AS VINHAS DA IRA (1940)

(The Grapes of Wrath)

 

 

Filmes em Geral #69

Filmes Comentados #10 (Comentários transformados em crítica em 10 de Agosto de 2011)

Dirigido por John Ford.

Elenco: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Russell Simpson, O.Z. Whitehead, John Qualen, Eddie Quillan, Zeffrie Tilbury, Frank Sully, Frank Darien, Darryl Hickman e Shirley Mills.

Roteiro: Nunnally Johnson, baseado em livro de John Steinbeck.

Produção: Darryl F. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A crise provocada pela grande depressão nos Estados Unidos é o pano de fundo para este “As Vinhas da Ira”, obra-prima humanista dirigida por John Ford, que escancara diversos problemas sociais provocados pela ganância de alguns numa época bastante difícil. Com um visual esplêndido, excelentes atuações e uma narrativa envolvente, o longa é acima de tudo um grito de liberdade de um povo sufocado pela opressão do sistema capitalista.

Tom Joad (Henry Fonda) volta para casa em liberdade condicional e encontra seu lar abandonado. Ao lado do pregador Casy (John Carradine), ele vai até a casa de seu tio John (Frank Darien) e descobre que sua família está sendo desabrigada por empresas que detém a propriedade daquelas terras. Sem ter onde ficar, eles partem para a Califórnia, empolgados com as promessas de emprego e de uma nova vida, mas a dura realidade era bem diferente do que eles imaginavam.

Escrito por Nunnally Johnson, baseado em livro de John Steinbeck, “As Vinhas da Ira” trata de um tema delicado com extrema sensibilidade enquanto acompanha a trajetória sofrida de migração de uma família simples do interior dos Estados Unidos. Acostumadas a um estilo de vida que a urbanização não permitiria existir mais, estas pessoas são forçadas a tentar a vida na cidade grande, numa mudança conturbada que só aumentará os problemas sociais do país, inchando ainda mais as metrópoles, já sem espaço para as pessoas que vivem lá. Por outro lado, como podemos esperar que estas pessoas fiquem num local sem oportunidades, tomado por grandes empresas que irão explorar aqueles que se aventurarem a ficar por lá? Como podemos perceber, os problemas gerados pelo sistema capitalista e, principalmente, pela ganância de alguns já ganhava espaço em 1940 e perdura até hoje. A urbanização e a evolução trouxeram mudanças drásticas na vida daquelas pessoas e infelizmente, ampliaram a pobreza e a miséria – e ainda bem que alguns cineastas, como Ford e Chaplin, tinham coragem de criticar este sistema já naqueles tempos.

Ford exalta o “amor a terra” logo no início da narrativa, quando um emocionado Muley (John Qualen) chora enquanto agarra a terra no chão (“Nasci aqui e vou morrer aqui!”, esbraveja). O diretor mostra também o outro lado da moeda, evidenciando os problemas causados pela migração quando um grupo de pessoas para o caminhão da família Joad e impede que eles entrem em determinada região, já repleta de pessoas famintas e desesperadas. Amontoados num caminhão caindo aos pedaços, a família Joad sofre durante praticamente toda a viagem, e a trilha sonora triste e melancólica simboliza a tristeza de quem teve que deixar a terra que ama. Nem todos agüentam o tranco e outra melodia triste surge para acompanhar o enterro do vovô, numa cena simples e comovente em que Ford demonstra toda sua sensibilidade. E o próprio caminhão simboliza a bagunça que aquela família estava vivendo longe de sua terra, num belo trabalho de direção de arte de Richard Day e Mark-Lee Kirk, que se destaca ainda no miserável acampamento que recebe os desabrigados na Califórnia.

Belos também são os movimentos de câmera de Ford, como aquele que inicia na família de Muley, passa pela casa destruída e, em seguida, corta para a sombra da família na terra, simbolizando que agora eles eram apenas sombra do que já foram um dia. Além disso, o diretor explora muito bem as longas planícies e plantações, sempre com a marcante linha do horizonte ao fundo, comprovando seu talento na composição de planos belíssimos. A bela direção de fotografia do ótimo Gregg Toland auxilia neste processo, especialmente durante a viagem da família. Além disso, a escolha do preto e branco reforça o tom melancólico da narrativa e ressalta a vida sofrida da família Joad. Repare ainda como quando Tom retorna pra casa, a fotografia sombria afunda o personagem nas sombras enquanto ele descobre o que aconteceu com seus vizinhos e familiares – e aqui vale destacar a atuação marcante de John Qualen como Muley, nos comovendo ao demonstrar sua paixão pela terra natal. Este clima sombrio é reforçado pela montagem de Robert L. Simpson, que utiliza alguns fades para fazer a transição das cenas, escurecendo completamente a tela por alguns segundos (o que hoje soa deselegante, mas na época não). Além disso, Simpson e Ford seguem uma linha narrativa clássica e, com exceção de um pequeno flashback no início, linear, em que a montagem jamais chama a atenção para si, numa decupagem cuidadosa que mostra apenas o que é necessário para o andamento da trama.

O curioso termo “cats” utilizado para os tratores Caterpillar que derrubam as casas não surge por acaso. Ele personifica uma empresa e a faz parecer algo palpável. Só que uma empresa não é uma pessoa e, portanto, não pode ser ameaçada (“Em quem nós atiramos?”, pergunta o filho de Muley). Naquele instante, as corporações passavam a dominar o cenário – e as terras que até então passavam de geração para geração – e ninguém podia fazer nada a respeito. E a situação só piorava. Tom começa a perceber isto quando um homem conta sobre sua experiência na cidade, onde as 800 vagas prometidas eram disputadas por milhares de pessoas, deixando muitos desempregados – e o momento em que ele fala sobre a morte dos filhos é tocante, revelando também a desonestidade do médico que apontou outra causa para a morte, evitando que as estatísticas de mortes por “fome” aumentassem. A fome também é o tema central de outra cena belíssima dentro de uma venda na beira da estrada, quando o dono (e depois a garçonete) percebe que a família está passando fome e vende os pães e doces por preços menores. Aliás, o rosto das crianças com fome, seja na venda ou no acampamento, é de cortar o coração de qualquer um.

Cativante e complexo desde sua introdução, quando revela seu passado criminoso e temperamento explosivo, o Tom Joad de Henry Fonda aprende lentamente a lidar com aquela situação, percebendo que o poder sempre esteve nas mãos do próprio povo. Esta mudança gradual é notável nas frases ácidas que demonstram o sentimento que crescia dentro dele, como quando diz que “o governo tem mais interesse pelos mortos do que pelos vivos” no enterro do avô. Ator talentoso e carismático, Fonda se destaca em diversos momentos, como quando reencontra sua mãe, partindo emocionado para abraçá-la (e o close de Ford em seu rosto realça sua bela atuação). Mas seu rosto aparentemente inofensivo esconde uma pessoa prestes a se revoltar contra tudo, como podemos notar quando ele responde rispidamente que seu nome “ainda” era Joad, após ser questionado diversas vezes num acampamento. “Não é preciso coragem se você não tem escolha”, diz para um policial antes de cruzar o deserto. O pior inimigo é aquele que não tem mais nada a perder e Tom estava nesta situação. Por isso, seu lado mais primitivo surge quando vê um homem atingir seu amigo Casy e ele volta a matar. Desesperado, se esconde nos braços da amada mãe, numa cena em que a simples visão da porta 63 abrindo e fechando, o som da sirene ao fundo e a posição da câmera de Ford – que não mostra o que se aproxima do local – criam muita tensão.

Além de Fonda, quem também dá um show é Jane Darwell como a mãe de Tom, emocionando a platéia com sutileza, como quando queima os objetos da família antes de partir. Sua conversa com o filho no final é uma linda cena, que simboliza o desmoronamento da família e, por outro lado, mostra o nascimento de um cidadão disposto a lutar por seus direitos e se opor a opressiva política das empresas capitalistas. Repare como ela olha para o horizonte com os olhos marejados, sabendo que seu filho estava partindo para, provavelmente, nunca mais voltar. Ela sabe que quando ele diz pensar em Casy, está deixando claro que lutará até o fim pela nova causa, assim como fez seu amigo – e as palavras de Tom (“Estarei em todo lugar…”) são marcantes e belíssimas, coroando a grande atuação de Fonda. Diretos e realistas, mãe e filho são muito parecidos, mas este jeito seco não os impede de amar um ao outro. Ao ouvir Ma Joad dizer que “Não somos do tipo que beija, mas…” e ver o abraço apertado deles, o espectador precisa segurar as lágrimas.

No restante do excelente elenco, merece destaque a atuação de Charley Grapewin como o vovô, especialmente quando ele se revolta antes de deixar sua casa. “Essa é a minha terra. Não é boa, mas é minha”, diz ele, numa excelente frase que sintetiza o quanto viver em sua própria terra era importante para aquelas pessoas. Também vale ressaltar a atuação de John Carradine como Casy, que se sai bem desde a primeira conversa com Tom e, principalmente, quando explica para o amigo o motivo da greve, momentos antes de morrer. A frase final “Nós viveremos para sempre, porque nós somos o povo!” deixa uma mensagem otimista, de que o povo, ainda que seja explorado, jamais deixará de existir (afinal, eles precisam do povo, não?). Seria interessante também que jamais deixasse de lutar por seus direitos.

“As Vinhas da Ira” é uma forte crítica ao sistema que tomou conta dos EUA depois da grande depressão, onde empregadores exploravam empregados, se aproveitando da situação para pagar salários insignificantes. De maneira tocante, John Ford entrega um filme humanista, melancólico e reflexivo, atingindo o coração do espectador. É preciso muita falta de sensibilidade para não se comover com a luta daquelas pessoas e não se revoltar com as atitudes dos mais favorecidos. A grande pergunta que fica é: depois de tantos anos, será que esta situação mudou?

PS: Comentários divulgados em 17 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 10 de Agosto de 2011.

Texto atualizado em 10 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

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4 Respostas to “AS VINHAS DA IRA (1940)”

  1. Janerson Says:

    Jane Darwell simplesmente maravilhosa. Um filme excelente que, realmente merece cinco estrelas. Vinhas da Ira foi considerado por alguns o primeiro roadie movie do cinema. Em nenhum momento se torna chato ou repetitivo. E mostra a unidade familiar lutando contra a fome e miseria, vislumbrando um futuro melhor, apesar de todas as adversidades.
    Abraco Roberto

  2. COMO ERA VERDE MEU VALE (1941) « Cinema & Debate Says:

    […] a diminuir (resultado do excesso de operários que Ford estuda de maneira mais eficiente em “As Vinhas da Ira”), o conflito político entra em cena e torna a trama mais interessante, com o conservador Gwilym […]

  3. As Vinhas da Ira « Cinema & Debate Says:

    […] Para ler a crítica, basta clicar aqui. […]

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