TOMATES VERDES FRITOS (1991)

(Fried Green Tomatoes)

 

Videoteca do Beto #81

Dirigido por Jon Avnet.

Elenco: Kathy Bates, Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker, Jessica Tandy, Cicely, Chris O’Donnell, Stan Shaw, Gailard Sartain, Timothy Scott, Lois Smith e Nick Searcy.

Roteiro: Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado em livro de Fannie Flagg.

Produção: Jon Avnet e Jordan Kerner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A bela história da forte amizade entre duas jovens é a inspiração deste “Tomates Verdes Fritos”, que com seu roteiro delicioso e suas excelentes atuações conquista o coração do espectador. Com muita sutileza, o diretor Jon Avnet entrega uma história cativante sobre amizade, amor e, acima de tudo, coragem para enfrentar os nossos medos e o preconceito da sociedade em que estamos inseridos.

Toda semana, Evelyn (Kathy Bates) visita a tia de seu marido Ed (Gailard Sartain) no hospital, mas não é bem recebida pela paciente. Num momento de tristeza, ela acaba conhecendo Ninny Threadgoode (Jessica Tandy), uma senhora de 83 anos que adora contar histórias. Nestas conversas semanais, Ninny passa a lhe contar a história de Ruth (Mary-Louise Parker) e Idgie (Mary Stuart Masterson), duas moças que construíram uma forte amizade nos anos 20, provocando polêmica na cidade, principalmente por tratarem bem os negros.

“Tomates Verdes Fritos” é um filme delicado, que aborda com sutileza alguns assuntos potencialmente controversos. Sutileza, aliás, é a palavra que melhor define a direção de Jon Avnet, que conduz a narrativa com elegância desde o primeiro plano do filme, que remete ao assassinato de Frank Bennett (Nick Searcy), com o caminhão sendo retirado da água. O diretor mostra competência na composição de planos belíssimos, como aquele em que Buddy Threadgoode (Chris O’Donnell), Idgie e Ruth caminham sobre as águas da barragem ou o tenso plano em que Idgie conversa com seu chefe no café enquanto os membros do Ku Klux Klan, liderados por Bennett, se aproximam da janela. Repare ainda a perfeita composição do plano em que Ruth revela o olho roxo, surpreendendo o espectador quando vira o rosto para atender ao chamado do marido, revelando os problemas que ela tinha naquela conturbada relação. E além dos belos enquadramentos, Avnet mostra competência na condução de cenas marcantes, como a chocante morte de Buddy. Aparentemente inofensiva (vemos Buddy tentando pegar o chapéu que voa levemente sobre os trilhos), o tom da cena muda repentinamente quando o pé do rapaz se enrosca nos trilhos, mas o espectador mantém um fio de esperança de que no momento final Buddy vá escapar. Infelizmente, não é o que acontece, e o plano seguinte confirma a tragédia. Vale citar ainda a bela cena em que Ruth e Idgie jogam comida para os pobres de dentro do trem, com o rosto daquelas crianças esperançosas implorando por ajuda, pontuada por uma das raras aparições da trilha sonora de Thomas Newman.

Numa óbvia referencia ao nome do filme, a fotografia de Geoffrey Simpson, auxiliada pela direção de arte de Larry Fulton, adota clara preferência pela cor verde, notável através dos locais arborizados, do sofá do hospital e do telhado da casa de Idgie, entre outros objetos. A escolha também faz alusão à cor da “esperança”, afinal de contas, esperança era o que mais faltava a Evelyn, que reencontra a paixão pela vida após conhecer Ninny, assim como Ruth se renova ao lado de Idgie. Entre o assassinato de Bennett e o julgamento de Idgie, o longa passa a ter o predomínio de cores escuras e cenas noturnas, refletindo a amargura daquelas pessoas, que só seria aliviada com a decisão do juiz, baseada na surpreendente ajuda do reverendo. Vale destacar também os figurinos de Elizabeth McBride, que diferenciam bem a época atual, com as roupas coloridas de Evelyn, da época de Ruth e Idgie, com os vestidos impecáveis das mulheres (com exceção de Idgie) e as roupas engomadas dos homens que recriam os anos 20 com muita precisão.

Certamente um dos destaques do longa, o roteiro escrito por Fannie Flagg e Carol Sobieski, baseado em livro de Fannie Flagg, demonstra coragem não apenas por abordar uma relação tão íntima entre duas mulheres, mas porque não maquia o repugnante preconceito que imperava na época, quando a sociedade tratava os negros como meros criados destinados a servi-los da melhor maneira. Além disso, a estrutura narrativa de “Tomates Verdes Fritos” abusa dos flashbacks, que neste caso funcionam bem, por causa da narração envolvente de Tandy e da dinâmica montagem de Debra Neil-Fisher, que alterna entre passado e presente num ritmo delicioso. E se claramente há um corajoso subtexto homossexual na amizade entre Ruth e Idgie, o longa jamais responde abertamente a questão (o que é coerente com o período em que a história se passa, quando o preconceito estava ainda mais arraigado nas pessoas), preferindo indicar sutilmente o sentimento que ambas nutriam através de pequenos gestos, como quando Ruth diz para Idgie que aquele tinha sido o melhor aniversário de sua vida e dá um beijo na amiga. Muitos anos mais tarde, diante de um júri e da sociedade local, ela declararia que Idgie era sua melhor amiga e que a amava. Já Idgie era mais espontânea, não hesitando, por exemplo, em arrancar Ruth das mãos de seu violento marido, chegando a ameaçá-lo de morte. Obviamente, a excelente atuação de Parker e Masterson é vital para o sucesso daquela relação e ambas se saem muito bem, apresentando uma excelente química (destaque para a cena em que elas brincam com comida, com clara conotação sexual). Exatamente por isso, quando vemos Ruth se preparando para a morte e Idgie, emocionada, repetindo a história do lago que foi parar na Georgia, é muito difícil conter as lagrimas, exatamente por acreditarmos no amor verdadeiro que elas sentiam. O espectador sabe que Idgie está perdendo mais que uma amiga naquele momento, está perdendo a pessoa mais importante da vida dela. E até mesmo o plano distante de Avnet demonstra profundo respeito pelo momento, como se o diretor estivesse observando de longe aquela triste despedida, refletida até mesmo na fotografia obscura da cena. Parker se destaca ainda na cena em que conta sobre as orações que de nada adiantaram para salvar sua mãe, transmitindo com exatidão a aflição que Ruth sentia por não ter reagido como deveria, provocando também a mudança de Evelyn, que em seguida reage às provocações de duas mulheres num estacionamento. A partir deste momento, Evelyn passa a pensar mais nela e menos no marido, começando a cuidar da saúde e a mudar tudo que lhe desagrada, como a parede do quarto que inibe a passagem dos raios solares.

E já que citei Evelyn, é preciso ressaltar que, assim como Parker e Masterson, Tandy e Bates também estabelecem uma excelente conexão em suas deliciosas conversas, com destaque para o emocionante diálogo sobre a menopausa e sobre o filho de Ninny, onde o talento das duas atrizes salta aos olhos da platéia – repare a emoção de Tandy ao relembrar o filho que se foi e sua comovente alegria ao imaginar que em breve, de acordo com sua fé, poderá reencontrá-lo. Kathy Bates está absolutamente divertida como Evelyn, mudando gradualmente seu comportamento durante o longa, atingindo o ápice quando reage às provocações num estacionamento e, em seguida, entra empolgada no hospital, colocando pra fora todos os anos de repressão e angústia. É gritante a diferença desta Evelyn para a mulher que seguia cegamente as dicas do curso para esposas, se enrolando em papel para surpreender o marido, numa cena tragicamente engraçada, que expõe o quanto aquela relação estava deteriorada – algo que fica evidente também quando o marido sequer lhe dá atenção, preferindo assistir qualquer jogo que estiver passando na televisão. Aliás, até mesmo a forma física do casal evidencia que a preocupação em agradar ao outro já ficou no passado faz tempo. Mas a grande mudança na vida de Evelyn estava por vir – e o olhar dela para o café, sentindo o sopro do vento e imaginando o barulho do trem logo no início do filme, já indicava a importância que aquele local teria em sua vida, sem que ela jamais necessitasse pisar dentro dele. E o agente motivador desta mudança é Ninny, interpretada por Jessica Tandy, que está ainda mais encantadora que de costume na pele da senhora cheia de paixão pela vida, que renova o espírito de Evelyn (e do espectador) com sua forma direta e otimista de olhar para quase todas as situações e desafios de nossa jornada. Por isso, quando vemos Ninny deprimida olhando para sua antiga casa, a tristeza é inevitável. Só que até este momento de fraqueza engrandece Ninny, ao mostrar que ela é vulnerável como qualquer um de nós, mas ainda assim sempre busca uma nova maneira de sorrir. E fechando o elenco, Nick Searcy tem uma atuação unidimensional como Frank Bennett, um homem que parece viver somente para atormentar a vida de Ruth. É claro que o fato da história ser contada por Ninny atenua este maniqueísmo do roteiro, pois claramente trata-se da visão dela sobre aquele homem.

Assim como a natureza da relação entre Ruth e Idgie, existem outras situações em “Tomates Verdes Fritos” que permitem diferentes interpretações. Não é o caso do assassinato de Bennett, que até mantém o suspense durante boa parte da narrativa, mas revela em seu terceiro o ato a verdadeira história, ilustrando como nem sempre as evidencias levam a verdade absoluta. É o caso, porém, da identidade de Idgie, uma destas situações em que cada espectador pode interpretar à sua maneira. Propositalmente, o roteiro nunca diz abertamente se Ninny era Idgie ou não, espalhando pela narrativa algumas situações que podem indicar Idgie como o passado distante de Ninny. Por exemplo, Ninny fala de momentos da vida de Ruth e Idgie que somente as duas poderiam saber, ela diz que gostava de Buddy quando ele sentia atração por Ruth (e claramente Idgie sentia ciúme do irmão) e, principalmente, o mel e o bilhete deixados no túmulo de Ruth sugerem que ela passou por ali após sair do hospital. Mas esta é apenas uma suposição, já que o longa prefere deixar as duas possibilidades em aberto, o que sempre é interessante, pois alimenta discussões.

A forte amizade, e por que não dizer amor, entre duas mulheres é o fio condutor da história de redescoberta de Evelyn, que através da vontade de viver de Ninny reencontra a própria felicidade. E se a alegria de Ninny contagia Evelyn, o otimismo de “Tomates Verdes Fritos” também contagia o espectador, que sai renovado diante de tanta vontade de viver e ser feliz.

Texto publicado em 26 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

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25 Respostas to “TOMATES VERDES FRITOS (1991)”

  1. Afrodite, de Isabel Allende | Sociedade Literária Livros e Raquetes Says:

    […] 42. Tomates Verdes Fritos https://cinemaedebate.com/2010/12/26/tomates-verdes-fritos-1991/ 43. Uma Receita Para a Máfia http://www.cinereporter.com.br/criticas/receita-para-a-mafiauma/ 44. […]

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  3. rafael Says:

    Acabo de assistir o filme e achar incrível. VocÊ traduziu tudo o que senti no filme. Parabéns por esse talento para escrever.

  4. Tomates verdes fritos, | Mídias & Educação Says:

    […] Críticas recomendadas: Cinema com rapadura, Outra página, Blogueiras Feministas, Cinema e Debate. […]

  5. Vany Moreira Says:

    Relembrei muita coisa desse filme passado há bons vinte e poucos anos. Sua análise foi tão boa, que me deu vontade de assistir a esse filme novamente. Seu trabalho foi extraordinário, um presente mesmo. Obrigada.

  6. Tomates Verdes Fritos - 1991 - Legendado - O Melhor da Telona Says:

    […] Leia a crítica completa em: Cinema e Debate […]

  7. Karen Rhaiza Says:

    sua crítica está perfeita, na minha opinião Ninny era sim a Idgie assim fica um final mais mágico

  8. Karen Rhaiza Says:

    Muito bonito o filme 🙂

  9. Mateus Aquino Says:

    Acho que alguém tem um novo filme favorito.

  10. Anônimo Says:

    O filme é lindo, Um abraço!

  11. Márcia Conceição Ribeiro de Assis Says:

    Análise perfeita do filme…o filme é muito lindo e depois de sua análise tornei-me mais fã ainda do filme.

  12. IZABEL CRISTINA Says:

    MEU QUERIDO, ADOREI SUA ANÁLISE DESSE LINDISSIMO FILME!!! APARTIR DE AGORA, ME TORNO SUA FÃ… UM BEIJO GRANDE NA SUA ALMA!!!

    • Roberto Siqueira Says:

      Muito obrigado pelo elogio Izabel!
      Fico muito feliz e espero que comente mais vezes, ok?
      Forte abraço.

  13. fabiokafka@yahoo.com.br Says:

    Olá Roberto!
    Parabéns pela excelente análise desse lindíssimo filme!
    Somente ao lê-la, já me emociono ao relembrar as belíssimas passagens dessa sensível história.
    Já virei fã de sua página.
    Um abraço

    • Roberto Siqueira Says:

      Muito obrigado Fábio.
      Seja bem vindo ao Cinema & Debate e volte sempre.
      Grande abraço.

  14. marcelo Says:

    Feliz 2011 Beto.
    Espero que o site dure muitos revennhons

  15. Helena Says:

    Oi, Beto.

    Descobri por acaso este seu blog e me tornei sua fã, já li grande parte de suas críticas, principalmente as feitas aos meus filmes favoritos.

    Gosto muito da forma que você aprofunda seus comentários, analisando todos os aspectos dos filmes, muitos dos quais passam despercebidos pela maioria dos espectores e eu me incluo nesta maioria.

    “Tomates Verdes e Fritos” é um dos meus filmes favoritos, já o assisti inúmeras vezes e jamais havia prestado atenção na predominância do verde em grande parte das cenas. Concordo com você que as 4 atrizes dão um verdadeiro show de interpretação e o filme nos transmite uma mensagem de otimismo e felicidade.

    Obrigada pelo seu trabalho lúcido e inteligente.

    Aproveito para te desejar um feliz 2011 para você.

    Um abraço.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Helena.
      Muito obrigado pelos elogios, fico lisonjeado.
      Agradeço pela gentileza e aproveito para também desejar um feliz 2011!
      Um abraço e sinta-se à vontade sempre que quiser comentar.

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