KARATÊ KID 3 – O DESAFIO FINAL (1989)

(The Karate Kid – Part III)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #163

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Ralph Macchio, Pat Morita, Robyn Lively, Thomas Ian Griffith, Martin Kove, Sean Kanan, Jonathan Avildsen, Randee Heller e Christopher Paul Ford.

Roteiro: Robert Mark Kamen.

Produção: Jerry Weintraub. 

Karatê Kid III - O Desafio Final[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após cometerem o grave erro de eliminar elementos básicos do sucesso do primeiro “Karatê Kid” no segundo filme da série, John G. Avildsen e Robert Mark Kamen corrigiram parcialmente este problema neste “Karatê Kid 3 – O Desafio Final”, que, mesmo não tendo a mesma qualidade do longa que inaugurou a franquia, ao menos resgata parte do charme e do carisma que marcou toda uma geração. Apostando novamente na empatia de seus personagens e na superação de seu protagonista, Avildsen entrega um resultado satisfatório, ainda que falhe ao sequer tentar revigorar sua estrutura narrativa já desgastada e formulaica.

Novamente escrito por Robert Mark Kamen, “Karatê Kid 3” nos leva de volta a Los Angeles onde, após retornar do Japão, Daniel Larusso (Ralph Macchio) é desafiado por Mark Barnes (Sean Kanan) a defender seu título no campeonato de caratê. Após recusar o convite, ele recebe uma série de ameaças e acaba aceitando o desafio. Só que desta vez Daniel não poderá contar com o apoio do Sr. Miyagi (Pat Morita), que se recusa a treiná-lo por entender que o caratê deve ser usado somente para defender a honra e não para conquistar troféus. Assim, Daniel acaba se envolvendo com o treinador Silver (Thomas Ian Griffith), mas esta ajuda se revelará mais perigosa do que parece.

Assim como ocorria no segundo e pior filme da franquia, “Karatê Kid” inicia recordando cenas dos longas anteriores, numa decisão que funcionaria muito bem numa série (uma espécie de “Previously on Karatê Kid”?), mas que aqui só realça a falta de confiança do diretor na memória do espectador. Em seguida, somos apresentados ao passado do professor Kreese (Martin Kove) no exército e descobrimos que após a derrota de seus alunos para Daniel ele está falido, num indício interessante de que Kamen finalmente tentará humanizar este personagem que infelizmente não se confirma, já que esta ideia logo é descartada e serve apenas para introduzir o pupilo Silver, amigo de Kreese que será o novo vilão.

Mantendo a tradição de vilões unidimensionais e caricaturais, Thomas Ian Griffith surge sempre com um sorriso cínico no rosto, numa composição que busca irritar o espectador (e consegue!) – e que chega ao auge no plano em que Daniel treina enquanto Silver surge rindo atrás da parede. Aliás, até mesmo quando fala sobre a suposta morte de Kreese, ele surge com este estranho sorriso no canto da boca que denuncia a mentira e não convence. Quase sempre com esta expressão irritante, Griffith ao menos consegue ser mais carismático que os outros vilões da série, convencendo quando finge ser amigo de Daniel e demonstra interesse em treiná-lo, ainda que o roteiro faça questão de revelar suas reais intenções logo de cara, eliminando qualquer possibilidade de surpreender o espectador. Já o garoto Sean Kanan encarna Mike como o novo valentão unidimensional que, ao menos, funciona como uma boa ameaça ao protagonista, enquanto o citado Martin Kove mais uma vez comprova sua incompetência ao compor Kreese da mesma maneira caricata que nos filmes anteriores.

Vilões unidimensionais e caricaturaisRindo atrás da paredeO novo valentãoApenas um ano após a épica vitória no campeonato de caratê, Daniel surge bem diferente fisicamente, numa falta de cuidado que, se não chega a atrapalhar, incomoda o espectador mais atento (afinal, se Daniel estava só um ano mais velho, Ralph Macchio já estava cinco). Compondo um Daniel mais agitado e inconsequente, Macchio talvez se exceda aqui e ali, mas em geral consegue manter parte do carisma do personagem. Com sua falta de confiança crônica cedendo espaço para a ansiedade, ele parece não perceber que, ao tentar corrigir um erro, acaba sempre cometendo outro ainda pior – e sabemos que esta vulnerabilidade torna Daniel mais humano e o aproxima da plateia. No entanto, é mesmo na química excepcional com Pat Morita que Macchio se destaca; e esta continua intacta neste último filme da série.

Bem diferente fisicamenteMais agitado e inconsequenteVulnerabilidadeTransmitindo a decepção de Miyagi com as decisões Daniel com precisão em seu rosto expressivo, Morita mais uma vez rouba a cena com suas frases marcantes (“Caratê por troféu de plástico não significa nada”), que se tornam ainda mais icônicas pela maneira como ele as pronuncia. Além disso, seu Sr. Miyagi volta a protagonizar cenas muito interessantes, como aquela em que ensina o “golpe da vassoura” para Daniel (num excelente alívio cômico) e aquela em que bate nos três vilões ao mesmo tempo – e é interessante notar como o espectador jamais teme pelo personagem, confiando plenamente nas habilidades dele após o que viu anteriormente. Por tudo isso, é decepcionante ter que testemunhar Morita dizendo algumas cafonices do roteiro, como a metáfora nada sutil que relaciona o Bonsai original destruído a Daniel.

DecepçãoGolpe da vassouraNova paixão do garotoPrejudicada pela breve separação entre mestre e pupilo, a amizade de Daniel e Miyagi cede espaço para Jessica, a nova paixão do garoto que deixa claro logo de cara que só quer sua amizade. Felizmente, ao contrário do que ocorria no filme anterior, a química entre Daniel e Jessica existe e, ainda que o romance jamais se concretize, a relação consegue convencer graças à boa atuação de Robyn Lively, que cria uma personagem simpática, confortando Daniel mesmo quando este surge nervoso e impaciente. Assim, a garota consegue suprir parcialmente o vazio provocado pela separação dos grandes amigos.

Conduzindo a narrativa num tom que beira a nostalgia, Avildsen nos brinda com lindas imagens durante o treinamento na montanha com vista para o mar, embalado pela bela trilha sonora instrumental de Bill Conti, que se contrapõe perfeitamente à trilha acelerada que só amplia a tensão na descida da rocha onde o Bonsai estava escondido. Já o diretor de fotografia Stephen Yaconelli decide apostar em tons mais sombrios que nos filmes anteriores, conferindo uma aura ameaçadora ao treinador Silver, por exemplo, quando este surge fumando e lendo num carro ou quando invade a casa de Miyagi. Da mesma forma, as sombras dominam a visita ao local alugado para a nova loja de Bonsai – num indício dos problemas que surgiriam ali -, ao passo em que a obscura despedida de Miyagi da antiga oficina apenas reflete sua tristeza.

Lindas imagens durante o treinamentoFumando e lendo num carroDespedida de Miyagi da antiga oficinaSeguindo outro padrão estabelecido pela série, os figurinos de Michael Chavez trazem Daniel vestido de branco e Mike vestido de preto no torneio final, da mesma forma que Silver sempre surge de preto nos treinamentos do protagonista, numa separação clara entre “o bem e o mal”. Por outro lado, a atmosfera criada por Avildsen na final consegue resgatar um pouco da magia do primeiro filme, ainda que as lutas soem falsas em grande parte do tempo. Entretanto, o maior problema é que Avildsen aposta novamente na desgastada fórmula dos filmes anteriores, com o protagonista apanhando até não poder mais até que, num único golpe, consiga derrotar o adversário. Ao menos, existe aí um componente nostálgico que deixa a plateia satisfeita com o que viu, mas é inegável que ao repetir sua história ao invés de desenvolvê-la, a série “Karatê Kid” estava mesmo fadada ao fim.

Daniel de brancoSilver de preto nos treinamentosLutas soam falsasApresentando uma narrativa muito mais envolvente que no longa anterior, “Karatê Kid 3” tem o mérito de resgatar parte da essência do primeiro filme, ainda que não tenha a mesma qualidade deste. Enriquecido também por vilões mais ameaçadores, o longa acerta justamente por compreender que a razão do sucesso da franquia estava na simplicidade com que abordava a relação extremamente humana entre o protagonista e seu sábio mentor. Prejudicado pela repetição de uma fórmula desgastada, está longe de ser um grande filme, mas pelo menos encerrou a simpática série com dignidade.

Karatê Kid III - O Desafio Final foto 2Texto publicado em 31 de Março de 2013 por Roberto Siqueira

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5 Respostas to “KARATÊ KID 3 – O DESAFIO FINAL (1989)”

  1. Douglas Says:

    Não gostei desse filme. A atuação dos vilões é patetica, assim como seu plano de vingança. Daniel tinha mostrado amadurecimento no segundo filme, inclusive na luta final, quando não “amarela” diante do japa, mesmo apanhando pacas (como já tinha apanhado o filme inteiro); enquanto no terceiro, toma atitudes infantis e precipitadas e na, luta fina,l se borra de medo.

    Sem contar que; na história, passa-se um ano, mas na vida real, passaram-se cinco! Daniel estava um ano mais nais velho em relação ao primeiro filme, mas Ralph Macchio estava cinco!

    Faria muito mais sentido se o terceiro filme tivesse sido o segundo é o segundo filme tivesse sido o terceiro.

  2. Alan Says:

    Gostei muito da crítica e todas as observações técnicas, muito bacana. Porém, discordo que esse é melhor que Karate Kid 2. Sobre o desenvolvimento de Daniel LaRusso, isto é mais evidente no segundo filme ao ter contato com a cultura e filosofia de Mr. Miyagi em Okinawa. A relação dos dois se intensifica e Daniel pode conhecer melhor questões sobre honra e coragem além de seus próprios problemas. A luta final traduz o desafio de honra, sem regras. Em KK3 vejo um Daniel perdendo o que aprendeu, voltando a ser imaturo em muitos momentos. Mas, concordo que características do primeiro filme retornam e sinto muito não notar evolução no próprio caratê de Daniel. Pat Morita salva o filme, pois ele sim é o mesmo do primeiro (e assim é o Mestre) e continua proporcionando aquele olhar de alegria, tristeza e coragem. Cresci assistindo esses filmes e, por mais que ache esse terceiro o mais fraco, assisto repentinamente a trilogia (pelo amor de Deus, esqueçam Karate Kid 4 hehehe).

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Alan,

      Obrigado pelo comentário. Respeito sua opinião e entendo seu ponto de vista.

      Um grande abraço.

  3. Anônimo Says:

    As maioria das pessoas não entendem que este não é mais um filme de pancadaria e sim de ensinamentos…as falas do sr Miyagi ,valem muito mais que qualquer luta.Em todos os filmes,inclusive o com Jaden Smith,fica claro que o karate é mais que uma luta,que o karate está em tudo…então só entende o filme quem tem sensibilidade e um pouco de sabedoria….Ah,gostaria de saber se alguém sabe o nome da música instrumental que toca durante o treino de catar quase no final do filme 3….linda música que nos dá a sensação de estarmos no Japão…

  4. Nelio Dias Says:

    O filme seria muito bom se não fosse pelo fato de Daniel LaRusso ser um fracote débil que leva porrada o filme todo, e… de uma hora pra outra acerta um único golpe crucial, vence, fica campeão… e… o filme acaba! :\
    Neste filme ele não tem a mínima pinta de campeão de karatê! :\

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