CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1977)

(Close Encounters of the Third Kind)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #168

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Richard Dreyfuss, Bob Balaban, Teri Garr, François Truffaut, Melinda Dillon, J. Patrick McNamara, Warren J. Kemmerling, Cary Guffey e Roberts Blossom.

Roteiro: Steven Spielberg.

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso avassalador de “Tubarão”, Steven Spielberg teria carta branca para tocar o projeto que quisesse. Não surpreende, portanto, que o próximo longa do diretor seja justamente aquele que marca sua primeira incursão num de seus gêneros favoritos. Contando novamente com Richard Dreyfuss no elenco e conseguindo ainda a participação de uma lenda do cinema francês (o diretor François Truffaut), Spielberg tinha tudo nas mãos para emplacar outro grande sucesso e, felizmente, ele não decepcionou. “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é uma ficção científica cativante, que mantém seu encanto mesmo décadas após seu lançamento.

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau” era um projeto tão pessoal que Spielberg não apenas dirigiu o filme como também se encarregou de escrever o roteiro, que tem início quando o tranquilo Roy (Dreyfuss) começa a ter visões de uma misteriosa montanha ao mesmo tempo em que presencia estranhas luzes cortarem o céu da pequena cidade em que vive no interior dos EUA. Obcecado pela estranha montanha, ele acaba se distanciando da família e, após ser abandonado, parte em busca de respostas. Em paralelo, o cientista Claude Lacombe (Truffaut) investiga a estranha aparição de um grupo de aviões desaparecidos há muitos anos, enquanto Jillian Guiler (Melinda Dillon) ganha destaque na mídia após afirmar que seu pequeno filho Barry (Cary Guffey) foi levado por uma nave espacial.

Com sua costumeira habilidade na construção de narrativas que misturam eventos grandiosos com dramas extremamente pessoais, Spielberg e seu montador Michael Kahn conduzem as três linhas narrativas de “Contatos Imediatos” num ritmo agradável, priorizando a trajetória de Roy sem jamais tornar os segmentos que acompanham Lacombe ou Jillian menos interessantes. Assim como ocorria em “Tubarão” (e, posteriormente, na maioria dos filmes de Spielberg), a ausência da figura paterna é um tema marcante, surgindo primeiro na casa do menino Barry, criado por uma mãe forte e solitária, e depois na própria trajetória de Roy, que larga mulher e filhos para ir atrás dos OVNI’s e acaba embarcando no disco voador com os extraterrestres. Apesar disto, este não será o tema central do longa, que concentra sua força nas imagens marcantes conseguidas com efeitos visuais extremamente eficientes e na sensação de encanto das pessoas diante do que veem – algo que o diretor faz questão de ressaltar em diversos momentos com planos que realçam o olhar de admiração dos personagens.

Efeitos visuais extremamente eficientesEncanto das pessoasOlhar de admiraçãoPara isto, Spielberg capricha na composição dos planos, como fica evidente desde o impressionante plano geral que mostra toda a cidade escurecendo após a queda da energia elétrica e, logicamente, no deslumbrante ato final. Além disso, o diretor usa sua câmera com habilidade para criar suspense, por exemplo, na cena em que a luz do farol de um carro atrás da caminhonete de Roy se movimenta para o lado quando este o ultrapassa e, minutos depois, outra luz também se movimenta, só que desta vez para cima, indicando para a plateia a presença de algo estranho. Repare ainda como o diretor sabe trabalhar muito bem a expectativa do espectador na cena em que acompanhamos os controladores de voo captando a presença dos OVNI’s e, especialmente, quando nos coloca dentro da casa junto com Barry e sua mãe, criando uma cena absolutamente tensa que culmina no impressionante plano em que ela sai correndo pra fora e vê as naves sumindo no horizonte distante com seu filho.

Cidade escurecendoCarro atrás da caminhonete de RoyDentro da casaObviamente, o diretor de fotografia Vilmos Zsigmond tem participação fundamental neste processo, trabalhando na maior parte do tempo com paletas claras e cenas diurnas que criam um contraste interessante com o espetacular visual do ato final, que se passa praticamente o tempo todo à noite, num cenário perfeito para o festival de cores e luzes que toma conta da tela após a chegada das espaçonaves. Quem também dá um show em “Contatos Imediatos” é o design de som, que se destaca logo de cara ao captar com precisão o barulho do vento e as vozes dos personagens na sequência que abre o longa no México. E finalmente, a trilha sonora do mestre John Williams é responsável por criar as cinco notas icônicas que estabelecem contato com os extraterrestres, além de servir também para aumentar a tensão em alguns momentos pontuais, como na chegada dos ET’s à casa de Barry.

Paletas clarasFestival de cores e luzesCinco notas icônicasEm outro momento bem conduzido por Spielberg, acompanhamos Roy conversando com a esposa por telefone e, no segundo plano, a imagem da montanha Devil’s Tower na televisão – e o próprio movimento de câmera que revela a montanha real é belíssimo. No entanto, “Contatos Imediatos” não se resume apenas ao apuro técnico, já que o diretor é competente também ao extrair boas atuações de praticamente todo o elenco, a começar pelo próprio Richard Dreyfuss, que demonstra a determinação do personagem através de suas expressões marcantes, evidenciando também o quanto sua vida foi afetada por aquele evento incomum – algo que sua esposa e seus filhos não demoram a perceber, o que os leva a deixar a casa (com razão) após um surto de loucura do pai. E se a esposa de Roy vivida por Teri Garr não ganha grande destaque, Melinda Dillon quase rouba a cena com seu desempenho envolvente na pele da desesperada mãe de Barry, comovendo pela maneira determinada com que parte em busca do filho.

Roy conversando com a esposa por telefoneExpressões marcantesDesesperada mãe de BarryApesar de serem impulsionados por motivações distintas (ela vai atrás do filho enquanto ele se distancia deles), Jillian e Roy compartilham a obstinação por algo que eles sequer têm certeza que vão conseguir encontrar, o que justifica a identificação dos personagens e, por consequência, conquista também a empatia da plateia. Assim como eles, nós não sabemos exatamente aonde a narrativa irá nos levar, mas aguardamos ansiosamente pelo contato que dá nome ao filme.

Inteligente, Spielberg constrói o clímax cuidadosamente, criando uma atmosfera perfeita e fazendo com que a plateia aguarde ansiosamente pelo contato com os extraterrestres através de planos belíssimos como aquele que mostra a montanha preparada para a chegada dos discos voadores. Quando o aguardado momento chega, o diretor segue uma linha diferente da maioria das obras relacionadas à invasão de alienígenas, nos apresentando seres pacíficos e interessados somente em comunicar-se com a raça humana. E isto acontece de maneira mágica, num espetáculo de luzes e sons que dificilmente é apagado da memória do espectador. Neste instante, os olhares fascinados dos personagens se confundem com os da própria plateia, maravilhada diante de tamanho espetáculo visual.

Montanha preparadaLuzes e sonsOlhares fascinadosConfirmando sua habilidade ímpar de construir narrativas absolutamente cativantes, Steven Spielberg se consolidava como um diretor com rara capacidade de agradar público e crítica, narrando histórias visualmente marcantes sem jamais deixar de se preocupar com o lado humano de seus personagens. Envolvente e espetaculoso, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é um trabalho memorável na carreira de Spielberg, o que não deixa de ser um feito, considerando a filmografia deste aclamado diretor.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967)

(The Graduate)

 

Videoteca do Beto #41

Dirigido por Mike Nichols.

Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton, Elizabeth Wilson, Brian Avery, Walter Brooke, Norman Fell, Alice Ghostley e Richard Dreyfuss.

Roteiro: Calder Willingham e Buck Henry, baseado em livro de Charles Webb.

Produção: Mike Nichols e Lawrence Turman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O momento de transição da juventude para a vida adulta é o fio condutor desta deliciosa e importante comédia dirigida por Mike Nichols, que teve papel fundamental na história do cinema na época de seu lançamento ao abordar um tema corajoso para o período. Extremamente bem conduzido por Nichols, “A primeira noite de um homem” ainda foi responsável pelo lançamento de uma dos grandes atores de Hollywood, o talentoso Dustin Hoffman, se estabelecendo como uma comédia de humor refinado, capaz de causar grande empatia com o público em geral.

Após se formar na faculdade, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) retorna para casa, completamente indeciso quanto ao seu futuro. Em meio à festa de recepção, uma amiga de meia-idade de seus pais (Anne Bancroft) pede para que o garoto a leve pra casa, somente para seduzi-lo assim que eles chegam à residência. Os problemas só aumentam quando Benjamin se interessa pela filha dela, a bela Elaine Robinson (Katharine Ross).

Para entender corretamente o papel histórico de “A primeira noite de um homem” é preciso contextualizar seu lançamento. O cinema vivia em 1967 o fim da era dos grandes estúdios. O público ansiava por filmes mais baratos, que retratassem a realidade e focassem em personagens de carne e osso, ao invés dos politicamente corretos seres humanos da era anterior de Hollywood. Ou seja, personagens que tivessem dúvidas, dilemas e que enfrentassem dificuldades, o que causaria a empatia e a identificação com o espectador. E o longa de Mike Nichols atendia perfeitamente este anseio geral. O roteiro inventivo de Calder Willingham e Buck Henry (baseado em livro de Charles Webb) explora muito bem os inúmeros problemas criados pelo envolvimento entre o jovem Benjamin e a Sra. Robinson, provocando diversas situações inusitadas. Aproveita ainda as inúmeras possibilidades que a situação oferece para fazer excelentes piadas, como quando a Sra. Robinson pergunta se Benjamin não se esqueceu de nada e ele responde que gostaria de agradecê-la pelo que está fazendo, somente para ouvir em seguida: “O número do quarto. Eu preciso saber”. Existem muitos outros momentos bem humorados que vale a pena citar, como a cena em que Elaine sugere o Hotel Taft e Benjamin quase bate o carro, seguida pela engraçada seqüência em que os funcionários do Hotel cumprimentam o rapaz (“Olá Sr. Gladstone!”). Além disso, o roteiro aborda um tema comum à maioria dos jovens: a dúvida e o medo que sentimos quando deixamos os estudos para finalmente entrar na vida adulta. Pra completar, a empatia que o filme provoca no público se consolida através da deliciosa trilha sonora de Dave Grusin e Paul Simon, repleta de músicas leves e marcantes, que chegam até mesmo a ter um tom melancólico.

Entre o elenco, vale destacar a maravilhosa atuação de Dustin Hoffman. Na época com trinta anos, mas vivendo um personagem com vinte e um, Hoffman demonstra muito bem o nervosismo e a tensão de Benjamin através da respiração ofegante e do olhar nunca fixo. Repare sua empolgação quando ouve a Sra. Robinson contar que Elaine foi concebida em um Ford (“Um Ford!”). Anne Bancroft também tem uma excelente atuação como a madura e decidida Sra. Robinson. Ciente da inexperiência do rapaz, ela não economiza nos artifícios para seduzi-lo e consegue o que deseja. Vale observar a perfeita composição da personagem, através da sexy voz rouca, dos olhares nada tímidos e dos sensuais movimentos femininos, como as passadas de mão no cabelo. Fechando os destaques principais, Katharine Ross vive Elaine com bastante charme, além de transmitir com competência o dilema vivido pela garota, que ama Benjamin, mas não sabe como lidar com a estranha situação que o relacionamento envolve. Vale citar ainda Murray Hamilton como o inocente Sr. Robinson, que leva muito tempo até perceber o caso existente entre sua esposa e o jovem rapaz, comprometendo (como era de se esperar) a intenção das duas famílias de casar Benjamin e Elaine.

Tecnicamente, “A primeira noite de um homem” também é bastante eficiente. A começar pela direção de fotografia de Robert Surtees, que reflete o estado psicológico de Benjamin, por exemplo, quando está em paz consigo mesmo na piscina, através de um visual colorido e iluminado, onde os raios do sol refletem na água e transmitem uma sensação de tranqüilidade, que era exatamente o que ele sentia no momento. Sam O’Steen, por sua vez, quase rouba a cena com sua espetacular montagem, que cria momentos absolutamente inesquecíveis, como os vários clipes que aparecem durante o longa, além da interessante transição da piscina para o quarto de Hotel onde Benjamin está com a Sra. Robinson, que demonstra a passagem de muitos meses na vida deles (“Nos encontramos há meses e nunca conversamos”). Quando Benjamin vive sua primeira experiência sexual, o belo clipe e a linda trilha sonora simbolizam muito bem este importante momento na vida daquele jovem. Em seguida, o close em seu olhar fixo para a TV confirma: aquele é um momento de extrema satisfação e realização pessoal.

E finalmente chegamos ao grande destaque do longa. A impecável direção de Mike Nichols é perceptível logo nas primeiras cenas, quando o diretor utiliza muitos closes no rosto de Hoffman e dos convidados, demonstrando como o rapaz se sentia intimidado naquele ambiente, sufocado pelas pessoas à sua volta. Na casa dos Robinson, Nichols cria o plano em que Benjamin diz célebre frase “Sra. Robinson, você está tentando me seduzir!”, e a concepção visual da cena é perfeita, com as pernas dela envolvendo o rapaz completamente, como se estivesse arrastando-o para sua armadilha sexual. Mas a criatividade de Nichols não para por aí. Observe a forma criativa com que o diretor nos mostra as sensações de Benjamin quando está com a roupa de mergulhador, até mesmo contando com o som para indicar a respiração dele, claramente embaraçado com a situação. Repare sua inteligência ao compor o plano em que Benjamin conta a verdade para Elaine, onde tudo é indicado através dos olhares, sem a necessidade de dizer qualquer palavra. Em outro momento, quando Benjamin vai até a universidade atrás de Elaine, o zoom out o diminui em cena, demonstrando visualmente sua fraqueza naquele instante, além de indicar o quanto ele estava perdido no meio daquelas pessoas. Novamente o momento é acompanhado de um belo clipe e de uma linda canção. Mais adiante, Nichols reforça sua criatividade no plano em que observamos a angústia de Elaine ao perceber que Benjamin, em segundo plano e do lado de fora do ônibus, corre para alcançá-la. Finalmente, repare como o diretor ilustra sensações e sentimentos através de pequenos detalhes, como no momento em que Benjamin está se barbeando e faz uma pequena pausa com uma pergunta de sua mãe, demonstrando seu desconforto com aquela situação. Esta percepção do diretor se torna ainda mais evidente nos momentos de tristeza de Benjamin, quando o rapaz procura olhar para o aquário, como se fosse um daqueles peixes, triste por estar preso em uma situação sem saída. Curiosamente, nos momentos felizes ele normalmente está relaxado dentro da piscina, como se Benjamin estivesse se adaptando à nova realidade e se conformando com ela.

O final engraçado e alto astral fecha muito bem esta comédia leve que aborda um tema corajoso para a época, onde os filmes não costumavam demonstrar os problemas normalmente enfrentados pelas pessoas. A sensação de bem estar predomina no espectador, que acompanha o drama do jovem garoto e sofre junto com ele até o alegre desfecho da narrativa. Mérito da excelente direção de Nichols, das ótimas atuações do elenco e do belo roteiro. Por tudo isso, adicionado ainda ao contexto histórico e a importância que teve em seu lançamento, “A primeira noite de um homem” se confirma como uma deliciosa comédia, extremamente inteligente e agradavelmente próxima da realidade.

Texto publicado em 31 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

TUBARÃO (1975)

(Jaws) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #11

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Jeffrey Voorhess, Chris Rebello, Murray Hamilton, Carl Gottlieb, Jeffrey Kramer, Susan Backlinie e Jay Mello. 

Roteiro: Carl Gottlieb, baseado em livro de Peter Benchley. 

Produção: David Brown e Richard D. Zanuck. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando Steven Spielberg lançou Tubarão, no verão americano de 1975, mal sabia ele que estava lançando também uma tendência que dura até os dias de hoje no cinema norte-americano: o blockbuster. Por causa de alguns problemas na produção, incluindo aí o Tubarão mecânico que teimava em não funcionar corretamente, o filme não pode ser lançado na época tradicional dos grandes filmes em Hollywood, o final do ano. Com o atraso no lançamento, Tubarão só chegou aos cinemas norte-americanos no meio do ano seguinte. Como a metade do ano marca o auge do verão e também o período de férias nas escolas, o cenário perfeito para o lançamento do filme estava construído sem que os produtores imaginassem. Resultado: sucesso absoluto de bilheteria.

Amity é uma pequena cidade no litoral dos Estados Unidos que recebe a inesperada visita de um tubarão branco em pleno verão. A ameaça que o feroz predador representa entra em conflito com os interesses econômicos da cidade. Após uma série de incidentes, o chefe da polícia Martin Brody (Roy Scheider) convence o prefeito Larry Vaugh (Murray Hamilton) a aceitar a proposta do pescador de tubarões Quint (Robert Shaw) e parte para caçá-lo, auxiliado também pelo oceanógrafo Matt Hooper (Richard Dreyfuss).

A trama de Tubarão é simples e muito bem conduzida pelo diretor. Spielberg trabalha lentamente na construção do suspense que alcançará níveis gigantescos ao longo do filme. Observe como ele vai inserindo pequenos detalhes como a mão de Michael Brody (Chris Rebello) sangrando, o close nas palavras “Shark Attack” datilografadas por Martin, o outdoor da moça na praia pichado com as palavras “Help! Shark!”, as figuras em um livro sobre tubarões e uma máquina de fliperama chamada Killer Shark. Estes detalhes colaboram para aumentar a expectativa pela aparição do tubarão (que só acontece de fato muito tempo depois) na mente do espectador. Ele também cria belos planos como na cena da conversa entre o prefeito, Martin e Hooper em um barco. Em um primeiro momento podemos ver quatro pessoas discutindo, mas posteriormente o prefeito e Martin ficam em primeiro plano, destacando aquele que seria o principal embate do filme: o duelo segurança versus economia da cidade. Ora, Amity é uma cidade litorânea que vive dos dólares que entram na cidade no mês de Julho, como podemos testemunhar na conversa entre o dono de uma loja de conveniências e um fornecedor de bolas, cadeiras de praia e outros materiais deste tipo. O prefeito deixa claro que se for divulgado um ataque de tubarão a cidade entrará em pânico e toda a economia vai por água abaixo, com as pessoas saindo da cidade e indo para outras praias. Martin, por outro lado, está preocupado com a segurança da cidade, e principalmente, de sua família.

Spielberg utiliza uma narrativa ágil, recheada de muito suspense e alguns momentos de alivio cômico, como a cena em que Martin pede pra seu filho sair do barco e Ellen diz que não tem problema ficar ali. Ela muda de idéia assim que vê uma figura sugestiva no livro de Martin. A habilidade de Spielberg na condução da narrativa pode ser observada em diversos momentos. Podemos destacar entre elas a sensacional cena da morte do menino Alex. A cena inicia com um cachorro brincando na beira da praia atrás de uma madeira, uma senhora boiando na água e Alex (que propositalmente está de sunga vermelha, o que o destaca dos demais) conversando com sua mãe. O chefe Martin está tenso, imaginando que aquele seria o cenário ideal para o tubarão atacar, com toda aquela agitação na água. Uma pessoa vem até ele para tentar conversar, mas ele não dá atenção e fica olhando por cima do ombro dela, mostrando sua preocupação. Um senhor nada por baixo da senhora que está boiando, e o seu gorro preto dá a falsa ilusão de que era um tubarão. Uma moça começa a gritar, o que já nos causa o primeiro susto, mas ela estava apenas brincando com o namorado. Quando Ellen (Lorraine Gary) começa a massagear o marido ao som de uma música relaxante, vemos a imagem da madeira boiando na água já sem o cachorro e em seguida, vemos seu dono gritar por ele. Este pequeno truque da madeira também é utilizado por Spielberg em “Jurassic Park”, com o copo de água. Nos dois casos, pequenos objetos simbolizam a chegada do temido predador. A trilha sonora começa a tocar. A câmera mostra as pernas das crianças por baixo da água (podemos identificar a bóia de Alex no meio delas) e vai se aproximando lentamente, ao passo que o ritmo da musica acelera. O plano seguinte mostra de longe o sangue espirrando e o angustiante desespero das pessoas saindo correndo da água aos gritos. A cena termina com a bóia rasgada, coberta de sangue na beira da praia, e a mãe de Alex desesperada procurando o filho na multidão e olhando para o mar. Como podemos perceber, a cena inicia com os personagens chave (o cachorro, a senhora boiando e Alex) e, utilizando pequenos detalhes (os sustos, a dica da madeira), vai aumentando lentamente o suspense até a angustiante conclusão.

O diretor (na época com 27 anos) também é extremamente eficiente na construção de diversas cenas de suspense absoluto, como a seqüência dos dois pescadores na plataforma, o mergulho de Hooper para examinar um barco, a brincadeira de mal gosto de duas crianças na praia e o cruel ataque contra um velejador. Nesta cena, aliás, podemos conferir um dos diversos momentos em que a câmera funciona como o ponto de vista do tubarão, passando a poucos metros de Michael no canal. Este truque de Spielberg (inspirado em Hitchcock), conhecido como ironia dramática, faz com que o espectador saiba mais do que os personagens sobre o que se passa na cena, o que aumenta e muito a aflição da platéia. Também é por causa desta cena que, ao ver seu filho em estado de choque, Martin decide partir pro tudo ou nada contra o animal. O desolado prefeito, igualmente chocado porque seus filhos também estavam na água, aceita a proposta e assina a autorização para contratar Quint. Finalmente, Spielberg demonstra sua competência (auxiliado pelo excelente trabalho de direção de fotografia de Bill Butler) ao acertadamente filmar a maior parte das cenas na água com a câmera no nível do mar, justamente como seria o ponto de vista de uma pessoa que estivesse nadando. O resultado é a sensação criada no espectador de que ele realmente está ali, o que causou um enorme medo da água em muitas pessoas logo após o lançamento do filme.

Um dos motivos para a empatia do espectador com o sofrimento dos personagens é que toda a trama é mostrada focando a vida de um personagem em especial, o chefe Brody. Ao fazer isto, Spielberg cria no espectador uma proximidade com o drama daquela família, que vive dividida entre voltar para a cidade grande ou tentar se adaptar a nova vida em Amity, como podemos perceber na primeira conversa do casal. E esta empatia não seria possível se a atuação de Roy Scheider não fosse tão eficiente. Scheider é extremamente competente no estabelecimento da conexão entre o espectador e o seu drama, que é defender sua família. Observe como ele demonstra todo o esforço de Martin na luta para impedir a liberação da praia na discussão que tem com o prefeito no barco. Quando a mãe de Alex lhe dá um tapa na cara, ele evita o olhar dela sutilmente (observe como o foco do seu olhar vai para baixo e volta seguidas vezes) e abaixa a cabeça quando ela vai embora, tamanho era o seu embaraço por entender a dor daquela mãe. Sua cena mais tocante acontece quando seu filho Sean Brody (Jay Mello) imita todos os seus gestos. Ele pede um beijo para o filho, que pergunta por que, e ele responde “Por que eu preciso”. A emoção de Ellen na cena também é muito bem representada por Lorraine Gary, com os olhos marejados e a feição de choro. Em outro momento, ao ver Ellen sair chorando pelo porto, na cena em que Martin parte para a caçada, o espectador sente o drama da esposa aflita com a possibilidade de perder o marido, o que é mérito também da boa atuação de Gary. Na belíssima cena do jantar em sua casa com Hooper, Ellen pergunta se Martin poderia abrir um tubarão que havia sido capturado e ele responde “Eu posso fazer tudo, sou o chefe da polícia” com uma cara cínica e um olhar superior típico de quem bebeu além da conta, demonstrando sua habilidade também nos momentos cômicos. Pra finalizar, Scheider improvisou uma das frases mais conhecidas do cinema. Ao ver o tubarão por inteiro pela primeira vez (assim como o espectador, que só tinha visto parte dele no ataque ao velejador), lentamente ele caminha para trás, entra na cabine do barco e diz: “Vamos precisar de um barco maior”. Richard Dreyfus também tem uma boa atuação como o oceanógrafo Matt Hooper. Observe a cena em que ele está fazendo o relatório da primeira vítima do tubarão. Ao puxar o pano, ele respira ofegante, como quem está assustado e também incomodado pelo cheiro, e demonstra através da fala ritmada e da respiração forte que está muito impressionado com o estrago que o tubarão fez na moça, pedindo um copo de água em seguida. O prefeito Larry, vivido com competência por Murray Hamilton, tem dois momentos de destaque. O primeiro é quando ele diz no porto que ali não é o lugar adequado para fazer uma autopsia no tubarão, com a sobrancelha levantada como quem está pedindo bom senso. O segundo é a cena em que ele assina, tremulo, fumando um cigarro e olhado pra baixo, a autorização para contratar Quint. Hamilton retrata muito bem o remorso do prefeito, dizendo que só pensou nos interesses da cidade, se esquecendo que seus filhos também estavam na praia. A ambigüidade do personagem fica evidente. Ele não é ruim ou bom, só é um ser humano que comete erros e acertos. Mas o grande destaque da produção fica para a grande interpretação de Robert Shaw, como o experiente caçador Quint. Desde sua brilhante introdução, na cena em que ele interrompe a discussão sobre o tubarão raspando a unha na lousa, podemos perceber sua enorme autoconfiança, ilustrada através do olhar fixo e da fala segura. Seu primeiro diálogo com Hooper já deixa claro o choque de estilos (modernidade versus experiência) que inevitavelmente acontecerá entre os dois. Em uma das melhores cenas do filme, Shaw demonstra toda sua capacidade, auxiliado também pelo ótimo trabalho de Dreyfus e Scheider. Eles começam a contar as histórias de suas cicatrizes e fazer piada até que, em certo momento, Dreyfus corta a risada ao saber a tatuagem que Shaw apagou, e passa a falar ofegante, sabendo a importância que teve aquele ato. Shaw olha fixo pra mesa, com os braços cruzados, como quem puxa na memória uma história inesquecível e marcante. Observe a alteração no tom de voz, o olhar penetrante, o ritmo lento e o tom melancólico dele enquanto conta sua aterrorizante experiência no mar quando entregou a bomba de Hiroshima. Sua descrição perfeita e detalhista sobre os ataques de tubarão cria no espectador o pavor e o pânico, e o prepara para o clímax do filme.

A trilha sonora de “Tubarão” é extremamente fundamental para o sucesso do filme. As duas notas criadas por John Williams aumentam de volume e velocidade à medida que o tubarão se aproxima, e o espectador instintivamente associa a trilha ao ataque do tubarão. Por isso o susto é enorme quando o Tubarão aparece por inteiro pela primeira vez, já que também é a primeira vez que ele entra em cena sem a trilha. Nossas mentes não estavam condicionadas para aquele momento. Williams também cria uma trilha agitada e empolgante, parecida com uma marcha triunfal, na seqüência da caça ao tubarão. Quando os barris afundam novamente a trilha termina repentinamente, o que ilustra muito bem a decepção dos personagens. O trabalho de som e efeitos sonoros é impressionante, captando cada pequeno barulho como, por exemplo, as braçadas da vitima na água, a bóia balançando e a mordida do tubarão no primeiro ataque do filme. A já citada direção de fotografia de Bill Butler utiliza uma paleta limpa com cores quentes, típico de uma cidade litorânea no verão, e evita ao máximo utilizar a cor vermelha, que só aparece em destaque após os ataques do tubarão. Butler também conseguiu desenvolver câmeras adaptadas para filmar melhor dentro da água, o que na época era um grande avanço e permitiu criar a já citada sensação de estar dentro do mar no espectador. Os coloridos figurinos completam o visual ideal para Amity. Outra grande responsável pelo enorme sucesso do filme foi Verna Fields, responsável pela montagem. Trabalhando em conjunto com Spielberg, ela cria seqüências empolgantes e auxilia na ágil e nunca confusa narrativa, que apesar de desenvolver bem os seus personagens, jamais deixa de focar o perigo que o tubarão representa naquela cidade e, desta forma, faz com que o público não desgrude os olhos da tela.

“Tubarão” conta ainda com dois fatores essenciais para o seu sucesso absoluto como obra cinematográfica. O primeiro deles é a nossa identificação com Martin, uma pessoa comum que luta para defender sua família, enfrentando sua vulnerabilidade. Até o seu medo da água colabora para esta afinidade com o espectador. Por isso, os ataques do tubarão são ainda mais temíveis. Se não existisse esta empatia, testemunhar um monte de gente que não conhecemos morrendo seria apenas um evento distante, como uma noticia no jornal. Mas ao nos deixar próximos de Martin, sentimos como se o seu drama fosse nosso também. O segundo fator essencial é que o tubarão demora muito para aparecer por inteiro no filme. Desta forma, nossa mente cria o mais temível dos vilões, já que a mente é o maior motor do suspense. Ao não mostrar o tubarão, Spielberg faz o espectador imaginar como ele é, e nada se compara ao que nossa mente cria.

Abordando de forma sensível o tema pai e filhos, “Tubarão” utiliza o drama de Martin para proteger sua família como o fio condutor de uma aventura eletrizante e cheia de suspense do melhor nível. Às vezes confundido injustamente com as péssimas continuações que inspirou, conta com ótimas atuações e uma direção impecável de Steven Spielberg. A narrativa direta não atrapalha o desenvolvimento dos personagens, que jamais soam rasos. Auxiliado pela marcante trilha sonora, é diversão garantida com roteiro inteligente. Se todo blockbuster tivesse esta qualidade, o cinema estaria salvo de bombas como “Transformers”.

Texto publicado em 07 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira