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TOY STORY 2 (1999)

31 janeiro, 2017

(Toy Story 2)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #233

Dirigido por John Lasseter, Ash Brannon e Lee Unkrich.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Don Rickles, Jim Varney, Kelsey Grammer, John Ratzenberger, Wallace Shawn, Annie Potts, John Morris, Laurie Metcalf, Estelle Harris, R. Lee Ermey, Andrew Stanton, Joe Ranft, Rodger Bumpass, Frank Welker e Robert Goulet.

Roteiro: Andrew Stanton, Rita Hsiao, Doug Chamberlin e Chris Webb, baseado em argumento de John Lasseter, Pete Docter, Ash Brannon e Andrew Stanton.

Produção: Karen Robert Jackson e Helene Plotkin.

toy-story-2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos após revolucionar a animação no cinema e inaugurar a quase impecável filmografia da Pixar, era inevitável que o mega sucesso de público e crítica “Toy Story” ganhasse uma continuação. O grande temor, no entanto, era que esta continuação fosse simplesmente uma mera desculpa para ganhar dinheiro, desperdiçando o enorme potencial dramático que o material original continha. Felizmente, a Pixar deixou claro desde então que, por mais que erre aqui ou ali, sua capacidade de acertar é infinitamente maior, entregando uma continuação admirável, superior tecnicamente e nivelada em termos narrativos ao seu antecessor.

Escrito a oito mãos por Andrew Stanton, Rita Hsiao, Doug Chamberlin e Chris Webb, “Toy Story 2” nos leva novamente ao quarto de Andy (voz de John Morris), onde seus divertidos brinquedos se preparam para o acampamento de verão em que Woody (voz de Tom Hanks) mais uma vez acompanharia seu dono. No entanto, após sofrer um acidente e ter seu braço direito rasgado, Woody é deixado para trás e acaba sendo sequestrado por um colecionador de brinquedos, levando Buzz (voz de Tim Allen), Rex (voz de Wallace Shawn) e companhia a partirem em busca de seu resgate.

Impecável tecnicamente, o trabalho dos animadores da Pixar se destaca logo nos primeiros instantes, numa sequência de abertura inspirada que nos leva pela pequena aventura de Buzz no espaço e culmina num final muito criativo, já prendendo a atenção da plateia desde o início e resgatando a relação de cumplicidade entre aqueles queridos personagens e o espectador. Claramente trazendo uma evolução gráfica em relação ao filme anterior, a qualidade da animação impressiona pela riqueza de detalhes, como quando os olhos de Rex se movem quando a mãe de Andy (voz de Laurie Metcalf) recolhe os brinquedos para colocar na venda de usados, refletindo sua aflição ao sentir a aproximação dela.

Ainda na parte técnica, a fotografia de Sharon Calahan traz uma abordagem mais sombria em alguns momentos ao adotar cores escuras, como no clímax no aeroporto ou no duelo entre Buzz e o Imperador Zurg (voz de Andrew Stanton, que viria a dirigir filmes da Pixar depois). Além disso, acerta em cheio na escolha do sépia para realçar a aura nostálgica do passado de Woody (e do western de maneira geral), contrastando com o colorido do quarto de Andy e o dourado que embala a sequência mais emocionante do filme (voltaremos a ela em instantes). Já a montagem de Edie Bleiman, David Ian Salter e Lee Unkrich, além de imprimir um ritmo empolgante à narrativa, acerta ainda em momentos delicados e elegantes, como a transição do desenho do “homem-galinha” da tela de um brinquedo para o homem real.

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Transitando muito bem entre a comédia e a melancolia, os diretores John Lasseter, Ash Brannon e Lee Unkrich adotam a mencionada abordagem mais sombria nesta continuação, trazendo novos personagens e elementos narrativos que fortalecem a trajetória de Woody, Buzz e os demais carismáticos brinquedos, tornando-os ainda mais próximos de todos nós. Apostando no infalível sentimento nostálgico que os brinquedos evocam nos adultos e em inspiradas gags que divertem as crianças, o longa não erra em praticamente nada nos aspectos narrativos e temáticos, graças a condução dos diretores e a qualidade do roteiro.

Entre os inúmeros momentos engraçados, gosto particularmente daquele em que o porquinho (voz de John Ratzenberger) troca de canais rapidamente para achar o “homem-galinha” com o Rex desesperado ao seu lado. A sequência na loja de brinquedos também é muito inspirada e aproveita praticamente todas as oportunidades que a situação oferece para nos fazer rir, passando pelo corredor do Buzz Lightyear, o imperador Zurg e principalmente na hilária passagem pelas Barbies. Aqui, aliás, acontece uma das diversas referências aos grandes clássicos do passado no plano que realça o T-Rex no retrovisor do carro exatamente como ocorria em “Jurassic Park”. Entre outras referências, temos ainda os arremessos com o pai em “Campo dos Sonhos”, as notas musicais da trilha de “2001” e a óbvia referência à “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca”. Vale destacar também as sequências de ação muito bem conduzidas pela câmera ágil dos diretores, como no empolgante ato final no aeroporto, desde quando passarmos junto com os personagens pelo check-in e iniciarmos a viagem pelas esteiras ao lado das malas até o dinâmico trecho que se passa na pista e no avião.

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Só que, curiosamente, as cenas mais marcantes de “Toy Story 2” não são recheadas de energia. Um verdadeiro capitulo a parte dentro do filme, a aparição do velhinho que conserta Woody é fabulosa, trazendo à tona um personagem carismático dos famosos curtas da Pixar de maneira peculiar e apaixonante, assim como a cena mais tocante do longa, que sequer envolve diretamente o protagonista. Exalando sensibilidade e delicadeza, o pequeno clipe que narra a história de Jessie (voz de Joan Cusack) é comovente e já anunciava ainda em 1999 a enorme capacidade da Pixar de tocar o espectador em poucos minutos (algo que voltaria a ocorrer, por exemplo, em “Up – Altas Aventuras”), além de ser visualmente belíssimo com seus tons dourados que remetem a melhor época da vida da boneca contrastando com o tom melódico e triste da linda canção que embala a sequência.

E já que mencionei a cowgirl, vale dizer que a introdução de Jessie, Bala no Alvo (voz de Frank Welker) e Pete (voz de Kelsey Grammer) é extremamente eficiente e acrescenta muito a narrativa, trazendo elementos importantes para compreendermos o passado e a história de Woody e engrandecendo-o ainda mais como personagem. Remetendo aos tempos áureos do western e novamente abordando o conflito de gerações e a transição da época dos caubóis para a época dos astronautas no imaginário infantil após a corrida espacial, o conflito entre o velho e o novo também ganha mais força pela forma nostálgica que somos apresentados a história de Woody, através de fitas de videocassete, toca discos e brinquedos já anacrônicos, que soam como doces lembranças na memória dos espectadores mais velhos. Além disso, o roteiro encontra ainda um pequeno espaço para enviar uma mensagem de respeito as diversidades ao mostrar como Woody é simplesmente deixado de lado após ter seu braço rasgado e perder sua “perfeição”, reencontrando brinquedos abandonados que viveram seus dias de glória num passado não muito distante e sentindo na pele o quanto a rejeição é dolorosa.

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A música cantada por Wheezy (voz de Robert Goulet) encerra “Toy Story 2” no mesmo clima alegre que o primeiro filme encerrava, mas desta vez temos ainda os divertidos erros de gravação que, além de revelar a já latente criatividade da Pixar, também nos aproxima mais daqueles personagens ao torna-los críveis dentro do que é possível numa animação – e de quebra, revela bastidores das produções hollywoodianas de maneira bem humorada, como ao mostrar Pete paquerando as Barbies gêmeas e as brincadeiras de Woody com Buzz. Aliás, o próprio conceito de erros de gravação numa animação não deixa de ser uma situação hilária.

Resgatando a aura nostálgica que tornou “Toy Story” uma animação tão especial, “Toy Story 2” acerta ao trazer novidades para a trajetória do caubói e do astronauta mais queridos dos anos 90, preparando o terreno para seu terceiro e derradeiro capítulo que, como sabemos, seria responsável por uma verdadeira comoção em toda uma geração.

toy-story-2-foto-2Texto publicado em 31 de Janeiro de 2017 por Roberto Siqueira

À ESPERA DE UM MILAGRE (1999)

14 março, 2016

(The Green Mile)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #223

Dirigido por Frank Darabont.

Elenco: Tom Hanks, David Morse, Michael Clarke Duncan, Bonnie Hunt, James Cromwell, Jeffrey DeMunn, Barry Pepper, Doug Hutchison, Michael Jeter, Graham Greene, Sam Rockwell, Patricia Clarkson, Harry Dean Stanton, Bill McKinney, Brent Briscoe, Gary Sinise, Rachel Singer, William Sadler, Dabbs Greer e Eve Brent.

Roteiro: Frank Darabont.

Produção: Frank Darabont e David Valdes.

À Espera de um Milagre[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Frank Darabont parece ter nascido para adaptar os livros de Stephen King para o cinema. Após realizar um dos filmes mais marcantes de sua geração (a obra-prima “Um Sonho de Liberdade”), o diretor resolveu retornar ao ambiente prisional e aos contos de King e, mais uma vez, nos presenteou com um filme tocante, capaz de prender nossa atenção mesmo com sua longa duração e, ao final dela, nos jogar para fora da sala (de projeção ou não) com a sensação de termos testemunhado algo realmente impactante.

Escrito, dirigido e produzido pelo próprio Darabont (a produção dividida com David Valdes), “À Espera de um Milagre” narra uma parte importante do passado do ex-chefe da guarda de um corredor da morte nos anos 30 chamado Paul (Tom Hanks/Dabbs Greer), que vê sua vida mudar completamente após a chegada do condenado John Coffey (Michael Clarke Duncan), acusado de estuprar e matar duas crianças. Tendo que lidar com o complicado cotidiano da “milha verde” (nome dado ao local pela cor de seu chão) ao lado dos colegas de profissão Brutus Howell (David Morse), Dean Stanton (Barry Pepper), Harry Terwilliger (Jeffrey DeMunn) e Percy (Doug Hutchison), Paul vive uma experiência que refletirá no resto de sua vida nos poucos dias que convive com aquele homem diferenciado.

Apostando numa estrutura narrativa que utiliza um longo flashback após uma pequena introdução, Darabont nos leva aos anos 30 com competência através da precisa ambientação do design de produção de Terence Marsh e dos figurinos de Karyn Wagner, responsáveis pelos carros, uniformes, objetos de decoração das casas e da prisão, entre outros detalhes importantes para nos transportar para aquela época. No entanto, este nível de realismo contrasta diretamente com a abordagem fabulesca escolhida pelo diretor, evidente através dos tons em sépia utilizados pelo diretor de fotografia David Tattersall que, como de costume, remetem ao passado, mas ao mesmo tempo reforçam esta atmosfera de fábula pretendida por Darabont, o que se revela uma decisão inteligente e coerente com o material que inspira o longa, já que o roteiro traz elementos nada naturais como os misteriosos milagres de John e a presença de um rato nada comum.

A metáfora envolvendo o rato, aliás, é bem interessante. Enquanto alguns têm o impulso inicial de querer pisar no rato por considerá-lo impuro e nada digno de conviver conosco, outros preferem adotá-lo, dar carinho e proteção, compreendendo seu universo, exatamente como fazem a maioria daqueles guardas diante dos condenados à pena de morte. Assim, “À Espera de um Milagre” claramente questiona a nossa postura enquanto sociedade diante daqueles homens. Enquanto alguns tentam criar um clima ameno antes das execuções (“Você devia ver esse lugar como uma ala de tratamento intensivo”, diz Paul para Percy), representando a parcela da sociedade que tenta encontrar alguma humanidade naqueles condenados, outros são representados pelo agressivo Percy, que inferniza cada minuto de vida restante deles (já ouviu o jargão “Bandido bom é bandido morto”?).

Até por isso, a atmosfera fabulesca dá lugar a uma aura muito mais pesada na noite das execuções, especialmente na execução de Delacroix, na qual a chuva que cai e os raios que iluminam o local antecipam a sensação de que algo terrível iria acontecer – até mesmo a trilha sonora de Thomas Newman (parceiro de Darabont em “Um Sonho de Liberdade”) reflete isso em seus acordes mais pesados. E de fato sua execução é a que tem o maior impacto visual, servindo para escancarar a crueldade do processo de aplicação da pena de morte e arrancando expressões de dor e angústia até mesmo das pessoas que assistiam antes satisfeitas à tudo aquilo – e, provavelmente, do próprio espectador, que naquele instante já estava familiarizado com Delacroix e, por isso, sofre ainda mais.

Tons em sépiaMetáfora envolvendo o ratoExecução de Delacroix

Aliás, um dos segredos do sucesso de “À Espera de um Milagre” está no excelente desenvolvimento de seus personagens, conduzido com cuidado e sem pressa alguma, mesmo que para isso o ritmo empregado pelo montador Richard Francis-Bruce (outro que trabalhou em “Um Sonho de Liberdade”) torne o filme mais extenso. Ao longo da narrativa, nos tornamos tão próximos daquelas pessoas que praticamente somos confidentes de suas frustações, anseios e pensamentos mesmo dentro de um ambiente tão cruel. Ao fazer isso, o roteiro nos coloca do outro lado do corredor da morte, nos fazendo sentir o peso das horas que aproximam cada vez mais aquelas pessoas do fim. Por isso, quando vemos a forte imagem do rosto de Bitterbuck (Graham Greene) após sua execução, por exemplo, imediatamente lembramos seu tocante diálogo com Paul momentos antes e sentimos.

Assim como ocorre na parte técnica, alguns nomes do elenco também haviam trabalhado com Darabont em “Um Sonho de Liberdade”, como William Sadler que aqui tem rápida participação como o pai das garotas. Outra parceria que se repete rapidamente é entre Tom Hanks e o ótimo Gary Sinise, na cena em que o advogado de defesa Burt fala sobre John Coffey e o compara ao seu vira-lata, num discurso racista ofensivo e nojento que representa o pensamento de boa parte da sociedade daquela época. Já o arruaceiro Wild Bill é interpretado por Sam Rockwell de maneira estridente e com boas doses de humor, o que funciona para quebrar o ritmo pesado que a narrativa poderia ter ali. Assim, apesar do ambiente hostil, tanto esteticamente quanto pela maneira como conduz a narrativa, Darabont não transforma “À Espera de um Milagre” num filme pesado em boa parte do tempo, o que é essencial para que o espectador não sinta sua longa duração.

Ainda entre o elenco secundário, Brutus Howell é vivido por David Morse como alguém forte, determinado, mas dono de um grande coração, convencendo como um guarda competente em sua função e muito humano. Doug Hutchison, por sua vez, cria um Percy extremamente odiável e unidimensional, parecendo agir somente pelo prazer de ver aqueles condenados sofrerem. O contraste entre eles, aliás, reforça a tese de que Darabont deseja erguer um espelho diante do espectador e perguntar com quem ele se identifica. Ator ideal para um papel que exige a confiança e a credibilidade do espectador, Tom Hanks assume Paul com seu carisma inegável, mostrando firmeza quando necessário, mas conferindo imensa humanidade aquele homem que tem sua vida transformada após a chegada de John – e se acreditamos em tudo que vemos na tela é também por que sabemos que o narrador da história é ele.

No entanto, é inegável que o dono de “À Espera de um Milagre” é mesmo Michael Clarke Duncan. Ciente disso, Darabont segura ao máximo até revelar o rosto de John Coffey, brincando com nossa expectativa o quanto pode até revelar aquele homem imponente fisicamente e dono de uma voz tão marcante, mas que, ao contrário do que o preconceito pode nos fazer pensar, se destaca mesmo pela sensibilidade. O sucesso do personagem, obviamente, passa muito pela performance estupenda de Duncan, numa atuação hipnótica que conquista o espectador com seu carisma e a dor palpável do personagem diante de tanto sofrimento neste mundo. Transbordando amor e compaixão, ele transforma aquele condenado em nosso porto seguro no filme, encarnando o papel de uma espécie de anjo naquela fábula sobre a vida e a morte – e o plano final da linda cena em que ele assiste a um filme pela primeira vez escancara isso. Quando John finalmente diz que está cansado, compreendemos suas motivações e aceitamos sua decisão, mesmo contrariados por entender o que ela representa. Jamais sabemos desde quando John perambula pela Terra ajudando as pessoas, mas seu olhar pesado e sua expressão cansada nos dão a entender que já faz tempo suficiente para que ele decida deixar tudo isso para trás.

Talvez o único senão do roteiro seja a previsibilidade da revelação de que John é inocente, evidente desde o princípio. Uma confirmação de que ele era culpado teria um peso dramático infinitamente maior, mas destoaria da natureza bondosa do personagem, por isso, imaginamos desde o início que ele estava na realidade tentando salvar as meninas quando foi capturado. Por outro lado, o roteiro acerta em cheio ao não explicar a natureza do dom de John, deixando no campo da imaginação qualquer explicação e reforçando a característica fabulesca da narrativa.

Imensa humanidadeEspécie de anjoCura de Melinda

São tantos os belos momentos do filme que fica difícil destacar alguns, mas podemos citar a cura de Melinda (Patricia Clarkson), carregada de energia e que é um destes instantes em que podemos sentir a dor de John, além do diálogo entre Paul e Brutus sobre a imaginária Mouseville com Delacroix, que reforça o forte traço de humanidade presente naqueles personagens, numa cena interrompida de maneira brusca pela ação cruel de Percy, que pisa no rato e nos leva a outro milagre de John.

Conduzindo a narrativa com segurança e sem medo de investir um longo tempo na construção dos personagens e suas relações, Darabont chega ao ato final ciente do tamanho da carga emocional que a execução de John terá. Assim, conduz a cena com calma, nos colocando ao lado do prisioneiro sem jamais nos deixar esquecer a dor daqueles pais que perderam suas preciosas filhas, numa cena tocante e triste. A qualidade das interpretações de todo o elenco neste momento torna tudo ainda mais real, levando personagens e plateia às lágrimas.

Tocando mesmo que superficialmente no difícil tema da pena de morte, “À Espera de um Milagre” acaba se revelando como uma reflexão sobre a natureza da morte. Qual o papel dela em nossas vidas? Conseguiríamos lidar com o fardo do passar dos anos e da perda das pessoas amadas caso fossemos agraciados com a eternidade? São inúmeras questões levantadas em meio a uma narrativa repleta de amor, bondade e empatia. Tudo isso, no menos improvável dos ambientes. Darabont é mesmo um milagreiro.

À Espera de um Milagre foto 2Texto publicado em 14 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

23 fevereiro, 2014

(Saving Private Ryan)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #186

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Tom Hanks, Adam Goldberg, Vin Diesel, Edward Burns, Tom Sizemore, Giovanni Ribisi, Barry Pepper, Matt Damon, Paul Giamatti, Ted Danson, Jeremy Davies, Dennis Farina, Max Martini, Dylan Bruno e Leland Orser.

Roteiro: Robert Rodat.

Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn e Steven Spielberg.

O Resgate do Soldado Ryan[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Cinco anos após abordar os efeitos trágicos do regime nazista sobre o povo judeu no belo “A Lista de Schindler”, Steven Spielberg resolveu voltar à Segunda Guerra Mundial, desta vez sob a perspectiva de soldados norte-americanos e a partir do momento chave do conflito, conhecido como o “Dia D”. No entanto, se no primeiro a abordagem era mais intimista e melancólica, desta vez o diretor foca a ação, criando cenas memoráveis enquanto acompanha uma missão de resgate no meio do combate. Semelhantes tematicamente e distantes no tom, o fato é que estes dois trabalhos servem para mostrar o talento e a versatilidade deste grande diretor.

Escrito por Robert Rodat, “O Resgate do Soldado Ryan” utiliza um longo flashback para narrar o desembarque do exército norte-americano na praia de Omaha, na França, no famoso dia 06 de Junho de 1944. Após sobreviver ao verdadeiro massacre imposto pelas metralhadoras alemãs, o capitão John Miller (Tom Hanks) é incumbido de liderar um pelotão em busca do jovem James Ryan (Matt Damon), único dentre quatro irmãos ainda vivo e, justamente por isso, escolhido para voltar para casa e amenizar parte da dor de sua mãe. O problema é que Ryan é paraquedista e seu paradeiro é incerto, o que leva os soldados a questionarem a validade daquela missão.

Ainda que tenha quase 3 horas de duração, “O Resgate do Soldado Ryan” mantém um ritmo sempre empolgante, graças a sua narrativa simples e eficiente, que não abre muito espaço para firulas desnecessárias e foca constantemente na missão daquele grupo e nos obstáculos que surgem no caminho. Para isto, Spielberg conta com a montagem intensa de seu habitual colaborador Michael Kahn, ditando este ritmo dinâmico ao intercalar as empolgantes cenas de batalha com pequenos momentos de refresco, como quando os soldados conversam na igreja ou quando eles se encontram com companheiros do exército que tentam se recuperar dos ferimentos de batalha.

Isto não impede que Spielberg crie belos momentos dominados pelo silêncio e a melancolia, como, por exemplo, na cena em que a mãe de Ryan recebe as três cartas informando a morte de seus filhos. Sem a necessidade de utilizar uma só palavra, o diretor transmite toda a carga dramática da cena, apenas pelas escolhas dos planos e pelo desempenho dos atores, numa abordagem eficiente que sequer necessitaria da trilha sonora melancólica que a embala. Hábil também na composição de planos impactantes, como o rápido plano geral que acompanha o enorme contingente norte-americano chegando ao litoral francês, Spielberg confirma sua genialidade na condução das cenas de batalha, com sua câmera instável nos colocando dentro do combate. Entre elas, é claro que se destaca a sequência de abertura, capaz de tirar o fôlego do espectador, deixando-o grudado na cadeira por mais de 20 minutos.

Mãe de Ryan recebe as três cartasEnorme contingenteInvasão à NormandiaConduzida com agilidade e extrema competência por Spielberg, a invasão à Normandia não é apenas o melhor momento de “O Resgate do Soldado Ryan”, como figura também entre os maiores momentos da carreira do diretor – o que, em se tratando de Steven Spielberg, não é pouca coisa. Colocando-nos dentro do combate através da câmera agitada (e muitas vezes subjetiva), do caprichado design de som e da montagem frenética e jamais confusa, Spielberg cria uma sequência simplesmente perfeita tecnicamente, apostando no realismo gráfico para demonstrar os violentos efeitos daquele conflito armado, espalhando corpos despedaçados pela praia e espirrando sangue por todo lado, numa abordagem corajosa e acertada que faz falta em seus trabalhos mais recentes.

Refletindo a hostilidade daquele cenário, a fotografia quase sempre acinzentada de Janusz Kaminski (outro parceiro de longa data de Spielberg) abre pouco espaço para cores mais vivas, o que não impede a criação de planos lindíssimos como quando os soldados caminham sob os raios que caem no horizonte ou no ato final quando um grupo deles conversa iluminado pelos raros raios solares que vencem o tempo nublado que paira na região. Esta abordagem torna as cenas de batalha ainda mais tensas e sufocantes, ainda mais quando reforçadas pela chuva que cai. E até mesmo em ambientes internos como numa igreja a fotografia é belíssima, permitindo que Spielberg crie planos marcantes em conversas intimistas que ressaltam o lado humano daqueles soldados.

Fotografia acinzentadaRaros raios solaresAmbientes internos como uma igrejaAo recriar com precisão os uniformes utilizados na segunda guerra mundial, os figurinos de Joanna Johnston colaboram na ambientação do espectador, assim como o ótimo design de produção concebido por Tom Sanders, que recria as armas e os equipamentos utilizados como os tanques de guerra, sendo responsável também pelos impressionantes cenários nas cidades destruídas pela guerra, como na pequena vila fictícia chamada Ramelle no ato final.

Este refinamento técnico é um dos grandes trunfos de “O Resgate do Soldado Ryan” e, neste aspecto, o espantoso design de som merece um capitulo a parte. Chamando nitidamente a atenção na sequência da invasão à Normandia, onde nos permite notar com clareza toda a gama de tiros e explosões presente naquele ambiente hostil, o meticuloso trabalho de som segue perfeito por todo o filme, seja em momentos simples como quando demonstra a doença do capitão Miller na mão através do barulho repetitivo da bússola, seja na sequência final em que novamente nos coloca dentro da batalha através do som dos tiros, tanques e gritos dos soldados. Além disso, alguns instantes merecem destaque, como quando o som simula o impacto de duas explosões no capitão Miller, colocando o espectador no lugar dele ao distorcer o som real, ou quando a câmera afunda no mar logo no início e o som dá a exata noção da agressividade do ambiente acima da água ao contrastar o silencio dentro do mar com o barulho ensurdecedor fora dele.

Mais uma vez confirmando seu talento na composição de trilhas marcantes, John Williams faz outro bom trabalho, ainda que exagere em alguns momentos em que parece ditar para o espectador o que ele deve sentir. Na maior parte das vezes, no entanto, Williams pontua as cenas dramáticas com precisão, como quando o capitão Miller finalmente revela sua origem ao pelotão e escancara sua vontade de voltar pra casa, igualando-se aos seus comandados e aproximando-se da plateia.

Naturalmente carismático, Tom Hanks compõe o capitão Miller como um líder nato, falando com segurança diante dos comandados, o que não o impede de transmitir todas as dúvidas e inseguranças que vêm com o peso de sua posição, como no tocante momento em que chora solitário após a triste morte de Wade (Giovanni Ribisi). Em certo instante, ele próprio chega a questionar à validade daquela missão, humanizando o personagem ao demonstrar uma preocupação genuína com seu pelotão. Este questionamento, aliás, por diversas vezes parte dos próprios soldados, irritados diante de uma missão nada racional que coloca em risco a vida de vários combatentes para salvar apenas um.

Repleto de atores talentosos, o grande elenco de “O Resgate do Soldado Ryan” oferece pouco espaço para que nomes como Paul Giamatti e Vin Diesel brilhem. Ainda assim, Vin Diesel confere mais carisma ao seu Caparzo em seus poucos minutos em cena do que muitos dos outros atores conseguem fazer, ainda que o relacionamento entre eles soe real na maior parte do tempo, graças aos conflitos e aos diálogos que revelam suas fraquezas e angústias, tornando-os mais humanos diante do espectador. Mas ainda que seus personagens não sejam tão bem desenvolvidos, os atores que vivem aquele grupo de soldados conseguem ao menos nos fazer acreditar naqueles jovens como indivíduos diferentes e não apenas peças de um jogo de tabuleiro, como acontece, por exemplo, com o religioso atirador Jackson vivido por Barry Pepper e com o inseguro e por vezes medroso Upham interpretado por Jeremy Davies.

Líder natoCarismático CaparzoReligioso atirador JacksonApesar de todos os questionamentos, Ryan finalmente surge no caminho do grupo de maneira casual. Quando isto acontece, observe como Spielberg demora alguns segundos antes de revelar o rosto de Matt Damon, já que somente a sua presença em cena já seria suficiente para o espectador identificá-lo como o procurado personagem. E com tão pouco tempo de tela, Damon pouco pode fazer, ainda que se saia bem na conversa com o capitão Miller sobre as lembranças da vida fora dali, num dos raros momentos em que Hanks e Damon contracenam.

Após encontrar Ryan e resolver o principal conflito da narrativa, o roteiro transforma o confronto com os alemães na ponte no grande clímax, o que até funciona corretamente, ainda que não tenha o mesmo peso da espetacular batalha de abertura. E novamente, o som tem papel fundamental, já que é ele quem anuncia a chegada dos tanques alemães ao local e dá início ao conflito extremamente realista e violento, mais uma vez filmado com destreza pela câmera agitada de Spielberg e conduzido com dinamismo pelo diretor e seu montador.

Rosto de Matt DamonConversa com o capitão MillerConfronto com os alemães na ponteTecnicamente perfeito, “O Resgate do Soldado Ryan” escorrega apenas quando tenta dizer algo sobre os horrores da guerra, abordando a questão de maneira excessivamente melodramática, como nos desnecessários instantes finais em que Ryan pergunta se sua vida valeu a pena. Por outro lado, o tocante desespero de um soldado alemão diante da morte infelizmente é jogado fora no ato final, quando o mesmo surge novamente na batalha como se nada tivesse acontecido. No entanto, estas são falhas menores que não tiram os méritos do filme.

Mais empolgante do que reflexivo, “O Resgate do Soldado Ryan” funciona muito bem ao seu modo, colocando o espectador dentro da batalha e nos fazendo sentir de perto os horrores da guerra, mesmo que, no fim das contas, tenha pouco a dizer sobre ela.

O Resgate do Soldado Ryan foto 2Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

THE WONDERS – O SONHO NÃO ACABOU (1996)

11 setembro, 2013

(That Thing You Do!)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #109

Dirigido por Tom Hanks.

Elenco: Tom Everett Scott, Liv Tyler, Johnathon Schaech, Steve Zahn, Ethan Embry, Tom Hanks, Charlize Theron, Obba Babatundé, Giovanni Ribisi, Chris Ellis, Alex Rocco, Bill Cobbs, Kevin Pollak, Jonathan Demme e Colin Hanks.

Roteiro: Tom Hanks.

Produção: Jonathan Demme, Gary Goetzman e Edward Saxon.

The Wonders - O sonho não acabou[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após vencer dois Oscar de melhor ator e participar de mais dois sucessos de público e crítica, Tom Hanks decidiu que era hora de tentar se dar bem também atrás das câmeras. Mas, diferentemente de outros atores que se mostraram tão ou mais competentes na nova função, Hanks não conseguiu o mesmo sucesso e nem mesmo o fato de ser um dos atores mais queridos de Hollywood o ajudou. Ainda assim, “The Wonders – O sonho não acabou” está longe de ser um fracasso, narrando à ascensão meteórica de uma banda fictícia de maneira leve e bastante agradável.

Projeto pessoal de Hanks, que além de dirigir escreveu também o roteiro, “The Wonders” tem início quando o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) aceita substituir o baterista de uma banda num concurso local e, ao alterar o ritmo da canção, acaba ajudando a criar um hit instantâneo que, com o auxilio de um empresário da Play-Tone Records (Tom Hanks), rapidamente levará os quatro rapazes para o topo das paradas de sucesso. No entanto, os conflitos entre eles começam a ameaçar o futuro do grupo.

Conto de fadas que se desintegra na mesma velocidade em que foi construído, “The Wonders – o sonho não acabou” narra a trajetória (tão comum até hoje) de uma banda de um sucesso só, permitindo ao espectador acompanhar de perto a formação e a decadência do grupo sem jamais deixar de lado o tom leve que marca a narrativa desde o princípio. Até mesmo visualmente isto fica evidente. Observe, por exemplo, como mesmo inicialmente realçando o lado obscuro dos locais fechados em que a banda se apresenta como restaurantes e igrejas, simbolizando o estilo underground daquelas apresentações, a fotografia de Tak Fujimoto progressivamente cede espaço para tons mais alegres e estes locais dão espaço aos iluminados e amplos palcos da turnê a céu aberto e das apresentações na televisão, que simbolizam o momento em que a banda está sob os holofotes.

Aliás, a própria época retratada ajuda nesta abordagem mais alegre e até mesmo inocente. Ainda que seja de conhecimento geral o espírito livre e o universo regado de sexo, drogas e álcool das grandes bandas do período, o universo retratado aqui está mais voltado para o lado politicamente correto (digamos que, sem querer causar polêmica – até porque gosto das duas bandas -, está mais para Beatles do que para Rolling Stones). Esta impressão é reforçada também pelos figurinos de Colleen Atwood, que capricha nas roupas comportadas da banda e do próprio público em geral, além dos carros que andam nas ruas e dos aparelhos eletrônicos vendidos na loja dos Patterson que nos transportam para os anos 60 com precisão (design de produção de Victor Kempster).

Claramente inspirados nos Beatles (as constantes menções aos “Fab4” evidenciam isto), os quatro rapazes conseguem o sucesso muito rapidamente, mas a assinatura do primeiro contrato já expõe as diferentes maneiras de pensar de cada integrante da banda que causariam a ruptura no futuro. “The Wonders” abre ainda um pequeno espaço para abordar o complexo universo do mundo da música através dos interesses da gravadora, que tentam determinar os caminhos que a banda deverá seguir, criando conflito com o inteligente e pretensioso Jimmy, interpretado sem grande brilho por Johnathon Schaech.

Iluminados e amplos palcos da turnêRoupas comportadas da bandaTalentoso e egocêntrico vocalistaMas se Jimmy é o talentoso e egocêntrico vocalista, o Lenny de Steve Zahn faz o papel do engraçadinho da turma (sem grande sucesso, diga-se), ao passo em que o baixista apenas complementa a banda (e por isso o personagem de Ethan Embry sequer tem um nome). Por tudo isso, fica claro muito cedo que Guy é o cérebro do grupo e o mais capacitado para enxergar os caminhos que eles deviam seguir para alcançar o sucesso. Interpretado com carisma por Tom Everett Scott (o que é essencial para que o sucesso dele com as garotas se justifique), Guy trabalha com seu exigente e autoritário pai na loja da família durante o dia e toca bateria a noite. Assim, substituir um integrante machucado acaba se transformando numa chance de mudar radicalmente sua vida – e que ele aproveita bem. Ao mudar o ritmo da canção, Guy torna a primeira apresentação da banda num festival em algo empolgante e muda os rumos daquelas pessoas, mas lentamente ele acaba deixando de lado sua namorada Tina, interpretada por ninguém menos que Charlize Theron, para dedicar-se à banda, numa ilustração perfeita do quanto é difícil manter um relacionamento quando se vive na estrada desta forma, ainda que a frieza do relacionamento deles seja evidente desde o princípio.

Assim, uma das maneiras mais comuns de estabelecer um relacionamento com um artista é mesmo fazer parte do grupo, algo que a inteligente Faye de Liv Tyler não demora a perceber. Personagem com papel fundamental na trajetória da banda, Faye acaba funcionando como o ponto de equilíbrio que, quando abalado, coloca todos em perigo. Assim, quando o egoísta Jimmy a trata mal na frente de todos e ela finalmente rompe com ele, a banda naturalmente também se desfaz. Ao menos, Jimmy abre caminho para o óbvio romance entre Guy e Faye. Vale citar ainda as rápidas participações do diretor Jonathan Demme como um diretor de cinema e de Bill Cobbs, que vive o simpático cantor de jazz Del Paxton.

Liderando o grupo com naturalidade, Tom Hanks tem uma atuação discreta e eficiente como o empresário Sr. White, mas sua presença sempre acaba chamando a atenção de todos. Ciente disto, Hanks evita que seu personagem roube a cena ao deixá-lo muitas vezes fora de campo, o que permite focar mais na dinâmica do relacionamento da banda. Discreto também atrás das câmeras, Hanks conduz o filme com segurança, mantendo viva a energia de uma narrativa naturalmente jovial, pecando apenas no tom excessivamente romântico da cena final. Um dos queridinhos da América, o diretor/ator boa praça deixa sua impressão digital através de uma narrativa leve e descontraída, que mesmo trazendo os bastidores de uma grande banda, aborda na maior parte do tempo um universo clean, livre de drogas e quase sem álcool, mas que por outro lado capta muito bem a euforia de tocar numa banda de sucesso, com todo o glamour da fama e com centenas de mulheres desesperadas atrás deles.

Cérebro do grupoPonto de equilíbrioPrimeira execução da música na rádioCuriosamente, as grandes cenas de “The Wonders” não funcionam com base no aspecto cômico. As apresentações enérgicas do grupo, a ansiedade dos pais deles antes da primeira aparição na televisão e a empolgação durante ela estão entre os melhores momentos do longa, assim como a primeira execução da música na rádio, captada com precisão pela agitada câmera de Hanks que, com o auxilio do montador Richard Chew, cria uma sequência emocionante enquanto acompanhamos os integrantes da banda recebendo a notícia com uma alegria contagiante. A montagem de Chew, aliás, é importante para manter o ritmo agradável do longa, acelerando a narrativa de maneira inteligente, por exemplo, através de um clipe que resume boa parte da turnê deles.

E são justamente estes bons momentos que fazem não apenas a aventura daqueles jovens valer a pena, como também servem para que “The Wonders” funcione. Assim como a banda fictícia que inspirou a trama, o filme não dura muito tempo na memória do espectador, mas aqueles momentos que passamos juntos são repletos de energia e felicidade.

The Wonders - O sonho não acabou foto 2Texto publicado em 11 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

TOY STORY (1995)

4 agosto, 2012

(Toy Story)

 

Videoteca do Beto #137

Dirigido por John Lasseter.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Jim Varney, Wallace Shawn, John Ratzenberger, John Morris, Erik von Detten e Don Rickles.

Roteiro: Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen e Alec Sokolow, baseado em estória de John Lasseter, Andrew Stanton, Peter Docter e Joe Ranft.

Produção: Bonnie Arnold e Ralph Guggenheim.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por revolucionar o cinema ao utilizar pela primeira vez animação feita em computador num longa-metragem, o excelente “Toy Story” marcou também o início da impecável filmografia dos estúdios Pixar, que só viriam a tropeçar artisticamente no recente “Carros 2”, após anos de sucessos de crítica e público. E o longa que iniciou esta bela história faz jus ao posto, porque além de divertir o público infantil com sua empolgante aventura, conquista também espectadores de todas as idades ao abordar temas universais e remeter à deliciosa fase da infância.

Escrito por Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen e Alec Sokolow a partir de história criada por John Lasseter, Andrew Stanton, Peter Docter e Joe Ranft, “Toy Story” tem inicio no dia do aniversário do menino Andy (voz de John Morris), uma data que provoca verdadeiro pavor entre seus brinquedos, que temem serem substituídos por novos brinquedos e relegados ao esquecimento. Tentando manter a calma de todos, o cowboy Woody (voz de Tom Hanks) tem sua autoconfiança abalada quando Andy ganha o moderno astronauta Buzz Lightyear (voz de Tim Allen), um sério candidato a roubar dele o cobiçado posto de brinquedo favorito do garoto. Buscando evitar o esquecimento, ele traça um plano para se livrar do rival, mas acaba criando uma situação bastante complicada para ambos.

Abordando de maneira delicada o tema universal do apego aos brinquedos na infância, “Toy Story” começa a conquistar o coração da plateia logo em seus minutos iniciais, quando acompanhamos o empolgado Andy brincando com seus bonecos e imaginando uma divertida situação – algo que, certamente, a maioria das pessoas já fez um dia. Independente da idade, o espectador se identifica imediatamente com o que vê, já que as crianças, por razões óbvias, se imaginam no lugar de Andy, ao passo em que os adultos recordam com nostalgia dos tempos de infância. Afinal de contas, quem não se lembra daquele brinquedo especial, que nos acompanhou durante o mágico período da infância?

Apresentando a notável qualidade das animações feitas através de computação gráfica, que tornam ainda mais fascinantes os personagens e cenários, “Toy Story” jamais utiliza sua inovadora tecnologia como muleta, valorizando corretamente suas virtudes técnicas, mas se preocupando também com o desenvolvimento de uma boa história. Assim, a narrativa parte da curiosa premissa de nos mostrar o que fazem os brinquedos quando estão sozinhos, acertando também ao conferir humanidade aos bonecos, mostrando sentimentos tão comuns nos seres humanos como a inveja, a raiva, o medo e até mesmo o amor, representado pela delicada boneca de porcelana Beth que é apaixonada por Woody. Estes sentimentos são transmitidos através das impecáveis expressões faciais que dão vida aos personagens, como podemos notar quando Buzz questiona se Woody está gozando sua cara – num momento hilário de Tom Hanks, que demonstra no tom de voz a inveja que sente do novo companheiro. Conferindo ainda sentimentos aos brinquedos através do medo de serem esquecidos na mudança e principalmente do medo que eles sentem de serem substituídos, o roteiro de “Toy Story” aproxima os personagens do espectador com precisão, o que é vital para que este embarque de corpo e alma na aventura.

Além disso, o roteiro não desperdiça a oportunidade de explorar situações interessantes envolvendo a natureza dos brinquedos para criar gags divertidíssimas, como ao utilizar soldados de plástico numa arriscada missão ou ao brincar com as partes que se soltam do rosto do Sr. Cabeça de Batata (voz de Don Rickles), inserindo ainda diversas situações que criam obstáculos para os heróis, permitindo que o diretor John Lasseter se divirta na condução de ótimas cenas de ação. Embalando estas cenas de ação, a trilha sonora de Randy Newman injeta adrenalina na narrativa, entretanto, as sequencias musicais, tradicionais nas animações até então, surgem apenas ocasionalmente em “Toy Story”, como na bela “You’ve got a friend in me” que abre o filme e na nas canções cantadas por Woody e Buzz, que não empolgam. E como normalmente acontece nas animações, o ótimo design de som e os fabulosos efeitos sonoros destacam-se pela riqueza de detalhes, conferindo realismo em cada movimento dos brinquedos.

Conduzindo a aventura com empolgação, John Lasseter acerta na escolha de planos interessantes, como na seqüência do posto de gasolina em que nos coloca sob o ponto de vista dos brinquedos, transformando carros e caminhões em verdadeiros gigantes. Da mesma forma, ao iniciar a cena da abertura dos presentes mostrando apenas a reação dos brinquedos e a narração via transmissor, o diretor cria um interessante suspense justamente por nos colocar na mesma posição dos apavorados bonecos. Caprichando ainda no aspecto visual, como na elegante transição da noite para o dia num travelling que sai da casa de Andy e vai para a casa de Sid – que conta também com o trabalho dos montadores Robert Gordon e Lee Unkrich -, o diretor consegue até mesmo criar momentos de tensão, como no plano em que Buzz está escondido atrás da porta enquanto o cão bravo de Sid ameaça entrar no quarto. Ainda seguindo esta estratégia de colocar o espectador no lugar dos heróis, Lasseter utiliza a câmera subjetiva para mostrar a janela ficando distante na frustrada tentativa de voar de Buzz e, no plano seguinte, emprega o contra-plongèe para diminuir o personagem no chão e ilustrar sua tristeza, confirmando seu domínio da linguagem cinematográfica.

Acertando também ao balancear de maneira orgânica as sequencias de ação, de suspense e de humor, como quando Woody pede uma mãozinha para Buzz e recebe seu braço quebrado ou quando o astronauta afirma que “não acredita que Sid tenha estudado medicina”, Lasseter e seus montadores imprimem um ritmo delicioso à narrativa, que ganha ainda mais vida graças ao visual colorido das sequencias diurnas, que, por sua vez, criam um forte contraste com a sombria sequencia que se passa dentro da casa de Sid – repare, por exemplo, como a chuva acentua a tensão quando Buzz é amarrado num foguete sob o olhar atento de Woody.

Dando vida ao antigo brinquedo preferido de Andy, a voz do carismático Tom Hanks colabora para que o medroso Woody crie empatia com a plateia, apesar de suas atitudes pouco nobres que tentam forçar sua permanência como brinquedo favorito do garoto. Seus esforços, no entanto, são em vão, pois a chegada de Buzz tira este posto de Woody, algo evidenciado quando Andy joga o cowboy pra longe da cama. Apresentado de baixo pra cima para demonstrar sua imponência, Buzz representa mais do que um simples candidato ao cobiçado posto, trazendo à tona um verdadeiro confronto de gerações entre o velho e o novo, o antigo e o moderno, simbolizado perfeitamente nas figuras do cowboy, o herói máximo do passado, e o astronauta, o herói moderno no imaginário das crianças.

Regido por um curioso código de ética – que ele quebra para poder acertar as contas com Woody sob a alegação de que estava fora de seu planeta -, Buzz não acredita que é um brinquedo, agindo sempre com seriedade absoluta enquanto tenta cumprir sua missão – o que garante momentos hilários, diga-se de passagem. Imprimindo um tom de voz solene e lançando o bordão “Ao infinito e além!”, Tim Allen ilustra bem este lado da personalidade do astronauta e ainda transmite sua tristeza quando, num momento comovente, ele descobre que é apenas um brinquedo dentro da casa de Sid. Apresentado através da janela do quarto de Andy enquanto explode um brinquedo apenas por diversão ao lado de seu cão raivoso, Sid rapidamente se estabelece como o vilão da trama, o que é essencial para que o espectador tema pelo destino de Woody e Buzz quando eles são pegos pelo malvado garoto. Quando isto acontece, a fotografia passa a priorizar cenas noturnas e cores escuras, refletindo a angústia dos protagonistas diante daquela verdadeira casa dos horrores, repleta de brinquedos “mutantes”, alterados na “sala de cirurgia” do rapaz – e até mesmo a decoração do quarto auxilia na criação desta atmosfera assustadora.

Só que, numa excelente subversão de expectativa, os horripilantes brinquedos de Sid se revelam amigáveis e até mesmo ajudam a consertar o braço de Buzz. Diante de novos amigos, Woody pode então planejar e executar sua divertida fuga da casa, que resulta na ótima cena em que os brinquedos se rebelam contra o perverso garoto e salvam Buzz, deixando uma clara mensagem para as crianças: cuidem bem dos seus brinquedos. Em seguida, a excelente perseguição ao caminhão de mudança, também muito bem conduzida por Lasseter, traz o tão desejado vôo do astronauta (“Isto não é voar, é cair com estilo”) e garante a diversão da garotada. Pra finalizar, a cena final que traz o agora preocupado Buzz fingindo não se importar com o que ouve no transmissor enquanto os soldados narram os presentes recebidos por Andy no natal é hilária e fecha com perfeição à narrativa.

Aventura deliciosa e com uma bela mensagem, “Toy Story” é um marco do cinema, não apenas por utilizar a computação gráfica na criação de seu refinado visual, mas também por inaugurar a “era Pixar”, que presenteou os cinéfilos ao longo dos anos com muitos filmes inesquecíveis. De quebra, fez tudo isto através de uma história interessante, apresentando personagens cativantes que ainda nos acompanhariam por muitos anos nesta deliciosa trilogia.

Texto publicado em 04 de Agosto de 2012 por Roberto Siqueira

TOY STORY 3 (2010)

24 fevereiro, 2012

(Toy Story 3)

 

 

Filmes em Geral #87

Dirigido por Lee Unkrich.

Elenco: Vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Michael Keaton, Joan Cusack, Bonnie Hunt, Timothy Dalton, R. Lee Ermey, John Ratzenberger, John Morris, Laurie Metcalf, Wallace Shawn, Don Rickles, Jodi Benson e Ned Beatty.

Roteiro: Michael Arndt.

Produção: Darla K. Anderson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo de assistir ao último filme da impecável trilogia “Toy Story”, fui tomado por um sentimento nostálgico somente ao imaginar que, após acompanharmos a trajetória de Andy e seus queridos brinquedos nos excepcionais filmes anteriores, aquela seria a minha despedida de Woody, Buzz e companhia. Se me emocionei em “Toy Story” e quase não contive as lágrimas em “Toy Story 2” – especialmente no clipe que conta a história de Jesse e sua dona -, era muito provável que as lágrimas seriam inevitáveis em “Toy Story 3”. Mas eu não estava preparado para esta verdadeira catarse. A verdade é que a obra-prima dirigida por Lee Unkrich mexe em nossos sentimentos mais profundos, remetendo a mais nostálgica fase de nossas vidas.

Desta vez escrito por Michael Arndt, “Toy Story 3” traz Andy (voz de John Morris) já com 17 anos e prestes a ir para a Faculdade. Enquanto arruma seu quarto, ele decide levar apenas o cowboy Woody (voz de Tom Hanks) e deixar todos seus outros brinquedos no sótão, entre eles Buzz Lightyear (voz de Tim Allen), Jessie (voz de Joan Cusack) e o Sr. Cabeça de Batata (voz de Don Rickles). Mas, por engano, sua mãe confunde o saco que ele separou para os brinquedos e eles acabam no lixo. O grupo consegue escapar, se infiltra numa caixa onde está Barbie (voz de Jodi Benson) e acaba sendo levado para a creche Sunnyside, onde eles conhecerão novos brinquedos como Ken (voz de Michael Keaton) e o urso Lotso (voz de Ned Beatty).

Esbanjando criatividade, o roteiro de Arndt traz Woody novamente numa situação complicada, tendo que salvar os amigos antes da partida de Andy, o que nos leva a novas e empolgantes aventuras. Remetendo em alguns instantes a estrutura narrativa do primeiro filme (a reunião entre os brinquedos, a “fuga involuntária” da casa), Arndt tem ainda o cuidado de revelar o destino de personagens marcantes como Wheezy, a boneca de porcelana Beth e os soldados de plástico, num indício sutil do clima nostálgico que permeia a narrativa, acertando também nos momentos bem humorados, como ao “resetar” Buzz e trazer de volta sua adorável dedicação ao “comando estelar”, além da hilária mudança de seu idioma para o espanhol. Abordando temas como a inexorabilidade do tempo (como atestam o gordo e cansado Buster e o rosto adolescente de Andy) e a importância da amizade verdadeira, “Toy Story 3” emociona não apenas as crianças, mas também (e especialmente!) os adultos.

A espetacular seqüência de abertura dá o tom da narrativa, iniciando com a empolgante aventura (que descobriremos existir apenas na cabeça de Andy) envolvendo os principais personagens da trilogia e terminando nas gravações que mostram o crescimento do garoto. Esta oscilação entre a euforia e a nostalgia é uma das marcas de “Toy Story 3”, graças à direção firme de Unkrich que transforma o capítulo final da trilogia num festival de sensações. Contando com o bom trabalho do montador Ken Schretzmann, a narrativa transita muito bem entre emoções extremas, passando pela adrenalina das aventuras, pela tensão dos momentos de suspense e pela delicadeza de cenas tocantes, como o melancólico e sublime final, intercalando tudo isso com momentos de bom humor. Além disso, o trabalho de montagem se destaca também pela fluidez em diversos momentos, como na citada abertura e na apresentação do sistema de segurança de Lotso, que transforma Sunnyside numa prisão.

Tecnicamente, mais uma vez a qualidade das animações impressiona pela riqueza de detalhes, sendo capaz de dar vida aos brinquedos através da leveza de seus movimentos e da expressividade deles – observe a expressão de desaprovação de Woody quando chega a Sunnyside, por exemplo. Além disso, chega a ser quase inacreditável a capacidade de criação dos animadores da Pixar, que desenvolvem uma enorme variedade de brinquedos (muitos deles remetem diretamente a minha infância, aliás), assim como o roteiro novamente aproveita a oportunidade para criar gags divertidas baseadas nas características deles, como no sensacional encontro entre Ken e Barbie e no divertido desfile que ele faz pra ela, nas constantes piadas sobre a origem dele (“Não sou brinquedo de menina!”) e no corpo improvisado pelo Sr. Cabeça de Batata.

Ainda na parte técnica, vale destacar mais uma vez o excepcional design de som, que dá vida ao mundo criado pelos animadores e nos insere dentro dele com precisão. E se desta vez a bela “You’ve got a friend in me” soa ainda mais nostálgica devido às circunstâncias, a trilha sonora de Randy Newman se destaca também por pontuar com precisão as cenas de aventura e suspense, injetando adrenalina e tensão sempre na medida certa, além de mostrar criatividade nos acordes tipicamente espanhóis que embalam a divertida dança “caliente” de Buzz.

Voltando aos aspectos visuais, vale observar como a fotografia colorida e cheia de vida na chegada dos brinquedos à creche Sunnyside cria uma expectativa totalmente contrária à realidade do lugar, evidenciada somente pela reação dos brinquedos locais segundos antes da invasão das agitadas crianças que detonam todos eles. Esta subversão de expectativa, aliás, também acontece com o personagem Lotso, que surge como um urso tranqüilo e amigável – e a voz contida de Ned Beatty é essencial para isto -, mas lentamente se revela como o grande vilão da trama. Será ele o agente da mudança brusca da fotografia, que troca as cores vivas pelos tons obscuros durante todo o segundo ato após Woody ouvir a história de Lotso, em outra cena que transita de tons dourados para cores sombrias e sufocantes que, realçadas pela chuva, ilustram os sentimentos do urso abandonado.

Além de imprimir um ritmo delicioso à narrativa, Unkrich se destaca, por exemplo, na condução de seqüências empolgantes e visualmente belíssimas como a primeira fuga de Woody de Sunnyside, a acrobática saída de Buzz da sala Lagarta e a segunda fuga da creche, capaz de grudar o espectador na cadeira, especialmente quando os personagens são deixados no assombroso depósito de lixo – e confesso que cheguei a temer pelo destino dos heróis nesta sombria seqüência, que é certamente o momento mais tenso da narrativa. Através destes interessantes movimentos de câmera que acompanham as peripécias dos personagens, Unkrich confere agilidade e dinamismo ao longa, o que é essencial numa aventura infantil. Mas “Toy Story 3” está longe de direcionar seus esforços apenas para a fatia mais jovem do público. Por isso, quando os personagens escapam da difícil situação no depósito e conseguem voltar para casa, o final devastador se aproxima e o espectador já sabe o que esperar.

Quando Andy brinca pela última vez com seus queridos brinquedos e apresenta cada um deles para a garota, nós sabemos que também estamos nos despedindo daqueles personagens adoráveis. Sabemos ainda que, para Andy, não se trata apenas de deixar aqueles brinquedos legais para trás, mas também de despedir-se definitivamente dos áureos tempos da infância, época em que o mundo era filtrado pela pureza do olhar de uma criança. Por isso, a identificação do espectador adulto é inevitável e fica difícil segurar as lágrimas. Após o carro perder-se no horizonte e Andy deixar tudo isto para trás, aqueles momentos mágicos sobreviverão apenas na memória – e quem já passou por esta fase sabe bem o que é isto. Finalmente, esta cena final é ainda mais emblemática para aqueles que eram crianças no lançamento do primeiro “Toy Story”, já que, devido a distancia de 15 anos entre os filmes, estes jovens provavelmente também estavam na faculdade em 2010 e, portanto, o crescimento de Andy reflete a própria trajetória deles.

Ao contrário de Andy, que foi obrigado a deixar seus brinquedos para trás, as novas gerações podem comemorar, pois os filmes da trilogia “Toy Story” são brinquedos que podemos guardar eternamente e até mesmo voltar a “brincar” com eles sempre que quisermos. Esta é a magia do cinema. Esta é a magia da Pixar, que provou nesta trilogia ter o poder de – com o perdão do trocadilho – ir “ao infinito e além!”.

Texto publicado em 24 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

APOLLO 13 (1995)

21 dezembro, 2011

(Apollo 13)

 

Videoteca do Beto #121

Dirigido por Ron Howard.

Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Gary Sinise, Ed Harris, Kathleen Quinlan, Bryce Dallas Howard, Mary Kate Schellhardt, Emily Ann Lloyd, Miko Hughes, Max Elliott Slade, Jean Speegle Howard, David Andrews e Michele Little.

Roteiro: William Broyles Jr. e Al Reinert, baseado em livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger.

Produção: Brian Grazer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado em fatos reais, “Apollo 13” é um filme interessante não apenas como entretenimento, mas também como registro de um momento importante da história das missões espaciais. Demonstrando segurança na condução da narrativa e contando ainda com um excelente trabalho técnico e um bom elenco, Ron Howard entrega um filme competente, que retrata com realismo as horas de aflição que aqueles astronautas provavelmente enfrentaram.

Escrito por William Broyles Jr. e Al Reinert, a partir de livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger, “Apollo 13” narra a história real da terceira missão tripulada do projeto Apollo à lua. Após uma inesperada explosão no módulo de serviço, os astronautas Jim Lovell (Tom Hanks), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon) se vêem obrigados a retornar a Terra sem sequer pisar na lua, correndo o risco de ficarem sem oxigênio no caminho, além da ameaça real de danificar a nave na reentrada na órbita terrestre.

Potencialmente tensa, a história da Apollo 13 certamente resultaria num bom filme nas mãos de um diretor competente. Felizmente, este é o caso de Ron Howard, que consegue imprimir uma escala crescente de tensão à narrativa do segundo ato em diante. Antes disso, no entanto, o filme escorrega levemente ao exagerar no ufanismo, quando os americanos comemoram a vitória na corrida espacial – e este patriotismo é reforçado pela trilha sentimental que embala o homem pisando na lua e pelo close em Jim, claramente emocionado com o que vê. Ainda no primeiro ato, chama a atenção como a imprensa não demonstra interesse pela Apollo 13, refletindo a progressiva falta de interesse do público pelos programas espaciais. Neste aspecto, vale lembrar que até mesmo a NASA questionava o alto investimento feito nestas missões depois do sucesso da Apollo 11, algo que o filme também retrata com fidelidade. Porém, quando a viagem se transforma numa tragédia potencial, a imprensa imediatamente se interessa pelo caso (“Agora ficou mais emocionante”, afirma um idiota da NASA), provocando a indignação de Marilyn (Kathleen Quinlan), a esposa de Jim.

Trabalhando com inteligência e cuidado em todo o primeiro ato, Ron Howard busca estabelecer o relacionamento entre os personagens e criar expectativa para o lançamento da nave. E apesar dos muitos termos técnicos, o espectador jamais se perde durante a narrativa, graças à clareza do roteiro e a condução do diretor. Observe, por exemplo, como ele usa a fase de testes para nos apresentar os possíveis problemas que a missão enfrentará e nos familiarizar com alguns destes termos. Por isso, quando Jack tenta acoplar o módulo de comando ao módulo lunar, o espectador sabe exatamente o perigo daquela operação. Também por isso, quando Jim Lovell diz a famosa frase “Houston, nós temos um problema”, o desespero toma conta da tela, pois sabemos que aquele problema não estava previsto.

Além da narrativa envolvente, “Apollo 13” apresenta também um espetáculo visual belíssimo, graças aos excelentes efeitos visuais da Digital Domain, que conferem realismo ao lançamento da nave, por exemplo. Nave, aliás, que é perfeitamente recriada pela direção de arte de David J. Bomba, Michael Coreblith e Bruce Alan Miller, assim como os uniformes são fiéis aos originais (figurinos de Rita Ryack), ambientando perfeitamente o espectador. Além disso, o ótimo design de som capta cada pequeno movimento dentro da nave, como quando o oxigênio estoura a lateral da Apollo 13 e provoca o acidente. Obviamente, o trabalho de câmera de Ron Howard é vital neste processo. Contando com a colaboração da fotografia de Dean Cundey, o diretor emprega movimentos de câmera estilizados e realiza verdadeiros malabarismos no espaço, acompanhando com fluência a perfeita movimentação dos astronautas nos módulos. Vale destacar ainda os giros em volta da nave e o elegante travelling de dentro pra fora dela, que dá a exata noção de onde os astronautas se encontram.

Ainda na parte técnica, merece destaque a excepcional montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill, que confere enorme dinamismo ao longa, intercalando o drama dos astronautas, o trabalho da NASA e o sofrimento dos familiares. Além disso, quando a Apollo 13 apresenta o grave problema, os montadores alternam rapidamente entre os planos, ampliando a angústia no espectador sem que este perca a noção do que está vendo. E ainda que usem descartáveis legendas para indicar a passagem do tempo, Hanley e Mill acertam ao usar o já ultrapassado fade, escurecendo a tela completamente e refletindo a angustia que predomina a narrativa. A trilha sonora de James Horner também acentua o clima de tensão, por exemplo, com a música agitada que embala os minutos prévios ao lançamento da nave. Por outro lado, a trilha parece exceder um pouco o tom adequado em certos momentos, soando melosa demais, como quando Jim se dá conta de que não vai pisar na lua.

E se exagera no melodrama neste aspecto, “Apollo 13” acerta na forma como aborda a preocupação da família Lovell, nos envolvendo com o sofrimento da esposa e dos filhos de Jim após a confirmação de sua ida à lua. Nós nos sentimos mais próximos dele justamente por acompanharmos seu relacionamento com a família, o que amplia a carga dramática quando os problemas surgem. É claro que as boas atuações de Tom Hanks e Kathleen Quinlan colaboram bastante. E além de estabelecer boa química com Quinlan, Hanks ainda transmite com precisão a crescente aflição do personagem, enquanto Bacon inicialmente parece mais tranqüilo e Paxton surge intimidado naquela difícil situação. Entretanto, quando os conflitos começam a surgir, os três atores se destacam, estabelecendo um clima palpável de tensão e refletindo muito bem o cansaço dos astronautas. Paxton, aliás, melhora ainda mais na medida em que Fred fica doente, transmitindo com competência o sofrimento do personagem.

No restante do ótimo elenco, Ed Harris se sai muito bem, demonstrando autoridade e liderança como Gene Kranz, e a citada Kathleen Quinlan está ótima como Marilyn Lovell, demonstrando muito bem a angústia da personagem com as notícias do marido. E se é emocionante o momento em que ela conta para a mãe de Jim o ocorrido, é ainda mais difícil conter as lágrimas quando ela dá a notícia de que a nave apresentou problemas para o filho e ouve a pergunta preocupada do menino: “Foi a porta?”. Finalmente, Gary Sinise confere realismo à decepção de Ken Mattingly quando é retirado da missão e se sai ainda melhor quando é convocado para auxiliar os companheiros, demonstrando muito profissionalismo e companheirismo.

Assim como antes do lançamento, os momentos prévios à volta para a Terra são bastante tensos. E o silêncio que predomina por alguns segundos só aumenta nossa expectativa, justificando a explosão de alegria de todos quando o paraquedas surge no céu. A emoção genuína dos personagens e do espectador comprova que a narrativa nos envolveu. Ainda nesta cena, não posso deixar de destacar a reação contida e emocionada de Gene, num momento sublime da atuação de Ed Harris. Se a história original já era potencialmente tensa e emocionante, Howard e sua equipe conseguiram traduzir estes sentimentos na tela com competência.

Excelente tecnicamente, “Apollo 13” narra um drama real de maneira envolvente, graças à eficiente direção de Howard e às boas atuações do elenco. Apesar da trilha sonora exagerada em alguns momentos e de não resistir ao ufanismo típico dos norte-americanos, o resultado é bastante agradável. Um bom exemplo do equilíbrio ideal entre a técnica e a emoção no cinema.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

FORREST GUMP – O CONTADOR DE HISTÓRIAS (1994)

11 julho, 2011

(Forrest Gump)

 

Videoteca do Beto #103

Vencedores do Oscar #1994

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Haley Joel Osment, Mykelti Williamson e Michael Conner Humphreys.

Roteiro: Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom.

Produção: Wendy Finerman, Steve Starkey e Steve Tisch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O mundo não vivia um bom momento em 1994. Diante de uma recessão econômica global, provocada pela crise mexicana, e da explosão da preocupação com o meio ambiente, era difícil ter fé no futuro da humanidade. Além disso, um ano antes, o sombrio “A Lista de Schindler” tornou-se sucesso mundial ao relembrar um período negro de nossa história, reforçando a aura pessimista que dominava o público. Em meio a este cenário pessimista surgia “Forrest Gump”, que contrariava o sentimento geral e contava, com muita sensibilidade, uma história humana e positiva, estrelada pelo astro norte-americano do momento, o amado Tom Hanks. Não à toa, o filme tornou-se um mega sucesso e abocanhou (injustamente) os principais prêmios Oscar num ano extremamente competitivo e repleto de obras marcantes.

Com um QI inferior ao normalmente aceito nas escolas, o jovem Forrest Gump (Tom Hanks) é criado com carinho por sua mãe (Sally Field), que luta para conseguir lhe dar as mesmas condições de estudo que as outras crianças. Na escola, ele conhece Jenny (Robin Wright), uma jovem que cruzará seu caminho por muitos anos de sua vida, assim como Forrest participará, ainda que por acaso, dos fatos mais importantes da história recente dos Estados Unidos.

Desde seu início elegante, quando a câmera acompanha uma pena voando até os pés do protagonista, “Forrest Gump” é um filme belíssimo. E esta beleza, em grande parte, é mérito do inventivo Robert Zemeckis, que emprega movimentos de câmera estilizados e aproveita a oportunidade para criar planos marcantes, como aquele em que Forrest e Jenny estão sentados de mãos dadas numa árvore com o pôr-do-sol ao fundo ou o travelling que nos leva das crianças rezando no milharal para os pássaros que voam dali, numa ilustração do desejo de Jenny de fugir do pai. Em outros momentos, o diretor usa a câmera para destacar o semblante do protagonista enquanto ele se concentra nas lembranças do passado, como quando um zoom nos aproxima dele antes do primeiro flashback, que conta o episódio dos “sapatos mágicos” – na realidade, um curioso eufemismo para as pernas mecânicas do garoto. Zemeckis cria ainda lindos planos enquanto Forrest atravessa o país em sua corrida seguido por diversas pessoas que o admiram, além de conduzir muito bem cenas emocionantes, como aquela em que Forrest tenta discursar para os hippies e reencontra Jenny (num plano geral belíssimo).

Além da direção eficiente de Zemeckis, a montagem de Arthur Schmidt é um capitulo a parte e merece muitos elogios. Em primeiro lugar, porque a narrativa cobre muitos anos de maneira eficiente e jamais cansativa, intercalando os flashbacks com o presente num ritmo delicioso. Além disso, Schmidt faz a transição no tempo de maneira eficaz, como quando Forrest e Jenny, ainda crianças, estão juntos na cama e, em seguida, estão indo para a escola, já adultos – e aqui também acontecerá uma interessante rima narrativa, quando Jenny pede para Forrest correr dos vizinhos. A montagem faz ainda interessantes transições de Forrest para Jenny e vice-versa, por exemplo, através da televisão que eles assistem ou da lua. Finalmente, a passagem do tempo também é indicada no presente, através das pessoas que ouvem a história do protagonista, que mudam ao longo da narrativa enquanto Forrest continua contando sua vida.

Escrito por Eric Roth, baseado em livro de Winston Groom, o roteiro de “Forrest Gump” balanceia o tom leve e cômico com momentos dramáticos, espalhando ainda frases marcantes como “A vida parece uma caixa de bombons, nunca se sabe o que vamos encontrar” e o grito desesperado de Jenny: “Corra, Forrest, Corra!”. Além das frases marcantes, o roteiro cruza de maneira eficiente a história de Forrest Gump com momentos históricos dos EUA, como quando ele ensina alguns passos para Elvis, se torna destaque de um time de futebol americano, conversa com John Lennon, inventa slogans (“Shit happens”), compra ações da “empresa de fruta” Apple, entre outras coisas.

O tom leve da narrativa é reforçado ainda pela fotografia de Don Burgess, que emprega cores vivas e muitas cenas diurnas na maior parte do tempo. Por outro lado, os momentos difíceis de Forrest são normalmente pontuados pela chuva, como quando ele chega ao exército ou quando surpreende Jenny transando com outro num carro, numa estratégia visual inteligente por parte de Burgess e Zemeckis, pois a chuva sempre realça a melancolia dos personagens. Da mesma maneira, quando Forrest sente falta da mãe e de Jenny no exército, as sombras que predominam na tela ilustram o momento triste do personagem. Mas a melancolia tem pouco espaço em “Forrest Gump”, o que é refletido até mesmo na bela trilha sonora de Alan Silvestri, recheada de clássicos do rock de cada período em que a história se passa (que servem ainda para ilustrar a passagem do tempo), alternados com a triste e linda música tema. Além disso, Silvestri pontua muito bem as cenas, como quando Forrest começa a correr e larga a perna mecânica para trás, acompanhado pela trilha triunfal. Quem também merece destaque é o bom trabalho de design de som e efeitos sonoros, que se destaca especialmente na guerra, e os excelentes efeitos visuais da Industrial Light & Magic, que, por exemplo, amputam as pernas do tenente Dan (Gary Sinise) com perfeição – observe a cena em que ele se movimenta em cima de um muro antes de pular na água e sair nadando -, além de inserir com realismo o protagonista em vídeos reais e históricos de arquivos, colocando Forrest ao lado de alguns ex-presidentes dos EUA, como John Kennedy, e de astros como John Lennon. E além de misturar ficção e realidade com competência, “Forrest Gump” faz ainda diversas menções a grandes filmes norte-americanos como “Nascido para Matar” (na chegada ao exército, com o tenente gritando), “Apocalypse Now” (na chegada ao Vietnã, com a trilha psicodélica, as cervejas espalhadas pelo acampamento e o sol brilhando ao fundo) e “Perdidos na Noite” (quando Forrest sai com Dan pelas ruas e um carro quase os atropela, provocando a reação do tenente, que grita “Estou andando aqui!”, com a trilha do clássico estrelado por Dustin Hoffman e Jon Voight ao fundo), além de inserir imagens de “O Nascimento de uma Nação” quando Forrest cita a Klu Klux Klan.

Pra completar, praticamente todas as atuações de “Forrest Gump” são excelentes, a começar por Michael Conner Humphreys, que interpreta muito bem o jovem Forrest Gump, transmitindo a dificuldade do garoto de se relacionar socialmente através do olhar perdido e da movimentação lenta. Já adulto, Gump é interpretado pelo excepcional Tom Hanks, numa atuação marcante, notável através da entonação de sua voz, que prende nossa atenção enquanto conta as histórias, do olhar distante e da simplicidade com que compõe um personagem marcante e belo. Repare, por exemplo, como Hanks olha para o lado, ofegante e assustado, quando Jenny tira o sutiã, demonstrando o incomodo do personagem com aquela situação inusitada pra ele. Inocente, Forrest não percebe os abusos do pai de Jenny na infância (“Ele era um pai carinhoso, vivia tocando e beijando as filhas”, diz) e nem o cruel destino da garota, afirmando que ela realizou seu sonho ao vê-la cantando no palco de uma boate. Por outro lado, Forrest apresenta uma capacidade de concentração incrível que lhe permite, por exemplo, montar e desmontar uma arma com enorme velocidade e jogar pingue-pongue com incrível habilidade. Hanks demonstra muito bem todos estes aspectos fascinantes de um protagonista que enxerga o mundo da sua maneira singela e inocente, emocionando a platéia quando Forrest pergunta para Jenny se seu filho (Haley Joel Osment) é esperto e, principalmente, quando conversa com o túmulo da esposa. E até mesmo as cores leves de suas roupas (figurinos de Joanna Johnston) e a clareza de sua casa (direção de arte de Leslie McDonald e William James Teegarden) ilustram a pureza de sua alma.

Além do excelente protagonista, “Forrest Gump” conta ainda com uma gama interessante de personagens coadjuvantes, como o divertido Bubba (Mykelti Williamson), que morre na guerra, mas vive uma amizade tão verdadeira com Forrest que é homenageado por ele através da “Cia. de Camarões Bubba Gump”. Na chegada de Forrest ao exército, é ele quem cede lugar para Gump no ônibus, assim como Jenny havia feito na infância no ônibus escolar, em outra elegante rima narrativa. Interpretada com carisma por Robin Wright, Jenny gosta de Forrest e se preocupa com ele, como deixa claro quando se despede numa ponte antes dele partir pra guerra, pedindo que ele corra sempre que estiver em perigo. Mas o destino foi cruel com a garota e os traumas da infância ainda pesavam em sua vida, algo que fica evidente quando ela joga pedras na casa do pai. E é tocante o momento em que Jenny anuncia ter um vírus que “os médicos não conhecem bem”, provavelmente se referindo à AIDS (na época, um mistério para a medicina). Quem também tem uma grande atuação é Gary Sinise na pele do revoltado tenente Dan, que, após ter as pernas amputadas, se revolta contra Deus. Observe como o ator soa convincente, por exemplo, quando reclama na cama do hospital e, principalmente, quando desafia o todo Poderoso em alto-mar. Fechando os destaques do elenco, vale citar ainda a envelhecida Sally Field, que se sai muito bem na pele da batalhadora mãe de Forrest, especialmente na cena em que se despede do filho, momentos antes de morrer. E se a maquiagem acerta no envelhecimento de Field, erra ao não envelhecer Forrest ao longo dos anos, mas esta é uma falha insignificante num filme tão belo.

Após cruzar toda a história norte-americana recente, Forrest Gump se vê novamente esperando o ônibus escolar numa pequena cidade do interior, desta vez para que seu filho possa ir à escola. E quando o garoto entra no ônibus, deixando claro sua esperteza diante dos olhos do pai e do espectador, a pena voa novamente e encerra o filme. Durante mais de duas horas, fomos levados por uma história bela, empolgante e repleta de significados, e quando os créditos surgem na tela, sentimos que a viagem valeu à pena.

“Forrest Gump” é uma bela fábula da história recente dos Estados Unidos, que conta com um otimismo raro em grandes filmes, sustentado pela direção eficiente de Robert Zemeckis e pela grande atuação de Tom Hanks. A vida pode ser trágica e pode ser bela, dependendo da forma como encaramos cada etapa de nossa jornada. Incapaz de olhar o mundo com nosso costumeiro cinismo, o inocente Gump certamente levará ótimas lembranças da vida.

Texto publicado em 11 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

FILADÉLFIA (1993)

30 março, 2011

(Philadelphia)

 

Videoteca do Beto #93

Dirigido por Jonathan Demme.

Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Joanne Woodward, Jason Robards, Antonio Banderas, Roberta Maxwell, Karen Finley, Mark Sorensen Jr., Jeffrey Williamson, Charles Glenn, Ron Vawter, Anna Deavere Smith, Stephanie Roth, Lisa Talerico, Robert Ridgely e Buzz Kilman.

Roteiro: Ron Nyswaner.

Produção: Jonathan Demme e Edward Saxon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um dos primeiros filmes de Hollywood a falar abertamente sobre a AIDS, “Filadélfia” emociona não apenas por tratar com extrema sensibilidade desta terrível doença, mas também por abordar com extrema coragem outro tema bastante complicado, que é o preconceito contra os homossexuais. Através da triste história de seu protagonista e, principalmente, da trajetória do advogado que o defende, o longa dirigido por Jonathan Demme nos mostra como este preconceito é desprezível e que todos podemos mudar, desde que estejamos dispostos a isto.

Escrito por Ron Nyswaner, “Filadélfia” nos conta a história do promissor advogado Andrew Beckett (Tom Hanks), que é despedido de um importante escritório da Filadélfia quando seus superiores, especialmente o renomado Charles Wheeler (Jason Robards), descobrem que ele é portador do vírus da AIDS. Inconformado, ele procura o competente advogado Joe Miller (Denzel Washington), que encontra no caso de Andrew um verdadeiro desafio pessoal, sendo obrigado a lutar contra o seu próprio preconceito.

“Filadélfia” veio ao mundo numa época em que a AIDS ainda era um grande mistério e quando poucos filmes tinham coragem de falar abertamente do assunto. A doença era um verdadeiro tabu e todo tipo de boato circulava entre as pessoas, que não se preocupavam em saber exatamente como o vírus era contraído e quais eram as conseqüências que ele trazia, algo que o longa ilustra muito bem, especialmente através do personagem Joe Miller, interpretado por Denzel Washington. Mas, antes disto, a narrativa nos apresenta o advogado Andrew Beckett, que observa atentamente as pessoas ao seu redor enquanto faz exames de rotina – e seu olhar de compaixão por aqueles homens debilitados fisicamente se revelaria uma trágica ironia do destino. Na vida profissional, Andrew vive um momento especial, sendo escolhido para cuidar do caso de um dos mais importantes clientes do escritório comandado por Charles Wheeler. Mas tudo muda quando algumas manchas começam a aparecer em seu corpo, gerando a desconfiança de seus companheiros de trabalho ainda durante as comemorações de sua nova conquista (e a trilha sonora sombria indica o destino cruel do protagonista neste momento).

Sempre buscando debater o preconceito, o diretor Jonathan Demme procura mostrar com naturalidade o convívio entre os homossexuais, como quando Andrew tenta disfarçar as feridas em seu rosto, brincando com seus amigos sem grandes preocupações. Mas, ao mesmo tempo em que humaniza aquele grupo de pessoas, Demme indica, através de um amigo (aquele com a toca na cabeça), que o vírus já estava presente naquele meio, o que traz preocupação a todos quando “Andy” começa a passar mal, num indício claro de que ele poderia estar infectado, reforçado quando ele aparece careca e com o semblante abatido no escritório de Joe. Repare que Demme evita mostrar o momento em que ele descobre ter o vírus da AIDS, preferindo fazer esta revelação de maneira crua e direta numa conversa com Joe, provocando no espectador o mesmo choque do personagem vivido por Washington. Antes disso, o diretor inteligentemente nos mostra Joe atendendo outro cliente que, por contraste, nos revela seu preconceito, já que ele promete resolver um caso claramente indefensável, o que não faria momentos depois ao atender Andrew. Joe é um homem bem sucedido, que tem uma bela família e demonstra ter uma vida estável, como podemos notar num momento de extrema felicidade, quando acompanha o nascimento da filha. Mas, quando ele ouve Andy dizer “eu tenho AIDS”, seu preconceito vem à tona (e o medo que a doença provoca nas pessoas também), fazendo com que ele se afaste imediatamente (repare como Washington olha rapidamente para sua mão, como quem tem medo de contrair a doença pelo toque). Demme evidencia o distanciamento através de um plano afastado, focando em seguida os objetos que Andrew toca, refletindo a preocupação de Joe, que é percebida por Andy, fazendo-o questionar se o parceiro de profissão não quer ajudá-lo por razões pessoais. A resposta positiva evidencia um pensamento comum numa época em que a AIDS ainda era um grande mistério e normalmente era associada aos homossexuais, como fica claro também em sua conversa com a esposa (“Não gosto de homossexuais”) e nos protestos na porta do tribunal da Filadélfia, que dividem as pessoas em dois grupos: os que demonstram solidariedade pela pessoa infectada pelo vírus e os que condenam sua opção sexual. Só que “Filadélfia” faz questão de ressaltar que o vírus da AIDS não se restringe aos homossexuais, através de uma personagem que contraiu o vírus numa transfusão de sangue, e que nem todo homossexual é aidético, ao espalhar personagens perfeitamente saudáveis como o próprio Miguel (Antonio Banderas).

Sofrendo uma visível transformação física, Tom Hanks tem uma atuação maravilhosa (ele perdeu aproximadamente 20 quilos para interpretar Andy nos estágios finais da doença), ganhando a empatia do espectador com seu jeito simpático (repare como ele sempre pergunta sobre a filha de Joe quando o vê) e nos comovendo com sua luta pela vida e por seus direitos – e neste aspecto, o apoio incondicional de sua família “mente aberta” é muito importante. O contraste entre o Andy contente e saudável do início e o homem abatido do final é chocante, e Hanks colabora muito para isto com seu semblante triste e abatido (destaque também para a excelente maquiagem feita no ator). Além disso, desde a primeira cena, quando se enfrentam num tribunal, Hanks e Washington conseguem criar uma empatia vital para o sucesso da narrativa. E se a transformação de Andrew é física, a de Joe é puramente psicológica e Washington demonstra isto muito bem, defendendo com veemência seu cliente, primeiro por causa da lei, depois porque muda sua postura diante do homossexualismo, chegando a freqüentar uma festa gay com o agora amigo Andy. E para isto, ele não mudou sua opção sexual, apenas passou a respeitar uma opção diferente da sua, o que não o impede de ficar irritado quando um gay lhe passa uma cantada numa farmácia. Esta transformação começa a ocorrer quando Joe resolve ajudar Andy numa biblioteca (após se esconder atrás dos livros para que ele não o veja), interrompendo uma constrangedora conversa entre Andy e um funcionário incomodado por sua presença. O desempenho de Washington melhora ainda mais durante o julgamento, onde ele se solta, dando um show de interpretação e conferindo emoção em seus argumentos ao confrontar a irônica (irritante até) advogada que defende o escritório de Wheeler. Aliás, ela consegue irritar até mesmo o controlado Andrew, como podemos notar quando repete seguidas vezes a palavra “fato” e, no segundo plano, Andy olha fixamente pra ela. Fechando o elenco, Antonio Banderas interpreta Miguel, o parceiro de Andrew, e o veterano Jason Robards vive Charles Wheeler, o poderoso dono do escritório de advocacia.

Como grande parte da narrativa se passa dentro de um tribunal, “Filadélfia” poderia se tornar cansativo, mas felizmente Demme emprega elegantes movimentos de câmera no julgamento, nos fazendo passear pelo local com seus travellings ou com um pequeno plano-seqüência que nos leva do banheiro masculino até o meio do tribunal, além de, por exemplo, nos aproximar de Joe quando ele fala perto do juiz sobre o medo que as pessoas têm dos homossexuais através de um zoom, que serve também para agigantá-lo na tela. Além disso, o diretor conta com a montagem de Craig McKay, que insere flashbacks, como quando alguém cita um momento vivido na sauna entre Charles e Andrew, o que confere um ritmo mais interessante a narrativa. O diretor demonstra ainda sensibilidade na criação de planos simbólicos, como o contra-plongèe que diminui os advogados na biblioteca quando eles lêem sobre o que caracteriza o preconceito contra os aidéticos, refletindo o quão pequeno e desprezível é este sentimento, ou nas primeiras cenas do longa, quando somos levados pelas ruas da cidade, embaladas pela linda música tema de Bruce Springsteen “Streets of Philadelphia”, num passeio que faz “Filadélfia” nascer já nostálgico, apresentando uma espécie de despedida do local em que Andy viveu – e que foi o berço do movimento libertário no país. Aliás, a fotografia sem vida de Tak Fujimoto ilustra bem este sentimento, deixando as ruas acinzentadas e tristes. Finalmente, vale destacar os belos planos aéreos da cidade, outro plano-seqüência que nos leva pelos convidados na festa de Andrew e os constantes closes que destacam as feridas na cabeça do protagonista.

Enquanto acompanharmos os argumentos apresentados no julgamento, a mensagem principal de “Filadélfia” é plantada em nossas mentes. E mesmo pessoas que ainda têm preconceito podem começar a repensar o assunto, especialmente após o comovente momento em que Andy pede para Miguel parar de medicá-lo, claramente desistindo do tratamento e preferindo seguir o seu destino, mas não sem antes organizar uma festa, que serve como uma espécie de despedida das pessoas que ama. Mas, quando a festa acaba, Andy sente que o fim se aproxima – algo que Joe percebe nitidamente – e desiste de ensaiar suas falas para o dia seguinte no tribunal, se entregando à música, numa cena tocante, onde Hanks confere muita emoção cantando ópera com sentimento, deixando Joe perplexo por testemunhar um homem que estava se despedindo da vida naquele momento. Washington demonstra muito bem esta sensação, refletindo o instante em que Joe finalmente se deu conta que de fato Andrew estava morrendo. Repare como a iluminação da cena muda durante a performance apaixonada de Andrew, refletida nos tons avermelhados da fotografia de Fujimoto, assim como as sombras que envolvem Joe simbolizam o vazio de seu coração naquele instante. Após este momento intenso, Joe chega em casa e abraça a filha carinhosamente, dizendo que a ama, enquanto a ópera continua presente em sua memória, como bem reflete a trilha sonora. Ele sequer consegue dormir. Finalmente, Joe estava completamente transformado, como fica evidente no hospital, quando demonstra muito carinho pelos familiares de Andrew, incluindo Miguel. No dia seguinte ao turbilhão de emoções, Andy aparece totalmente debilitado no julgamento, tossindo, falando baixo e bastante magro. E enquanto a advogada faz uma série de questionamentos, ele começa a passar mal, algo ilustrado no plano levemente inclinado e na voz distorcida da advogada, caindo no chão e sendo levado ao hospital. O plano seguinte se inicia mostrando sua cadeira vazia no tribunal e, como ele mesmo tinha previsto, Joe ganha a causa, mas Andy não estava lá pra ver.

A despedida de Andrew no hospital é tocante, com o ângulo baixo da câmera de Demme nos colocando praticamente sob o ponto de vista dele enquanto seus familiares passam um por um. E é difícil segurar as lágrimas ao ver aquelas pessoas que parecem pressentir que aquele momento seria o último com seu ente querido. Após sua morte, a cerimônia de despedida, com o vídeo de Andrew criança, também emociona bastante, e o clipe final, embalado pela triste música “Philadelphia”, de Neil Young, encerra este filme sensível e corajoso, que fala abertamente sobre a AIDS e, principalmente, mostra como o preconceito é algo completamente sem sentido e idiota, pois, afinal de contas, independente de nossas opções sexuais, somos todos seres humanos.

“Filadélfia” aborda a AIDS com seriedade, mas também fala sobre o preconceito contra os homossexuais com coragem, ilustrado no personagem de Washington, que muda completamente durante a narrativa, passando a respeitar as pessoas, independente de sua opção sexual. Ele continua heterossexual, obviamente, mas agora respeita quem não tem a mesma opção que ele. Assim como merece respeito este corajoso filme, que ajudou a abrir caminho para discussões relevantes sobre o assunto.

Texto publicado em 30 de Março de 2011 por Roberto Siqueira