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TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976)

26 julho, 2015

(All the President’s Men)

5-estrelas

 

obra-prima

 

Videoteca do Beto #211

Dirigido por Alan J. Pakula.

Elenco: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Martin Balsam, Jack Warden, Hal Holbrook, Jane Alexander, Meredith Baxter e James Karen.

Roteiro: William Goldman, baseado em livro de Carl Bernstein e Bob Woodward.

Produção: Walter Coblenz.

Todos os Homens do Presidente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No dia 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post estampou em sua capa o assalto ocorrido na noite anterior à sede do Partido Democrata no hotel Watergate, que levou os cinco homens presentes a julgamento. A investigação que se seguiu levou a descoberta de um dos maiores crimes políticos da história dos Estados Unidos, culminando na renúncia do então presidente Richard Nixon, já em 09 de Agosto de 1974. Coube então a Alan J. Pakula a missão de transpor para as telonas o histórico processo de investigação. Com a ajuda de um elenco competente e a forte colaboração do influente Robert Redford, o diretor realizou seu maior trabalho atrás das câmeras, uma verdadeira obra-prima do cinema que ainda hoje serve como aula de jornalismo investigativo.

Adaptado por William Goldman com base no livro dos jornalistas do Washington Post diretamente envolvidos no caso Carl Bernstein e Bob Woodward (que aqui são interpretados por Dustin Hoffman e Robert Redford respectivamente), “Todos os Homens do Presidente” acompanha todo o processo investigativo desde a manhã seguinte ao assalto a Watergate ainda durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1972 até a publicação da matéria que levaria o então presidente Nixon a renúncia. Condensar num filme de pouco mais de duas horas uma investigação envolvendo dezenas de pessoas e diversos diálogos reveladores sem ser maçante não é uma tarefa fácil, mas o trabalho de Goldman é digno de nota, não apenas por ser fiel aos acontecimentos, mas também por evitar que o espectador se perca diante de tantas informações. Com este excelente roteiro em mãos, restou a Alan J. Pakula a tarefa de dar vida ao material e o diretor se saiu maravilhosamente bem.

Baseando a narrativa no trabalho dos jornalistas, Pakula e seu montador Robert L. Wolfe imprimem um ritmo ágil que se revela essencial para manter o espectador envolvido no processo investigativo, colocando-nos na posição de investigadores ao lado de Bernstein e Woodward. Para auxiliar nesta aproximação entre a plateia e os jornalistas, Pakula utiliza a câmera muitas vezes próxima dos atores, nos permitindo praticamente sentir o que eles sentem e, ao compartilhar conosco o trabalho tanto no escritório quanto em suas residências, o diretor também faz com que o espectador processe as informações e se sinta parte da investigação. Observe, por exemplo, como na sequência em que eles buscam sem sucesso documentos que comprovem certa conexão dentro da Biblioteca Nacional, a câmera se afasta e diminui os personagens em cena, transmitindo a sensação de impotência de ambos naquele instante específico.

Por outro lado, sempre que eles conseguem alguma informação nova ou estão no meio de um diálogo importante, a câmera se movimenta com agilidade, transmitindo a empolgação dos personagens e o senso de urgência destes momentos, especialmente através dos travellings que acompanham Bernstein e Woodward correndo pela redação do Washington Post, servindo ainda para nos apresentar ao grande número de jornalistas presentes no local, o que realça o tamanho do feito da dupla principal, já que para encabeçar aquela importante investigação, eles tiveram que superar diversos concorrentes até mesmo mais experientes.

Câmera muitas vezes próxima dos atoresBiblioteca NacionalBernstein e Woodward correndo pela redaçãoA redação do Washington Post, aliás, realça o excepcional design de produção de George Jenkins, que além de reconstituir o local com precisão, ainda reflete através da profundidade de suas linhas retas e de seu ambiente amplo e caótico o universo de informações que os personagens estavam mergulhando (algo perfeitamente ilustrado também no plano plongè na biblioteca acima mencionado), servindo também para realçar traços da personalidade dos protagonistas. Repare, por exemplo, como as anotações de Woodward, ainda que desorganizadas, transmitem sua sede por informações relevantes e sua maneira de organizar o raciocínio, contrapondo-se muito bem ao comportamento mais atirado de Bernstein, que utiliza métodos mais agressivos para obter o que deseja, como quando engana uma secretária para conseguir falar com determinado personagem.

Redação do Washington PostAnotações de WoodwardMétodos mais agressivosEstabelecendo uma excelente dinâmica entre eles, Redford e Hoffman dão um show de interpretação, transmitindo a importância de cada informação obtida através de suas reações, realçadas pela câmera de Pakula – repare, por exemplo, o close no rosto de Redford durante o diálogo com Dahlberg, que se confirmaria como um importante passo na investigação, assim como ocorre com Bernstein já no ato final quando através de uma inteligente sacada ele arranca uma confirmação de uma fonte sem necessitar de uma palavra sequer.

Aliás, os dois exibem um verdadeiro arsenal de técnicas investigativas que se demonstram eficientes ao conseguir as informações desejadas sem, para isto, colocar os informantes em posição muito desconfortável. É óbvio que vez por outra é necessário jogar alguém contra a parede, mas este processo é sempre feito de maneira ética e sagaz pela dupla, como quando conseguem a ajuda de uma colega de redação, mesmo com Woodward se recusando a forçar a garota a dizer o que não queria – e a atuação de Lindsay Crouse neste instante é tocante, transmitindo o quão dolorido seria aquele ato pra ela somente através de sua expressão ao ouvir a proposta dos colegas. Trazendo uma verdadeira lição de jornalismo, os repórteres obtêm informações muitas vezes sem necessitar de declarações explícitas, trabalhando nas entrelinhas e, o que é mais importante, checando cada informação duas ou três vezes antes de publicar a matéria.

Vestidos em ternos sóbrios que transmitem a seriedade da dupla (figurinos de Bernie Pollack), Bernstein e Woodward se complementam num trabalho em equipe eficiente que abre espaço para opiniões divergentes, mas sempre com respeito pela posição contrária. Este é, aliás, o clima que predomina também na redação do Washington Post, liderada pelo excelente Jason Robards, que se destaca como o chefe Bradlee, mostrando-se um líder de verdade ao apoiar seus repórteres nos momentos mais difíceis e extrair o máximo deles durante a investigação, recusando-se a divulgar matérias quando entende faltar sustentação e, por outro lado, enfrentando a fúria dos poderosos quando acha que o material tem base suficiente para chegar ao público. Tomando a frente nas reuniões de pauta, Robards se destaca num elenco que conta ainda com atores talentosos como Martin Balsam, Jack Warden e Hal Holbrook, além é claro de Jane Alexander, que protagoniza uma das melhores cenas do longa ao lentamente ceder informações para Bernstein e escancarar a ameaça por trás daquilo tudo, num diálogo intenso e tocante ocorrido dentro da casa dela.

Ajuda de uma colega de redaçãoChefe BradleeDiálogo intenso e tocanteTambém dentro de uma residência, desta vez o apartamento de Woodward, ocorre outro momento interessante quando, para evitar ser ouvido pelo grampo instalado no local, Bernstein aumenta o volume da música, numa das raras ocasiões em que a discreta trilha sonora de David Shire chama a atenção, desta vez utilizando o som diegético e não sua composição minimalista. Nada discreta, porém, é a forma como o mestre Gordon Willis fotografa “Todos os Homens do Presidente”, abusando de momentos extremamente sombrios que contrastam com o visual mais claro da redação do jornal, simbolizando que ali revelações obscuras viriam à tona. Repare também como o uso das sombras torna ainda mais tensa à sequência do assalto à sede do Comitê Nacional Democrata em Watergate, conduzida com precisão pelo diretor. Da mesma forma, as citadas cenas chave dentro das residências surgem predominadas pelas sombras, assim como as conversas no estacionamento de um shopping entre Woodward e o misterioso “Garganta Profunda” (interpretado pelo ótimo Hal Holbrook), que mal pode ser identificado com seu rosto quase completamente imerso na escuridão.

Revelações obscuras viriam à tonaGarganta ProfundaPresidente NixonUtilizando ainda imagens de arquivo do presidente Nixon para conferir mais realismo a narrativa, Willis e Pakula conseguem transmitir o tom de seriedade que a história pedia ao ser levada às telas pouquíssimo tempo depois do ocorrido. Diante da sensibilidade do tema e da proximidade do fato, uma abordagem incorreta poderia afundar a carreira dos envolvidos, mas felizmente não foi o que aconteceu. Numa imagem que ilustra perfeitamente a força do chamado Quarto Poder, o plano final com Woodward e Bernstein escrevendo a matéria enquanto o reeleito Nixon faz sua declaração na televisão é sensacional, registrando a ironia de um instante em que o homem mais poderoso do país era glorificado enquanto dois jornalistas de um jornal nem tão importante trabalhavam duro na matéria que iria desmascará-lo pouco tempo depois.

Com sua narrativa envolvente, atuações competentes e a segura direção de Pakula, “Todos os Homens do Presidente” é uma obra-prima que não deveria servir apenas como aula de jornalismo investigativo. O longa estrelado por Redford e Hoffman é, na verdade, uma verdadeira aula de cinema.

Todos os Homens do Presidente - foto 2Texto publicado em 26 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

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PERDIDOS NA NOITE (1969)

11 novembro, 2010

(Midnight Cowboy)

 

Filmes em Geral #25

Vencedores do Oscar #1969

Dirigido por John Schlesinger.

Elenco: Dustin Hoffman, Jon Voight, Sylvia Miles, John McGiver, Brenda Vaccaro, Barnard Hughes, Ruth White, Jennifer Salt, Gary Owes e T. Tom Marlow.

Roteiro: Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy.

Produção: Jerome Hellman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da chamada “nova Hollywood” a vencer o Oscar de melhor filme, “Perdidos na Noite” é um bom (não o melhor) representante do movimento, que mostra de maneira realista a dificuldade de adaptação de um jovem interiorano ao clima hostil e agitado da cidade grande. Dirigido por John Schlesinger, o longa estrelado por Jon Voight traz ainda em seu elenco a grande estrela da época, o talentoso Dustin Hoffman, se afirmando como um dos filmes icônicos daquele celebrado período.

Jovem texano inocente e caipira, Joe Buck (Jon Voight) larga o emprego e parte, com seu estilo cowboy, para tentar ganhar a vida na cidade de Nova York, trabalhando como garoto de programa de mulheres mais velhas e ricas. Ao chegar ao local, faz amizade com um marginal plenamente adaptado à cidade chamado Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) e descobre o lado nada hospitaleiro e cruel da vida nas grandes metrópoles.

Escrito por Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy, o roteiro de “Perdidos na Noite” acerta o tom ao mostrar, sem floreios e exageros, a dificuldade de se adaptar à cidade grande, um sentimento comum à maioria das pessoas que não nasceram nestes locais. Somente quem já viveu a sensação de chegar a uma cidade grande pela primeira vez sabe como é, ao mesmo tempo, empolgante e assustador. A ousadia temática da narrativa (jovem larga o interior para ser garoto de programa em Nova York) era uma das características da chamada “nova Hollywood” e o longa de Schlesinger não foge a regra. Mas apesar do tema sombrio, existe espaço para pequenos alívios cômicos, como na cena em que Rasto finge ser engraxate (repare como a posição da câmera colabora sutilmente, mostrando a chegada dos sapatos do terceiro homem e provocando o riso no espectador). O filme aborda o tema do choque cultural já na viagem até Nova York, quando Joe tenta puxar assunto no ônibus com o motorista e com uma moça e ambos não correspondem. Até mesmo a luz do ônibus que lhe incomoda ele não pode apagar, pois a senhora sentada ao seu lado não deixa. A viagem é nostálgica, repleta de flashbacks que lembram a todo instante tudo que ele está deixando pra trás (a avó, a casa em que cresceu, a namorada), e é pontuada pela trilha sonora deliciosa de John Barry (um country, condizente com à história do cowboy que sai da cidade pequena e parte para a cidade grande). Esta trilha inicialmente alegre faz um contraponto interessante com o tom melancólico da chegada à Miami, combinando perfeitamente com o sentimento de Joe, já completamente transformado pela vida.

Na direção, Schlesinger mostra criatividade, por exemplo, na cena em que ilustra a primeira relação sexual de Joe através da velocidade na troca de canais e da imagem das moedas na televisão, revelando também o bom trabalho de montagem de Hugh A. Robertson. A montagem de Robertson, aliás, também demonstra como a infância tem peso na fase adulta de Joe, intercalando imagens dele ainda criança com imagens atuais enquanto assiste televisão, além de auxiliar na indicação da passagem do tempo com elegância, por exemplo, inserindo um plano com água congelada numa torneira que simboliza a chegada do inverno. Já quando Joe e Ratso são expulsos do hotel, Schlesinger utiliza a câmera para demonstrar a tristeza de ambos, diminuindo-os na tela e mostrando como eles estão impotentes diante daquela situação. Ainda na parte técnica, a direção de fotografia de Adam Holender progressivamente muda do tom claro e alegre do início para o obscuro e sombrio visual que domina a tela na metade da projeção, refletindo a mudança no estado de espírito de Joe – repare que até mesmo as cenas noturnas passam a dominar o longa na medida em que a narrativa avança. Além disso, a fotografia demonstra o sentimento de Joe, por exemplo, na cena em que ele sai desesperado à procura de Ratso, com imagens em preto e branco embaladas pela trilha sonora alucinada, ou em seu pesadelo, repleto de imagens surreais, ilustrando o quanto ele está atormentado naquele ambiente. Já quando os dois se imaginam na praia, as cores quentes e a forte luz do sol refletem a alegria daquele pensamento (e neste momento, vale destacar o sorriso sutil, no canto da boca, do ótimo Dustin Hoffman). Vale destacar ainda a típica festa dos anos 60 que determina o destino de Ratso e Joe, repleta de imagens surreais, alucinações e pessoas de estilos diferentes. E aqui novamente a fotografia é importante, pois no momento em que eles conversam com uma determinada mulher, o predomínio do tom vermelho indica o destino infernal da dupla. Em seguida, Ratso sofreria uma queda violenta na escada e Joe teria dificuldades numa relação sexual, o que para um “garoto de programa” pode ser considerado algo grave. Finalmente, também merece destaque a maquiagem em Hoffman, que reflete através de sua sujeira o quanto Ratso foi maltratado pela vida.

Ratso, aliás, que é a síntese da dificuldade que muitos encontram para sobreviver nas grandes cidades. Interpretado de maneira brilhante por Hoffman, o personagem literalmente rasteja por Nova York, sugando tudo que está ao seu alcance para conseguir sobreviver. Hoffman confirma o grande ator que é numa atuação convincente, compondo detalhadamente o personagem, através da voz anasalada, da fala rápida, da forma de caminhar, que progressivamente se torna mais lenta devido à evolução de sua doença, misturando a tosse que lhe castiga com o sorriso de quem já se adaptou a realidade daquela vida. Ratso, com o perdão do trocadilho, é um verdadeiro rato de cidade grande, que não tem vergonha de fazer tudo que pode para sobreviver, chegando a roubar e enganar outras pessoas. E até mesmo seu apartamento no hotel demonstra o estado em que ele sobrevive naquele mundo, mostrando-se um local sujo e escuro, que freqüentemente o esconde sob as sombras. Não por acaso, suas cenas são predominantemente obscuras e as ruas que percorre são sujas e feias, o que reflete a vida difícil que ele leva e reforça o bom trabalho de direção de arte e fotografia. Pra completar, sua atuação ainda tem a célebre frase “Estou andando aqui!”, quando Ratso atravessa uma rua e quase é atropelado, que marcou o cinema para sempre. Já Joe Buck é o típico jovem do interior. Joe chega à cidade de peito aberto, destemido, caçando mulheres como um verdadeiro predador, achando que as oportunidades aparecerão facilmente, algo ilustrado também pela câmera de Schlesinger, que filma Joe em ângulo baixo, refletindo seu sentimento de grandeza em sua chegada. Mas o tempo mostrará que a vida nas grandes cidades não é tão acolhedora assim, como ele pode perceber logo em seus primeiros minutos em Nova York, vendo um homem caído e as pessoas, arredias, seguindo seu caminho, sem sequer dar atenção ao pobre coitado. John Voight compõe o personagem de maneira durona, algo coerente com sua origem, e vive seu grande momento na bela cena em que Joe e Ratso gargalham no ônibus a caminho de Miami. Quando Joe chega ao fundo do poço, se relacionando com um homem por dinheiro (o que lhe traz a imediata lembrança da namorada que ele deixou pra trás em busca da vida na cidade grande), o ator convence ao transmitir com exatidão a aflição do personagem. E existe ainda um momento sutil, porém marcante, que demonstra quando ele começa a perceber que nem todos têm oportunidade naquela terra, quando Joe, assustado, contempla a imagem de mendigos e prostitutas vagando pelas ruas de Nova York.

“Perdidos na Noite” representa bem a nova forma de se fazer cinema que tomou conta de Hollywood no final dos anos 60, ousando tematicamente e quebrando as regras convencionais do cinema norte-americano até então. O plano final, com Ratso morto no vidro ao lado do assustado Joe, enquanto este olha para as praias de Miami, demonstra bem a mensagem principal do filme. A vida na cidade grande não é um mar de rosas.

Texto publicado em 11 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

RAIN MAN (1988)

14 abril, 2010

(Rain Man)

 

Videoteca do Beto #53

Vencedores do Oscar #1988

Dirigido por Barry Levinson.

Elenco: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Gerald R. Molen, Jack Murdock, Michael D. Roberts, Ralph Seymour, Lucinda Jenney, Bonnie Hunt, Barry Levinson e Kim Robillard.

Roteiro: Ronald Bass e Barry Morrow, baseado em estória de Barry Morrow.

Produção: Mark Johnson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O autismo é uma disfunção global do desenvolvimento, que afeta a capacidade de comunicação, de estabelecer relacionamentos e de responder apropriadamente ao ambiente do indivíduo. Confundir o autismo com qualquer outra doença mental é algo comum entre a maioria das pessoas. Em “Rain Man”, belo road movie dirigido por Barry Levinson, esta patologia é abordada de forma honesta, expondo alguns dos traços característicos da doença de forma clara e direta. E através dela, Levinson constrói uma linda estória de descoberta entre dois irmãos, mostrando como o amor pode transformar vidas e estabelecer relações, por mais diferentes que as pessoas sejam.

O jovem Charlie Babbit (Tom Cruise) descobre logo após o falecimento de seu desafeto pai que herdou apenas um automóvel Buick 1494 e algumas roseiras, enquanto os 3 milhões de dólares da herança foram deixados para um “beneficiário”. Furioso, parte em busca do tal beneficiário e descobre ser seu irmão autista Raymond (Dustin Hoffman), que ele nem conhecia, e que vive numa clínica em Wallbrook. Interessado em sua parte na herança, Charlie “seqüestra” o irmão e parte para Los Angeles, numa viagem que mudará sua vida para sempre.

Dirigido com elegância por Barry Levinson, “Rain Man” conta a trajetória do extremamente egoísta Charlie Babbit, que descobrirá dentro dele, através do contato com o irmão autista Raymond, um sentimento de amor e carinho que sequer imaginava existir. Levinson conduz a narrativa com leveza, recheando o longa com diversos momentos bem humorados, mas entregando ao espectador, acima de tudo, uma bela estória sobre a descoberta pessoal da fraternidade. O diretor também evidencia através da câmera os sentimentos dos personagens, como num plano rápido, porém muito simbólico, em que triste pela herança que não veio, Charlie aparece pequeno e pensativo. Outro plano rápido e repleto de simbolismo é o da fotografia dos irmãos dentro da água quente, já que foi justamente a água quente na banheira que separou os dois na infância de Charlie (“Nunca machuquei Charlie Babbit”, diz Ray). Após o encontro entre os dois irmãos, o diretor passa a utilizar o close com freqüência, realçando as excelentes atuações do elenco (especialmente de Dustin Hoffman), além de criar uma série de planos subjetivos, como o guard-rail da estrada, o semáforo do trem ou a máquina de lavar girando, que ilustram o olhar peculiar de Ray para o mundo. Finalmente, a bela cena em que Charlie descobre a origem do “Rain Man” é linda e extremamente bem conduzida pelo diretor, que não exagera no melodrama. Vale observar o sutil sorriso de Charlie ao descobrir que Raymond era o Rain Man.

“Rain Man” conta ainda com o bem amarrado roteiro de Ronald Bass e Barry Morrow (baseado em estória do próprio Morrow). Observe, por exemplo, como Bass e Morrow utilizam o diálogo em que Charlie explica para sua noiva Susanna (Valeria Golino) a razão de sua briga com o pai para revelar o tempo de relação do casal (um ano) e, ainda mais importante, a existência do amigo “imaginário” de Charlie na infância, o “Rain Man”. Quando a origem do amigo imaginário é revelada, o espectador se lembra deste diálogo e nota, inclusive, a proximidade da pronuncia entre os nomes de Raymond e Rain Man. Além disso, o roteiro mostra como a maioria das pessoas não conhece o autismo, freqüentemente confundindo-o com outras doenças mentais (“Ele é retardado?”, pergunta Charlie e “Ok, mas o que ele tem?”, pergunta uma enfermeira). É também repleto de momentos bem humorados, como quando Ray pára em frente ao semáforo, a engraçada discussão entre os irmãos sobre cuecas e a resposta de Ray à pergunta furiosa de Charlie (“Estou te usando Ray?”. “Sim”). É durante esta discussão, aliás, que Susanna deixa Charlie, por causa de seu egoísmo e principalmente pelo fato dele estar usando seu irmão para conseguir o dinheiro da herança.

E então chegamos a Charlie Babbit. Logo em suas primeiras aparições, notamos o quanto Charlie é extremamente agitado, ambicioso e bastante estressado, sendo capaz de qualquer coisa para ganhar dinheiro, chegando até mesmo a mentir para um cliente sem nenhum pudor, apenas para garantir a venda. Em sua viagem com Susanna, ficam evidentes seus claros problemas de relacionamento com ela e com seu pai, reforçados pela frieza com que reage a notícia da morte dele. Ainda assim, Charlie vai ao enterro, obviamente mais interessado na herança do que em despedir-se do velho Babbit. Mas ao chegar lá, descobre o destino de sua herança e inicia uma viagem rumo à descoberta de si próprio. Tom Cruise não sai muito de sua costumeira atuação enérgica, mas está bem no papel, em especial quando Charlie começa a perceber a importância de Raymond em sua vida. Repare sua indignação ao ouvir que não herdou os 3 milhões de dólares e compare com o belo momento em que os irmãos encostam a cabeça e demonstram carinho, já próximo da despedida deles. A transformação é lenta, gradual, mas evidente. Charlie consolida sua mudança e seu amor pelo irmão quando descobre que Ray era o Rain Man (que deixou o lar por causa do bebê Charlie), ficando sentado na cama com o olhar perdido no horizonte, apenas refletindo. Inicialmente preocupado apenas com a herança, Charlie percebe o valor da amizade de seu irmão, chegando a recusar uma oferta de suborno do Dr. Bruner, interpretado por Gerald R. Molen (“Gostei de ter meu irmão por mais de seis dias”. “Porque ninguém me contou que tinha um irmão?”, pergunta Charlie). O arco dramático do personagem é muito interessante e sua trajetória de transformação se encerra quando confessa ao irmão a importância dele em sua vida (“Eu gosto de ter você como irmão mais velho”). Felizmente, Cruise torna esta transformação crível com sua boa atuação.

E quem é esta pessoa capaz de provocar tamanha transformação em um ser desprezível como Charlie? Chegamos então a Raymond, uma criança num corpo de adulto, com deficiências incomuns e habilidades igualmente raras, resultantes de sua patologia: o autismo. O cumprimento de rotinas é essencial no dia-a-dia de Ray e sua birrenta reação quando é forçado a sair delas ou a fazer algo que não quer é um reflexo de sua mente infantil, como quando consegue, aos gritos, convencer Charlie a trocar um vôo de três horas por uma viagem longa de três dias até Los Angeles. Por outro lado, Raymond é genial ao ponto de contar em questão de segundos 246 palitos no chão ou decorar a lista telefônica. Sua mente é especial, capaz de acertar cálculos absurdamente complexos e errar contas simples somente porque a base é monetária, já que Ray desconhece o valor do dinheiro. A atuação de Dustin Hoffman na pele de Raymond Babbit é simplesmente sensacional. O competente ator compõe um personagem complexo, trabalhando nos pequenos detalhes do autismo, através de gestos e movimentos de mão, do caminhar (repare como ele anda em linha reta quando sai com Charlie pelo jardim), da voz reprimida, do olhar sempre baixo demonstrando sua enorme timidez, da constante repetição de palavras e frases (“Oh, Oh!”, “Definitivamente” e “Eu não sei”, por exemplo), do movimento com o pescoço e a cabeça para frente e para trás em diversos momentos e da constante inclinação da cabeça para um dos lados. Sua inabilidade para o contato social, perceptível em sua clara aversão ao toque, faz com que Ray se prenda ao seu mundo interior. Como diz seu amigo Vern (Michael D. Roberts), “pessoas não são importantes pra ele”, que “sequer notaria se eu fosse embora” – o que arranca imediatamente um olhar mal intencionado de Charlie, já arquitetando em sua mente o plano de fugir com o irmão. Hoffman demonstra talento ainda nos momentos de bom humor, como quando Ray imita o som do carro e o som de Charlie e Susanne transando, e nos momentos mais dramáticos, como quando a fumaça dispara o alarme de incêndio e desencadeia o distúrbio de Ray. Fechando o elenco, Valeria Golino interpreta Susanne, que trata Ray com respeito desde o primeiro minuto que o vê, chegando ao ponto de beijá-lo no elevador, talvez com pena dele por ter sido enganado por uma prostituta.

Tecnicamente, “Rain Man” conta com um trabalho discreto, porém muito eficiente. Observe, por exemplo, como o som ajuda a entender a mente de Ray através do barulho da roleta, captado por ele mesmo estando muito distante dela, mostrando como Ray se concentra em uma única coisa e se desliga do restante do mundo ao seu redor. A excelente montagem de Stu Linder garante uma fluência deliciosa ao longa, além de fazer interessantes transições, como num plano à beira da estrada que passa da noite para o dia e numa série de pequenos planos que simbolizam o tédio de Charlie enquanto aguarda a chuva passar dentro de um motel. A boa direção de fotografia de John Seale aproveita muito bem as lindas paisagens costumeiras em road movies e a simples e eficiente trilha sonora do ótimo Hans Zimmer pontua muito bem a narrativa, indicando ainda as sensações dos personagens, como por exemplo, ao ilustrar através da música empolgante a euforia de Charlie quando este descobre a habilidade de Ray para contar cartas em plena Las Vegas.

O final coerente de “Rain Man” emociona sem ser melodramático ou apelar para a trilha sonora na tentativa de provocar um mar de lágrimas no espectador. A estória dos irmãos Babbit é tocante o suficiente para emocionar a platéia e a despedida correta de Charlie e Ray é um momento sublime. Seria estranho ver Ray abraçar o irmão, por exemplo, já que durante todo o tempo ele evita o contato, chegando no máximo a aceitar encostar a cabeça em Charlie. Por isso, ao vê-lo entrando no trem sem perceber o que está acontecendo, enquanto Charlie sofre do lado de fora, o compreensível nó na garganta do espectador acontece naturalmente. Charlie mudou, Ray não. Tratando o autismo com extrema dignidade e respeito, o singelo e honesto “Rain Man” conta uma estória de fraternidade e amor de forma simples, bem humorada e, como diria Ray, “definitivamente” bela.

Texto publicado em 14 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967)

31 janeiro, 2010

(The Graduate)

 

Videoteca do Beto #41

Dirigido por Mike Nichols.

Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton, Elizabeth Wilson, Brian Avery, Walter Brooke, Norman Fell, Alice Ghostley e Richard Dreyfuss.

Roteiro: Calder Willingham e Buck Henry, baseado em livro de Charles Webb.

Produção: Mike Nichols e Lawrence Turman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O momento de transição da juventude para a vida adulta é o fio condutor desta deliciosa e importante comédia dirigida por Mike Nichols, que teve papel fundamental na história do cinema na época de seu lançamento ao abordar um tema corajoso para o período. Extremamente bem conduzido por Nichols, “A primeira noite de um homem” ainda foi responsável pelo lançamento de uma dos grandes atores de Hollywood, o talentoso Dustin Hoffman, se estabelecendo como uma comédia de humor refinado, capaz de causar grande empatia com o público em geral.

Após se formar na faculdade, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) retorna para casa, completamente indeciso quanto ao seu futuro. Em meio à festa de recepção, uma amiga de meia-idade de seus pais (Anne Bancroft) pede para que o garoto a leve pra casa, somente para seduzi-lo assim que eles chegam à residência. Os problemas só aumentam quando Benjamin se interessa pela filha dela, a bela Elaine Robinson (Katharine Ross).

Para entender corretamente o papel histórico de “A primeira noite de um homem” é preciso contextualizar seu lançamento. O cinema vivia em 1967 o fim da era dos grandes estúdios. O público ansiava por filmes mais baratos, que retratassem a realidade e focassem em personagens de carne e osso, ao invés dos politicamente corretos seres humanos da era anterior de Hollywood. Ou seja, personagens que tivessem dúvidas, dilemas e que enfrentassem dificuldades, o que causaria a empatia e a identificação com o espectador. E o longa de Mike Nichols atendia perfeitamente este anseio geral. O roteiro inventivo de Calder Willingham e Buck Henry (baseado em livro de Charles Webb) explora muito bem os inúmeros problemas criados pelo envolvimento entre o jovem Benjamin e a Sra. Robinson, provocando diversas situações inusitadas. Aproveita ainda as inúmeras possibilidades que a situação oferece para fazer excelentes piadas, como quando a Sra. Robinson pergunta se Benjamin não se esqueceu de nada e ele responde que gostaria de agradecê-la pelo que está fazendo, somente para ouvir em seguida: “O número do quarto. Eu preciso saber”. Existem muitos outros momentos bem humorados que vale a pena citar, como a cena em que Elaine sugere o Hotel Taft e Benjamin quase bate o carro, seguida pela engraçada seqüência em que os funcionários do Hotel cumprimentam o rapaz (“Olá Sr. Gladstone!”). Além disso, o roteiro aborda um tema comum à maioria dos jovens: a dúvida e o medo que sentimos quando deixamos os estudos para finalmente entrar na vida adulta. Pra completar, a empatia que o filme provoca no público se consolida através da deliciosa trilha sonora de Dave Grusin e Paul Simon, repleta de músicas leves e marcantes, que chegam até mesmo a ter um tom melancólico.

Entre o elenco, vale destacar a maravilhosa atuação de Dustin Hoffman. Na época com trinta anos, mas vivendo um personagem com vinte e um, Hoffman demonstra muito bem o nervosismo e a tensão de Benjamin através da respiração ofegante e do olhar nunca fixo. Repare sua empolgação quando ouve a Sra. Robinson contar que Elaine foi concebida em um Ford (“Um Ford!”). Anne Bancroft também tem uma excelente atuação como a madura e decidida Sra. Robinson. Ciente da inexperiência do rapaz, ela não economiza nos artifícios para seduzi-lo e consegue o que deseja. Vale observar a perfeita composição da personagem, através da sexy voz rouca, dos olhares nada tímidos e dos sensuais movimentos femininos, como as passadas de mão no cabelo. Fechando os destaques principais, Katharine Ross vive Elaine com bastante charme, além de transmitir com competência o dilema vivido pela garota, que ama Benjamin, mas não sabe como lidar com a estranha situação que o relacionamento envolve. Vale citar ainda Murray Hamilton como o inocente Sr. Robinson, que leva muito tempo até perceber o caso existente entre sua esposa e o jovem rapaz, comprometendo (como era de se esperar) a intenção das duas famílias de casar Benjamin e Elaine.

Tecnicamente, “A primeira noite de um homem” também é bastante eficiente. A começar pela direção de fotografia de Robert Surtees, que reflete o estado psicológico de Benjamin, por exemplo, quando está em paz consigo mesmo na piscina, através de um visual colorido e iluminado, onde os raios do sol refletem na água e transmitem uma sensação de tranqüilidade, que era exatamente o que ele sentia no momento. Sam O’Steen, por sua vez, quase rouba a cena com sua espetacular montagem, que cria momentos absolutamente inesquecíveis, como os vários clipes que aparecem durante o longa, além da interessante transição da piscina para o quarto de Hotel onde Benjamin está com a Sra. Robinson, que demonstra a passagem de muitos meses na vida deles (“Nos encontramos há meses e nunca conversamos”). Quando Benjamin vive sua primeira experiência sexual, o belo clipe e a linda trilha sonora simbolizam muito bem este importante momento na vida daquele jovem. Em seguida, o close em seu olhar fixo para a TV confirma: aquele é um momento de extrema satisfação e realização pessoal.

E finalmente chegamos ao grande destaque do longa. A impecável direção de Mike Nichols é perceptível logo nas primeiras cenas, quando o diretor utiliza muitos closes no rosto de Hoffman e dos convidados, demonstrando como o rapaz se sentia intimidado naquele ambiente, sufocado pelas pessoas à sua volta. Na casa dos Robinson, Nichols cria o plano em que Benjamin diz célebre frase “Sra. Robinson, você está tentando me seduzir!”, e a concepção visual da cena é perfeita, com as pernas dela envolvendo o rapaz completamente, como se estivesse arrastando-o para sua armadilha sexual. Mas a criatividade de Nichols não para por aí. Observe a forma criativa com que o diretor nos mostra as sensações de Benjamin quando está com a roupa de mergulhador, até mesmo contando com o som para indicar a respiração dele, claramente embaraçado com a situação. Repare sua inteligência ao compor o plano em que Benjamin conta a verdade para Elaine, onde tudo é indicado através dos olhares, sem a necessidade de dizer qualquer palavra. Em outro momento, quando Benjamin vai até a universidade atrás de Elaine, o zoom out o diminui em cena, demonstrando visualmente sua fraqueza naquele instante, além de indicar o quanto ele estava perdido no meio daquelas pessoas. Novamente o momento é acompanhado de um belo clipe e de uma linda canção. Mais adiante, Nichols reforça sua criatividade no plano em que observamos a angústia de Elaine ao perceber que Benjamin, em segundo plano e do lado de fora do ônibus, corre para alcançá-la. Finalmente, repare como o diretor ilustra sensações e sentimentos através de pequenos detalhes, como no momento em que Benjamin está se barbeando e faz uma pequena pausa com uma pergunta de sua mãe, demonstrando seu desconforto com aquela situação. Esta percepção do diretor se torna ainda mais evidente nos momentos de tristeza de Benjamin, quando o rapaz procura olhar para o aquário, como se fosse um daqueles peixes, triste por estar preso em uma situação sem saída. Curiosamente, nos momentos felizes ele normalmente está relaxado dentro da piscina, como se Benjamin estivesse se adaptando à nova realidade e se conformando com ela.

O final engraçado e alto astral fecha muito bem esta comédia leve que aborda um tema corajoso para a época, onde os filmes não costumavam demonstrar os problemas normalmente enfrentados pelas pessoas. A sensação de bem estar predomina no espectador, que acompanha o drama do jovem garoto e sofre junto com ele até o alegre desfecho da narrativa. Mérito da excelente direção de Nichols, das ótimas atuações do elenco e do belo roteiro. Por tudo isso, adicionado ainda ao contexto histórico e a importância que teve em seu lançamento, “A primeira noite de um homem” se confirma como uma deliciosa comédia, extremamente inteligente e agradavelmente próxima da realidade.

Texto publicado em 31 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006)

22 junho, 2009

(Perfume: The Story of a Murderer)

5 Estrelas

Filmes em Geral #1

Dirigido por Tom Tykwer.

Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Karoline Herfurth, Rachel Hurd-Wood, Ramón Pujol, Corinna Harfouch e a voz de John Hurt.

Roteiro: Andrew Birkin, Tom Tykwer e Bernd Eichinger, baseado em livro de Patrick Süskind.

Produção: Bernd Eichinger.

Captar em imagens e som o sentido do olfato sempre foi um grande desafio para o cinema e conseguir realizar este feito é apenas um dos diversos pontos positivos deste grande filme, dirigido por Tom Tykwer.

Adaptado do livro homônimo de Patrick Süskind, o roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger e do próprio Tom Tykwer narra à estória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whinsaw). Nascido em Paris no período pré-revolução industrial e abandonado pela mãe ainda bebê, descobriu muito jovem que contava com um olfato extremamente aguçado, uma capacidade ímpar de distinguir os mais diversos odores mesmo que estivesse distante deles. Inconformado após não conseguir manter o cheiro que mais lhe atraiu em sua vida, ele decidiu tentar aprender as técnicas para captar e preservar os cheiros que quisesse. Após passar por um período de aprendizado com o decadente perfumista Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), parte em busca de experimentar as técnicas que aprendeu na tentativa de manter os mais diversos odores, inclusive de seres humanos.

Logo no inicio somos apresentados ao ambiente hostil em que Grenouille cresceu. Sempre com a câmera próxima, Tykwer nos mostra inicialmente imagens de peixes dilacerados, ratos e toda sujeira da feira livre de Paris, o que faz o espectador imaginar e praticamente sentir o péssimo odor daquele local. Para demonstrar o poder do olfato de Grenouille, ele faz travellings através dos objetos e pessoas, como na cena em que ele sente pela primeira vez o cheiro de uma bela moça. A câmera chega tão próxima das pessoas que praticamente entra dentro delas. A fotografia nesta primeira etapa da vida de Grenouille é suja, sempre com cores tristes como cinza e marrom predominando na tela. Os figurinos sem vida e a atmosfera suja da cidade ajudam a criar este clima triste nesta etapa do filme. Quando ele deixa Paris e parte para cumprir sua missão a fotografia se torna mais alegre, com cores vivas predominando como o verde.

A atuação de Ben Whishaw é bem convincente, demonstrando a obsessão de Grenouille em aprender a explorar melhor o seu talento. Repare como ele repete em tom baixo os nomes até então desconhecidos que o famoso perfumista Baldini pronuncia em seu treinamento, como quem tenta memorizar algo que lhe é novo. Abandonado pela mãe e odiado pelas outras crianças em sua infância, ele se torna um adulto que mal consegue viver em sociedade, vendo o mundo de uma forma totalmente diferente das outras pessoas. Na verdade ele não só vê o mundo, ele sente o mundo através de seu olfato. Quando é vendido a Baldini ele sorri sutilmente no canto da boca, demonstrando satisfação contida por atingir seu objetivo. Este mesmo sorriso aparece na cena em que o cachorro de uma de suas vitimas reconhece o cheiro de sua dona nas mãos de Grenouille, comprovando que sua técnica obteve sucesso. Dustin Hoffman também está bem como o famoso e ultrapassado perfumista Baldini. Ao conseguir a fórmula que procurava através de Grenouille ele dispensa o rapaz sem ao menos experimentar o resultado final, mas quando ele sai, repare na feição do ator demonstrando enorme prazer e satisfação por ter em suas mãos o perfume desejado. Neste momento, o movimento de câmera ao redor de Baldini com flores ao fundo e música nos dá a exata sensação de prazer que ele sente, numa escolha acertada do diretor. Alan Rickman tem uma atuação segura como Antoine Richis, o pai da moça que Grenouille busca para completar sua obra.

Ao deixar Baldini e partir para uma nova etapa de sua vida, Grenouille passa a buscar os 13 componentes que precisa para criar a fórmula perfeita, baseada no cheiro de corpos femininos. Só que para manter o cheiro das belas moças ele precisa matá-las. E assim como John Doe em Se7en, Grenouille acredita que sua obra tem uma importância muito maior do que as pessoas que precisam ser sacrificadas por ela. O filme aqui já apresenta um clima mais próximo do que o título sugere, criando momentos de enorme tensão e expectativa, como na cena que se passa nos jardins do palácio e principalmente no excelente plano onde podemos ver Grenouille à espera da filha de Antoine Richis que se aproxima, em uma das escuras vielas de Paris. Veja como o perfeito enquadramento do plano nos permite acompanhar os lentos passos da moça e observar ao mesmo tempo as reações dele à sua espera.

Mas é o final do filme que o eleva ao status de grande obra, ao abrir uma série de questões e possibilidades (e se você ainda não viu o filme pare por aqui). Seria Grenouille um anjo (ou um salvador), enviado para libertar as pessoas de seus medos e pudores? Repare como todos aqueles que se despedem dele acabam ficando mais tristes, e muitos deles inclusive morrem. Sua presença, e principalmente a presença de sua obra, libertou as pessoas para uma nova realidade de prazer e realização, como na surreal cena de sexo entre milhares de pessoas ao ar livre. Reforça esta tese o fato de Grenouille não possuir cheiro, como ele mesmo nota em certo momento. Além disso, Grenouille tem um comportamento atípico desde o seu nascimento, resistindo a uma séria de ataques de outras crianças de forma incomum. E quando deixa este mundo, o faz de maneira igualmente atípica, simplesmente desaparecendo. Outro ponto de vista é de que Grenouille sequer teria existido, sendo apenas um mito criado em torno dos assassinatos ocorridos na cidade e que acabou ganhando o status de lenda para algumas pessoas daquela comunidade, como apresentado através da voz do narrador (John Hurt, excelente, assim como em Dogville). Desta forma, criam-se duas correntes: uma daqueles que acreditam que Grenouille existiu, fez a fórmula perfeita, inspirou o sexo em massa e desapareceu. E outra daqueles que acham que ele jamais existiu, que nada daquilo realmente aconteceu e que as moças foram assassinadas por outra pessoa, que teria sido justamente enforcada, num paralelo interessante com o que acontece hoje em dia com Jesus Cristo, que também jamais teve cientificamente sua existência comprovada.

Misturando momentos de tensão com metáforas e simbolismos, Perfume é um filme acima da média que abre diversas possibilidades de interpretação de forma inteligente, o que é sempre interessante para aqueles que buscam mais do que apenas entretenimento no cinema.

Perfume

Texto publicado em 22 de Junho de 2009 por Roberto Siqueira