AMNÉSIA (2000)

(Memento) 

 

 

Filmes em Geral #45

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Junior, Stephen Tobolowsky, Harriet Sansom Harris, Callum Keith Rennie, Larry Holden, Jorja Fox, Russ Fega e Kimberly Campbell.

Roteiro: Christopher Nolan, baseado em história de Jonathan Nolan.

Produção: Jennifer Todd e Suzanne Todd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Acordado. Onde estou?”. A frase repetida seguidas vezes neste criativo “Amnésia” reflete bem o grave problema de memória que assola seu personagem principal. Mas o competente Christopher Nolan, auxiliado por sua ótima equipe técnica e um bom elenco, fez mais do que isto, colocando o espectador na mesma situação do protagonista e ilustrando, através de sua inovadora narrativa, como se comporta a memória do rapaz. Desta forma, assim como Leonard, nós também não sabemos o que aconteceu há poucos instantes, justamente porque na narrativa, o instante cronologicamente anterior só aparecerá nos momentos seguintes.

Após ver sua mulher ser estuprada e assassinada, Leonard (Guy Pearce), também atingido no crime, passa a sofrer de uma doença que o faz perder completamente a memória recente. Inconformado, ele parte em busca de respostas na tentativa de descobrir o assassino de sua mulher, o que obviamente se torna uma tarefa complicada diante de sua condição. A solução? Leonard anota tudo que pode, chegando a tatuar em seu próprio corpo as informações mais importantes como “John G. estuprou e matou minha esposa”. No caminho, ele contará com a ajuda do policial Teddy (Joe Pantoliano) e da garçonete Natalie (Carrie-Anne Moss), mas Leonard não sabe até que ponto pode confiar nestas pessoas.

Nos primeiros minutos de “Amnésia”, vemos algumas imagens sumirem de fotos tiradas pelo protagonista (um inteligente artifício, como descobriremos depois – ou antes? –, utilizado para gravar informações importantes), num indício de como funciona a memória dele. Em seguida, a imagem que acabamos de ver retrocede diante de nossos olhos, indicando como funcionará a narrativa, que, justamente por ser invertida, nos colocará na mesma situação de Leonard, evidenciando que a escolha do diretor não é apenas um exercício de estilo, tendo clara função narrativa. Desta forma, Christopher Nolan faz com que o espectador experimente a mesma agonia do personagem e passe a construir em sua mente diversas possibilidades de montagem do quebra-cabeça em que somos envolvidos. Para que esta estratégia criativa funcione, Nolan conta com a montagem excepcionalmente competente de Dody Dorn, responsável por fazer com que o espectador nunca saiba o que vai acontecer em seguida. Eu disse em seguida? Na realidade, cronologicamente falando, não sabemos o que aconteceu momentos antes daquilo que estamos vendo na tela, exatamente como o pobre Leonard. Além disso, Dorn inteligentemente insere no início de cada seqüência uma imagem que remete ao final da seqüência cronologicamente anterior (e que, na narrativa, veremos em seguida), funcionando como uma espécie de gancho que facilita nossa compreensão.

Escrito pelo próprio Christopher Nolan, baseado em história de seu irmão Jonathan Nolan, o bom roteiro de “Amnésia” apresenta uma séria de possibilidades durante a narrativa, fazendo com que o espectador desconfie de praticamente todos os personagens, não por ser intrincado, mas justamente por causa da condição do protagonista (e do espectador). Além disso, “Amnésia” apresenta pequenas reviravoltas que soam convincentes e interessantes, transformando personagens que pareciam vilões em amigos de Leonard e fazendo o caminho inverso, como no caso do policial Teddy e da misteriosa Natalie.

Além da interessante forma de narrar à história, “Amnésia” apresenta ainda uma segunda linha narrativa, que segue a ordem cronológica, envolvendo a curiosa história do casal Jankis, investigada por Leonard. E graças à excelente escolha do diretor de fotografia Wally Pfister, que utiliza imagens em preto e branco para diferenciar a segunda linha narrativa da primeira (que tem imagens coloridas), o espectador se situa perfeitamente na trama, sem jamais se sentir perdido ou confuso. Por isso, com este excelente trabalho técnico ao seu lado, Nolan fica à vontade para empregar uma direção segura, que prende o espectador desde o primeiro minuto de projeção através de escolhas acertadas, com o constante uso do close em objetos, que ressalta a importância das pequenas coisas na memória do ser humano. O diretor ainda demonstra sensibilidade nos poucos momentos em que nos permitimos ter compaixão de Leonard, como quando deitado numa cama e afundado nas sombras, ele lembra sua esposa e o lento zoom in de Nolan realça a tristeza do personagem. Observe ainda como este mesmo movimento serve para retirar Natalie do plano, como se Nolan quisesse que aquele momento fosse apenas de Leonard e suas lembranças – algo que fica evidente quando, ao citar a esposa, Nolan corta rapidamente para Natalie, que abre os olhos como quem se sente deslocada naquele instante. Além disso, a câmera sempre inquieta do diretor reflete a mente perturbada de Leonard por causa de sua doença, algo reforçado também pela evocativa trilha sonora de David Julyan (ainda assim, esta câmera inquieta é diferente da ágil câmera de mão que nos coloca dentro da cena quando Leonard foge do traficante Dodd). Observe também como Nolan insere imagens de uma injeção piscando rapidamente na tela, alertando para a possível confusão na mente de Leonard, apontada no terceiro ato por Teddy. E pra finalizar, não posso deixar de mencionar o maravilhoso momento em que as imagens em preto e branco se transformam em imagens coloridas e indicam a junção das duas linhas narrativas.

E se Leonard parece confuso e inseguro, é porque Guy Pearce consegue transmitir esta sensação de maneira discreta, porém bastante eficiente. Empregando um olhar compenetrado e até mesmo triste, que, associado ao tom de voz baixo, denota certa melancolia ao personagem, refletida até mesmo em suas roupas pouco coloridas (figurinos de Cindy Evans), Pearce compõe um Leonard complexo, que comove em sua luta para vingar a esposa, mas principalmente por acordar sempre nos “momentos seguintes” ao assassinato dela e, desta forma, sofrer eternamente. Constantemente tendo que explicar a natureza de sua doença (“Não é amnésia. Minha memória tem um problema, não me lembro de coisas recentes”), Leonard transita entre momentos de profunda concentração, quando precisa anotar correndo alguma informação para que não a esqueça completamente minutos depois, e momentos de angustia e aflição, como quando fala com um policial ao telefone – e o ator transmite este leque de sensações com muita competência. Com a plena consciência de que a “memória distorce as imagens”, Leonard luta para manter viva a lembrança de sua esposa e por isso fez de sua vingança uma razão para viver. Mas, como ele mesmo diz, como Leonard vai cicatrizar esta ferida se não consegue sentir o tempo? É, portanto, plausível que Teddy tenha razão, e que Leonard viva repetidas vezes esta fantasia, num ciclo contínuo e triste, ilustrado na tocante cena em que queima os objetos da esposa e pensa que ele já pode ter feito aquilo inúmeras vezes antes. E por falar em cena tocante, é impossível não se emocionar ao ver Leonard acordando e tentando falar com a esposa enquanto toca a cama vazia, somente para em seguida se lembrar que ela já não estava mais ali.

Justamente por estarmos na mesma situação de Leonard, não sabemos o que esperar das pessoas que o cercam, como o policial Teddy, interpretado por Joe Pantoliano e, principalmente, a misteriosa Natalie, muito bem interpretada por Carrie-Anne Moss. Num primeiro momento, pensamos, assim como o protagonista, que ela o ajuda por pena. Mas ela mesma esclarece a situação, dizendo que também perdeu alguém e que o ajuda porque ele a ajudou. Só que na realidade, Natalie é mais esperta do que parece, e descobriremos isto da pior maneira, vendo como ela utiliza a doença de Leonard a seu favor, criando situações para forçar um assassinato que lhe interessa, chegando ao ponto de usar informações extremamente pessoais para convencê-lo e até mesmo conquistá-lo (“Minha esposa me chamava de Lenny”, diz Leonard, ao ouvir Natalie chamá-lo desta maneira). Já Harriet Sansom Harris se sai muito bem como a Sra. Jankis, especialmente quando questiona Leonard, pedindo sua opinião “pessoal” e não sua opinião “profissional” a respeito de seu marido Sammy (Stephen Tobolowsky). Aliás, o casal Jankis vive uma das cenas mais dramáticas do longa, quando Sammy aplica a injeção de insulina seguidas vezes na esposa e provoca a morte dela. Ironicamente, a história de Sammy pode mesmo ser a história de Leonard. Ou não.

O final irônico, com Leonard utilizando a própria doença para se vingar do policial Teddy, fecha muito bem este criativo “Amnésia” (e abre outras possibilidades de interpretação, porque não?), filme que explorou com competência o conceito de montagem para entregar uma narrativa intrigante e, além disso, nos colocar na mesma situação desconfortável de seu protagonista. O cinema precisa de sopros de criatividade como este de vez em quando. E, felizmente, obras originais como esta só serão esquecidas por pessoas como Leonard. Ou não.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

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10 Respostas to “AMNÉSIA (2000)”

  1. Rafael Says:

    Ótima crítica. Tive a sensação de que não podemos confiar em ninguém nessa trama. Várias partes ficam claras para o espectador sobre a doença do protagonista: a da garrafa de bebida no banheiro e a do soco no rosto de Natalie.

  2. Dez filmes que deixaram você confuso com o final | Coca Mentolada Says:

    […] 8. Amnésia: […]

  3. Álisson Bertochi (@AlissonBertochi) Says:

    Gostei do post, bem esclarecedor.
    Parabéns!

  4. Andréia Amaral Says:

    Achei complicado e muito cansativo!
    As cenas se repetem várias e várias vezes. O ator principal, muito antipático. Carrie-Anne Moss, nojenta. não gostei

    • Roberto Siqueira Says:

      Andréia,
      Alguns momentos se repetem devido a estrutura narrativa criada para nos colocar na mesma posição do protagonista. Genial.
      Abraço.

  5. cross98 Says:

    Estou querendo muito ver esse filme , muitas pessoas o consideram o melhor filme de suspense ja feito , dizem até que mereceu o óscar

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