OS BONS COMPANHEIROS (1990)

(Goodfellas)

 

Videoteca do Beto #75

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Frank Sivero, Tony Darrow, Frank Vincent, Chuck Low, Frank DiLeo, Gina Mastrogiacomo, Catherine Scorsese, Charles Scorsese, Illeana Douglas e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Nicholas Pileggi.

Produção: Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Scorsese estava em plena forma quando lançou este maravilhoso “Os Bons Companheiros”, apresentando as melhores características de seu diferenciado modo de fazer cinema. O linguajar despojado, o submundo do crime, as cenas de violência extremamente realistas e os personagens fascinantes que enxergam tudo isto com naturalidade estão presentes neste legítimo representante da elogiada filmografia de Marty, que mais uma vez conta com um elenco talentoso e um trabalho técnico de primeira para desfilar sua habilidade atrás das câmeras e acertar em cheio no alvo.

Henry (Ray Liotta) inicia sua carreira na vida do crime aos 11 anos de idade e se torna o protegido do mafioso Paulie (Paul Sorvino), sendo tratado praticamente como um filho por muitos anos. Já na fase adulta, ele se junta a Tommy (Joe Pesci) e Jimmy (Robert De Niro) para roubar caminhões e, posteriormente, se envolver no tráfico de drogas, o que se revelará uma decisão trágica pra todos eles.

“Até onde eu consigo me lembrar, eu sempre quis ser um gângster”. Logo na introdução deste excelente “Os Bons Companheiros” (que precede a famosa frase do personagem de Ray Liotta), o excepcional roteiro escrito por Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, baseado em livro de Pileggi, consegue prender a atenção do espectador ao mostrar Tommy, Jimmy e Henry executando um homem, que estava trancado no capô de um carro, com a naturalidade de quem está apenas parando para trocar um pneu. Desta forma, esta espetacular seqüência, além de prender o espectador, tem ainda a função de nos apresentar a personalidade “durona” destes personagens, que pertencem a um mundo completamente diferente do que estamos acostumados, nos preparando adequadamente para o restante da narrativa. Utilizando uma interessante narração em off para nos mostrar aquele mundo através do olhar de Henry, o roteiro (repleto de palavrões, como é marca registrada nos filmes de Scorsese) cobre muitos anos na vida do mafioso, iniciando nos tempos em que ele descobriu que ser um gângster significava ter respeito e poder, ainda quando estacionava os Cadillacs sob os olhares curiosos das garotas. Mas o longa não se resume à trajetória de Henry Hill, abordando também temas interessantes como a culpa católica, simbolizada no tom carregado de vermelho da fotografia de Michael Ballhaus, que remete ao aspecto infernal daquela vida criminosa, e a corrupção da policia, ilustrada quando Jimmy dá cigarros em troca do silêncio dos policiais. Além disso, mostra que para aquelas pessoas, coisas terríveis como ir para a prisão eram até mesmo um motivo de orgulho, algo ilustrado quando Henry é libertado sob aplausos e abraços acalorados dos parceiros de crime – e neste momento, aliás, Jimmy dá um conselho que terá reflexo no futuro da narrativa, ao dizer para Henry “nunca denunciar seus amigos”.

Scorsese utiliza todo o seu arsenal de travellings e panorâmicas, além do tradicional plano-seqüência, para novamente entregar uma direção estilizada, que preza pelo realismo e evita contar a história de maneira convencional. Observe, por exemplo, com em diversos momentos o diretor, auxiliado por seus montadores, utiliza o still (a imagem congelada, acompanhada da voz do narrador, que fez tanto sucesso, por exemplo, em “Cidade de Deus”), como quando o pai de Henry lhe dá uma surra, buscando dar um fôlego na narrativa para enfatizar alguma reflexão do narrador. Já entre os famosos planos-seqüência do diretor, destacam-se a introdução dos mafiosos no bar, quando eles conversam com a câmera enquanto são identificados, novamente sob forte predomínio da cor vermelha, e quando Henry e Karen entram no restaurante pelos fundos, quando o diretor nos leva por dentro da estrutura do local até a mesa colocada especialmente na frente do palco, enquanto no caminho, o respeito das pessoas por Henry fica evidente, através do número de funcionários que o cumprimentam. Scorsese também utiliza bastante o zoom, como quando Henry sai da prisão, e faz uma pequena homenagem a nouvelle vague francesa, quando ouvimos um homem contando piada no palco enquanto vemos a imagem de Tommy e Henry entrando no galpão do aeroporto, numa falta de sincronia entre som e imagem clássica dos filmes de Godard. O diretor conta ainda com a montagem de Thelma Schoonmaker e James Y. Kwei, que emprega um ritmo ágil à narrativa, mas mantém a característica de Scorsese de utilizar poucos cortes, aproveitando ao máximo seus belos enquadramentos e movimentos de câmera, além de fazer uma interessante passagem no tempo da noite para o dia em frente ao prédio da amante de Henry, quando Karen parte para o local para enfrentá-la e, em seguida, tenta assassinar o marido na cama.

Além da montagem, destaca-se também a já citada direção de fotografia de Michael Ballhaus, que adota um tom obscuro e com forte predomínio da cor vermelha em todo o filme, algo notável quando os criminosos matam Batts (Frank Vicent) no capô do carro, quando roubam um caminhão à noite ou nas seqüências dentro do bar. Este tom vermelho claramente remete ao universo violento daqueles gângsteres, onde o sangue é uma presença constante, e também ao citado aspecto infernal daquela vida de crimes. O aspecto infernal também é ilustrado na trilha sonora de Pete Towshend, que utiliza o som clássico de bandas de rock n’ roll como os “Rolling Stones”, o que também colabora com o clima empolgante da narrativa. Vale destacar ainda a maquiagem que envelhece Robert De Niro no terceiro ato e os figurinos de Richard Bruno, que adotam o padrão do gênero, com ternos e gravatas vestindo os respeitados mafiosos.

E já que citei os mafiosos, vale ressaltar que eles são brilhantemente interpretados pelo talentoso elenco de “Os Bons Companheiros”. A começar por Ray Liotta, que tem uma ótima atuação como Henry, apesar das risadas exageradas no bar. Um homem agressivo e explosivo, capaz de agredir brutalmente o vizinho de sua namorada, ele convive em meio aos mafiosos desde pequeno, mas entre todos eles, é o único que está ali mais pelo glamour (até mesmo pela sua origem irlandesa, e não italiana), o que será decisivo quando chegar o momento em que deverá decidir entre voltar para a prisão e entregar todo mundo. Após voltar da prisão pela primeira vez, Liotta demonstra muito bem o desespero de Henry ao procurar as drogas que lhe garantiriam a fuga da cidade e descobrir que Karen jogou tudo fora. Esta busca insana o levaria a ser preso novamente, mas desta vez Henry faria qualquer coisa para salvar a própria pele. Pior para Jimmy. Interpretado brilhantemente por Robert De Niro, Jimmy é um homem sempre prestes a explodir, como podemos notar quando seus amigos entram no bar após o roubo da Lufthansa ostentando objetos de valor, provocando sua imediata irritação por chamar a atenção da policia. E apesar de ter o respeito do grupo, seus conselhos não convencem nem mesmo seu amigo Henry, que gasta imediatamente a grana com presentes para a mulher. De Niro ilustra muito bem o desespero crescente no personagem na medida em que a narrativa avança e ele pressente a traição, resultando numa cena sensacional, quando oferece ajuda para Karen, que recusa por temer o pior e foge em disparada em seu carro. Mas o show mesmo fica por conta de Joe Pesci, que vive um temível Tommy, capaz de provocar calafrios toda vez que aparece em cena, tamanho é o seu poder de intimidação e a sua instabilidade. Logo em sua introdução, na excelente cena em que conversa com os amigos num bar, o espectador tem a exata noção do perigo que aquele homem representa ao observar que nem mesmo o seu melhor amigo demonstra confiar nele. Repare como o silêncio toma conta de todos quando ele finge estar falando sério com Henry, perguntando por que o amigo o achava engraçado. A cena é tensa e serve para transmitir ainda uma série de sensações ao espectador, através da composição visual de Scorsese, que aproxima o grupo na tela (dando um sentido de camaradagem), e do trabalho conjunto de fotografia, de Ballhaus, e direção de arte, de Maher Ahmad, que novamente destaca a cor vermelha através dos objetos na mesa. A cena serve também para dar uma importante dica do que acontecerá no futuro, quando Tommy diz para Henry que “talvez ele se abra num interrogatório”. Finalmente, Tommy demonstra ser capaz de qualquer coisa quando atira no atendente Spider, numa cena chocante que chega até mesmo a surpreender os seus amigos mafiosos (e o espectador também!).

No restante do elenco, temos Paul Sorvino, que se sai muito bem como Paulie, mostrando-se firme, especialmente na cena em que o dono do restaurante pede a morte de Tommy, além de demonstrar sabedoria ao alertar Henry sobre os perigos do envolvimento com as drogas. Assim como Don Corleone em “O Poderoso Chefão”, ele sabia que aquilo poderia significar o começo do fim. Mas Tommy, Jimmy e Henry não lhe deram ouvidos e começaram a fazer fortuna com o tráfico. Só que o tempo se encarregou de dar razão à Paulie. E neste submundo perigoso da máfia, até mesmo Karen, interpretada com competência por Lorraine Bracco, não parece ser uma pessoa normal (repare como ela se empolga ao ver a arma ensangüentada de Henry após este surrar seu vizinho), tendo acessos de loucura repentina, como quando discute com o marido na prisão ou quando a policia finalmente prende Henry por tráfico de drogas. Vale citar ainda a pequena participação de Samuel L. Jackson como Stacks, apenas como curiosidade.

A violenta morte de Billy Batts, um ótimo exemplo do realismo que Scorsese busca empregar em seus filmes, será a razão da queda do trio. Após espancarem o integrante da máfia, eles ainda param para pegar uma pá na casa da mãe de Tommy, comem, batem papo e só depois seguem para enterrar o corpo. Scorsese destaca esta forma corriqueira de lidar com a situação no momento em que a câmera sai da mesa de jantar e vai até o carro, destacando o porta-malas com o som do homem se debatendo lá dentro. Não por acaso, a primeira seqüência do filme se passa nesta etapa da vida deles, pois este momento provocará a morte de Tommy (em outra cena surpreendente e de forte impacto) e a conseqüente queda de todos eles.

Contando com sua costumeira habilidade para contar histórias do submundo do crime, Martin Scorsese nos entrega um filme visceral, empolgante e extremamente competente, que conta com atuações de primeiro nível, um excelente roteiro e cenas de forte impacto para conquistar o espectador. Até onde eu consigo me lembrar, eu sempre quis assistir aos filmes de Scorsese. E posso afirmar que mais uma vez esta experiência foi maravilhosa.

Texto publicado em 10 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

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8 Respostas to “OS BONS COMPANHEIROS (1990)”

  1. eliasclira Says:

    De Niro e Joe Pesci realmente estão ótimos, como já tinham estado em “Touro Indomável” e estariam em “Cassino”. É realmente um grande filme de máfia, para ver, rever e ter. Quanto ao Ray Liotta, foi o seu grande trabalho. O Scorcese continua fazendo coisas maravilhosas, mas De Niro, decadente, virou caras e bocas

  2. Janerson Says:

    Olá, Roberto. Sem dúvida alguma um grande filme sobre gângsteres apesar de não considerá-lo o melhor. Mais uma vez a dobradinha De Niro e Pesci dá certo como já havia dado certo em Touro Indomável, ambos estão ótimos. Achei a participação de Lyota apenas razoável, talvez por não considerá-lo um grande ator e vê-lo com olhar de crítica. Mas isso não apaga o brilho desse grande filme. Cenas tensas, direção impecável e tudo aquilo o que se espera de um filme sobre a máfia. Apesar de viverem irmanados, realmente não há honra entre ladrões e isso ficou evidente na hora de Henry livrar sua pele.
    Um abraço.

    • Roberto Siqueira Says:

      É verdade Janerson.
      Obrigado por mais este comentário.
      Abraço.

    • Midhun Says:

      Scorsese has certainly done great mieovs, but the hegemonic importance he’s been given in the annals of cinema by fanboys like Siskel and Ebert is still wild overpraise.The idea that Scorsese somehow transcends De Palma, Bertolucci, Kubrick, Cimino, or Coppola, to say nothing of foreign-based and elder competitors (Welles, Kalatozov, Ophuls, etc.) is simply false. And I’m just considering the six-minute tracking shot crew here.Funny enough, there aren’t that many great extended takes in Scorsese’s career. Maybe my memory’s dimming on the earlier films, but that nightclub entry in “GoodFellas”, though fun to watch, is really not that technically astounding. Kubrick could’ve sleepwalked his way through it.Certainly he frames well; but carefully considered, much of his technique consists of jutting camera movements slicendiced in the editing room. Not exclusively, but it’s never been unprecedented. Stone’s mid-90s work looks more viscerally compelling and less affected to me than, say, “Casino.”Worse, there’s always been excess, not simply of style but affect, in his work. “Cape Fear” is risible; even “The Age of Innocence” has some odd lapses (he uses Enya at one point, for goshsakes).As for his moral vision, it stumps me. How his films are about “redemption” I’ll never know. Jake gets fat and peaceful; but then his wife leaves him, and he winds up corrupting a minor (to put it forgivingly); finally, he’s a joke.”Casino”? He grows old and gross still making money for the (kinder, gentler) mob. “GoodFellas”, he can’t stand being a schnook. “Taxi driver”– he’s freakin’ crazy.How the devil is Scorsese a good Catholic anyay? But Ebert Et. al. eat that crap up.And he’s never been much of a moneymaker. He really could’ve used to shake about half his films out of his catalog. Maybe Thelma could do something about that?

    • Roberto Siqueira Says:

      Hi Midhun,
      I clearly do not agree with your point of view, but I appreciate your visit and your comment anyway.
      Hope you enjoy the blog and the other reviews.
      Regards.

  3. Andrey Says:

    Demais esse filme, melhor de mafia pra mim, ja assistir mais de dez vezes!!

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Andrey,
      Não considero o melhor filme de máfia, mas com certeza é um grande filme.
      Abraço.

  4. CASSINO (1995) « Cinema & Debate Says:

    […] o roteirista Nicholas Pileggi e os astros De Niro e Joe Pesci, peças fundamentais no sucesso de “Os Bons Companheiros”, lançado cinco anos antes e que também apresentava o ambiente hostil de mafiosos e […]

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