Posts Tagged ‘Sidney Lumet’

UM DIA DE CÃO (1975)

2 novembro, 2009

(A Dog Day Afternoon)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #15

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Penelope Allen, James Broderick, Chris Sarandon, Sully Boyar, Beulah Garrick, Carol Kane, Sandra Kazan, Marcia Jean Kurtz, Amy Levitt, John Marriott, Estelle Omens, Gary Springer, Carmine Foresta e Lance Henriksen.

Roteiro: Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore. 

Produção: Martin Bregman e Martin Elfand.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um assalto mal planejado, que deveria durar dez minutos e acabou durando mais de dez horas, tornando-se o principal evento da televisão norte-americana no dia, é contada com maestria pelo excelente Sidney Lumet, auxiliado por uma atuação magnífica de Al Pacino e um trabalho técnico muito competente que tornou o filme extremamente realista.

Precisando de dinheiro para pagar a cirurgia de mudança de sexo de seu namorado, Sonny (Al Pacino) resolve assaltar um banco acompanhado de seu amigo Sal (John Cazale). Dez horas depois, eles ainda estavam dentro do prédio com os reféns, cercados pela polícia, pela imprensa e por curiosos de plantão.

Lumet inicia o longa com diversos planos que contrastam as diferenças sociais, nos ambientando na cidade. Também mostra alguns cachorros na rua, fazendo uma alusão ao nome do filme. A introdução embalada pela ótima música nos leva até o carro onde estão Sonny, Sal e Stevie. Os minutos seguintes são responsáveis por captar a atenção do espectador, que ficará grudado na tela por duas horas, em um clima misto de tensão e humor negro.

O diretor é hábil ao conseguir, com a ajuda de sua equipe técnica, manter um constante clima de urgência, mantendo uma sensação de que sempre algo pode acontecer inesperadamente na tela. Ele mantém a câmera em movimento em muitos momentos, como se estivéssemos em um documentário. Também é muito eficiente na hora de captar e coordenar o exército de figurantes do filme. Quando Sonny começa a ligar para as pessoas importantes de sua vida, Lumet vai aproximando a câmera de seu rosto, transmitindo o desespero dele e realçando a ótima atuação de Pacino, que já está exausto. Seu rosto molhado e seus cabelos ainda mais desarrumados refletem isto. A agilidade das cenas é mérito também da excelente montagem de Dede Allen e Angelo Corrao, que consegue criar este clima de urgência sem soar confuso. Um exemplo do bom trabalho de montagem é a cena do tiro de Sonny na janela, onde podemos ver a reação em todo o ambiente praticamente de forma simultânea. Outro exemplo é a surpreendente cena final, onde em questão de segundos podemos acompanhar toda a ação paralela que culmina com o assassinato de Sal e a prisão de Sonny. A fotografia granulada (Direção de Victor J. Kemper) torna o filme mais realista e na parte final do filme se torna extremamente escura (“Cortaram as luzes!”) o que torna o ambiente mais tenso, além de aumentar a sensação de estar encurralado.

Além da boa direção de Lumet, a força do filme se concentra na enérgica e sensacional atuação de Al Pacino. Na época um grande astro, devido ao sucesso dos dois primeiros filmes da trilogia “O Poderoso Chefão”, o ator se mostrou extremamente corajoso ao aceitar este papel, que envolvia homossexualismo, e arriscar sua reputação. Porém sua excelente atuação e o ótimo filme provaram que ele estava certo em sua escolha. Logo que o assalto se inicia ele já está agitado, nervoso, gritando e falando palavrões. Seu Sonny é alguém que, por ter trabalhado em bancos, conhece todos os artifícios do local (alarmes nas notas, nas chaves, notas marcadas) e utilizou este conhecimento para tentar resolver sua situação. Extremamente pressionado por todos os lados de sua vida, como podemos notar na conversa de Sonny com Leon, com sua ex-esposa e depois com sua mãe, notamos que ele não é uma pessoa má, mas perdeu a cabeça com tantos problemas e não soube lidar com esta situação. Observe como Angie não deixa Sonny falar, mostrando a pessoa complicada que ele tinha que conviver diariamente. Ao final da conversa com ela, Sonny fica pensativo, refletindo sobre tudo que aconteceu. Por outro lado, Sonny também não é alguém fácil de entender. Casado e com filhos, ele piorou ainda mais sua já complicada vida quando se envolveu com Leon, com quem se casou em outro estado. Seus pais também não eram lá pessoas muito tranqüilas, como podemos perceber na conversa dele com sua mãe, quando ela fala pra ele correr, dando um claro sinal de desespero. “Seu pai disse que não tem mais filho”, diz ela, mostrando que sua família não era o melhor exemplo de estrutura. Por tudo isso, e também por ter perdido o emprego, Sonny resolveu acabar com seus problemas da forma mais rápida. Mas seu plano deu errado. E Pacino é extremamente hábil ao nos transmitir toda esta carga de tensão que Sonny carrega nos ombros. Quando o telefone toca e o gerente diz que é pra ele (uma das reféns pula e sorri aliviada ao saber que a policia chegou ao local), Pacino faz uma cara de espanto deixando claro que Sonny não era um ladrão de bancos acostumado com aquilo. Ele agiu errado, na hora errada. Lumet diminui Pacino neste momento. Ele está no chão, desolado, e o gerente fica em pé diante dele. O show particular do ator tem alguns momentos memoráveis, com na cena em que ele se refere às vitimas inocentes em “Attica” (Rebelião de Attica, 1971), dizendo para a polícia guardar as armas (“Put the f* guns down!”), a ótima cena da entrega da pizza em que Sonny joga dinheiro para o povo e se torna herói pra eles (“Sonny are we!” / “Nós somos Sonny!” gritam) e o sensacional diálogo entre Sonny e o apresentador de TV (“Quanto você ganha por semana?”), que é uma excelente crítica ao sensacionalismo da imprensa, tão comum nos dias de hoje, que ao invés de debater uma solução para os problemas sociais, como era o caso, tenta falar com propriedade de problemas tão distantes da realidade que os próprios apresentadores (como alguns da nossa televisão aberta) vivem.

No restante do elenco, podemos destacar Charles Durning como o inteligente policial Moretti. Suas discussões com Sonny são sempre realistas. Observe os tiques no rosto de Pacino, mexendo os olhos e o canto da boca freqüentemente, enquanto Moretti fala ofegante tentando controlar a tensa situação. Os dois mostram o nervosismo que seus personagens sentem com muita habilidade. John Cazale tem boa atuação como o calado Sal. Repare sua tensão refletida na voz e no olhar quando ele fala com Sonny sobre arremessar corpos. Ele é o mais perigoso da dupla, pois irá até a última conseqüência para evitar voltar à prisão. Sal é simples, nem sabe que Wyoming não é um país. Observe como ele fica irritado quando a TV fala que são dois assaltantes homossexuais. Sonny responde que “eles podem dizer o que querem, somos apenas um show de horror”, numa boa crítica à má utilização da liberdade de imprensa. Finalmente, temos Chris Sarandon, muito bem como o amante homossexual de Sonny. Observe a posição de suas mãos quando fala, muitas vezes pressionando o próprio peito, num movimento bem feminino. Sua enorme sensibilidade nos diálogos e o desmaio ao ver Sonny também reforçam a qualidade da atuação. Observe também seu riso ao ouvir Sonny dizer “Dinamarca, Suécia?”, típico de quem está ironizando o que ouve. Interessante notar também como até os figurantes participam muito bem do filme, como na já citada cena da pizza, ou quando Leon fala que é “uma mulher presa no corpo de um homem” e um policial ri ao fundo. Moretti olha bravo e ele disfarça olhando para o alto.

O ótimo roteiro de Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore, consegue balancear com competência os momentos tensos com muitos alívios cômicos, recheados de humor negro. Entre eles, podemos citar a cena em que o marido de uma das reféns liga e ela pergunta o que pode responder pra ele (“Ele quer saber que horas vai acabar.”) ou na cena em que outra refém reclama da linguagem utilizada por Sonny. Em certo momento, alguém sugere que a viagem do grupo seja para a Europa, dizendo que “A Holanda é bem legal, abrigou pessoas na guerra”, e Sonny responde: “Onde fica a Holanda?”. “Ele é calmo”, “São minhas garotas!” e “Meninas, eu fui entrevistada!” são outros trechos bem humorados do roteiro, que demonstra ainda muita coragem ao abordar o tema homossexualismo em 1975. Também é interessante notar o conflito entre a polícia e a imprensa, tanto no chão, com os repórteres furando o bloqueio, como no alto, com os helicópteros tentando filmar o “show”.

Lumet mostrou coragem ao narrar esta história real acontecida poucos anos antes e com extremo realismo, abordando o homossexualismo e também o racismo, na cena em que o primeiro refém é solto e confundido com um assaltante pelo fato dele ser negro, mas também pela péssima comunicação entre Sonny e Moretti (“Você falou que só tinha mulheres aí!”). A condução da cena final é perfeita. Enquanto vemos os carros se dirigindo ao Aeroporto, a tensão vai aumentando e a expectativa pelo que vai acontecer é enorme. A cena tem grande impacto, e o fato do filme ser baseado em uma história real, aumenta ainda mais o efeito dela no espectador. Sonny não era uma pessoa ruim, só não soube lidar com seus problemas da maneira mais adequada, e pagou caro por isso.

Extremamente ágil e tenso, porém balanceado com muitos momentos de bom humor, Um Dia de Cão mostra como uma pessoa normal pode se tornar um perigo para a sociedade se não souber lidar com seus problemas da forma correta. Com mais uma ótima direção de Lumet e uma atuação fabulosa de Al Pacino, garante duas horas de bom entretenimento e ainda traz boas reflexões para o espectador a respeito de temas polêmicos como o sensacionalismo exagerado da imprensa, o homossexualismo e o método controverso da policia norte-americana na época.

Texto publicado em 02 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (1957)

29 setembro, 2009

(12 Angry Men) 

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #13

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, E. G. Marshall, Jack Klugman, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, Ed Binns, Jack Warden, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber. 

Roteiro: Reginald Rose. 

Produção: Henry Fonda e Reginald Rose. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“É sempre difícil deixar o preconceito fora de uma questão dessas. Não importa pra que lado vá, o preconceito sempre obscurece a verdade”. A poderosa frase dita por um personagem chave em determinado momento da trama resume bem a mensagem principal deste filme absolutamente corajoso, envolvente e surpreendentemente original. Filmado quase que em sua totalidade dentro de uma única sala (somente 3 minutos acontecem fora dela), “Doze Homens e uma Sentença” é a prova de que um filme pode sim ser do mais alto nível sem a necessidade de grandes investimentos, apenas utilizando a criatividade e o talento.

Doze jurados têm a responsabilidade de decidir se um jovem garoto, acusado de matar o próprio pai, é culpado ou inocente. Com base na enorme quantidade de provas apresentadas pela promotoria, onze deles têm absoluta certeza de que o menino é culpado. Mas um dos jurados não pensa desta forma. Como a lei exige unanimidade na decisão, todos tentarão argumentar para convencer o último jurado de que eles têm razão.

A obra-prima de Lumet nos leva inicialmente ao tribunal onde o julgamento do garoto está acontecendo. Minutos depois, somos transportados, junto com os atores, para dentro da sala onde a importante decisão será tomada. O close no garoto antes de nos jogar dentro dela, auxiliado pela lenta e triste trilha sonora, nos lembra o que está em jogo naquele momento. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é que o roteiro de Reginald Rose nunca nos diz se o garoto é de fato inocente ou culpado. Mesmo assim, a perfeita argumentação de apenas um jurado é suficiente para nos fazer concordar com ele logo no início do filme. Desta forma, quando a segunda votação proposta pelo personagem de Henry Fonda tem inicio, nos pegamos torcendo para alguém ter escrito “não culpado” no papel, pois os argumentos apresentados por ele foram convincentes e nos provam que não temos a certeza necessária para acusar o menino.

A direção de Lumet é absolutamente competente na direção de atores, evitando que o filme se torne maçante (o que seria compreensível em um filme que se passa o tempo todo no mesmo local). Observe como os atores sempre fazem algo para ter um pouco de movimentação em cena, como tirar os casacos, mexer nos óculos, levantar, olhar pela janela, ligar o ventilador ou mudar de posição na mesa. Este absoluto controle da movimentação em cena (misè-en-scene) pode ser observado em detalhes na cena em que um jurado preconceituoso (Ed Begley) começa a fazer seu discurso inflamado contra o garoto. Os outros jurados começam a se levantar e ficar de costas pra ele, demonstrando que não concordam com o que ele fala. A câmera se distancia lentamente, diminuindo o personagem na cena. Simultaneamente, ele vai diminuindo o tom de voz, até ficar desolado e sentar numa cadeira. O elenco atua em conjunto e a cena visualmente é perfeita na tradução do sentimento de todos. Além disso, Lumet explora ao máximo as possibilidades que a situação oferece, utilizando a câmera para nos transmitir sentimentos. Em uma das votações, Lumet vai aproximando lentamente a câmera do imigrante enquanto eles contam nove a três para “culpado”. Quando a câmera está bem próxima, ele muda de opinião e vota inocente. A câmera traduz visualmente o momento em que ele se convence e muda, engrandecendo-o na tela, como se a coragem para mudar estivesse crescendo dentro dele até o ponto de externar esta decisão. Outro detalhe perceptível é que a câmera inicia o longa filmando a maioria do tempo por cima, em plano geral. Com o passar do tempo ela vai descendo e filma os atores pela metade do corpo e quando se aproxima o final do filme, Lumet abusa da utilização de close no rosto deles. Desta forma, o diretor traduz visualmente o aumento da tensão e da sensação de angústia dos jurados. A chuva também é um artifício muito bem utilizado para aumentar esta sensação de incomodo e desconforto, como se eles estivessem se sentindo enclausurados. Finalmente, Lumet capta muito bem as excelentes atuações de todo o elenco. Repare, por exemplo, a cena em que os jurados discutem sobre a velocidade dos passos de uma das testemunhas do caso. Um jurado diz que “um velho daquele jamais saberia precisar esta informação” e a câmera da um close nele exatamente no momento em que percebe ter escancarado seu preconceito, o que se agrava pela presença de um senhor de idade na sala.

É preciso dizer que, para o sucesso absoluto do filme, a excepcional direção de Lumet não seria suficiente. Seria preciso também um elenco extremamente capaz. E felizmente, este é o caso. Isto porque mesmo quando não estão diretamente ligados à cena, os atores estão sempre aparecendo, mesmo que seja em segundo plano, o que os obriga a “atuar” praticamente durante todo o filme. Logo na primeira votação dois detalhes já mostram sutilmente como é o ser humano, graças à fenomenal interpretação coletiva do elenco. Ao perguntar quem considera o garoto culpado, alguns erguem as mãos na hora. Outros aguardam alguns segundos, observam e só depois erguem, claramente seguindo a opinião da maioria sem a menor convicção. Já quando começa a contagem, ao ver que Fonda não ergueu a mão, o rapaz que conta faz uma pausa, mostrando-se impressionado com o voto dele. Todos olham pra ele como forma de intimidá-lo pela atitude tomada. Henry Fonda encabeça o elenco com uma atuação do melhor nível. Inicialmente pensativo, ele vai lentamente mostrando que os seus argumentos são mais do que suficientes para não condenar o garoto. Quando o jurado nº 1 (Martin Balsam) pergunta: “Você não acha que ele é culpado?”, ele responde: “Eu não sei”. Esta é à base do seu argumento, e a grande lição do filme, ou seja, se você não tem certeza absoluta, não pode condenar uma pessoa à morte. Um dos seus grandes momentos acontece logo após a demonstração de que a testemunha não conseguiria correr determinada distância em 15 segundos. Um dos jurados (interpretado magnificamente por Lee J. Cobb) diz que eles estão loucos, sendo convencidos por contos de fadas e deixando o garoto escapar pelas mãos. Ao ser provocado por Fonda, Cobb explode em cena, rangendo os dentes, cerrando os olhos e furiosamente partindo pra cima dele. Fonda, cinicamente, prova que estava certo antes ao afirmar que nem sempre queremos fazer o que dizemos. Lee J. Cobb reafirma seu talento quando altera seu voto, mostrando com muita emoção o motivo de sua posição firme até ali. É até difícil apontar destaques no elenco, já que todos têm atuações de alto nível. O jurado nº 7 (Jack Warden), por exemplo, se mostra logo no inicio como alguém fanático por esporte e que pouco se importa com o que está em jogo. Seu desinteresse fica ainda mais evidente quando muda seu voto sem nenhum motivo plausível, o que gera a revolta do jurado imigrante, interpretado por George Voskovec. John Fiedler, como o jurado nº 2, mostra através da voz sua timidez e insegurança. Martin Balsam conduz a votação com firmeza e se mostra bem justo e convicto de suas opiniões. O jurado nº 4 (E. G. Marshall) também mostra a mesma postura e quando Fonda questiona o que ele fez nos últimos dias, suas respostas são rápidas, como quem quer mostrar que tem certeza do que está falando. Joseph Sweeney, como o jurado nº 9, fala com muita propriedade sobre os motivos que levariam uma testemunha a mentir, numa alusão clara a ele mesmo, que também é um senhor de idade. Observe como ele faz uma pequena pausa quando alguém tosse e depois prossegue no discurso. Estes pequenos detalhes mostram a qualidade da interpretação de todo elenco.

O roteiro de Reginald Rose também tem grande mérito no sucesso do filme. Com diálogos ágeis e sempre interessantes, consegue prender a atenção do espectador em todos os momentos. Aborda também diversos temas polêmicos e escancara preconceitos, o que é bastante válido. Na primeira votação, por exemplo, os jurados começam a explicar porque votaram em “culpado”. E já no primeiro jurado podemos ver um erro que é freqüentemente cometido pelas pessoas, quando ele diz que acha que é culpado porque ninguém provou o contrário. Ora, como diz o personagem de Fonda, o ônus da prova é da promotoria, ou seja, o réu pode ficar calado. Quem tem que provar é quem acusa. Só que infelizmente o ser humano tem a tendência de julgar imediatamente como culpado alguém que é apenas acusado de algo. Outro trecho interessante do roteiro é a cena em que um jurado diz que o menino não sabe nem falar o inglês correto (“He don’t speak good english”. O imigrante corrige: “He doesn’t”). Este trecho irônico mostra que o preconceito dele é idiota, já que o imigrante fala inglês melhor do que ele próprio.

Como se não bastassem todas estas qualidades, “Doze Homens e uma Sentença” propõe ainda uma reflexão interessante no espectador, ao abordar o já citado preconceito de diversas formas diferentes. Temos o preconceito contra a origem da pessoa (um dos homens diz que o cortiço é uma escola de bandidos), contra os imigrantes (o esportista diz: “eles vêm para o nosso país e já querem dar opinião”), o preconceito contra os mais velhos e até mesmo contra os jovens, que é o grande motor da fúria de um dos jurados que havia brigado com o filho e deixou este problema pessoal afetar sua decisão no caso. Em resumo, o filme nos mostra claramente que jamais devemos nos deixar levar pelas aparências. Por tudo isso, podemos dizer que a parte técnica discreta e limitada pelo ambiente único não faz nenhuma falta. O filme é completo e não precisa de mais nada.

Sidney Lumet conseguiu realizar em “Doze Homens e uma Sentença” uma verdadeira aula de cinema, utilizando de forma excepcional o seu talentoso elenco, abusando de sua qualidade como diretor e criando, no fim das contas, uma verdadeira obra-prima. Admiradores do cinema devem saborear este filme singular, que é a prova de que mesmo sem grandes recursos técnicos o cinema pode nos oferecer grandes obras.

PS: Para ver outra crítica interessante do filme no Blog Cinepapo, de meu amigo Augusto, clique aqui.

Texto publicado em 29 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 109 outros seguidores