O POVO CONTRA LARRY FLYNT (1996)

(The People vs. Larry Flynt)

Videoteca do Beto #143

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Woody Harrelson, Courtney Love, Edward Norton, Brett Harrelson, Donna Hanover, James Cromwell, Crispin Glover, Vincent Schiavelli, Miles Chapin, James Carville, Richard Paul e Burt Neuborne.

Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski.

Produção: Michael Hausman, Oliver Stone e Janet Yang.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Numa época em que deputados tentam proibir a exibição de filmes no Brasil, nada melhor do que recordar a trajetória do exótico editor da revista Hustler, adaptada para os cinemas neste excelente “O Povo contra Larry Flynt”. Sendo assim, não deixa de ser curioso que somente agora eu possa escrever sobre o filme, já que originalmente eu pretendia terminar 1996 ainda no primeiro trimestre deste ano, quando a polêmica envolvendo o filme “TED” sequer existia e a discussão sobre “Um Filme Sérvio” já fazia parte do passado. Dirigido pelo ótimo Milos Forman, o longa tem todos os ingredientes necessários para provocar polêmica (algo que certamente atraiu a atenção do produtor Oliver Stone), misturando temas bombásticos como religião, política e pornografia.

Baseado na biografia de Larry Flynt, o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski narra a trajetória do editor da revista Hustler, que rivalizou com a Playboy ao apresentar pornografia explícita e se transformou numa verdadeira febre nos anos 70. Após o sucesso, Larry (Woody Harrelson) tornou-se um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, casou-se com a ex-prostituta Althea (Courtney Love) e, ao lado do irmão Jimmy (Brett Harrelson), construiu um verdadeiro império, mas também sofreu pesados processos judiciais e até mesmo um atentado por causa disto. Coube então ao jovem advogado Alan Isaacman (Edward Norton) a árdua missão de defendê-lo nos tribunais.

Se existe um tema que ainda é tabu na nossa sociedade, este tema é o sexo. Mesmo quando tratamos apenas da nudez, muitas pessoas ainda se comportam como se estivessem diante da maior das aberrações, num comportamento puritano que muitas vezes é proporcionalmente inverso ao que elas de fato sentem. Aproveitando-se deste interessante traço da sociedade e com o auxilio do material original que inspirou a obra, o afiado roteiro de “O Povo contra Larry Flynt” é repleto de discursos no mínimo interessantes, como aquele em que Larry constrói um raciocínio divertidíssimo a respeito da origem do homem, da mulher e, consequentemente, do órgão genital feminino. Outro discurso marcante é aquele em que Larry questiona porque as pessoas consideram o sexo obsceno, mas aceitam os horrores da guerra, levando o espectador a uma importante reflexão. Entretanto, entre todos os discursos, aquele que melhor resume a mensagem do longa acontece quando Isaacman ilustra para o júri como a censura pode significar o fim da liberdade de toda a sociedade, trabalhando como um vírus que começa agindo em coisas pequenas e se agiganta com o passar do tempo – uma discussão, aliás, que é muito bem vinda atualmente após os episódios envolvendo “Um Filme Sérvio” e “TED”.

Censura pode significar o fim da liberdadeA fórmula do sucesso do longa, entretanto, vai além do ótimo roteiro, passando diretamente pela escolha de diretor e elenco. Historicamente, personagens excêntricos sempre despertaram o interesse de Forman (lembre-se de “Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”), que, por sua vez, sempre demonstrou competência para extrair atuações marcantes de seus protagonistas. Se considerarmos ainda que poucos atores poderiam encarnar Larry Flynt com a mesma desenvoltura de Woody Harrelson, temos a combinação perfeita para dar vida ao folclórico personagem nas telonas. Debochado e expressivo, o ator se sai muito bem na pele do polêmico editor, chamando a atenção pelo comportamento excêntrico nos tribunais, pela relação nada convencional com Althea e pela decadência gradual que transforma Flynt a partir do acidente e que o ator demonstra muito bem (repare como até sua voz muda após a cirurgia).

Aliás, a breve introdução na infância de Larry já nos apresenta um importante traço de sua personalidade: ele fará qualquer coisa para ter sucesso comercialmente. Por isso, chega a ser brilhante o momento em que Forman traz Flynt em primeiro plano e uma cruz vermelha no segundo, indicando que aquela decisão seria trágica para o futuro dele. E não é apenas neste momento que o aspecto visual diz muito sobre o personagem, já que os objetos eróticos espalhados por seu escritório (design de produção de Patrizia von Brandenstein) e as roupas que ele usa nos julgamentos (“Fuck this court”) só confirmam sua personalidade conturbada (figurinos de Arianne Phillips e Theodor Pistek). Neste sentido, o Jimmy Flynt de Brett Harrelson mostra-se o contraponto ideal para que o espectador não seja totalmente influenciado pela visão de Larry, funcionando como o outro lado da moeda em diversas situações, já que ele é o único membro da equipe capaz de questionar as ideias do irmão.

Se considerarmos seu comportamento fora dos palcos, não chega a ser surpreendente o bom desempenho de Courtney Love na pele da maluca Althea Flynt. Ainda assim, pouca gente poderia esperar uma atuação tão segura da cantora, que demonstra a degradação da personagem com precisão na medida em que o tempo passa, chegando até mesmo a emagrecer sensivelmente e a falar com mais dificuldade no ato final, quando já está infectada com o vírus da AIDS. E finalmente, para viver um advogado jovem e promissor, ninguém melhor que um ator igualmente jovem e promissor como Edward Norton, que interpreta Isaacman com uma desenvoltura notável, demonstrando com competência como o advogado se sente desnorteado diante de seu cliente, parecendo incapaz de prever quais serão seus próximos passos mesmo convivendo o tempo todo com ele. Ainda assim, Norton acerta o tom quando Isaacman se revolta com Larry, finalmente se impondo diante dele, além de nos convencer plenamente durante os julgamentos de que Isaacman defenderá até o fim o direito de Larry se manifestar, ainda que não goste do resultado do trabalho dele.

Ciente de que todo cuidado é pouco numa biografia, Forman não teme explorar o lado cômico de seu protagonista, criando sequências hilárias como aquela em que Larry é cercado pelo FBI em sua mansão e acompanha tudo enlouquecido pela televisão até finalmente ser preso. Em outro momento, logo após Larry afirmar que mudará para onde os pervertidos são bem vindos, temos a imagem dos famosos letreiros de Hollywood, numa transição divertida que conta com o trabalho do montador Christopher Tellefsen. Saltando de tempos em tempos de maneira episódica (até mesmo letreiros são utilizados para indicar a passagem do tempo), Tellefsen compensa este erro com muito dinamismo na primeira metade do longa, mantendo a atenção do espectador até o instante em que Larry é baleado. Desde então, o filme sofre uma queda sensível no ritmo, tornando-se um pouco arrastado ao focar demasiadamente nos julgamentos e na decadência do casal.

Demonstrando visualmente esta decadência através do quarto escuro e sombrio em que eles passam os últimos dias juntos, Forman chega ao auge na chocante cena da morte de Althea, criando um plano assustador com a moça afogada dentro da banheira, seguido pelo tocante choro desesperado de Larry (num dos inúmeros momentos inspirados de Harrelson). Entretanto, esta abordagem sombria destoa do restante do longa. Buscando ilustrar a mente criativa de seu protagonista, a fotografia de Philippe Rousselot abusa de cores vivas, priorizando sempre que possível as cores da bandeira norte-americana, o que, somado a trilha sonora repleta de músicas típicas do país de Thomas Newman, reforça o sentimento nacionalista tão evidente no longa. Mas isto tudo tem um propósito. Lembre-se que Milos Formam é tcheco e, portanto, não teria razão alguma para exaltar o ufanismo. Na verdade, sua intenção é espelhar as ações de seu protagonista e tocar na ferida da nação mais poderosa do mundo. Afinal de contas, como um país que diz prezar tanto pela liberdade pode ser tão preconceituoso? Existe uma sequência em especial que, sutilmente, indica como o radicalismo tem grande espaço na sociedade norte-americana, quando, em questão de segundos, os integrantes da equipe de Larry levantam suspeita sobre diversos grupos distintos como a máfia, a KKK e até mesmo a CIA.

Entre todos estes grupos, os fanáticos religiosos são os que ganham mais espaço em “O Povo contra Larry Flynt”. Sem medo de tocar num tema tão polêmico, Forman aproveita muito bem a história verdadeira do personagem para nos levar a interessantes reflexões. E ainda que tenha um tom folclórico em diversos instantes, o longa não hesita em criticar acidamente algumas instituições religiosas norte-americanas. Chega a provocar náuseas a forma como o reverendo Jerry Falwell usa a morte de Althea para se promover, num comportamento que não é unânime, mas que se repete em muitas das instituições religiosas contemporâneas, contrariando um dos ensinamentos básicos do Cristianismo que é a compaixão. Por outro lado, a sequência final na suprema corte dos EUA tem um tom leve e descontraído que encerra bem o filme, ainda que as lembranças de Larry confiram um tom nostálgico ao ato final.

Com muito talento, “O Povo contra Larry Flynt” transporta para o cinema o espírito controverso de seu protagonista, levando o espectador a refletir sobre sua trajetória e, o que é mais interessante, a debater sobre conceitos importantíssimos da nossa sociedade. Podemos detestar a obra de qualquer pessoa, mas jamais devemos impedi-la de realizar seu trabalho. É neste direito que reside à essência da liberdade.

Texto publicado em 26 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

AMADEUS (1984)

(Amadeus)

 

Videoteca do Beto #30

Vencedores do Oscar #1984

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay, Kenny Baker, Lisabeth Bartlett, Barbara Bryne, Martin Cavina, Roderick Cook, Milan Demjanenko e Peter DiGesu.

Roteiro: Peter Shaffer, baseado em peça de Peter Shaffer.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida e a obra de um verdadeiro gênio da música são apresentadas de forma louvável neste lindo filme dirigido pelo competente Milos Forman, através da visão de outro compositor que conviveu com Mozart, admirou o seu magnífico trabalho e desejou ter o mesmo talento que ele. A forma como foi obrigado a aceitar sua “mediocridade”, como ele mesmo diz, é tocante e diz muito sobre a frustração comum à maioria das pessoas que se aproximam da velhice e percebem que não conseguiram ser o que sonhavam.

Após tentar o suicídio, Antonio Salieri (F. Murray Abraham) resolve confessar a um padre que foi o responsável pela morte do gênio Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce), contando em detalhes como conheceu, conviveu e lentamente viu crescer seu ódio pelo jovem irreverente e criativo que, segundo ele, compunha como se sua música tivesse sido abençoada pelo próprio Deus. Baseado na peça de Peter Shaffer e com o roteiro escrito pelo próprio Shaffer, “Amadeus” nos conta a vida de Mozart curiosamente sob o ponto de vista de outro compositor da época, que conviveu com ele e que, apesar de ter talento, jamais conseguiu se igualar à genialidade dele. E é exatamente o efeito que a aparição daquele homem, com uma capacidade criativa muito acima da média, causaria em Salieri que iremos testemunhar ao longo da projeção.

Dirigido maravilhosamente por Milos Forman, o filme conta uma história triste e melancólica de forma absolutamente convincente e encantadora, o que não impede a existência de ótimos momentos de alívio cômico, notáveis principalmente nas falas de Salieri contra Deus, como na cena em que diz “de agora em diante somos inimigos”, e o plano seguinte mostra a imagem de Cristo. Cômica também é a forma que Salieri descreve como seu caminho se abriu para explorar seu talento musical inibido por seu pai, na engraçada cena da morte do Sr. Francesco Salieri. Milos Forman utiliza muitos closes nas reações de Salieri quando Mozart é elogiado, realçando sua inveja, que crescia paralelamente à sua admiração por ele. O filme mostra como ele ouvia e absolvia as músicas do gênio de uma maneira muito charmosa e encantadora, utilizando o inteligente recurso de tocar a canção que ele lia nas partituras para que o espectador sinta o que ele sentia. Forman também é inteligente ao mostrar o processo criativo do gênio, que enxergava música em coisas banais, como na interessante tirada em que ele, ao ouvir os brados de uma velha senhora quando sua mulher vai embora, se inspira para compor uma de suas mais famosas canções.

A interessante idéia de contar a história através da experiência de Salieri funciona muito bem, também porque a excelente montagem de Michael Chandler e Nena Danevic salta do narrador para a história em um ritmo muito bom, jamais sendo cansativo e mantendo-se sempre atraente. Alternando com agilidade do presente para o passado (em certo momento, a montagem salta ao presente somente para que Salieri diga que “aquele garoto obsceno, engatinhando no chão, era Mozart! Aquele era Mozart!”, indignado por esperar um ser humano “à altura do talento que tinha”), a montagem também faz elegantes transições de tempo, como quando Madame Cavalieri (Christine Ebersole) tem aulas com Salieri e pergunta sobre a nova ópera de Mozart, e no plano seguinte, está cantando na ópera citada. Aliás, o trabalho técnico de “Amadeus” é formidável, perceptível na excepcional direção de arte de Karel Cerny e nos fabulosos figurinos de Theodor Pistek, que ambientam o espectador na Viena da época com perfeição, além da notável maquiagem em Salieri já velho e em Mozart doente. O estado emocional de Mozart é refletido com competência através da excelente direção de fotografia de Miroslav Ondrícek. Inicialmente colorida, demonstra o mundo alegre e iluminado que o criativo e elétrico Mozart enxergava. Porém quando seu pai morre, o reflexo imediato vem em sua próxima ópera, sem cores, obscura e até mesmo fantasmagórica. E na medida em que Mozart vai enlouquecendo, a fotografia cada vez menos colorida e menos viva apenas reflete seu estado mental. Destaca-se também o ótimo trabalho de som, que capta com clareza cada instrumento das precisas composições. Finalmente, nem precisaríamos citar a maravilhosa trilha sonora de John Strauss, que espalha a vasta e deliciosa obra de Mozart por todo o filme.

Ao ouvir a experiência de Salieri ser contada para o Padre, praticamente podemos sentir sua tristeza e decepção por não ter nascido com o talento que aquele “jovem irreverente e obsceno” tinha graças ao magnífico desempenho de F. Murray Abraham. Observe como ele narra a história com paixão, demonstrando através do olhar, do tom de voz e de cada gesto, o forte sentimento de frustração que amargurava ao relembrar a história que viveu com o gênio. A fala precisa, pausada e com boa entonação garante um tom emocionado à narração. Sua feição enquanto conta a história denota uma tristeza incontida por não ter tido o talento do rival, refletida também na fotografia obscura. Por outro lado, sempre que pode Salieri deixa claro sua admiração pelo trabalho de Mozart. Sua emoção é palpável ao ouvir as músicas dele, às vezes até fazendo-o chorar. Observe como uma simples troca de olhares entre os presentes, quando Mozart começa a tocar e melhorar a música criada por Salieri na sala do Imperador – causando o espanto de todos com o talento dele – provoca um sorriso forçado de Salieri, que na realidade sentia inveja. Quando descreve para o Padre seu plano para matar o rival, Abraham transmite muita emoção, olhando para as mãos ao dizer que “planejar a morte de alguém é fácil, mas fazer o serviço com as próprias mãos não é”. “Como se mata um homem? Como é que se faz isso?” diz ele, numa das mais espetaculares cenas do filme.

Mas porque todo este ódio por parte de Salieri? A resposta está no talento do personagem que dá nome ao filme, Wolfgang Amadeus Mozart. Interpretado com muita energia por Tom Hulce, Mozart era dono de um talento absurdo para compor musica, o que o tornava um gênio, acima de todos os outros compositores de sua época. Apresentado como um jovem cheio de alegria quando persegue uma garota, percebemos através de um simples jogo de palavras que ele faz com ela a incrível velocidade de seu raciocínio. Desinibido e irreverente, como podemos perceber quando desafia o arcebispo em seu próprio palácio, abrindo à porta para que este escute os aplausos à sua música, Mozart era – como ele mesmo dizia – um homem vulgar. Mas sua música não era. Hulce demonstra a ansiedade do gênio de forma competente, como podemos observar quando o Imperador vai emitir uma opinião sobre sua música e faz uma pausa. Seu olhar arregalado, sua fala presa na boca e a respiração ofegante demonstram que ele mal podia esperar para ouvir a opinião dele. Jovial e descompromissado, ele tocava seu noivado enquanto se divertia, até ser desmascarado. Observe seu claro desconforto quando madame Cavalieri descobre que ele é noivo de Constanze (Elizabeth Berridge). Ele mal sabe para qual delas olhar. Também é marcante a engraçada e aguda risada criada por Hulce, que caracteriza muito bem o excêntrico personagem. Após se tornar um homem de família, Mozart valoriza muito a esposa, como fica claro em sua discussão com o pai, assim como é interessante notar como ele observa atentamente as reações do filho em uma ópera, demonstrando uma clara preocupação com o gosto do garoto. Mas a vida do gênio não era um mar de rosas. A inveja de Salieri criava problemas em sua vida (e se é verídico ou não, não é relevante neste caso), como a proibição de um balé em uma de suas óperas, a obrigação de fazer teste para dar aulas à filha do Imperador e, principalmente, a assombração do fantasma do pai que o levaria à morte. O teste, aliás, levanta uma interessante questão. Porque os melhores têm que ser tratados como os outros? Porque gênios devem se igualar aos medíocres? Quando afirma ser o melhor compositor, Mozart escuta que um pouco de humildade lhe faria bem. Por quê? A genialidade deve ser exaltada, e não igualada ao restante das pessoas. E é irônico notar como foi justamente em Salieri que Mozart encontrou alguém capaz de entender perfeitamente a grandiosidade de sua obra. Nem mesmo a ópera que fez o Imperador dormir desagradou ao rival (num paralelo interessante com o próprio cinema, onde a maioria do público não compreende obras que exijam um esforço intelectual maior). Sabendo do peso que seu pai representava, Salieri arquiteta um plano cruel, que vai lentamente degradando Amadeus, e fazendo com que ele se afunde na bebida, algo peculiar à maioria dos gênios. Normalmente dedicados àquilo em que são excepcionais, não conseguem ter uma vida normal, tendo muitos vícios e, não raramente, dificuldades financeiras. Mozart era assim. Precisando de dinheiro, se entregou à música popular e fez sucesso, mas jamais escondeu seu embaraço, como podemos notar quando pergunta à Salieri o que achou de sua ópera, somente para dizer depois que era “apenas um vaudeville”.

Durante a maravilhosa seqüência em que Mozart e Salieri trabalham juntos na criação de uma ópera (que ironicamente seria sobre a própria morte de Amadeus) podemos notar o fascinante processo de criação de um gênio. É notável sua agilidade, empolgação e paixão pelo que faz, assim como é assombrosa a sua facilidade para compor. Salieri, por outro lado, era talentoso, mas não era gênio, e por isso demonstra enorme dificuldade em acompanhar o raciocínio de Mozart. Também por isso, não se contentava com seu talento. Ao perceber que Amadeus se alegrava com sua ajuda e reconhecimento, provavelmente Salieri gostaria de voltar atrás, percebendo finalmente que mesmo sem o talento dele, sua existência era importante de alguma forma. Mas era tarde demais. A degradação e a loucura de Mozart o levaram ao fim. E a culpa seria o fardo pesado que Salieri levaria pelo resto da vida.

“Amadeus” mostra como a inveja corrói um ser humano. Frustrado por não ter conseguido ser aquilo que sonhou, Salieri sentia inveja, misturada com grande admiração pelo trabalho de Mozart, que segundo ele, era o próprio Deus fazendo música. A chuva, a trilha melancólica e a fotografia escura demonstram a tristeza dele no enterro do gênio. Mais triste ainda são as palavras finais de Salieri: “Medíocres em toda parte, eu os absolvo. Sou o campeão dos medíocres”. Não há problema algum em não ser gênio, isto é privilégio de poucos. O problema é deixar a frustração corroer sua alma e o levar a invejar alguém mais talentoso. Salieri se intitulava o campeão dos medíocres. Forman não pode dizer o mesmo. E Amadeus, o filme, está bem longe de ser medíocre. Pelo contrário, trata-se de uma obra que encantaria até mesmo o gênio que a inspirou.

Texto publicado em 28 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

UM ESTRANHO NO NINHO (1975)

(One Flew Over the Cuckoo’s Nest) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #8

Vencedores do Oscar #1975

Videoteca do Beto #152 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, William Redfield, Michael Berryman, Peter Brocco, Will Sampson, Dean R. Brooks, Alonzo Brown, Mwako Cumbuka, William Duell, Josip Elic, Lan Fendors e Sydney Lassick. 

Roteiro: Bo Goldman e Lawrence Hauben, baseado em livro de Ken Kesey. 

Produção: Michael Douglas e Saul Zaentz. 

Um Estranho no Ninho foto 5

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A sensação de liberdade é algo que independe de onde estamos e de como vivemos. Podemos nos sentir livres de diversas maneiras e em diversos lugares. Da mesma forma, estar preso não quer dizer necessariamente que estamos encarcerados ou cercados por muros e grades. Podemos nos sentir sufocados, cercados, aprisionados, mesmo que estejamos no mais livre dos lugares do planeta. A questão é: temos coragem de lutar para conquistar a liberdade que desejamos? A prisão psicológica de um grupo de pessoas dentro de uma instituição para doentes mentais (ou manicômio) e o caos que “um estranho no ninho” provoca naquelas vidas é o fio condutor do belíssimo drama dirigido por Milos Forman e estrelado brilhantemente por Jack Nicholson.

O condenado Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson) se passa por louco para evitar trabalhar no campo e acaba sendo transferido para um manicômio, onde vai alterar a rotina dos presentes e entrar em conflito com as rígidas normas de controle estabelecidas pela instituição e seguidas à risca pela enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher). Ao despertar os pacientes e provocar a revolta deles contra estas regras ele irá encontrar também seu trágico destino.

O cotidiano de uma instituição responsável pela reabilitação de pessoas com problemas mentais não deve mesmo ser nada fácil. Afinal de contas, conviver diariamente com pessoas das quais não sabemos que comportamento esperar é algo um tanto complicado e perigoso. Por outro lado, deve ser gratificante para qualquer profissional da área quando alguém deste grupo apresenta alguma evolução, o que serve de motivação para enfrentar este clima pesado diariamente. Sendo assim, não podemos condenar os rígidos métodos adotados pela instituição e seguidos fielmente pela enfermeira Ratched na tentativa de controlar a situação, o que estava sendo feito com sucesso até a chegada de alguém que, por motivos óbvios, não seguirá as regras do local e, conseqüentemente, provocará o conflito naquele ambiente. Milos Forman acerta em cheio na utilização de muitos closes, que realçam as expressões marcantes daquelas pessoas perturbadas psicologicamente, em contraponto às longas tomadas sem corte que permitem ao espectador apreciar em detalhes a espetacular atuação coletiva do elenco. O diretor é hábil ao explorar as maravilhosas atuações de um elenco incrivelmente talentoso, como no diálogo final entre a enfermeira Ratched e Billy Bibbit (Brad Dourif), realçando as expressões dos dois. Além disso, faz interessantes movimentos de câmera, como na cena da votação, que inicia com um close no sorridente McMurphy, e que lentamente vai se afastando dele para mostrar que o resultado da votação não foi nem de perto o esperado por ele. Forman também é competente ao nos dar algumas dicas do que vai acontecer durante o filme de forma sutil. Observe, por exemplo, como na cena em que McMurphy diz para o grupo que vai assistir ao jogo, arremessando a pia na janela e fugindo, o rápido close no olhar curioso do Chefe Bromden (Will Sampson) sinaliza para o espectador o emocionante final do drama. Em outra oportunidade, podemos notar McMurphy olhando para um esquilo que caminha tranquilamente na cerca, mostrando que não é elétrica, e no plano seguinte vemos o ônibus saindo do local, o que se revela um bom artifício para justificar uma atitude que McMurphy tomaria depois.

Um Estranho no Ninho foto 3

O ótimo roteiro de Bo Goldman e Lawrence Hauben (baseado em livro de Ken Kesey) desenvolve muito bem os diversos personagens, além de contar com um final bastante corajoso (note também um interessante trocadilho em inglês – “Se Felt See” – quando McMurphy fala com Sefelt – William Duell). Com um excelente roteiro nas mãos, Forman permitiu ao elenco mostrar todo o seu brilhantismo. E poucas vezes tivemos uma performance tão uniforme e qualificada. Todo o elenco de “Um Estranho no Ninho” é, no mínimo, sensacional. A começar pela atuação antológica de Jack Nicholson. Podemos notar logo em sua primeira aparição, quando grita de alegria ao tirar a algema e dá um beijo no guarda antes de entrar dançando pelo corredor, que seu trabalho é perfeito. O filme é dele. Sua atuação é tão espetacular que fica até difícil destacar algum momento em especial. Solto, alegre, perfeccionista, Jack trabalha em cada pequeno detalhe da composição do personagem, como podemos notar no tom de voz baixo enquanto conversa com o médico, o olhar que nunca se fixa em um ponto, o pigarro na garganta, o sorriso com o que o médico fala e o soco na mesa quando o médico menos espera, para matar uma mosca talvez. Jack é competente também ao mostrar sua alegria quando ouve o Chefe falar pela primeira vez, mostrando a felicidade de McMurphy ao perceber que existe alguém ali parecido com ele, que não se enquadra naquele lugar e não se conforma em aceitar aquele destino. Nos momentos tristes e tensos, o ator se mostra igualmente talentoso, como na hora da medicação em que ele olha cinicamente para a enfermeira, e na cena em que parte pra cima de Ratched após a morte de Billy. O embate entre os dois, aliás, é um prato cheio para mostrar o talento de Jack e Fletcher. Repare como ele ri do gesto que Harding (William Redfield) faz quando pergunta se é marica. Ele repete o gesto e gargalha da discussão, mas lentamente vai ficando sério e percebendo que o problema daquelas pessoas é maior do que ele pensava. No final da cena, McMurphy e Ratched se olham fixamente. Os dois sabem que enfrentarão problemas. Louise Fletcher, aliás, é muito competente ao transmitir toda a firmeza e rigidez de Ratched. Seu olhar intimida e sua frieza na solução dos problemas chega a ser espantosa. Na citada cena da votação, ela sorri levemente com o resultado, como quem está só comprovando algo que já sabia que aconteceria. Os métodos da enfermeira Ratched são frios, cruéis até, mas ela acredita ser a forma correta de liderar e controlar aquele grupo e, apesar de entender as razões de Ratched, não somos obrigados a concordar com estes métodos. A presença de McMurphy representa o caos naquele grupo, já que ele tem as atitudes inesperadas, quebra a rotina e ativa um lado praticamente adormecido naquelas pessoas, o que gera um problema para ela. Por outro lado, não podemos considerar que a enfermeira seja uma má pessoa, como fica comprovado na reunião dos médicos em que Ratched diz querer ficar com McMurphy e não simplesmente passar o problema adiante.

Um Estranho no Ninho foto 2

O restante do elenco não fica atrás da dupla principal. A primeira discussão em grupo gera uma gritaria e histeria geral, mostrando a loucura do grupo e nos situando no ambiente. Brad Dourif é, talvez, o maior destaque entre eles. Sua gagueira ao falar mostra a timidez de Billy e seu final trágico é marcante, com sua atuação fantástica no momento em que é levado para a sala, explodindo em raiva e medo (Ratched olha firme para McMurphy, culpando-o). Danny DeVito, como Martini, também se destaca, praticamente fechando os olhos pra falar e quase sempre olhando pra baixo, mostrando insegurança. Observe como em uma das reuniões com a enfermeira Ratched, DeVito fica olhando para o chão até ser chamado. Sydney Lassick, como Cheswick, e Christopher Lloyd como Taber, também merecem ser citados. Will Sampson fecha a lista de destaques como o Chefe Bromden, sempre com o olhar disperso e com os movimentos lentos. Repare como lentamente ele mostra que gosta de McMurphy, como na cena em que ri após o amigo pular a cerca, ou com sua alegria no jogo de basquete e, mais claramente, quando se envolve na briga de McMurphy com os enfermeiros.

A excelente montagem de Sheldon Kahn e Lynzee Klingman capta todo o elenco, destacando todas as belas atuações. Observe, por exemplo, como a montagem consegue mostrar alternadamente todos os presentes nas cenas de discussão em grupo sem soar picotada. A direção de fotografia (direção de Haskell Wexler) e os figurinos (mérito de Aggie Guerard Rodgers) utilizam muito a cor branca, que teoricamente deveria passar uma sensação de paz, mas que naquele ambiente estranhamente nos causam uma sensação de isolamento. A clássica e melancólica trilha sonora talvez colabore para esta sensação, funcionando muito bem naquele ambiente triste.

Extremamente emocionante, o filme conta com algumas cenas belíssimas e tocantes. A comovente cena do jogo de beisebol mostra o primeiro conflito evidente provocado por McMurphy e conta com uma narração convincente de Nicholson. A divertida cena da pescaria também é linda, principalmente por seu simbolismo. Apesar de contar com boas intenções, talvez o que os médicos não tenham percebido é que, mais do que regras e controle, aquelas pessoas precisavam mesmo é de carinho. O longa conta ainda com alguns momentos de alivio cômico, sendo o melhor deles quando McMurphy volta da enfermaria fazendo uma brincadeira com o grupo. Contém ainda uma crítica implícita ao cruel sistema destas casas de recuperação, quando o enfermeiro diz pra McMurphy que na cadeia ele sairia em breve (68 dias), mas lá ele só sai quando eles quiserem. Por outro lado, alguns dos pacientes poderiam deixar o local, mas não o fazem, o que reforça a tese da prisão psicológica do início desta crítica.

Um Estranho no Ninho foto 4

Ao se aproximar do final, “Um Estranho no Ninho” nos apresenta sua face mais cruel. A festa de despedida de McMurphy representou uma liberdade que o grupo não tinha por motivos óbvios. Talvez o que faltava naquele ambiente era mesmo um pouco de alegria, mesmo que não fosse daquela forma exagerada. Todo o terceiro ato, com o suicídio de Billy, a briga coletiva, a tentativa de McMurphy de assassinar Ratched, a morte de McMurphy e a fuga do Chefe têm um grande impacto e elevam ainda mais a qualidade do filme. Na seqüência final Will Sampson transmite muita emoção quando olha para McMurphy sorridente e, ao ver as cicatrizes do amigo, seu sorriso some. Ele o abraça comovido e toma a atitude que entende ser a melhor naquela situação, pois não agüentaria sair de lá sabendo que a pessoa que lhe trouxe a coragem para mudar sua vida ficaria ali daquela forma para sempre.

Ao ver o Chefe Bromden sair correndo pelo campo, sentimos um misto de alegria e tristeza. A morte de McMurphy serviu para despertar o inconformismo naquelas pessoas e levar pelo menos uma delas a sair daquela situação. Se por um lado não podemos condenar os métodos adotados pela instituição para controlar o grupo, por outro não podemos negar que é bom ver alguém que simplesmente não aceita esta imposição, tendo coragem de levantar uma bandeira e lutar por algo melhor. A lição maior que eu particularmente extraí do lindo drama “Um Estranho no Ninho” é que devemos sempre ficar atentos aos nossos direitos e lutar por eles, independente do lugar em que estamos. 

Um Estranho no Ninho 

Texto publicado em 26 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira