007 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969)

(On Her Majesty’s Secret Service)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #196

Dirigido por Peter Hunt.

Elenco: George Lazenby, Diana Rigg, Gabriele Ferzetti, George Baker, Ilse Steppat, Telly Savalas, Lois Maxwell, Desmond Llewelyn, Bernard Lee e Irvin Allen.

Roteiro: Richard Maibaum e Simon Raven, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 A Serviço Secreto de Sua Majestade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após interpretar James Bond nos cinco primeiros filmes da franquia, Sean Connery decidiu deixar a série, criando um enorme problema para os produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman. Coube então ao australiano George Lazenby a dura missão de substituir o agora famoso ator escocês, que já tinha sua imagem totalmente ligada ao agente secreto britânico. Felizmente, Lazenby se saiu muito bem e “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” não deve nada aos seus antecessores, merecendo inclusive um lugar de destaque na filmografia de James Bond.

Escrito por Richard Maibaum e Simon Raven com base em romance homônimo de Ian Fleming, “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” coloca James Bond (George Lazenby) numa situação inusitada: em troca de informações privilegiadas sobre o paradeiro de Blofeld (Telly Savalas), o líder da SPECTRE que planeja esterilizar todos os seres vivos do planeta, Bond deverá se casar com Tracy (Diana Rigg), uma jovem que ele impediu de suicidar-se e cujo pai, Sir Hilary Bray (George Baker), é quem detém as informações por ele desejadas.

Responsável pela montagem de quatro dos cinco filmes anteriores (a exceção foi “007 Contra a Chantagem Atômica”, o pior entre eles) e tendo atuado ainda como diretor de segunda unidade em “Com 007 só se vive duas vezes”, Peter Hunt já tinha experiência na franquia quando se ofereceu para dirigir “007 A Serviço Secreto de sua Majestade”. Talvez por isso, o longa não se distancie tanto do padrão já estabelecido tanto visualmente quanto em sua estrutura narrativa, ainda que em certos momentos ouse quebrar regras e surpreenda positivamente, como quando Bond finalmente dá um beijo em  Moneypenny (Lois Maxwell, sempre simpática). Por outro lado, a evolução do romance entre Bond e Tracy destoa bastante do restante da série, permitindo um melhor desenvolvimento dos personagens que só agrega mais a franquia justamente por trazer um raro arco dramático para o protagonista.

Seja através do luxuoso hotel extremamente bem decorado na França, do escritório em Londres ou da intrigante clínica nos Alpes suíços, o caprichado design de produção de Syd Cain também mantém o padrão da série, transportando o espectador pra dentro daqueles ambientes. Enquanto isto, a fotografia de Michael Reed realça a beleza dos ambientes externos, seja na viva sequência do namoro de Bond e Tracy, seja na empolgante fuga do casal esquiando. A belíssima fotografia é realçada também pelos belos movimentos de câmera de Hunt, especialmente nos lindos Alpes captados em tomadas aéreas impressionantes.

Já a misteriosa clínica ganha cores chamativas que reforçam o tom esotérico do processo de cura aplicado, ilustrando também a empolgação de Bond ao descobrir que o local tinha somente pacientes mulheres. Obviamente, ele ficaria com algumas delas, mas para isto teria que driblar a durona Fräulin Bunt vivida com rispidez por Ilse Steppat. No entanto, o grande alvo de 007 era mesmo Blofeld, que desta vez ganha vida na pele de Telly Savalas. Compondo o vilão como um homem culto que usa sua inteligência para manter-se afastado dos holofotes, Savalas trava ótimos duelos verbais com 007 enquanto este finge ser um importante advogado, mantendo outra tradição da série.

Namoro de Bond e TracyMisteriosa clínicaDurona Fräulin BuntMas a grande expectativa em “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” era mesmo pela aparição do substituto de Sean Connery na pele de James Bond. Ciente disto, Peter Hunt leva um tempo até finalmente revelar o rosto de George Lazenby na divertida sequência de abertura, que além de prender a atenção do espectador, ainda faz uma excelente piada com a saída de Connery ao trazer o novo 007 dizendo que “isto nunca aconteceu com o outro cara” após Tracy fugir dele. Mantendo a postura elegante nos refinados ternos usados pelo personagem (figurinos de Marjory Cornelius), Lazenby demonstra também agilidade, saindo-se muito bem nas sequências que exigem esforço físico, como nos confrontos com os vilões e na fuga cheia de estilo em que ele esquia na neve. Além disso, o ator consegue manter o sarcasmo e a ironia que tanto marcam o personagem, demonstrando uma autoconfiança inabalável diante de qualquer situação perigosa.

No entanto, existe uma diferença clara entre o James Bond de Connery e o de Lazenby, evidenciada logo na mencionada piada que abre o longa. Enquanto o primeiro exala charme, conquistando praticamente toda mulher que cruza seu caminho, o segundo, mesmo com boa capacidade de conquista, demonstra maior vulnerabilidade diante do sexo oposto, o que facilita sua aproximação e consequente paixão por Tracy. O que? James Bond apaixonado? Você leu certo meu amigo. E esta mudança no personagem é um dos pontos mais interessantes de “007 A Serviço Secreto de sua Majestade”.

A razão para esta mudança atende pelo nome de Tracy e é vivida com muito carisma por Diana Rigg, que inicialmente adota uma postura agressiva que na verdade serve como couraça, escondendo a fragilidade emocional daquela jovem com tendências suicidas. Após conquistar Bond, a garota claramente demonstra mais confiança, surgindo sorridente e encantadora sempre que entra em cena, criando forte empatia com o protagonista. Até por isso, sentimos sua falta quando Tracy se ausenta durante o segundo ato, voltando somente no momento mais crítico para salvar 007 – mais tristes ainda ficaremos no desfecho da narrativa, mas voltaremos a este assunto em instantes.

Fechando os destaques do elenco, temos George Baker vivendo o simpático Sir Hilary Bray, demonstrando total compreensão sobre o que se passa com sua filha desde o início, quando conta a sofrida historia de vida dela para James Bond embalado pela trilha sonora melancólica de John Barry. Barry, aliás, que desta vez acerta também nas composições que embalam as ótimas cenas de ação que, por sua vez, ajudam a fazer de “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” um dos grandes filmes da franquia.

Abusando dos cortes rápidos, a montagem de John Glen busca tornar estas cenas ainda mais empolgantes, mas a câmera agitada e o uso frequente do close acabam tornando alguns momentos um pouco confusos, o que não tira o mérito de cenas espetaculares como a fuga do casal esquiando na neve e a perseguição noturna de carro. Além deles, vale mencionar ainda o engenhoso roubo de arquivos num escritório de advocacia na Suíça ainda no início e o empolgante ato final com a explosão da clínica e a perseguição nos trenós.

Postura eleganteEncantadora TracyFuga do casal esquiandoApós baixar a adrenalina, “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” nos presenteia com uma cena impensável nos filmes anteriores, trazendo a cerimônia de casamento de James Bond e Tracy – e mesmo gostando do que vemos, é inevitável sentirmos pena de Moneypenny ao vê-la chorando. Só que o final feliz se transforma em pura melancolia quando Bond para na estrada e o carro de Blofeld passa atirando, atingindo sua esposa e levando-a a morte, numa cena que, longe de ser desnecessária ou gratuita, soa totalmente fora de tom por seu enorme peso dramático, levando o espectador da euforia à tristeza em questão de segundos. Mas é justamente na decisão corajosa dos roteiristas de manterem-se fieis ao livro que reside à força desta conclusão, que poderia inclusive preparar o terreno para a continuidade da série com um James Bond mais complexo e tridimensional caso assim os produtores desejassem – e sabemos que não foi o que aconteceu, ainda que a morte da esposa seja mencionada algumas vezes nos filmes seguintes.

Superando a troca de seu ator principal com louvor, “007 A Serviço Secreto de sua Majestade” deu sequência à franquia 007 com dignidade, trazendo novos e interessantes elementos e agregando componentes emocionais ao personagem até então ausentes. Além disso, serviu para provar que, por melhor que Sean Connery seja (e ele é mesmo um grande ator), existia vida após ele.

007 A Serviço Secreto de Sua Majestade foto 2Texto publicado em 19 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

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Uma resposta to “007 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE (1969)”

  1. Rodrigo Peruchi Says:

    Um de meus filmes preferidos do 007…

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