NÃO ESTOU LÁ (2007)

(I’m Not There.)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #116

Dirigido por Todd Haynes.

Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsbourg, Julianne Moore, Michelle Williams, David Cross, Bruce Greenwood, Kris Kristofferson e Peter Friedman.

Roteiro: Todd Haynes e Oren Moverman.

Produção: John Goldwyn, John Sloss, James D. Stern e Christine Vachon.

Não estou lá[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos artistas na história da música provocam tanto fascínio e devoção como Bob Dylan, excepcional músico e compositor que transitou por diversos gêneros ao longo de sua carreira, deixando um legado composto por inúmeras canções marcantes e inesquecíveis. Em constante transformação não apenas visual, mas também na vida profissional e pessoal, Dylan se configurou quase num mistério, dificultando ao máximo a tarefa de resumi-lo como pessoa ou artista. Coube então ao diretor Todd Haynes a tarefa de conduzir este excelente “Não estou lá”, que traz em sua narrativa complexa a ousada proposta de compor as várias facetas do lendário músico.

Escrito pelo próprio Haynes ao lado de Oren Moverman, “Não estou lá” aborda seis etapas da vida de Bob Dylan, que jamais tem seu nome citado durante a narrativa. Ao invés disso, os roteiristas preferem dar nomes diferentes para o personagem em cada uma destas fases, sendo Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin) para a infância, Jack Rollins para a fase folk (Christian Bale), Arthur Rimbaud (Ben Whishaw) para seu lado poético, Jude Quinn (Cate Blanchett) para sua faceta roqueira e polêmica, Robbie Clark (Heath Ledger) para a vida familiar e Billy the Kid (Richard Gere) para sua fase mais reclusa.

Provavelmente, a grande questão que assolou os responsáveis pelo projeto “Não estou lá” era: como transpor para a telona a trajetória de um artista mutante como Bob Dylan? Felizmente, a escolha do diretor e roteirista Todd Haynes não poderia ser mais acertada. Indicando desde o começo que vários atores representarão o personagem, Haynes adota a estratégia ideal para tentar compor o complexo mosaico deste artista multifacetado, que passou de cantor folk “de protesto” a poeta, de roqueiro a cristão e de ícone da contracultura a caubói solitário ao longo de sua grande carreira artística. Adotando uma estrutura narrativa complexa e fragmentada que tende a afastar o espectador comum, o diretor e seu montador Jay Rabinowitz exigem atenção da plateia, ainda que compreender o que se está ocorrendo não demande tanto esforço intelectual, já que as dicas surgem desde a abertura em que vemos os diversos rostos que interpretarão Dylan – e meu instante favorito entre as dicas ocorre quando o velho Billy the Kid olha para o jovem Woody Guthrie e, ao ouvir seu lado poético dizer para “jamais olhar para si mesmo”, ele desvia o olhar.

Empregando elegantes movimentos de câmera, como quando um travelling passeia pelos fãs revoltados de Dylan após uma apresentação com guitarras elétricas na Nova Inglaterra, o diretor cria ainda sequências visualmente inventivas, como quando as imagens transmitem o significado da música “Ballad of a thin man”, num instante em que a montagem de Rabinowitz também chama a atenção, conferindo dinamismo sem jamais soar confusa. No entanto, é mesmo na condução firme de tantas linhas narrativas que o diretor se destaca, permitindo que o espectador se envolva com todas elas sem jamais deixar o ritmo do longa cair.

A fotografia de Edward Lachman também ajuda na orientação do espectador, oscilando entre o preto e branco e o colorido e alterando também o tamanho do grão para criar cenas ora mais limpas ora mais granuladas, conferindo aspectos visuais diferentes para cada estágio da vida do cantor. Assim, se na infância o tom dourado confere um ar nostálgico, as fases de cantor político folk, poeta controverso e artista polêmico surgem em preto e branco, como num registro documental das facetas que ele mais mostrava ao público. Já a vida familiar é fotografa em tons azulados, talvez demonstrando a mágoa que ele sente por ter se distanciado da esposa e das filhas. E finalmente, a fase cristã e a reclusão no campo ganham a mesma fotografia dourada da infância, talvez por remeter aos momentos em que o artista se sente mais confortável (ou seja, distante dos holofotes).

InfânciaPoeta controversoReclusão no campoAjudando a nos ambientar em cada época através da mudança na decoração das casas, dos carros e das próprias vestimentas dos personagens, o design de produção de Judy Becker e os figurinos de John Dunn acertam ainda na recriação de imagens icônica de Dylan ao longo dos anos, com as constantes alterações no corte de cabelo, a barba por fazer, os óculos escuros e o violão pendurado no corpo. Mas ainda que o visual seja importante, é mesmo a espetacular composição do elenco que nos ajuda a compreender as multifaces de Bob Dylan, em atuações não apenas coesas, mas simplesmente sensacionais.

Vivendo a infância do ícone de maneira incrivelmente despojada, Marcus Carl Franklin simboliza a paixão do cantor por Woody Guthrie (não por acaso, o nome do personagem), ícone da música folk que influenciou muito o começo da carreira de Dylan. São dele momentos marcantes de “Não estou lá”, como a conversa com dois senhores num trem e a performance encantadora com o violão na casa de uma família humilde. Único ator a interpretar duas épocas diferentes da vida de Dylan, Christian Bale adota uma postura corporal encurvada na fase folk (quando ele usa o nome Jack Rollins), empregando uma entonação diferente na voz e falas rápidas que tornam suas declarações polêmicas ainda mais impactantes. Já na fase religiosa, quando o cantor deixa o rock para trás para dedicar-se a igreja, sua postura corporal é mais firme e o tom de voz imponente, ainda que alguns velhos trejeitos estejam lá, como a movimentação rápida das mãos e o olhar inquieto.

Em seu penúltimo papel na carreira, Heath Ledger comprova mais uma vez seu grande talento ao viver a difícil faceta familiar do cantor e também sua rápida incursão no cinema, demonstrando o quanto é complicado manter um relacionamento para um astro como Dylan (no caso, Robbie Clark), passando grande parte do tempo ausente e se irritando com o assédio da imprensa ao ponto de estragar um almoço com amigos, ainda que tenha ótimos momentos com sua bela esposa Claire, interpretada com carisma por Charlotte Gainsbourg, atriz que se destaca especialmente na tocante discussão do casal sobre a guarda das filhas que precede a separação legal.

Fase folkFaceta familiarTocante discussãoIrônica, direta e bastante solta no papel, Cate Blanchett demonstra extrema coragem ao aceitar viver um personagem não apenas masculino, mas também muito conhecido do grande público, obtendo sucesso em sua composição através da fala rápida e da repetição precisa de muitos trejeitos e maneirismos do cantor, como as mãos inquietas e a velocidade em que fuma seus muitos cigarros. Assumindo a identidade de Jude Quinn, ela protagoniza momentos marcantes do polêmico artista como a discussão com Keenan Jones, o acidente de moto, a divertida cena envolvendo os Beatles e o conturbado relacionamento com Coco Rivington, a namorada sensual interpretada com graça por Michelle Williams. Mas, se suas respostas desconcertam a imprensa, seu comportamento consegue irritar alguns fãs (“Judas”, grita um após ser provocado por ele) e até mesmo pessoas mais próximas, como quando se embebeda numa festa e desmaia. É de Quinn também a divertida frase “este é Brian Jones, daquela banda de covers”, referindo-se ao lendário guitarrista dos Rolling Stones.

Ben Whishaw se encarrega das controversas entrevistas do poeta e cantor, surgindo repleto de maneirismos, falando rapidamente e tremendo, além é claro de manter o olhar sempre inquieto e de fumar inúmeros cigarros, numa composição igualmente competente já sob o sugestivo nome de Arthur Rimbaud. E finalmente, Richard Gere expressa o peso da vida conturbada do protagonista em seu olhar carregado e na expressão corporal cansada, ainda que a velha chama revolucionária esteja lá, pronta para surgir quando necessário, como de fato acontece numa manifestação popular. Entre aqueles que não interpretam Dylan, o destaque fica para Julianne Moore, que, com uma postura séria, compõe Alice Fabian (uma versão de Joan Baez) como uma especialista na fase folk do cantor, explicando com clareza as razões de seu sucesso e da revolta dos fãs com sua mudança ao longo dos anos.

Obviamente, as músicas não poderiam faltar num filme sobre Bob Dylan. Repleta de canções deliciosas, a trilha representa um prazer à parte para os fãs do cantor, nos brindando com cenas lindíssimas que casam perfeitamente a imagem e o som, como quando acompanhamos Claire brincando com as crianças no parque enquanto Robbie Clark volta para casa de avião. A trilha tem ainda funções narrativas. Observe, por exemplo, como ela emula um batimento cardíaco momentos antes de Blanchett surgir pela primeira vez em cena, já que ela assumirá a fase mais roqueira e polêmica do cantor, destilando veneno em embates dinâmicos e ferozes com a imprensa, simbolizada especialmente na pele de Bruce Greenwood, que vive o jornalista Keenan Jones e, posteriormente, o pistoleiro Pat Garrett – é ele, aliás, quem desmascara o passado misterioso do protagonista em seu programa de TV (numa ótima cena), desafiando-o também em local público já como Garrett. E o mais interessante é que em todas as fases, independente do estilo musical adotado, Dylan nos presenteia com excelentes canções, enquanto Haynes jamais tenta chegar a uma conclusão sobre quem foi este genial artista, criando um painel complexo que só fomenta as discussões sobre sua personalidade.

Dono de uma mente perturbada, mas igualmente criativa, Bob Dylan é certamente um dos maiores nomes da história da música e da arte, inspirando grupos que se dedicam exclusivamente a estudar os significados de suas ótimas canções. Conseguindo sucesso na exposição das várias faces deste gênio da música, “Não estou lá” representa não apenas um ousado projeto cinematográfico, mas também uma deliciosa viagem pela vida de um artista realmente fascinante. “Eu posso ser um ao amanhecer e outro completamente diferente no fim do dia”, diz Bob Dylan. O filme que ele inspirou também pode.

Não estou lá foto 2Texto publicado em 19 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

POCAHONTAS (1995)

(Pocahontas)

 

Videoteca do Beto #134

Dirigido por Mike Gabriel e Eric Goldberg.

Elenco: Irene Bedard, Mel Gibson, Christian Bale, David Ogden Stiers, Judy Kuhn, John Kassir e Russell Means.

Roteiro: Carl Binder, Susannah Grant e Philip LaZebnik, baseado em história de Glen Keane, Joe Grant, Ralph Zondag, Ed Gombert, Burny Mattinson, Kaan Kalyon, Rob Gibbs, Francis Glebas, Todd Kurosawa, Duncan Marjoribanks, Chris Buck e Bruce Morris.

Produção: James Pentecost.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Abordando o inevitável conflito cultural que a arrogância do homem branco trouxe para as Américas na época das grandes embarcações, “Pocahontas” certamente poderia ser considerado um grande filme se tivesse sido lançado algumas décadas antes. No entanto, lançado um ano depois de “O Rei Leão” e no mesmo ano de “Toy Story”, o longa dirigido por Mike Gabriel e Eric Goldberg claramente soa ultrapassado. Apesar de divertir, seu visual fascinante não consegue eliminar a fraqueza de uma narrativa inocente demais para os padrões de sua época.

Adaptado por Carl Binder, Susannah Grant e Philip LaZebnik com base em história de diversos autores, “Pocahontas” traz a história do encontro da personagem título (voz de Irene Bedard) e de seu povo indígena com os conquistadores britânicos, que chegam ao “novo mundo” liderados pelo governador Ratcliffe (voz de David Ogden Stiers) e pelo capitão John Smith (voz de Mel Gibson), trazendo na bagagem o interesse pela exploração da terra local. Obviamente, este interesse se choca diretamente com os interesses dos nativos, criando um ambiente instável que pode levar à guerra, para a tristeza dos apaixonados Pocahontas e Smith.

Apostando no mais que batido tema das diferenças culturais entre homens brancos e índios, “Pocahontas” ao menos acerta ao questionar a imbecilidade da guerra, mas sua fórmula desgastada fica evidente em diversos momentos da projeção. Pra piorar, quando comparado ao excepcional resultado alcançado pela Disney um ano antes na obra-prima “O Rei Leão”, o projeto soa ultrapassado tanto tematicamente quanto em sua estrutura narrativa, empalidecendo ainda mais diante da renovação que o gênero sofreria no mesmo ano de 1995 com o revolucionário “Toy Story” (da própria Disney, em parceria com os estúdios Pixar). Abordando o conflito entre conquistadores e nativos da maneira mais direta possível, “Pocahontas” não hesita em caracterizar os europeus como cruéis exploradores da terra, que surgem entoando canções sobre como matarão os “selvagens” – o que não está tão distante da realidade apresentada em filmes como o ótimo “A Missão”. E apesar de jamais mostrar o resultado das ações violentas dos personagens (poupando o público infantil), “Pocahontas” pelo menos apresenta estes inevitáveis confrontos, ainda que no primeiro deles apenas um índio seja ferido. Neste sentido, a morte de Kocoum é bem mais realista e essencial para que o espectador entenda o risco daquela situação, trazendo peso dramático num momento crucial da narrativa.

O roteiro peca ainda ao trazer os índios falando em inglês, mas esta é uma escolha compreensível, pois seria comercialmente inviável numa produção voltada para o público infantil misturar dois idiomas e intercalar trechos dublados e legendados, apesar da verossimilhança que esta escolha traria para a narrativa. Por outro lado, os roteiristas acertam ao respeitar características marcantes da cultura indígena, como as reuniões coletivas em que eles debatem assuntos relevantes, o que ajuda na ambientação do espectador, além de inserir na cabeça das crianças, ainda que de maneira inocente, esta visão mais profunda e despida de preconceitos sobre as diferenças entre os povos, reforçada nas conversas entre Smith e Pocahontas. E se – talvez pela falta de carisma de alguns personagens – a narrativa jamais consegue envolver o espectador completamente, por outro lado apresenta personagens interessantes, como a adorável árvore falante que rouba a cena sempre que aparece.

Repleto de canções desde sua abertura, na seqüência visualmente belíssima em que os britânicos deixam o porto em direção ao novo mundo, “Pocahontas” emprega a estrutura narrativa tradicional da Disney – em menos de 20 minutos de projeção, temos quatro números musicais. Com seu trabalho facilitado pela curta duração do filme, o montador H. Lee Peterson não encontra problemas para dar dinamismo a narrativa, esbarrando apenas nestas sequências musicais que quebram o ritmo constantemente. Por outro lado, Peterson acerta em transições interessantes, como aquela em que vemos os índios dizendo que torcem para que os europeus não tenham vindo pra ficar e, no plano seguinte, vemos a bandeira britânica sendo fincada na terra deles. Mas se esta estrutura narrativa claramente estava ultrapassada, pelo menos as músicas do competente Alan Menken têm função narrativa e dão seqüência na história, ainda que não cheguem a empolgar ou tenham a beleza das canções que ele criou para “A Pequena Sereia” e “A Bela e a Fera” – nem mesmo “Colors of the Wind” me agradou tanto.

Explorando mais uma vez com competência a oportunidade de criar paisagens lindas, os animadores da Disney entregam um universo colorido e impressionante, que ganha vida nos movimentos de câmera e planos gerais dos diretores Mike Gabriel e Eric Goldberg, além dos planos simbólicos como o que Pocahontas se depara diante de dois caminhos no rio, escolhendo o mais tortuoso e indicando sua escolha na vida amorosa. Além disso, os diretores acertam em cheio no esperado primeiro encontro entre Pocahontas e Smith, numa cena conduzida lentamente, sob a névoa da cachoeira e praticamente sem diálogos, embalada apenas pela trilha sonora. O visual ganha destaque também quando Pocahontas visita Smith na sombria prisão e, especialmente, na seqüência predominada por tons avermelhados que realçam a natureza violenta das canções entoadas antes da batalha, quando os dois lados gritam que seus adversários são “bárbaros”.

Apesar do requintado visual, “Pocahontas” não apresenta muitos personagens cativantes, falhando também quando tenta ser engraçado, com piadas desinteressantes que normalmente envolvem os animais da protagonista – como sabemos, os momentos de alívio cômico costumam funcionar muito bem em animações. Por outro lado, os personagens centrais da trama não comprometem e compensam esta falha. Surgindo como um grande herói logo em sua introdução, quando salva um homem que caiu no mar, Smith é o típico “príncipe Disney”, de cabelos compridos e olhos claros, e que conta ainda com a voz imponente de Mel Gibson, que confere carisma ao personagem, ainda que lhe falte o sotaque britânico ideal no papel. Já David Ogden Stiers empresta sua voz ameaçadora ao comandante Ratcliffe, um vilão egoísta que não pensa duas vezes antes de prejudicar alguém em benefício próprio, mas que pelo menos garante raros momentos de diversão graças as suas expressões caricaturais. Vale destacar também que Christian Bale empresta sua voz ao dedicado Thomas. E finalmente, Pocahontas se apresenta como uma heroína destemida e corajosa, que carrega a narrativa com facilidade e conquista a empatia do espectador, o que é fundamental para salvar o projeto do fracasso. E se seu romance com Smith não chega a empolgar, pelo menos não compromete em nada o resultado final.

Construído numa escala dramática crescente, o esperado confronto entre conquistadores e nativos é impedido pela coragem de Pocahontas, num final previsível e até mesmo irreal, mas que funciona ao concluir o arco dramático da protagonista, transformando-a na grande heroína. Em seguida, o tema do amor proibido ganha ecos ainda mais dramáticos na despedida de Smith, quando Pocahontas sobe num monte para ver o navio distante (num lindo plano, aliás), perdendo-se no horizonte enquanto leva seu amado de volta para o velho mundo. Apesar do tom melancólico, este sim é um final coerente com a história narrada.

Coerente também é dizer que “Pocahontas” é um apenas bom filme, que diverte o espectador, mas jamais deixa sua marca. Empalidecido diante do cenário em que foi lançado, tampouco ganhou relevância com o passar dos anos, sendo relegado ao esquecimento de parte do grande público, ainda que sobreviva na memória de cinéfilos e apaixonados por animações. Em todo caso, assim como sua protagonista, o longa tem sua beleza.

Texto publicado em 15 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira

O VENCEDOR (2010)

(The Fighter)

 

Filmes em Geral #86

Dirigido por David O. Russell.

Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo, Jack McGee, Melissa McMeekin, Bianca Hunter, Erica McDermott, Jill Quigg, Dendrie Taylor, Kate B. O’Brien, Jenna Lamia, Mickey O’Keefe, Frank Renzulli, Caitlin Dwyer e Ross Bickell.

Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson.

Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy e Mark Wahlberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É sempre interessante ver um bom filme de boxe – não fosse assim, este esporte não teria inspirado tantos filmes de sucesso ao longo da história do cinema. Ainda mais interessante é quando o esporte funciona apenas como pano de fundo para um complexo estudo de personagens, como é o caso deste “O Vencedor”, que, além de trazer a história real de dois irmãos boxeadores e sua complicada família, ainda nos apresenta um elenco afinado, liderado pelo ótimo Mark Wahlberg e que conta ainda com a excepcional atuação de Christian Bale.

Escrito por Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, “O Vencedor” conta a história real dos irmãos Dicky Eklund (Christian Bale) e Micky Ward (Mark Wahlberg), quando o primeiro, famoso por ter derrotado o campeão mundial Sugar Ray e hoje viciado em drogas, está treinando o segundo na pequena cidade de Lowell, sob o olhar atento da mãe e empresária Alice (Melissa Leo). Só que os problemas do irmão e a influência de sua namorada Charlene (Amy Adams) fazem Micky buscar uma alternativa para levar a carreira de forma mais profissional, criando um conflito com seus familiares.

Apresentando uma família disfuncional – um tema apreciado pelo cinema “alternativo” de Hollywood -, a narrativa de “O Vencedor” trabalha cuidadosamente no estabelecimento das relações entre os personagens durante o primeiro ato, preparando o espectador para os conflitos que surgirão, o que, por exemplo, aumenta o impacto da reação de Micky após a prisão de Dicky, que delata sua intenção de abandonar o apoio da família e buscar uma alternativa para a carreira. Quando isto ocorre, o espectador pode até se surpreender pela forma ríspida como Micky responde o irmão, mas compreende perfeitamente sua decisão justamente por já estar familiarizado com seus problemas. Da mesma forma, a platéia se surpreende novamente com a reaproximação deles no terceiro ato, exatamente pela maneira realista que a narrativa aborda o conturbado relacionamento entre eles, o que também é bastante interessante.

Ao priorizar (corretamente) o conturbado relacionamento de Micky e sua família, a montagem de Pamela Martin abre pouco espaço para as cenas de luta, que ainda assim surgem intensas e realistas, graças à câmera movimentada de Russel e ao excepcional design de som, que nos ambienta perfeitamente através do barulho dos golpes, gemidos, gritos da torcida e vozes dos narradores. Vale destacar também como Martin e Russel cobrem as primeiras vitórias de Micky com dinamismo, saltando na narrativa de maneira elegante, e contando ainda com a agitada trilha sonora de Michael Brook, que ilustra a euforia do personagem em seu momento de virada na carreira. Variando entre músicas agitadas, que combinam perfeitamente com a natureza destrutiva do boxe, e canções melancólicas como “Strip my mind” (dos Chili Peppers), a trilha ilustra perfeitamente o carrossel de emoções enfrentado pelo protagonista.

Utilizando imagens de arquivo da verdadeira luta entre Dicky e Sugar Ray, a fotografia de Hoyte Van Hoytema busca manter o realismo através do uso de uma paleta natural, que chega a ser crua em diversos momentos, conferindo um ar documental ao longa. Esta abordagem é confirmada também na direção segura de David O. Russell, que utiliza a câmera de mão constantemente, buscando justamente reforçar a atmosfera realista que a narrativa pede, como na conturbada cena da prisão de Dicky, que ganha ainda mais adrenalina em sua câmera agitada. Além disso, o diretor busca nos aproximar de seus personagens ao abusar dos closes, como nas intensas discussões entre Charlene, Micky e sua conturbada família e na forte cena da crise de abstinência de Dicky.

Apresentando um impressionante emagrecimento que chega perto do inacreditável resultado alcançado no ótimo “O Operário”, Bale interpreta o despojado Dicky com intensidade, movimentando-se constantemente e até mesmo soando um pouco freak, mas se destaca mesmo ao demonstrar muito bem os efeitos do crack através do olhar arregalado, da fala acelerada e da falta de sincronismo quando conversa com alguém – repare como ele mal consegue olhar diretamente para as pessoas, como quando discute com Micky na casa de sua mãe, mas ainda assim é capaz de prestar atenção na conversa. Sempre agitado e em constante movimento, Dicky vive da histórica vitória contra Sugar Ray, talvez porque sua própria família parece não perceber que o tempo passou e o boxeador vitorioso do passado foi substituído por um homem problemático que necessita de ajuda.

Inicialmente mais contido que o irmão, Micky lentamente se rebela contra a família opressora e conquista seu espaço, algo que Wahlberg ilustra muito bem demonstrando confiança no tom de voz e no olhar, como em sua discussão com Dicky dentro do presídio. Esta mudança é perfeitamente compreensível diante da situação complicada em que ele vive. Rodeado por sete irmãs e uma mãe superprotetora, Micky ainda sente a pressão de ter que ser vencedor no boxe assim como foi seu irmão – e novamente, o ator transmite esta aflição do personagem muito bem em seu comportamento inicialmente retraído. Além disso, a amargura de sua ex-esposa indica que eles tiveram sérios problemas no passado, o que só piora sua situação. Talvez por isso ele encontre conforto em Charlene, que representa a tão desejada paz que ele procura e não consegue encontrar em sua família.

Sensual e bastante direta, a Charlene de Amy Adams surge confiante desde o instante em que aceita o convite de Micky para sair, crescendo ao longo da narrativa ao enfrentar a família do boxeador sem medo, o que leva a um inevitável confronto na frente de sua casa que chega às vias-de-fato – numa cena tensa e bem conduzida por Russel. Adams se sai maravilhosamente bem nos afiados diálogos que precedem o conflito, jamais se intimidando diante da resistência das ciumentas irmãs dele, e sua personagem ainda protagoniza um momento curioso, quando reclama de filmes legendados, mostrando uma característica do povo americano (e, infelizmente, que aos poucos está dominando o espectador brasileiro também). Também despojada e até mesmo intrometida, a falastrona Alice de Melissa Leo é a típica mãe superprotetora que não enxerga o quanto interfere na vida de seus filhos – e o fato de fechar os olhos para o problema de Dicky só ressalta seu medo de “perder” a proximidade que tem com eles. Mas, apesar de tudo, ela realmente ama os filhos e expressa isto de corpo e alma, vibrando em cada luta de Micky – ainda que arranje lutas desiguais apenas por dinheiro – e acompanhando Dicky numa canção com uma voz tremula que reflete sua tristeza diante da situação do filho. Por isso, chega a ser tocante o momento em que ela, após ver as filhas brigando com Charlene, demonstra não compreender porque Micky se afasta dela, evidenciando sua cegueira quanto ao próprio comportamento superprotetor.

Além de fazer um belo estudo dos irmãos Dicky e Micky, “O Vencedor” ainda acerta ao mostrar os devastadores efeitos do crack, resumidos no momento em que a HBO transmite um filme sobre Dicky e toda a sua família se envergonha do que está vendo – incluindo o próprio ex-boxeador. Ao levar a questão a sério sem jamais julgar o viciado e, especialmente, ao mostrá-lo como um ser humano normal, capaz de vencer um título mundial no passado e de ajudar o irmão no presente, o filme aborda o vício de maneira adulta, estimulando a discussão e a reflexão a respeito do tema.

Apesar de discutir rispidamente com o irmão, Micky ouve seus conselhos e acaba vencendo a luta contra Sanchez por causa disto. Mas nem por isso ele aceita o irmão de volta quando ele sai da prisão e revela sua insatisfação batendo nele num treinamento, o que gera outra discussão forte que culmina no rompimento de Micky com a namorada e o treinador Mickey O’Keefe (o próprio). E, vejam só, é justamente Dicky quem trata de reatar as relações, confirmando a ambigüidade dos personagens de “O Vencedor”. Aqui não existe certo e errado, pois todos pensam estarem agindo corretamente, por mais absurdas que pareçam suas atitudes. Esta ambigüidade chega ao auge na luta pelo título mundial, quando mesmo contrariados eles se juntam em torno de um único objetivo: fazer Micky ser campeão. Sugando o espectador pra dentro do ringue desde o canto entoado pelos irmãos ao lado do treinador O’Keefe, a luta final é marcante e repleta de energia, impressionando ainda por revelar a incrível mudança física de Wahlberg, que surge musculoso e bem diferente do homem barrigudo que acompanhamos em determinado momento da narrativa. E novamente subvertendo nossa expectativa, Dicky se confirma como peça fundamental na vitória do irmão, estimulando-o com palavras e gritos de incentivo o tempo todo.

Após a vitória, todos sobem juntos no ringue e deixam os problemas pelo menos por um instante para trás, num momento emblemático que fecha muito bem “O Vencedor”. Contando com excelentes atuações e trazendo uma história real, o longa dirigido por David O. Russell entra para a galeria dos bons filmes de boxe, para a alegria dos fãs do esporte – e dos cinéfilos também.

Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008)

(The Dark Knight) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #3

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhall, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, Eric Roberts, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall, Monique Curnen, Nestor Carbonell, Joshua Harto, Melinda McCraw e Nathan Gamble. 

Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, baseado em estória de Christopher Nolan e David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane. 

Produção: Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas. 

Cavaleiro das Trevas

Filmes baseados em heróis dos quadrinhos costumam oferecer boas produções no cinema, sejam eles mais famosos (Homem-Aranha) ou menos conhecidos por parte do grande público (V de Vingança). Melhor ainda é quando estes filmes oferecem mais do que diversão, contendo narrativas inteligentes e personagens complexos. Pois este excelente Batman – O Cavaleiro das Trevas consegue ser muito mais que apenas um filme de super-herói, alcançando um peso dramático e uma carga de tensão do mais alto nível, tornando-se um filme de ação diferenciado e acima da média. Ao contrário do visual esplendido que Tim Burton empregava em seus filmes do homem-morcego, recheado de personagens rasos e propositalmente distantes da realidade, Christopher Nolan investe no peso dramático e na ambigüidade, oferecendo personagens fascinantes e uma narrativa maravilhosa.

Desde que Batman (Christian Bale) iniciou sua luta contra o crime organizado na cidade, os criminosos não conseguem mais ter vida fácil. Com o apoio do incorruptível promotor de justiça Harvey Dent (Aaron Eckhart) e do inteligente tenente James Gordon (Gary Oldman), o misterioso homem mascarado conseguiu sucesso em sua empreitada e despertou a ira dos criminosos. Ciente do poder de inibição que o herói provoca nos criminosos, Gordon utiliza a imagem projetada no céu com freqüência para controlar o crime. Por outro lado, pessoas comuns passaram a se vestir como Batman, o que evidentemente se tornou algo perigoso, já que estas pessoas não são capacitadas para combater os perigosos criminosos. Desesperados e sem muita saída, um grupo de mafiosos aceita a proposta de um estranho homem que usa maquiagem para esconder suas cicatrizes conhecido como Coringa (Heath Ledger), que ofereceu seus serviços para eliminar o homem-morcego da cidade.

Dirigido com competência por Christopher Nolan, o filme inicia em ritmo alucinante mostrando diversas ações paralelas que formarão a base da narrativa. Auxiliado pelo excelente trabalho de montagem de Lee Smith, que consegue manter o foco em todas estas ações paralelas e este ritmo acelerado durante todo o filme sem se tornar cansativo, Nolan consegue captar a atenção do espectador e nos jogar pra dentro da trama de forma muito convincente. Além disso, o inicio consegue introduzir de maneira exemplar o personagem mais fascinante do longa, o assustador Coringa. Nolan também é competente na criação de cenas plasticamente belas, como os travellings que sobrevoam as cidades e as empolgantes seqüências de ação e perseguição. Além disso, o diretor utiliza interessantes movimentos de câmera, como podemos notar durante o diálogo entre Gordon, Dent e Batman no terraço. A excelente fotografia azulada cria um ambiente frio e assustador, além de mergulhar os personagens em sombras e escuridão por diversas vezes, refletindo muito bem o sombrio universo do super-herói amargurado. Mas, apesar de cuidar muito bem de todos estes detalhes, é no desenvolvimento de personagens que Nolan demonstra toda sua competência, extraindo atuações do mais alto nível.

Apoiando-se no excelente roteiro escrito por ele próprio e seu irmão Jonathan Nolan, o diretor consegue criar personagens complexos e carregados dramaticamente, o que é sempre um prato cheio para os grandes atores. A narrativa dos irmãos Nolan tem como tema principal o lado egoísta e cruel existente dentro de cada ser humano, apontado através dos jogos propostos pelo vilão. O roteiro também aborda com competência outros temas interessantes, como a corrupção dentro das autoridades que deveriam oferecer segurança à sociedade, além de manter o espectador sempre grudado na tela devido às surpreendentes armadilhas do Coringa. Conta ainda com bons momentos de alivio cômico como a piada dos desaparecimentos do Batman, o nome alternativo que Alfred utiliza para bebidas alcoólicas e a frase do mesmo Alfred sobre o uso do Lamborghini.

Ciente de que toda a história da origem do homem-morcego foi corretamente abordada no filme anterior (Batman Begins), Nolan aproveita para focar ainda mais no desenvolvimento de seus pergonagens, o que possibilita ao elenco de primeira grandeza oferecer performances maravilhosas. Michael Caine está muito bem novamente como Alfred, firme em seus conselhos para Bruce Wayne e com seu ótimo senso de humor. A conversa entre eles sobre o ladrão de pedras preciosas revela muito sobre a personalidade caótica do grande vilão da trama. Christian Bale tem uma boa atuação como Bruce Wayne. Sua reação à insinuação de Alfred sobre seu interesse em Rachel é notável, quando ele vira o rosto e sai evitando o olhar do amigo. Seu momento mais tocante é quando chora a perda de alguém muito importante e reflete sobre o tipo de reação que causou na sociedade quando decidiu ser o Batman. Já com a máscara do homem-morcego seu desempenho é ainda melhor. Com a voz mais grave (e distorcida na pós-produção) e com muita segurança, ele consegue criar um herói ambíguo e amargurado pelas marcas do passado, dando muito peso dramático ao personagem. Morgan Freeman faz seu papel com extrema competência mais uma vez. Repare o sorriso contido de satisfação quando Wayne lhe pede para cancelar o acordo e ele responde “Você já sabia?”. Outra grande cena é quando Reese (Joshua Harto), o consultor das empresas Wayne, ameaça revelar a identidade secreta do Batman. Ele ri com muito cinismo e dá uma resposta muito inteligente ao rapaz, que demonstra através de seu rosto o arrependimento que sentiu. Ainda nas atuações, Aaron Eckhart também merece destaque como o promotor Harvey Dent. Seu arco dramático é incrível, transformando seu personagem de uma pessoa séria e comprometida com a causa para um vingador implacável e cruel que não tem mais código ético e moral após o duro golpe que sofreu. Sua transformação no vilão “Duas-Caras” é extremamente competente e tem total coerência com a narrativa, tornando o personagem mais próximo da realidade, o que o aproxima do público. Dent acaba se tornando o personagem símbolo da ideologia do vilão, que tenta provar que todos nós temos um lado mais obscuro. O momento da revelação de seu rosto é uma grande cena do filme. Interessante notar como a moeda utilizada por Dent se torna ainda mais simbólica após a tragédia que destruiu a vida do personagem, com o lado queimado passando a simbolizar a morte. Impressionante também é a comovente reação de Eckhart quando nota a moeda em seu leito.  Maggie Gyllenhall, apesar de não conseguir criar empatia com Christian Bale, consegue sucesso em sua relação com Eckhart, destacando-se na dramática cena em que aceita se casar com Dent. Gary Oldman completa o qualificado elenco de apoio oferecendo uma boa atuação, com destaque para a cena final do filme, quando demonstra sua aflição de forma muito convincente.

Entre tantas boas performances, uma chamou a atenção em particular. A histórica atuação de Heath Leadger compôs um personagem fascinante e temível. O Coringa dele é alguém sem apego a dinheiro ou regras, que tenta provar que no fundo de sua alma todo ser humano tem seu lado ruim e cruel. Sua intenção é provar que, quando colocadas em alguma situação de risco, as pessoas sempre tentarão salvar a própria pele, como fica evidente na cena dos barcos e em sua engraçada metáfora com os cães de um mafioso. Seu plano lembra por muitas vezes o de John Doe em Se7en, já que ambos não têm mais esperança no ser humano. Incrível como ele trabalhou em cada pequeno detalhe de sua atuação. Observe o tique da língua saindo da boca e os olhos nunca fixos, que demonstram a personalidade psicótica do rapaz. Repare o jeito de andar encurvado, o cabelo bagunçado, a voz anasalada, além é claro do rosto de palhaço extremamente realista, fruto do grande trabalho de maquiagem. A oscilação nada comum de seu senso de humor manifestada através das risadas estridentes e gritos que alternam repentinamente para um tom de voz baixo. Em momentos de extrema tensão ele mantém o controle dos nervos como se não tivesse nada a perder, como na cena em que, com um policial como refém, pede tranquilamente pra fazer uma ligação. Seu bom humor é irônico, e ele demonstra isso com competência, por exemplo, quando chama Rachel de gatinha e ajeita seu cabelo ou quando diz para Batman que ele escolheu as palavras incorretas. Seu momento mais genial é o diálogo com Batman dentro da sala de entrevistas da cadeia, revelando a parte cruel de seu plano e causando a ira em seu oponente (em bom momento de Bale que explode em cena). Nesta cena você pode notar todos os detalhes citados acima em Ledger, além de descobrir que na realidade o Coringa respeita o Batman e entende que eles são dependentes um do outro, pensamento este que fica evidente minutos depois, quando pede em público a morte de um determinado cidadão. Nota-se também nesta cena a excelente composição visual de Nolan, filmando no primeiro plano o comissário correndo pra abrir a porta e no segundo plano o irritado Batman indo trancá-la, ao som da risada do Coringa.

O trabalho técnico do filme também é extremamente competente. Desde a trilha sonora típica de filmes de ação, pesada e com picos de volume para criar tensão, até os espetaculares trabalhos de som e efeitos sonoros, capazes de captar cada pequeno detalhe como o som do pescoço do Coringa estalando e da capa do Batman voando. Os efeitos especiais trabalham para ajudar o filme (e não se tornam a razão de ser dele), como podemos notar nos perfeitos ferimentos no rosto do Duas-Caras e nas maravilhosas seqüências de ação.

Com um ou outro escorregão típico dos arrasta-quarteirões norte-americanos, como a cena do tribunal que faz uma piada patriota sobre armas e a eficiente contagem de votos nos barcos (engraçado como um país tão ineficiente na contagem de votos tenha uma contagem tão rápida), o filme consegue um peso dramático e um terceiro ato capaz de desnortear qualquer um. O diálogo entre Batman e Dent, logo após este último ameaçar de matar um esquizofrênico, revela muito sobre a linha de raciocínio da dupla Coringa e Batman e o que está em jogo. Dent não poderia sujar sua imagem de incorruptível perante a sociedade, ele era o herói que Gotham precisava naquele momento. E a decisão final do homem-morcego de assumir os crimes de outra pessoa e manchar de vez sua reputação naquela sociedade demonstra sua nobreza e seu comprometimento com a causa, jamais levando o crédito pra si mesmo em prol da criação de um mito que ajude na defesa contra o crime organizado. Um herói capaz de uma decisão pesada, cruel e altruísta como esta demonstra sua magnitude e grandeza. Grande também é o filme de Nolan, adulto, pesado e extremamente complexo.

Utilizando os personagens dos quadrinhos como fio condutor de uma produção ambiciosa e oferecendo uma narrativa brilhante e repleta de detalhes, Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme acima da média, com uma atuação antológica e outras muito competentes, que levam o espectador a um enorme cansaço emocional devido à carga psicológica envolvida na trama. Quem dera todo filme de ação tivesse como base para explosões e perseguições uma narrativa tão coesa e complexa como esta. Esta é uma franquia que tem muito ainda a oferecer. Robin, Pingüim, Charada, entre outros, são personagens que podem render outros excelentes roteiros. Espero que venham mais ótimos filmes como estas duas produções de Nolan.

Coringa

Texto publicado em 24 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira