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DURO DE MATAR – A VINGANÇA (1995)

7 junho, 2012

(Die Hard With a Vengeance)

 

Videoteca do Beto #129

Dirigido por John McTiernan.

Elenco: Bruce Willis, Jeremy Irons, Samuel L. Jackson, Graham Greene, Colleen Camp, Larry Bryggman, Anthony Peck, Nicholas Wyman, Sam Phillips, Kevin Chamberlain, Sharon Washington, Stephen Pearlman e Michael Alexander Jackson.

Roteiro: Jonathan Hensleigh, baseado nos personagens criados por Roderick Thorp.

Produção: John McTiernan e Michael Tadross.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após fazerem sucesso no cultuado “Pulp Fiction”, Bruce Willis e Samuel L. Jackson voltaram a atuar juntos (desta vez contracenando, o que quase não acontece no longa de Tarantino) sob a direção de John McTiernan, responsável pelo primeiro e melhor filme da franquia “Duro de Matar”. Só que todos estes elementos não foram suficientes para que “Duro de Matar – A Vingança” repetisse o feito do primeiro filme. Com uma narrativa menos inspirada, o longa se sustenta no carisma de seu protagonista e nas boas sequências de ação, mas está longe de ser um grande filme.

Escrito por Jonathan Hensleigh, “Duro de Matar – A Vingança” nos apresenta logo de cara uma explosão que serve para estabelecer o novo vilão como uma ameaça real e perigosa. Momentos depois, ele liga para a polícia, se apresenta como Peter Krieg (Jeremy Irons) e exige a presença de John McClane (Bruce Willis), que é encontrado bêbado e separado da mulher. O vilão passa então a brincar com McClane através de charadas e, logo na primeira delas, o dono de um estabelecimento chamado Zeus (Samuel L. Jackson) se envolve acidentalmente no caso e passa a ajudar McClane.

Apostando na volta da família Gruber (agora na pele do irmão interpretado por Jeremy Irons) após o sucesso do marcante vilão interpretado por Alan Rickman em “Duro de Matar”, o roteiro de Hensleigh acerta ao abusar do artifício “pista e recompensa”, por exemplo, através do distintivo “6991”, do nome da escola onde está uma bomba e da aspirina que entrega o paradeiro do vilão no terceiro ato. Por outro lado, a narrativa falha pelo excesso de momentos implausíveis, como aquele em que McClane é expelido de um túnel cheio d’água bem no momento em que Zeus passava pela rua, numa coincidência inimaginável numa cidade enorme como Nova York. Este tipo de artifício também existe nos filmes anteriores, é verdade, mas é amenizado por narrativas mais envolventes e cenas de ação mais impressionantes, algo que infelizmente não acontece neste “Duro de Matar – A Vingança”, o que acaba destacando os exageros do roteiro justamente pela falta de momentos marcantes e/ou cenas memoráveis. Mas se falha neste aspecto, Hensleigh se redime ao criar um interessante código de ética nos vilões, que brigam para não deixar bombas no alcance de crianças e deixam Zeus partir em certo momento, o que os torna menos unidimensionais e, consequentemente, mais interessantes.

Mesmo com mais de duas horas de duração, “Duro de Matar – A Vingança” jamais se torna entediante, graças ao bom ritmo imprimido pela montagem de John Wright e pela condução direta de McTiernan. Com cenas dinâmicas e bem conduzidas, como a sequência em que McClane e Zeus atravessam a cidade num taxi (e na contramão!) ou a sequência dentro do metrô, o longa apresenta um ritmo ágil, que prende nossa atenção. Por outro lado, o diretor não consegue transformar estas cenas em momentos de forte impacto, o que é uma falha considerável num filme de ação. Observe, por exemplo, um dos raros momentos em que McTiernan consegue criar tensão, quando o telefone toca enquanto um policial claramente aterrorizado aponta uma arma para Zeus, que precisa atender a chamada telefônica e evitar a explosão de uma bomba no metrô. A cena é lenta, mas bastante tensa e muito bem conduzida por McTiernan, servindo como referência para o potencial que a trama tinha, não aproveitado pelo diretor.

Mantendo a ação banhada pela luz do dia na maior parte do tempo, a fotografia de Peter Menzies Jr. só aposta na noite e na escuridão no ato final, numa tentativa tardia de ampliar a tensão. Já a trilha sonora de Michael Kamen segue a cartilha dos filmes de ação com seus acordes rápidos e altos, mostrando originalidade apenas na referencia à trilha clássica de “Dr. Fantástico” todas as vezes que os alemães aparecem sozinhos – especialmente a mulher de Gruber.

Mas se erra a mão na condução de algumas cenas de ação, McTiernan acerta no desenvolvimento dos personagens, a começar pelo vilão, que se não chega a aterrorizar como Hans Gruber no primeiro filme, é claramente um vilão mais respeitável que o coronel Stuart de “Duro de Matar 2”. Após acompanharmos os policiais se espalhando pela cidade do alto de um prédio diante da ameaça de uma bomba numa escola, a câmera faz um rápido movimento e revela Peter Gruber, que observa tudo à distância antes de iniciar a execução de seu audacioso plano. Sempre talentoso, Irons cria um vilão interessante e nada unidimensional, como podemos perceber quando manda liberar Zeus, quando atira na perna dele para não matá-lo e, especialmente, quando descobrimos que não existe bomba na escola (“Não sou um monstro”, diz). Apesar de sua ética peculiar, Gruber não deixa de soar ameaçador, especialmente no início, quando sugere não ter interesse em dinheiro – o que limita bastante as ações da polícia. E até mesmo suas charadas surgem como uma novidade interessante, mas infelizmente perdem a força ao longo da narrativa.

Sempre carismático na pele de John McClane, Bruce Willis mantém as características marcantes do personagem, como o mau-humor, a humanidade e a capacidade de rir das situações absurdas em que se envolve involuntariamente. Separado da mulher, ele surge bêbado e largado, mas é rapidamente envolvido no caso (a pedido do próprio criminoso), permitindo ao espectador se deliciar com suas tiradas e suas decisões nem sempre corretas, como quando decide perseguir os criminosos num túnel, somente para ser surpreendido pela água da represa e quase morrer afogado. Entretanto, desta vez McClane ganha à companhia de Zeus, um comerciante acidentalmente envolvido no caso num incidente no Harlem. Com uma irritante síndrome de perseguição que o impede de ver seu próprio racismo (algo que McClane aponta em certo momento), o Zeus de Samuel L. Jackson surge como uma espécie de parceiro de McClane (algo como Murtaugh e Riggs em “Máquina Mortífera”) e consegue sucesso neste sentido. O problema é que McClane é um personagem fascinante, que não precisa de companhia para funcionar, mas nem por isso a presença de Zeus compromete. Também mal-humorado e com boas tiradas, ele é responsável por momentos divertidos, como quando informa que o carro tem airbag no lado do motorista e olha assustado prevendo a ação de McClane, que salta de uma ponte em alta velocidade. Fechando o elenco, é sempre interessante ver Graham Greene, o eterno “Pássaro Esperneante” de “Dança com Lobos”, que aqui surge como o policial Joe Lambert.

Um dos acertos da série “Duro de Matar” está na constante sensação que temos de que McClane não conseguirá ter sucesso em sua empreitada. Tememos por seu destino, justamente porque ele parece alguém real e vulnerável, e não um herói invencível. Neste terceiro filme esta sensação é ainda mais forte, especialmente após a sequência no navio – e confesso que eu teria curtido mais se o filme acabasse com McClane no telefone, admitindo o sucesso do plano de Gruber, num final que seria bastante original. Infelizmente, o roteiro aposta na fórmula tradicional e uma última pista nos leva ao tradicional confronto entre vilão e mocinho, com a vitória mais que esperada de McClane.

Apesar do final convencional e dos clichês do gênero, “Duro de Matar – A Vingança” é um bom filme de ação, que se sustenta especialmente na química entre Willis e Jackson e no carisma de seu protagonista. Por outro lado, suas cenas de menor impacto e sua narrativa menos envolvente que nos filmes anteriores transformam este no filme menos interessante da série até então.

Texto publicado em 07 de Junho de 2012 por Roberto Siqueira

O REI LEÃO (1994)

9 abril, 2011

(The Lion King)

 

 

Filmes em Geral #52

Videoteca do Beto #150 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff.

Elenco: Matthew Broderick, Rowan Atkinson, Whoopi Goldberg, Jeremy Irons, Nathan Lane, Niketa Calame, Jim Cummings, Robert Guillaume, James Earl Jones, Moira Kelly, Zoe Leader, Cheech Marin, Ernie Sabella, Madge Sinclair e Jonathan Taylor Thomas.

Roteiro: Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, baseado em história de Jim Capobianco, Lorna Cook, Thom Enriquez, Andy Gaskill, Francis Glebas, Ed Gombert, Kevin Harkey, Barry Johnson, Mark Kausler, Jorgen Klubien, Larry Leker, Ricki Maki e Burny.

Produção: Don Hahn.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de alguns tropeços ao longo de sua história, os estúdios Disney se especializaram em produzir animações de grande qualidade, que utilizam uma estrutura narrativa simples e o talento de seus animadores para deixar mensagens marcantes tanto para crianças como para adultos. Mas existem alguns momentos em que este trabalho em conjunto se supera e alcança a perfeição, entregando filmes capazes de marcar gerações, como é o caso deste lindo “O Rei Leão”, que consegue narrar uma história vigorosa, utilizando como pano de fundo a deslumbrante paisagem da selva africana para ensinar valores fundamentais de maneira tocante. Em outras palavras, trata-se de um filme belo tematicamente e deslumbrante visualmente. Em resumo, uma obra-prima.

O rei leão Mufasa (voz de James Earl Jones) apresenta seu filhote Simba (voz de Matthew Broderick) aos animais do reino, provocando a ira de seu invejoso irmão Scar (voz de Jeremy Irons), que arquiteta um plano cruel na busca pelo trono. Aproveitando a inocência e a curiosidade do pequeno Simba, Scar consegue colocar em prática seu plano, mas, com o passar do tempo e a ajuda do astuto macaco Rafiki (voz de Robert Guillaume), Simba volta para ocupar o seu lugar de direito.

Por razões óbvias, a selva africana é um local dos sonhos para animadores, que podem criar (ou reproduzir) cenários capazes de tirar o fôlego de qualquer um. Felizmente, a equipe da Disney não perdeu a oportunidade, permitindo aos diretores Roger Allers e Rob Minkoff viajarem pelos belíssimos cenários, nos levando por deslumbrantes paisagens e, auxiliados pela excelente trilha sonora de Hans Zimmer (que remete aos sons típicos da África), nos ambientando ao local onde se passará à narrativa. Na realidade, o trabalho de criação de cenários e o som – que, por exemplo, permite distinguir nitidamente gotas da chuva, raios e os ruídos de cada animal – fazem mais do que ambientar o espectador, conseguindo uma verdadeira imersão no universo de “O Rei Leão”. Impressiona também a fidelidade com que a narrativa recria os hábitos dos animais, como quando Scar diz que “é função das leoas trazerem comida para o bando”, assim como os animadores retratam com perfeição os movimentos dos leões, como quando Simba caminha de um lado para o outro pensativo, da mesma forma que um leão real faria. Repare ainda como os movimentos felinos de caça são idênticos à realidade, assim como o movimento de praticamente todos os animais, reforçando a qualidade do trabalho dos animadores. Captando este visual rico e cheio de cores com competência, Allers e Minkoff criam planos belíssimos, que soam como um verdadeiro deleite visual, seja na chuva, seja no sol, fazendo com que diversos momentos do longa mais pareçam um quadro vivo. E até mesmo os locais mais sombrios têm sua beleza, como o obscuro cemitério dos elefantes, apresentado lentamente ao espectador através de um zoom e habitado pelas cinzentas hienas, que criam um contraste interessante com os pardos leões. Aliás, não são poucos os momentos em que um movimento de câmera nos revela algo deslumbrante, como nos elegantes travellings que passeiam pela selva, ou algo importante para a narrativa, como quando somos apresentados às centenas de gnus que pastam no monte próximo ao local onde Simba se encontra. Quando os gnus aparecem na tela, o espectador sente o perigo e praticamente prevê a tragédia – ainda que neste momento esteja mais preocupado com Simba do que com Mufasa -, que se consumará na impressionante cena do estouro dos gnus.

Mantendo a tradição Disney, a trama é interrompida algumas vezes por canções diegéticas que tem alguma função narrativa, como quando Timão e Pumba apresentam sua filosofia “Hakuna Matata”, no momento mais leve do filme, que aproveita para fazer a transição do jovem Simba para o Simba adulto. Aliás, já que citei a divertida dupla, vale ressaltar que a narrativa é preenchida por diversos personagens coadjuvantes fascinantes, como o sábio macaco Rafiki, o fiel Zazu e os próprios Timão e Pumba, que surgem após o momento mais intenso dramaticamente, funcionando como um alívio cômico perfeito. E ainda que seja o vilão, Scar, com sua juba preta, não deixa de ser um personagem interessante, amargurado por ser relegado ao segundo plano diante do poderoso irmão e seu legítimo herdeiro, o que o leva a arquitetar um plano diabólico, revelado num número musical sombrio, quando ele canta para as hienas – repare como a fotografia migra de tons esverdeados para o amarelo e, finalmente, para o vermelho, o que é coerente com as intenções demoníacas do invejoso leão.

Auxiliados pela montagem de Tom Finan, a dupla de diretores acertadamente investe boa parte da narrativa na relação entre Simba e Mufasa, estabelecendo a importância da figura paterna na formação do caráter daquele jovem. Além disso, Finan cria elegantes transições entre planos, como quando Rafiki está sentado e reflexivo durante a posse de Scar e, no plano seguinte, aparece dormindo numa árvore, assim como a imagem de Simba numa pedra se transforma no próprio leão, agora deitado e dormindo no deserto. Escrito por Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, “O Rei Leão” aborda temas fortes e universais, como o amor, a inveja e a morte – este último de maneira profunda e tocante. Desde o seu nascimento, Simba é festejado e reverenciado pelos outros animais. Mas, como seu pai lhe ensinaria a seguir, ser rei não era uma tarefa tão simples assim. E é justamente nos ensinamentos de Mufasa que reside a grande mensagem do longa, ao abordar o chamado “ciclo da vida” e a natureza finita de todos nós. Num destes diálogos, Mufasa explica para seu filhote que da mesma forma que eles se alimentam de antílopes, um dia eles morreriam, virariam grama e serviriam de alimento para estes mesmos animais, num exemplo interessante da vida selvagem, onde todos são importantes no equilíbrio do ecossistema. Em outro momento, o sábio Mufasa ensina ao filho que “o tempo de um reinado se levanta e se põe como o sol”, numa bela metáfora para a própria vida – que serve também para preparar o espectador para a perda de Mufasa. Da mesma forma que viemos para o mundo, um dia partiremos, deixando o lugar para outro ser, que dará continuidade à nossa espécie. Nossos antepassados tiveram o seu tempo, depois vieram nossos pais e, finalmente, a nossa geração, que será sucedida pela dos nossos filhos e assim por diante. A lição, forte e direta, cai como uma bomba nos jovens espectadores (e afirmo isto porque assisti ao filme pela primeira vez com 13 anos de idade e lembro muito bem o quanto fiquei impressionado). Um dia, mais cedo ou mais tarde, teremos que assumir responsabilidades e ser como nossos pais.

Para que esta mensagem marcante funcione, é vital que a relação entre pai e filho conquiste a platéia, e felizmente o roteiro trata esta questão com carinho, criando um vinculo excepcional entre Mufasa e Simba. Desde os primeiros momentos, o pai pacientemente ensina tudo ao filho, sempre com muito carinho e amor, preparando seu pequeno para a vida. E mesmo quando precisa ser enérgico, Mufasa é sábio na condução da situação, como quando salva Simba no cemitério e pede para Zazu acompanhar Nala enquanto ele ensinaria uma lição ao filho. Misturando autoridade e amor, Mufasa transita do recado claro sobre os perigos da atitude de Simba para a brincadeira descontraída, numa cena linda e marcante. É nesta cena também que Mufasa fala sobre as estrelas e os reis, num diálogo que refletirá em outra cena emocionante, quando Simba, deitado na grama ao lado de Timão e Pumba, olha para as estrelas e lembra o pai (e observe como no momento em que Mufasa fala com o filho, o zoom out diminui os personagens em cena, refletindo a aflição de Simba ao pensar que um dia perderia seu pai). Assustado, o garoto encontra conforto em outra frase marcante de seu velho, que lhe ensina o quanto aquele sentimento era normal: “Os reis também têm medo”.

Conduzida com muita energia, a triste cena da morte de Mufasa provocará a fuga de Simba, impulsionado pelos gritos de seu tio Scar, que lhe aconselha a fugir, segundos antes de ordenar sua morte. Mas o jovem leão tinha o sangue dos grandes e consegue escapar, fugindo para a savana, num plano belíssimo onde podemos ver as hienas observando o pequeno leão que se perde no horizonte. E após viver bons momentos ao lado de Timão e Pumba, Simba, agora um leão adulto, reencontra sua amiga Nala quando ela pula em cima dele durante uma caçada, numa interessante rima narrativa que remete a “Bambi”, onde o personagem principal também reencontrava sua amada da mesma maneira que a conhecera na infância. Embalados pela bela “Can you feel the Love tonight”, Simba e Nala se apaixonam, só que a paixão não seria suficiente para levar o leão de volta ao seu lugar. Cabe então ao macaco Rafiki a árdua missão de convencê-lo, algo que ele consegue de maneira marcante, provando para Simba que Mufasa estava vivo. Simba, empolgado com a notícia, corre para o local apontado pelo macaco e vê, no reflexo da água, sua própria imagem, compreendendo que uma parte de seu pai existia dentro dele agora – confesso que, após esta bela cena, pensei imediatamente na frase “ter um filho é uma maneira de continuar vivo” e me emocionei. Ainda sentindo-se culpado pela morte do pai e demonstrando grande carência afetiva, Simba finalmente compreende seu lugar no ciclo da vida e decide voltar.

Chegamos então ao esperado confronto final entre “vilão” e “mocinho”, onde, após reencontrar o tio, Simba se vê na mesma situação em que seu pai morreu e descobre a verdade sobre a morte dele (repare novamente no tom vermelho da fotografia, que cria uma atmosfera tensa e violenta, remetendo ao sangue, à própria raiva de Simba e ao seu desejo de matar o tio). Buscando forças após a bombástica revelação, Simba manda o tio pelos ares, dando às hienas a oportunidade de se vingar de Scar, num exemplo claro da famosa lei da selva. E então, Simba assume seu posto, na mesma pedra em que foi apresentado aos outros animais e onde apresentará o seu filhote, que, da mesma maneira, dará seqüência ao ciclo da vida.

Com grandes ensinamentos, um visual rico e uma mensagem marcante, “O Rei Leão” é um lindo filme, capaz de emocionar sem ser melodramático. De maneira simples e direta, ensina valores importantes, conquistando o espectador com seus personagens graciosos e seu interessante conceito de continuidade da vida e inevitabilidade da morte. E já que a morte é inevitável, nada melhor do que aproveitar a vida da melhor maneira possível, amando, sendo amado, e assistindo a grandes filmes como este. Hakuna Matata!

Texto publicado em 09 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

PERDAS E DANOS (1992)

5 março, 2011

(Damage)

 

Videoteca do Beto #88

Dirigido por Louis Malle.

Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Ian Bannen, Peter Stormare, Gemma Clarke, Julian Fellowes, Leslie Caron e David Thewlis.

Roteiro: David Hare, baseado em história de Josephine Hart.

Produção: Louis Malle, Vincent Malle e Simon Relph.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um elenco muito talentoso, um bom diretor e um bom roteiro infelizmente não são suficientes para transformar “Perdas e Danos” num grande filme. Apesar de sua história trágica, que normalmente conseguiria provocar forte impacto no espectador, o longa não consegue empolgar, apresentando um resultado tão frio quanto os personagens que acompanhamos durante a narrativa. Talvez falte ao filme justamente aquilo que ele pretende investigar: paixão.

O competente líder do parlamento inglês Stephen Fleming (Jeremy Irons) é um homem de reputação intocável e comportamento familiar exemplar, que vê sua vida virar de pernas pro ar quando seu filho Martyn (Rupert Graves), contrariando a vontade de sua mãe Ingrid (Miranda Richardson), inicia um relacionamento com a jovem Anna (Juliette Binoche), por quem ele também se apaixona. Sem hesitar, Stephen se entrega a esta paixão avassaladora e passa a se relacionar com a noiva de seu filho, mesmo sabendo os enormes riscos que estava correndo.

Escrito por David Hare, baseado em história de Josephine Hart, “Perdas e Danos” narra a triste história do bem sucedido Stephen, que vê tudo que ele conseguiu construir ruir por causa de uma paixão sem limites. De maneira inteligente, o roteiro de Hare faz questão de estabelecer a natureza estável da relação entre Stephen e Ingrid logo no início da narrativa, através de uma conversa na cozinha que evidencia o quanto eles se sentem à vontade na presença do outro, deixando claro para o espectador que não se trata de um casamento em crise e que a paixão de Stephen por Anna será algo simplesmente físico, uma enorme atração sexual. Esta mesma cena serve também para deixar claro uma característica de Martyn que será vital para entender o sofrimento de Ingrid futuramente, ao perceber que a relação entre seu filho e Anna não é apenas mais um dos muitos casos do rapaz. Já o primeiro diálogo entre Stephen e Anna tem poucas palavras e muitos olhares, que expõem a atração puramente física de ambos. Afinal de contas, este não é um caso entre duas pessoas com afinidade, que dividem gostos em comum, e exatamente por isso as palavras são desnecessárias. Outra indicação sutil, muito bem explorada pelo diretor Louis Malle, acontece quando Martyn anuncia seu casamento e Stephen derruba vinho na mesa, num prenúncio interessante de que ele seria o responsável por derramar sangue da família por causa daquela paixão. Assim como é sutil a disputa de cara ou coroa antes de uma partida de bilhar, que simboliza o embate entre pai e filho por Anna (curiosamente, Stephen vence e, de fato, ele continua com Anna. Mas, no fim das contas, todos sairão perdendo), ilustrado também quando Stephen olha uma foto e Martyn diz que ele “pode ficar” com ela.

Mas se acerta nos momentos que exigem sutileza, como quando Anna liga para Stephen e marca o primeiro encontro e o movimento de câmera destaca a reação de perplexidade do ministro, Louis Malle erra em conjunto com seu montador John Bloom ao estabelecer a relação entre Stephen e Anna muito cedo, o que não permite que o espectador crie empatia com os personagens e acaba alongando demais o caso deles, tornando a narrativa mais lenta e arrastada e, portanto, menos interessante. Além disso, a melancólica trilha sonora de Zbigniew Preisner oscila bastante durante a narrativa, exagerando em alguns momentos onde o tom sombrio demais parece deslocado. Por outro lado, o diretor acerta ao evitar romantizar as relações sexuais de Stephen e Anna, criando uma atmosfera crua e até mesmo fria através do excesso de closes (que realçam apenas as reações do casal) e do silêncio. Observe, por exemplo, como a falta de trilha sonora torna a primeira relação sexual de Stephen e Anna crua e realista, além de destacar a natureza melancólica daquela relação através do silêncio que predomina na cena. Nesta cena, vale notar ainda como os figurinos sem vida do casal, em tons de preto e branco, sugerem que aquela relação teria um futuro sombrio, algo reforçado após o sexo, quando ambos aparecem vestidos somente de preto, indicando o futuro trágico e a natureza “pecaminosa” daquela relação. E apesar de ambos serem grandes atores, o close nos rostos de Binoche e Irons tira toda a química da cena. Observe ainda como na medida em que as relações se repetem, Malle começa a apresentar cenas mais explícitas, mas sempre mantendo a agressividade em detrimento do carinho e do afeto.

Mas como Stephen foi se meter numa situação complicada como esta? Em primeiro lugar, quero deixar claro que acho repugnante que um pai faça isto com um filho, por maior que seja a paixão. Dito isto, podemos notar que Stephen (interpretado pelo competente Jeremy Irons) é um homem de família, respeitado também no âmbito profissional, mas que, de acordo com as palavras do próprio filho, é alguém “sem paixão” – algo refletido até mesmo em seu terno sempre escuro e sem vida (figurinos de Milena Canonero). A aparição de Anna representa, na lógica distorcida de Stephen, uma oportunidade única de sair da linha, de fazer algo que ele até hoje não fez, mas obviamente o ministro ultrapassa muito esta linha e perde a razão, chegando a sequer prestar a atenção numa importante reunião e sair caminhando pelas ruas de Bruxelas pensando na garota (observe o tom azulado da fotografia de Peter Biziou, que ilustra a tristeza do personagem neste momento). Desesperado, ele pega o trem e vai até Paris encontrá-la, chegando ao absurdo de ligar pra ela no quarto do hotel, mostrando que de fato não tem o menor respeito pelo filho (se é que poderia restar algum respeito por parte de Stephen). A situação se complica ainda mais quando ele decide visitar Anna e conhece Peter, ex-namorado da garota, gerando uma crise de ciúmes. E se todo este sofrimento do personagem é crível, é porque Irons é competente na difícil tarefa de viver um personagem tão repugnante sem afastá-lo completamente do espectador. Por exemplo, após perder Anna pela primeira vez, Irons demonstra bem a amargura do personagem em seu semblante sempre triste e confuso, e o espectador, por mais que não compactue de suas atitudes, entende seu sofrimento. Irons é inteligente ainda em outros momentos, como quando hesita em cumprimentar Anna após Martyn apresentá-la, esperando a reação dela antes de se pronunciar. Como eles já tinham se conhecido numa festa, ele não sabia se ela iria falar sobre isto ou fingir que não o conhecia. E apesar de totalmente descartável, a subtrama que envolve os problemas de Stephen no trabalho servem para que Irons mostre seu talento quando explode contra os funcionários, num reflexo claro de seus problemas na vida pessoal.

Todos estes problemas foram gerados pela fria e misteriosa Anna, uma mulher atraente, mas que carrega uma aura pesada pelo trauma da morte do irmão, que era apaixonado por ela. Juliette Binoche consegue transmitir este peso através do semblante, sorrindo muito raramente e com o olhar sempre desconfiado. Mas se por um lado Anna apresenta um aspecto sombrio, por outro é absolutamente segura do que quer. Ao contrário de Stephen, ela sabe que as selvagens relações sexuais são sinais apenas de uma atração física. Por isso, quando ele afirma que vai deixar a esposa, a resposta simples e direta de Anna deixa claro que Stephen não deveria largar a vida que tem com Ingrid por causa de uma atração sexual, pois ele não ganharia nada com isso (“Você ganharia algo que já tem”). Da mesma forma, Anna quer manter as relações com Stephen, mas não quer perder o conforto que Martyn pode proporcioná-la, o que a leva a dizer frases díspares como “Não nos siga” e “Acha que eu me casaria com Martyn se não pudesse ver você?”. Vale destacar ainda dois momentos especiais da grande atuação de Binoche, quando Anna repete a palavra “cinco” ao ouvir sua mãe dizer que quase casou pela quinta vez, mostrando que já ouvira aquela história diversas vezes, e especialmente quando sorri de maneira contida ao notar a chave do flat na mão de Stephen, mostrando a luta da personagem para conter a felicidade naquele momento. É interessante notar também como o pressentimento materno tem forte presença em “Perdas e Danos”. Repare como a carismática e cuidadosa Ingrid, uma mãe e esposa dedicada, já se mostra incomodada com a presença de Anna durante um jantar, como se soubesse o que a presença dela traria para sua família (e Miranda Richardson demonstra muito bem este incômodo através de sua expressão aflita e de suas palavras ríspidas). Já a Sra. Elizabeth (Leslie Caron), com um dom de premonição digno de Hollywood, percebe a relação entre Stephen e sua filha e pede que o ministro se afaste de Anna. Mas, ao contrário do sentimento de Ingrid, aqui a “previsão” soa forçada (não por culpa da atriz), porque se a relação entre eles era tão clara assim, como os outros integrantes da família nunca percebem o que acontece? Além disso, a lição de moral da Sra. Elizabeth após a morte de Martyn não convence e parece totalmente fora de propósito. Aquele homem já estava sofrendo demais para ouvir aquelas palavras duras. Fechando o elenco, Rupert Graves não agrada na pele de Martyn, mostrando-se exageradamente inexpressivo. Por mais que o personagem também seja alguém pouco carismático, Graves erra na dose e apaga completamente o já pouco iluminado Martyn.

Chegamos então ao momento que poderia transformar “Perdas e Danos” num filme marcante, não fossem tantos os erros cometidos durante a narrativa. Após Martyn ligar para Anna e ouvir que ela “não volta mais hoje”, ele parte para o endereço do flat, conseguido de uma maneira que só descobriremos depois. Um plano rápido mostra a chave do lado de fora do flat e evidencia o descuido fatal do casal de amantes. Quando Martyn sobe as escadas, a tensão toma conta da tela e os olhares incrédulos dos três nos levam ao terrível desfecho daquele encontro. Mais uma vez, Anna é cercada por uma tragédia (observe que ela se joga na cama após a queda de Martyn, desolada). Stephen, desesperado, desce as escadas para segurar o filho, já sem vida (e o plano em plongèe que diminui o personagem ilustra seu sentimento naquele momento). A chuva que recai sobre ele na volta pra casa, além de reforçar o sentimento de tristeza, apenas confirma seu melancólico destino. Ao chegar em casa, encontra Ingrid destruída, que explode em choro, dor, revolta e raiva, num momento estupendo de Miranda Richardson, que transmite com precisão toda a miscelânea de sentimentos da personagem e entrega a melhor atuação de “Perdas e Danos”. Já Stephen acaba perdendo tudo que tinha: Anna, Ingrid, Martyn, seu emprego e seus amigos.

Apesar de contar uma história com potencial para provocar forte impacto no espectador, “Perdas e Danos” apresenta erros básicos que comprometem um longa que tinha tudo para dar certo. Com um elenco muito talentoso nas mãos, Louis Malle consegue extrair ótimas atuações, mas peca em aspectos fundamentais que poderiam tornar a narrativa mais interessante e que certamente aumentariam a força do filme diante do espectador. Infelizmente, o resultado terá algum impacto em nossas mentes somente até assistirmos ao próximo filme e depois, ao contrário da paixão que Stephen sentia por Anna, cairá no esquecimento.

Texto publicado em 05 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

A MISSÃO (1986)

19 janeiro, 2010

(The Mission)

 

Videoteca do Beto #37

Dirigido por Roland Joffé.

Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Ray McAnally, Aidan Quinn, Cherie Lunghi, Ronald Pickup, Chuck Low, Liam Neeson, Daniel Berrigan e Monirak Sisowath.

Roteiro: Robert Bolt.

Produção: Fernando Ghia e David Puttnam.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

As belíssimas paisagens da divisa entre Brasil, Argentina e Paraguai, capitaneadas por uma incrível cachoeira em meio à floresta, são o pano de fundo para a história da chegada de espanhóis e portugueses em território indígena, onde os jesuítas tocavam o projeto das missões, criando comunidades e vivendo em harmonia com os povos nativos. A forma como as decisões políticas e os interesses econômicos determinaram o fim das missões e o meio violento utilizado para este fim é o que poderemos testemunhar no bom filme dirigido por Roland Joffé. “A que preço este continente foi dominado, colonizado e encontrou o progresso?” é a reflexão que surge na mente do espectador quando o último plano do filme desaparece na tela.

“A Missão” narra à história do padre Gabriel (Jeremy Irons), um jesuíta de bom coração que luta para defender os interesses indígenas ao lado de Fielding (Liam Nesson), e ao mesmo tempo tenta convertê-los para o cristianismo, no final do século XVIII. Gabriel passa a enfrentar problemas com o mercenário mercador de escravos Rodrigo Mendoza (Robert De Niro), mas vê a oportunidade de guiá-lo em sua redenção quando, após matar o próprio irmão Felipe (Aidan Quinn) num duelo pelo amor da jovem Carlotta (Cherie Lunghi), Rodrigo sequer consegue continuar vivendo. Decidido a se regenerar, e como forma de pagar penitencia pelo peso de seu passado, o mercenário se torna padre e parte para viver na missão jesuíta, junto aos índios que perseguia. Os problemas começam quando os interesses econômicos na região entram em conflito com a missão jesuíta.

Não é difícil imaginar a dificuldade que os primeiros europeus encontraram quando chegaram ao continente sul-americano, ao se deparar com os povos nativos da região. Imagina-se também o choque cultural provocado nestes povos, ao perceberem que não estavam sozinhos e serem invadidos por pessoas de culturas tão diferentes. Por isso, quando vemos a forte cena em que um padre, amarrado em uma cruz, desce uma cachoeira para encontrar a morte, podemos imaginar os motivos que causaram este terrível fim. Mesmo assim, os chamados jesuítas tiveram sucesso em suas missões, se estabelecendo na região e convivendo pacificamente com os povos indígenas.

Roland Joffé é preciso na criação de planos incrivelmente belos, enquadrando perfeitamente as lindas paisagens do local. Conduzindo a narrativa com segurança, o diretor consegue manter um bom ritmo, falhando apenas na confusa seqüência final, quando o combate se inicia. A sutileza do diretor é perceptível na cena em que Rodrigo mata seu irmão Felipe, onde a câmera sequer mostra o irmão morto, fixando a imagem no rosto de Rodrigo e captando o impacto daquela ação em sua mente, já que este momento mudaria sua vida para sempre. Joffé também é competente na condução de uma das mais belas cenas do filme, quando padre Gabriel toca flauta para fazer contato com os índios, mostrando o poder da musica como linguagem universal, rompendo a barreira do idioma e permitindo a comunicação entre povos distintos. Esta cena, aliás, é marcada pela linda música tema composta por Ennio Morricone, que é o destaque da bela trilha sonora do filme.

O roteiro de Robert Bolt pode parecer bastante maniqueísta, ao retratar praticamente todos os europeus como vilões sem coração e todos os índios e jesuítas como pessoas boas. Porém, o filme escapa do maniqueísmo ao utilizar um inteligente artifício narrativo. Toda a história é contada sob o ponto de vista de Altamirano (Ray McAnally), que amargurado, generaliza em seu relato, transformando todos os europeus em pessoas más e todos os índios em pessoas boas. Além disso, o próprio arrependimento do narrador e a mudança de Rodrigo ao longo da narrativa reforçam este argumento. O roteiro também aborda de forma convincente como o jogo de interesses políticos determinou as ações tomadas na região, sem eximir de culpa o governo espanhol, português e a igreja. Fica claro para o espectador que a igreja trabalhou muito mais para fins políticos do que para defender a mensagem divina de amor e paz. Finalmente, Bolt teve o cuidado de desenvolver muito bem dois personagens antagônicos, que caminham juntos durante certo momento da narrativa, somente para tomar caminhos distintos em defesa da mesma causa no final. Obviamente, estamos falando de Rodrigo Mendoza e padre Gabriel. Por outro lado, ao não conseguir criar empatia com nenhum dos índios, o roteiro parece diminuir o impacto da terrível seqüência final, mas de certa forma, ajuda a entender o problema como algo generalizado, e não concentrado em um único personagem. Assim, o espectador sofre, mas não por um único índio por quem tenha criado empatia, e sim por todos eles, o que é mais tocante.

A citada cena em que Gabriel faz contato com os índios através da música serve também para iniciar a ligação do espectador com o bom padre, que será importante durante toda a narrativa. Irons está muito bem nesta cena, demonstrando a tensão misturada com coragem que sentia no momento, com o olhar atento para todos os lados e os gestos minimamente calculados. A grande atuação de Jeremy Irons cresce ainda mais no terceiro ato, quando Gabriel sofre o dilema entre defender os nativos utilizando a força e respeitar os ensinamentos cristãos de paz e amor. Mesmo sofrendo (e o ator é competente na transmissão deste sentimento), se mantém firme em sua fé, como podemos notar em sua importante conversa com Rodrigo, quando este pede para ser abençoado. Irons demonstra bem a insegurança de Gabriel, afinal de contas, o padre também é um ser humano. Mesmo assim, decide seguir pelo caminho do amor, nem que pague com a vida por isso.

Quem também decide pagar com a vida para defender os índios, só que de uma forma diferente e mais violenta, é Rodrigo Mendoza. Inicialmente apresentado como um homem cruel, capturando índios e negociando-os, ele se transforma completamente após a tragédia que destrói sua vida.  Após matar seu irmão, que havia se interessado por Carlotta (a mulher com quem Mendoza se relacionava), desiste de viver, sendo convencido por Gabriel a seguir com os Jesuítas para a missão, aceitando apenas como forma de penitência. Porém, sua transformação ao longo da trama é notável, graças ao bom desempenho do sempre competente Robert De Niro. A cena em que ele desaba num choro sentido diante dos índios é extremamente comovente e exemplifica muito bem o bom trabalho do ator. Rodrigo é um personagem muito importante na trama, e a câmera de Joffé traduz isso algumas vezes. Observe, por exemplo, como em dois momentos distintos, ao ouvir palavras mentirosas ou agressivas dos europeus, a câmera se aproxima dele (primeiro através de um close, depois através de um travelling para a esquerda), realçando seu incomodo com o que ouvia. Repare também o simbolismo óbvio na cena em que um pequeno índio encontra e entrega para Rodrigo sua espada perdida. O menino sabia que no íntimo Rodrigo queria lutar. As palavras não precisam ser ditas, o gesto resume tudo. Observe também como através da expressão facial e do olhar, De Niro transmite todo o sentimento do personagem na cena. Completando os destaques no elenco, Aidan Quinn tem uma participação discreta e pequena como Felipe Mendoza, enquanto Liam Nesson tem uma atuação discreta e competente na pele de Fielding, crescendo nos momentos finais, quando ajuda Rodrigo a liderar os índios contra a invasão européia.

O bom trabalho de direção de fotografia de Chris Menges é o destaque na parte técnica, explorando com competência a absurda beleza das cachoeiras, dos rios e da floresta local. Repare como a fotografia é dessaturada quando a ação se passa nas vilas e cidades, mudando para uma imagem muito mais viva na floresta e na comunidade dos índios e jesuítas, refletindo o estado de paz e pureza do local, em oposição à sujeira e aridez da vida na cidade. Também tem função narrativa quando o exército europeu chega ao local retirando mulheres e crianças, utilizando uma paleta escura e até mesmo a chuva para refletir a tristeza que os nativos sentiam. Os figurinos de Enrico Sabbatini e a direção de arte de John King e George Richardson são responsáveis pela competente ambientação à época, enquanto a montagem de Jim Clark é responsável pelos belos clipes que embalam a adaptação de Rodrigo ao meio indígena. Clark também cria boas elipses, como quando escutamos alguém comentar com Gabriel que Rodrigo havia assassinado o irmão há seis meses, logo depois da cena do duelo.

Mostrando claramente os interesses políticos de Espanha, Portugal e da igreja católica na região sul-americana, e como este interesse foi determinante para que os nativos fossem dizimados, abrindo espaço para a chegada destas nações e a construção da civilização que vemos hoje em dia, “A Missão” não chega a emocionar como poderia, mas cumpre um papel histórico importante. Além disso, mostra como duas pessoas podem defender a mesma causa de formas distintas, de acordo com o que acreditam, e nos tocar da mesma forma. Respondendo à pergunta inicial deste texto, o próprio narrador Altamirano deixou sua opinião: o preço da colonização foi muito alto.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira