FORREST GUMP – O CONTADOR DE HISTÓRIAS (1994)

(Forrest Gump)

 

Videoteca do Beto #103

Vencedores do Oscar #1994

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Haley Joel Osment, Mykelti Williamson e Michael Conner Humphreys.

Roteiro: Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom.

Produção: Wendy Finerman, Steve Starkey e Steve Tisch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mundo não vivia um bom momento em 1994. Diante de uma recessão econômica global, provocada pela crise mexicana, e da explosão da preocupação com o meio ambiente, era difícil ter fé no futuro da humanidade. Além disso, um ano antes, o sombrio “A Lista de Schindler” tornou-se sucesso mundial ao relembrar um período negro de nossa história, reforçando a aura pessimista que dominava o público. Em meio a este cenário pessimista surgia “Forrest Gump”, que contrariava o sentimento geral e contava, com muita sensibilidade, uma história humana e positiva, estrelada pelo astro norte-americano do momento, o amado Tom Hanks. Não à toa, o filme tornou-se um mega sucesso e abocanhou (injustamente) os principais prêmios Oscar num ano extremamente competitivo e repleto de obras marcantes.

Com um QI inferior ao normalmente aceito nas escolas, o jovem Forrest Gump (Tom Hanks) é criado com carinho por sua mãe (Sally Field), que luta para conseguir lhe dar as mesmas condições de estudo que as outras crianças. Na escola, ele conhece Jenny (Robin Wright), uma jovem que cruzará seu caminho por muitos anos de sua vida, assim como Forrest participará, ainda que por acaso, dos fatos mais importantes da história recente dos Estados Unidos.

Desde seu início elegante, quando a câmera acompanha uma pena voando até os pés do protagonista, “Forrest Gump” é um filme belíssimo. E esta beleza, em grande parte, é mérito do inventivo Robert Zemeckis, que emprega movimentos de câmera estilizados e aproveita a oportunidade para criar planos marcantes, como aquele em que Forrest e Jenny estão sentados de mãos dadas numa árvore com o pôr-do-sol ao fundo ou o travelling que nos leva das crianças rezando no milharal para os pássaros que voam dali, numa ilustração do desejo de Jenny de fugir do pai. Em outros momentos, o diretor usa a câmera para destacar o semblante do protagonista enquanto ele se concentra nas lembranças do passado, como quando um zoom nos aproxima dele antes do primeiro flashback, que conta o episódio dos “sapatos mágicos” – na realidade, um curioso eufemismo para as pernas mecânicas do garoto. Zemeckis cria ainda lindos planos enquanto Forrest atravessa o país em sua corrida seguido por diversas pessoas que o admiram, além de conduzir muito bem cenas emocionantes, como aquela em que Forrest tenta discursar para os hippies e reencontra Jenny (num plano geral belíssimo).

Além da direção eficiente de Zemeckis, a montagem de Arthur Schmidt é um capitulo a parte e merece muitos elogios. Em primeiro lugar, porque a narrativa cobre muitos anos de maneira eficiente e jamais cansativa, intercalando os flashbacks com o presente num ritmo delicioso. Além disso, Schmidt faz a transição no tempo de maneira eficaz, como quando Forrest e Jenny, ainda crianças, estão juntos na cama e, em seguida, estão indo para a escola, já adultos – e aqui também acontecerá uma interessante rima narrativa, quando Jenny pede para Forrest correr dos vizinhos. A montagem faz ainda interessantes transições de Forrest para Jenny e vice-versa, por exemplo, através da televisão que eles assistem ou da lua. Finalmente, a passagem do tempo também é indicada no presente, através das pessoas que ouvem a história do protagonista, que mudam ao longo da narrativa enquanto Forrest continua contando sua vida.

Escrito por Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom, o roteiro de “Forrest Gump” balanceia o tom leve e cômico com momentos dramáticos, espalhando ainda frases marcantes como “A vida parece uma caixa de bombons, nunca se sabe o que vamos encontrar” e o grito desesperado de Jenny: “Corra, Forrest, Corra!”. Além das frases marcantes, o roteiro cruza de maneira eficiente a história de Forrest Gump com momentos históricos dos EUA, como quando ele ensina alguns passos para Elvis, se torna destaque de um time de futebol americano, conversa com John Lennon, inventa slogans (“Shit happens”), compra ações da “empresa de fruta” Apple, entre outras coisas.

O tom leve da narrativa é reforçado ainda pela fotografia de Don Burgess, que emprega cores vivas e muitas cenas diurnas na maior parte do tempo. Por outro lado, os momentos difíceis de Forrest são normalmente pontuados pela chuva, como quando ele chega ao exército ou quando surpreende Jenny transando com outro num carro, numa estratégia visual inteligente por parte de Burgess e Zemeckis, pois a chuva sempre realça a melancolia dos personagens. Da mesma maneira, quando Forrest sente falta da mãe e de Jenny no exército, as sombras que predominam na tela ilustram o momento triste do personagem. Mas a melancolia tem pouco espaço em “Forrest Gump”, o que é refletido até mesmo na bela trilha sonora de Alan Silvestri, recheada de clássicos do rock de cada período em que a história se passa (que servem ainda para ilustrar a passagem do tempo), alternados com a triste e linda música tema. Além disso, Silvestri pontua muito bem as cenas, como quando Forrest começa a correr e larga a perna mecânica para trás, acompanhado pela trilha triunfal. Quem também merece destaque é o bom trabalho de design de som e efeitos sonoros, que se destaca especialmente na guerra, e os excelentes efeitos visuais da Industrial Light & Magic, que, por exemplo, amputam as pernas do tenente Dan (Gary Sinise) com perfeição – observe a cena em que ele se movimenta em cima de um muro antes de pular na água e sair nadando -, além de inserir com realismo o protagonista em vídeos reais e históricos de arquivos, colocando Forrest ao lado de alguns ex-presidentes dos EUA, como John Kennedy, e de astros como John Lennon. E além de misturar ficção e realidade com competência, “Forrest Gump” faz ainda diversas menções a grandes filmes norte-americanos como “Nascido para Matar” (na chegada ao exército, com o tenente gritando), “Apocalypse Now” (na chegada ao Vietnã, com a trilha psicodélica, as cervejas espalhadas pelo acampamento e o sol brilhando ao fundo) e “Perdidos na Noite” (quando Forrest sai com Dan pelas ruas e um carro quase os atropela, provocando a reação do tenente, que grita “Estou andando aqui!”, com a trilha do clássico estrelado por Dustin Hoffman e Jon Voight ao fundo), além de inserir imagens de “O Nascimento de uma Nação” quando Forrest cita a Klu Klux Klan.

Pra completar, praticamente todas as atuações de “Forrest Gump” são excelentes, a começar por Michael Conner Humphreys, que interpreta muito bem o jovem Forrest Gump, transmitindo a dificuldade do garoto de se relacionar socialmente através do olhar perdido e da movimentação lenta. Já adulto, Gump é interpretado pelo excepcional Tom Hanks, numa atuação marcante, notável através da entonação de sua voz, que prende nossa atenção enquanto conta as histórias, do olhar distante e da simplicidade com que compõe um personagem marcante e belo. Repare, por exemplo, como Hanks olha para o lado, ofegante e assustado, quando Jenny tira o sutiã, demonstrando o incomodo do personagem com aquela situação inusitada pra ele. Inocente, Forrest não percebe os abusos do pai de Jenny na infância (“Ele era um pai carinhoso, vivia tocando e beijando as filhas”, diz) e nem o cruel destino da garota, afirmando que ela realizou seu sonho ao vê-la cantando no palco de uma boate. Por outro lado, Forrest apresenta uma capacidade de concentração incrível que lhe permite, por exemplo, montar e desmontar uma arma com enorme velocidade e jogar pingue-pongue com incrível habilidade. Hanks demonstra muito bem todos estes aspectos fascinantes de um protagonista que enxerga o mundo da sua maneira singela e inocente, emocionando a platéia quando Forrest pergunta para Jenny se seu filho (Haley Joel Osment) é esperto e, principalmente, quando conversa com o túmulo da esposa. E até mesmo as cores leves de suas roupas (figurinos de Joanna Johnston) e a clareza de sua casa (direção de arte de Leslie McDonald e William James Teegarden) ilustram a pureza de sua alma.

Além do excelente protagonista, “Forrest Gump” conta ainda com uma gama interessante de personagens coadjuvantes, como o divertido Bubba (Mykelti Williamson), que morre na guerra, mas vive uma amizade tão verdadeira com Forrest que é homenageado por ele através da “Cia. de Camarões Bubba Gump”. Na chegada de Forrest ao exército, é ele quem cede lugar para Gump no ônibus, assim como Jenny havia feito na infância no ônibus escolar, em outra elegante rima narrativa. Interpretada com carisma por Robin Wright, Jenny gosta de Forrest e se preocupa com ele, como deixa claro quando se despede numa ponte antes dele partir pra guerra, pedindo que ele corra sempre que estiver em perigo. Mas o destino foi cruel com a garota e os traumas da infância ainda pesavam em sua vida, algo que fica evidente quando ela joga pedras na casa do pai. E é tocante o momento em que Jenny anuncia ter um vírus que “os médicos não conhecem bem”, provavelmente se referindo à AIDS (na época, um mistério para a medicina). Quem também tem uma grande atuação é Gary Sinise na pele do revoltado tenente Dan, que, após ter as pernas amputadas, se revolta contra Deus. Observe como o ator soa convincente, por exemplo, quando reclama na cama do hospital e, principalmente, quando desafia o todo Poderoso em alto-mar. Fechando os destaques do elenco, vale citar ainda a envelhecida Sally Field, que se sai muito bem na pele da batalhadora mãe de Forrest, especialmente na cena em que se despede do filho, momentos antes de morrer. E se a maquiagem acerta no envelhecimento de Field, erra ao não envelhecer Forrest ao longo dos anos, mas esta é uma falha insignificante num filme tão belo.

Após cruzar toda a história norte-americana recente, Forrest Gump se vê novamente esperando o ônibus escolar numa pequena cidade do interior, desta vez para que seu filho possa ir à escola. E quando o garoto entra no ônibus, deixando claro sua esperteza diante dos olhos do pai e do espectador, a pena voa novamente e encerra o filme. Durante mais de duas horas, fomos levados por uma história bela, empolgante e repleta de significados, e quando os créditos surgem na tela, sentimos que a viagem valeu à pena.

“Forrest Gump” é uma bela fábula da história recente dos Estados Unidos, que conta com um otimismo raro em grandes filmes, sustentado pela direção eficiente de Robert Zemeckis e pela grande atuação de Tom Hanks. A vida pode ser trágica e pode ser bela, dependendo da forma como encaramos cada etapa de nossa jornada. Incapaz de olhar o mundo com nosso costumeiro cinismo, o inocente Gump certamente levará ótimas lembranças da vida.

Texto publicado em 11 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

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25 Respostas to “FORREST GUMP – O CONTADOR DE HISTÓRIAS (1994)”

  1. Tavares Says:

    Uma coisa que não entendi muito bem (precisando rever o filme) é o filho de Forrest. É dele com a Jenny?

  2. rauny moreira Says:

    Concordo Roberto, um sonho de liberdade e melhor, mas forrest gump tambem teve seus meritos e mereceu, um abraco

    • Roberto Siqueira Says:

      Gosto muito de ambos, mas prefiro “Um Sonho de Liberdade” por diversas razões.
      Abraço.

    • Ana Paula Says:

      Um filme lindo,que mostra que com pequenas coisas,e pequenos detalhes podemos fazer de uma vida comum…uma vida espetacular!

  3. francisco Says:

    Eta filme difícil de comentar heim roberto, mas vc conseguiu com louvor. Eu só posso dizer que mais essa parceria entre Zemeckis e Hanks só podia resultar neste trabalho simplesmente maior que a vida. E tem tanta coisa boa nesta obra que vou precisar assistir mais vêzes para apreciar e desfrutar melhor , mas de antemão não dá pra deixar de destacar a trilha sonora (desfile de clássicos maravilhosos e com tão genial efeito narrativo, como vc se lembrou muito bem) e o trabalho desse colecionador de oscar e de grandes interpretações que é sem dúvida um dos grandes atores da história do cinema. Acho até que sem ele não haveria Forrest Gump, a não ser que o filme tivesse sido feito hà uns vinte anos antes com o extraordinário Dustin Hoffmann…Um abraço e obrigado !

  4. cross98 Says:

    Vamos falar a verdade , não teve ano melhor que 1994. Nesse filme tem a melhor frase ja dita em um filme. Corre Forrest, corre

    • Roberto Siqueira Says:

      Acho que 1995 e 1999 foram melhores que 1994 nesta excelente década Mateus. Mas 1994 foi um ano espetacular mesmo.
      Abraço.

    • cross98 Says:

      Forrest Gump, Um Sonho de Liberdade e Pulp Fiction: Obra-Prima
      Coração Valente, Despedida em Las Vegas e Antes do Amanhecer: Obra Prima
      Beleza Americana, Magnólia e Clube da Luta : Obra Prima

      A Melhor decada de todas (na minha opnião)

    • Roberto Siqueira Says:

      Não acho a melhor década de todas, mas certamente foi uma década rica.
      Abraço.

    • cross98 Says:

      pergunta: qual vc prefere, FG ou Pulp Fiction?

    • Roberto Siqueira Says:

      Os dois são ótimos, mas se tiver que escolher, prefiro Pulp Fiction.
      Abraço.

  5. cross98 Says:

    O mundo é cruel , esse filme é o melhor pra mim , junto com a Laranja Mecanica. Eu tenho UM Sonho De Liberdade ( ja falei que pra mim é inferior ao FG , mas não deixa de ser um filme que ta no meu top 5 com facilidade) e nao tenho Forrest Gump. Vale a pena comprar os filmes na internet ou é melhor na cidade mesmo , pois aqui na minha ta muito caro ele , ta 30 reais , e nao gasto tanto dinheiro assim com um filme , na net eu compro ele e a Lista de Schindler por 40 , é seguro ou não?

  6. Cross98 Says:

    iai roberto , sou eu de novo , massinha, o melhor 4ever , to doido pra proxima analise

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  8. Tsu Says:

    Seu blog é excelente, sua forma de escrever é ótima e pela minha rápida olhada notei que aborda muitos filmes que eu adoro! Dando destaque para o avatar com o olho de Alex de Large.

    Tenho um blog onde faço artigos de filmes, animes e etc e gostaria de trocar idéias se possível.

    abs
    http://ww.empadinhafrita.blogspot.com

  9. Helena Says:

    Você tem razão, não me lembrava mais que foi neste ano que “Um sonho de liberdade” foi preterito, torci muito pela vitória dele também, mas a Academia teve ter tido suas razões para ter preferido “Forrest Gump” que também tem méritos de sobra.

    • Roberto Siqueira Says:

      Tem muitos méritos sim Helena. E é compreensível, pois é um filme alegre, que joga o espectador pra cima, algo que naquela época era mais que necessário diante do cenário mundial.
      Mas meu voto seria mesmo para “Um Sonho de Liberdade”.
      Abraço.

  10. Helena Says:

    Beto:
    Como sempre sua crítica é impecável, analisando todos os aspectos deste belo filme.
    Só gostaria que você esclarecesse um ponto porque achou (injusta) as premiações da Academia para este filme.
    Um abraço.

    • Roberto Siqueira Says:

      Oi Helena,
      Agradeço pelo elogio.
      Achei injusta a premiação de “Melhor Filme” porque prefiro “Um Sonho de Liberdade”, apenas isto. Mas adoro o filme!
      Abraço.

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