OPERAÇÃO FRANÇA (1971)

(The French Connection)

 

Filmes em Geral #28

Vencedores do Oscar #1971

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Gene Hackman, Fernando Rey, Roy Scheider, Tony Lo Bianco, Marcel Bozzuffi, Frédéric de Pasquale, Bill Hickman, Ann Rebbot, Harold Gary, Arlene Farber, Eddie Egan, André Ernotte, Sonny Grosso, Benny Marino, Patrick McDermott e Alan Weeks.

Roteiro: Ernest Tidyman, baseado em livro de Robin Moore.

Produção: Phillip D’Antoni.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigido por William Friedkin, “Operação França” é um thriller de perseguição policial extremamente empolgante e realista, que conta ainda com pelo menos duas excepcionais cenas de tirar o fôlego. Com boas atuações de Gene Hackman e Roy Scheider, e contando ainda com um talentoso elenco de apoio, o longa consegue equilibrar-se entre o cinema comercial, que busca a boa recepção do publico e o alto faturamento nas bilheterias, e o cinema “de autor” da nova Hollywood, evitando abordar a narrativa de maneira convencional, ao mostrar os aspectos positivos e negativos de seu “herói”.

Os detetives Popeye (Gene Hackman) e Cloudy (Roy Scheider) investigam o comerciante Sal (Tony Lo Bianco), que anda gastando muito mais do que aparentemente recebe, dando claros indícios de sua participação numa rede internacional de tráfico de drogas. As investigações levam ao francês Alain Charnier (Fernando Rey), cérebro da operação, que auxiliado pelo astro de cinema Henri Devereaux (Frédéric de Pasquale) e pelo assassino profissional Pierre Nicoli (Marcel Bozzuffi), organiza uma venda milionária de heroína em terras norte-americanas.

Escrito por Ernest Tidyman, baseado em livro de Robin Moore, “Operação França” apresenta uma narrativa dividida em duas linhas principais: a investigação policial conduzida por Popeye e Cloudy e o andamento da operação planejada por Charnier. Desta forma, o espectador não precisa tentar desvendar quem são as pessoas envolvidas naquela operação, focando seus esforços somente em acompanhar o desenrolar da investigação e tentando imaginar como aqueles detetives poderiam surpreender os traficantes. Estas duas linhas narrativas se alternam num ritmo empolgante, graças à excepcional montagem de Gerald B. Greenberg, que tem participação crucial também nas frenéticas perseguições pelas ruas, que se estabelecem como os melhores momentos do longa. Sempre adotando um clima de urgência e um estilo quase documental, reforçado pela fotografia crua e granulada de Owen Roizman, o diretor William Friedkin deixa claro com menos de cinco minutos de projeção que prezará pelo realismo, ao apresentar um assassinato à queima roupa, sem desviar a câmera do sangrento resultado. Em seguida, os detetives Popeye e Cloudy perseguem um homem pelas ruas de Nova York, e Friedkin acompanha a dupla com a câmera na mão, trêmula, conferindo um ar documental à cena, o que se tornaria a marca registrada do filme dali em diante. O diretor utiliza ainda o zoom com certa freqüência, buscando ressaltar a posição estratégica dos personagens em algumas cenas, como quando vemos os traficantes num restaurante e a câmera vai buscar Popeye, lá fora, esperando pelo fim do jantar. Em outro momento, a câmera acompanha o carro de Devereaux saindo do porto e o zoom out revela os traficantes acompanhando de longe o andamento da operação. Finalmente, Friedkin aproveita a beleza do mar azul de Marselha para criar raros e belos planos, que contrastam diretamente com a crueza das filmagens nas cidades norte-americanas, além de conduzir com perfeição todas as cenas de perseguição e criar planos emblemáticos, como aquele em que Popeye e Sal se olham através do vidro da loja de perfumes, revelando a irônica situação dos detetives, que por diversas vezes estão muito próximos de seus alvos, mas por não ter provas concretas, nada podem fazer. Este paradoxo fica ainda mais evidente quando os detetives têm a chance de apreender a mercadoria no carro de Devereaux, mas preferem deixar a negociação rolar, justamente para poder pegar toda a operação em flagrante.

Ainda que apareça apenas em alguns raros momentos, a trilha sonora de Don Elis busca aumentar o clima de tensão, revezando momentos de tom contínuo e estridente com outros de ritmo acelerado, especialmente durante algumas perseguições, como quando Popeye persegue Charnier pelas ruas e dentro do metrô. Esta cena, aliás, também é muito bem conduzida por Friedkin, que posiciona a câmera num local estratégico, nos permitindo acompanhar a movimentação de ambos enquanto Charnier tenta desesperadamente despistar Popeye, entrando e saindo do metrô sem lógica alguma. Curiosamente, a ausência da trilha sonora durante algumas perseguições também favorece o clima de tensão, conferindo um ar mais realista à cena, como na fabulosa seqüência em que três detetives se revezam na perseguição aos traficantes, onde só podemos ouvir o som diegético dos carros e das pessoas caminhando – e novamente a montagem de Greenberg se mostra incrivelmente eficaz, alternando entre os planos com muita fluidez.

Todo este realismo é enriquecido ainda mais pelos complexos personagens de “Operação França”. Mostrando-se alguém durão desde a primeira batida em um bar, através da voz firme e das atitudes enérgicas, o Popeye brilhantemente interpretado por Gene Hackman foge do costumeiro estereótipo do herói, mostrando-se uma pessoa até mesmo egoísta e cruel, capaz de atirar num inimigo desarmado e pelas costas – o que reforça o esforço do roteiro em não santificar seu personagem principal. Claramente incomodado por seu passado, quando aparentemente foi responsável indireto pela morte de um parceiro de profissão, ele é capaz de ir até as últimas conseqüências buscando alcançar seu objetivo, o que resulta em outro trágico acidente, quando ele mata outro parceiro de profissão, já próximo ao ambíguo final do longa. Sua obstinação pelo combate ao crime chega até mesmo a incomodar seus companheiros de trabalho, o que, por outro lado, faz com que Popeye seja considerado o “principal obstáculo” no caminho dos franceses, como eles mesmos admitem em certo momento. Sua dedicação ao trabalho impede até mesmo que ele tenha uma vida social agradável, como fica evidente quando sai para tomar umas bebidas com Cloudy e, ao invés de relaxar, ele fica observando as pessoas no bar, buscando alguma conexão entre elas e o mundo das drogas. Em certo momento, uma bicicleta enroscada na porta indica que Popeye dormiu com uma garota que ele acabara de conhecer na rua, enquanto voltava pra casa. Esta cena sutil e despretensiosa reforça sua condição “desprovida” de relações afetivas, afinal de contas, não é fácil estabelecer uma relação com alguém tão obstinado pelo trabalho como ele. E até mesmo seu apartamento bagunçado reflete sua turbulenta vida fora do ambiente profissional, algo que Cloudy faz questão de ressaltar quando o visita – e que revela o bom trabalho de direção de arte de Ben Kazaskow. Muito bem interpretado por Roy Scheider, Cloudy revela-se o parceiro ideal para Popeye, mostrando serenidade para conter os impulsos do amigo, mas também sendo enérgico e corajoso quando necessário, como durante as perseguições. O ator demonstra muita empatia com Hackman, tornando a amizade daqueles detetives bastante verossímil, como podemos notar quando ele brinca com uma calcinha que encontra no apartamento do amigo (“São suas querida?”) ou quando eles escutam uma parte vital das investigações num telefonema grampeado e explodem de felicidade. E assim com a dupla de detetives, todo o restante do elenco apresenta um bom desempenho, com destaque para o cínico Alain Charnier, interpretado por Fernando Rey, e para o frio assassino Pierre Nicoli, vivido por Marcel Bozzuffi, responsável por uma das cenas mais tensas do filme, quando assume o controle de um metrô em alta velocidade.

Esta seqüência, a mais espetacular de “Operação França”, tem inicio quando Pierre começa repentinamente a atirar em Popeye de cima de um prédio, em mais um momento extremamente realista, que nos coloca na mesma posição de Popeye, completamente vulnerável diante das balas que atingem violentamente o chão e as pessoas que passam por ali. Os gritos das mulheres e câmera que acompanha a trajetória do detetive até a entrada do prédio nos colocam praticamente dentro da cena. Em seguida, Popeye persegue Pierre pelas ruas, mas ele consegue escapar quando chega ao metrô, o que motiva o detetive a “pegar emprestado” o carro de um civil. Hackman, insano dentro do carro em alta velocidade, persegue o metrô de superfície pelas ruas da cidade, enquanto Pierre domina as pessoas lá dentro e acaba provocando um grave acidente. Friedkin capta tudo isto com incrível precisão, fazendo o espectador grudar os olhos na tela, enquanto Hackman dá um verdadeiro show de interpretação durante a alucinada perseguição.

Conferindo realismo em suas principais cenas e contando com uma narrativa ágil e interessante, “Operação França” é um filme de ação espetacular. Antecipando técnicas que se tornariam febre muitos anos depois, Friedkin oferece entretenimento e diversão sem insultar a inteligência do espectador, apresentando uma história interessante, personagens críveis e situações perfeitamente aceitáveis. Esta é a grande diferença entre o cinema excepcional daquela época e, salvo algumas felizes exceções, o cinema puramente comercial dos dias atuais.

Texto publicado em 16 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

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3 Respostas to “OPERAÇÃO FRANÇA (1971)”

  1. Operação França Filme Download Torrent Legendado - Cult Cinema Says:

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  2. Augusto Santos Says:

    Olá Roberto, tudo bem? Primeiramente receba um forte abraço, meu amigo.
    Como não tenho seu e-mail, vou fazer um pedido e uma recomendação por aqui mesmo.
    Assista ao filme “Piaf – Um Hino ao Amor”. Depois faço os comentários. O filme é emocionante do começo ao fim. E a interpretação da atriz Marion Cotillard, como Edith Piaf é magnífica, coisa pra ficar na história. Ela ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz em 2008.
    Veja, depois nos falamos.
    Até mais.
    Augusto

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Augusto, como está, tudo bem?
      Está anotada a dica e assim que eu assitir ao filme divulgarei a crítica.
      Meu e-mail de contato está na página “Quem é Roberto Siqueira?”, ao lado direito da página inicial.
      Um grande abraço.

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