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007 OS DIAMANTES SÃO ETERNOS (1971)

20 maio, 2014

(Diamonds Are Forever)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #197

Dirigido por Guy Hamilton.

Elenco: Sean Connery, Jill St. John, Charles Gray, Bruce Cabot, Putter Smith, Norman Burton, Lana Wood, Desmond Llewelyn, Bernard Lee, Bruce Glover, Lois Maxwell e Leonard Barr.

Roteiro: Tom Mankiewicz e Richard Maibaum, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Os Diamantes são eternos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Conhecido por marcar a despedida de Sean Connery da série 007 (na verdade, ele ainda voltaria em “007 – Nunca mais outra vez”, mas esta é uma refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica” e não é considerado um filme oficial da série), “007 Os Diamantes são eternos” marca também a volta de Guy Hamilton, diretor de “007 Contra Goldfinger”, o melhor filme da franquia até então. Partindo de uma premissa interessante e contando com um primeiro ato promissor, o longa caminha bem até próximo de seu ato final, quando infelizmente não consegue sustentar o ótimo ritmo imprimido até ali.

Adaptado para o cinema por Tom Mankiewicz e Richard Maibaum com base em romance de Ian Fleming, “007 Os Diamantes são eternos” tem início quando o governo britânico decide enviar James Bond (Sean Connery) atrás de um suspeito de contrabandear diamantes da África do Sul para a Europa e os EUA. Com a ajuda da intermediadora Tiffany Case (Jill St. John), ele viaja para Los Angeles e acaba descobrindo que os diamantes na verdade iriam parar nas mãos de seu grande inimigo Blofeld (Charles Gray) como parte de um plano que poderia destruir grandes cidades em todo o mundo.

Para tentar repetir o sucesso de “007 Contra Goldfinger”, Guy Hamilton resolveu convocar boa parte da equipe técnica responsável por aquele e alguns outros filmes da série. Assim, além da volta de Sean Connery e do ator Charles Gray, que havia chamado a atenção em sua rápida participação como Henderson em “Com 007 só se vive duas vezes”, voltaram também o diretor de fotografia Ted Moore, o designer de produção Ken Adam e o roteirista Richard Maibaum, agora auxiliado por Tom Mankiewicz, estreante que viria a escrever o roteiro de outros filmes da franquia.

Continuando o tour da série pelo mundo, Amsterdam e Las Vegas foram as locações escolhidas desta vez, com a primeira se destacando pelos charmosos canais captados com eficiência pela câmera de Hamilton e de seu diretor de fotografia, enquanto a segunda ganha um visual colorido reforçado pelos fortes raios solares da Califórnia, que criam um contraste com as sequências que se passam em ambientes fechados e, especialmente, com o visual sombrio do deserto californiano no assassinato do dentista que introduz os assassinos comandados por Blofeld.

Quem também voltou foi o vozeirão de Shirley Bassey, responsável pela bela música tema “Diamonds are forever”, que inspirou as variações da trilha sonora de John Barry. Utilizando o tema clássico pontualmente como de costume, Barry erra apenas na composição pouco inspirada nas cenas de ação, como na terrível trilha que embala a fuga de Bond da Willard White a bordo de um carro lunar, que por sua vez é uma cena tão absurda que chega a ser divertida, assim como ocorre na perseguição de carros à noite em que Bond despista os inimigos. Esta diversão, no entanto, deve-se muito mais à forma como Hamilton conduz a cena e, principalmente, à maneira debochada que Connery as encara do que propriamente ao roteiro.

O trabalho da dupla de roteiristas até que começa bem, construindo uma trama envolvente que aborda questões interessantes como o tráfico internacional de diamantes, mas se perde ao longo da narrativa, especialmente naquilo que é o principal num filme de 007, ou seja, a construção de cenas de ação realmente empolgantes. Por sua vez, Guy Hamilton e seus montadores Bert Bates e John W. Holmes imprimem um ritmo muito interessante nesta primeira parte do longa, que acompanha a inventiva forma de contrabando dos diamantes, mas falham por também não conseguirem melhorar o ato final, carente de momentos de maior impacto.

Assassinato do dentistaCarro lunarCharme e autoconfiançaJá na direção de atores, Hamilton se sai novamente bem, extraindo atuações carismáticas de boa parte do elenco. Em sua despedida da série, Sean Connery volta para trazer o charme e a autoconfiança que tanto caracterizam seu James Bond, pronunciando logo em sua primeira aparição a famosa frase “Bond. James Bond”, assim como acontece no primeiro filme da série – e é interessante observar a rápida menção as férias do personagem na conversa com “M” (Bernard Lee), numa elegante referência ao longa anterior que demonstra respeito pelo trabalho realizado. Novamente demonstrando indiferença diante do perigo e muita astúcia para enfrentar os problemas, Bond protagoniza ótimos momentos como a sufocante luta num elevador em Amsterdam e a tensa sequência em que é colocado num caixão que será cremado – e em ambas, acreditamos no esforço e na dor do personagem graças ao bom desempenho de Connery.

Escolhidas para viverem as bondgirls da vez, Lana Wood tem uma rápida participação como a sexy Plenty (e Bond faz uma piada impagável com o nome da moça), enquanto Jill St. John inicialmente compõe Tiffany como uma mulher sensual e esperta que não será facilmente enganada por James Bond, mas acaba perdendo força ao longo da narrativa, muito mais por culpa do roteiro do que por demérito da atriz, que encerra sua participação de maneira melancólica ao apoiar-se apenas no forte apelo sexual das roupas que é obrigada a usar no ato final (figurinos de Don Feld).

Sexy PlentyForte apelo sexualDivertido vilãoJá Charles Gray percorre o caminho inverso na pele de Blofeld. Inicialmente parecendo frágil ao ser derrotado com facilidade por Bond, o divertido vilão surpreendentemente retorna com força total durante a narrativa, protagonizando ótimos momentos até que seja novamente derrotado pelo agente secreto. E é justamente na visível queda de ritmo da segunda metade da narrativa que reside o maior escorregão de “007 Os Diamantes são eternos”, confirmada no fraco desfecho que, além de enfraquecer seu ótimo vilão, ainda está muito aquém da empolgante primeira metade do longa, dando a sensação de que tudo é resolvido de qualquer jeito e sem o mesmo cuidado demonstrando na engenhosa construção inicial da trama. Em questão de minutos, Bond descobre o paradeiro de Blofeld, invade o local e consegue impedir a destruição imaginada por ele, que pouco consegue fazer mesmo com tamanho poderio a seu favor.

Claramente dividido em duas partes distintas, “007 Os Diamantes são eternos” define muito bem a fase da franquia 007 estrelada por Sean Connery. É irregular, porém divertido.

007 Os Diamantes são eternos foto 2Texto publicado em 20 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES (1967)

16 maio, 2014

(You Only Live Twice)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #195

Dirigido por Lewis Gilbert.

Elenco: Sean Connery, Teru Shimada, Tetsuro Tamba, Mie Hama, Akiko Wakabayashi, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Donald Pleasence, Karin Dor, Bernard Lee, Charles Gray e Tsai Chin.

Roteiro: Roald Dahl, baseado em material de Harold Jack Bloom inspirado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

Com 007 só se vive duas vezes[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após derrubar consideravelmente o nível de qualidade da franquia com o fraco “007 Contra a Chantagem Atômica”, o lendário agente secreto James Bond estava de volta ao cinema neste “Com 007 só se vive duas vezes”, longa dirigido por Lewis Gilbert que, com personagens mais interessantes e uma narrativa envolvente, felizmente recuperou o fôlego perdido.

Desta vez, coube a Roald Dahl a tarefa de adaptar o material de Harold Jack Bloom inspirado em romance de Ian Fleming, no qual acompanhamos James Bond (Sean Connery) sendo enviado para Tóquio a fim de descobrir a razão do desaparecimento de uma espaçonave norte-americana, que supostamente teria sido atacada pelos russos. Após a esperada retaliação russa, Bond e seu novo parceiro Tanaka (Tetsuro Tamba) percebem que tem pouco tempo para desvendar o caso e evitar a Terceira Guerra Mundial.

Criando uma narrativa envolvente deste o intrigante início no espaço, “Com 007 só se vive duas vezes” rapidamente fisga a atenção do espectador através da armação envolvendo a morte de James Bond e o misterioso sumiço da espaçonave que cria um clima político instável entre as duas potências mundiais da época. Além de utilizar muito bem a guerra fria como pano de fundo para construir um ótimo filme de ação, o diretor Lewis Gilbert acerta ainda ao equilibrar com precisão momentos de tensão, como a tensa sequência em que Bond rouba informações do cofre da Osato, e instantes bem humorados, como a divertida apresentação dos ninjas modernos, que numa sacada interessante do roteiro de Dahl surgem praticando com armas de fogo.

Transportando a ação para oriente, a fotografia de Freddie Young apresenta Hong Kong e especialmente Tóquio como metrópoles grandiosas, criando um visual inicialmente obscuro que reflete o processo de compreensão de Bond sobre o que estava acontecendo ali. Na medida em que o agente vai se interando dos fatos, o visual progressivamente se torna mais claro, abrindo espaço para cenas coloridas banhadas pela luz do dia, como no belo plano geral que acompanha Bond enfrentando diversos japoneses no porto de Kobe. Já no terceiro ato, o visual volta a ser tomado pelas sombras, o que serve para ampliar a escala de tensão que acompanha toda a sequência ocorrida dentro da imponente caverna concebida pelo design de produção de Ken Adam, que impressiona pela engenhosa estrutura construída sob a superfície de um vulcão.

Metrópoles grandiosasBond enfrenta diversos japoneses no porto de KobeImponente cavernaEnquanto isto, a trilha sonora de John Barry também é claramente mais inspirada que a anterior, especialmente na composição angustiante que acompanha os ataques da misteriosa nave no espaço e na utilização pontual e certeira do tema clássico de 007, como ocorre na empolgante perseguição de helicópteros, criando ainda variações da bela “You only live twice”, de Nancy Sinatra, que surgem ao longo da narrativa.

E já que mencionei os helicópteros, vale citar o criativo Nellie construído por “Q” (Desmond Llewelyn), que protagoniza uma das grandes cenas de “Com 007 só se vive duas vezes”. Indicando a aproximação dos inimigos através das sombras na superfície de um vulcão, Lewis Gilbert conduz a ótima sequência de maneira empolgante, auxiliado pela montagem dinâmica de Peter Hunt e pela clássica trilha sonora. Com a rápida transição entre planos subjetivos e outros que mostram a posição dos helicópteros, o diretor nos coloca no meio da ação sem jamais tornar a cena confusa, fazendo com que o espectador se sinta como o próprio 007 por alguns instantes.

Vivido por Sean Connery com mais seriedade do que no longa anterior, James Bond volta a apresentar características marcantes como o gosto refinado (ele não resiste a um bom champanhe Dom Perignon mesmo em território inimigo, por exemplo) e a incapacidade de resistir às mulheres, ainda que isto não tenha faltado em “007 Contra a Chantagem Atômica”. Mantendo o charme nos sempre interessantes diálogos com a simpática Moneypenny (Lois Maxwell), o agente continua perspicaz e sempre pronto para um bom confronto físico, como na feroz luta entre ele e um segurança da Osato, dotada de um realismo inédito na franquia até então. Mais difícil ainda é conter o impulso diante do sexo oposto, o que faz com que Bond revele até mais do que poderia no sensual “encontro” com Helga Brandt, a secretária de Osato vivida por Karin Dor que desiste de torturar o agente secreto para beijá-lo, mas em seguida tenta assassiná-lo ao abandonar o avião que pilotava.

Numa rápida participação, Charles Gray transforma Henderson num personagem intrigante através da fala mansa e da postura confiante, mas acaba friamente assassinado dentro da sua própria casa totalmente decorada no estilo oriental. Também carismática é a atuação de Tetsuro Tamba como Tanaka, o parceiro da vez que ajuda Bond a desvendar o caso e derrotar o grande vilão. Já Akiko Wakabayashi compõe Aki como uma jovem simultaneamente independente e delicada, criando boa empatia com o protagonista até morrer de forma melancólica na tensa e triste sequência em que é envenenada, conduzida lentamente pelo diretor.E finalmente, Mie Hama interpreta Kissy, a esposa de fachada de Bond que ajudará o agente no momento chave da narrativa. No entanto, infelizmente a longa cena do casamento deles parece fora de contexto e quebra momentaneamente o bom ritmo da narrativa, numa falha que poderia ser corrigida na sala de montagem, mas que ao menos é amenizada logo em seguida quando o longa retoma seu ritmo normal.

Surgindo novamente sem mostrar o rosto, o líder da SPECTRE mantém a aura de mistério enquanto acaricia o gato em seu colo, demonstrando firmeza através do tom de voz que transmite ordens com autoridade para seus comandados. Impiedoso, ele continua intolerante a falhas e não hesita antes de eliminar Helga após descobrir que Bond continua vivo. Só que “Com 007 só se vive duas vezes” nos reserva uma boa surpresa quando, já no ato final, finalmente revela o rosto de Blofeld, o misterioso vilão interpretado por Donald Pleasence.

NellieSensual encontro com Helga BrandtBlofeld finalmente revela o rostoNovamente apostando numa extensa batalha entre Bond e seus inimigos no encerramento da narrativa, ao menos desta vez podemos acompanhar uma sequência extremamente dinâmica e envolvente dentro da engenhosa cratera onde trabalham os integrantes da SPECTRE, repleta de confrontos empolgantes captados com destreza pela câmera ágil de Lewis Gilbert e reforçada pelos ótimos efeitos visuais e pelo excelente design de som que nos permite captar gritos, explosões e diálogos com clareza até que 007 novamente salve o mundo e termine a missão ao lado de outra bela garota.

Envolvente e recheado de bons personagens, “Com 007 só se vive duas vezes” representa a volta à boa forma da franquia 007, apostando numa narrativa mais dinâmica e repleta de boas cenas de ação para alcançar o sucesso. Considerando a quantidade de mulheres que ainda cruzariam o caminho de James Bond, era mesmo aconselhável que ele voltasse à boa forma.

Com 007 só se vive duas vezes foto 2Texto publicado em 16 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA A CHANTAGEM ATÔMICA (1965)

15 maio, 2014

(Thunderball)

2 Estrelas 

Videoteca do Beto #194

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Claudine Auger, Adolfo Celi, Luciana Paluzzi, Rik Van Nutter, Guy Doleman, Bernard Lee, Desmond Llewelyn, Molly Peters, Anthony Dawson, Jack Gwillim e Lois Maxwell.

Roteiro: Richard Maibaum, John Hopkins e Jack Whittingham, baseado em história do próprio Whittingham escrita em conjunto com Kevin McClory e Ian Fleming.

Produção: Kevin McClory, Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra a Chantagem Atômica[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após ser substituído por Guy Hamilton no excelente “007 Contra Goldfinger”, Terence Young retornava à série 007, acompanhado de boa parte da equipe técnica responsável pelos três primeiros filmes e ancorado ainda na força de Sean Connery no papel principal. Isto, no entanto, não impediu que “007 Contra a Chantagem Atômica” se transformasse numa verdadeira decepção, representando uma queda gigantesca no nível de qualidade da franquia. Apesar do sucesso de bilheteria e dos bons efeitos visuais, o longa peca em aspectos determinantes para o sucesso narrativo de seus antecessores.

Adaptado a seis mãos por Richard Maibaum, John Hopkins e Jack Whittingham, baseado em história também escrita a seis mãos pelo próprio Whittingham em conjunto com Kevin McClory e o criador do agente Ian Fleming, “007 Contra a Chantagem Atômica” traz o agente James Bond (Sean Connery) na caça ao misterioso criminoso que ameaça explodir uma grande cidade britânica ou norte-americana com uma bomba atômica roubada pela SPECTRE caso não receba 100 milhões de dólares em determinado prazo.

Apostando inicialmente numa abordagem mais leve e bem humorada que infelizmente é prejudicada pelas piadas pouco inspiradas do roteiro e investindo ainda num maior apelo sexual, Terence Young até parece pender para a paródia, talvez buscando disfarçar a trama pouco envolvente que tem em mãos. Mas o fato é que se o roteiro não ajuda, a direção de Young pouco faz para amenizar a situação, conduzindo a narrativa de maneira irregular e errando bastante em muitas escolhas, como ao distorcer a tela na ridícula cena em que, durante um exame, Bond é amarrado a um aparelho que tem sua velocidade acelerada por um invasor.

Constrangedora também é a luta corporal que abre o longa. Totalmente datada, a cena ao menos tem a desculpa de seguir o padrão da maioria dos confrontos físicos da série até então. Por outro lado, o estiloso Aston Martin apresenta mais acessórios criativos na sequência inicial, logo após Bond utilizar um interessante artefato voador que até nos dá a esperança de que “007 Contra a Chantagem Atômica” tenha mais momentos criativos como este. Doce ilusão.

Desta vez explorando o charme de Paris e a beleza dos Bahamas, a fotografia de Ted Moore adota um visual opaco na maior parte das cenas em terra firme, criando um forte contraste com a vivacidade das cenas no mar. Além disso, Moore aposta num visual mais sombrio quase sempre que os vilões entram em cena, como na reunião da SPECTRE em que os tons de preto predominam ou na sequência do roubo das bombas atômicas, numa escolha que reforça a clara divisão entre o bem e o mal.

Interessante artefato voadorVivacidade das cenas no marReunião da SPECTREApesar de constante, a trilha sonora de John Barry inicialmente é mais discreta que o de costume, mas este quadro muda no decorrer da narrativa, infelizmente através de composições péssimas como aquela que embala o confronto final embaixo d’água e a perseguição no carnaval de rua, que, aliás, é uma sequência extremamente mal conduzida pelo diretor, incapaz de criar a mínima tensão na plateia.

Ao menos, o líder da SPECTRE mantém o ar misterioso ao não mostrar o rosto, mantendo também a aura ameaçadora intacta ao eliminar um dos integrantes da equipe após descobrir que ele pegou parte do dinheiro arrecadado em um crime. No entanto, a ameaça termina por aqui, já que Adolfo Celi compõe Largo como um vilão extremamente fraco, não tendo um momento sequer que pareça colocar James Bond em risco real. Talvez em consequência da falta de um antagonista a altura, o próprio Bond é interpretado de maneira mais relaxada por Connery, o que é uma pena. No restante do elenco, somente as bondgirls Patricia (a enfermeira vivida por Molly Peters), Domino (Claudine Auger) e Fiona (Luciana Paluzzi) merecem algum destaque, mantendo inviolada uma das marcantes características da franquia.

Servindo ao menos pela curiosidade de mostrar pela primeira vez uma convenção entre os agentes “00” (repare que James Bond senta exatamente na sétima cadeira da esquerda pra direita), “007 Contra a Chantagem Atômica” acerta também ao trazer pela primeira vez uma bondgirl que não é fisgada pelo charme do protagonista (“Não se pode ganhar todas”, diz Bond). Talvez por isso, Fiona seja sumariamente assassinada no meio da trama, como uma espécie de punição inconsciente dos roteiristas pelo atrevimento da moça.

Numa tentativa desesperada de dar mais ritmo ao longa, Terence Young diminui o número de frames por segundo em diversas cenas de ação, num efeito que de fato acelera a imagem, mas soa deselegante e não provoca o impacto pretendido pelo diretor, já que a falta de grandes cenas e de uma atmosfera de tensão que realmente ofereça perigo ao protagonista é latente e não seria resolvida de maneira tão simples. É na construção das cenas e não na forma como elas são apresentadas que reside o maior problema de “007 Contra a Chantagem Atômica”.

Largo um vilão extremamente fracoBond mais relaxadoLongo e cansativo conflito finalPra piorar, nem mesmo os bons efeitos visuais salvam o longo e cansativo conflito final ocorrido no fundo do mar, que além de durar muito mais do que deveria, não tem um instante sequer que fique guardado na memória do espectador, mais parecendo uma longa tortura que se prolonga enquanto desejamos que o filme acabe logo. Aliás, o montador Ernest Hosler, que substitui Peter Hunt, parece não perceber o momento certo de cortar algumas cenas, estendendo sequências totalmente sem graça como o citado confronto final e a arrastada sequência em que os integrantes da SPECTRE escondem as bombas no oceano.

Escancarando a falta de criatividade do roteiro e a ausência de cenas de impacto, endossado ainda por um vilão totalmente sem carisma e nada ameaçador e pela ausência de personagens marcantes, “007 Contra a Chantagem Atômica” mal parece um filme da franquia 007, pecando em quase todos os aspectos que fizeram a fama mundial do agente secreto britânico. Pra piorar, muitas de suas cenas parecem durar mais do que deveriam, deixando o espectador entediado enquanto aguarda a próxima sequência na esperança de que o ritmo vá melhorar. E tédio é algo que nós jamais deveríamos sentir num filme de James Bond.

007 Contra a Chantagem Atômica foto 2Texto publicado em 15 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

14 maio, 2014

(Goldfinger)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #193

Dirigido por Guy Hamilton.

Elenco: Sean Connery, Gert Fröbe, Honor Blackman, Martin Benson, Harold Sakata, Tania Mallet, Shirley Eaton, Desmond Llewelyn, Bernard Lee e Victor Brooks.

Roteiro: Richard Maibaum e Paul Dehn, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra Goldfinger[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Terceiro filme da franquia, “007 Contra Goldfinger” preserva até hoje um lugar de destaque em qualquer lista dos melhores longas estrelados pelo agente secreto britânico, o que não é pouco, considerando a quantidade de bons filmes produzidos desde então. Recheado de personagens carismáticos, balanceando momentos divertidos com outros de alta tensão e engrandecido ainda por um bom vilão, o longa dirigido por Guy Hamilton conseguiu superar seus ótimos antecessores, conquistando lugar cativo no coração dos fãs da franquia.

Novamente baseado em romance de Ian Fleming, o roteiro escrito por Richard Maibaum e Paul Dehn traz James Bond (Sean Connery) sendo incumbido de investigar um excêntrico milionário conhecido como Goldfinger (Gert Fröbe), mas o seu envolvimento com a namorada do alvo acaba colocando-o em rota de colisão com o poderoso homem. Após ser capturado e preso, Bond descobre que os planos de Goldfinger são bem mais ousados do que ele imaginava anteriormente.

Seguindo a já clássica abertura em que um tiro é disparado em direção à tela, um travelling nos apresenta a bela locação da vez e nos transporta por Miami até encontrarmos James Bond recebendo uma massagem, obviamente, acompanhado de uma linda moça. No entanto, instantes depois o criativo roteiro de “007 Contra Goldfinger” já estabelece o caminho que vai seguir, apresentando o grande vilão logo de cara e sem mistério, numa quebra da estrutura adotada antes que funciona muito bem. Assim, fica evidente que os roteiristas se equilibrarão entre momentos que respeitam o padrão pré-estabelecido e outros que buscam novidades que injetem energia à franquia.

Entre as novidades, talvez a que mais chame a atenção seja a primeira aparição do Aston Martin DB-V repleto de acessórios interessantes criados pelo genial “Q”, novamente interpretado por Desmond Llewelyn. Concebidos de maneira engenhosa pelo design de produção de Ken Adam, os aparatos tecnológicos do veículo são muito criativos e permanecem atraentes ainda hoje. O inventivo roteiro traz ainda a primeira menção ao agente 008, além da célebre frase de James Bond sobre seu gosto refinado para bebidas (“Martini batido, não mexido”).

Recheado pelo típico humor irônico britânico, “007 Contra Goldfinger” não deixa de lado o que vinha funcionando até então, como as conversas cada vez mais divertidas e sarcásticas entre Bond e a secretária Moneypenny (Lois Maxwell), mantendo-se também fiel à composição do personagem através de sua paixão irresistível pelas mulheres e de sua preferência, por exemplo, pelo champanhe Dom Perignon 53. Assim, ao mesmo tempo em que delicia as novidades, o espectador aprecia as características marcantes de James Bond, jamais tendo a sensação de estar vendo outro personagem na tela. Esta sensação é reforçada pelo uso constante da trilha sonora de John Barry, que emprega variações da excelente música tema “Goldfinger”, de Shirley Bassey, para pontuar as cenas e, assim como nos filmes anteriores, inserindo esporadicamente o tema clássico composto por Monty Norman.

Também mantendo a coerência, a fotografia de Ted Moore mantém o padrão adotado até então, apostando num visual naturalista e predominantemente diurno, ainda que algumas cenas marcantes ocorram à noite, como o assassinato de Tilly (Tania Mallet) e a dinâmica perseguição de carros que a antecede. É interessante notar também como em diversos momentos temos a presença de objetos dourados em cena, como na decoração do avião que leva Bond para os EUA, no qual também as aeromoças usam roupas com tons que remetem ao vilão do longa. Estes pequenos detalhes do design de produção realçados pela fotografia servem para fixar inconscientemente na mente do espectador o perigo que ronda constantemente o protagonista.

Aston Martin repleto de acessóriosObjetos douradosHerói de carne e ossoCada vez mais a vontade na pele de James Bond, Sean Connery encarna o sujeito com a costumeira imponência, demonstrando também sagacidade, por exemplo, ao pensar rápido após ver um inimigo se aproximando através do reflexo na retina da moça que tenta beijar (!) – e é curioso notar como exageros como este jamais soam ofensivos e se tornam até mesmos charmosos pela maneira como são conduzidos pelo diretor e interpretados pelo ator. Conferindo humanidade ao personagem ao demonstrar seu conflito interno após ver a bela Tilly passar por ele de carro, equilibrando-se entre a atitude racional (continuar perseguindo Goldfinger) e a passional (ir atrás da moça), Connery evidencia também que estamos diante de um herói de carne e osso ao demonstrar medo diante da morte iminente quando Goldfinger ameaça cortar Bond com laser, numa cena muito tensa conduzida lentamente por Guy Hamilton na qual, assim como o apreensivo agente, o espectador praticamente gruda na cadeira até a conclusão da sequência.

Entre as bondgirls, o destaque fica mesmo para Honor Blackman, que compõe a bela e independente Pussy Galore com muito charme e firmeza, demorando a render-se ao charme de Bond e, justamente por isso, conquistando o galanteador agente com seu jeito descolado e a inteligência necessária para alguém que convive naquele meio repleto de homens poderosos e, ainda por cima, pilota aviões. Comandando a própria companhia aérea que, para a alegria de Bond, é composta somente por garotas, Pussy só cede quando é pega por Bond à força, num momento que foge do politicamente correto sem soar ofensivo, exatamente pela maneira como é conduzido pelo diretor e pela forma descontraída que é interpretado por Connery e Blackman.

Já as outras duas garotas de “007 Contra Goldfinger” não tiveram tanta sorte. Vivendo a primeira das irmãs que se apaixonam por Bond e são assassinadas, Shirley Eaton mal tem tempo de mostrar algo como Jill, mas ainda assim protagoniza uma boa cena quando revela a razão das vitórias seguidas de Goldfinger nas cartas, sendo dela ainda a icônica imagem da garota nua coberta pela tinta dourada. Já sua misteriosa e determinada irmã Tilly é interpretada por Tania Mallet de maneira obstinada, justificando sua postura após revelar que busca vingar a morte de Jill. No entanto, sua triste morte não apenas surpreende o espectador, como também evidencia que desta vez James Bond se encontra diante de um vilão realmente perigoso e ameaçador.

Soando inicialmente tão inofensivo inicialmente que chega a ser patético, o Goldfinger de Gert Fröbe se transforma ao longo da narrativa e se consolida como o melhor vilão da franquia até então, representando uma ameaça real ao protagonista. Poderoso, ele domina diversos negócios espalhados pelo mundo, mantendo até mesmo a máfia sob controle, como fica evidente quando ele elimina friamente alguns gângsteres de seu caminho. O mais curioso, no entanto, é que Goldfinger jamais se parece com os vilões caricatos que parecem acordar e esfregar as mãos pensando na próxima maldade que farão, soando até mesmo simpático em diversos momentos nos inúmeros diálogos que tem com Bond, que também servem para comprovar a inteligência do personagem. Observe, por exemplo, seu sorriso de canto de boca após ser elogiado por Bond, num momento sutil e muito interessante da composição de Fröbe, que, curiosamente, teve que ser dublado na versão final devido ao forte sotaque germânico. Fechando o elenco, o capanga Oddjob vivido por Harold Sakata representa outra séria ameaça, ainda que sua atuação seja extremamente caricata e destoe bastante.

Bela e independente Pussy GaloreMisteriosa e determinada TillyMelhor vilão da franquiaApós estabelecer o perigo que 007 corre e explicar detalhadamente o plano do grande vilão, o empolgante ato final começa com os aviões de Pussy Galore despejando o gás letal no forte que contém toda a reserva de ouro dos EUA. Fazendo questão de ressaltar o rosto dos parceiros de Bond no meio das vítimas, Guy Hamilton cria um plano que será essencial logo depois, quando ao ver os corpos se levantando e descobrir que eles estavam fingindo, a plateia se questiona como aquilo era possível, tendo a deliciosa tarefa de ligar os pontos e entender como James Bond havia contornado aquela complicada situação e derrotado Goldfinger. Momentos tensos como o confronto entre o exército e os comandados por Goldfinger, o duelo entre Bond e o forte Oddjob, a bomba desativada a sete segundos da explosão e a luta final entre herói e vilão no avião concluem este excelente filme de maneira empolgante.

Contando com um roteiro criativo, o carisma de seu protagonista e um vilão realmente ameaçador, além é claro de cenas marcantes e sequências empolgantes de ação, Guy Hamilton fez deste um filme superior aos anteriores, estabelecendo um padrão que seria seguido dali em diante. Aliás, justiça seja feita: “007 Contra Goldfinger” não é somente o melhor filme da franquia até então, como também é ainda hoje um dos melhores filmes do agente em seus mais de 50 anos de existência.

007 Contra Goldfinger foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

MOSCOU CONTRA 007 (1963)

13 maio, 2014

(From Russia with Love)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #192

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Daniela Bianchi, Pedro Armendáriz, Lotte Lenya, Robert Shaw, Bernard Lee, Eunice Gayson, Walter Gotell, Francis De Wolff, Desmond Llewelyn, Lois Maxwell, Anthony Dawson e Eric Pohlmann.

Roteiro: Richard Maibaum e Johanna Harwood, baseado em romance criado por Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

Moscou contra 007[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um ano após estrear com sucesso no cinema, o agente secreto James Bond ganhava seu segundo filme. Novamente dirigido por Terence Young e estrelado por Sean Connery, “Moscou contra 007” aposta em elementos narrativos fundamentais para o sucesso do longa anterior, estabelecendo também novos conceitos que seriam utilizados nos filmes seguintes. A diferença, no entanto, é que este segundo longa claramente apresenta um ritmo mais intenso, numa indicação sutil dos caminhos que a franquia seguiria ao longo das décadas.

Mais uma vez adaptado para a telona por Richard Maibaum e Johanna Harwood com base no romance escrito por Ian Fleming, “Moscou contra 007” traz o agente secreto James Bond (Sean Connery) numa missão em Istambul, onde ele terá que ajudar uma agente russa (Daniela Bianchi) a fugir e, de quebra, ainda poderá capturar uma desejada máquina chamada Lektor. Auxiliado pelo turco Kerim Bey (Pedro Armendáriz), ele se sai bem na missão até descobrir que na verdade está ajudando a executar o plano da temida organização SPECTRE.

Desta vez desfalcados de Berkely Mather, os roteiristas Maibaum e Harwood abusam de um artifício narrativo conhecido como dica e recompensa, com diversas ações e situações refletindo em momentos futuros da projeção, como a explicação sobre como a maleta poderia explodir se aberta incorretamente e a bota envenenada usada pelos agentes da SPECTRE, o que sempre chama a atenção do espectador mais atento, funcionando como uma piscadela que nos faz vibrar ao reconhecermos o artifício em questão. Beneficiado pelo roteiro relativamente mais elaborado, ainda que este desenvolva os personagens apenas superficialmente, desta vez o diretor Terence Young e seu montador Peter Hunt empregam um ritmo mais envolvente e dinâmico do que o adotado em “007 Contra o Satânico Dr. No”, mantendo a narrativa mais focada nos acontecimentos do que nos personagens.

Visualmente, “Moscou contra 007” também é claramente mais obscuro que seu antecessor, já que desta vez o diretor de fotografia Ted Moore aposta no predomínio de cenas noturnas e ambientes fechados para criar uma atmosfera de tensão. Além disso, a escolha de locações internacionais naturalmente belíssimas como Veneza e Istambul torna-se visualmente ainda mais interessante pela maneira como estas cidades são captadas pela fotografia de Moore, realçando em planos gerais a linda geografia local ao mesmo tempo em que nos revela detalhes obscuros, especialmente em Istambul onde acompanhamos a estrutura do subsolo, contrastando com o luxo e a beleza, por exemplo, do quarto de hotel em que Bond está hospedado. As locações internacionais, aliás, também se estabeleceriam como outra marca da franquia.

Vale destacar também a primeira aparição de Desmond Llewelyn como o genial “Q”, introduzindo pela primeira vez na franquia os famosos acessórios usados pelo agente através da maleta com diversas funções concebida pelo design de produção de Syd Cain, que acerta ainda na decoração dos cenários turcos, o que, somado aos caprichados figurinos de Jocelyn Rickards, transporta o espectador para aquele ambiente com precisão. Como curiosidade, observe ainda a máscara de disfarce facial que surge logo no início, que serviria de inspiração para outro famoso artifício usado na franquia “Missão: Impossível” muitos anos depois.

Estrutura do subsoloLuxo e belezaO genial “Q”Presença praticamente constante durante todo o longa, a trilha sonora de John Barry acerta quase sempre que utiliza o tema clássico composto por Monty Norman, pecando apenas pelo exagero que acaba desgastando um pouco a ótima composição e errando também na composição totalmente dissonante que acompanha o datado combate físico entre duas turcas na luta pelo amor de um homem. Quem também exagera é o design de som, que amplia consideravelmente o barulho natural de tapas e tiros numa tentativa de realçar o efeito daquelas ações.

Mas se tecnicamente o longa oscila, estas derrapadas são compensadas pela presença de características determinantes para o sucesso de James Bond como personagem, trazendo novamente sua inteligência e capacidade de prever situações perigosas, a elegância ao falar e andar e, obviamente, a incapacidade de resistir a belas mulheres (desta vez, até os créditos iniciais são apresentados no corpo de uma mulher). Obviamente, o talento e a imponência de Sean Connery são determinantes para que o personagem funcione tão bem, já que o ator escocês tem uma capacidade natural de transmitir segurança através da expressão corporal e da fala.

Criando boa empatia com Bond, a bela Daniela Bianchi transforma Tatiana Romanova numa moça frágil e apaixonada, jamais passando a impressão de que ela estava ali cumprindo uma missão, o que de certa forma é coerente, já que a personagem de fato se apaixona pelo agente britânico, como fica claro no ato final. Até hoje a mais nova dentre todas as bondgirls, a italiana Bianchi tinha apenas 21 anos na época do lançamento do filme e, assim como a suíça Ursula Andress em “007 Contra o Satânico Dr. No”, teve que ser dublada por causa do forte sotaque italiano falando inglês. Ainda entre os destaques do elenco, o carismático Pedro Armendáriz transforma Kerim Bey no verdadeiro braço direito de Bond na Turquia, numa atuação simpática que nos faz lamentar sua morte como se tivéssemos perdido um amigo de longa data.

E finalmente, os vilões de “Moscou contra 007” não representam uma ameaça real até os instantes finais do longa, passando quase desapercebidos não fosse pela caricatural composição de Lotte Lenya como a general russa Rosa Klebb e pela aparição misteriosa do líder da organização SPECTRE, que sequer chega a mostrar o rosto (voz de Ernest Blofeld). E nem mesmo a explosão de uma bomba no meio de um momento íntimo de Kerim Bey chega a ameaçar, provocando apenas um susto repentino no espectador. Mas este cenário muda completamente quando Robert Shaw entra em cena com seu assustador Donald Grant.

Romanova frágil e apaixonadaKerim Bey o verdadeiro braço direitoAssustador Donald GrantNum momento raro até então, a tensa sequência dentro do trem após a morte de Kerim Bey faz o espectador realmente temer pelo destino de Bond (o que é ótimo!), assim como a feroz luta entre ele e o agente da SPECTRE vivido por Shaw é claramente mais intensa e realista do que todas as outras realizadas até então. A partir daí, toda a sequência final mantém um ritmo intenso, com Bond fugindo de um helicóptero e de vários barcos até finalmente chegar a Veneza e, com a esperada ajuda de Romanova, despachar a última inimiga em seu caminho.

Mais empolgante que o longa anterior, “Moscou contra 007” é outra ótima aventura do agente britânico que, logo em seu segundo filme, já dava mostras de que tinha mesmo vindo pra ficar. Sorte nossa.

Moscou contra 007 foto 2Texto publicado em 13 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO (1962)

12 maio, 2014

(Dr. No)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #191

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Joseph Wiseman, Ursula Andress, John Kitzmuller, Yvonne Shima, Lois Maxwell, Eunice Gayson, Zena Marshall, Jack Lord, Bernard Lee, Anthony Dawson, Colonel Burton, William Foster-Davis, Marguerite LeWars e Peter Burton.

Roteiro: Richard Mailbaum, Johanna Harwood e Berkely Mather, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra o Satânico Dr. No[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criado pelo escritor Ian Fleming em 1953, o agente secreto 007 tornou-se febre no Reino Unido e em todo mundo. No entanto, sua primeira aparição nas telas de cinema só aconteceria em 1962, após passagens por séries de televisão e filmes feitos diretamente para a própria TV. O que os produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman não sabiam era que, ao decidir levar o sedutor agente britânico para o cinema, estavam criando também uma das mais amadas, duradouras e lucrativas franquias da história da sétima arte. Com Terence Young na direção, a icônica trilha sonora composta por Monty Norman e Sean Connery no papel do astuto agente, nascia à lenda James Bond.

Adaptado para o cinema a seis mãos por Richard Mailbaum, Johanna Harwood e Berkely Mather, “007 Contra o Satânico Dr. No” traz o agente secreto James Bond (Sean Connery) durante a investigação do desaparecimento de um colega do serviço secreto britânico na Jamaica. Com a ajuda do cidadão local Quarrel (John Kitzmuller) e da jovem Honey Ryder (Ursula Andress), ele acaba descobrindo a ilha onde se esconde o temido Dr. No (Joseph Wiseman), um cientista de descendência germânico-chinesa extremamente inteligente que utiliza a radiação da região para desenvolver armas extremamente poderosas.

Estabelecendo o perigo que Dr. No representa através de seus capangas que assassinam friamente duas pessoas logo de cara, “007 Contra o Satânico Dr. No” é um exemplar genuíno do estilo marcante da série que ele próprio inaugurou, ainda que o ritmo empregado pelo montador Peter Hunt seja mais lento do que estamos acostumados nas aventuras contemporâneas. Mas se este ritmo lento jamais chega a incomodar, até porque esta é uma característica da época, as lutas corporais e a perseguição de carro na montanha soam totalmente datadas, cumprindo sua função narrativa sem grande destaque. Por outro lado, Terence Young acerta ao estender ao máximo a cena em que uma aranha anda pelo corpo de Bond, num dos raros momentos em que a tensão realmente toma conta da tela.

Os ambientes luxuosos concebidos pelo design de produção de Ken Adam tanto em Londres como na suntuosa mansão de Dr. No também criam uma atmosfera elegante e coerente com a postura do protagonista. Além disso, “007 Contra o Satânico Dr. No” tem o mérito de estabelecer características básicas da franquia que durariam décadas, começando pelo impactante tema composto por Monty Norman, identificável até mesmo por quem nunca assistiu a um filme sequer de James Bond (existe este ser?) e que se tornou clássico ao longo dos anos.

Aranha anda pelo corpo de BondSuntuosa mansãoHoney Ryder emerge da águaAlém da trilha, marcam presença também as mulheres sensuais que cruzam o caminho do agente e escancaram sua flagrante incapacidade de resistir ao charme delas. Tendo que ser dublada na pós-produção devido ao forte sotaque, a suíça Ursula Andress se destaca entre as primeiras bondgirls, criando empatia com Bond enquanto o auxilia na descoberta do esconderijo do Dr. No – e no momento em que ela conta sua história, juro que cheguei a pensar que ela poderia ser filha do grande vilão, mas descartei esta possibilidade instantes depois. A imagem de sua Honey Ryder emergindo da água é uma das mais icônicas de toda a franquia, sendo até mesmo homenageada décadas depois.

Imaginado por Ian Fleming para ser vivido por Cary Grant, James Bond ganhou vida mesmo na pele de Sean Connery, na época um ilustre desconhecido ator escocês. Alto e com seu porte físico esguio, Connery se saiu tão bem no papel que ainda hoje é o mais reverenciado intérprete de 007 no cinema. Logo em sua primeira aparição, ele surge dizendo a célebre frase “Bond. James Bond”, em outro momento icônico que ficaria marcado na história do cinema. Impondo-se naturalmente com sua postura elegante que combina perfeitamente com o classudo terno que veste, o Bond de Connery é extremamente astuto e inteligente, sendo capaz de farejar o perigo de longe, além de fugir do convencional estereótipo do “herói bonzinho” ao matar a sangue frio o geólogo Dent interpretado por Anthony Dawson.

Postura eleganteMata a sangue frio o geólogo DentMisterioso Dr. NoDiante de um herói tão competente, era necessária também a presença de um vilão que justificasse o temor gerado na plateia. Com seu nome sendo mencionado pela primeira vez já com mais de 30 minutos de projeção, o misterioso Dr. No ganha ares ainda mais ameaçadores na voz de Joseph Wiseman, que só surge em cena já no ato final, com seu rosto gélido e sua postura simultaneamente elegante e agressiva durante o ótimo diálogo no jantar com James Bond. É uma pena, portanto, que o final previsível e sem forte impacto enfraqueça um pouco este ótimo vilão.

Despretensioso e divertido, “007 Contra o Satânico Dr. No” vale muito também pela curiosidade de ser a primeira incursão de James Bond no cinema, tendo importante papel histórico nesta longa trajetória do agente secreto mais amado do planeta. Depois dele, o universo dos filmes de espionagem jamais seria o mesmo, pois agora todos já conheciam Bond. James Bond.

007 Contra o Satânico Dr. No foto 2Texto publicado em 12 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

ROBIN HOOD – O PRÍNCIPE DOS LADRÕES (1991)

23 dezembro, 2010

(Robin Hood: Prince of Thieves)

 

Videoteca do Beto #80

Dirigido por Kevin Reynolds.

Elenco: Kevin Costner, Morgan Freeman, Mary Elizabeth Mastrantonio, Christian Slater, Alan Rickman, Sean Connery, Geraldine McEwan, Brian Blessed, Nick Brimble, Soo Drouet, Daniel Newman, Daniel Peacock, Walter Sparrow, Michael Wincott e Michael McShane.

Roteiro: Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham.

Produção: Pen Densham, Richard Barton Lewis e John Watson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Aproveitando o embalo do sucesso do belo “Dança com Lobos”, Kevin Costner embarcou nesta aventura inspirada no mais famoso dos ladrões, aquele que roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que o longa dirigido por Kevin Reynolds jamais apresenta um resultado próximo dos filmes que alçaram o ator/diretor à fama. Apesar de entreter, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” apresenta falhas que comprometem seu resultado, se escorando na força de seu personagem principal, no carisma de seu elenco e nas boas cenas de ação que sustentam esta despretensiosa aventura.

Após ser capturado nas cruzadas, Robin de Locksley (Kevin Costner) foge ao lado de Azeem (Morgan Freeman) e volta para a Inglaterra, onde encontra seu pai (Brian Blessed) morto e descobre os planos do xerife de Nottingham (Alan Rickman), que fará de tudo para que o rei Ricardo (Sean Connery) não volte ao trono. Após visitar sua amiga de infância Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio), ele foge dos soldados do xerife liderados por Guy de Gisborne (Michael Wincott) e vai parar na temida floresta de Sherwood, onde encontrará João Pequeno (Nick Brimble), Will Scarlett (Christian Slater) e todos os foras-da-lei que serão liderados por ele na luta contra o xerife.

Apesar de seu início promissor, com a fuga de Robin e Azeem após serem capturados nas cruzadas, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” é um filme leve e despretensioso, que não deixa grandes reflexões e jamais faz um estudo mais profundo a respeito do homem que o inspirou, limitando-se a apresentar as aventuras de Robin e seu grupo nas florestas de Sherwood, balanceadas pelo tradicional romance com Lady Marian. Mas ainda que o tom leve domine a maior parte da narrativa, seu inicio é bastante sombrio e violento, com mãos de prisioneiros ingleses sendo arrancadas numa obscura prisão que reflete a dureza daquela vida. O forte contraste é notável já na chegada de Robin à Inglaterra, quando o visual agradável dá o tom leve e coerente com a lenda. Ainda assim, há espaço para o embate entre religiões que motivou a luta pela terra santa, um tema recorrente e interessante da narrativa, notável quando Robin diz que seu pai achava uma idiotice lutar nas cruzadas para impor sua crença à força ou quando Duncan (Walter Sparrow), após insultar os mouros, pergunta à Azeem a origem do nome dele. Escrito por Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham, o roteiro de “Robin Hood” jamais se define como drama, comédia ou aventura, transitando entre os gêneros freqüentemente, mas, curiosamente, este “escorregão” acaba conferindo charme à narrativa (justamente por se tratar da encantadora lenda de Robin Hood), ao balancear os excelentes momentos de ação, como quando Robin e Azeem fogem para a floresta de Sherwood, com momentos bem humorados, como a chegada à casa de Lady Marian ou o próprio encontro entre Robin e aqueles que ele iria liderar num rio. Por outro lado, o maniqueísmo do longa é evidente, algo ilustrado até mesmo na direção de fotografia de Douglas Milsome, que busca apresentar a floresta de Sherwood constantemente iluminada, com os raios solares vazando as folhas das árvores, ao passo em que o castelo de Nottingham é freqüentemente filmado com pouca iluminação e predomínio das sombras, induzindo o espectador a simpatizar pelo “príncipe dos ladrões”. Mas nem tudo é perdido no roteiro de Densham e Watson, que apresenta, por exemplo, interessantes rimas narrativas, como a pergunta “ela vale a pena?” feita por Robin para Azeem, que refletirá no clímax da narrativa (e que inspirou parte da música tema do filme), ou quando Robin sai do banho e diz para Marian que “estava seguindo o conselho de uma donzela”. Finalmente, vale citar a referência a “O Feitiço de Áquila”, de Richard Donner, quando o frei entra no castelo e fala algo sobre as bebidas.

E se “Robin Hood” apresenta uma narrativa leve, Kevin Reynolds emprega uma direção enérgica, imprimindo um ritmo interessante à aventura, graças também à montagem ágil de Peter Boyle, que se destaca na seqüência final dentro do castelo de Nottingham e também na batalha de Sherwood, além da pequena seqüência de roubos na floresta, que mostra em poucos minutos o crescimento da lenda “Robin Hood”, e de um interessante raccord (corte), quando Mortianna fala para o xerife sobre uma aliança com sangue real e em seguida vemos Lady Marian. Mas este ritmo intenso da aventura não impede que o diretor indique com sutileza, por exemplo, que Will é irmão de Robin, ao focar rapidamente seu rosto após o irmão dizer pela primeira vez seu nome para os donos da floresta, assim como é sutil o momento em que as sombras na parede indicam que os soldados seguirão Duncan. Mas são nas curiosas câmeras que acompanham as flechas que o diretor consegue causar impacto, criando seqüências empolgantes nos treinamentos e um plano belíssimo em câmera lenta, quando Robin atira uma flecha de fogo e salva o irmão. Obviamente, o diretor não perde a oportunidade de explorar o potencial do então astro Kevin Costner para alavancar a bilheteria, abusando de closes e explorando os belos momentos vividos pelo herói e sua amada Marian, como quando o casal desce de uma árvore preso numa corda. Reynolds, no entanto, conduz com irregularidade a batalha na floresta, intercalando bons e maus momentos que culminam no suspense barato sobre a morte de Robin (todos sabem que ele não morreria daquela forma). Por outro lado, o longa apresenta um bom trabalho técnico, com destaque para a direção de arte de Fred Carter, que capricha nas armas dos soldados e nos castelos de Nottingham e Locksley, nos transportando para aquela época. Também colaboram os ótimos figurinos de John Bloomfield, a começar pela caracterização de Robin Hood (o visual foge ao tradicional, mas mantém o charme do “bom ladrão”) e Azeem, passando pelos camponeses e suas roupas rasgadas e chegando aos soldados de Nottingham, com suas impecáveis armaduras. E certamente o maior destaque da parte técnica é a sensacional trilha sonora de Michael Kamen, que alterna entre trechos empolgantes e melódicos, como a despedida de Robin e Marian à beira de um rio (num admirável plano de Reynolds) em que a trilha se funde à melodia da bela música tema “Everything I do (I do it for you)”, de Bryan Adams.

Infelizmente, o que deveria ser uma das grandes forças de “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” acaba se revelando uma decepção, pois o talentoso elenco liderado por Kevin Costner e Morgan Freeman entrega atuações discretas, inferiores à capacidade da maioria deles. A começar por Costner, que escorrega ao falar o inglês norte-americano, obviamente contrariando a origem britânica do herói. Além disso, o ator não demonstra com realismo o sofrimento pela perda do pai, parecendo estar conformado quando deveria estar indignado. Por outro lado, confere um carisma enorme ao ladrão romântico, especialmente nos momentos de humor, como quando pergunta ao pequeno Wulf (Daniel Newman) se João Pequeno era o pai dele, imitando o sorriso sem graça do garoto em seguida, ou quando arranca um anel e um sorriso de uma bela princesa. Estabelecendo boa química com Freeman e Mastrantonio, principalmente nas seqüências vividas na floresta, Costner salva sua atuação em pequenos momentos dramáticos, como o discurso na floresta, quando Robin se proclama o líder dos “foras-da-lei”, ou quando demonstra o quanto ele está arrasado após a batalha de Sherwood – numa das poucas cenas onde o grande talento de Freeman também aparece, com a marcante frase “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”. Mas apesar da atuação apenas discreta, Morgan Freeman demonstra sua qualidade ao compor com cuidado o personagem, por exemplo, falando um inglês sofrível e coerente com a origem moura de Azeem, alguém mais tolerante à diversidade que todos os ingleses, como notamos quando frei Tuck (Michael McShane) se revolta ao vê-lo fazer um parto, que curiosamente serviria para aproximar os dois. Já Mary Elizabeth Mastrantonio tem um começo discreto como Lady Marian, se soltando durante a narrativa e conseguindo empatia com Costner, o que é vital para o sucesso da seqüência final, quando Robin luta por ela. Enquanto isso, o Will de Slater parece sempre tenso, um verdadeiro rebelde sem causa (e o ator tem culpa nisso, por causa de sua atuação exagerada), mas o ator se redime parcialmente no momento em que revela seu parentesco com Robin, conferindo emoção à cena – ainda assim, esta revelação soa forçada e dispensável. E fechando o lado do “bem”, quem também se destaca é Michael McShane como frei Tuck, personificando o tom leve que Reynolds emprega a narrativa através de suas constantes piadas. No lado obscuro da trama, a Mortianna de Geraldine McEwan é a típica bruxa asquerosa – e seu visual horrível é reforçado por ratos, sapos, cobras e tudo que é repugnante, provocando a antipatia do espectador. Sempre que está em cena, Mortianna é envolvida por um visual obscuro, reforçando a tendência de apresentá-la como o “mau” a ser enfrentado, o que reflete também no personagem de Alan Rickman, o terrível xerife de Nottingham. Por outro lado, Rickman, com sua atuação exagerada, confere uma graça ao personagem que trabalha a favor do clima descontraído do longa, mas claramente enfraquece o vilão diante do espectador, apesar do chocante momento em que mata o próprio primo Guy no castelo. Aliás, com sua voz rouca e olhar firme, Michael Wincott faz de seu Guy de Gisborne um vilão até mesmo mais aterrorizante que o xerife de Nottingham.

Após a humilhante derrota sofrida em seu próprio território, Robin e seus amigos decidem evitar a tragédia completa e impedir o enforcamento de seus companheiros no castelo de Nottingham. Tem início então a melhor seqüência do filme, a sensacional cena do enforcamento, conduzida num ritmo intenso por Reynolds. Quando rufam os tambores e o carrasco escolhe Wulf para iniciar a cerimônia, o espectador, agoniado, conta com a mira de Robin, que tenta cortar a corda e acerta na segunda tentativa – e após ver as diversas proezas do herói com o arco e flecha, é normal que o espectador conte com seu sucesso na cena. Vale notar ainda como momentos antes a câmera focaliza duas vezes o barril, indicando sua importância na estratégia de Robin e sua equipe. Mas nem mesmo esta cena é perfeita, pois é totalmente incompreensível a provocação de Will quando Wulf é levado à forca – seria mais coerente ele ficar na dele, sem chamar a atenção. Após esta empolgante seqüência, o esperado duelo final entre o vilão e o mocinho resulta na morte do xerife, atingido pela faca que ele deu de presente para Marian (olha a rima narrativa aí), só que Rickman novamente exagera, se contorcendo e fazendo caretas até finalmente agonizar. O final feliz, com a chegada do rei Ricardo (Connery, em participação descartável), agrada ao espectador, mas deixa a sensação de que “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” tinha potencial para oferecer mais.

Em resumo, “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” diverte, mas não vai além. Kevin Reynolds até apresenta cenas interessantes, Kevin Costner confere charme ao herói, Freeman e Mastrantonio estabelecem boa química com o astro, mas infelizmente o longa não passa de uma diversão sem compromisso. Talvez Reynolds tivesse a melhor das intenções ao juntar um ótimo elenco para contar a lendária história de Robin Hood. Mas, nas palavras de Azeem, “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989)

26 agosto, 2010

(Indiana Jones and the Last Crusade)

 

Videoteca do Beto #62

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliott, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover, River Phoenix, Michael Byrne, Kevork Malikyan, Richard Young, Alexei Sayle e Paul Maxwell.

Roteiro: Jeffrey Boam, baseado em estória de George Lucas e Menno Meyjes.

Produção: Robert Watts.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após iniciar a saga do arqueólogo Indiana Jones com o maravilhoso “Os Caçadores da Arca Perdida”, Steven Spielberg adotou um tom mais obscuro e, conseqüentemente, menos interessante no segundo filme da série, o apenas razoável “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Felizmente, o talentoso diretor volta a utilizar com força total as principais características da série neste delicioso “Indiana Jones e a Última Cruzada”, misturando com eficiência o bom humor e as engenhosas seqüências de ação, e de quebra, ainda introduz o tema “relacionamento entre pais e filhos”, algo recorrente em sua filmografia.

Após descobrir que seu pai (Sean Connery) havia sido capturado pelos nazistas enquanto buscava encontrar o santo Graal, o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford), acompanhado de seu amigo Marcus Brody (Denholm Elliott), parte em busca do precioso artefato e, principalmente, para tentar salvar seu pai. Ao desembarcar em Veneza, encontra a ajuda da misteriosa Dra. Elsa Schneider (Alison Doody) e novamente se envolve numa série de aventuras.

Definitivamente, “Indiana Jones e a Última Cruzada” é um legítimo representante da série que fez tanto sucesso nos anos oitenta, como podemos notar desde o clássico início com o logo da Paramount se transformando numa montanha. A linha vermelha no mapa enquanto vemos a imagem do avião, o envolvimento com uma mulher, o chapéu, o chicote e a empolgante trilha sonora também continuam presentes. Spielberg mantém ainda outra característica marcante da série, abusando do bom humor. Aliás, se “O Templo da Perdição” se perdia em meio ao clima pesado demais, este “A Última Cruzada” é o mais leve e engraçado dos três filmes. O diretor também dá um show logo na seqüência de abertura, quando o jovem Indy (River Phoenix) foge em cima de um trem com um precioso artefato, abusando da criatividade durante a atrapalhada fuga do rapaz, além de utilizar animais de verdade, sem efeitos digitais, o que somado aos tradicionais truques mecânicos (outra marca da série), confere muito mais realismo à cena. O diretor também demonstra seu talento na condução de cenas extremamente empolgantes de ação, como quando os nazistas perseguem os Jones de moto e na seqüência do deserto em que Indy faz malabarismos para conseguir escapar dos alemães. Além disso, o diretor utiliza a câmera com função narrativa, como no momento em que o zoom na placa “Berlim” indica o caminho que os heróis seguiram. Finalmente, a seqüência final dentro da caverna é carregada de tensão enquanto Indy desvenda os mistérios em busca do cálice e se encerra de forma emocionante quando o Sr. Jones finalmente chama o filho de “Indiana”, deixando claro que a vida deles era muito mais importante que aquele artefato religioso.

Spielberg também inova ao apresentar uma excelente introdução mostrando a juventude de Indy, que serve como base para o fio condutor da narrativa: o relacionamento entre pai e filho. Além disso, serve também para apresentar traços marcantes da personalidade dele, como o medo de cobras e a tomada rápida de decisão, além de revelar como ele passou a utilizar o chicote e o chapéu. Tudo isto é mérito também do bom roteiro de Jeffrey Boam, baseado em estória de George Lucas e Menno Meyjes, que divide a narrativa em duas linhas principais. A primeira delas se concentra na busca pelo Graal e abre espaço para as sensacionais aventuras do arqueólogo. Já a segunda linha narrativa olha, ainda que de forma superficial e bem humorada, para os problemas de relacionamento entre pai e filho que, como dito, é um tema recorrente nos filmes de Spielberg. Além disso, apresenta diversos momentos que remetem ao primeiro filme, a começar pelo plano do professor Jones dando aula, seguido pela referência à Arca da Aliança, a morte de um vilão que se transforma em esqueleto (que claramente lembra o rosto derretido) e, finalmente, até mesmo os próprios vilões nazistas estão presentes nos dois filmes.

Entre o elenco o destaque vai para Harrison Ford, que dá outro show na pele do arqueólogo Indiana Jones, e Sean Connery, que vive o pai de Indy. É impressionante notar como Ford se sente à vontade no papel do carismático herói. Ator e personagem se misturam e nem sequer podemos imaginar outro ator em seu lugar. Todos os trejeitos, olhares e até mesmo o timing cômico do personagem soam perfeitos graças ao talento de Ford. Repare, por exemplo, seu olhar de satisfação quando Elsa descobre que a página com o mapa foi arrancada do diário ou o seu sorriso de alivio quando Hitler autografa o diário. Já Sean Connery mostra seu talento desde sua primeira aparição, formando uma dupla perfeita com Ford. Famoso por interpretar James Bond (o pai cinematográfico de Indiana Jones), ninguém melhor do que ele para interpretar o pai de Indy e impor respeito. A química dos dois atores é perfeita, sendo responsável por diálogos deliciosos e cheios de sarcasmo, presenteando ainda o espectador com pelo menos dois momentos hilários, quando Henry Jones incendeia acidentalmente uma sala nazista e quando ele encontra uma passagem secreta, provocando a queda imediata de Indy pela escada. Mas apesar de cômica, a relação dos dois tem um traço de ressentimento perceptível em alguns momentos, como num diálogo expositivo que explica a morte da Sra. Jones. Observe, por exemplo, como o Sr. Jones chama Indy de “Júnior” diversas vezes, provocando a irritação do filho, como se ainda o visse como um menino. Note também como em diversos momentos Indy toma atitudes que lhe enche de orgulho próprio, mas seu pai olha com desaprovação, provocando sua imediata mudança de feição. A troca de olhares entre Ford e Connery, aliás, também provoca momentos muito engraçados, como quando eles conversam com os nazistas sobre o diário e quando o Sr. Jones diz que Elsa fala enquanto dorme, deixando claro que também dormiu com ela. No único momento em que tenta se abrir com o pai, Indy fica sem palavras, e novamente o roteiro toca na difícil relação entre pai e filho de maneira bem humorada, algo que se repetiria na cena em que Indy supostamente cai do penhasco, provocando a confissão de seu pai (“Achei que tinha te perdido”). Nesta cena, aliás, Spielberg cria um pequeno suspense antes de revelar, novamente com bom humor, a salvação de Indy. Fechando o elenco, temos ainda Alison Doody, que vive a sensual e perigosa Elsa Schneider com elegância, Denholm Elliott, interpretando o engraçado Marcus Brody e o retorno do fascinante Sallah, interpretado novamente com competência por John Rhys-Davies.

Também merece destaque o trabalho técnico feito em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, a começar pela montagem de Michael Kahn, que tem papel fundamental nas espetaculares seqüências de ação, alternando entre os vários planos com agilidade. Além disso, mantém a narrativa num ritmo sempre empolgante, o que é essencial numa aventura. Kahn ainda faz algumas transições interessantes, como no momento em que através do chapéu o jovem Indy se transforma no adulto Indiana Jones. A direção de arte de Stephen Scott, auxiliada pelos ótimos figurinos de Joanna Johnton e Anthony Powell e pela bela direção de fotografia de Douglas Slocombe, capricha na ambientação do espectador, criando três ambientes completamente diferentes. A beleza estonteante de Veneza contrasta com a gélida seqüência em território alemão e austríaco, ao passo em que o deserto tem um visual mais seco, refletindo o crescente desconforto de Indy na medida em que avança em sua missão. Slocombe também capricha na fotografia obscura dentro da caverna, iluminada somente com velas e tochas, além de carregar nos tons escuros como o preto e o vermelho que, auxiliado pelas tochas, conferem um ar infernal ao desfile nazista, simbolizando o mal encarnado naqueles vilões. Finalmente, merece destaque também o bom trabalho de som e efeitos sonoros, perceptível principalmente nas seqüências de ação.

Como não poderia deixar de ser, “Indiana Jones e a Última Cruzada” termina de forma bem humorada, revelando o nome completo de Indy e a origem de seu “Indiana”. Podemos citar ainda outros diversos momentos engraçados, como o barulho de Indy quebrando o piso enquanto um senhor carimba papéis, a fuga dos Jones de avião (“Nos atingiram!”) e a seqüência seguinte, quando o Sr. Jones diz que “Estão tentando nos matar! […] É uma experiência nova pra mim” e ouve Indy responder que “Acontece comigo toda hora!”. A mistura de ação e bom humor se revela a receita perfeita para esta aventura deliciosa, embalada por dois personagens extremamente carismáticos e por um roteiro muito inteligente.

Spielberg acerta novamente na condução de mais esta maravilhosa aventura do arqueólogo Indiana Jones. Aproveitando o carisma de seu herói e de seus atores, o diretor aborda seu tema preferido de forma bem humorada e envolve novamente o espectador, através de seqüências de ação incrivelmente criativas e, acima de tudo, de uma narrativa muito envolvente.

Texto publicado em 26 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

OS INTOCÁVEIS (1987)

25 março, 2010

(The Untouchables)

 

Videoteca do Beto #51

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Kevin Costner, Robert De Niro, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson e Peter Aylward.

Roteiro: David Mamet, baseado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness e Paul Robsky.

Produção: Art Linson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O estilo marcante e o visual refinado de Brian De Palma aparecem com força total neste tradicional confronto entre o bem e o mal, que conta como o agente do tesouro Eliot Ness conseguiu combater e prender o poderoso Al Capone, em pleno período da lei seca, na Chicago dos anos trinta. O ritmo empolgante, o impressionante visual e as marcantes atuações fazem de “Os Intocáveis” um filme muito interessante, que trouxe de volta os bons filmes de gângster ao cenário de Hollywood.

Nos anos trinta, a lei seca impedia o comércio de bebidas alcoólicas em Chicago, o que não quer dizer que este comércio não existia. Com praticamente todos os poderosos no bolso, Al Capone (Robert De Niro) mandava e desmandava na cidade. É quando o jovem agente Eliot Ness (Kevin Costner) é contratado para acabar com o reinado do terror e da corrupção e, ao lado do guarda de rua Jim Malone (Sean Connery), do contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e do novato policial Giuseppe Petri (Andy Garcia), forma uma equipe de homens corajosos e incorruptíveis, conhecida como “os intocáveis”.

O trabalho técnico merece grande destaque em “Os Intocáveis”, conseguindo ambientar perfeitamente o espectador à época. A começar pela magnífica recriação da Chicago dos anos trinta, resultado do trabalho em conjunto da excelente Direção de Arte de William A. Elliott e dos figurinos de Giorgio Armani e Marilyn Vance. Desde os charmosos carros, passando pelo interior dos ambientes – como o luxuoso hotel Lexington onde Capone se hospeda – até os elegantes ternos, sobretudos e chapéus, a sensação é de estarmos em outra época. O toque final no apurado visual vem da boa direção de fotografia de Stephen H. Burum, que utiliza cores dessaturadas freqüentemente, lembrando em diversos momentos imagens antigas de jornal. Além disso, Burum também utiliza um tom vermelho, que remete ao sangrento destino de Malone, quando sua surpreendente fonte é revelada – Mike (Richard Bradford) – e diz que ele é um homem morto. Pra completar o grande trabalho técnico, ainda nos créditos iniciais que aparecem sob o reflexo da sombra do nome do filme, podemos notar a qualidade da empolgante trilha sonora do ótimo Ennio Morriconne, que apresenta diversas variações interessantes durante o longa. Repare como a trilha indica tensão quando Ness, antes de invadir o primeiro depósito, vê um homem suspeito e se aproxima dele, somente para descobrir que era um repórter. Já após a frustrada batida, quando o desolado agente sai vagando triste pelas ruas até chegar à ponte, a trilha melancólica indica a tristeza dele. Finalmente, quando “os intocáveis” conseguem a primeira batida com sucesso, a trilha triunfal eleva ainda mais o grande momento.

Além do trabalho técnico, De Palma precisou contar também com um elenco afiado, pois a empatia do público com o quarteto principal é essencial para que “Os Intocáveis” funcione. Felizmente, o elenco corresponde. A começar por Sean Connery, numa atuação excepcional, notável desde a primeira aparição na ponte, quando tem seu primeiro contato com Eliot Ness, até sua terrível morte, onde transmite perfeitamente a dor de Malone, massacrado pelos tiros e mal conseguindo falar com Ness antes de seu último suspiro. Quem também está muito bem é Kevin Costner, no papel do correto Eliot Ness. Determinado em prender Al Capone, Ness é um personagem complexo, que tenta cumprir a lei, mas sabe que apesar de não querer, poderá ter que usar métodos que a própria lei proíbe para cumprir seu objetivo. Afinal, Malone foi bem claro com ele no interessante diálogo dentro da Igreja (“Você quer pegar Capone? É assim que se pega Capone: ele puxa uma faca e você, uma arma. Ele manda um dos seus para o hospital, e você manda um dos dele pra cova”). Mas Ness não consegue conviver tranquilamente com este violento ambiente, ficando claramente desconfortável quando mata um dos gângsteres de Capone. Por outro lado, sabe da enorme responsabilidade que tem nas costas, e o peso de sua missão fica evidente quando conversa com a mãe da garota morta na explosão do bar – e Costner é competente ao transmitir a angústia e preocupação do personagem neste momento. O ator também se mostra muito solto no papel, por exemplo, quando questiona ironicamente no meio da rua e com as mãos na cintura o novo amigo Malone (“Porque está me ajudando?”). A química entre os dois amigos, aliás, é essencial para a empatia do público e ambos têm sucesso absoluto. Repare como, após ficar transtornado por matar um homem, Ness rapidamente se reanima com as palavras diretas de Malone. Neste momento, aliás, Malone comprova sua astúcia ao utilizar um homem morto como elemento chave para conseguir a informação que precisava de um gângster capturado.O terceiro integrante da exemplar equipe é muito bem apresentado ao espectador, demonstrando sua habilidade com a arma na mão e sua forte personalidade ao confrontar sem medo o veterano Malone. Mas Andy Garcia, se não compromete, também não consegue grande destaque na pele do exímio atirador Stone (ou Giuseppe Petri). Finalmente, o quarto integrante do grupo é Oscar Wallace, interpretado por Charles Martin Smith, que se sai bem no papel do contador que cai de pára-quedas na missão e acaba tendo papel fundamental, ainda que saia cedo de cena. Seu melhor momento acontece quando, depois de sair atirando em tudo que vê pela frente, encosta num barril onde a bebida jorra e, após olhar para os lados e confirmar que ninguém está vendo, toma uns goles do líquido proibido. Finalmente, a razão da existência desta equipe de homens honestos é justificada pela marcante presença de Robert De Niro como o poderoso Al Capone, impondo respeito toda vez que entra em cena (De Palma acentua seu poder ao filmá-lo constantemente em ângulo baixo). Seu cinismo exala na tensa seqüência em que fala sobre beisebol e trabalho em equipe, momentos antes de espancar com o taco de beisebol um dos integrantes da máfia, numa cena extremamente violenta. Em dois momentos, De Niro tem um duelo direto com Costner e ambos transmitem muita segurança no que falam. No primeiro deles, Ness, inconformado com a morte de Wallace, invade o hotel Lexington e chama Capone pra briga. No segundo, Capone, derrotado nos tribunais, é provocado por Ness e precisa de alguns capangas para segurá-lo, tamanha a fúria que sentia. Fechando os destaques do elenco, Patricia Clarkson vive a serena esposa de Eliot Ness, se transformando na estrutura familiar que ele precisa para desempenhar sua função com sucesso.

“Os Intocáveis” conta também com o bom roteiro de David Mamet que, além da boa construção dos personagens, é repleto de frases marcantes, como a citada orientação de Malone sobre como se faz para pegar Capone e as polêmicas declarações do poderoso mafioso. Além disso, a montagem de Gerald B. Greenberg e Bill Pankow mantêm a narrativa num ritmo ágil, permitindo, por exemplo, que o espectador saiba quem são os personagens principais, quais são as suas motivações e o que está em jogo de forma rápida e direta, além de colaborar decisivamente na melhor cena do filme, dentro da estação de trem. E finalmente, chegamos a Brian De Palma. Diretor com grande apreço pelo visual estilizado, permite que o espectador note sua inventividade logo no primeiro plano, quando vemos em plongèe (filmado por cima) o poderoso Al Capone rodeado de jornalistas numa barbearia dizendo que “existe violência em Chicago, mas não vem de mim”. Em seguida, um lento travelling nos leva à porta de um bar onde uma pequena garota está entrando. A recusa do dono do bar em comprar cerveja contrabandeada, a presença da pequena garota e uma suspeita maleta “esquecida” por um gângster são os ingredientes de um início explosivo, que desmente logo de cara as palavras de Capone. O espectador sabe, a partir deste instante, do que o mafioso é capaz. Por isso, quando um gângster ameaça a família de Ness na porta da casa dele, o desespero do agente ao subir as escadas é compartilhado com o espectador, que leva um pequeno susto ao ver a cama vazia, acalmando-se com o movimento de câmera para a direita que mostra a filha dele. O diretor, aliás, abusa dos movimentos “não convencionais”, como a câmera que circula a mesa com os quatro intocáveis ou o travelling que sai da janela onde Ness e Wallace conversam sobre o imposto de Capone e revela que eles estão num avião. Em outro momento, a câmera funciona como o ponto de vista do invasor da casa de Malone, deixando o espectador grudado na cadeira até o violento desfecho da cena. De Palma é competente também na condução de seqüências espetaculares, como o flagra na divisa entre os EUA e Canadá, onde – embalada pela ótima trilha sonora – a montagem alterna muito bem entre os diversos planos, tornando a seqüência ainda mais empolgante. E, obviamente, demonstra seu talento na melhor cena do longa, durante a espetacular seqüência na estação de trem (uma bela homenagem a “O Encouraçado Potemkin”, de 1925). A câmera lenta mostra em detalhes o show orquestrado por De Palma, com o carrinho do bebê lentamente descendo as escadarias enquanto os gângsteres trocam tiros com Ness e Petri, num balé perfeito que é puro cinema.

Apesar do clima tenso, “Os Intocáveis” não é carregado dramaticamente. Mesmo assim, não deixa de ter cenas extremamente tocantes e tristes, como a morte de Wallace, que escancara de vez a corrupção da polícia de Chicago, e a atordoante morte de Jim Malone. Por outro lado, as empolgantes intervenções do grupo no tráfico de bebidas e o grande final garantem a sensação de satisfação ao espectador. A seqüência final, aliás, não poderia ser menos do que sensacional, iniciando quando Ness, agora poderoso após conseguir o julgamento, aparece gigante na tela ao sair da côrte (De Palma também utiliza um ângulo que o engrandece na tela). O inteligente roteiro utiliza o fósforo (“1634 Rancine”) como forma de indicar para Ness quem matou Malone (num artifício chamado pista e recompensa, que normalmente agrada muito ao espectador), dando início a outra ótima perseguição, ainda que tenha pequenos exageros (Ness erra um tiro a meio metro). E novamente, o estilo marcante de Brian De Palma aparece, quando após empurrar Nitti (Billy Drago), a câmera faz um movimento interessante buscando Ness em cima do prédio. O empolgante final, com a troca do júri e a prisão de Capone, completa a perfeita conclusão da narrativa.

Impecável tecnicamente, “Os Intocáveis” conta de maneira muito interessante como o poderoso Al Capone viu seu império cair diante do determinado agente Eliot Ness. O refinado estilo visual de seu diretor e suas grandes atuações fazem com que este seja um grande momento do cinema nos anos oitenta, explorando de maneira divertida um gênero normalmente mais pesado e mesmo assim, conseguindo sucesso absoluto.

Texto publicado em 25 de Março de 2010 por Roberto Siqueira