Archive for the ‘Filmes em Geral’ Category

007 UM NOVO DIA PARA MORRER (2002)

6 junho, 2014

(Die Another Day)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #121

Dirigido por Lee Tamahori.

Elenco: Pierce Brosnan, Halle Berry, Toby Stephens, Rosamund Pike, Rick Yune, Judi Dench, John Cleese, Michael Madsen, Will Yun Lee, Kenneth Tsang, Emilio Echevarría, Colin Salmon, Samantha Bond e Madonna.

Roteiro: Neal Purvis e Robert Wade, baseado em personagens criados por Ian Fleming.

Produção: Michael G. Wilson e Barbara Broccoli.

007 Um Novo dia para morrer[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após um início promissor que teve seu auge no ótimo “007 O Amanhã nunca morre”, Pierce Brosnan viu sua trajetória como James Bond chegar ao fundo do poço neste indefensável “007 Um Novo dia para morrer”, longa dirigido por Lee Tamahori que, por muito pouco, não decretou o fim da franquia no cinema. Repleto de personagens absurdos e cenas pavorosamente mal elaboradas em CGI, o filme torna difícil à tarefa de apontar seus melhores momentos – e se o mais marcante deles é uma homenagem a outro filme da própria franquia é porque a falta de criatividade de seus realizadores extrapolou os limites.

Escrito por Neal Purvis e Robert Wade com base nos já clássicos personagens de Ian Fleming, “007 Um Novo dia para morrer” começa com James Bond (Pierce Brosnan) sendo capturado numa missão na Coréia do Norte na qual deveria assassinar o general Moon (Kenneth Tsang), mas acaba mesmo é testemunhando o suicídio do filho do coreano. Após passar 14 meses na prisão, o governo britânico resolve trocar Bond por um perigoso terrorista internacional conhecido como Zao (Rick Yune). No entanto, o MI-6 desconfia que ele revelou informações importantes nos tempos de cativeiro e acaba desligando-o de suas funções. Decidido a provar sua inocência, o agente parte em busca do terrorista, o que o faz cruzar o caminho do excêntrico milionário Gustav Graves (Toby Stephens).

Repleta de alfinetadas políticas interessantes, a tensa sequência de abertura que se divide entre as ações na Coréia do Norte e no comando do MI-6 acaba nos dando a falsa esperança de que “007 Um Novo dia para morrer” será mais um ótimo filme da franquia. Ainda que seja recheada por exageradas explosões e pirotecnias (uma característica da época), esta sequência funciona muito bem e fisga o espectador rapidamente para a trama. O problema é que, a partir daí, o roteiro não sabe exatamente para onde ir, criando situações potencialmente interessantes para, em seguida, não conseguir desenvolvê-las. O conflito entre Bond e M, por exemplo, não funciona tão bem quanto em filmes anteriores, chegando a parecer bobo e sem sentido inicialmente por surgir tão carregado dramaticamente.

Por outro lado, o roteiro acerta ao inserir momentos de bom humor como quando a pessoa que avalia o estado físico de Bond após o resgate afirma que “o fígado não está muito bem, definitivamente é ele”. No entanto, estes momentos não salvam uma narrativa mal conduzida e que sequer consegue desenvolver bem seus personagens. Não que a franquia 007 seja marcada pela presença de personagens complexos, mas ao menos os melhores filmes tinham narrativas envolventes e criativas. Pra piorar, o diretor Lee Tamahori investe em reviravoltas extremamente previsíveis, como a revelação de que Graves é o filho do general Moon e a traição de Miranda Frost, a agente secreta interpretada por Rosamund Pike que não consegue esconder o fascínio dela pelo milionário.

O próprio Gustav Graves de Toby Stephens é um personagem totalmente unidimensional, demonstrando sua inquietação diante da primeira provocação de Bond e escancarando seu passado, sendo capaz ainda de assassinar o próprio pai e sorrir em seguida, numa das composições mais caricatas de uma franquia já marcada por vilões caricatos. E enquanto Judi Dench tenta conferir algum peso ao raso conflito que tem com Bond, John Cleese confirma que poderia ser um ótimo substituto para Desmond Llewelyn na pele de Q. Finalmente, Halle Berry até que se sai bem nas sequências que exigem esforço físico, tendo ainda o privilégio de estar numa das raras cenas memoráveis do longa ao sair da água da mesma maneira que Ursula Andress havia feito na icônica cena de “007 Contra o Satânico Dr. No”, que aqui claramente é homenageada.

Traição de Miranda FrostGustav Graves unidimensionalRaso conflitoMais a vontade no papel, Pierce Brosnan poderia ter oferecido uma boa atuação caso o roteiro lhe permitisse, mas infelizmente é sabotado por uma trama confusa e, principalmente, por cenas de ação totalmente prejudicadas pelo mau uso do CGI – voltaremos a elas em instantes. Não que a parte técnica de “007 Um Novo dia para morrer” seja um desastre completo, já que a fotografia de David Tattersall, por exemplo, faz um interessante trabalho ao estabelecer claramente a atmosfera de cada ambiente através do visual acinzentado na Coréia do Norte, da fotografia árida que predomina a sequência cubana e da paleta gélida na Islândia. Por sua vez, o design de produção do bom Peter Lamont cria interessantes cenários de gelo na Islândia, ao passo que os figurinos de Lindy Hemming mantêm o padrão da série com roupas elegantes para Bond e, neste caso, também para os vilões.

Já a trilha sonora de David Arnold não consegue chamar a atenção, mas é claramente prejudicada por utilizar variações da música tema de Madonna. Eu gosto de muitas músicas da Madonna, que curiosamente tem uma rápida participação como a professora de esgrima Verity, mas “Die Another Day” está bem longe de ser uma boa música. Ao menos, Arnold consegue compor trilhas instrumentais interessantes para embalar as cenas de ação.

No entanto, a feroz luta de espadas entre Bond e Graves é uma das raras cenas empolgantes de “007 Um Novo dia para morrer”, já que o diretor Lee Tamahori perde a mão na condução da narrativa, especialmente no segundo ato em que o ritmo arrastado imprimido pelos montadores Andrew MacRitchie e Christian Wagner não consegue envolver o espectador, falhando ainda, por exemplo, ao abusar do uso da câmera lenta em diversos momentos, tirando a agilidade das cenas sem ter qualquer ganho estilístico significativo com isto.

Paleta gélida na IslândiaBond surfa numa avalancheAvião pega fogoMas todos estes erros não se comparam ao grotesco uso do CGI que torna as pavorosas sequências em que Bond surfa numa avalanche e aquela na qual um avião pega fogo no ato final ainda mais artificiais, como se a decisão de colocar o agente surfando num fenômeno cataclísmico como aquele não fosse suficiente para arruinar a narrativa – OK, concordo que Bond já fez de quase tudo nesta vida, mas exagero tem limite. Pra piorar, o diretor emprega movimentos bruscos que tornam a citada cena do avião ainda mais confusa, chegando a provocar náuseas no espectador mais sensível. Ao menos, algumas ideias mirabolantes funcionam bem, como o carro invisível que, ironicamente, apoia-se em bons efeitos visuais para tornar-se verossímil – o que não ocorre nas citadas cenas que abusam do CGI. E finalmente, a sequência em que Moneypenny (Samantha Bond) imagina um encontro romântico com Bond é divertida, apesar de ser bem previsível.

A imaginação, aliás, é o problema central de “007 Um Novo dia para morrer”. Enquanto algumas cenas de ação pecam justamente pelo excesso, outras surgem pouco inspiradas, o que, somado aos personagens mal desenvolvidos e a preguiçosa condução da narrativa, fazem deste o pior filme da franquia até hoje. Foram necessários quatro anos e um reboot da série para amenizar o estrago feito pelo filme de Lee Tamahori.

007 Um Novo dia para morrer foto 2Texto publicado em 06 de Junho de 2014 por Roberto Siqueira

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MONTY PYTHON – O SENTIDO DA VIDA (1983)

6 dezembro, 2013

(The Meaning of Life)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #120

Dirigido por Terry Jones e Terry Gilliam.

Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Michael Palin e Terry Jones.

Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle e Terry Jones.

Produção: John Goldstone.

Monty Python - O Sentido da Vida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após realizarem dois dos mais engraçados e influentes filmes de comédia da história, os britânicos do Monty Python decidiram tentar o impossível e, à sua maneira muito peculiar, explicar o sentido da vida, misturando muito bom humor com críticas ácidas a diversos setores da sociedade britânica. Contando com o talento e a criatividade ímpar de seus integrantes, o grupo realizou mais um bom trabalho, ainda que as gargalhadas conquistadas com tanta frequência nos longas anteriores não surjam com a mesma intensidade aqui. Por outro lado, desta vez o espectador deixará o filme não apenas com um largo sorriso no rosto, mas também com interessantes reflexões.

Dividindo a narrativa em vários capítulos que funcionam como esquetes, o roteiro escrito por cinco dos integrantes clássicos do Monty Python nos leva por várias fases da vida, começando no nascimento e obviamente terminando na morte, enquanto tenta neste processo descobrir algum sentido para tudo que vivemos. Assim, se por um lado a quebra em diversos capítulos pode prejudicar um pouco o ritmo da narrativa, por outro o espectador sabe que se por acaso algum segmento não lhe agradar, o próximo pode trazê-lo de volta ao filme, o que mantém a nossa expectativa constantemente.

Menos engraçado e mais cerebral que os longas anteriores, “O Sentido da Vida” dispara críticas ácidas contra a falta de humanidade de alguns partos e hospitais contemporâneos, num esquete rápido e eficiente. Critica também a cegueira imposta pela igreja na sociedade, desta vez através de uma sequência hilária que começa na casa de um casal católico lotada de crianças e termina na sensacional música “Todo esperma é sagrado”, entoada pelas crianças como se fosse um hino. Há também uma ácida crítica a imbecilidade dos conflitos bélicos, primeiro num segmento divertido em que os soldados presenteiam seu comandante e depois durante a Guerra Zulu, duas sátiras que apostam no exagero para expor os absurdos da guerra.

Mais uma vez comprovando ser o mais engraçado dentre todo o elenco, Michael Palin nos diverte quase sempre que entra em cena, seja como o pai católico ou como o divertido Sargento do exército. Por sua vez, Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones também se divertem em diversos papeis, abusando do humor sutil e inteligente tão característico dos britânicos em atuações bastante niveladas e consistentes.

Todo esperma é sagradoDivertido Sargento do exércitoAnimações datadasTerry Jones e Terry Gilliam, aliás, também mantém características marcantes do grupo na condução da narrativa, quebrando convenções e abusando do visual propositalmente “tosco” que marca a filmografia do Monty Python, seja através das animações datadas, seja através de sequências que escancaram o baixo orçamento do longa. Quase anárquicos, os diretores não hesitam, por exemplo, em utilizar o curta-metragem que abre o filme para interromper a narrativa em determinado instante, pedindo desculpas pela interrupção minutos depois, numa escolha criativa e divertida.

O curta que abre “O Sentido da Vida”, aliás, também destila seu veneno, desta vez utilizando a metáfora para criticar o feroz sistema financeiro e suas selvagens especulações através da revolta dos funcionários da Crimson Permanent Assurance, que navegam até Wall Street e invadem os prédios lotados de Yuppies. A crítica à ganância do capitalismo não poderia passar em branco na filmografia do Monty Python.

Em “O Sentido da Vida”, os diretores se mostram inclusive mais inventivos visualmente, como no plano em que o casal de protestantes fala dos católicos (num diálogo hilário, aliás) enquanto dezenas de crianças saem em fila indiana da casa ao fundo ou na engraçada aula de educação sexual, em que a composição do plano nos permite ver a reação dos alunos enquanto o professor ensina na prática como ter uma relação sexual. Finalmente, temos até mesmo um interessante plano-sequência que nos permite acompanhar o garçom Gaston enquanto este fala sobre as coisas importantes em sua vida, num instante, aliás, em que outra convenção narrativa é deixada de lado, já que o personagem fala diretamente com a câmera e quebra a quarta parede.

Navegam até Wall StreetEngraçada aula de educação sexualSistema de doação de órgãosEscorregando numa piada escatológica totalmente sem graça num restaurante, “O Sentido da Vida” provoca boas reflexões na excelente sequência musical que fala sobre o tamanho do universo e a nossa insignificância diante dele, logo após outra cena muito engraçada que aborda o sistema de doação de órgãos. Divertida também é a aparição do Senhor Morte, num esquete que brinca com a figura icônica normalmente associada à morte ao mesmo tempo em que nos leva ao encerramento da narrativa.

Após tudo que vimos, a pergunta é: temos a resposta para o sentido da vida? Não, não temos, mas talvez a vida ganhe mais sentido quando buscamos pensar nela de maneira bem humorada e criativa. O bom humor é uma excelente válvula para expor os nossos problemas e nos fazer refletir sobre eles. É isto que o Monty Python sempre buscou fazer.

Monty Python - O Sentido da Vida foto 2Texto publicado em 06 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

THE RUNAWAYS – GAROTAS DO ROCK (2010)

20 setembro, 2013

(The Runaways)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #117

Dirigido por Floria Sigismondi.

Elenco: Kristen Stewart, Dakota Fanning, Michael Shannon, Scout Taylor-Compton, Alia Shawkat, Johnny Lewis, Riley Keough, Tatum O’Neal e Brett Cullen.

Roteiro: Floria Sigismondi, baseado no livro “Neon Angel: The Cherie Currie Story“, de Cherie Currie.

Produção: Art Linson, John Linson e William Pohlad.

The Runaways - Garotas do Rock[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeira banda de rock da história a ser formada somente por mulheres, “The Runaways” fez um sucesso surpreendente durante pouco mais de três anos na década de 70, terminando repentinamente graças aos desentendimentos entre as integrantes da banda e o empresário delas. No entanto, sua importância histórica jamais poderá ser apagada, e é justamente isto que o longa dirigido pela diretora estreante Floria Sigismondi tenta reforçar, obtendo sucesso apenas parcialmente.

Escrito pela própria Sigismondi com base no livro da vocalista Cherie Currie intitulado “Neon Angel: The Cherie Currie Story“, “The Runaways – Garotas do Rock” apresenta a trajetória da banda desde a sua formação, quando o empresário Kim Fowley (Michael Shannon) é contatado pela guitarrista Joan Jett (Kristen Stewart) e acaba contratando Cherie Currie (Dakota Fanning) para assumir o vocal da banda. Após os ensaios, o grupo sai em turnê e acaba alcançando um sucesso meteórico, que seria lentamente minado graças aos problemas internos do grupo e do empresário.

Ainda no primeiro ato de “The Runaways”, o professor de violão da jovem Joan diz que “mulheres não tocam guitarras elétricas”, escancarando o preconceito que imperava na época e anunciando o quão difícil era a missão daquelas jovens num mundo tão machista como o do rock. No entanto, a dificuldade representa também uma oportunidade, algo que o empresário Fowley enxerga rapidamente, já que até então inexistiam bandas de rock formadas exclusivamente por mulheres. A sequência que acompanha a formação da banda, aliás, é bem interessante, com Fowley procurando a vocalista numa balada e, posteriormente, ensinando Cherie a cantar da maneira que ele entendia ser a correta para ganhar a atenção do público masculino.

Empregando uma câmera inquieta na maior parte do tempo que busca refletir o estado de espírito das garotas, a diretora consegue imprimir um ritmo ágil à narrativa, graças também ao bom trabalho do montador Richard Chew, que com cortes rápidos consegue conferir dinamismo as apresentações da banda, além de se destacar em sequências que prezam pela economia narrativa, como na assinatura do contrato em que as reportagens que saltam na tela dão a exata noção do sucesso do grupo de maneira rápida e eficiente, ainda que soe clichê. No entanto, o roteiro erra ao focar exclusivamente no desenvolvimento da banda, deixando de lado aspectos pessoais que poderiam dar mais densidade às personagens. Assim, a família de Cherie é a única que conhecemos, o que evidencia a estratégia de forçar nossa empatia com a vocalista (afinal, o livro que inspira o roteiro é dela).

Realçando o lado rebelde de Cherie através do quarto repleto de pôsteres de David Bowie, o design de produção de Eugenio Caballero acerta também ao recriar as vestimentas extravagantes da banda com precisão, como no show no Japão em que a vocalista surge com uma roupa provocante, além é claro das estilosas jaquetas e camisetas de Joan. Além delas, os cabelos coloridos, os rostos pintados, as bebidas, os cigarros e as drogas (que aparecem rapidamente, mas o suficiente para conferir credibilidade ao projeto, já que sabemos que elas existiam em profusão naquele ambiente) evidenciam o tempo todo que aquelas meninas eram realmente selvagens, algo praticamente impensável na época. E finalmente, o apertado trailer em que elas ensaiam surge carregado por tons dourados no teto, simbolizando o futuro glorioso que o grupo tinha pela frente.

Ensinando Cherie a cantarQuarto repleto de pôsteres de David BowieVestimentas extravagantesNo entanto, a fotografia de Benoît Debie explora bastante o lado obscuro dos locais que elas frequentam como bares e night clubs, ilustrando a aura underground da banda. Por outro lado, quando Joan e Cherie se beijam pela primeira vez, a fotografia realça tons avermelhados para simbolizar a natureza “pecaminosa” associada ao ato (ou, simplesmente, a paixão existente entre elas), exatamente como acontece na eletrizante performance no Japão, que também assume a aura pecaminosa normalmente associada ao rock. E já que mencionei o show, a trilha sonora de Lillian Berlin é bastante agitada e coerente com o espírito do longa, sendo composta na maior parte do tempo por músicas de bandas lideradas por mulheres.

E as mulheres são mesmo a força central de “The Runaways”. Enfrentando o público desde quando vence um concurso ao imitar David Bowie, Cherie parece ser a garota ideal para assumir a banda idealizada por Fowley, ainda que fisicamente ela não tenha tanta presença (ela tinha apenas 15 anos, afinal). Inicialmente frágil e pouco expressiva, Dakota Fanning ilustra a transformação de Cherie com precisão, tornando-se a garota explosiva que agita o palco no Japão de maneira gradual e convincente. Quem também convence é Kristen Stewart, que se sai muito bem ao encarnar a durona Joan Jett, chamando a atenção sempre que surge em cena e rivalizando diretamente com Cherie pelo protagonismo da banda com sua voz firme e sua postura corporal agressiva. Além disso, ela e Dakota criam uma boa empatia.

Por sua vez, Michael Shannon se diverte ao compor o excêntrico Kim Fowley de maneira bastante exagerada, o que poderia soar caricato, mas acaba funcionando graças à forma como ele dá vida às ótimas cenas em que treina as garotas para enfrentar o mundo no apertado trailer. Tratando-as com agressividade, ele não consegue notar que Cherie jamais se conecta completamente aquele mundo, dividindo-se entre a vida na estrada e a preocupação com a família. É ele também quem tenta transformá-la numa mega estrela, provocando confrontos frequentes entre a vocalista e a guitarrista Lita, interpretada por Scout Taylor-Compton, que pouco pode fazer com o papel que tem em mãos, surgindo quase sempre agressiva e demonstrando um ciúme doentio de Cherie – na verdade, Lita não cedeu os direitos para adaptar sua história, o que permitiu que Cherie e Joan, desafetas da guitarrista e sempre presentes na produção, criassem uma versão em que ela fosse a grande pivô da separação do grupo.

Joan e Cherie se beijamDurona Joan JettExcêntrico Kim FowleySó que nem mesmo os conflitos internos impedem que elas se empolguem ao chegar ao Japão e ver todas aquelas fãs correndo desesperadamente atrás delas, num raro momento que dá a noção da importância da banda. Mas a previsível discussão por causa das fotos sensuais de Cherie dá início ao conflito que levará ao fim das “Runaways”. Nem mesmo o sol da Califórnia que tanto brilhava durantes os ensaios do grupo surge com tanta força no ato final melancólico, que narra a decadência da banda após o sucesso meteórico. Após o fim das Runaways, Joan escancara que era quem mais se importava com tudo aquilo (“Esta é minha vida”) e, não à toa, se recupera do baque e consegue criar a própria banda, sendo responsável pelo hit eterno “I Love Rock n’ Roll”.

Inspirado na história real do sucesso meteórico da primeira banda completamente feminina da história do rock, “The Runaways” tem o mérito de apresentar o grupo para as novas gerações. Ainda assim, a sensação que temos quase o tempo inteiro é a de que falta alguma coisa. Conhecemos a trajetória da banda, as transições dos ensaios para o sucesso e do sucesso para a decadência estão lá, mas, quando o filme termina, sabemos pouco a respeito de suas integrantes. Tudo bem que o sucesso delas foi meteórico, mas o longa não precisava ser tão meteórico assim.

The Runaways - Garotas do Rock foto 2Texto publicado em 20 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

NÃO ESTOU LÁ (2007)

19 setembro, 2013

(I’m Not There.)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #116

Dirigido por Todd Haynes.

Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsbourg, Julianne Moore, Michelle Williams, David Cross, Bruce Greenwood, Kris Kristofferson e Peter Friedman.

Roteiro: Todd Haynes e Oren Moverman.

Produção: John Goldwyn, John Sloss, James D. Stern e Christine Vachon.

Não estou lá[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos artistas na história da música provocam tanto fascínio e devoção como Bob Dylan, excepcional músico e compositor que transitou por diversos gêneros ao longo de sua carreira, deixando um legado composto por inúmeras canções marcantes e inesquecíveis. Em constante transformação não apenas visual, mas também na vida profissional e pessoal, Dylan se configurou quase num mistério, dificultando ao máximo a tarefa de resumi-lo como pessoa ou artista. Coube então ao diretor Todd Haynes a tarefa de conduzir este excelente “Não estou lá”, que traz em sua narrativa complexa a ousada proposta de compor as várias facetas do lendário músico.

Escrito pelo próprio Haynes ao lado de Oren Moverman, “Não estou lá” aborda seis etapas da vida de Bob Dylan, que jamais tem seu nome citado durante a narrativa. Ao invés disso, os roteiristas preferem dar nomes diferentes para o personagem em cada uma destas fases, sendo Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin) para a infância, Jack Rollins para a fase folk (Christian Bale), Arthur Rimbaud (Ben Whishaw) para seu lado poético, Jude Quinn (Cate Blanchett) para sua faceta roqueira e polêmica, Robbie Clark (Heath Ledger) para a vida familiar e Billy the Kid (Richard Gere) para sua fase mais reclusa.

Provavelmente, a grande questão que assolou os responsáveis pelo projeto “Não estou lá” era: como transpor para a telona a trajetória de um artista mutante como Bob Dylan? Felizmente, a escolha do diretor e roteirista Todd Haynes não poderia ser mais acertada. Indicando desde o começo que vários atores representarão o personagem, Haynes adota a estratégia ideal para tentar compor o complexo mosaico deste artista multifacetado, que passou de cantor folk “de protesto” a poeta, de roqueiro a cristão e de ícone da contracultura a caubói solitário ao longo de sua grande carreira artística. Adotando uma estrutura narrativa complexa e fragmentada que tende a afastar o espectador comum, o diretor e seu montador Jay Rabinowitz exigem atenção da plateia, ainda que compreender o que se está ocorrendo não demande tanto esforço intelectual, já que as dicas surgem desde a abertura em que vemos os diversos rostos que interpretarão Dylan – e meu instante favorito entre as dicas ocorre quando o velho Billy the Kid olha para o jovem Woody Guthrie e, ao ouvir seu lado poético dizer para “jamais olhar para si mesmo”, ele desvia o olhar.

Empregando elegantes movimentos de câmera, como quando um travelling passeia pelos fãs revoltados de Dylan após uma apresentação com guitarras elétricas na Nova Inglaterra, o diretor cria ainda sequências visualmente inventivas, como quando as imagens transmitem o significado da música “Ballad of a thin man”, num instante em que a montagem de Rabinowitz também chama a atenção, conferindo dinamismo sem jamais soar confusa. No entanto, é mesmo na condução firme de tantas linhas narrativas que o diretor se destaca, permitindo que o espectador se envolva com todas elas sem jamais deixar o ritmo do longa cair.

A fotografia de Edward Lachman também ajuda na orientação do espectador, oscilando entre o preto e branco e o colorido e alterando também o tamanho do grão para criar cenas ora mais limpas ora mais granuladas, conferindo aspectos visuais diferentes para cada estágio da vida do cantor. Assim, se na infância o tom dourado confere um ar nostálgico, as fases de cantor político folk, poeta controverso e artista polêmico surgem em preto e branco, como num registro documental das facetas que ele mais mostrava ao público. Já a vida familiar é fotografa em tons azulados, talvez demonstrando a mágoa que ele sente por ter se distanciado da esposa e das filhas. E finalmente, a fase cristã e a reclusão no campo ganham a mesma fotografia dourada da infância, talvez por remeter aos momentos em que o artista se sente mais confortável (ou seja, distante dos holofotes).

InfânciaPoeta controversoReclusão no campoAjudando a nos ambientar em cada época através da mudança na decoração das casas, dos carros e das próprias vestimentas dos personagens, o design de produção de Judy Becker e os figurinos de John Dunn acertam ainda na recriação de imagens icônica de Dylan ao longo dos anos, com as constantes alterações no corte de cabelo, a barba por fazer, os óculos escuros e o violão pendurado no corpo. Mas ainda que o visual seja importante, é mesmo a espetacular composição do elenco que nos ajuda a compreender as multifaces de Bob Dylan, em atuações não apenas coesas, mas simplesmente sensacionais.

Vivendo a infância do ícone de maneira incrivelmente despojada, Marcus Carl Franklin simboliza a paixão do cantor por Woody Guthrie (não por acaso, o nome do personagem), ícone da música folk que influenciou muito o começo da carreira de Dylan. São dele momentos marcantes de “Não estou lá”, como a conversa com dois senhores num trem e a performance encantadora com o violão na casa de uma família humilde. Único ator a interpretar duas épocas diferentes da vida de Dylan, Christian Bale adota uma postura corporal encurvada na fase folk (quando ele usa o nome Jack Rollins), empregando uma entonação diferente na voz e falas rápidas que tornam suas declarações polêmicas ainda mais impactantes. Já na fase religiosa, quando o cantor deixa o rock para trás para dedicar-se a igreja, sua postura corporal é mais firme e o tom de voz imponente, ainda que alguns velhos trejeitos estejam lá, como a movimentação rápida das mãos e o olhar inquieto.

Em seu penúltimo papel na carreira, Heath Ledger comprova mais uma vez seu grande talento ao viver a difícil faceta familiar do cantor e também sua rápida incursão no cinema, demonstrando o quanto é complicado manter um relacionamento para um astro como Dylan (no caso, Robbie Clark), passando grande parte do tempo ausente e se irritando com o assédio da imprensa ao ponto de estragar um almoço com amigos, ainda que tenha ótimos momentos com sua bela esposa Claire, interpretada com carisma por Charlotte Gainsbourg, atriz que se destaca especialmente na tocante discussão do casal sobre a guarda das filhas que precede a separação legal.

Fase folkFaceta familiarTocante discussãoIrônica, direta e bastante solta no papel, Cate Blanchett demonstra extrema coragem ao aceitar viver um personagem não apenas masculino, mas também muito conhecido do grande público, obtendo sucesso em sua composição através da fala rápida e da repetição precisa de muitos trejeitos e maneirismos do cantor, como as mãos inquietas e a velocidade em que fuma seus muitos cigarros. Assumindo a identidade de Jude Quinn, ela protagoniza momentos marcantes do polêmico artista como a discussão com Keenan Jones, o acidente de moto, a divertida cena envolvendo os Beatles e o conturbado relacionamento com Coco Rivington, a namorada sensual interpretada com graça por Michelle Williams. Mas, se suas respostas desconcertam a imprensa, seu comportamento consegue irritar alguns fãs (“Judas”, grita um após ser provocado por ele) e até mesmo pessoas mais próximas, como quando se embebeda numa festa e desmaia. É de Quinn também a divertida frase “este é Brian Jones, daquela banda de covers”, referindo-se ao lendário guitarrista dos Rolling Stones.

Ben Whishaw se encarrega das controversas entrevistas do poeta e cantor, surgindo repleto de maneirismos, falando rapidamente e tremendo, além é claro de manter o olhar sempre inquieto e de fumar inúmeros cigarros, numa composição igualmente competente já sob o sugestivo nome de Arthur Rimbaud. E finalmente, Richard Gere expressa o peso da vida conturbada do protagonista em seu olhar carregado e na expressão corporal cansada, ainda que a velha chama revolucionária esteja lá, pronta para surgir quando necessário, como de fato acontece numa manifestação popular. Entre aqueles que não interpretam Dylan, o destaque fica para Julianne Moore, que, com uma postura séria, compõe Alice Fabian (uma versão de Joan Baez) como uma especialista na fase folk do cantor, explicando com clareza as razões de seu sucesso e da revolta dos fãs com sua mudança ao longo dos anos.

Obviamente, as músicas não poderiam faltar num filme sobre Bob Dylan. Repleta de canções deliciosas, a trilha representa um prazer à parte para os fãs do cantor, nos brindando com cenas lindíssimas que casam perfeitamente a imagem e o som, como quando acompanhamos Claire brincando com as crianças no parque enquanto Robbie Clark volta para casa de avião. A trilha tem ainda funções narrativas. Observe, por exemplo, como ela emula um batimento cardíaco momentos antes de Blanchett surgir pela primeira vez em cena, já que ela assumirá a fase mais roqueira e polêmica do cantor, destilando veneno em embates dinâmicos e ferozes com a imprensa, simbolizada especialmente na pele de Bruce Greenwood, que vive o jornalista Keenan Jones e, posteriormente, o pistoleiro Pat Garrett – é ele, aliás, quem desmascara o passado misterioso do protagonista em seu programa de TV (numa ótima cena), desafiando-o também em local público já como Garrett. E o mais interessante é que em todas as fases, independente do estilo musical adotado, Dylan nos presenteia com excelentes canções, enquanto Haynes jamais tenta chegar a uma conclusão sobre quem foi este genial artista, criando um painel complexo que só fomenta as discussões sobre sua personalidade.

Dono de uma mente perturbada, mas igualmente criativa, Bob Dylan é certamente um dos maiores nomes da história da música e da arte, inspirando grupos que se dedicam exclusivamente a estudar os significados de suas ótimas canções. Conseguindo sucesso na exposição das várias faces deste gênio da música, “Não estou lá” representa não apenas um ousado projeto cinematográfico, mas também uma deliciosa viagem pela vida de um artista realmente fascinante. “Eu posso ser um ao amanhecer e outro completamente diferente no fim do dia”, diz Bob Dylan. O filme que ele inspirou também pode.

Não estou lá foto 2Texto publicado em 19 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ACROSS THE UNIVERSE (2007)

18 setembro, 2013

(Across the Universe)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #115

Dirigido por Julie Taymor.

Elenco: Evan Rachel Wood, Jim Sturgess, Joe Anderson, Dana Fuchs, Martin Luther, T.V. Carpio, Spencer Liff, Lisa Hogg, Bono, Eddie Izzard, Salma Hayek, Dylan Baker e Logan Marshall-Green.

Roteiro: Dick Clement e Ian La Frenais.

Produção: Matthew Gross, Jennifer Todd e Suzanne Todd.

Across the Universe[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O principal argumento dos detratores dos musicais é afirmar que jamais alguém começaria a cantar no meio da rua de uma hora para outra, como se isto fosse mais irreal do que Gandalf lutar contra o Balrog ou Ethan Hunt descer correndo pela lateral do prédio mais alto do mundo – e se uso dois exemplos de filmes que adoro, é porque entendo que o realismo não pode ser “o critério” para determinar se um filme é bom ou não e que cada obra deve ser fiel ao seu próprio universo. Assim, se num musical convencional já é difícil inserir canções que deem andamento à narrativa de maneira orgânica, pior ainda é criar uma história a partir de músicas já existentes, já que neste caso não são as canções que devem se adaptar à narrativa, e sim o contrário. Por isso, é surpreendentemente agradável como “Across the Universe” consegue nos envolver praticamente o tempo inteiro.

Escrito por Dick Clement e Ian La Frenais, “Across the Universe” utiliza a Guerra do Vietnã (a grande ferida norte-americana) como pano de fundo de sua história de amor convencional, é verdade, mas que nem por isso deixa de ser envolvente. Ainda que exista um pequeno espaço para reflexões sobre a dor causada pela guerra e criticas aos ativistas cada vez mais radicais, o foco da narrativa está mesmo no relacionamento entre o inglês Jude (Jim Sturgess) e a norte-americana Lucy (Evan Rachel Wood), passando também pelo drama do irmão dela Max (Joe Anderson) e o convívio deles com os amigos Prudence (T.V. Carpio), Sadie (Dana Fuchs) e Jo-Jo (Martin Luther).

Conseguindo criar uma história interessante a partir de dezenas de músicas dos Beatles (o que, mesmo considerando o vasto material do lendário grupo britânico, não é algo simples), o roteiro tem ainda o mérito de desenvolver consideravelmente bem seus personagens, criando arcos dramáticos que, mesmo repletos de clichês, conseguem prender a atenção da plateia. Assim, sabemos que Jude viaja para a América em busca do pai e que sua ausência acaba deixando o garoto sem referencia (“Eu não tenho um ideal”, diz), enquanto o trauma provocado pela morte do primeiro namorado e a chamada inesperada do irmão para lutar no Vietnã acabam acendendo a chama ativista dentro de Lucy.

Demonstrando sensibilidade em cenas como aquela em que Lucy se apaixona por Jude, Julie Taymor conduz a narrativa com segurança, pecando ocasionalmente por, ao lado de sua montadora Françoise Bonnot, estender demais algumas sequências, como na participação de Bono Vox como Dr. Robert e na aparição de Mr. Kite (Eddie Izzard), repletas de efeitos visuais competentes, mas que servem pouco à narrativa – o que não ocorre, por exemplo, na visualmente inventiva cena em que o exército convoca os soldados, embalada por “I want you (She’s so heavy)”. Por outro lado, a montadora tem seus méritos por manter as diferentes linhas narrativas sempre interessantes, priorizando o romance entre Jude e Lucy sem deixar cair o nosso interesse pelo caso entre Sadie e Jo-Jo, por exemplo. Além disso, seu trabalho é essencial para que as sequências musicais funcionem, acertando ainda ao criar interessantes transições, como quando o som do helicóptero anuncia que Max chegou ao Vietnã (um bom exemplo de raccord sonoro, aliás).

Inserindo pequenos alívios cômicos que não empolgam, como quando os amigos de Jude e Max se divertem e dormem bêbados no sofá, a diretora também cria soluções visuais interessantes, como quando o jornal com a notícia da explosão de uma bomba ganha vida e se espalha em centenas de pedaços pela nublada praia britânica. A estratégia da fotografia de Bruno Delbonnel, aliás, é justamente criar uma Inglaterra ainda mais cinza, ilustrando visualmente a melancolia do personagem e contrastando diretamente com a iluminada terra do tio Sam, captada com cores mais vibrantes que realçam os dias ensolarados que ele vive por lá, reforçadas também pelos cenários extravagantes concebidos pelo design de produção de Mark Friedberg e pelos figurinos coloridos típicos dos anos 60 de Albert Wolsky.

I want you (She's so heavy)Inglaterra ainda mais cinzaIluminada terra do tio SamSomos apresentados aos personagens centrais através da mesma canção que, executada simultaneamente em dois países diferentes, já estabelece algumas diferenças básicas de comportamento entre eles que serão os pilares do conflito no futuro. Assim, enquanto Lucy dança empolgada uma versão mais lenta de “Hold me tight”, Jude apenas balança o corpo numa versão mais agitada, evidenciando sua apatia que tanto irritaria a futura namorada e, ao mesmo tempo, estabelecendo a clara diferença social entre eles através dos ambientes em que estão inseridos. Da mesma forma, a ótima “Come Together” sublinha o momento em que todas as linhas narrativas se cruzam e reúnem os principais personagens pela primeira vez, numa escolha inteligente que infelizmente se transforma num videoclipe pela maneira como é conduzida pela diretora.

Compondo Lucy de maneira encantadora, Evan Rachel Wood se destaca mais quando não está cantando, ainda que tenha um bom desempenho em algumas canções, assim como Jim Sturgess, que vive Jude com intensidade e carisma na maior parte do tempo – e a empatia entre eles é essencial para o sucesso do romance. Por sua vez, T.V. Carpio pouco aparece como Prudence, a moça que não consegue externar sua atração por garotas, ao passo em que Joe Anderson tem uma atuação apenas regular como Max. Finalmente, Martin Luther confere humanidade ao guitarrista Jo-Jo, enquanto Dana Fuchs chega a soar antipática como a egocêntrica Sadie, mas ainda assim eles conseguem criar empatia na pele do casal que claramente homenageia Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Ainda que algumas delas soem deslocadas e desnecessárias, a maioria das músicas da trilha sonora de Elliot Goldenthal é inserida de maneira criativa na narrativa, surgindo orgânicas em alguns poucos casos como quando Jude canta no alto de um prédio ou durante os shows da banda de Sadie e Jo-Jo. E mesmo em sequências artificiais algumas canções funcionam bem, como quando Jude canta “All my Loving” para a namorada inglesa (Lisa Hogg) ou na tocante sequência dos funerais acompanhados pela linda “Let it be”. Em outros casos, o arranjo no ritmo da canção não é tão bem sucedido musicalmente, como acontece durante a apresentação de Prudence com “I want to hold your hand”, numa sequência em câmera lenta que também lembra um videoclipe – e que, curiosamente, confere um peso dramático interessante à canção ao abordá-la de maneira tão triste.

Mas se por um lado as canções agradam aos nossos ouvidos, por outro fica claro que os atores dublam as próprias vozes em muitas delas, o que é estranho e artificial. Nem por isso, o design de som deixa de ser competente, nos permitindo ouvir as músicas, os diálogos e os sons diegéticos com clareza (como nos tiros e helicópteros que acompanham “Strawberry fields forever”), jamais permitindo que o som das canções se sobreponha aos demais.

Com personagens chamados Lucy, Jude e Prudence, era de se esperar que as músicas contendo seus respectivos nomes fizessem parte da narrativa. E ainda que a sequência de Prudence seja bastante irregular e a esperada “Lucy in the Sky with Diamonds” surja apenas nos créditos finais, a imortal “Hey Jude” é conduzida com tanta sensibilidade por Taymor que, mesmo não sendo orgânica (um personagem começa a cantar nos EUA e os outros continuam na Inglaterra), funciona maravilhosamente bem, graças ao tom melancólico dos momentos que precedem a música que praticamente nos faz implorar por ela e à criatividade apresentada durante sua execução (as crianças cantando “nananana” emocionam).

Casal que homenageia Jimi Hendrix e Janis JoplinImortal Hey JudeDiscussões entre o casalSeguindo uma estrutura narrativa padrão nos romances, “Across the Universe” utiliza o ativismo de Lucy para inserir o conflito que nos levará ao clímax, provocando discussões entre o casal (numa delas, Lucy surge no alto de uma escada e Jude embaixo dela, demonstrando visualmente quem domina psicologicamente aquela relação) e criando uma escala trágica de ações dramáticas que levará Jude a ser deportado e ficar distante da amada, ao mesmo tempo em que Sadie se irrita com Jo-Jo durante um show e logo após Lucy ser presa durante uma manifestação – numa cena, aliás, excessivamente melodramática, conduzida em câmera lenta pela diretora. No entanto, quando o clímax finalmente chega, nem mesmo a previsível reconciliação coletiva e situações batidas como o desencontro do casal conseguem estragar a sequência, que encerra o longa de maneira agradável e com ótimas canções.

Criativo e belo, “Across the Universe” funciona como uma maravilhosa homenagem a uma das maiores bandas da história da música. Mesmo escorregando aqui e ali, sua narrativa simples ganha ares épicos ao conseguir encaixar com precisão muitas das icônicas canções imortalizadas pelos Fab4, emocionando a plateia (e os fãs) de maneira inventiva, inspirada e (acredite!) bem real.

Across the Universe foto 2Texto publicado em 18 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ÚLTIMOS DIAS (2005)

17 setembro, 2013

(Last Days)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #114

Dirigido por Gus Van Sant.

Elenco: Michael Pitt, Lukas Haas, Asia Argento, Scott Green, Nicole Vicius, Ricky Jay, Harmony Korine, Kim Gordon, Ryan Orion e Thadeus A. Thomas.

Roteiro: Gus Van Sant.

Produção: Dany Wolf.

Últimos Dias[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nomeado pela mídia como a voz de toda uma geração (talvez a última verdadeira revolução que o rock foi capaz de realizar), Kurt Cobain entrou para a história como outro dos grandes nomes da história da música a morrer aos 27 anos de idade e, o que foi ainda mais chocante, através de um suicídio até hoje repleto de mistérios. Assim, não surpreende que sua história tenha inspirado algumas obras deste então, tamanho o apelo popular que o líder do Nirvana alcançou ao longo dos anos. No entanto, ao tentar imaginar como teriam sido os “Últimos Dias” da vida do cantor, Gus Van Sant optou por uma abordagem difícil, extremamente intimista e que, paradoxalmente, está longe de explorar o potencial popular de seu personagem. Apesar da corajosa escolha, no entanto, o diretor parece ter exagerado no tom respeitoso que adota, criando um filme pesado, é verdade, mas excessivamente frio.

Livremente inspirado em Kurt Cobain, “Últimos Dias” narra os momentos finais de Blake (Michael Pitt), o vocalista de uma banda de sucesso que se isola em sua mansão para tentar fugir das pressões exercidas pela indústria da música, pela imprensa e pelos fãs. Ao lado dos amigos Asia (Asia Argento) e Scott (Scott Green), ele definha lentamente enquanto busca escrever sua última canção.

Responsável pela direção e pelo roteiro, Gus Van Sant estabelece desde cedo à atmosfera melancólica que predomina a narrativa através do visual opaco e da ausência da trilha sonora, nos permitindo acompanhar longas sequências silenciosas e angustiantes que refletem o estado de espírito de Blake, como quando ele assiste televisão caído no chão ou quando mergulha num lago solitário, acompanhado apenas pelo som diegético da cachoeira e, posteriormente, pelo barulho das chamas que ardem na fogueira que o aquece. Quando a trilha sonora de Rodrigo Lopresti finalmente surge, ela emula o som das badaladas do relógio da igreja que ouvíamos em cenas anteriores, anunciando o fim trágico que a narrativa alcançará (e que grande parte do público certamente já sabe antes mesmo do filme começar).

Responsável também pela montagem, Van Sant conduz a narrativa num ritmo propositalmente lento, refletindo a forte depressão que assola o protagonista. Esta sensação incômoda é reforçada também pelas paredes descascadas da casa, pelos objetos velhos e enferrujados como a geladeira (design de produção de Tim Grimes) e até mesmo pelas roupas sujas e sem vida que Blake usa. Os figurinos de Michelle Matland, aliás, são responsáveis por recriar a icônica imagem de Cobain através do visual que marcou o grunge, como a camisa listrada em vermelho e cinza, a calça jeans e os óculos amarelos que o protagonista usa em determinado instante.

Atmosfera melancólicaNo lago solitárioParedes descascadasA fotografia cinza de Harris Savides também contribui ao explorar os dias nublados e as noites escuras e mal iluminadas com competência, criando este visual melancólico que permanece até mesmo nas cenas em meio à natureza, através dos filtros que tiram parte do brilho de locais como o pântano e o lago em que Blake procura se refugiar quando recebe as visitas de Donovan (Ryan Orion). Além disso, nos instantes que precedem o suicídio a fotografia se torna ainda mais sombria, praticamente não permitindo que o espectador veja o caminho que Blake segue até sua casa.

Ocultar, aliás, também é uma estratégia visual do diretor. Evitando mostrar o rosto de Blake na maior parte do tempo e adotando planos distantes que quase sempre mostram as costas do personagem, Van Sant nos distancia daquele homem amargurado, como se não quisesse nos envolver ou criar empatia entre o protagonista e a plateia – algo que fica evidente no longo zoom out que nos afasta da casa enquanto Blake toca uma música. A estratégia é reforçada também pela composição de Michael Pitt, que murmura palavras incompreensíveis na maior parte do tempo devido à sua inflexão na voz, baseando sua atuação na expressão corporal, já que são raros os momentos em que podemos ver suas expressões faciais. Depressivo e constantemente apático, Blake mal sabe o que diz quando recebe a visita de um vendedor das páginas amarelas (Thadeus A. Thomas), falando coisas completamente sem sentido que evidenciam seu estado deplorável, comprovado na bizarra sequência em que ele veste uma roupa feminina e ouve músicas românticas encostado numa porta. É a decadência e o vazio dominando um astro recluso do rock após anos de sucesso, fama e muito dinheiro.

Mas mesmo lesado, balbuciando palavras e mal conseguindo se comunicar, Blake demonstra seu grande talento musical com o violão nas mãos e, ainda que seja difícil compreender o que ele canta, nós podemos sentir a emoção que flui daquela canção. É o talento sobrepondo pela última vez a doença que destruiu aquele homem. Por não ter acesso aos direitos autorais, jamais ouvimos qualquer canção do Nirvana em “Últimos Dais”, mas esta bela “Last Days” cantada por Blake num quarto escuro faz clara alusão ao estilo marcante de Kobain de cantar. Além disso, Van Sant inclui óbvias referências à Courtney Love ao mencionar a mulher distante da qual Blake sente falta e que ainda exerce forte influencia sobre ele. E os próprios créditos fazem questão de ressaltar a fonte de inspiração da narrativa.

Icônica imagem de CobainInstantes que precedem o suicídioGrande talento musicalCompondo outro plano distante que nos permite ver o jardineiro iniciando seu trabalho à direita e o corpo de Blake caído dentro da casa à esquerda, Van Sant anuncia de maneira respeitosa que seu protagonista está morto. Sem jamais julgar o personagem ou justificar seus atos, ele nos permite sentir o peso da depressão que o devasta, mas, por outro lado, nos distancia tanto do protagonista que nós praticamente não sentimos sua perda. Nós realmente nos importamos com sua morte (estou me referindo ao personagem e não ao ícone Kobain)? A resposta pode variar, e como atestado de qualidade narrativa isto não é um bom sinal.

Assim, “Últimos Dias” cumpre sua proposta e nos permite acompanhar os momentos finais de um ícone do rock, mas jamais permite um envolvimento maior do que este de espectador, nos afastando um pouco mais da narrativa do que eu pelo menos gostaria. Respeitar o ícone é bom, mas talvez Van Sant tenha exagerado. E olha que eu sou um grande fã do Nirvana.

Últimos Dias foto 2Texto publicado em 17 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

METALLICA: SOME KIND OF MONSTER (2004)

16 setembro, 2013

(Metallica: Some Kind of Monster)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #113

Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

Elenco: James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett, Bob Rock, Robert Trujillo, Jason Newsted, Dave Mustaine, Phil Towle, Eric Avery e Cliff Burnstein.

Produção: Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

Metallica Some kind of Monster[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Ao decidirem gravar o processo de criação de um álbum, os integrantes da lendária banda de heavy-metal Metallica mal sabiam que, na verdade, estariam registrando uma dolorosa fase de reconstrução. Esqueça tudo que você normalmente associa a documentários sobre músicos. Aqui não existe a trajetória para o sucesso, ao menos não da maneira tradicional. A própria música não está tão presente assim. Na realidade, o que temos em “Metallica: Some kind of Monster” é um registro corajoso e intenso do cotidiano repleto de conflitos da mítica banda, capaz de expor de maneira tão crua e intimista cada integrante que, em certos momentos, chegamos a nos questionar como eles permitiram que o projeto seguisse até o fim.

Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, que surgem em cena justamente no momento em que o vocalista James Hetfield questiona se ainda era viável seguir com as filmagens e escancara que o corajoso documentário também correu o risco de não existir, “Metallica: Some kind of Monster” tem inicio ainda em 2001, quando após a saída do baixista Jason Newsted, os integrantes remanescentes da banda começam a trabalhar no novo álbum que viria a se chamar St. Anger.

Agradando aos fãs com diversas imagens de arquivo de grandes shows do passado, os diretores Berlinger e Sinofsky trabalham na desconstrução dos músicos com destreza, num processo lento e complicado que leva a humanização de cada um deles ao mesmo tempo em que reforça o enorme talento que transformou o Metallica numa banda mítica. Contando com o visual seco, por vezes obscuro e pouco colorido da fotografia de Robert Richman, eles reforçam o aspecto documental do longa, amenizando sua atmosfera pesada periodicamente através da inserção de músicas – e, obviamente, a trilha sonora não poderia deixar de ser pesada e ótima, brindando o espectador (especialmente os fãs da banda) com alguns clássicos enquanto acompanhamos o surgimento das canções que fariam parte do novo álbum.

Crucial também é o trabalho dos montadores Doug Abel, M. Watanabe Milmore e David Zieff, que ficaram com a árdua tarefa de compilar o vasto material após anos de gravações sem permitir que o resultado final soasse confuso ou desinteressante – talvez a relação do baterista Lars Ulrich com seus quadros não fosse necessária, mas é um pecado menor. Assim, se sentimos o peso da narrativa em diversos momentos, isto não ocorre por uma eventual falta de ritmo dela e sim devido a enorme carga psicológica dos debates envolvendo aquele grupo de pessoas – e o fato de sabermos que aquilo é real e não parte de uma ficção torna tudo ainda mais interessante. Empregando uma narrativa não cronológica, Berlinger e Sinofsky praticamente jogam o espectador dentro daquele ambiente, nos aproximando da banda enquanto esta é submetida a uma curiosa sessão de terapia em conjunto.

Donos de personalidades fortíssimas, Lars e James monopolizam as discussões do grupo, travando embates recheados com tanta sinceridade que chegam a incomodar as pessoas ao redor. Durante boa parte da narrativa, nós praticamente podemos sentir a pressão de criar algo novo e com qualidade. Desde a primeira discussão em que James sai e bate à porta, o espectador já sente o clima pesado e a quase palpável tensão existente entre eles. Desta forma, os momentos mais suaves e otimistas como as reflexões de James sobre a vida sem drogas são raros, pois na maior parte do tempo o que temos são discussões ácidas entre os dois, como quando eles debatem sobre quem tem mais controle sobre a situação após James ser orientado pelo médico a trabalhar somente até às 16 horas – ele havia se internado numa clínica para tratar do alcoolismo. James, aliás, é claramente o mais instável emocionalmente entre eles, demonstrando dificuldade para superar o trauma provocado pela perda dos pais e a origem da raiva que, segundo ele próprio, foi canalizada em sua música.

Grandes shows do passadoVisual seco, por vezes obscuroLars e James monopolizam as discussõesA família também tem peso na formação da personalidade do outro grande líder da banda. Ainda que não deixe de demonstrar a afinidade existente entre eles, a relação direta e verdadeira de Lars com o pai diz muito sobre o seu comportamento. Tão egocêntrico quanto o vocalista, Lars Ulrich parece lutar constantemente contra seus sentimentos como forma de buscar manter o equilíbrio do conjunto, o que não o impede de expor seu ressentimento diante da falta de demonstração de afeto de James. Em certo momento, ele chega a analisar o vocalista psicologicamente, cogitando até mesmo a saída de Hetfield e o fim da banda – e o espectador realmente sente que o Metallica esteve mesmo perto do fim, já que até mesmo o produtor Bob Rock compartilha os questionamentos de Lars sobre o futuro da banda após o primeiro show da nova banda de Jason Newsted.

Ainda que não tenha o destaque de Lars e James, o guitarrista Kirk Hammett também tem o seu espaço na narrativa, surgindo como o integrante tranquilo que evita o conflito em diversos instantes, mas que por outro lado às vezes demonstra imaturidade ao tentar fugir dos problemas de maneira infantil. Além dele, o produtor Bob Rock confirma sua importância para a banda ao opinar quase sempre de maneira centrada sobre o que está acontecendo, assim como o psicanalista Phil Towle tem papel fundamental ao extrair sentimentos puros e verdadeiros de diversas formas e fazer com que eles superem problemas até então arraigados após anos de excessos regados a álcool, drogas e milhões de dólares na conta. Por outro lado, enquanto a forte participação de Newsted escancara a guerra de egos que domina a banda, o “quase” tocante desabafo de Dave Mustaine consegue a proeza de fazer até mesmo fãs fervorosos do Metallica se colocarem no lugar dele, evidenciando a mágoa que nem mesmo o sucesso do Megadeth conseguiu apagar. E finalmente, a aparição das esposas e dos filhos colabora no processo de humanização da banda.

Com tantas discussões, existem momentos em que fica evidente o quanto eles se sentem exaustos, às vezes devastados mesmo. Cientes disto, os diretores abusam de closes e planos fechados, criando uma sensação claustrofóbica que, além de destacar as expressões e os sentimentos de cada integrante, realçam também o incômodo da banda diante daquela situação. Como se buscasse exorcizar todos os demônios interiores, o documentário corajosamente aborda os temas mais espinhosos da carreira do Metallica, começando pela trágica morte de Cliff Burton, passando pela guerra contra a Napster e chegando à escolha do novo baixista Robert Trujillo, que acaba sendo um processo mais fácil do que pensávamos até então.

Guitarrista Kirk HammettProdutor Bob RockCloses e planos fechadosQuando Lars pergunta se não pode acelerar até os shows, fica claro que estar no palco é mesmo a parte do trabalho que eles mais gostam, por mais desgastante que a estrada possa ser. Assim, após acompanharmos o maçante processo de criação do álbum e as inúmeras discussões entre eles, nos sentimos aliviados quando ouvimos o som do público ansioso esperando pela apresentação ao vivo do Metallica; e a energia que emana do palco e da plateia quando os primeiros acordes entram em cena parece nos dizer que tudo aquilo valeu a pena.

É um alívio, portanto, que mesmo com egos tão inflados, James, Lars e Kirk tenham permitido que o público tivesse acesso a um material tão intimista, num processo de crescimento emocional que poderia até prejudicar a imagem deles diante de alguns fãs. O resultado é um documentário muito interessante, que nos permite acompanhar por mais de duas horas a faceta humana de cada integrante do Metallica durante o desgastante processo de criação de uma das maiores bandas da história não apenas do rock, mas da música de maneira geral.

Metallica Some kind of Monster foto 2Texto publicado em 16 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ESCOLA DE ROCK (2003)

14 setembro, 2013

(School of Rock)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #112

Dirigido por Richard Linklater.

Elenco: Jack Black, Joan Cusack, Joey Gaydos Jr., Robert Tsai, Angelo Massagli, Kevin Clark, Maryam Hassan, Caitlin Hale, Cole Hawkins, Brian Falduto, Mike White, Adam Pascal, Lucas Papaelias, Chris Stack, Sarah Silverman, Lucas Babin, Jordan-Claire Green e Miranda Cosgrove.

Roteiro: Mike White.

Produção: Scott Rudin.

Escola de Rock[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se para muita gente o rock n’ roll é sinônimo de diversão, “Escola de Rock” é certamente um dos filmes que conseguem captar esta essência com precisão, transmitindo para a plateia a energia de um verdadeiro show de rock através de sua narrativa ágil e de seus personagens extremamente carismáticos. Encabeçado pelo ótimo Jack Black, o longa dirigido pelo talentoso Richard Linklater é tão leve e despretensioso que nem parece que possui tantas qualidades, mas ao examiná-lo com paciência o espectador notará que sua aura envolvente é fruto do trabalho árduo de pessoas muito competentes.

Escrito especialmente para Jack Black por seu amigo Mike White, “Escola do Rock” começa quando Dewey Finn (Black) é expulso de sua banda devido ao seu comportamento polêmico e acaba sendo obrigado a procurar outro emprego. Assim, quando uma escola telefona procurando seu amigo Ned Schneebly (Mike White) no apartamento em que eles vivem junto com a namorada de Ned chamada Patty (Sarah Silverman), ele não hesita em aceitar o emprego no lugar dele, assumindo as aulas de uma rígida escola de ensino fundamental como professor substituto.

Diretor eficiente, Richard Linklater nos insere na atmosfera de “Escola de Rock” já durante a criativa apresentação dos créditos iniciais, quando um plano-sequência acompanhado pela música agitada ao fundo nos leva até o palco onde o personagem de Jack Black se apresenta sem sucesso. Empregando seus costumeiros elegantes movimentos de câmera, o diretor prende nossa atenção através de uma narrativa ágil que praticamente não nos permite notar o tempo passar, o que é mérito também do ritmo perfeito empregado pela montadora Sandra Adair, que mantém o foco nas divertidas aulas do professor, deixando as pequenas subtramas envolvendo a diretora da escola e os amigos de Dewey em segundo plano, além é claro de construir transições muito interessantes como quando saímos de Dewey caído no palco para ele deitado na cama logo no início.

Neste instante, muitas informações a respeito do personagem são passadas somente através do visual, com seu quarto repleto de LPs e CDs de rock, além dos pôsteres e faixas de bandas como “Black Sabbath” e “The Who” que surgem espalhados pelo apartamento (design de produção de Jeremy Conway). Observe ainda como as fortes cores que predominam no apartamento como preto, marrom e vermelho contrastam com a clara sala de aula, na qual predomina o branco e onde a luz consegue preencher o aconchegante ambiente com muito mais facilidade, o que obviamente é mérito do diretor de fotografia Rogier Stoffers. E finalmente, os uniformes sóbrios dos alunos em tons de azul e branco e as roupas engraçadas do protagonista criam um contraste evidente que, não à toa, só deixará de existir no ato final, quando o professor finalmente surgirá no palco vestido como eles (figurinos de Karen Patch).

Créditos iniciaisQuarto deleUniformes sóbriosRepleta de clássicos do rock que vão de AC/DC à Black Sabbath, a trilha sonora de Craig Wedren só poderia ser mesmo empolgante, incluindo ainda excelentes sacadas como a escolha da música “Substitute”, do “The Who”. Os fãs de rock vão vibrar também com as menções a gênios como Jimi Hendrix e Neil Peart nas lições de casa aplicadas pelo professor, que, além de engraçadas, são muito apropriadas para cada instrumentista.

Professor Dewey que é interpretado por um Jack Black solto e divertido, que se mostra muito a vontade num papel feito sob medida pra ele. Afinal, suas expressões marcantes e exageradas caem muito bem na pele do roqueiro improvisado como professor, responsável por muitos dos momentos hilários do longa, como quando ele aponta três dedos para Theo (Adam Pascal) e manda ele ler nas entrelinhas ou na empolgante primeira vez em que ele toca na sala de aula com os alunos e arranca os primeiros riffs de Zack (Joey Gaydos Jr.). No entanto, o engraçado Dewey demonstra também uma surpreendente capacidade de liderança ao dividir as tarefas entre os alunos, colocando cada um na função correta (e ajustando aqueles que se oferecem para outras áreas), num exemplo perfeito de motivação que orgulharia muitos palestrantes por aí. E o que dizer do ótimo momento em que Dewey hesita antes de cantar sua própria canção para os alunos, numa demonstração de falta de confiança graciosa e divertida?

Encarnando a diretora durona da escola, Joan Cusack tem ótimos momentos, como quando toma cerveja toda desajeitada num bar e em seguida curte a música que adora ao lado de Dewey ou quando desabafa no carro sobre o quanto a pressão do cargo mudou seu jeito de ser, além do engraçado instante em que ela revela aos pais que seus filhos sumiram – e graças a sua expressão realçada pelo close de Linklater, nós praticamente sentimos o desespero dela quando é pressionada pelos pais na escola. Por sua vez, o verdadeiro Ned Schneebly interpretado pelo roteirista Mike White é inerte, alguém totalmente passivo diante das ações de Dewey e da detestável namorada dele Patty, vivida por Sarah Silverman.

Ainda que quase todo o elenco adulto se saia bem, inegavelmente o grande mérito de Linklater está na direção do elenco mirim, que dá um verdadeiro show coletivo de talento e carisma através de personagens adoráveis como o tímido Zack vivido por Joey Gaydos Jr., os complexados Lawrence de Robert Tsai (“Não sou maneiro”, diz) e Tomika de Maryam Hassan (“Eles vão rir de mim porque sou gorda”), o descolado Freddy interpretado por Kevin Clark e que muda seu penteado para o estilo punk rock, além das adoráveis Marta (Caitlin Hale) e Michelle (Jordan-Claire Green), do inteligente Leonard (Cole Hawkins) e da determinada Summer (Miranda Cosgrove). No entanto, o grande destaque das atuações mirins fica mesmo para Brian Falduto, que cria um afeminado Billy com tanta perfeição e graça que fica impossível não rir em quase todas as vezes que ele aparece.

Expressões marcantesCurte a músicaElenco mirimCriando um pequeno conflito que serve para desmascarar Dewey e deixar a plateia aflita, o roteiro parte para a resolução do problema no empolgante clímax, quando os pais se apressam para chegar ao local do show e acompanham a sensacional apresentação dos filhos, captada com perfeição por Linklater. Com o auxilio de seu montador, ele transita num ritmo perfeito entre os vários integrantes da banda e a vibração da plateia, compondo uma apresentação belíssima e vibrante, fechando a ótima sequência com a polêmica votação e o público emocionado pedindo BIS. O final metalinguístico já na escola de rock oficial com Dewey falando diretamente com a plateia apenas fecha com chave de ouro este filme delicioso e empolgante.

Captando a essência do rock sob o filtro do olhar inocente das crianças, Richard Linklater realizou um filme memorável, que conta também com a estupenda atuação de Jack Black e do elenco infantil para se tornar ainda melhor. E assim como os pais dos alunos e a diretora da escola, você não precisa necessariamente ser roqueiro para se encantar com o desempenho deles.

Escola de Rock foto 2Texto publicado em 14 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

QUASE FAMOSOS (2000)

13 setembro, 2013

(Almost Famous)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #111

Dirigido por Cameron Crowe.

Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Philip Seymour Hoffman, Jason Lee, Zooey Deschanel, Michael Angarano, Anna Paquin, Fairuza Balk, Noah Taylor, John Fedevich, Jimmy Fallon e Rainn Wilson.

Roteiro: Cameron Crowe.

Produção: Ian Bryce e Cameron Crowe.

Quase Famosos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Precocemente convidado para escrever numa das revistas mais conceituadas do universo do rock, Cameron Crowe não demorou a estrear também no cinema, primeiro como roteirista do ótimo “Picardias Estudantis” e depois realizando entre outros filmes o bom “Jerry Maguire”. No entanto, seu grande momento atrás das câmeras foi mesmo em “Quase Famosos”, uma espécie de autobiografia nada disfarçada que narra de maneira apaixonada suas experiências nos bastidores do rock nos tempos de revista Rolling Stone.

Obviamente escrito pelo próprio Crowe, o roteiro de “Quase Famosos” narra a trajetória de William Miller (Patrick Fugit), um jovem de apenas 15 anos que é contratado pela revista Rolling Stone para escrever sobre a turnê da promissora banda Stillwater, mas, para o desespero de sua mãe (Frances McDormand), acaba envolvendo-se não apenas com os integrantes da banda, mas também com um universo de sexo, drogas e garotas ousadas, dentre as quais se destaca a bela Penny Lane (Kate Hudson).

Em certo momento de “Quase Famosos”, um personagem diz que “ser fã é amar tanto uma banda que chega a doer”, naquela que talvez seja a frase que, dentre os inúmeros bons diálogos do roteiro, melhor capte o espírito nostálgico do longa. Inspirado na própria trajetória que levou Crowe a ser precocemente contratado como crítico da famosa revista Rolling Stone e aproximar-se de bandas mitológicas como o Led Zeppelin (a favorita de Crowe), a narrativa comandada pelo diretor exala criatividade desde a apresentação dos créditos iniciais e demonstra não apenas sua paixão pela música, mas também por todo o universo que a cerca. E ainda que espalhe momentos cômicos por toda a narrativa, a abordagem de Crowe é na maior parte do tempo repleta de encanto.

Compensando o excesso de informações mastigadas através desta abordagem extremamente sensível, Crowe reverencia o rock na maior parte do tempo, seja através da excelente trilha sonora repleta de bandas do primeiro time como o próprio Zeppelin, The Who e Black Sabbath, seja na própria abordagem visual, começando pela fotografia de John Toll, que até utiliza cenas noturnas e ambientes fechados em muitos momentos para ilustrar a luta daquele grupo para sair das sombras e ganhar projeção, mas jamais deixa as cores tão marcantes naquela época de lado, conferindo um brilho especial às cenas diurnas e às muitas sequências nostálgicas embaladas por músicas (que lembram videoclipes e escancaram a origem do diretor), como por exemplo, quando Penny volta pra casa de avião enquanto William corre pelo aeroporto ou na belíssima cena em que todos cantam “Tiny Dancer” no ônibus, assim como na encantadora cena em que as garotas se juntam para tirar a virgindade de William.

Apresentação dos créditos iniciaisCenas noturnasTiny DancerAinda na parte técnica, enquanto a montagem de Joe Hutshing e Saar Klein confere um bom ritmo a narrativa, intercalando a turnê da banda com as cenas envolvendo a mãe de William, os editores da Rolling Stone e o crítico Lester Bangs interpretado por Philip Seymour Hoffman, os figurinos de Betsy Heimann e o design de produção de Clay A. Griffith, Clayton Hartley e Virginia L. Randolph nos transportam para a época da narrativa através das roupas coloridas e do próprio ônibus escolhido para acompanhar a turnê. Finalmente, o ótimo design de som cria o ambiente perfeito nos shows através das reações do público e dos diálogos entre os integrantes da banda, caprichando até mesmo nos pequenos detalhes, como quando ouvimos um diálogo no backstage e, ao fundo, o som do show do Black Sabbath.

No entanto, Crowe faz ainda mais bonito na direção de atores. Vivendo a mãe opressora que proíbe muitos prazeres da vida aos seus filhos, Frances McDormand evita que Elaine Miller se torne uma personagem detestável e unidimensional ao conferir humanidade a ela através da forma como se preocupa com o bem estar do filho e da empatia que cria com o jovem William. Equilibrando-se entre o rosto inocente e o sorriso carismático, o jovem Patrick Fugit tem sucesso na difícil tarefa de compor o tímido personagem central da narrativa, criando empatia com os integrantes da banda e, especialmente, com a bela Penny Lane – o momento em que o pequeno William volta para pegar a camiseta que causou uma briga na banda é muito divertido. Através da visão encantada dele, temos acesso aos bastidores do cotidiano de uma banda menor e somos levados pelas estradas na árdua busca por um lugar ao sol, por isso, a empatia entre o personagem e a plateia é essencial para o sucesso do longa.

Carismática, sensual e descolada, a Penny Lane de Kate Hudson é o elo entre o protagonista e a banda, funcionando como o alicerce daquela complexa cadeia – e não à toa, a ausência dela provoca turbulências ainda maiores entre os músicos. Compondo a personagem com sensibilidade, Hudson destaca-se na cena em que Penny sofre uma crise no quarto após ser desprezada pelo guitarrista Russel, o mais carismático integrante do Stillwater interpretado por Billy Crudup, que é também o pivô das constantes brigas motivadas pelos egos inflados dele e do vocalista Jeff Bebe, vivido por Jason Lee – um conflito muito comum nas bandas de rock, diga-se. Infelizmente, a forte influência de empresários também se tornou comum e “Quase Famosos” aborda o tema quando os integrantes da banda são convencidos a viajar de avião para fazer mais shows – algo que Crowe realça num plano no qual vemos o ônibus ficando para trás enquanto o avião decola ao fundo. Ironicamente, é durante uma tempestade que coloca em risco um voo da banda que eles aproveitam para lavar a roupa suja e escancarar seus problemas, o que não soluciona todos eles, mas ao menos faz com que a maioria dos músicos se sinta melhor.

Se preocupa com o bem estar do filhoRosto inocenteCarismática Penny LaneFechando o elenco, Philip Seymour Hoffman encarna bem o crítico alternativo que orienta o jovem William, destilando seu veneno contra tudo que lhe desagrada e revelando importantes informações a respeito da indústria da música. Seu apartamento bagunçado e cheio de LPs diz muito sobre ele, assim como as dicas que ele dá ao garoto, que terão reflexo no futuro, quando William sentirá na pele a dificuldade de criticar o trabalho da banda após fazer amizade com eles.

Viagem interessante pelos bastidores de uma banda de rock sob o olhar de um fã, “Quase Famosos” é uma verdadeira homenagem a este gênero que encanta gerações há décadas. Sem jamais soar ácido demais e sem por isso deixar de expor o universo polêmico no qual conviveu, Cameron Crowe realizou um ótimo trabalho, capaz de agradar roqueiros e cinéfilos com a mesma eficiência. E olha que estes dois grupos são muito exigentes – e eu faço parte de ambos!

Quase Famosos foto 2Texto publicado em 13 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

ALTA FIDELIDADE (2000)

12 setembro, 2013

(High Fidelity)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #110

Dirigido por Stephen Frears.

Elenco: John Cusack, Iben Hjejle, Todd Louiso, Jack Black, Lisa Bonet, Catherine Zeta-Jones, Joan Cusack, Tim Robbins, Chris Rehmann, Ben Carr, Lili Taylor, Natasha Gregson Wagner e Harold Ramis.

Roteiro: D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack e Scott Rosenberg, baseado em livro de Nick Hornby.

Produção: Tim Bevan e Rudd Simmons.

Alta Fidelidade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Amadurecer nunca foi fácil. Desde os primeiros momentos da vida em que somos obrigados a deixar fases deliciosas para trás e encarar novas e pesadas responsabilidades (como ir para a escola, por exemplo), o processo de amadurecimento do ser humano pode ser complicado e difícil dependendo da maneira como encaramos cada etapa. Pra piorar, os tempos modernos trouxeram tecnologias maravilhosas que, por outro lado, permitem que retornemos a este passado delicioso sempre que possível, seja jogando aquele videogame que amávamos, assistindo aquele seriado ou desenho ou até mesmo ouvindo as mesmas músicas de antes. Isto não é necessariamente algo ruim, mas pode tornar-se um problema sério quando esta facilidade nos impede de seguir adiante. E é justamente este o caso do protagonista deste ótimo “Alta Fidelidade”, um longa sensível a respeito da dificuldade de um homem de encarar as responsabilidades que surgem pela frente.

Escrito a oito mãos por D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack e Scott Rosenberg com base em livro homônimo de Nick Hornby, “Alta Fidelidade” narra o cotidiano de Rob Gordon (John Cusack), o dono de uma pequena loja de discos em Chicago que está se separando da namorada Laura (Iben Hjejle). Fanático por música, ele passa seus dias vendendo discos e discutindo o cenário musical com seus dois funcionários Dick (Todd Louiso) e Barry (Jack Black), mas o fim do relacionamento faz com que ele reflita sobre os inúmeros relacionamentos frustrados que teve na vida.

Repleto de diálogos interessantes como aquele em que Rob e Barry discutem os significados da palavra “ainda”, o roteiro de “Alta Fidelidade” traz pequenas joias como a pouco romântica, porém verdadeira proposta de casamento de Rob, que foge completamente dos clichês. Além disso, o texto parece um verdadeiro presente para os fãs da música, trazendo inúmeras referências a bandas famosas e outras desconhecidas do grande público, além das interessantes listas criadas pelos personagens (como sabemos, criar listas é uma brincadeira capaz de viciar nove entre dez fãs de música e de cinema também!), que estão espalhadas por toda a narrativa.

A criatividade não para por aí. Se num primeiro momento somos levados a enxergar Rob como uma vítima, nossa expectativa é completamente subvertida quando ele revela as quatro coisas ruins que fez para Laura, quebrando a imagem de pobre homem sofrido e dando os primeiros sinais do quanto ele fugia de um relacionamento sério – algo que sua mãe já havia indicado antes numa conversa telefônica. Em seguida, as explicações dele para cada acontecimento escancaram seus medos e angustias, tornando o personagem mais humano diante dos nossos olhos, ainda que não justifique suas ações.

Prendendo a atenção do espectador através do carisma dos personagens, o diretor Stephen Frears e seu montador Mick Audsley saltam no tempo sempre num ritmo ágil e sem jamais tornar a trama confusa, apostando nos flashbacks que trazem as fracassadas experiências amorosas do protagonista e ousando quebrar a quarta parede praticamente o filme inteiro ao permitir que o protagonista fale diretamente com o expectador, o que, auxiliado pelo carisma de Cusack e pelos closes e planos fechados de Frears que acompanham Rob constantemente, ajuda a criar empatia entre o personagem e a plateia.

Até mesmo os aspectos técnicos são usados para externar os sentimentos do protagonista. Deixando as janelas quase sempre fechadas ou apenas parcialmente abertas, o diretor de fotografia Seamus McGarvey cria um visual sombrio que, reforçado pelas cores sem vida que decoram o apartamento dele, conferem um ar de esconderijo ao local – afinal, é ali que Rob se esconde do mundo adulto ao seu redor, com seus LPs dispostos em ordem alfabética no apartamento e seus pôsteres de bandas na parede (design de produção de David Chapman e Therese Deprez). Finalmente, a trilha sonora recheada de canções maravilhosas de Howard Shore acerta ao retratar os diversos sentimentos conflitantes do protagonista, saltando de músicas empolgantes para baladas intimistas com facilidade.

Num papel difícil e crucial para o sucesso do longa, Cusack está muito bem, carregando a narrativa com facilidade e muita desenvoltura. Com sua expressão de derrotado e seu comportamento quase recluso, Rob é alguém difícil de lidar, escondendo-se atrás do humor autodepreciativo como forma de evitar falar abertamente sobre sua falta de coragem para encarar um relacionamento com seriedade. Se suas mudanças de penteado e no estilo das roupas são notáveis ao longo das experiências amorosas (figurinos de Laura Bauer), seu comportamento praticamente mantém-se o mesmo, o que o leva a acreditar que todos seus relacionamentos são apenas versões distorcidas do primeiro. Obcecado por explicações, Rob torna-se quase paranoico enquanto busca superar o fim de suas relações amorosas, sem perceber que os relacionamentos em si são também a razão de sua paranoia, já que ele não suporta a ideia de manter um compromisso duradouro com alguém.

Janelas parcialmente abertasExpressão de derrotadoMudanças de penteadoA gama de personagens interessantes e verdadeiros, porém, não se restringe ao protagonista. Sempre reservada e centrada, Laura surge como um verdadeiro porto seguro para aquele homem, soando quase sempre como adulta diante daquele homem tão juvenil – e neste sentido, as expressões sérias e o tom de voz controlado da atriz Iben Hjejle são essenciais para a construção desta imagem. E enquanto Todd Louiso se sai bem como o tímido e antissocial Dick, falando com dificuldades e evitando olhar diretamente para as pessoas, Jack Black diverte-se como o vendedor de discos fanático por música que quase rouba a cena sempre que aparece, ainda que abuse do overacting em alguns momentos. Saindo-se muito bem na maior parte do tempo, Black demonstra desenvoltura também no palco, quando seu Barry finalmente demonstra que também pode ser um pouco eclético.

Além da sempre engraçada e espalhafatosa Liz de Joan Cusack, vale citar também as participações de Catherine Zeta-Jones, que demonstra sua forte presença na pele de Charlie; Bruce Springsteen, que aparece rapidamente durante um pensamento de Rob; e Tim Robbins, que em pouco tempo consegue fazer seu Ian Ray ser ao mesmo tempo educado e irônico. Além disso, Robbins participa da cena mais engraçada do filme, na qual acompanhamos os desfechos imaginados por Rob para o fim de uma conversa com Ray.

Reservada e centrada LauraVendedor de discos fanáticoEducado e irônicoVerdadeira declaração de amor pela música, “Alta Fidelidade” é acima de tudo um estudo sobre um homem com enorme dificuldade de encarar o amadurecimento que todos nós temos que passar um dia. E por mais que continuemos amando nossos discos da adolescência (ok, nossos CDs ou compilações em mp3), é bem mais fácil quando sabemos encarar o momento de deixar a rebeldia adolescente para trás e dar novos passos adiante na longa e árdua caminhada da vida adulta.

Alta Fidelidade foto 2Texto publicado em 12 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira