Posts Tagged ‘Jack Nicholson’

MELHOR É IMPOSSÍVEL (1997)

20 outubro, 2013

(As good as it gets)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #177

Dirigido por James L. Brooks.

Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Skeet Ulrich, Shirley Knight, Yeardley Smith, Lupe Ontiveros, Missi Pyle, Maya Rudolph, Lawrence Kasdan, Julie Benz, Harold Ramis, Kathryn Morris, Todd Solondz e Jesse James.

Roteiro: Mark Andrus e James L. Brooks.

Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson e Kristi Zea.

Melhor é Impossível[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Recordista de indicações ao Oscar, Jack Nicholson levou seu terceiro prêmio após sua brilhante atuação neste “Melhor é Impossível”, que, com seus personagens simultaneamente problemáticos e agradáveis, conquista o espectador quase que da mesma maneira como o protagonista conquista a personagem brilhantemente interpretada por Helen Hunt. Assim, não são raros os momentos graciosos que são quebrados por alguma grosseria e vice-versa, numa mistura eficiente de instantes dramaticamente densos e outros recheados de humor negro; e é ao balancear estes polos opostos com tanto cuidado que o longa dirigido por James L. Brooks alcança seu sucesso.

Escrito pelo próprio Brooks ao lado de Mark Andrus, “Melhor é Impossível” narra o cotidiano do obsessivo-compulsivo e preconceituoso escritor Melvin Udall (Jack Nicholson), um homem repleto de cinismo e sarcasmo que adora tirar uma onda com seu vizinho homossexual Simon (Greg Kinnear) e que faz questão de ser sempre atendido pela mesma garçonete no restaurante onde almoça todos os dias. A garçonete é Carol (Helen Hunt), uma mãe solteira que se desdobra para cuidar do filho, que sofre com uma grave doença respiratória.

Desenvolvendo muito bem seus personagens, o roteiro de “Melhor é Impossível” ajuda a humanizar cada um deles, demonstrando aos poucos as qualidades e defeitos de pessoas que facilmente poderiam tornar-se caricatas e odiáveis em mãos menos cuidadosas – e na pele de atores menos talentosos. Neste caso, o que ocorre é exatamente o contrário. Os personagens conquistam o espectador justamente por escancararem seus defeitos de maneira tão humana, o que naturalmente os aproximam da plateia.

Atrás das câmeras, Brooks faz um trabalho discreto e eficiente que busca valorizar as atuações através do uso de planos americanos e closes, empregando ainda o zoom para realçar momentos de impacto dramático e saindo-se muito bem na condução de cenas fortes como aquela em que um grupo de jovens de rua espanca Simon (numa rápida participação dos atores Skeet Ulrich e Jamie Kennedy, de “Pânico”, na qual se destaca o ótimo trabalho de maquiagem que torna realistas os machucados no rosto dele na cena seguinte no hospital). Igualmente discreta, a fotografia de John Bailey aposta em cenas diurnas e filtros que realçam cores leves, ao passo em que a gostosa trilha sonora de Hans Zimmer apresenta um tema principal inspirado, mas que também surge apenas em momentos pontuais. Desta forma, quem acaba chamando mais a atenção é o trabalho do montador Richard Marks, que transita muito bem entre o drama de Carol com a doença do filho, as rotinas de Melvin e o trabalho de Simon e Frank, integrando os personagens de maneira orgânica e mantendo a narrativa sempre atraente e fluída.

Planos americanosGrupo de jovens de rua espanca SimonCores levesNo entanto, é inegável que o grande atrativo de “Melhor é Impossível” é mesmo o seu elenco talentoso e inspirado, que oferece performances simultaneamente divertidas e tocantes. Vivendo um personagem preconceituoso e (desculpe o termo) escroto, Nicholson tem um desempenho excepcional, saindo-se muito bem na difícil tarefa de conquistar a empatia da plateia mesmo na pele de alguém tão desprezível. Destilando veneno em muitas de suas frases sarcásticas, Melvin poderia tornar-se ainda mais irritante por sofrer de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), o que faz com que ele sente sempre na mesma mesa do restaurante, evite pisar nas linhas do chão, deteste ser tocado por outras pessoas, organize milimetricamente os sabonetes da mesma marca em seu armário e feche a porta do apartamento cinco vezes. E se ainda assim nós gostamos dele, grande parte do mérito é mesmo do lendário ator.

Senta sempre na mesma mesaEvita pisar nas linhas do chãoOrganiza milimetricamente os sabonetesPersonagem complexo, Melvin consegue ser egoísta e egocêntrico e, ao mesmo tempo, é capaz de agir com surpreendente gentileza e encantar Carol com a bela frase “Você me faz querer ser um homem melhor”, somente para, minutos depois, estragar tudo com outra frase detestável. Este comportamento imprevisível fica ainda mais claro quando ele choca uma fã na editora, escancarando a intrigante diferença entre o autor sensível e o ser humano desprezível que conflitam dentro dele.

Mas se Nicholson surge solto e diverte-se no papel, Hunt não fica atrás, demonstrando excelente química com o consagrado ator numa atuação sensível e poderosa. Externando os traumas ocasionados por relacionamentos passados (“Não vou dormir com você!”, diz ela para Melvin), Carol emociona pela maneira como admite sua carência num belíssimo diálogo com a mãe, num dos grandes momentos da atuação de Hunt, que se destaca ainda na reação dramaticamente poderosa de Carol após Melvin mencionar seu filho no restaurante, que dá os primeiros sinais de sua vulnerabilidade e, especialmente, quando demonstra a alegria genuína da personagem diante do médico que oferece tratamento para seu filho, num momento tocante. Lentamente, Carol vai reencontrando a felicidade, algo simbolizado até mesmo por suas roupas (figurinos de Molly Maginnis), que evoluem lentamente das cores sem vida de seu uniforme para o vestido vermelho e chamativo que ela usa durante um jantar.

Belíssimo diálogo com a mãeReação dramaticamente poderosaAlegria genuínaCom seus trejeitos e a forte tendência para o overacting, Cuba Gooding Jr. diverte-se como Frank, o amigo engraçado e falastrão de Simon que se impõe fisicamente diante de Melvin, enquanto Kinnear demonstra muito bem a sensibilidade de Simon, emocionando em momentos especiais como quando vê seu rosto desfigurado pela primeira vez num espelho ou quando, com a ajuda de Carol, se empolga após conseguir romper o bloqueio criativo. Aliás, sua bagunçada casa reflete não apenas sua mente agitada (essencial em sua profissão), mas também sua instabilidade emocional, o que ressalta o bom design de produção de Bill Brzeski.

Amigo engraçado e falastrãoSensibilidade de SimonBagunçada casaQuem também tem participação importante na narrativa é o cachorro de Simon, explorado com competência pela câmera de Brooks, como no close que capta sua reação após Melvin receber a notícia que terá que devolvê-lo – numa das primeiras cenas que escancaram a fragilidade daquele homem solitário, que se esconde sob aquela capa de cinismo e sarcasmo. E fechando o elenco, temos a simpática mãe de Carol interpretada por Shirley Knight e a participação do diretor Lawrence Kasdan como o Dr. Green.

Quando o casal se desentende e se separa durante a viagem, sabemos que estamos perto do final conciliador, típico das comédias românticas. Mas até mesmo este clichê funciona muito bem em “Melhor é Impossível”, justamente pela maneira sincera e coerente que os personagens se comportam, buscando a reaproximação sem exigir que o outro mude completamente. E o que é mais interessante, o espectador sabe que eles continuarão exibindo os mesmos defeitos, e mesmo assim nós torcemos pelo sucesso daquela relação. Afinal, somos mesmo assim, repletos de defeitos e virtudes e eternamente buscando alguém que nos compreenda em toda nossa complexidade e vulnerabilidade.

Cachorro de SimonSimpática mãe de CarolCasal se desentendeFilme com alma e coração, “Melhor é Impossível” beneficia-se das atuações de alto nível para tocar o espectador sem jamais pender para o melodrama ou soar piegas, divertindo e emocionando com a mesma eficiência. Não é o caso de dizer que melhor que isso é impossível. Mas quase.

Melhor é Impossível foto 2Texto publicado em 20 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

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CHINATOWN (1974)

25 novembro, 2011

(Chinatown)

 

 

Filmes em Geral #77

Videoteca do Beto #210 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 13 de Julho de 2015)

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Diane Ladd, Perry Lopez, John Hillerman, Darrell Zwerling, Roy Jenson, Richard Bakalyan, Joe Mantell, Bruce Glover, Nandu Hinds, Burt Young e Belinda Palmer.

Roteiro: Robert Towne.

Produção: Robert Evans.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apenas cinco anos após perder sua esposa Sharon Tate, assassinada no auge da contracultura pelo grupo liderado por Charles Manson, Roman Polanski voltou à Hollywood para dirigir este excepcional “Chinatown”, que com sua atmosfera noir e seu tom melancólico, reflete o estado de espírito de seu diretor e se confirma como uma das muitas obras-primas de Hollywood nos anos 70. Contando ainda com atuações inspiradas e um roteiro praticamente perfeito, o longa se estabelece também como uma das mais bem sucedidas incursões no gênero que se notabilizou nas décadas de 40 e 50.

Em “Chinatown”, acompanhamos a trajetória do detetive particular J. J. Gittes (Jack Nicholson) quando este é contratado pela esposa de Hollis Mulwray (Darrell Zwerling), o chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, para descobrir se ele está tendo um caso extraconjugal. Após a confirmação da traição, Gittes descobre que a verdadeira esposa dele, Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), jamais solicitou os seus serviços, exatamente no mesmo dia em que Hollis aparece morto. Gittes decide então investigar o assassinato e as possíveis ligações entre o crime e o pai de Evelyn, o poderoso Noah Cross (John Huston), que também era sócio de Hollis.

Escrito pelo ótimo Robert Towne, “Chinatown” apresenta uma estrutura narrativa perfeita, que gradativamente envolve o protagonista numa situação bastante complicada e, conseqüentemente, conquista também a atenção da platéia. Com um texto precioso e coeso, a narrativa intrincada e repleta de sutilezas aborda muitos temas complexos sob sua superfície de filme policial, apresentando personagens nada unidimensionais, que parecem sempre serem muito mais do que o que vemos na tela. Towne também espalha diversas pistas pela narrativa, que obrigam o espectador a prestar atenção em cada pequeno detalhe da investigação conduzida por Gittes, somente para descobrir momentos depois que muitas delas eram falsas. Além disso, ele constrói diversos diálogos marcantes, entre os quais vale destacar aquele no restaurante em que Evelyn confessa que também traía o marido e o embate entre Noah e Gittes, que também acontece num almoço e nos deixa em dúvida sobre o caráter do milionário e de sua filha.

Com este ótimo roteiro em mãos, Polanski conduz o longa com paciência até os 30 minutos de projeção, quando a morte de Hollis Mulwray insere o elemento noir que faltava para a narrativa definitivamente engrenar: o crime. Claramente inspirado na estética noir, como podemos notar através do terno do detetive Gittes (figurinos de Anthea Sylbert) e dos ambientes fechados, como o escritório dele e a casa dos Mulwray – que, por exemplo, indica a boa situação financeira do casal (direção de arte de W. Stewart Campbell) -, “Chinatown” só não apresenta o forte contraste entre o preto e o branco característico do gênero, mas ainda assim tem diversos momentos em que as sombras tomam conta da tela, como no diálogo entre Gittes e Evelyn num carro, logo após ela revelar quem é a sua irmã, onde podemos ver apenas parcialmente o rosto dos personagens. Além disso, os tradicionais ambientes esfumaçados e as sombras das persianas que invadem os escritórios criam o típico visual noir. Neste aspecto, vale destacar a fotografia de John A. Alonzo, que emprega cores sóbrias na maior parte do tempo (preto, marrom, cinza), conferindo uma aura melancólica coerente com o tom da narrativa. Ainda na parte técnica, a trilha sonora de Jerry Goldsmith acentua o clima apreensivo em diversos momentos e a direção de arte de Campbell volta a se destacar nos pequenos detalhes com função narrativa, como os quadros na parede que indicam a sociedade entre Hollis e Noah, além dos carros e casas que nos jogam para a Los Angeles dos anos 30 com precisão.

Voltando à direção, Polanski também comanda com precisão as cenas de alta tensão, como quando Gittes tenta invadir o Departamento de Águas à noite e é surpreendido por um tiro, pela água e por dois homens (um deles, armado com uma faca, é interpretado pelo próprio Polanski) ou quando ele é atacado num laranjal e perseguido por homens montados em cavalos. Auxiliado pela montagem de Sam O’Steen, o diretor conduz a narrativa com tranqüilidade e sutileza, acelerando a trama na medida em que Gittes se aproxima da verdade sobre o assassinato de Hollis ao emendar uma grande cena após a outra, como na seqüência em que Gittes visita um asilo, foge com Evelyn de carro, dorme com ela e descobre a natureza da relação dela com a amante de Hollis. E apesar de parecer quebrar o ritmo, a cena em que eles ficam juntos (embalada pela trilha romântica) serve para revelar um pouco mais sobre o passado misterioso de Gittes em Chinatown e indicar que a morte de alguma mulher o traumatizou. Outro aspecto importante a se ressaltar é que Polanski procura nos guiar na narrativa sob a perspectiva de Gittes, o que justifica sua presença em todas as cenas e a câmera que o acompanha por trás dos ombros em diversos momentos.

Tranqüilo e com tom de voz baixo, Jack Nicholson cria um personagem diferente do habitual, comprovando sua versatilidade e competência como ator. Ainda assim, seu Gittes é determinado e impõe respeito junto aos seus subordinados, como podemos notar logo no início quando ele repreende um de seus assistentes, saindo-se ainda melhor nos embates verbais com Noah, Evelyn e com o tenente Lou, quando sempre soa convincente em suas afirmações. Extremamente inteligente, seu Gittes sabe muito bem se adaptar aos ambientes que freqüenta – o que explica sua preocupação com a aparência (repare sua reação ao molhar os sapatos) e sua constante mudança de comportamento (no escritório, conta piadas; diante dos milionários, fala de forma refinada). Faye Dunaway também se destaca, criando uma Evelyn misteriosa e imponente, que sempre parece esconder algo através da fala reticente e do olhar enigmático quando que se refere ao marido e, especialmente, ao pai – um comportamento, aliás, que descobriremos ser totalmente coerente com o passado da personagem. Interpretado por John Huston (que dirigiu “O Falcão Maltês”), Noah Cross é mesmo um personagem ameaçador e Huston tem grande mérito nisto com sua presença marcante na tela. No restante do elenco, vale destacar o tenente Lou Escobar, interpretado por Perry Lopez, e a jovem Katherine Cross, interpretada por Belinda Palmer, que se destaca na cena final, com seu desespero tocante ao ver a mãe ser assassinada.

Após um encontro inesperado entre Gittes e Lou no apartamento de uma prostituta, entramos na parte final de “Chinatown”, onde a revelação da relação incestuosa entre Noah e Evelyn abala as estruturas tanto do detetive como do espectador e inicia outra seqüência atordoante, em que descobrimos o verdadeiro assassino de Hollis e caminhamos para o clímax pessimista, na primeira vez em que o tão citado bairro chinês Chinatown aparece. E novamente, Polanski confirma sua habilidade na direção de maneira sutil. Em certo momento do filme, Evelyn encosta involuntariamente a cabeça na buzina de um carro. Parece uma cena sem propósito, mas não é à toa que ela está lá. Com este momento em mente, o espectador já sabe o destino cruel de Evelyn nesta cena final, somente através do som da buzina no plano distante em que vemos o carro parado na rua. Sua trágica morte é confirmada de maneira forte e tocante, com Katherine desesperada e o violento resultado do tiro surgindo na tela diante do espectador. O final amargo, com a chocante morte de Evelyn e Noah escapando ileso, deixa o espectador reflexivo e melancólico – algo refletido também na trilha que fecha a narrativa.

Repleta de momentos memoráveis, com um roteiro impecável e atuações inspiradas, a obra-prima “Chinatown” confirma o talento de Roman Polanski na direção e reforça o time dos maravilhosos filmes pessimistas que invadiram Hollywood em sua era dourada. Nestes casos, o gosto amargo que fica na boca do espectador ao final da projeção é gradualmente substituído pelo sentimento de respeito diante da grandiosidade da obra que testemunhamos.

Texto publicado em 25 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

SEM DESTINO (1969)

9 novembro, 2010

(Easy Rider)

 

Filmes em Geral #23

Videoteca do Beto #113 (Filme adquirido depois da divulgação da crítica)

Dirigido por Dennis Hopper.

Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Antonio Mendonza, Karen Black, Phil Spector, Robert Walker Jr., Luana Anders, Sabrina Scharf, Sandy Brown Wyeth e Luke Askew.

Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern.

Produção: Peter Fonda, William L. Hayward e Bert Schneider (produtor executivo).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dennis Hopper tornou-se um dos símbolos da contracultura com este sensacional “Sem Destino”, responsável por uma verdadeira revolução na indústria cinematográfica de Hollywood. O filme estrelado por Hopper e Peter Fonda (o filho do astro Henry Fonda) abalou as estruturas dos poderosos estúdios e provocou a aposentadoria forçada da maioria dos prestigiados produtores da época, abrindo caminho para a nova e talentosa geração de diretores que surgiria em seguida.

Após vender uma quantidade razoável de cocaína, os integrantes da contracultura hippie Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) compram duas motos e partem numa viagem de Los Angeles até Nova Orleans, para ver um festival conhecido como Mardi Gras (uma espécie de carnaval norte-americano). Enquanto atravessam o país, os dois encarnam o espírito libertário dos anos 60, mas se deparam com uma sociedade preconceituosa em seu caminho.

A produção de “Sem Destino” não poderia ter sido mais turbulenta. Constantemente em crise, alcoolizado e até mesmo drogado, Hopper causou enormes problemas durante as filmagens, inclusive brigando diversas vezes com Peter Fonda (o que motivou os produtores a incluírem Jack Nicholson no projeto, para acompanhar de perto as brigas dos dois). Não que Fonda ou Nicholson não gostassem de conversar regados à LSD ou maconha na época, mas o problema era o temperamento explosivo de Hopper. Só que os problemas de bastidores não tiveram influência sobre o resultado final da obra. Na realidade, a “loucura” de Hopper ajudou a imprimir no longa o espírito libertário da contracultura, praticamente palpável durante toda a projeção. Escrito por Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern (na realidade, Hopper queria os créditos somente pra ele, mas jamais foi comprovado quem de fato escreveu o roteiro), “Sem Destino” mostra alguns aspectos da sociedade de sua época com precisão, como o preconceito contra os negros, quando Hanson diz que conseguiria libertá-los se eles não tivessem matado ninguém “branco”, e o preconceito contra os próprios hippies, na tensa seqüência dentro de um restaurante numa pequena cidade, reforçado pela triste cena da morte de Hanson (Nicholson). Como ele mesmo havia comentado momentos antes com Wyatt e Billy, as pessoas querem a liberdade, mas na realidade elas têm medo de ser livres. A própria seqüência do restaurante ilustra bem este pensamento e reforça ainda o enorme abismo cultural existente na época entre os jovens libertários e a maioria conservadora dos norte-americanos. Enquanto as moças se identificavam com aqueles homens verdadeiramente livres, os homens se limitavam a julgá-los, mostrando seu receio diante daquilo que era “diferente”. O preconceito também foi responsável pela morte de Wyatt e Billy, atingidos de maneira inesperada e chocante por caçadores na beira da estrada. Finalmente, o roteiro é extremamente corajoso (algo típico da nova Hollywood) ao falar abertamente sobre drogas, mostrando os personagens fumando maconha com naturalidade e inclusive debatendo sobre esta erva quando Hanson diz que ela é a porta de entrada para coisas mais pesadas e quando ele diz para Wyatt “está me dizendo que não faz mal?”.

O próprio aspecto visual de “Sem Destino” traduz bem o sentimento de seus realizadores. Observe, por exemplo, como a montagem de Donn Cambern evita seguir o convencional, fazendo a transição de imagens de maneira criativa e, em muitas vezes, alternando repetidamente entre dois planos antes de mudar de cena. Além disso, adota um ritmo que oscila entre o dinamismo (nas seqüências na estrada) e o contemplativo (nas reflexões em volta da fogueira), refletindo a alternância de sentimentos dos protagonistas. Quando a dupla se depara com um grupo de hippies vivendo na beira da estrada, os figurinos traduzem perfeitamente o estado de espírito daquela gente livre, sempre com roupas largas, coloridas, bandanas e colares, numa completa integração entre o homem e natureza. Pra completar, a empolgante trilha sonora carrega em cada canção a força daquele momento de efervescência cultural, com o mais puro rock n’ roll dos anos sessenta, encabeçado pela famosa “Born to be wild”, de Steppenwolf, que virou símbolo de liberdade quando associada às motos na estrada. A trilha conta ainda com nomes icônicos da contracultura como Jimi Hendrix e Bob Dylan com sua The Band.

O sentido de liberdade está presente em cada plano de “Sem Destino”. É impossível não se empolgar ao ver aquelas duas motos desfilando pelas estradas norte-americanas, ao som do rock n’ roll e diante de paisagens tão belas. Tudo isto é mérito também da direção impecável de Dennis Hopper, que explora com competência o lindo visual de cada locação. Seus planos captam com precisão o nascer e o pôr-do-sol e as lindas paisagens na beira da estrada, auxiliado também pela bela direção de fotografia de László Kovács, que confere realismo ao longa com sua fotografia crua e realista. O diretor ainda intercala estes momentos com planos fechados de detalhes das motos, como as rodas, o escapamento e o aro cromado, como se quisesse dar vida aquelas motocicletas. Estas belas seqüências, sempre embaladas pela excelente trilha sonora, aumentam a sensação de liberdade no espectador e contrastam muito bem com a proposital imperfeição técnica da filmagem, perceptível em diversos momentos quando a luz do sol bate diretamente na lente e, principalmente, na seqüência dentro do cemitério, filmada com câmera de 16 mm. Este tratamento estético pouco apurado colabora com a aura de símbolo da contracultura que o filme carrega. Hopper também utiliza técnicas pouco comuns na época, como quando alterna o foco entre Wyatt e uma prostituta, durante a conversa deles antes de saírem para o cemitério. Já a psicodélica seqüência dentro do cemitério, após o trio se drogar com LSD, foi uma das primeiras da história a ilustrar com imagens os efeitos da droga no ser humano, alternando sem qualquer lógica entre diversos planos perturbadores. Também foi uma das primeiras vezes em Hollywood em que foi possível ver sem qualquer pudor cenas de nudez feminina.

O espírito de liberdade do western também exerce influência sobre “Sem Destino”, como indicam os nomes dos personagens centrais da narrativa, inspirados em personagens clássicos (Wyatt, inspirado no xerife Wyatt Earp, e Billy, inspirado em Billy the Kid). Os protagonistas partem nesta busca por identidade, pelo espírito americano, montados em motos ao invés de cavalos, algo simbolizado com competência no plano em que Wyatt e Billy trocam o pneu da moto enquanto dois homens trocam a ferradura de um cavalo. Mas como dizia o cartaz do filme na época, “eles saíram em busca da América e não a encontraram em lugar nenhum”. Duas pessoas comuns que vendem cocaína para conseguir dinheiro e poder viajar pelo país, eles encontram na simplicidade das pessoas que cruzam seus caminhos alguma identificação, como quando Wyatt diz para um pai de família que “nem todo homem pode viver do que produz em sua terra”, reforçando o privilégio daquele senhor por poder viver à margem do feroz sistema das grandes cidades. Billy e Wyatt são anti-heróis que conquistam a platéia pela simplicidade e pelo coração livre, mas também por causa das boas interpretações de Hopper e Fonda. Logo na primeira conversa em volta da fogueira, podemos perceber a qualidade da interpretação da dupla na pele destes dois viajantes solitários. Acompanhados de uma terceira pessoa a quem eles davam carona, os dois jogam conversa fora com naturalidade e mostram as diferenças entre o contido e ponderado Wyatt e o “maluco beleza” Billy, que constantemente cai na gargalhada, até pelo seu estado quase permanente de alucinação provocado pelas drogas. Hopper é competente na composição do personagem, um típico hippie com jeito solto e despojado. Fonda, por sua vez, transmite muito bem a tranqüilidade de Wyatt, sempre com o olhar compenetrado e distante, provavelmente por causa do constante estado de reflexão do personagem. Em certo momento, os dois se infiltram num desfile com suas motos, o que provoca a prisão imediata dos “arruaceiros”. É quando entra em cena o advogado George Hanson, interpretado por Jack Nicholson, que pra variar, está excepcional, se destacando na conversa que tem com Wyatt antes de viajar com eles, onde Hanson demonstra, sem falar diretamente, que quer acompanhá-los. Posteriormente, Nicholson volta a se destacar na segunda conversa em volta de uma fogueira, onde Hanson conta sua visão sobre os venusianos. Vale observar o olhar e os gestos do ator que transmitem o estado de embriaguez do personagem com perfeição, agravado ainda pela nova experiência que vive ao fumar maconha pela primeira vez. De maneira geral, o trio demonstra muito entrosamento nos poucos minutos em que contracenam.

A poderosa frase de Wyatt na última reflexão da dupla (“Nós estragamos tudo!”) transcendeu o filme e simbolizou toda a trajetória do movimento “Nova Hollywood”, quando os diretores, em pouco mais de uma década, conseguiram perder todo o poder que conquistaram. Também se aplica ao próprio movimento hippie e à contracultura, que pregou a liberdade, a paz e o amor, mas viu o sonho começar a ruir dias antes da grande celebração do movimento, o Woodstock, quando Charles Manson, um hippie que afirmava ser a reencarnação de Cristo, assassinou friamente pessoas famosas em Beverly Hills (entre elas, Sharon Tate, a esposa de Roman Polanski) e escancarou a falta de segurança daquele estilo de vida libertário.

Captando com precisão o espírito de sua época, “Sem Destino” representa um grito de liberdade, sufocado por uma sociedade extremamente preconceituosa. Wyatt e Billy partiram em busca da felicidade, mas encontraram um país hostil, violento e avesso à proposta de paz e amor que a contracultura pregava. Ao ver a fumaça da moto caída se distanciando no último plano do filme, sentimos tristeza por constatar que a mensagem de paz da contracultura também ficou perdida em algum lugar num passado distante, pois o ser humano se mostrou incapaz de viver em harmonia e paz. Infelizmente, a violência, o preconceito e a inveja fazem parte da essência humana.

Texto publicado em 09 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

O ILUMINADO (1980)

30 novembro, 2009

(The Shining)

 

Videoteca do Beto #21

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Barry Nelson, Philip Stone, Joe Turkel, Anne Jackson, Tony Burton e Barry Dennen.

Roteiro: Diane Johnson e Stanley Kubrick, baseado em livro de Stephen King.

Produção: Robert Fryer e Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mais uma vez o diretor de clássicos como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Laranja Mecânica” deixa o espectador repleto de questionamentos ao misturar o estudo dos efeitos causados pelo isolamento sobre a mente humana com visões sobrenaturais que podem ter múltiplas interpretações. O constante clima de um eletrizante suspense, recheado com ingredientes assustadores capazes de provocar frio na espinha da mais incrédula das pessoas, faz deste “O Iluminado” o clássico fantasmagórico de Stanley Kubrick, reafirmando o incrível talento deste gênio da sétima arte.

Durante o inverno, Jack Torrance (Jack Nicholson) é contratado para cuidar de um hotel no Colorado, para onde vai com sua mulher Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd). O problema é que o isolamento começa a afetar sua mente e ele se torna cada vez mais perigoso, ao mesmo tempo em que seu filho descobre pertencer a um seleto grupo de pessoas conhecidas como os “iluminados” e começa a ter visões de acontecimentos ocorridos no passado.

O travelling inicial pelos montes, acompanhando o carro na estrada ao som da assustadora trilha sonora, nos ambienta perfeitamente ao clima de “O Iluminado”. Kubrick nos introduz lentamente aos assustadores elementos da narrativa, como o amigo imaginário de Danny e a história do hotel Overlook contada para Jack, utilizando uma angustiante divisão em capítulos que cria um clima crescente de suspense, atenuado pela conversa sobre canibalismo da família a caminho do Hotel, onde as falas parecem ser mais lentas, tendo pequenas pausas entre elas. Kubrick prova novamente seu talento gigantesco ao abusar de enquadramentos perfeitos, utilizando muitos planos gerais e criando imagens de forte impacto, além de utilizar seu tradicional zoom, por exemplo, quando Dick (Scatman Crothers) está deitado na cama e tem uma visão. Observe também o intimidante plano de Jack brincando com a bola no saguão, mostrando o quanto o hotel Overlook pode ser assustador. O diretor também cria, com a colaboração da excepcional montagem de Ray Lovejoy, uma transição espetacular da maquete admirada por Jack para o belíssimo labirinto de verdade, numa tomada incrivelmente distante e encantadora. Faz ainda um plano de Jack trancado na dispensa que lembra a cena em que Frank, na porta do banheiro, reconhece Alex em “Laranja Mecânica”, numa interessante auto-referência.

Como é de costume nos filmes dirigidos por Kubrick, a parte técnica é nada menos que espetacular. A fotografia branca, limpa, quase asséptica de John Alcott reflete a loucura e o vazio de Jack, isolado naquele hotel. Kubrick utilizou muitas luzes nas enormes janelas para criar um visual que aumentasse esta sensação, além das tradicionais lentes que captam com precisão praticamente todo o cenário. Com o passar do tempo e o aumento da loucura de Jack, a fotografia vai escurecendo, se tornando menos nítida, até finalmente se tornar fria, em tons azulados, com a neve atrapalhando completamente a visão, num reflexo do atordoado estado mental dele. Os cenários coloridos e incrivelmente iluminados (tapetes e paredes coloridos, luminárias e janelas enormes e reluzentes) criam um ambiente intimidador e praticamente com vida, graças ao talentoso trabalho de direção de arte de Leslie Tomkins. Repare como o tapete laranja, vermelho e marrom, em Danny brinca com carrinhos antes de ver a porta 237 aberta, tem um efeito hipnótico, nos levando pra dentro do quarto junto com ele quase que inconscientemente. Outro exemplo é o banheiro onde Jack e Grady (Philip Stone) se encontram e tem um diálogo decisivo, que propositalmente é colorido em vermelho e branco, simbolizando o sangrento caminho que Grady influenciaria Jack a seguir. O som também colabora com o clima de tensão através do uivo do vento durante a nevasca ou, por exemplo, quando Danny passeia de triciclo pelo Hotel e alterna entre o alto barulho dos tacos de madeira e o silencio absoluto do tapete. Note como Kubrick deixa a câmera no nível do triciclo, nos colocando na posição do garoto e, portanto, vulneráveis a qualquer perigo que possa aparecer. E finalmente, a assustadora trilha sonora de Wendy Carlos e Rachel Elkind tem um tom muito sombrio, além de pontuar muito bem algumas cenas, como na primeira aparição do Labirinto.

Com todo este trabalho técnico de primeiro nível, o diretor só precisava de atores capazes de extrair do excelente roteiro, escrito por Diane Johnson e pelo próprio Stanley Kubrick, atuações do mesmo nível. E felizmente, o elenco de “O Iluminado” é muito competente. A começar pela sensacional atuação do ótimo Jack Nicholson. Inicialmente uma pessoa tranqüila e de bem com vida, como podemos perceber quando chega ao Hotel e brinca com as garotas que estão saindo, seu Jack vai lentamente sendo tomado pela loucura causada pelo isolamento. Também colabora com sua perturbação o fato dele, pelo menos teoricamente, pertencer ao grupo dos “iluminados”, e por isso ter visões nada convencionais. O excelente roteiro, aliás, tem um mérito inquestionável, que é justamente jamais deixar claro se as visões de Jack, Danny e posteriormente Wendy, são realmente visões fantasmagóricas ou apenas alucinações provocadas pelo isolamento. A transição de Jack, de pessoa tranqüila para completamente enlouquecido, é lenta e consistente. Os sinais vão aparecendo lentamente (outro mérito do roteiro), como na conversa entre Jack e Wendy a respeito de sua dificuldade para escrever com ela ao lado, sua conversa com Danny no quarto, quando diz que jamais o machucaria e gostaria de ficar ali com ele pra sempre (significando mais do que aparenta) ou seu pesadelo em que corta o filho em pedacinhos. Por não saber conviver com as visões que tem ele acaba enlouquecendo. Os sinais de que Jack também pertence aos “iluminados” são sutis, como a frase do barman (“Seu dinheiro não vale aqui”), sua visita assustadora ao quarto 237 e a festa em que ele conhece o garçom Grady. Sua conversa com o barman antes da festa, aliás, é um momento sublime da atuação de Jack, com o movimento dos olhos, a boca, a alteração repentina na voz e o movimento das mãos indicando o estado psicológico dele. Observe o momento em que ele diz que já machucou Danny antes. Segundos antes de falar, ele abre as mãos e suspira, como se estivesse tomando coragem para confessar. Quando volta ao bar, durante a festa, presenciamos o momento arrepiante em o garçom Grady revela seu nome. Observe a tensa reação de Jack, mexendo as mãos e os dedos, ao ouvir o nome dele. A conversa que segue entre os dois, no banheiro, é decisiva. Finalmente, logo após seu assustador texto datilografado ser descoberto por Wendy e Danny aparecer com o pescoço marcado, ela começa a culpá-lo e percebe sua alteração de comportamento. Inicia-se então outro momento antológico de Jack, transtornado, imitando a voz e partindo, alucinado, pra cima dela, que grita de forma estridente. Aliás, a atuação exagerada de Shelley Duvall como Wendy é uma exigência de Kubrick. Ele entendia que este histerismo era coerente com a personagem e, principalmente, com a situação que ela vivia. O rosto angular e incrivelmente branco dela maximiza os choros e gritos.

Um dos grandes segredos da capacidade de aterrorizar que o filme tem reside no fato do personagem chave ser uma criança. A utilização de crianças como elemento chave do suspense é um artifício interessante, provocando ainda mais medo, já que teoricamente elas são inofensivas. E felizmente, Danny Lloyd tem uma excelente atuação como Danny, um menino ao mesmo tempo misterioso e inocente. Repare sua inocência enquanto brinca com os dardos, seguida por um olhar assustado, acompanhando da respiração ofegante, quando vê as duas garotas no Hotel. Quando começa a descobrir seu talento, indicado através do pensamento de Dick (“Quer um pouco de sorvete, Doc?”) e do esclarecedor diálogo que eles têm em seguida, Danny passa a ver imagens assustadoras com mais freqüência (como as meninas mortas e a macabra frase “Venha brincar conosco Danny, para sempre, e sempre, e sempre…”) o que só aumenta seu pânico. Outro momento inspirado do garoto acontece no grande clímax do filme, quando Jack parte para “resolver seus problemas”, enquanto Danny repete a assustadora palavra “Redrum” (Murder ao contrário, em português “assassinato”). Torcemos desesperadamente para Dick chegar a tempo no Hotel, enquanto Wendy vê a palavra no espelho e Jack tenta derrubar a porta à machadadas, dizendo a famosa frase “Here’s Jhonny!”. Os gritos e as caretas exageradas de Wendy aparecem novamente aqui e a barba por fazer de Jack acentua sua loucura. Wendy passa então a ver o mundo que não via, com pessoas no Hotel e imagens assustadoras, culminando na sensacional seqüência dentro do labirinto, onde é impossível desgrudar os olhos da tela.

O plano final com Jack no meio dos formandos de 1921 deixa muitas questões em aberto, como é tradicional nos filmes de Kubrick. Seria ele um fantasma? O que estaria fazendo ali no meio daquela turma? Esta é uma questão que o filme não responderá, deixando a cargo de cada espectador tirar suas próprias conclusões. Quanto às visões, prefiro pensar que eram reais, e não apenas fruto da imaginação, o que teria total coerência com o próprio nome do filme. Em todo caso, existem pessoas que as interpretam como resultado do extremo isolamento da família, pois nesta situação, o ser humano realmente pode ter alucinações e enlouquecer. Mas isto tudo é pra ser discutido em outro local. Mais importante é destacar que Kubrick, mais uma vez, nos brinda com um filme espetacular, tecnicamente perfeito e capaz de arrancar arrepios da mais incrédula das pessoas. Se a intenção era fazer um bom filme de terror e suspense, ele alcançou com louvor.

Reafirmando novamente seu incrível talento, Kubrick conseguiu fazer de “O Iluminado” um filme incrivelmente assustador, contanto com uma atuação antológica de Jack Nicholson. Com o seu apurado conhecimento técnico e narrativo, criou um filme de visual deslumbrante, com uma narrativa tensa e um resultado final absolutamente maravilhoso. Se existem ou não pessoas iluminadas não sou eu quem vai comprovar. O que posso dizer é que Stanley Kubrick era um diretor iluminado, capaz de criar obras marcantes e inesquecíveis como esta.

 

Texto publicado em 30 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

UM ESTRANHO NO NINHO (1975)

26 outubro, 2009

(One Flew Over the Cuckoo’s Nest) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #8

Vencedores do Oscar #1975

Videoteca do Beto #152 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, William Redfield, Michael Berryman, Peter Brocco, Will Sampson, Dean R. Brooks, Alonzo Brown, Mwako Cumbuka, William Duell, Josip Elic, Lan Fendors e Sydney Lassick. 

Roteiro: Bo Goldman e Lawrence Hauben, baseado em livro de Ken Kesey. 

Produção: Michael Douglas e Saul Zaentz. 

Um Estranho no Ninho foto 5

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A sensação de liberdade é algo que independe de onde estamos e de como vivemos. Podemos nos sentir livres de diversas maneiras e em diversos lugares. Da mesma forma, estar preso não quer dizer necessariamente que estamos encarcerados ou cercados por muros e grades. Podemos nos sentir sufocados, cercados, aprisionados, mesmo que estejamos no mais livre dos lugares do planeta. A questão é: temos coragem de lutar para conquistar a liberdade que desejamos? A prisão psicológica de um grupo de pessoas dentro de uma instituição para doentes mentais (ou manicômio) e o caos que “um estranho no ninho” provoca naquelas vidas é o fio condutor do belíssimo drama dirigido por Milos Forman e estrelado brilhantemente por Jack Nicholson.

O condenado Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson) se passa por louco para evitar trabalhar no campo e acaba sendo transferido para um manicômio, onde vai alterar a rotina dos presentes e entrar em conflito com as rígidas normas de controle estabelecidas pela instituição e seguidas à risca pela enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher). Ao despertar os pacientes e provocar a revolta deles contra estas regras ele irá encontrar também seu trágico destino.

O cotidiano de uma instituição responsável pela reabilitação de pessoas com problemas mentais não deve mesmo ser nada fácil. Afinal de contas, conviver diariamente com pessoas das quais não sabemos que comportamento esperar é algo um tanto complicado e perigoso. Por outro lado, deve ser gratificante para qualquer profissional da área quando alguém deste grupo apresenta alguma evolução, o que serve de motivação para enfrentar este clima pesado diariamente. Sendo assim, não podemos condenar os rígidos métodos adotados pela instituição e seguidos fielmente pela enfermeira Ratched na tentativa de controlar a situação, o que estava sendo feito com sucesso até a chegada de alguém que, por motivos óbvios, não seguirá as regras do local e, conseqüentemente, provocará o conflito naquele ambiente. Milos Forman acerta em cheio na utilização de muitos closes, que realçam as expressões marcantes daquelas pessoas perturbadas psicologicamente, em contraponto às longas tomadas sem corte que permitem ao espectador apreciar em detalhes a espetacular atuação coletiva do elenco. O diretor é hábil ao explorar as maravilhosas atuações de um elenco incrivelmente talentoso, como no diálogo final entre a enfermeira Ratched e Billy Bibbit (Brad Dourif), realçando as expressões dos dois. Além disso, faz interessantes movimentos de câmera, como na cena da votação, que inicia com um close no sorridente McMurphy, e que lentamente vai se afastando dele para mostrar que o resultado da votação não foi nem de perto o esperado por ele. Forman também é competente ao nos dar algumas dicas do que vai acontecer durante o filme de forma sutil. Observe, por exemplo, como na cena em que McMurphy diz para o grupo que vai assistir ao jogo, arremessando a pia na janela e fugindo, o rápido close no olhar curioso do Chefe Bromden (Will Sampson) sinaliza para o espectador o emocionante final do drama. Em outra oportunidade, podemos notar McMurphy olhando para um esquilo que caminha tranquilamente na cerca, mostrando que não é elétrica, e no plano seguinte vemos o ônibus saindo do local, o que se revela um bom artifício para justificar uma atitude que McMurphy tomaria depois.

Um Estranho no Ninho foto 3

O ótimo roteiro de Bo Goldman e Lawrence Hauben (baseado em livro de Ken Kesey) desenvolve muito bem os diversos personagens, além de contar com um final bastante corajoso (note também um interessante trocadilho em inglês – “Se Felt See” – quando McMurphy fala com Sefelt – William Duell). Com um excelente roteiro nas mãos, Forman permitiu ao elenco mostrar todo o seu brilhantismo. E poucas vezes tivemos uma performance tão uniforme e qualificada. Todo o elenco de “Um Estranho no Ninho” é, no mínimo, sensacional. A começar pela atuação antológica de Jack Nicholson. Podemos notar logo em sua primeira aparição, quando grita de alegria ao tirar a algema e dá um beijo no guarda antes de entrar dançando pelo corredor, que seu trabalho é perfeito. O filme é dele. Sua atuação é tão espetacular que fica até difícil destacar algum momento em especial. Solto, alegre, perfeccionista, Jack trabalha em cada pequeno detalhe da composição do personagem, como podemos notar no tom de voz baixo enquanto conversa com o médico, o olhar que nunca se fixa em um ponto, o pigarro na garganta, o sorriso com o que o médico fala e o soco na mesa quando o médico menos espera, para matar uma mosca talvez. Jack é competente também ao mostrar sua alegria quando ouve o Chefe falar pela primeira vez, mostrando a felicidade de McMurphy ao perceber que existe alguém ali parecido com ele, que não se enquadra naquele lugar e não se conforma em aceitar aquele destino. Nos momentos tristes e tensos, o ator se mostra igualmente talentoso, como na hora da medicação em que ele olha cinicamente para a enfermeira, e na cena em que parte pra cima de Ratched após a morte de Billy. O embate entre os dois, aliás, é um prato cheio para mostrar o talento de Jack e Fletcher. Repare como ele ri do gesto que Harding (William Redfield) faz quando pergunta se é marica. Ele repete o gesto e gargalha da discussão, mas lentamente vai ficando sério e percebendo que o problema daquelas pessoas é maior do que ele pensava. No final da cena, McMurphy e Ratched se olham fixamente. Os dois sabem que enfrentarão problemas. Louise Fletcher, aliás, é muito competente ao transmitir toda a firmeza e rigidez de Ratched. Seu olhar intimida e sua frieza na solução dos problemas chega a ser espantosa. Na citada cena da votação, ela sorri levemente com o resultado, como quem está só comprovando algo que já sabia que aconteceria. Os métodos da enfermeira Ratched são frios, cruéis até, mas ela acredita ser a forma correta de liderar e controlar aquele grupo e, apesar de entender as razões de Ratched, não somos obrigados a concordar com estes métodos. A presença de McMurphy representa o caos naquele grupo, já que ele tem as atitudes inesperadas, quebra a rotina e ativa um lado praticamente adormecido naquelas pessoas, o que gera um problema para ela. Por outro lado, não podemos considerar que a enfermeira seja uma má pessoa, como fica comprovado na reunião dos médicos em que Ratched diz querer ficar com McMurphy e não simplesmente passar o problema adiante.

Um Estranho no Ninho foto 2

O restante do elenco não fica atrás da dupla principal. A primeira discussão em grupo gera uma gritaria e histeria geral, mostrando a loucura do grupo e nos situando no ambiente. Brad Dourif é, talvez, o maior destaque entre eles. Sua gagueira ao falar mostra a timidez de Billy e seu final trágico é marcante, com sua atuação fantástica no momento em que é levado para a sala, explodindo em raiva e medo (Ratched olha firme para McMurphy, culpando-o). Danny DeVito, como Martini, também se destaca, praticamente fechando os olhos pra falar e quase sempre olhando pra baixo, mostrando insegurança. Observe como em uma das reuniões com a enfermeira Ratched, DeVito fica olhando para o chão até ser chamado. Sydney Lassick, como Cheswick, e Christopher Lloyd como Taber, também merecem ser citados. Will Sampson fecha a lista de destaques como o Chefe Bromden, sempre com o olhar disperso e com os movimentos lentos. Repare como lentamente ele mostra que gosta de McMurphy, como na cena em que ri após o amigo pular a cerca, ou com sua alegria no jogo de basquete e, mais claramente, quando se envolve na briga de McMurphy com os enfermeiros.

A excelente montagem de Sheldon Kahn e Lynzee Klingman capta todo o elenco, destacando todas as belas atuações. Observe, por exemplo, como a montagem consegue mostrar alternadamente todos os presentes nas cenas de discussão em grupo sem soar picotada. A direção de fotografia (direção de Haskell Wexler) e os figurinos (mérito de Aggie Guerard Rodgers) utilizam muito a cor branca, que teoricamente deveria passar uma sensação de paz, mas que naquele ambiente estranhamente nos causam uma sensação de isolamento. A clássica e melancólica trilha sonora talvez colabore para esta sensação, funcionando muito bem naquele ambiente triste.

Extremamente emocionante, o filme conta com algumas cenas belíssimas e tocantes. A comovente cena do jogo de beisebol mostra o primeiro conflito evidente provocado por McMurphy e conta com uma narração convincente de Nicholson. A divertida cena da pescaria também é linda, principalmente por seu simbolismo. Apesar de contar com boas intenções, talvez o que os médicos não tenham percebido é que, mais do que regras e controle, aquelas pessoas precisavam mesmo é de carinho. O longa conta ainda com alguns momentos de alivio cômico, sendo o melhor deles quando McMurphy volta da enfermaria fazendo uma brincadeira com o grupo. Contém ainda uma crítica implícita ao cruel sistema destas casas de recuperação, quando o enfermeiro diz pra McMurphy que na cadeia ele sairia em breve (68 dias), mas lá ele só sai quando eles quiserem. Por outro lado, alguns dos pacientes poderiam deixar o local, mas não o fazem, o que reforça a tese da prisão psicológica do início desta crítica.

Um Estranho no Ninho foto 4

Ao se aproximar do final, “Um Estranho no Ninho” nos apresenta sua face mais cruel. A festa de despedida de McMurphy representou uma liberdade que o grupo não tinha por motivos óbvios. Talvez o que faltava naquele ambiente era mesmo um pouco de alegria, mesmo que não fosse daquela forma exagerada. Todo o terceiro ato, com o suicídio de Billy, a briga coletiva, a tentativa de McMurphy de assassinar Ratched, a morte de McMurphy e a fuga do Chefe têm um grande impacto e elevam ainda mais a qualidade do filme. Na seqüência final Will Sampson transmite muita emoção quando olha para McMurphy sorridente e, ao ver as cicatrizes do amigo, seu sorriso some. Ele o abraça comovido e toma a atitude que entende ser a melhor naquela situação, pois não agüentaria sair de lá sabendo que a pessoa que lhe trouxe a coragem para mudar sua vida ficaria ali daquela forma para sempre.

Ao ver o Chefe Bromden sair correndo pelo campo, sentimos um misto de alegria e tristeza. A morte de McMurphy serviu para despertar o inconformismo naquelas pessoas e levar pelo menos uma delas a sair daquela situação. Se por um lado não podemos condenar os métodos adotados pela instituição para controlar o grupo, por outro não podemos negar que é bom ver alguém que simplesmente não aceita esta imposição, tendo coragem de levantar uma bandeira e lutar por algo melhor. A lição maior que eu particularmente extraí do lindo drama “Um Estranho no Ninho” é que devemos sempre ficar atentos aos nossos direitos e lutar por eles, independente do lugar em que estamos. 

Um Estranho no Ninho 

Texto publicado em 26 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira