A REDE SOCIAL (2010)

(The Social Network)

 

 

Filmes em Geral #80

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Rooney Mara, Joseph Mazzello, Armie Hammer, Bryan Barter, John Getz, Rashida Jones, Max Minghella, Brenda Song e John Hayden.

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de Ben Mezrich.

Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael De Luca e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente competente no comando de narrativas baseadas no raciocínio lógico, David Fincher encontrou na trajetória dos inventores do Facebook a oportunidade ideal de comprovar (mais uma vez!) seu enorme talento. Contando com um elenco jovem e talentoso e um roteiro fabuloso, Fincher fez de “A Rede Social” uma obra-prima moderna, que, além de fazer um primoroso estudo de personagem, capta com precisão a essência de sua época, a chamada “era da informação”.

Adaptado por Aaron Sorkin com base em livro de Ben Mezrich, “A Rede Social” apresenta a história de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um analista de sistemas estudante de Harvard que, revoltado após terminar o namoro com Erica (Rooney Mara), resolve criar um programa que compara garotas fisicamente na internet, derrubando a rede da universidade pouco tempo depois. Sua genialidade chama a atenção dos irmãos Winklevoss (Armie Hammer), que o convidam para desenvolver uma rede social exclusiva para os alunos locais. Mas, após compartilhar a idéia com seu amigo brasileiro Eduardo (Andrew Garfield), Zuckerberg abandona o projeto dos Winklevoss e cria o Facebook, revolucionando a “vida virtual” em todo o planeta e se tornando o mais jovem bilionário da história. O problema é que neste processo – especialmente depois de conhecer o fundador do Napster Sean Parker (Justin Timberlake) – ele coleciona problemas em sua vida pessoal.

Adotando uma estrutura narrativa que alterna entre dois julgamentos e flashbacks que narram os acontecimentos citados pelos advogados, David Fincher e seus montadores Kirk Baxter e Angus Wall conseguem imprimir um ritmo interessante que evita tornar cansativa uma narrativa baseada em diálogos – ainda que estes sejam excepcionais. Empregando movimentos de câmera discretos e criando planos simétricos, o diretor procura demonstrar visualmente a maneira racional que Zuckerberg enxerga o mundo, algo ressaltado também pela fotografia em tons azulados e acinzentados de Jeff Cronenweth, que também ilustra a frieza do protagonista. Esta lógica visual se confirma através das linhas retas da arquitetura dos prédios de Harvard realçadas em diversos planos, que confirmam o alinhamento entre o trabalho de Cronenweth e o design de produção, como notamos também através das poltronas cinzas do auditório, do sofá vinho do alojamento de Zuckerberg e até mesmo dos figurinos de Virginia Johnson, que priorizam roupas sóbrias e cores sem vida na maior parte do tempo. Pra finalizar, o diretor ainda utiliza uma profundidade de campo reduzida, que simula o desinteresse de Zuckerberg pelo que acontece ao seu redor.

Pontuando a narrativa sem chamar muito a atenção, a excelente trilha sonora de Trent Reznor confere uma aura moderna e coerente com a época em que se passa a história ao inserir sons de computador em sua melodia. Além disso, alterna entre momentos de euforia, normalmente através de músicas diegéticas que tocam nas festas e bares freqüentados pelos personagens, e momentos melancólicos que ilustram a solidão do protagonista. Mas apesar do excelente trabalho técnico, é mesmo no inteligente e ágil roteiro de Aaron Sorkin que reside à força de “A Rede Social”. Fazendo um profundo estudo de seu complexo protagonista, o texto de Sorkin até tenta mostrar quem é o homem por trás do inventor do Facebook, mas evita o julgamento ao expor sem hesitar sua notável genialidade e seus mais asquerosos defeitos.

Outro aspecto curioso abordado em “A Rede Social” está na irônica diferença entre a personalidade de Zuckerberg e a faceta jovem e alegre de sua criação. Como pode alguém tão anti-social criar a maior rede de relacionamentos do planeta? A resposta está na inteligência de Zuckerberg. Se lhe falta traquejo social, sobra inteligência e astúcia para aproveitar a oportunidade no momento certo. Aliás, as próprias redes sociais representam um paradoxo, já que se por um lado servem para nos aproximar de amigos distantes, oferecendo até mesmo a oportunidade de reencontrar pessoas que há muito tempo não vemos (o que é ótimo!), por outro podem servir como muleta, fazendo com que a conversa através da tela do computador substitua o encontro real, sempre mais prazeroso.

Felizmente, Fincher é inteligente o bastante para extrair o melhor do roteiro e de seu elenco, conseguindo sucesso até mesmo nos momentos bem humorados, como na piada envolvendo Bill Gates e o engraçado instante em que os irmãos Winklevoss visitam a sala do diretor de Harvard. Entretanto, o diretor prioriza corretamente os diálogos ágeis e cortantes como navalha, que demonstram a velocidade de raciocínio do protagonista, algo notável até quando ouvimos seus pensamentos, como quando ele digita códigos de programação no computador.

Extremamente inteligente e até mesmo superior intelectualmente à maioria das pessoas, Zuckerberg chega a ser arrogante e frio, baseando sua vida no raciocínio lógico sem perceber quando fere os sentimentos das pessoas, como fica evidente no ótimo diálogo que abre “A Rede Social”, quando ele percebe que a namorada de fato está terminando o relacionamento com ele (“Está falando sério?”; “Sim”; “Me desculpe… Vamos comer?”). Sua arrogância fica ainda mais evidente no julgamento, quando exclama que poderia comprar o clube Phoenix e transformá-lo num pingue-pongue ou ainda quando, ironicamente, confere uma soma feita pela advogada de Eduardo (num dos momentos em que o humor sarcástico do texto de Sorkin se destaca). Dando vida a este personagem marcante com competência, Jesse Eisenberg chama a atenção não apenas pela já citada rapidez com que pronuncia as palavras, mas também pela expressão blasé de quem despreza as pessoas à sua volta, além das reações que ressaltam a astúcia do rapaz, como quando ele tem a idéia sobre o “status de relacionamento” e larga um estudante falando sozinho, saindo correndo para colocar em pratica sua idéia.

Curiosamente, a frustração amorosa também motiva Zuckerberg a criar, como notamos novamente em seu reencontro com Erica, numa cena que contém uma das frases emblemáticas de “A Rede Social”: “A internet não escreve a lápis”. O raciocínio perfeito de Erica reflete algo que muitas pessoas ainda parecem não enxergar, compreendendo o mundo virtual como um local onde podemos despejar nossas frustrações, ameaçar e ofender pessoas e destilar nossos pensamentos sem sofrer penalizações por causa disto. Aliás, mesmo com poucos minutos em cena, Rooney Mara confere carisma e sensibilidade a sua Erica Albright, especialmente na citada cena do reencontro. Já Brenda Song mostra o lado negro das redes sociais na pele da ciumenta Christy, que faz a vida de Eduardo virar um inferno (literalmente!) somente porque ele não alterou seu status na rede de relacionamentos, em outra crítica interessante à sociedade moderna, que tanto valoriza a vida virtual.

Interpretado por Andrew Garfield de maneira carismática, Eduardo é responsável por garantir a estabilidade financeira do projeto, além de ser o criador da fórmula que resultou no “Facemash” e popularizou o criador do Facebook, mas, por outro lado, falha ao não perceber o potencial comercial da rede social que ajudou a criar. Como se não bastasse, ele também é conhecido por conseguir algo raro: ser chamado de “amigo” de Zuckerberg. Na realidade, talvez ele seja à única pessoa com quem Zuckerberg realmente se importa, como fica claro quando recebe imediatamente um pedido de desculpas após ser ofendido numa festa (“Desculpe, foi cruel”). Ciente da importância que entrar num clube tinha para Zuckerberg, ele hesita antes de contar ao amigo que passou para a segunda fase da seleção do Phoenix, alegando que provavelmente foi escolhido por fazer parte da cota – algo que Zuckerberg prontamente faz questão de concordar. Por tudo isso, ainda que os sentimentos não ganhem destaque na narrativa, chega a ser tocante o desfecho trágico desta amizade, algo que Fincher realça muito bem quando foca a cadeira de Eduardo vazia no julgamento logo após Zuckerberg afirmar que ele era seu melhor amigo – convenhamos, uma ironia cruel em se tratando do criador do Facebook.

Mais preocupados com a forma que serão vistos pela sociedade, os irmãos Winklevoss interpretados por Hammer fazem questão de destacar sempre que podem suas origens nobres e suas “conquistas” (repare como a bandeira da equipe de remo ganha destaque em seu alojamento), ainda que evitem se aproveitar da riqueza do pai para conseguirem o que querem. O diagnostico perfeito da dupla é feito por Zuckerberg: eles não estão me processando por roubo de propriedade intelectual, estão me processando porque pela primeira vez na vida algo não saiu como eles planejaram. E fechando os destaques do elenco, não deixa de ser irônica a escolha de Justin Timberlake para viver aquele que balançou as estruturas da indústria da música. Desde sua excelente introdução na narrativa, quando surge acompanhado de uma estudante de Stanford, o Sean Parker de Timberlake espalha carisma e conquista o espectador, o que também explica o fascínio que seus pensamentos exercem sobre Zuckerberg. Responsável pelo polêmico Napster, ele traz conflito e instabilidade à relação entre Zuckerberg e Eduardo, especialmente pela maneira irônica com que trata o brasileiro (algo, aliás, que Timberlake faz muito bem). Enxergando Eduardo como um entrave no projeto, Sean mal consegue conter a euforia ao saber que ele não veio para a Califórnia e lentamente consegue convencer Zuckerberg a tirar espaço do brasileiro – o que, obviamente, abre espaço para o próprio Parker.

Numa interessante conversa na balada, Parker expõe suas idéias novamente e convence Zuckerberg de que ele deveria esperar mais tempo para ver até onde iria à valorização do Facebook – e o tempo provou que ele estava certo. O problema é que, para isto, eles arquitetam uma situação que enfraquece o poder de Eduardo na empresa. Irado diante da traição, Eduardo parte pra cima do ex-amigo, num momento tenso em que todos se destacam: enquanto Garfield explode violentamente, Timberlake faz Parker soar ainda mais irritante, ao passo em que Eisenberg demonstra com precisão o incomodo de Zuckerberg com a situação. Algum tempo depois, a decepção no rosto de Zuckerberg ao ouvir a notícia da prisão de Parker retrata seu breve momento de reflexão.

Reflexão que volta a surgir – desta vez na mente do espectador – na emblemática cena final, em que o solitário Zuckerberg tenta seguidas vezes conquistar a amizade virtual da ex-namorada Erica. O criador do maior site de relacionamentos do mundo, que revolucionou o comportamento da sociedade moderna (quem sabe eternamente), surge solitário, evidenciando sua incapacidade de estabelecer conexão afetiva com alguém. Se os grandes filmes são aqueles que captam com precisão a sua época, Fincher pode se orgulhar, pois “A Rede Social” é um retrato perfeito da sociedade contemporânea, cada vez mais “conectada” ao mundo virtual, sem perceber a ausência de valores dos tempos em que vivemos.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

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7 Respostas to “A REDE SOCIAL (2010)”

  1. Videoteca do Beto #134 – Pocahontas, #147 – Fantasia, #148 – Dumbo, #149 – Bambi e #150 – O Rei Leão « Cinema & Debate Says:

    […] pois chegou ainda durante a divulgação dos filmes de 1995. Já os recentes “A Origem”, “A Rede Social”, “Bravura Indômita” e “Cisne Negro”, todos adquiridos em Blu-ray, só entrarão na […]

  2. Cross98 Says:

    Bom , eu não gostei desse filme, as atuações foram fracas , a historia não é grandiosa, só um pouco interessante .

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