MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996)

(Mission: Impossible)

Videoteca do Beto #140

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave, Dale Dye, Marcel Iures, Rolf Saxon e Emilio Estevez.

Roteiro: David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do proprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller.

Produção: Tom Cruise e Paula Wagner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nascido de um projeto pessoal de Tom Cruise, fã declarado da série de televisão famosa nos anos 70, “Missão: Impossível” representava também a chance do astro de Hollywood emplacar como produtor e, assim, marcar definitivamente seu território na capital mundial do cinema. Inteligente, Cruise apostou num elenco de primeira, num roteirista consagrado, no talento do excelente diretor Brian De Palma e em sua própria capacidade de atrair público, criando uma combinação que dificilmente poderia dar errado. O resultado é um excelente filme de ação que conquista o espectador não apenas pela força de suas cenas marcantes, mas também por contar uma boa história, graças ao roteiro que, se não explora dramaticamente seus personagens, pelo menos está longe de ser apenas uma muleta para o show de efeitos visuais que normalmente predominam nos filmes do gênero.

Escrito por David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do próprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller, “Missão: Impossível” tem início quando o grupo de agentes liderados por Jim Phelps (Jon Voight) cai numa emboscada na cidade de Praga, culminando na morte de quase todos eles. Pensando ser o único sobrevivente do grupo, Ethan Hunt (Tom Cruise) procura o auxílio da IMF, agencia responsável pelos trabalhos secretos que, representada por Eugene Kittridge (Henry Czerny), passa a desconfiar que Ethan seja culpado pelo ocorrido, iniciando uma caçada que motiva o agente a criar seu próprio grupo e buscar os verdadeiros responsáveis pelo desastre. Hunt decide então recrutar os agentes desligados Franz Krieger (Jean Reno), Claire Phelps (Emmanuelle Béart) e Luther Stickell (Ving Rhames) e organizar um roubo dentro da sede da CIA.

Desde sua interessante introdução na qual acompanhamos o trabalho dos agentes em Kiev, “Missão: Impossível” conquista a atenção do espectador, reforçando a empatia da plateia com seu protagonista logo na sequencia seguinte, quando este se depara diante de uma situação complexa e se mostra vulnerável, conseguindo escapar com vida graças à sua esperteza. Partindo desta interessante premissa, o roteiro de Koepp e do ótimo Towne aborda o complicado jogo de espionagem de maneira brilhante, explorando a dualidade e a desconfiança dos personagens com destreza e colocando o espectador na mesma situação deles. Frequentemente, a pergunta que surge é: em quem podemos confiar? Além disso, os diálogos chamam a atenção, respeitando a inteligência da plateia ao fugir das conversas descartáveis tão comuns na maioria dos filmes de ação, assim como a narrativa se destaca por priorizar a história que está sendo contada, inserindo as cenas de ação como parte do contexto e não como a razão da existência de “Missão: Impossível”.

Inspirados em objetos reais utilizados durante a guerra fria, os utensílios empregados pelos agentes para realizar suas tarefas chamam a atenção pela criatividade, como a caneta que injeta líquido no café de determinado personagem, os óculos equipados com micro câmeras e, obviamente, os disfarces utilizados por Ethan – mérito do design de produção de Norman Reynolds. E justamente por buscar inspiração em objetos reais, o longa ganha em credibilidade e verossimilhança, o que é interessante, ainda que não seja essencial para o sucesso da trama.

Essencial mesmo é a presença de Tom Cruise, que carrega a narrativa com facilidade graças ao seu carisma e a sua capacidade de conferir realismo aos esforços de Ethan Hunt. Normalmente dispensando dubles, Cruise entrega uma atuação visceral, correndo como se estivesse disputando os jogos Olímpicos, por exemplo, quando foge do Akuarium no centro histórico de Praga, além é claro de demonstrar grande capacidade física em cenas complicadas como a da invasão da sede da CIA, quando fica suspenso por alguns cabos a poucos metros do chão. Mas não é apenas graças ao vigor físico que Cruise se destaca, já que, quando não está sendo caçado, seu Ethan parece uma pessoa normal, demonstrando vulnerabilidade, por exemplo, quando vê seus pais sendo presos ou quando desconfia da parceira Claire, o que facilita a identificação da plateia com o personagem.

Entre os coadjuvantes, enquanto Kristin Scott Thomas pouco pode fazer com o escasso tempo que tem como Sarah, Emmanuelle Béart confere charme à misteriosa Claire e Ving Rhames claramente se diverte no papel de Luther Stickell, assim como Vanessa Redgrave dá um show na pele da traficante Max, num abordagem que foge do tradicional e, por isso, agrada bastante. Já a escolha de Jon Voight para o papel de Jim Phelps (o único agente remanescente da série de TV) soa acertada, especialmente quando este se revela o grande vilão, surpreendendo uma plateia acostumada a ver o ator como herói. Finalmente, Jean Reno impõe respeito como Krieger, priorizando a ação física em detrimento do raciocínio lógico, num contraponto interessante para o astuto Ethan que fica evidente quando o segundo brinca com um disquete e irrita o primeiro.

Explorando locações distintas e interessantes, o diretor de fotografia Stephen H. Burum emprega um visual obscuro e predominantemente noturno no primeiro ato, explorando muito bem a atmosfera medieval da belíssima cidade de Praga, o que colabora para aumentar o suspense e contrasta com o visual asséptico empregado em Langley, na Virgínia, onde o suspense também existe, mas baseia-se muito mais na habilidade do diretor Brian De Palma. Quando a narrativa retorna à Europa, os momentos obscuros e banhados pela chuva são mesclados com o ensolarado desfecho em Londres.

Esta transição bem definida entre os atos deve-se também a boa montagem de Paul Hirsch, que se destaca em sequências especiais como a apresentação do sistema de segurança da sede da CIA, conferindo dinamismo à narrativa e sendo importante ainda no sucesso das duas grandes cenas de “Missão: Impossível”. Entretanto, se o trabalho técnico é valioso, a condução de Brian De Palma é fundamental para que o longa seja bem sucedido.

Diretor virtuoso e de grande talento, De Palma emprega os costumeiros movimentos estilizados de câmera em diversos momentos, colaborando sensivelmente para a construção da escala crescente de suspense e ainda brincando com a plateia em diversos momentos, como na surpreendente reaparição de Jim numa cabine telefônica. Extraindo boas atuações do elenco e com um bom roteiro em mãos, o diretor sente-se a vontade para se destacar nas acrobáticas cenas de ação, que se tornam ainda mais empolgantes graças ao espetacular tema composto por Lalo Schifrin para a série de TV, capaz de injetar adrenalina na plateia logo nos primeiros acordes – e que Danny Elfman corretamente utiliza somente em momentos pontuais.

Competente não apenas na concepção visual de seus filmes, mas também na notável habilidade de construir grandes cenas, De Palma é responsável por momentos marcantes, dentre os quais vale destacar a icônica invasão da sede da CIA, capaz de grudar o espectador na cadeira e provocar frio na espinha durante praticamente todo o tempo. Observe a concepção visual, com a sala branca, asséptica, parecendo que foi retirada de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (e se considerarmos os movimentos empregados por Ethan, não podemos descartar alguma influencia do clássico de Kubrick), repare os ângulos inusitados escolhidos por De Palma que nos auxiliam a compreender a geografia da cena (e, neste sentido, a tela de computador utilizada por Luther não só é fundamental, como ainda aumenta a tensão ao nos permitir acompanhar a movimentação do analista da CIA responsável pelo local), e, finalmente, perceba como o silêncio absoluto torna a tensão quase insuportável. Por isso, quando vemos um rato surgir em segundo plano logo atrás de Krieger, o analista (Rolf Saxon) indo e voltando do banheiro e, especialmente, a gota de suor descendo lentamente nos óculos de Ethan, nós praticamente não conseguimos desgrudar os olhos da tela, tendo quase taquicardia quando a faca cai em câmera lenta após a fuga dele, comprovando a aula de direção de Brian De Palma.

Em outra grande cena, Jim afirma que Kittridge (Henry Czerny) era o agente duplo e pensa enganar Ethan, mas a montagem paralela nos mostra os pensamentos do agente, evidenciando que ele já tinha percebido o que realmente tinha acontecido e, na verdade, é ele quem está enganando seu mentor. E fechando o festival de bons momentos, a espetacular sequencia no trem de alta velocidade da TGV inicia com um movimento de câmera ousado que nos aproxima dos vagões e revela Jim e Ethan em cima deles. Contando novamente com o montador Paul Hirsch, De Palma nos mostra múltiplas ações simultâneas que mais uma vez criam uma atmosfera de tensão crescente, culminando na perseguição dentro do túnel. Apesar de certo exagero, a cena é tão empolgante que o espectador se deixa levar até o último instante, embarcando na viagem junto com os personagens – e aqui, vale destacar os ótimos efeitos visuais da ILM, que conferem realismo a sequencia e permitem que o espectador acredite um pouco mais no que vê.

Narrando uma história envolvente, divertida e com ótimas cenas, “Missão: Impossível” é um grande filme de ação, que respeita a inteligência da plateia sem tentar parecer mais do que realmente é. Pra completar, seu desfecho ainda dá a deixa para o segundo filme, fazendo com que o espectador saia empolgado e esperando reencontrar aqueles personagens em breve, o que é um sinal claro do sucesso do longa. Some a isto a icônica trilha sonora, capaz de grudar em nossa memória por um longo tempo, e terá um excelente divertimento, que cumpre exatamente o que se propõe a fazer.

Texto publicado em 04 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

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3 Respostas to “MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996)”

  1. MOSCOU CONTRA 007 (1963) | Cinema & Debate Says:

    […] logo no início, que serviria de inspiração para outro famoso artifício usado na franquia “Missão: Impossível” muitos anos […]

  2. Marcelo Barreto Says:

    Parabéns!
    (Também pelo texto….rsrsrs) Excelente.

    Marcelo Barreto

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