Games x Armas, o surreal debate brasileiro

Eu bem que gostaria de utilizar meu tempo para escrever textos unicamente relacionados ao cinema (e farei isso, já tenho críticas quentinhas saindo do forno em breve), ainda mais agora que a triste realidade brasileira está, ao menos fisicamente, mais distante. Seria até mais inteligente da minha parte não me manifestar politicamente neste momento de um Brasil tão polarizado. No entanto, não consigo ignorar o surreal debate que andei acompanhando em parte da mídia e, especialmente, nas redes sociais nos últimos dias. Senti-me como se estivesse novamente em 1999, ano em que a Columbine High School e o cinema do shopping Morumbi foram alvos de massacres que levantaram a questão: poderiam os filmes ou jogos de videogame influenciar estes malucos?

Após tantas pesquisas que apontam, dentre outros dados, que 80% dos atiradores em massa não mostraram interesse em games violentos ou que não há relação alguma entre o ato de jogar videogame e a agressividade de adolescentes, torna-se surreal que existam tantas pessoas que simplesmente ignorem os estudos e afirmem categoricamente tamanhos absurdos. Não vou dizer que é surpreendente, diante dos líderes retrógrados que elegemos, mas certamente é decepcionante que tanta gente embarque nessa nos dias de hoje, com tanta informação disponível.

Pior ainda é o nosso desgoverno, ao invés de agir com a decência esperada de um país sério, como fez a Nova Zelândia ao anunciar que irá banir as armas semiautomáticas – em reação similar a Austrália e Reino Unido após massacres, diga-se -, aproveitar o momento para dizer que a solução passa por armar os professores (!) e facilitar o acesso as armas. Eu sequer acredito no que acabei de escrever, tamanha a imbecilidade.

O Japão talvez seja o melhor exemplo do tamanho da ignorância desta gente. Um dos países onde mais se joga games violentos, o Japão é também referência em segurança, graças, entre outros fatores, ao rígido controle de armas existente por lá. Portanto, nem é preciso um estudo mais profundo para desmontar a falácia de gente como o general Mourão. Mas se preferir, compare o número de assassinatos em massa em países onde há rígido controle de armas (a maioria dos países europeus, Austrália, Japão, etc.) com aqueles onde a compra de armas de alto poder de destruição é livre, como nos Estados Unidos, onde há uma frequência assustadora de assassinatos em massa todos os anos. Fica claro que eventos trágicos como estes podem ocorrer em qualquer lugar, mas as chances aumentam exponencialmente quando o acesso as armas é facilitado.

É realmente muito triste ver o Brasil entregue nas mãos de gente tão incompetente e, o que é pior, capaz de fazer malabarismos para implementar políticas que visam única e exclusivamente defender os interesses da indústria armamentista. É muito triste que, ao invés de propor melhores condições de trabalho aos professores, essa gente lunática queira transformá-los em agentes secretos prontos para conter o mal, atribuindo uma responsabilidade que é do Estado para eles. Em resumo, é muito triste ver um país retroceder tanto em tão pouco tempo.

Enfim, eu quero e irei escrever muito sobre cinema novamente, mas não podia deixar passar batido este tema, até por que é questão de tempo para começarem a culpar os filmes também, exatamente como fizeram em 1999 com “Clube da Luta”.

Texto publicado em 17 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

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