O FRANCO-ATIRADOR (1978)

(The Deer Hunter)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #102

Vencedores do Oscar #1978

Dirigido por Michael Cimino.

Elenco: Robert De Niro, Christopher Walken, Meryl Streep, John Cazale, John Savage, Chuck Aspegren, Pierre Segui, George Dzundza, Shirley Stoler e Rutanya Alda.

Roteiro: Deric Washburn, baseado em argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker.

Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall e Barry Spikings.

O Franco-Atirador[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criar expectativas é algo sempre negativo quando falamos de cinema. Quanto maior a expectativa criada, maiores são as chances de nos decepcionarmos com um filme, ainda que este apresente um resultado agradável. Mas como não se empolgar quando os créditos iniciais anunciam nomes como os de Robert De Niro, Meryl Streep e John Cazale, além do menos badalado, mas também competente Christopher Walken? No entanto, ainda que seja tecnicamente bem realizado e tente apostar numa interessante abordagem intimista, “O Franco-Atirador” se perde completamente em seus aspectos políticos e éticos, chegando a soar ofensivo e racista pela maneira desprezível que o diretor Michael Cimino retrata os rivais norte-americanos na guerra do Vietnã.

Escrito por Deric Washburn a partir de argumento dele próprio ao lado de Michael Cimino, Louis Garfinkle e Quinn K. Redeker, “O Franco-Atirador” narra a trajetória dos amigos Michael (De Niro), Nick (Walken) e Steven (John Savage), que são convocados para a Guerra do Vietnã e se veem obrigados a deixarem a família e os amigos para trás. Após viverem experiências traumáticas no conflito, dois deles conseguem regressar ao país, mas a vida de todos os envolvidos nunca mais será a mesma após eles terem experimentado os horrores da guerra.

Partindo da interessante premissa de nos apresentar as graves consequências psicológicas provocadas pela guerra naquele grupo de trabalhadores de uma pequena cidade no interior dos EUA, “O Franco-Atirador” se apoia ainda em seu excepcional elenco, repleto de nomes capazes de carregar qualquer narrativa com facilidade. Portanto, é uma pena que Cimino utilize um elenco de primeira qualidade num filme tão maniqueísta, que beira o jingoísmo pela forma como retrata os vietnamitas (voltarei ao tema em instantes).

Ainda assim, o longa apresenta um resultado agradável quando observamos somente os aspectos técnicos da produção. Observe, por exemplo, como a fotografia de Vilmos Zsigmond realça o clima melancólico daquela cidade industrial, apostando em cores frias que casam bem com a sujeira das ruas e os galhos secos das árvores, assim como fazem os figurinos sem vida de Eric Seelig e os ambientes poucos iluminados concebidos pelo design de produção de Ron Hobbs e Kim Swados. Da mesma forma, os tristes acordes da canção tema reforçam esta atmosfera, assim como as boas músicas escolhidas para a trilha sonora de Stanley Myers, com exceção apenas da trilha erudita que confere um tom épico à caçada dos cervos nas montanhas.

Montanhas que são captadas com elegância pelos belos enquadramentos de Cimino, que ainda apresenta um bom repertório de planos e movimentos de câmera interessantes. Por isso, mais uma vez é lamentável que o diretor utilize este talento para enviar mensagens nada sutis, como quando faz questão de focar por um longo tempo a bandeira dos Estados Unidos e a faixa com os dizeres “Servimos a Deus e a pátria com orgulho”. Além disso, em certo momento um homem pergunta para Michael se “nós ganhamos a guerra” e fica sem resposta, escancarando a grande fantasia norte-americana de ter vencido no Vietnã, que ficaria ainda mais evidente nas produções vindouras do país durante a “era Reagan”.

Apostando numa abordagem mais intimista na primeira metade do filme, Cimino investe um longo tempo no desenvolvimento das relações entre os personagens, mostrando o grupo bebendo no bar e se divertindo, o que ajuda a criar empatia com a plateia. No entanto, o pretensioso diretor se empolga e estende demais a sequência do casamento e da festa, que claramente poderia ser enxugada pelo montador Peter Zinner para melhorar o ritmo da narrativa. Ainda assim, esta longa sequência serve para nos aproximar daquelas pessoas, especialmente de Michael e Nick, que evidenciam suas fortes personalidades durante a caçada que precede o embarque para o Vietnã. Assim, quando este momento se aproxima, já nos sentimos mais íntimos daqueles jovens, o que confere um tom ainda mais melancólico à cena da despedida no bar, com as expressões tristes dos personagens, a música tocada no piano e o próprio travelling lento de Cimino que é abruptamente cortado pelas explosões das bombas já no Vietnã.

Clima melancólicoServimos a Deus e a pátria com orgulhoPovo do VietnãDemonstrando um maniqueísmo nojento desde o primeiro minuto no Vietnã em que um soldado local surge explodindo mulheres e crianças, Cimino não se envergonha de retratar a guerra como um conflito claramente dividido entre os norte-americanos bonzinhos que vieram pregar a paz e os cruéis vietnamitas que se aglomeram e pagam para ver pessoas explodindo as próprias cabeças, esquecendo-se das motivações políticas desprezíveis que levaram os EUA a intervir naquela guerra. Aliás, o povo do Vietnã é retratado como um bando de idiotas, numa coleção de seres da pior estirpe, como assassinos, jogadores sedentos por sangue e prostitutas que vendem o corpo diante dos próprios filhos. Além disso, as manifestações em massa sempre buscam deteriorar a imagem daquelas pessoas, como no primeiro plano da volta de Michael ao Vietnã que mostra o povo tentando desesperadamente invadir a embaixada norte-americana.

Ciente de que suas cenas de combate não impressionam, Cimino rapidamente salta do momento da chegada ao Vietnã para a sequência em que Michael, Nick e Steven estão presos. Assim, se num instante acompanhamos o grupo sofrendo um bombardeio, na cena seguinte eles já surgem enjaulados, em outro corte abrupto que desta vez depõe contra o trabalho dele e de seu montador. Ao menos, aqui Cimino consegue criar momentos de alta tensão, extraindo ainda excelentes atuações de seu elenco. Observe, por exemplo, como John Savage demonstra com precisão o desespero e a angústia de Steven enquanto aguarda para ser chamado pelos cruéis vietnamitas, ao passo em que De Niro transmite tranquilidade ao parceiro e ao espectador com seu tom de voz baixo e controlado. Durante o jogo da roleta russa, De Niro novamente se destaca, demonstrando muito bem sua ira e, ao mesmo tempo, sua compaixão pelo sofrimento do amigo.

Aliás, Christopher Walken também apresenta um desempenho excepcional nesta sequência eletrizante, com seu riso tenso e o olhar assustado demonstrando que Nick não sabe o que esperar diante daquela angustiante situação, segundos antes de Michael atirar nos vietnamitas e conseguir escapar. E se repito por diversas vezes a expressão “vietnamitas”, é porque Cimino faz questão de sequer dar nome aos habitantes locais, na mais perfeita confirmação de sua visão ufanista do conflito. Deste ponto em diante, o solitário Nick começa a se desapegar do passado e a perder o sentido na vida, perambulando pelo Vietnã até se reencontrar nos perigosos jogos de roleta russa promovidos por um grupo clandestino local. Após as torturas sofridas na guerra, viver ou morrer era indiferente, apenas uma questão de sorte que ele estava disposto a encarar.

Entre os que ficaram nos Estados Unidos, John Cazale encarna Stoch como alguém que parece sempre irritado e desconfiado, ao ponto de andar com uma arma na cintura e transmitir a constante sensação de que está sempre pronto para uma briga, ao passo em que George Dzundza pouco pode fazer com o tempo que tem com seu John. E finalmente, a grande Meryl Streep já demonstrava seu talento neste que é apenas o seu segundo papel na carreira. Mesmo com uma participação relativamente pequena, ela consegue conferir humanidade a Linda, equilibrando-se entre a felicidade ao ver Michael de volta e a tristeza por não reencontrar Nick.

Angústia de StevenNick não sabe o que esperarHumanidade a LindaSentindo-se deslocado nesta volta ao país, Michael sequer consegue caçar e chega ao ponto de fazer a tal roleta russa com Stoch, num momento de pura insanidade que poderia tirar a vida do amigo. Demonstrando este incômodo com precisão, De Niro mais uma vez comprova sua enorme qualidade como ator, compondo outro personagem impactante através de suas expressões viscerais durante as torturas na guerra que se contrapõem diretamente aos olhares contidos em sua volta; que, por sua vez, refletem as graves consequências de tudo que ele sofreu.

Infelizmente, esta sequência da volta de Michael também é mais extensa do que deveria e quebra novamente o ritmo da narrativa, que só retoma o fôlego quando ele decide voltar ao Vietnã para resgatar o amigo perdido, nos levando a outra cena eletrizante envolvendo os jogos de roleta russa que culmina na impressionante morte de Nick – e aqui vale reparar como a fotografia se torna mais sombria, apostando na falta da luz para criar uma atmosfera sufocante. Após ver Steven ficar paralítico, Michael estava agora diante de um novo trauma, testemunhando a morte do amigo de maneira tão idiota.

Só que, aparentemente, nem mesmo os trágicos resultados da guerra fazem com que aquele grupo de pessoas questione as motivações de seu país, o que nos leva à deprimente cena que encerra “O Franco-Atirador”, com todos cantando “Deus abençoe a América” e confirmando a visão míope de Cimino. Assim, a longa extensão e o maniqueísmo exacerbado da narrativa acabam ofuscando a boa intenção de mostrar os trágicos resultados psicológicos e físicos da guerra.

O Franco-Atirador foto 2Texto publicado em 21 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

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AS PONTES DE MADISON (1995)

(The Bridges of Madison County)

 

Videoteca do Beto #122

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Meryl Streep, Clint Eastwood, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Sarah Kathryn Schmitt, Christopher Kroon, Phyllis Lyons, Debra Monk, Richard Lage e Michelle Benes.

Roteiro: Richard LaGravanese, baseado em livro de Robert James Waller.

Produção: Clint Eastwood e Kathleen Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Normalmente associado a filmes “viris” por causa de sua trajetória no western e nos filmes do policial “Dirty Harry”, Clint Eastwood já apontava em “Um Mundo Perfeito” os caminhos que trilharia como diretor. Mas pouca gente podia esperar que ele dirigisse um longa como “As Pontes de Madison” com tamanha sensibilidade, confirmando seu enorme talento ao abordar com maturidade temas universais como o amor proibido e o sacrifício.

Baseado em livro de Robert James Waller e roteirizado por Richard LaGravanese, “As Pontes de Madison” narra a história de amor entre Francesca (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, e Robert (Clint Eastwood), um fotógrafo da revista National Geographic, à partir de flashbacks que acompanham a leitura dos diários dela, entregues aos seus filhos após sua morte. Enquanto eles lêem e se envolvem com sua história, o espectador acompanha os quatro dias que ela passou com o fotógrafo durante uma viagem da família, vivendo um romance maduro e tocante, mas marcado por difíceis decisões.

Na época ainda marcado pelos papéis durões do passado, Clint Eastwood surpreendeu o público ao abordar com sensibilidade a história de renúncia de Francesca, uma mulher de meia-idade que, segundo ela mesma, largou os sonhos para priorizar o marido e os filhos. Emprestando um tom clássico à narrativa, o diretor emprega elegantes movimentos de câmera, como no plano-seqüência que acompanha Francesca correndo pra fora da casa para ver o carro de Robert sair na última noite, num dos momentos comoventes do longa. Auxiliado pela montagem de Joel Cox, Eastwood acerta ao alternar num bom ritmo entre planos médios e closes, evitando que a narrativa se torne cansativa, além de priorizar corretamente a linha narrativa do caso entre Robert e Francesca em detrimento daquela que acompanha os filhos dela. Explorando ainda a beleza da paisagem local com seus planos aéreos que destacam as fazendas e plantações da região, o diretor entrega um filme poético e repleto de planos simbólicos, como aquele em que Francesca fala com o marido ao telefone enquanto vê Robert partindo pela janela na primeira noite, indicando seus sentimentos conflitantes e sua melancólica situação. E não é belo notar que as próprias pontes de Madison simbolizam a possibilidade de alcançar novos caminhos? Não é à toa também que um crucifixo tem papel fundamental na trama, simbolizando o sacrifício da protagonista.

Quem também ressalta a melancolia da narrativa é a linda trilha sonora de Lennie Niehaus, especialmente em sua música tema, que embala os momentos especiais do casal. De maneira inteligente, Niehaus evita tornar a trilha repetitiva, utilizando as canções que tocam no rádio para embalar de maneira diegética o romance. Já a casa simples, típica do interior dos EUA (direção de arte de Jay Hart), e as roupas modestas dos personagens (figurinos de Colleen Kelsall) ambientam perfeitamente o espectador à época da narrativa, o que é importante para compreender o drama de Francesca, numa época em que largar marido e filhos para trás seria até mesmo uma afronta aos valores familiares – e o drama de uma mulher maltratada num restaurante porque traiu o marido só ressalta o pensamento dominante naquela pequena cidade do interior.

Empregando cores suaves e coerentes com a decoração da casa, a fotografia de Jack N. Green realça a sutileza com que Richard e Francesca se envolvem. Não existe um grande acontecimento que justifique a paixão repentina deles, não é um sentimento movido por algum acontecimento dramático, mas sim uma atração natural entre duas pessoas que enxergam na outra algo que não encontraram até então. Nada mais próximo da realidade e mais humano. Na medida em que a despedida se aproxima, Green passa a priorizar cenas noturnas e locais fechados, como um bar, refletindo a angústia do casal. Na cena do bar, aliás, o tom avermelhado também ressalta a paixão incandescente misturada ao sentimento de culpa de Francesca, indecisa entre seguir com Robert ou ficar com a família.

Interpretados por Victor Slezak, que vive Michael, e Annie Corley, que vive Caroline, os filhos de Francesca inicialmente se mostram revoltados com a carta e o pedido inusitado da mãe (ela quer ser cremada e ter as cinzas jogadas numa ponte). Michael é o mais inconformado e a situação só piora durante a leitura do diário. Caroline parece mais complacente, compreendendo o drama da mãe. Lentamente, ambos começam a refletir também sobre seus casamentos. Da mesma forma, eles descobrem que jamais notaram a vida triste que a mãe levava. Repare, por exemplo, o almoço em que Francesca se mostra sempre solícita aos pedidos do marido, enquanto os filhos, ainda que não percebam o que estão fazendo, sequer conversam com ela. Mas se por um lado eles podem se sentirem culpados, por outro eles se sentem traídos em certo momento da leitura, não pela paixão de Francesca, mas pela contradição entre seus ensinamentos e o que ela sentia.

Estes sentimentos contraditórios não são restritos aos filhos de Francesca, já que ela mesma viveu um complicado dilema. De maneira inteligente, o roteiro jamais apresenta seu marido Richard como um vilão (“Não consigo dormir sem você”, diz ele antes de viajar), o que só aumenta seu drama e evita que o espectador seja manipulado. Interpretado por Jim Haynie, Richard é um homem bom, que não percebe a infelicidade da esposa ou, como deixa claro no leito de morte, talvez até perceba, mas não sabe o que fazer para mudar esta situação. Sendo assim, como simplesmente largar sua família e fugir? O sofrimento de Francesca é compreensível, ainda mais numa época tão opressora. As mulheres de hoje, já muito mais independentes, podem se revoltar com a postura passiva dela. Porém, é importante relembrar a época e o local em que se passa a narrativa.

Responsável por balançar os alicerces de Francesca, o misterioso Robert é interpretado pelo diretor Clint Eastwood com desenvoltura e carisma, demonstrando com eficiência o sentimento que cresce no fotógrafo (“Não sei se consigo… Espremer toda uma vida entre hoje e sexta”, diz ele). Mas o grande destaque vai mesmo para Meryl Streep, que entrega uma atuação fabulosa desde os primeiros instantes, quando demonstra a timidez de Francesca no carro de Robert através da insegurança naquele primeiro contato mais próximo. Aliás, nesta seqüência vale destacar dois momentos especiais, quando ele toca a perna dela acidentalmente e quando ela não resiste e sorri ao ouvir que ele já esteve em Bari, sua cidade natal. Usando um sotaque convincente e coerente com a origem italiana da personagem, ela lentamente se solta e cria ótima química com Eastwood, chegando a fazer piada com as flores que ele colhe. Juntos, eles conseguem tornar os diálogos do ótimo roteiro ainda mais interessantes. Reforçando o cuidado na composição da personagem com pequenos detalhes, como ao tocar o corpo indicando que está com calor, Streep cria uma personagem trágica, demonstrando com competência a luta de Francesca para resistir àquela paixão. Observe, por exemplo, a tristeza com que ela afirma que os filhos “crescem” ou sua respiração ofegante, quase de adolescente, antes do primeiro beijo de Richard. Estes são apenas alguns momentos de uma atuação memorável.

A evolução do romance é lenta e verossímil, mas após o impulso inicial, Francesca parece saber o caminho que aquele relacionamento irá seguir. Ainda assim, ela não resiste e vive momentos inesquecíveis, sempre conduzidos com sensibilidade por Eastwood, como a dança na cozinha e a conversa ao lado da lareira. E se acerta nas cenas românticas, o diretor confirma sua habilidade nos momentos dramáticos, como o tocante diálogo na última noite em que as velas iluminam o melancólico jantar, chegando ao auge na última vez em que eles se vêem ao realçar a tristeza através da chuva e captar cada reação de Francesca com perfeição, em outro momento sublime da atuação de Streep. O nó na garganta é quase inevitável naquela troca de olhares, com Robert debaixo de uma forte chuva, que mais parece um lamento dos céus. E se toda a seqüência é emocionante, o plano da mão de Francesca ameaçando abrir a caminhonete é de partir o coração, numa cena que sintetiza a complexidade da situação. Por isso, assim como seus filhos, nós também compreendemos as ações dela e, mais do que isso, nos sentimos incapazes de julgá-la. E, no fim das contas, ninguém pode afirmar que ela seria feliz fugindo com ele. Como sabemos, o amor “idealizado” é sempre perfeito.

Com seu tom pessimista, “As Pontes de Madison” é um filme tocante, que aborda uma relação amorosa proibida entre duas pessoas da meia-idade de maneira sensível e verdadeira, sem jamais soar melodramático. Com grandes atuações – especialmente de Meryl Streep -, deixa inúmeros questionamentos ao final da projeção e confirma o talento de Eastwood na condução de dramas extremamente humanos. Na visão dele, a vida também é feita de sacrifícios. E ele tem razão.

Texto publicado em 27 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

ENTRE DOIS AMORES (1985)

(Out of Africa)

 

Videoteca do Beto #34

Vencedores do Oscar #1985

Dirigido por Sydney Pollack.

Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden, Leslie Phillips, Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda e Mohammed Umar.

Roteiro: Kurt Luedtke, baseado nas memórias de Isak Dinesen.

Produção: Sydney Pollack.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um romance vivido no Quênia entre uma dinamarquesa da alta classe social e um solitário caçador inglês embala este belo filme dirigido por Sydney Pollack. Baseado nas memórias de Isak Dinesen (no filme a baronesa Karen Blixen-Finecke), “Entre dois amores” retrata muito bem como duas pessoas podem se amar, mesmo tendo enormes diferenças entre si. Mostra também como, por outro lado, estas mesmas diferenças podem prejudicar uma relação que tinha tudo para dar certo.

Karen Blixen (Meryl Streep) é uma rica dinamarquesa que decide morar em uma fazenda no Quênia com o barão Bror Blixen-Finecke (Klaus Maria Brandauer), com quem se casou por conveniência para desfrutar dos benefícios que o casamento lhe garantiria em sua família. O problema é que este casamento entre amigos não é o suficiente para segurar Bror, que simplesmente não consegue viver na fazenda, saindo para caçar constantemente. Pra piorar a situação, pouco tempo depois o barão decide participar da guerra. Sozinha, Karen trabalha pra tocar a vida na fazenda e se adaptar ao novo lar. A situação começa a mudar quando conhece o aventureiro aristocrata inglês Denys Finch Hatton (Robert Redford), por quem se apaixona e tem uma relação amorosa que marca sua vida para sempre.

“Entre dois amores” é um festival de lindas imagens. Os belos planos que exploram a beleza da região, acompanhados de elegantes movimentos de câmera e travellings que sobrevoam as lindas paisagens, são capazes de tirar o fôlego do espectador. O diretor Sydney Pollack – sempre com enquadramentos perfeitos que poderiam se transformar em lindos quadros – apresenta uma direção segura e competente também nas raras seqüências de ação, como nas caçadas em meio à savana africana. Mas Pollack deixa claro que a África (neste caso o Quênia) não é feita somente de belezas naturais, contrapondo com precisão o luxo dos britânicos à miséria dos africanos logo na chegada de Karen ao local, graças ao excelente trabalho de direção de arte do trio Colin Grimes, Cliff Robinson e Herbert Westbrook e aos figurinos de Milena Canonero. Além disso, Pollack consegue criar momentos de incrível realismo e tensão em todas às vezes que envolve os temíveis leões, criando cenas fantásticas e incrivelmente bem montadas. A primeira cena em que uma leoa aparece, colocando a vida de Karen em perigo, é capaz de causar um frio na espinha do espectador. Por outro lado, o diretor também demonstra sensibilidade e capricha nas cenas românticas, com destaque para o primeiro vôo de Denys e Karen, a mais bela cena do filme. Um momento sublime, repleto de imagens de tirar o fôlego, acompanhado pela lenta e linda trilha sonora de John Barry. As imagens não necessitam de palavras para criar um espetáculo visual de primeira grandeza.

Complementando a excelente direção de Pollack, destaca-se o belo trabalho de montagem (crédito para Pembroke J. Herring, Sheldon Kahn, Fredric Steinkamp e William Steinkamp), perceptível no clipe em que Karen conta histórias pela primeira vez, onde o fogo da vela e da fogueira simboliza a passagem do tempo, mostrando também a capacidade de prender a atenção dos visitantes que ela tem. Outra transição interessante acontece quando Karen sabe da doença de Berkeley (Michael Kitchen) e na cena seguinte já vemos o enterro dele. A montagem também confere um ritmo lento, porém agradável à narrativa, o que é essencial num épico de longa duração. Interessante notar como os momentos ao lado de Denys parecem passar mais rápido que os demais, o que se revela bastante coerente, já que a estória é narrada sob o ponto de vista de Karen, obviamente entediada quando distante dele.

A cena em que Karen corre perigo diante de uma leoa marca também o momento de seu reencontro com Denys já no Quênia, após terem se conhecido durante a viagem de trem. O bom roteiro de Kurt Luedtke constrói lentamente o romance entre eles, desenvolvendo com calma os personagens e conferindo consistência para o ponto alto das atuações de Streep e Redford, quando finalmente os conflitos aparecem. Neste momento, suas motivações ficam claras para o espectador, pois sabemos que ela quer um casamento oficial, ao passo que ele deseja “apenas” ser feliz com ela, sem assinar papel e se prender às responsabilidades. “Eu viveria a vida inteira com alguém. Um dia de cada vez.”, explica Denys. Luedtke também acerta ao respeitar a cultura dos nativos africanos, mostrando sua resistência aos costumes ingleses e o sentido de liberdade existente nas tribos da região (especialmente os Masai), notável quando Denys diz que eles não pensam no futuro, vivem somente o presente. Por isso, se são presos morrem. Não conseguem pensar que um dia sairão da prisão. Outra sutileza do roteiro aparece na belíssima resposta de Denys ao Barão (“Devia ter perguntado antes Denys”. “Eu perguntei, ela disse sim”), que obviamente se referia à autorização dele para que Denys ficasse com Karen. A resposta diz muito sobre o personagem, que não entende que as pessoas pertençam a alguém. Em sua visão, todos são livres.

Denys, aliás, é um personagem fascinante, interpretado com competência por Redford, que oferece uma atuação sem excessos, coerente com o simples e idealista aventureiro. Inicialmente, ele parece não dar muita bola para Karen, o que só serve para chamar ainda mais a atenção dela. Por outro lado, a presenteia com uma caneta e uma bússola, o que dá sinais de seu possível interesse. Exímio caçador e profundo conhecedor da região, Denys é um homem livre, que sente prazer nas coisas simples da vida, como uma noite estrelada ou a paisagem das savanas. Seu jeito de viver passa a sensação de que jamais deixaria de fazer algo que gosta para ficar com Karen. Este, pelo menos, é o pensamento dela, o que não a encoraja largar o casamento de fachada, pois se sente insegura. Entretanto, ele é responsável pelos momentos mais marcantes da vida dela. Redford também se sai bem nos momentos cômicos, como nas duas cenas em que brinca com a palavra “Xô” dita por Karen. Klaus Maria Brandauer convence como o Barão Bror Blixen-Finecke, deixando sempre claro que realmente é casado por conveniência, traindo a esposa constantemente e sem fazer questão de esconder isto dela. Sua sinceridade é espantosa, mas como ela mesma propôs o “acordo”, não faria sentido reclamar. E finalmente, Meryl Streep confirma seu enorme talento, numa atuação marcante (repare o perfeito sotaque britânico). Seu casamento de conveniência começa a fazê-la infeliz e sua obrigação de tomar as rédeas da fazenda transforma Karen numa mulher forte, porém extremamente carente afetivamente. Ao conhecer Denys, seu coração balança. Ela sonha viver ao lado dele, mas infelizmente Denys não é este tipo de homem. Curiosamente, ele também não se adapta à vida na fazenda, mas diferentemente de Bror, demonstra carinho quando está com Karen. Durante uma festa de ano novo, o primeiro embate entre a ambição de Karen e a simplicidade de Denys acontece, assim como o primeiro beijo. Posteriormente, a realista discussão na fazenda entre o casal, a respeito do casamento e do compromisso que ele traz, mostra a filosofia do aventureiro em oposição à necessidade dela de sentir que o possui. Ela nunca o teve da forma que queria, mas sempre teve o seu amor e carinho. O problema é que Karen gostava de se sentir segura, como se um papel de casamento fosse garantir que Denys era dela. Ele era dela de fato, mas porque queria, e não porque um papel o obrigava. Só que Karen não entendia desta forma.

O triste e belo final da história é também uma lição. Karen foi forte o suficiente para se adaptar em um país totalmente diferente de seu local de origem. Conheceu pessoas maravilhosas, demonstrou seu lado mais nobre ao se preocupar em deixar seus empregados com algum lugar para viver, mas fracassou na tentativa de compreender o homem que mais amou na vida. Por outro lado, Karen viveu ao lado dele seus momentos mais marcantes, e com certeza, também marcou a vida dele, como Denys deixa claro ao dizer que ela fez sua vida solitária perder a graça.

Contando com duas grandes atuações, “Entre dois amores” capta com precisão a experiência de duas pessoas que se apaixonam lentamente, vivem esta imensa paixão, mas jamais conseguem compreender a natureza um do outro. Lindamente fotografado e dirigido com competência, seu ritmo lento parece prolongar sua duração, mas esta impressão é amenizada pelas lindas paisagens e a bela história de amor que narra. Por isso, se estabelece como um filme sensível, poético e inegavelmente belo.

Texto publicado em 07 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira