar no ramo das ações quando obtém uma importante informação sobre a empresa aérea em que seu pai (Martin Sheen) trabalha e decide repassá-la ao bilionário Gordon Gekko (Michael Douglas), um homem que não mede esforços para fazer sua fortuna crescer através do competitivo mercado financeiro.

Apenas um ano após ser consagrado pela Academia com o Oscar por “Platoon”, Oliver Stone confirmava sua coragem ao abordar outro tema delicado e cutucar o coração financeiro dos EUA: Wall Street. Filho de um corretor da bolsa, Stone enxergava com preocupação as ações dos chamados “Mestres do Universo” (assim intitulados por Tom Wolve em seu livro “A Fogueira das Vaidades”), homens poderosos que manipulavam o mercado financeiro descaradamente, gerando sentimentos contraditórios no cidadão comum, que se via enojado diante da falta de princípios que regrava aquele mundo quase incompreensível e, ao mesmo tempo, fascinado diante de tanta autoconfiança e poder.

Para retratar este ambiente misterioso e nada ético, Stone e seu bom diretor de fotografia Robert Richardson exploram cores sem vida como cinza, azul marinho e preto, que ecoam também nos ternos impecáveis dos figurinos de Ellen Mirojnick, que, por sua vez, ganham ainda mais importância num mundo onde as aparências são tão valorizadas. Da mesma forma, observe o contraste entre o quase asséptico escritório novo de Bud e o caótico escritório em que ele trabalhava (design de produção de Stephen Hendrickson), apresentado num curto plano-sequência logo nos primeiros minutos de projeção que serve também para nos familiarizar com a hierarquia do local. Quanto maior a sala, mais importante é aquela pessoa na corporação. Por outro lado, ainda que tenha a cara dos anos 80, a trilha sonora de Stewart Copeland hoje soa datada e pouco contribui na construção desta atmosfera opressora, salvando-se apenas em momentos onde tem alguma função narrativa, como quando ilustra a preocupação de Bud ao indicar as ações da Bluestar para Gekko, demonstrando que ele sabia o risco que corria ao tomar aquela perigosa decisão.

Ternos impecáveisEscritório novoCaótico escritórioAuxiliado pela montagem dinâmica de Claire Simpson, Stone ainda reflete com precisão a atmosfera de urgência da bolsa de valores, empregando closes, dividindo a tela e agitando a câmera assim que o relógio anuncia a abertura do mercado. Observe ainda como os cortes rápidos ilustram a tensão do ambiente, chegando ao auge na empolgante sequência da venda das ações da Anacott Steel, que reflete a euforia de Bud diante daquela importante transação (vale notar a rápida aparição do próprio Oliver Stone nesta sequência). Por outro lado, observe como quando as ações se passam no escritório de Gekko, tanto o ambiente mais amplo e organizado quanto à câmera mais controlada de Stone refletem o excepcional domínio que aquele homem tem sobre o que faz.

Dividindo a telaRelógio anuncia a abertura do mercadoAmbiente mais amplo e organizadoMas o grande mérito de “Wall Street – Poder e Cobiça” não está nos aspectos técnicos. Ciente de que a narrativa depende muito mais do desempenho dos atores, Oliver Stone consegue extrair boas atuações de quase todo seu elenco, a começar por papeis menores como o de Sean Young, que vive a artificial esposa de Gekko, e Hal Holbrook, que, vivendo o corretor da bolsa Lou Mannheim, faz bem o tipo experiente que já viu de tudo na carreira, enxergando de longe aonde a ganância de Bud poderia levá-lo. E se Martin Sheen encarna o Sr. Fox com simplicidade, isto não o impede de se impor diante do filho quando é preciso, ainda que ele não consiga conter o ímpeto do rapaz diante de tantas possibilidades – e o plano que ilumina o rosto de Bud em certo momento sugere uma aura mística e indica que ele era mesmo “o escolhido” por Gekko para entrar naquele seleto grupo de milionários.

Artificial esposa de GekkoCorretor Lou MannheimSr. FoxPai e filho na vida real, Charlie e Martin estabelecem a química dos personagens naturalmente, o que é essencial para compreender a reação de Bud ao descobrir as reais intenções de Gekko na aquisição da Bluestar. Jovem e ambicioso, Bud rapidamente conquista a confiança do bilionário, sendo recompensado com agrados e a meteórica ascensão social. Na época firmando-se como um ator dramático após o sucesso de “Platoon”, Charlie Sheen transmite este deslumbramento do personagem com precisão, mudando-se em pouco tempo para um apartamento luxuoso e conquistando a bela Darien de Daryl Hannah, que, por sua vez, também tira o máximo proveito daquele bem sucedido grupo social (financeiramente, diga-se) ao envolver-se secretamente com Gekko em troca de novos e importantes clientes.

Envolvendo-se gradualmente numa troca ilegal de informações sigilosas, Bud se torna mais e mais ganancioso, e este mundo luxuoso e repleto de regalias que se abre a sua frente não colabora em nada para impedir sua inserção naquele ambiente. Só que toda esta superficialidade tem um preço. Assim, quando o casal discute, Bud não hesita em deixar claro que sabe que Darien o enxerga apenas como uma oportunidade de continuar sua escalada social, mas as duras respostas dela mostram que ele não era tão diferente assim – e o bom desempenho da atriz neste momento nos faz acreditar que ela de fato gostava dele, o que torna tudo ainda mais intenso.

Química naturalDeslumbramentoCasal discuteControlando este complexo jogo de interesses com maestria, o persuasivo e arrogante Gordon Gekko soa quase como um vilão inabalável, ainda mais pela maneira visceral que Michael Douglas compõe o personagem, surgindo sempre confiante e poderoso, como se fosse capaz de prever tudo que acontece com grande antecedência. Enxergando o dinheiro como a única coisa pela qual vale a pena lutar (“Almoçar é para os fracos”), Gekko demonstra enorme habilidade nas negociações, mas mostra igual capacidade de passar por cima da ética se assim for preciso para conquistar seus objetivos. Destacando-se ainda em momentos marcantes como o icônico discurso feito aos sócios da Teldar Paper (“A ganância é boa”), Douglas consegue transformar um personagem que tinha tudo para ser detestável em alguém cativante através de sua maneira prática de enxergar o mundo e de dizer coisas profundamente cruéis.

Persuasivo e arrogante Gordon GekkoConfiante e poderosoIcônico discursoEntretanto, não são apenas as palavras de Gekko que provocam desconforto em “Wall Street – Poder e Cobiça”, como atesta a forte discussão entre os Fox no elevador, onde os cortes rápidos de Stone ajudam a nocautear a plateia, desnorteada diante das duras palavras trocadas por eles – num grande momento da atuação dos Sheen. Da mesma forma, a câmera inquieta realça a tensão na discussão entre Bud e Gekko sobre a liquidação da Bluestar, na qual o primeiro demonstra que não aceitará tão facilmente ser manipulado pelo bilionário, enquanto o segundo resume muito bem o que é o capitalismo e como funciona a divisão de renda nos EUA (e na maior parte do planeta, porque não?) – e repare como após ser enganado na venda da Bluestar, Gekko surge coberto pelas sombras, indicando sua decadência.

Forte discussão no elevadorDiscussão entre Bud e GekkoGekko surge coberto pelas sombrasObviamente, Oliver Stone não perde a oportunidade de criticar acidamente todo aquele sistema e insere seus comentários sociais em diversos momentos, como quando acompanhamos Bud ganhando uma sala ampla ao mesmo tempo em que um velho funcionário é demitido (“Tenho dois filhos para criar, vou parar na sarjeta”, argumenta). A intenção é clara: criticar o feroz sistema especulativo de Wall Street, responsável por fabricar jovens milionários da noite para o dia – e também por gerar algumas crises marcantes nas últimas décadas, como hoje sabemos bem. Soltas durante a narrativa, frases como “O dinheiro faz você fazer coisas que não quer fazer” e “Pare de ir atrás do dinheiro fácil e produza algo com sua vida” resumem bem a visão de Stone sobre o tema.

É verdade que para alcançar seu objetivo, o diretor acaba pesando a mão em alguns instantes. Assim, o milionário Gekko obviamente acaba punido e preso, enquanto Bud perde a namorada e o dinheiro, vende o apartamento, vê seu pai sofrer um enfarte e ainda é surpreendido em seu escritório pela polícia, num resultado trágico que nem sempre traduz a realidade do mercado financeiro – e é curioso notar como mesmo após fazer tantas coisas erradas, nós sentimos pena dele ao vê-lo deixando o escritório algemado e chorando. É evidente que nem todo trader é como Gekko e que é possível ser bem sucedido como corretor sem deixar-se cegar pela ganância, mas nem por isso “Wall Street – Poder e Cobiça” deixa de ser um grande filme que, curiosamente, acabou antevendo parte do processo de decadência dos “Mestres do Universo”.

Bud ganhando uma sala amplaVelho funcionário é demitidoDeixa o escritório algemado e chorandoEm “Wall Street – Poder e Cobiça”, Oliver Stone aponta sua metralhadora crítica não apenas para o especulativo mercado financeiro, mas também para a mentalidade de uma época em que a qualidade de um terno era mais importante do que a pessoa dentro dele e que o sucesso era medido pelos dígitos de sua conta bancária. O tempo provou que o diretor tinha certa dose de razão e que, ao contrário do que afirma Gordon Gekko, a ganância não é algo tão bom assim.

Wall Street - Poder e Cobiça foto 2Texto publicado em 16 de Março de 2013 por Roberto Siqueira

UM DIA DE FÚRIA (1993)

11 maio, 2011

(Falling Down)

 

Videoteca do Beto #96

Dirigido por Joel Schumacher.

Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Rachel Ticotin, Frederic Forrest, Lois Smith, Joey Hope Singer, Raymond J. Barry, D.W. Moffet, Steve Park, Kimberly Scott e James Keane.

Roteiro: Ebbe Roe Smith.

Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson e Herschel Weingrod.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida moderna, especialmente nas grandes cidades, propicia muitos momentos desgastantes, graças ao seu ritmo de vida alucinante e estafante, que a cada dia procura ser mais dinâmico, privilegiando a velocidade da informação e das atividades que realizamos diariamente. O grande problema, entretanto, é que esta busca gananciosa por um estilo de vida cada vez mais “dinâmico” acaba prejudicando o que de melhor nossa vida pode oferecer, aqueles momentos em que nos esquecemos de tudo, apenas para relaxar e deixar o tempo passar. Exatamente por isso, este ritmo acelerado é responsável pela proliferação de pessoas cada vez mais estressadas, que, diante de tantas situações irritantes, podem acabar explodindo de uma maneira ou outra. E é justamente o momento de explosão de uma pessoa comum que este interessante “Um Dia de Fúria” retrata com precisão, aproveitando ainda para criticar as inúmeras situações que a vida nas grandes cidades apresenta e que colaboram para que isto aconteça.

Após perder seu emprego, William Foster (Michael Douglas) decide ir ao encontro de sua ex-mulher Beth (Barbara Hershey) e sua filha (que faz aniversário), apesar de estar impedido legalmente de fazer isto. No caminho, ele é obrigado a enfrentar o transito congestionado da cidade de Los Angeles, debaixo de um sol escaldante e em meio à grande poluição. Irritado, William decide largar o carro e seguir a pé. Mas, ao parar para tentar fazer uma ligação, ele acaba discutindo com um comerciante e explodindo, dando início a uma série de situações que complicam cada vez mais o seu dia. Quando a situação sai totalmente de controle, o veterano policial Prendergast (Robert Duvall), prestes a se aposentar, decide tentar impedir que uma tragédia ainda maior aconteça.

Escrito por Ebbe Roe Smith, “Um Dia de Fúria” aborda a paranóia urbana, um tema contemporâneo que assola a grande maioria das pessoas que vivem nas principais cidades do planeta, refletindo os enormes problemas que a grande concentração de pessoas num mesmo local traz para o nosso cotidiano, como o trânsito carregado ou o atendimento padronizado em restaurantes (os chamados fastfoods, que visam somente à velocidade no atendimento, como numa linha de produção), entre tantas outras coisas. Dirigido por Joel Schumacher, o longa se concentra na vida do conturbado William Foster, recentemente demitido e obrigado pela justiça a se manter longe da ex-mulher e da filha por causa de seu temperamento agressivo, que é apresentado ao espectador logo na primeira cena do filme, quando um close em detalhes de seu rosto suado e angustiado dá inicio a seqüência que levará aquele homem a largar tudo pra trás. Aliás, a direção de Schumacher é competente na transmissão deste sentimento crescente de angústia, através do silencio que lentamente se transforma num barulho irritante, do travelling que passa pelas outras pessoas presentes nos carros parados no congestionamento, e do calor infernal daquele dia, refletido nas cores quentes da fotografia de Andrzej Bartkowiak. Quando William larga o carro parado na rua e sai andando, dizendo “Vou pra casa!”, sabemos que ele chegou ao limite.

Mas os problemas de William estavam apenas começando, pois a cidade grande ainda reservaria muitas situações desagradáveis, capazes de tirar a paciência de qualquer um. Momentos depois de deixar seu carro pra trás, ele entra numa loja, com a única intenção de comprar uma ficha telefônica. Mas, ao descobrir que teria que consumir algo e, pior do que isso, os preços abusivos praticados no local, ele explode. Obviamente, não se trata apenas da questão dos preços, que é apenas a chamada “gota d’água”. Aquela reação é apenas o resultado de todos os problemas que ele havia acumulado e que o levaram a destruir a loja e sair com o taco de beisebol que o dono dela iria usar para agredi-lo. Aliás, é interessante notar também como William jamais procura a violência, mas ela sempre acaba chegando até ele – e até mesmo as armas que carrega durante a narrativa surgem primeiramente nas mãos de seus agressores. A partir daí, o que vemos é um festival de situações que parecem corriqueiras, mas que são suficientes para tirar alguém do sério – o que, no caso de William, era algo mais fácil de acontecer, dadas as circunstâncias. Paralelamente, acompanhamos o trabalho de investigação da policia, que, inicialmente, não dá muita atenção ao caso, com exceção do praticamente aposentado Prendergast, que parece preocupado com as noticias que recebe. Graças à boa montagem de Paul Hirsch, a narrativa alterna com muita fluência entre o dia conturbado de William, a espera angustiada da ex-mulher dele em casa, as investigações da polícia e o drama da aposentadoria de Prendergast, demonstrando inteligência ao priorizar a linha narrativa mais interessante do longa, focando nos diversos problemas que cruzam o caminho de William. Também colabora com o clima de tensão a boa trilha sonora de James Newton Howard, que alterna entre momentos sombrios e agitados, como quando William invade a casa, enquanto Beth foge pela porta dos fundos.

No caminho de William, “Um Dia de Fúria” aproveita para criticar diversas situações normais do cotidiano nos grandes centros urbanos, como, por exemplo, a miscelânea cultural que se tornou a cidade de Los Angeles (e a maioria das grandes cidades do mundo hoje em dia), graças ao enorme número de imigrantes no país, representada pela gangue latina agredida com o taco de beisebol e pelos personagens chineses, japoneses e coreanos (interessante notar também como o filme critica o irritante vicio ocidental de confundir os povos destes países através dos comentários dos policiais). Além dos imigrantes, outra característica comum às grandes cidades, que também é reflexo do excesso de pessoas e da falta de oportunidades, é a grande quantidade de pedintes e mendigos que vagam pelas ruas, como aquele que irrita William (“Vá procurar emprego!”, diz ele, após ouvir o homem gritar “Me dá alguma coisa!”) e que ganha de presente, pra sua irritação, uma mala com duas frutas. Em outro momento, o longa faz uma excelente crítica aos fastfoods, através dos irritantes sorrisos forçados das atendentes, do tamanho e do aspecto do lanche (muito diferente da foto da propaganda) e da falta de tato das pessoas que ali trabalham para lidar com o cliente. Além disso, critica os bancos, mostrando o tratamento diferente dado aos “não economicamente viáveis”. Mas nem só de críticas vive “Um Dia de Fúria” e o clima tenso que predomina a narrativa faz a violência parecer um resultado inevitável diante de tudo que vemos. E por mais que a violência jamais se justifique, a reação maluca de William acaba se tornando compreensível, o que não quer dizer que devemos perdoá-lo (e confesso: entendo que a maioria das pessoas já viveu alguma situação em que ao menos pensou em fazer alguma loucura como esta). Felizmente, Joel Schumacher mostra qualidade na condução das ótimas cenas de violência do filme, como a briga com a gangue, o tiroteio em plena luz do dia, a bazuca disparada nas ruas que eram consertadas sem necessidade e o infarto de um jogador de golfe que se irritou com a invasão de seu terreno particular. Já a interessante seqüência que se passa na loja de um admirador do nazismo aproveita para pregar a ideologia americana da “liberdade de expressão”, além de fazer referência ao nome do filme, quando William diz que vai cair (“I’m falling down!”).

Evidentemente, a ótima atuação de Michael Douglas é essencial para que o espectador se envolva com a narrativa, transmitindo muito bem em seu semblante a fúria crescente do personagem, que enfrenta problemas com a esposa e a filha, provocados por seu temperamento explosivo. Vale destacar, entre tantos bons momentos do ator, sua expressão de surpresa ao constatar que, no mundo de hoje, um cirurgião plástico tem mais sucesso do que muitas outras profissões (o que reflete a crescente preocupação das pessoas com a aparência). Além disso, o ator emociona no tocante momento em que William se desespera ao ver sangue na mão da filha do criado da mansão, se esquecendo que era sangue dele mesmo e mostrando que ele tem seu lado bom, mas não consegue conter o temperamento explosivo, o que o levou a estourar diante de tantas situações estressantes em sua vida. Após este momento, a reflexão de William a respeito de tudo que perdeu também comove (e Douglas tem mérito nisso também), algo que os vídeos que assiste após invadir sua ex-casa comprovam, mostrando uma vida estável ao mesmo tempo em que já indicavam seu temperamento explosivo. E apesar de toda confusão que provoca, William demora a chamar a atenção da policia, com exceção do veterano policial Prendergast, interpretado pelo ótimo Robert Duvall, que será o responsável pela investigação que irá deter a fúria dele. Prestes a se aposentar, mas ainda trabalhando duro (apesar das criticas do chefe), o tranqüilo policial acompanha atentamente os acontecimentos do dia, ao mesmo tempo em que tenta convencer a esposa a deixá-lo resolver o caso ao invés de ir embora mais cedo pra casa, como ela queria. Aliás, Duvall retrata muito bem o trauma que a perda da filha causou no policial (o que explica a preocupação e a carência afetiva da esposa), tratando sua mulher com muito carinho e cuidado, até o momento em que não agüenta mais e explode também (talvez por reflexo da tensão crescente daquele dia). É interessante notar ainda o momento em que Prendergast fala para o capitão sobre a perda da menina, provocando o espanto de seu líder e evidenciando a falta de preocupação dele pela vida pessoal do funcionário, algo também comum nos dias de hoje. Mas este terrível trauma não tiraria a coragem dele. Determinado, o policial não descansaria enquanto não descobrisse o paradeiro do responsável por toda aquela confusão.

Depois de muitas tentativas frustradas de encontrar o “homem de gravata”, um simples outdoor pichado será a chave para que Prendergast se lembre de William e finalmente consiga encontrá-lo (num recurso interessante da narrativa, chamado “dica e recompensa”, que sempre agrada ao espectador). E após uma frustrada tentativa de reconciliação com a família, William se vê num verdadeiro duelo com Prendergast, que o leva a questionar espantado: “Eu sou o bandido? Como isto aconteceu?”. Só que infelizmente ele não teria tempo de descobrir como se transformou no vilão, e o duelo que segue culmina em sua morte, transformando-o em mais uma vítima do acelerado ritmo da vida moderna. O travelling final nos leva aos alegres vídeos de sua família, agora destruída, entre tantos outros fatores, por sua própria personalidade explosiva.

No transcurso de um dia, “Um Dia de Fúria” nos mostra os inúmeros problemas provocados pela vida moderna nas grandes cidades, através do drama enfrentado por seu personagem principal, alguém com tendência à violência e que encontrou, no acelerado ritmo contemporâneo, diversas situações capazes de provocar suas piores reações. Acertando ainda ao não justificar as ações de seu “vilão” com explicações mirabolantes, o longa deixa claro que, nas condições atuais, as chances de aparecer um maluco qualquer revoltado com o mundo a sua volta são consideravelmente maiores. E se levarmos em conta que o filme é de 1993, e que nossa vida ficou ainda mais estressante de lá pra cá, com certeza chagaremos a conclusão de que é bom abrirmos os olhos enquanto estamos parados no trânsito, pois qualquer pessoa em volta pode, de uma hora pra outra, resolver largar tudo pra trás.

Texto publicado em 11 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

INSTINTO SELVAGEM (1992)

16 janeiro, 2011

(Basic Instinct)

 

Videoteca do Beto #83

Dirigido por Paul Verhoeven.

Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, Jeanne Tripplehorn, Dorothy Malone, George Dzundza, Denis Arndt, Leilani Sarelle, Bruce A. Young, Chelcie Ross, Wayne Knight, Daniel von Bargen, Stephen Tobolowsky, Benjamin Mouton e James Rebhorn.

Roteiro: Joe Eszterhas.

Produção: Alan Marshall.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando escrevi sobre “Cantando na Chuva”, afirmei que qualquer pessoa, ainda que não tivesse assistido ao filme, reconheceria a cena em que Gene Kelly canta e dança na chuva. Cenas deste tipo sempre existiram na história do cinema, mas nos anos 90 poucas foram tão marcantes quanto à cruzada de pernas de Sharon Stone em “Instinto Selvagem”. Só que o longa dirigido por Paul Verhoeven apresenta muito mais que as excelentes cenas eróticas, entregando um thriller eletrizante e repleto de suspense, que serve também como uma interessante análise psicológica das relações (sexuais ou não) humanas.

O assassinato de um cantor de rock chama a atenção da policia de São Francisco e a principal suspeita é a escritora Catherine Tramell (Sharon Stone). O policial Nick Curran (Michael Douglas) é designado para investigar o caso, mas acaba ficando fortemente atraído pela escritora, apesar dos protestos de seus companheiros de profissão, como Gus (George Dzundza) e a Dra. Beth (Jeanne Tripplehorn), que assim como Catherine, é formada em psicologia.

A famosa cena que marcou “Instinto Selvagem” e alçou Sharon Stone ao estrelato acontece ainda na primeira metade do filme, o que é bom, pois o espectador deixa de aguardar aquele momento e passa a se concentrar na narrativa. Nesta cena, apenas pela disposição dos personagens, Verhoeven cria uma incrível atmosfera de tensão e erotismo, com Catherine no centro da sala cercada de homens ávidos por uma confissão, mas sempre firme e contundente em suas respostas, que invariavelmente deixam estes mesmos homens desconcertados. Na medida em que as perguntas acontecem, o espectador sente o nervosismo crescente dos policiais, inconformados com a frieza daquela mulher. E então, repentinamente, ela cruza as pernas, deixando marmanjos eufóricos e os investigadores literalmente sem rumo, algo que o diretor capta com precisão através de um close rápido na reação deles. Desde então, fica evidente que a espontânea e astuta Catherine sabe muito bem utilizar a sensualidade a seu favor. Sempre insinuante e sensual, Sharon Stone oferece um desempenho eficiente, olhando diretamente nos olhos das pessoas e falando com muita firmeza, além de dizer palavrões e frases que os homens não esperam ouvir com tanta freqüência da boca de uma mulher (“Gostava dele?”, pergunta Nick e ela responde “Gostava de transar com ele”). Inteligente, Catherine sabia, por exemplo, que seu livro, como os próprios investigadores já previam, serviria como álibi no interrogatório, abrindo a possibilidade de que alguém tenha tentado incriminá-la, contrariando a sensação inicial de que ela é a assassina. E de fato alguns elementos reforçam a defesa de Catherine. Ela é rica (herdou uma fortuna dos pais e do marido) e por isso não precisa do dinheiro do astro de rock aposentado, usa seu conhecimento de psicologia “apenas” para extrair informações de pessoas que a inspiram a escrever seus livros e, principalmente após a morte de Roxy (Leilani Sarelle), começa a se mostrar vulnerável, algo impensável até aquele momento e que desarma Nick e o espectador (e neste aspecto, Stone tem muito crédito por conferir veracidade ao choro de Catherine). Michael Douglas também se sai bem na pele de Nick, um homem profundamente transformado diante da presença daquela mulher misteriosa e bela, que sabe tudo da vida dele e utiliza seu passado como arma para intimidá-lo. Atormentado, Nick volta a beber, a fumar, fica agressivo quando se relaciona sexualmente com a Dra. Beth e evidencia a cada minuto que está sendo sugado por Catherine – e Douglas transmite com precisão a crescente angústia do personagem. E finalmente, Jeanne Tripplehorn, ainda que com menos destaque, interpreta a ambígua Dra. Beth, colaborando com a dúvida que envolve a narrativa após a morte de Roxy.

A sensualidade que permeia “Instinto Selvagem” aparece logo na primeira cena, mas a trilha sinistra de Jerry Goldsmith também indica que nem só de erotismo viverá a narrativa, dando o tom do que veremos em poucos segundos, quando um movimento de câmera nos levará ao picador de gelo utilizado como arma letal para fazer a primeira vítima do filme. Esta cena deixa claro desde então o nível de realismo que veremos tanto nas cenas eróticas quanto nas cenas violentas, além de servir também para introduzir a misteriosa assassina na trama, nos mostrando do que ela é capaz. E apesar de inserir algumas seqüências com bastante ação, como a eletrizante perseguição de Nick na estrada, é na criação da perfeita atmosfera de erotismo e suspense que Verhoeven se destaca, explorando com habilidade as nuances do relacionamento entre Nick e Catherine, desde o momento em que ela fala sobre seu novo livro pra ele no carro e o close do diretor capta a tensão existente entre eles. É interessante observar, por exemplo, como mesmo sabendo os riscos que corria, Nick não consegue evitar que Catherine o amarre durante uma relação sexual, preferindo, naquele momento, se entregar ao prazer. O diretor é inteligente também ao explorar a sensualidade de Stone, não hesitando em mostrar o corpo da atriz em diversos momentos carregados de erotismo. E apesar de escorregar na obviedade de algumas situações, como o momento em que Roxy persegue Nick de carro (era previsível que não era Catherine), Verhoeven sempre busca manter o suspense através dos movimentos de câmera, especialmente nas cenas em que insinua que Catherine vai pegar o picador de gelo durante suas relações sexuais com Nick. Aliás, as insinuações estão presentes diversos momentos, como quando Catherine usa o picador de gelo diante de Nick enquanto prepara uma bebida.

A montagem de Frank J. Urioste colabora muito com este clima de suspense, especialmente nos tensos momentos que envolvem Nick e Catherine na cama, e as roupas sensuais de Catherine (figurinos de Nino Cerruti e Ellen Mirojnick) auxiliam na atmosfera erótica do longa. E apesar de alguns momentos nitidamente forçados (parece que ninguém se lembra de trancar a porta de sua residência durante a narrativa), o suspense funciona perfeitamente. Ainda nos aspectos técnicos, observe como quando Catherine se despe na janela sob o olhar de Nick, a fotografia vermelha de Jan de Bont ilustra ao mesmo tempo o desejo que cresce nele e a violência que naquele momento inconscientemente ligamos à personagem. E na medida em que Nick vai ficando cada vez mais neurótico e perturbado diante do jogo das duas psicólogas, de Bont passa a utilizar ambientes mais escuros e mais cenas noturnas, refletindo o estado psicológico do personagem.

Escrito por Joe Eszterhas, o roteiro de “Instinto Selvagem” é bastante ambíguo, nunca deixando claro se Catherine é mesmo a assassina. Sendo assim, a partir de determinado momento o espectador se vê num delicioso jogo de adivinhação, tentando descobrir quem é a misteriosa criminosa, através da introdução de uma série de subtramas que criam novas possibilidades, como o ciúme de Roxy ou a relação amorosa que Catherine viveu com a Dra. Beth no passado. Além disso, o longa faz um intrigante estudo psicológico de Nick através dos jogos de Catherine e Beth, que deixam tanto o personagem como o espectador constantemente em dúvida sobre qual delas está falando a verdade. Eszterhas insere ainda uma interessante rima narrativa durante o interrogatório de Nick, quando ele repete algumas das frases de Catherine, evidenciando o forte impacto que aquela mulher teve sobre ele. Aliás, a forma como ela envolve Nick é muito bem conduzida por Verhoeven, lentamente nos levando ao momento em que eles finalmente se relacionam sexualmente, em outra cena bastante explícita. E aqui novamente a atmosfera de tensão toma conta da tela, com os movimentos de câmera que remetem à primeira cena do filme e nos levam a temer a morte de Nick. Só que momentos depois do alívio, quando Roxy demonstra ciúme, Nick (e o espectador) começa a pensar em novas possibilidades e passa a desconfiar de Roxy também, afinal de contas, ela também é loira, estava na casa de Catherine na manhã seguinte ao crime e poderia ter matado o astro de rock por ciúmes. A descoberta do caso entre Catherine e Lisa Hoberman, antigo nome da Dra. Beth, abre outra possibilidade e confunde ainda mais o espectador, revelando que Nick estava de fato envolvido num perigoso jogo entre duas mulheres profundamente conhecedoras da mente humana. E este perigoso jogo nos leva à morte de Gus e da própria Beth, numa seqüência igualmente trágica e tensa, que revela a identidade da assassina. E apesar das claras evidencias de que Beth era mesmo a assassina, Nick ainda tem desconfianças, que serão confirmadas (ou não) pelo brilhante plano final de “Instinto Selvagem”. E é justamente nesta constante dúvida gerada pela ambigüidade do roteiro que reside um dos aspectos mais interessantes de um thriller repleto de erotismo e suspense, que não tem medo de ousar e por isso consegue criar uma atmosfera realmente envolvente.

Apresentando um interessante jogo psicológico, o thriller “Instinto Selvagem” surpreende positivamente ao explorar mais do que a sensualidade de sua atriz principal. Verhoeven soube utilizar cenas realmente eróticas numa narrativa inteligente, fugindo do lugar comum das grandes produções de Hollywood que normalmente suavizam o sexo, e de quebra, entregando uma das cenas mais emblemáticas da década de 90. Mas, infelizmente, como um feroz picador de gelo, a indústria cinematográfica resolveu eliminar este tipo de trabalho ousado nos anos seguintes.

PS: Como prova de que Hollywood não produz mais filmes tão ousados, basta assistir a puritana seqüência de “Instinto Selvagem”, que é infinitamente mais conservadora e menos interessante.

Texto publicado em 16 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira


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