007 O ESPIÃO QUE ME AMAVA (1977)

(The Spy Who Loved Me)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #200

Dirigido por Lewis Gilbert.

Elenco: Roger Moore, Barbara Bach, Vernon Dobtcheff, Caroline Munro, Richard Kiel, Curd Jürgens, Robert Brown, Walter Gotell, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Bernard Lee, Edward de Souza, Michael Billington e George Baker.

Roteiro: Richard Maibaum e Christopher Wood, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli.

007 O Espião que me Amava[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro” encerrar com dignidade a fase Guy Hamilton, Lewis Gilbert foi o escolhido para retomar a série 007 neste “007 O Espião que me Amava”, longa bastante irregular que, mesmo trazendo novos elementos para a tradicional fórmula da franquia, não consegue se equiparar ao bom trabalho de Gilbert em “Com 007 só se vive duas vezes”.

Escrito por Richard Maibaum e Christopher Wood com base em romance de Ian Fleming, “007 O Espião que me Amava” marca a primeira investigação de James Bond (Roger Moore) oficialmente acompanhado de outro agente, no caso, a agente secreta soviética Anya Amasova (Barbara Bach). Juntos, eles devem investigar o desaparecimento de um submarino carregado com 16 ogivas nucleares.

Outra vez utilizando a guerra fria como pano de fundo, o roteiro de Maibaum e Wood segue a fórmula de sucesso já estabelecida na série ao trazer James Bond diante de um temível vilão prestes a destruir o planeta, passando é claro pela conquista de belas mulheres, pela tradicional conversa com a charmosa Moneypenny (Lois Maxwell) e pelas inúmeras situações mirabolantes pelas quais o agente deve passar antes de atingir seu objetivo. Mas se todos os filmes de 007 seguem a mesma estrutura narrativa, onde está o diferencial entre eles? A resposta está na forma como cada aventura é conduzida – e, infelizmente, neste caso a condução não é das melhores.

É importante ressaltar que, além do diretor Lewis Gilbert, somente o montador John Glen e o designer de produção Ken Adam já tinham participado da série antes, enquanto todos os outros integrantes da equipe técnica de “007 O Espião que me Amava” eram estreantes. Não que a experiência seja tão crucial, mas certamente a inclusão de uma equipe técnica praticamente toda nova interferiu, ainda que este aspecto também tenha o seu lado positivo, injetando novas ideias que beneficiaram o longa. Caminhando entre a inexperiência e a novidade, o trabalho técnico em geral acaba soando irregular.

Entre as novidades bem sucedidas, podemos destacar a linda música tema “Nobody does it better”, que traz uma carga romântica interessante e, de quebra, inspira o bom trabalho de Marvin Hamlisch na composição da trilha sonora instrumental que, por outro lado, é pouco inspirada e totalmente datada quando embala as cenas de ação, como numa perseguição no fundo do mar. Já a escolha da música clássica nas cenas dentro do complexo onde vive o vilão Stromberg (Curd Jürgens) é muito eficiente, casando bem o som com o balé dos peixes dentro da água.

A própria estrutura interna do complexo submarino de Stromberg concebida pelo design de produção realça outro aspecto técnico que chama a atenção, notável também no inventivo carro-submarino Lotus Esprit desenvolvido por Q (Desmond Llewelyn), que deixa metade das pessoas presentes numa praia da Sardenha boquiabertas. A linda Sardenha, aliás, é captada de maneira sempre exuberante pelo diretor de fotografia Claude Renoir, criando um forte contraste com o árido visual das sequências que se passam no Egito. O visual de tirar o fôlego também se destaca na excelente fuga de Bond nos Alpes austríacos, conduzida com energia pelo diretor e seu montador. E finalmente, Renoir adota tons avermelhados no interior dos submarinos quando estes sofrem ataques, reforçando a sensação de perigo dos personagens.

Complexo submarino de StrombergInventivo Lotus EspritLinda SardenhaA fotografia também é marcante na sombria apresentação de Mandíbula, o homem quase indestrutível interpretado de maneira bem caricata por Richard Kiel que surge pela primeira vez durante um evento noturno no deserto egípcio. Caminhando quase como uma múmia, Mandíbula soa como um personagem cartunesco, chegando a nos divertir pela maneira como escapa dos diversos ataques que sofre – a cena em que ele sai ileso após a queda de um carro sobre uma casa é hilária. Já o vilão Karl Stromberg interpretado por Curd Jürgens está longe de ser divertido, demonstrando sua ganância e crueldade logo no início quando assassina a própria secretária e, em seguida, os dois cientistas que lhe entregaram um precioso projeto. No entanto, assim como ocorre com muitos dos vilões da franquia, Stromberg perde força ao longo da narrativa.

Responsável por dividir a investigação com James Bond, a sexy agente Anya Amasova vivida por Barbara Bach é apresentada através de uma interessante subversão de expectativa durante uma cena amorosa envolvendo outro agente secreto. Ao ouvirmos a menção ao nome do agente “XXX”, inicialmente podemos pensar que quem dividirá as ações com Bond é o homem que está com ela (e ele é mesmo um agente), mas quando Anya pega o telefone, descobrimos que ela é escolhida para a missão. Sedutora e perigosa, Anya foge um pouco do estereótipo de mulher frágil predominante na série, demonstrando até mesmo conhecimento de mecânica após uma piada machista de Bond envolvendo mulheres na direção, em outra subversão do clichê bastante interessante.

Mandíbula, o homem quase indestrutívelKarl Stromberg está longe de ser divertidoSedutora e perigosa AnyaA importância da participação de Anya é realçada até mesmo na mencionada trilha sonora de Marvin Hamlisch, claramente mais romântica que de costume – e o sorriso deles após receberem a noticia de que viajarão juntos pra Sardenha indica a atração mútua que resultará no romance. Claramente mais a vontade no papel, Roger Moore encarna Bond novamente como um homem inteligente e elegante, conferindo algum peso dramático ao personagem, por exemplo, ao demonstrar tristeza após Anya mencionar sua falecida esposa, sem jamais perder o ar irônico tão marcante em sua composição.

Responsável pelas atuações minimamente homogêneas, Lewis Gilbert acerta ainda na condução de cenas vitais como a perseguição na ilha envolvendo alguns carros, uma moto e até um helicóptero, que certamente é a melhor cena de ação do filme, culminando na apresentação do criativo carro-submarino já citado. Além dela, o extenso confronto final dentro do navio, repleto de explosões que realçam o bom design de som, e a tensa cena em que Bond desmonta um míssil também são eficientes, mas a sensação que temos ao final de “007 O Espião que me Amava” é a de que faltou algo.

E esta nunca é uma sensação boa, ainda mais num filme de James Bond.

007 O Espião que me Amava foto 2Texto publicado em 23 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

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