THE WONDERS – O SONHO NÃO ACABOU (1996)

(That Thing You Do!)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #109

Dirigido por Tom Hanks.

Elenco: Tom Everett Scott, Liv Tyler, Johnathon Schaech, Steve Zahn, Ethan Embry, Tom Hanks, Charlize Theron, Obba Babatundé, Giovanni Ribisi, Chris Ellis, Alex Rocco, Bill Cobbs, Kevin Pollak, Jonathan Demme e Colin Hanks.

Roteiro: Tom Hanks.

Produção: Jonathan Demme, Gary Goetzman e Edward Saxon.

The Wonders - O sonho não acabou[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após vencer dois Oscar de melhor ator e participar de mais dois sucessos de público e crítica, Tom Hanks decidiu que era hora de tentar se dar bem também atrás das câmeras. Mas, diferentemente de outros atores que se mostraram tão ou mais competentes na nova função, Hanks não conseguiu o mesmo sucesso e nem mesmo o fato de ser um dos atores mais queridos de Hollywood o ajudou. Ainda assim, “The Wonders – O sonho não acabou” está longe de ser um fracasso, narrando à ascensão meteórica de uma banda fictícia de maneira leve e bastante agradável.

Projeto pessoal de Hanks, que além de dirigir escreveu também o roteiro, “The Wonders” tem início quando o jovem Guy Patterson (Tom Everett Scott) aceita substituir o baterista de uma banda num concurso local e, ao alterar o ritmo da canção, acaba ajudando a criar um hit instantâneo que, com o auxilio de um empresário da Play-Tone Records (Tom Hanks), rapidamente levará os quatro rapazes para o topo das paradas de sucesso. No entanto, os conflitos entre eles começam a ameaçar o futuro do grupo.

Conto de fadas que se desintegra na mesma velocidade em que foi construído, “The Wonders – o sonho não acabou” narra a trajetória (tão comum até hoje) de uma banda de um sucesso só, permitindo ao espectador acompanhar de perto a formação e a decadência do grupo sem jamais deixar de lado o tom leve que marca a narrativa desde o princípio. Até mesmo visualmente isto fica evidente. Observe, por exemplo, como mesmo inicialmente realçando o lado obscuro dos locais fechados em que a banda se apresenta como restaurantes e igrejas, simbolizando o estilo underground daquelas apresentações, a fotografia de Tak Fujimoto progressivamente cede espaço para tons mais alegres e estes locais dão espaço aos iluminados e amplos palcos da turnê a céu aberto e das apresentações na televisão, que simbolizam o momento em que a banda está sob os holofotes.

Aliás, a própria época retratada ajuda nesta abordagem mais alegre e até mesmo inocente. Ainda que seja de conhecimento geral o espírito livre e o universo regado de sexo, drogas e álcool das grandes bandas do período, o universo retratado aqui está mais voltado para o lado politicamente correto (digamos que, sem querer causar polêmica – até porque gosto das duas bandas -, está mais para Beatles do que para Rolling Stones). Esta impressão é reforçada também pelos figurinos de Colleen Atwood, que capricha nas roupas comportadas da banda e do próprio público em geral, além dos carros que andam nas ruas e dos aparelhos eletrônicos vendidos na loja dos Patterson que nos transportam para os anos 60 com precisão (design de produção de Victor Kempster).

Claramente inspirados nos Beatles (as constantes menções aos “Fab4” evidenciam isto), os quatro rapazes conseguem o sucesso muito rapidamente, mas a assinatura do primeiro contrato já expõe as diferentes maneiras de pensar de cada integrante da banda que causariam a ruptura no futuro. “The Wonders” abre ainda um pequeno espaço para abordar o complexo universo do mundo da música através dos interesses da gravadora, que tentam determinar os caminhos que a banda deverá seguir, criando conflito com o inteligente e pretensioso Jimmy, interpretado sem grande brilho por Johnathon Schaech.

Iluminados e amplos palcos da turnêRoupas comportadas da bandaTalentoso e egocêntrico vocalistaMas se Jimmy é o talentoso e egocêntrico vocalista, o Lenny de Steve Zahn faz o papel do engraçadinho da turma (sem grande sucesso, diga-se), ao passo em que o baixista apenas complementa a banda (e por isso o personagem de Ethan Embry sequer tem um nome). Por tudo isso, fica claro muito cedo que Guy é o cérebro do grupo e o mais capacitado para enxergar os caminhos que eles deviam seguir para alcançar o sucesso. Interpretado com carisma por Tom Everett Scott (o que é essencial para que o sucesso dele com as garotas se justifique), Guy trabalha com seu exigente e autoritário pai na loja da família durante o dia e toca bateria a noite. Assim, substituir um integrante machucado acaba se transformando numa chance de mudar radicalmente sua vida – e que ele aproveita bem. Ao mudar o ritmo da canção, Guy torna a primeira apresentação da banda num festival em algo empolgante e muda os rumos daquelas pessoas, mas lentamente ele acaba deixando de lado sua namorada Tina, interpretada por ninguém menos que Charlize Theron, para dedicar-se à banda, numa ilustração perfeita do quanto é difícil manter um relacionamento quando se vive na estrada desta forma, ainda que a frieza do relacionamento deles seja evidente desde o princípio.

Assim, uma das maneiras mais comuns de estabelecer um relacionamento com um artista é mesmo fazer parte do grupo, algo que a inteligente Faye de Liv Tyler não demora a perceber. Personagem com papel fundamental na trajetória da banda, Faye acaba funcionando como o ponto de equilíbrio que, quando abalado, coloca todos em perigo. Assim, quando o egoísta Jimmy a trata mal na frente de todos e ela finalmente rompe com ele, a banda naturalmente também se desfaz. Ao menos, Jimmy abre caminho para o óbvio romance entre Guy e Faye. Vale citar ainda as rápidas participações do diretor Jonathan Demme como um diretor de cinema e de Bill Cobbs, que vive o simpático cantor de jazz Del Paxton.

Liderando o grupo com naturalidade, Tom Hanks tem uma atuação discreta e eficiente como o empresário Sr. White, mas sua presença sempre acaba chamando a atenção de todos. Ciente disto, Hanks evita que seu personagem roube a cena ao deixá-lo muitas vezes fora de campo, o que permite focar mais na dinâmica do relacionamento da banda. Discreto também atrás das câmeras, Hanks conduz o filme com segurança, mantendo viva a energia de uma narrativa naturalmente jovial, pecando apenas no tom excessivamente romântico da cena final. Um dos queridinhos da América, o diretor/ator boa praça deixa sua impressão digital através de uma narrativa leve e descontraída, que mesmo trazendo os bastidores de uma grande banda, aborda na maior parte do tempo um universo clean, livre de drogas e quase sem álcool, mas que por outro lado capta muito bem a euforia de tocar numa banda de sucesso, com todo o glamour da fama e com centenas de mulheres desesperadas atrás deles.

Cérebro do grupoPonto de equilíbrioPrimeira execução da música na rádioCuriosamente, as grandes cenas de “The Wonders” não funcionam com base no aspecto cômico. As apresentações enérgicas do grupo, a ansiedade dos pais deles antes da primeira aparição na televisão e a empolgação durante ela estão entre os melhores momentos do longa, assim como a primeira execução da música na rádio, captada com precisão pela agitada câmera de Hanks que, com o auxilio do montador Richard Chew, cria uma sequência emocionante enquanto acompanhamos os integrantes da banda recebendo a notícia com uma alegria contagiante. A montagem de Chew, aliás, é importante para manter o ritmo agradável do longa, acelerando a narrativa de maneira inteligente, por exemplo, através de um clipe que resume boa parte da turnê deles.

E são justamente estes bons momentos que fazem não apenas a aventura daqueles jovens valer a pena, como também servem para que “The Wonders” funcione. Assim como a banda fictícia que inspirou a trama, o filme não dura muito tempo na memória do espectador, mas aqueles momentos que passamos juntos são repletos de energia e felicidade.

The Wonders - O sonho não acabou foto 2Texto publicado em 11 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

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