AS PONTES DE MADISON (1995)

(The Bridges of Madison County)

 

Videoteca do Beto #122

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Meryl Streep, Clint Eastwood, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Sarah Kathryn Schmitt, Christopher Kroon, Phyllis Lyons, Debra Monk, Richard Lage e Michelle Benes.

Roteiro: Richard LaGravanese, baseado em livro de Robert James Waller.

Produção: Clint Eastwood e Kathleen Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Normalmente associado a filmes “viris” por causa de sua trajetória no western e nos filmes do policial “Dirty Harry”, Clint Eastwood já apontava em “Um Mundo Perfeito” os caminhos que trilharia como diretor. Mas pouca gente podia esperar que ele dirigisse um longa como “As Pontes de Madison” com tamanha sensibilidade, confirmando seu enorme talento ao abordar com maturidade temas universais como o amor proibido e o sacrifício.

Baseado em livro de Robert James Waller e roteirizado por Richard LaGravanese, “As Pontes de Madison” narra a história de amor entre Francesca (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, e Robert (Clint Eastwood), um fotógrafo da revista National Geographic, à partir de flashbacks que acompanham a leitura dos diários dela, entregues aos seus filhos após sua morte. Enquanto eles lêem e se envolvem com sua história, o espectador acompanha os quatro dias que ela passou com o fotógrafo durante uma viagem da família, vivendo um romance maduro e tocante, mas marcado por difíceis decisões.

Na época ainda marcado pelos papéis durões do passado, Clint Eastwood surpreendeu o público ao abordar com sensibilidade a história de renúncia de Francesca, uma mulher de meia-idade que, segundo ela mesma, largou os sonhos para priorizar o marido e os filhos. Emprestando um tom clássico à narrativa, o diretor emprega elegantes movimentos de câmera, como no plano-seqüência que acompanha Francesca correndo pra fora da casa para ver o carro de Robert sair na última noite, num dos momentos comoventes do longa. Auxiliado pela montagem de Joel Cox, Eastwood acerta ao alternar num bom ritmo entre planos médios e closes, evitando que a narrativa se torne cansativa, além de priorizar corretamente a linha narrativa do caso entre Robert e Francesca em detrimento daquela que acompanha os filhos dela. Explorando ainda a beleza da paisagem local com seus planos aéreos que destacam as fazendas e plantações da região, o diretor entrega um filme poético e repleto de planos simbólicos, como aquele em que Francesca fala com o marido ao telefone enquanto vê Robert partindo pela janela na primeira noite, indicando seus sentimentos conflitantes e sua melancólica situação. E não é belo notar que as próprias pontes de Madison simbolizam a possibilidade de alcançar novos caminhos? Não é à toa também que um crucifixo tem papel fundamental na trama, simbolizando o sacrifício da protagonista.

Quem também ressalta a melancolia da narrativa é a linda trilha sonora de Lennie Niehaus, especialmente em sua música tema, que embala os momentos especiais do casal. De maneira inteligente, Niehaus evita tornar a trilha repetitiva, utilizando as canções que tocam no rádio para embalar de maneira diegética o romance. Já a casa simples, típica do interior dos EUA (direção de arte de Jay Hart), e as roupas modestas dos personagens (figurinos de Colleen Kelsall) ambientam perfeitamente o espectador à época da narrativa, o que é importante para compreender o drama de Francesca, numa época em que largar marido e filhos para trás seria até mesmo uma afronta aos valores familiares – e o drama de uma mulher maltratada num restaurante porque traiu o marido só ressalta o pensamento dominante naquela pequena cidade do interior.

Empregando cores suaves e coerentes com a decoração da casa, a fotografia de Jack N. Green realça a sutileza com que Richard e Francesca se envolvem. Não existe um grande acontecimento que justifique a paixão repentina deles, não é um sentimento movido por algum acontecimento dramático, mas sim uma atração natural entre duas pessoas que enxergam na outra algo que não encontraram até então. Nada mais próximo da realidade e mais humano. Na medida em que a despedida se aproxima, Green passa a priorizar cenas noturnas e locais fechados, como um bar, refletindo a angústia do casal. Na cena do bar, aliás, o tom avermelhado também ressalta a paixão incandescente misturada ao sentimento de culpa de Francesca, indecisa entre seguir com Robert ou ficar com a família.

Interpretados por Victor Slezak, que vive Michael, e Annie Corley, que vive Caroline, os filhos de Francesca inicialmente se mostram revoltados com a carta e o pedido inusitado da mãe (ela quer ser cremada e ter as cinzas jogadas numa ponte). Michael é o mais inconformado e a situação só piora durante a leitura do diário. Caroline parece mais complacente, compreendendo o drama da mãe. Lentamente, ambos começam a refletir também sobre seus casamentos. Da mesma forma, eles descobrem que jamais notaram a vida triste que a mãe levava. Repare, por exemplo, o almoço em que Francesca se mostra sempre solícita aos pedidos do marido, enquanto os filhos, ainda que não percebam o que estão fazendo, sequer conversam com ela. Mas se por um lado eles podem se sentirem culpados, por outro eles se sentem traídos em certo momento da leitura, não pela paixão de Francesca, mas pela contradição entre seus ensinamentos e o que ela sentia.

Estes sentimentos contraditórios não são restritos aos filhos de Francesca, já que ela mesma viveu um complicado dilema. De maneira inteligente, o roteiro jamais apresenta seu marido Richard como um vilão (“Não consigo dormir sem você”, diz ele antes de viajar), o que só aumenta seu drama e evita que o espectador seja manipulado. Interpretado por Jim Haynie, Richard é um homem bom, que não percebe a infelicidade da esposa ou, como deixa claro no leito de morte, talvez até perceba, mas não sabe o que fazer para mudar esta situação. Sendo assim, como simplesmente largar sua família e fugir? O sofrimento de Francesca é compreensível, ainda mais numa época tão opressora. As mulheres de hoje, já muito mais independentes, podem se revoltar com a postura passiva dela. Porém, é importante relembrar a época e o local em que se passa a narrativa.

Responsável por balançar os alicerces de Francesca, o misterioso Robert é interpretado pelo diretor Clint Eastwood com desenvoltura e carisma, demonstrando com eficiência o sentimento que cresce no fotógrafo (“Não sei se consigo… Espremer toda uma vida entre hoje e sexta”, diz ele). Mas o grande destaque vai mesmo para Meryl Streep, que entrega uma atuação fabulosa desde os primeiros instantes, quando demonstra a timidez de Francesca no carro de Robert através da insegurança naquele primeiro contato mais próximo. Aliás, nesta seqüência vale destacar dois momentos especiais, quando ele toca a perna dela acidentalmente e quando ela não resiste e sorri ao ouvir que ele já esteve em Bari, sua cidade natal. Usando um sotaque convincente e coerente com a origem italiana da personagem, ela lentamente se solta e cria ótima química com Eastwood, chegando a fazer piada com as flores que ele colhe. Juntos, eles conseguem tornar os diálogos do ótimo roteiro ainda mais interessantes. Reforçando o cuidado na composição da personagem com pequenos detalhes, como ao tocar o corpo indicando que está com calor, Streep cria uma personagem trágica, demonstrando com competência a luta de Francesca para resistir àquela paixão. Observe, por exemplo, a tristeza com que ela afirma que os filhos “crescem” ou sua respiração ofegante, quase de adolescente, antes do primeiro beijo de Richard. Estes são apenas alguns momentos de uma atuação memorável.

A evolução do romance é lenta e verossímil, mas após o impulso inicial, Francesca parece saber o caminho que aquele relacionamento irá seguir. Ainda assim, ela não resiste e vive momentos inesquecíveis, sempre conduzidos com sensibilidade por Eastwood, como a dança na cozinha e a conversa ao lado da lareira. E se acerta nas cenas românticas, o diretor confirma sua habilidade nos momentos dramáticos, como o tocante diálogo na última noite em que as velas iluminam o melancólico jantar, chegando ao auge na última vez em que eles se vêem ao realçar a tristeza através da chuva e captar cada reação de Francesca com perfeição, em outro momento sublime da atuação de Streep. O nó na garganta é quase inevitável naquela troca de olhares, com Robert debaixo de uma forte chuva, que mais parece um lamento dos céus. E se toda a seqüência é emocionante, o plano da mão de Francesca ameaçando abrir a caminhonete é de partir o coração, numa cena que sintetiza a complexidade da situação. Por isso, assim como seus filhos, nós também compreendemos as ações dela e, mais do que isso, nos sentimos incapazes de julgá-la. E, no fim das contas, ninguém pode afirmar que ela seria feliz fugindo com ele. Como sabemos, o amor “idealizado” é sempre perfeito.

Com seu tom pessimista, “As Pontes de Madison” é um filme tocante, que aborda uma relação amorosa proibida entre duas pessoas da meia-idade de maneira sensível e verdadeira, sem jamais soar melodramático. Com grandes atuações – especialmente de Meryl Streep -, deixa inúmeros questionamentos ao final da projeção e confirma o talento de Eastwood na condução de dramas extremamente humanos. Na visão dele, a vida também é feita de sacrifícios. E ele tem razão.

Texto publicado em 27 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

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9 Respostas to “AS PONTES DE MADISON (1995)”

  1. Ezequiel Says:

    Um filme extraordinário merecia uma crítica perfeita. Parabéns Roberto.

  2. Mateus Aquino Says:

    É sem dúvida um filme BOM, mas só isso. O final quase estraga o filme. O filme não devia ser em flashback, e se terminasse na cena da maçaneta, teria um fim perfeito, deixando o destino da Francesca em aberto.

  3. Helena Says:

    Beto, permita-me postar aqui aquela que considero uma das mais belas declarações de amor no cinema, feita por Robert Kincaid a Francesca.

    “When I think of why I make pictures, the reason that I can come up with just seems that I’ve been making my way here. It seems right now that all I’ve ever done in my life is making my way here to you. ”

    “Quando penso em porque fotografo a única razão que me vem à mente é que passei minha vida tentando chegar aqui. Tenho a impressão de que tudo que fiz até hoje foi para chegar até você.”

  4. MArise Says:

    Caro Roberto…..sou frequentadora deste blog ha pouco tempo…..mas que alegria ler este seu comentario…..sua sensibilidade ao fazê-lo está a altura daquele de Clint ao dirigi-lo e atuar….obrigado

    e…falando de Meryl…..incansavel operaria da arte cinematografica, disposta a qualquer exposição, de Escolha de Sofia à “Ela é o diabo”…..não nos esqueçamos do recente Julie e Julia….onde a arte de interpretar segue sublime na suas mãos…..

    Boa entrada e bom ano

    Marise

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Marise,
      Obrigado pelo elogio, fico muito feliz! Sinta-se à vontade sempre que quiser comentar algo no Cinema & Debate.
      Quanto a Meryl, realmente, uma atriz fantástica.
      Feliz 2012 pra você e sua família também!

  5. Helena Says:

    Beto:

    Seu comentário sobre este filme maravilhoso está perfeito. Um verdadeiro presente de final de ano.

    As Pontes de Madison foi eleito pela AFI, como um dos 10 melhores filmes dirigidos ao público feminino, o que não impede que os homens de sensibilidade apreciem e admirem esta obra magistral de Clint Eastwood.

    Entre as inúmeras cenas comoventes deste filme, aquela que mais me tocou foi a da camionete, só uma grande atriz como Maryl Streep para interpretá-la com toda a carga emocional que a cena exigia.

    Desejo a você e a sua família um 2012 repleto de realizações, amor, paz e saúde!

    Um abraço.

    Helena

    • Roberto Siqueira Says:

      Obrigado pelo elogio Helena, fico muito feliz por suas belas palavras!
      A cena da caminhonete também me emociona bastante, que grande atriz é a Streep.
      Um feliz 2012 pra você e sua família também!
      Abraço.

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