JANELA INDISCRETA (1954)

(Rear Window)

 

 

Filmes em Geral #58

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Grace Kelly, James Stewart, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Irene Winston e Alfred Hitchcock.

Roteiro: John Michael Hayes, baseado em estória de Cornell Woorich.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um homem discute com a esposa na janela de seu apartamento. Algum tempo depois, ela se deita no quarto, também com a janela aberta, e ele se senta no sofá da sala. Durante a madrugada, a janela do quarto está fechada, e o homem sai de casa com uma maleta. Volta pra casa muito tempo depois, somente para sair novamente, com a mesma maleta, mais algumas vezes. O quarto permanece fechado. Quando o dia amanhece, a esposa já não está mais lá. E como você ficou sabendo de tudo isto? Você ficou lá, na janela, vendo tudo acontecer, sem conseguir desviar o olhar ou fechar as cortinas. Esta pequena (e importante) seqüência de “Janela Indiscreta” é uma síntese perfeita do filme. A obra-prima de Alfred Hitchcock funciona, ao mesmo tempo, como um eficiente suspense e, principalmente, como um espelho erguido diante do espectador, que se descobre um verdadeiro voyeur na tela do cinema.

O fotógrafo profissional Jeffries (James Stewart) está preso em seu apartamento após quebrar a perna enquanto trabalhava no campo. Sem ter muito que fazer, ele passa a observar a vida dos vizinhos, apesar dos avisos de sua enfermeira Stella (Thelma Ritter) e da encantadora Lisa (Grace Kelly), que deseja se casar com ele. Só que esta pequena diversão se transformará numa verdadeira investigação quando ele vê algo suspeito acontecer num dos apartamentos vizinhos.

Confirmando a genialidade de Hitchcock já exposta em “Festim Diabólico” e “Disque M para Matar”, toda a narrativa de “Janela Indiscreta” se passa num único cenário, exigindo muito do talentoso diretor, que conta também com a excelente montagem de George Tomasini para evitar que a narrativa se torne cansativa, alternando muito bem entre os momentos de investigação do suposto crime e as divergências de Jeffries e Lisa. Além do bom ritmo, os movimentos de câmera de Hitchcock tornam o longa mais atraente, como quando a câmera passeia pela vizinhança até chegar ao apartamento onde Jeffries se encontra, nos ambientando logo de cara ao cenário da narrativa. Em seguida, a câmera passeia pelo apartamento dele também, passando por sua perna quebrada, pela foto de Lisa e pela máquina fotográfica, todos elementos essenciais na trama. Além disso, tanto a arquitetura do prédio como os objetos espalhados pelo apartamento – que falam muito sobre Jeffries – atestam o bom trabalho de direção de arte de J. McMillan Johnson e Hal Pereira. Mas o toque especial do trabalho de Hitchcock está na câmera subjetiva, que nos coloca na posição de Jeffries em muitos momentos, reforçando a tese de que o longa é uma metáfora para o próprio cinema. Ou seja, Hitchcock nos faz compartilhar da curiosidade do personagem pelas vidas particulares dos vizinhos. Assim como Jeffries, também estamos observando a vida alheia. Seja sincero: não é exatamente isto que procuramos quando vamos ao cinema?

Ainda na parte técnica, a fotografia dessaturada de Robert Burks muda gradualmente para tons mais obscuros na medida em que a narrativa avança (repare como as cenas noturnas predominam na parte final do longa), como podemos observar na cena em que Lisa e Jeffries fazem diversas suposições sobre o assassinato da esposa do vendedor, onde a fotografia sombria reforça a atmosfera tensa. Em outra cena, o olhar de Lisa indica algo estranho lá fora – algo reforçado pelo zoom de Hitchcock – e o casal se aproxima da janela para ver uma caixa enorme no apartamento do vendedor. O espectador passa a acreditar nas suposições do casal. Vale destacar também a trilha sonora “diegética” de Franz Waxman, que utiliza somente o som produzido pelos personagens (um pianista, por exemplo) para pontuar as cenas e até mesmo refletir os sentimentos de Jeffries.

Hitchcock é competente também na condução do elenco, afinal de contas, as atuações são essenciais para que o suspense de “Janela Indiscreta” funcione. Um dos atores preferidos do mestre do suspense, James Stewart mistura bem seu lado carismático com um delicioso sarcasmo, especialmente quando fala sobre casamento, como quando Lisa afirma que o compositor é um homem triste e ele responde que ele “provavelmente já foi casado”. Além disso, ele personifica muito bem o homem comum, o que facilita a empatia da platéia e reforça a tensão quando ele corre perigo. Num diálogo sobre o futuro, Jeffries deixa claro seu jeito simples e, ao mesmo tempo, seu espírito livre, de quem não quer ficar preso a um escritório e muito menos a uma relação estável e prefere viver viajando pelo mundo, ao contrário de Lisa, que sonha com um casamento e não esconde o desejo de ver seu amado de terno e gravata. E até mesmo os figurinos de Edith Head refletem estas características dos personagens, pois enquanto Lisa jamais repete uma roupa e se mostra sempre bem vestida, Jeffries mostra pouca preocupação com suas vestimentas, mostrando-se mais desleixado. Grace Kelly também está muito bem, mostrando empatia com Stewart e esbanjando charme e delicadeza, ao mesmo tempo em que se mostra incomodada com o “desprezo” de Jeffries pela vida que ela sonha em ter. E quando o casal passa a suspeitar do assassinato, as entonações das vozes tanto de Stewart quanto de Kelly envolvem a platéia completamente, nos fazendo embarcar junto com eles naquela investigação. Finalmente, a conversa sobre Lisa dormir no apartamento tem clara conotação sexual, também por causa da boa atuação da dupla, que mostra afinidade em cena. Apesar do rígido controle do “Código Hays” na época, Hitchcock sabia driblar a censura com destreza.

Quem também tem uma excelente atuação é Thelma Ritter, que vive a enfermeira Stella, com suas palavras diretas e seu jeito falastrão, que, segundo ela mesma afirma, fareja confusão. E é interessante notar como praticamente todos os personagens secundários do longa são interessantes, como os recém-casados que não param de transar, a mulher dona do cachorrinho, a “Srta. Coração Solitário”, a dançarina de balé e, obviamente, o vendedor, que terá participação importante na trama. Se a triste cena do jantar da “Srta. Coração Solitário”, embalada pela canção do vizinho compositor que toca piano, serve para nos emocionar, a briga entre o vendedor e a esposa servirá para plantar uma dúvida que nos atormentará durante boa parte da narrativa.

Esta dúvida começa a existir quando Jeffries observa a movimentação no apartamento do vendedor durante a madrugada – repare o interessante raccord que mostra o relógio dele e indica quanto tempo passou entre a saída do vendedor e o momento em que ele volta pro apartamento com a maleta. A chuva aumenta a angústia enquanto o homem repete o processo algumas vezes e, na manhã seguinte, o sumiço de sua esposa parece confirmar o crime. Inteligentemente, Hitchcock espalha alguns indícios do assassinato pela narrativa, como quando o vendedor limpa a mala, enrola um facão e uma serra num papel e, principalmente, quando o cachorro começa a fuçar no terreno em que o vendedor plantava flores. Só que os indícios de que não houve crime também existem e aparecem especialmente nas palavras do cético Thomas Doyle (Wendell Corey), criando um conflito na mente do espectador. Assim como entramos em conflito com os questionamentos de Lisa a respeito do que Jeffries estava fazendo. Mesmo assim, quando Lisa fecha as cortinas, após questionar se é ético observar a vida particular das pessoas, o espectador se sente incomodado, pois já foi envolvido por aquelas histórias paralelas e interessantes. Por isso, quando um grito rompe o silêncio lá fora, nós, assim como os personagens, queremos abrir a cortina imediatamente. E quando Lisa o faz, o cachorro morto reascende a teoria do assassinato, pois o vendedor é o único que não sai para escutar os gritos desesperados da dona do pobre animal. A teoria ganha mais força quando Jeffries compara as flores com uma foto tirada dias atrás e, conseqüentemente, a narrativa cresce em tensão.

Como de costume nos grandes filmes de Hitchcock, o clímax da narrativa é construído com perfeição. Quando Lisa e Stella decidem investigar as flores do jardim, a caída da noite aumenta a angústia da platéia, que, estrategicamente, está assistindo tudo sob o mesmo ponto de vista de Jeffries. Ou seja, assim como ele, estamos impotentes naquela situação. Quando Lisa decide invadir o apartamento do vendedor, o máximo que ele e o espectador podem fazer é torcer para que aquele homem não chegue a tempo de vê-la lá dentro. E então Hitchcock constrói um plano sensacional, onde vemos, simultaneamente, Lisa dentro do apartamento e o vendedor chegando, do lado de fora. Felizmente, a polícia atende ao chamado desesperado de Jeffries e chega a tempo de evitar a tragédia, levando a garota para a delegacia, mas deixando o vendedor livre. E enquanto a polícia prende Lisa, observe como Hitchcock faz questão de destacar o olhar do vendedor na direção da câmera, deixando claro que ele “nos descobriu”. Por isso, quando ele invade o apartamento de Jeffries minutos depois – em outra seqüência tensa muito bem conduzida pelo diretor, apenas com o som diegético indicando sua aproximação -, sua frase “O que você quer de mim?” serve tanto para Jeffries quanto para o espectador.

“Janela Indiscreta” é uma metáfora para o próprio cinema, que mostra como todos nós espectadores somos uma espécie de voyeur. Quer dizer então que somos todos bisbilhoteiros da vida dos personagens? Parece que sim. Mais uma vez, o mestre do suspense prova que com talento e criatividade (e um bom elenco), um cenário simples é suficiente para realizar um grande filme.

Texto publicado em 06 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

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4 Respostas to “JANELA INDISCRETA (1954)”

  1. OS PÁSSAROS (1963) « Cinema & Debate Says:

    […] É verdade que o longa não tem a mesma qualidade de obras-primas como “Psicose” ou “Janela Indiscreta”, mas está longe de ser um filme decepcionante. Apesar de alguns problemas, Hitchcock consegue […]

  2. UM CORPO QUE CAI (1958) « Cinema & Debate Says:

    […] M para Matar” e o “O Homem que sabia demais”, além de algumas obras-primas, como “Janela Indiscreta” e este “Um Corpo que Cai”, que marca o ponto alto de sua carreira, confirmado dois anos […]

  3. Ban Says:

    Excelente crítica, mas quando veremos a critica do Crepúsculo. =D
    Apesar, parabéns pelo blog!!! \o/

    • Roberto Siqueira Says:

      E aí Ban, blz? Quanto tempo! Como você está?
      Então, até pretendo escrever sobre Crepúsculo, só não sei quando.
      Valeu pelo elogio e um grande abraço!

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