O PACIENTE INGLÊS (1996)

(The English Patient)

Videoteca do Beto #142

Vencedores do Oscar #1996

Dirigido por Anthony Minghella.

Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Naveen Andrews, Colin Firth, Julian Wadham e Jürgen Prochnow.

Roteiro: Anthony Minghella, baseado em romance de Michael Ondaatje.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sucesso de crítica e público na época de seu lançamento, “O Paciente Inglês” sofreu com a síndrome dos vencedores do Oscar nos anos seguintes, sendo massacrado por boa parte dos cinéfilos sob a acusação de ser “chato demais”. Esta afirmação, no entanto, não poderia estar mais longe da verdade. Apresentando um tom solene e elegante que casa muito bem com os grandes épicos, o longa dirigido por Anthony Minghella utiliza os efeitos da guerra e o nacionalismo exacerbado que surge nestas épocas para narrar uma complexa e trágica história de amor.

Considerada uma obra complicada de se adaptar para o cinema devido a sua estrutura narrativa complexa, baseada nos pensamentos de seu protagonista que não seguem ordem cronológica alguma, “O Paciente Inglês” era um dos grandes sonhos do aclamado produtor Saul Zaentz (“Um Estranho no Ninho”, “Amadeus”), que incumbiu a Anthony Minghella a missão de escrever e dirigir o roteiro baseado no romance de Michael Ondaatje. Abordando épocas e cenários distintos numa história que se passa antes, durante e depois da segunda guerra mundial, o longa tem inicio quando a enfermeira Hana (Juliette Binoche) recebe um misterioso homem que teve o corpo totalmente queimado durante a queda de seu avião e que, por não lembrar a sua origem, foi apelidado de paciente inglês (Ralph Fiennes). Entretanto, ele carrega um livro repleto de recortes que ajudam a recordar o passado, trazendo a tona lembranças de seu relacionamento amoroso com Katharine (Kristin Scott Thomas), a esposa de seu amigo Geoffrey (Colin Firth) que ele conheceu durante uma expedição pelo norte da África. Mas quando David Caravaggio (Willem Dafoe) chega ao local, o paciente passa a enfrentar recordações que ele gostaria de ter esquecido.

Deslumbrante visualmente, “O Paciente Inglês” poderia simplesmente se apoiar nos aspectos técnicos para chamar a atenção, mas felizmente Minghella soube explorar a história que o inspirou e, com o auxilio do próprio Ondaatje, construiu uma narrativa que se baseia na força dos seus personagens. Para isso, o diretor apostou num elenco talentoso e coeso, obtendo um resultado impressionante que torna a tarefa de indicar os destaques do longa numa missão ingrata. Comecemos pela trama do passado. Indicando que a falta de atenção do marido poderia motivar sua traição desde sua primeira aparição na qual conta a história do rei Giges, Katharine é uma mulher sensual e decidida, que não hesita em tomar a iniciativa e procurar o conde Almàsy (nome verdadeiro do personagem título) sem jamais soar oferecida ou desesperada. Conferindo com precisão esta personalidade forte à personagem, a ótima Kristin Scott Thomas entrega uma performance elogiável, acertando no tom e oscilando com destreza entre os momentos em que precisa agir com sobriedade, especialmente ao lado do marido, e aqueles em que pode se entregar à paixão tórrida e avassaladora, como quando reencontra Almàsy durante uma festa. Aliás, ao criarem uma relação realista através da aproximação lenta e da maneira crua com que se entregam aos desejos quando podem, Thomas e Fiennes tornam seus personagens mais humanos, aproximando-os da plateia e fugindo dos clichês básicos de alguns épicos, que costumam enfeitar demais a vida romântica de seus protagonistas.

No outro vértice do triangulo amoroso temos Geoffrey, um homem aparentemente despreocupado mesmo sendo o único que viaja acompanhado no grupo, mas que demonstra sutilmente o incômodo diante da troca de olhares entre Katharine e Almàsy, ainda que raramente tenha força para questionar a esposa ou lutar por ela – e é justamente nesta ambiguidade que reside à força da atuação de Colin Firth, que raramente permite ao espectador perceber o que ele de fato está pensando, o que é essencial, por exemplo, para que a finalidade de sua viagem revelada por Katharine em determinado momento tenha impacto e para que a plateia tenha dúvida sobre o quanto ele sabe do caso extraconjugal de sua mulher.

Personagem central da narrativa, o complexo conde Laszlo de Almàsy é interpretado pelo ótimo Ralph Fiennes, que demonstra a ambiguidade do paciente com competência desde os primeiros instantes, quando ilustra sua dor ao falar com muita dificuldade e agonizar na maior parte do tempo, mas ainda assim se mostra forte o bastante para questionar seu interrogador (“Meus órgãos estão parando, que diferença faz…?”) e reclamar do barulho para Hana (“Pensei que o exército alemão tinha chegado”). Funcionando como ponte entre as diferentes épocas abordadas, Almàsy ganha vida mesmo quando surge imóvel na cama, o que é mérito da boa atuação de Fiennes – aliás, seu rosto desfigurado revela também o ótimo trabalho de maquiagem. E se mesmo imóvel e com o rosto desfigurado ele consegue transmitir emoções distintas como a dor, a saudade e a alegria, quando está livre destas amarras (ou seja, no passado) o ator não tem nenhuma dificuldade para expressar os sentimentos conflituosos do personagem, destacando-se em sequências especiais como quando surge bêbado num jantar, escancarando sua dor após afastar-se de Katharine.

No entanto, o sofrimento não está restrito aos personagens do passado. Após perder o namorado e uma grande amiga na guerra, a enfermeira Hana busca conforto no trabalho, focando seus esforços no tratamento do misterioso paciente. Demonstrando seu grande talento sempre que surge em cena, Binoche cria uma personagem adorável, que esconde seu lado carinhoso e emotivo, já tão castigado pela guerra, sob a carcaça de mulher dedicada e batalhadora, roubando a cena praticamente todas as vezes que aparece. Já William Dafoe empresta seu ar sempre ameaçador a David Caravaggio, mas escapa do maniqueísmo em momentos singelos, como quando demonstra preocupação com o choro de Hana ou quando se compadece ao descobrir as razões da traição de Almàsy. Finalmente, vale citar a presença de Naveen Andrews, eternizado anos depois como o Sayid da série “Lost”, que confere leveza e carisma ao especialista em desarmar bombas Kip.

Captado de maneira exemplar pela bela fotografia de John Seale, o deserto desempenha papel importante na narrativa, oscilando entre momentos de beleza estonteante e outros onde surge ameaçador, como numa tempestade de areia que soterra um carro da expedição. Ciente disto, Minghella demonstra preocupação não apenas com a estética, mas também com detalhes importantes que conferem realismo a narrativa, como ao fazer com que os personagens surjam bebendo água em diversos momentos. Da mesma forma, o design de produção de Stuart Craig acerta em cheio na escolha das locações, ambientando perfeitamente o espectador ao período da guerra através de lugares como o monastério parcialmente destruído na Itália, assim como colaboram os figurinos de Ann Roth, que surgem impecáveis em sua diversidade, através dos uniformes dos soldados ingleses e alemães, das roupas árabes e dos elegantes ternos dos integrantes da expedição. E se os efeitos visuais são discretos, o mesmo não se pode dizer do design de som, que permite captar com precisão desde barulhos mais sutis como a respiração de Almàsy até os sons mais chamativos como as hélices dos aviões e as bombas que explodem – uma delas, em especial, tem a função narrativa de informar a morte de um importante personagem.

Conduzindo as duas linhas narrativas de maneira igualmente competente, Minghella emprega um tom contemplativo típico dos grandes épicos, permitindo que o espectador desfrute das lindas imagens que surgem na tela com tranquilidade. Ainda assim, a trama que envolve Katharine e Almàsy soa levemente mais atrativa ao misturar elementos como guerra, paixão e traição de maneira envolvente, ao passo em que a trama no presente concentra sua força no carisma de Hana e no mistério envolvendo as intenções de Caravaggio. A montagem de Walter Murch, aliás, é o grande destaque da parte técnica, alternando entre o passado e o presente de maneira orgânica e permitindo que o espectador acompanhe as tramas paralelas de maneira clara e sem jamais tornar a narrativa cansativa. Além disso, Murch cria transições muito elegantes, como quando as deformações no terreno do deserto se transformam nas ondas irregulares dos lençóis do paciente ou quando Katharine passa os dedos no vidro do carro e lentamente o segundo plano traz o rosto desfigurado de Almàsy no presente, dando a sensação de que ela está acariciando o rosto dele.

Estes belos momentos surgem em profusão em “O Paciente Inglês”. Observe, por exemplo, a linda cena do voo dos aviões no início da exploração, que parece indicar no tom melancólico da bela trilha sonora de Gabriel Yared o futuro trágico daquele triangulo amoroso. Mas, se é repleto de momentos inspiradores, como quando Kip espalha velas pelo chão e indica o caminho para Hana ou quando ele a leva numa capela para ver de perto as pinturas na parede, “O Paciente Inglês” também tem seus momentos de tensão, dentre os quais vale destacar a cena em que Kip desarma uma bomba durante a chegada dos tanques norte-americanos, que comemoram a rendição germânica. Finalmente, Minghella encontra espaço até mesmo para pequenos alívios cômicos que são conduzidos com uma leveza desconcertante, como quando Hana, Kip e Caravaggio levam Almàsy para debaixo da chuva, realizando um desejo dele e arrancando o riso genuíno do espectador.

Chegamos então ao emocionante terceiro ato de “O Paciente Inglês”, que reúne toda a beleza plástica do longa numa sequência também carregada dramaticamente, onde as razões para a traição de Almàsy são reveladas, deixando a plateia tão perplexa quanto aqueles que ouvem sua versão. Ao acompanharmos aquele homem enfrentando os mais cruéis obstáculos enquanto luta para cumprir sua promessa, o espectador se comove naturalmente, num final poético que foge do melodrama e mantém-se fiel ao tom empregado em todo o filme. Ele traiu seu grupo e o seu país pelo amor de Katharine e nós não podemos julgá-lo por isso, assim como não podemos julgar a reação intempestiva do marido traído. Assim somos nós, seres humanos repletos de falhas e virtudes.

Utilizando a guerra como pano de fundo para narrar uma bela história de amor, “O Paciente Inglês” é um bom representante dos épicos clássicos, que conseguem ser apaixonantes e grandiosos na medida certa. Talvez a chuva de prêmios que recebeu tenha prejudicado sua trajetória ao longo dos anos. Entretanto, se não mereceu sair ovacionado na noite do Oscar, o longa também não merece o injusto tratamento que recebeu após aquela noite.

Texto publicado em 18 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

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MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996)

(Mission: Impossible)

Videoteca do Beto #140

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave, Dale Dye, Marcel Iures, Rolf Saxon e Emilio Estevez.

Roteiro: David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do proprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller.

Produção: Tom Cruise e Paula Wagner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Nascido de um projeto pessoal de Tom Cruise, fã declarado da série de televisão famosa nos anos 70, “Missão: Impossível” representava também a chance do astro de Hollywood emplacar como produtor e, assim, marcar definitivamente seu território na capital mundial do cinema. Inteligente, Cruise apostou num elenco de primeira, num roteirista consagrado, no talento do excelente diretor Brian De Palma e em sua própria capacidade de atrair público, criando uma combinação que dificilmente poderia dar errado. O resultado é um excelente filme de ação que conquista o espectador não apenas pela força de suas cenas marcantes, mas também por contar uma boa história, graças ao roteiro que, se não explora dramaticamente seus personagens, pelo menos está longe de ser apenas uma muleta para o show de efeitos visuais que normalmente predominam nos filmes do gênero.

Escrito por David Koepp e Robert Towne, baseado em argumento do próprio Koepp e de Steven Zaillian e inspirado na série criada por Bruce Geller, “Missão: Impossível” tem início quando o grupo de agentes liderados por Jim Phelps (Jon Voight) cai numa emboscada na cidade de Praga, culminando na morte de quase todos eles. Pensando ser o único sobrevivente do grupo, Ethan Hunt (Tom Cruise) procura o auxílio da IMF, agencia responsável pelos trabalhos secretos que, representada por Eugene Kittridge (Henry Czerny), passa a desconfiar que Ethan seja culpado pelo ocorrido, iniciando uma caçada que motiva o agente a criar seu próprio grupo e buscar os verdadeiros responsáveis pelo desastre. Hunt decide então recrutar os agentes desligados Franz Krieger (Jean Reno), Claire Phelps (Emmanuelle Béart) e Luther Stickell (Ving Rhames) e organizar um roubo dentro da sede da CIA.

Desde sua interessante introdução na qual acompanhamos o trabalho dos agentes em Kiev, “Missão: Impossível” conquista a atenção do espectador, reforçando a empatia da plateia com seu protagonista logo na sequencia seguinte, quando este se depara diante de uma situação complexa e se mostra vulnerável, conseguindo escapar com vida graças à sua esperteza. Partindo desta interessante premissa, o roteiro de Koepp e do ótimo Towne aborda o complicado jogo de espionagem de maneira brilhante, explorando a dualidade e a desconfiança dos personagens com destreza e colocando o espectador na mesma situação deles. Frequentemente, a pergunta que surge é: em quem podemos confiar? Além disso, os diálogos chamam a atenção, respeitando a inteligência da plateia ao fugir das conversas descartáveis tão comuns na maioria dos filmes de ação, assim como a narrativa se destaca por priorizar a história que está sendo contada, inserindo as cenas de ação como parte do contexto e não como a razão da existência de “Missão: Impossível”.

Inspirados em objetos reais utilizados durante a guerra fria, os utensílios empregados pelos agentes para realizar suas tarefas chamam a atenção pela criatividade, como a caneta que injeta líquido no café de determinado personagem, os óculos equipados com micro câmeras e, obviamente, os disfarces utilizados por Ethan – mérito do design de produção de Norman Reynolds. E justamente por buscar inspiração em objetos reais, o longa ganha em credibilidade e verossimilhança, o que é interessante, ainda que não seja essencial para o sucesso da trama.

Essencial mesmo é a presença de Tom Cruise, que carrega a narrativa com facilidade graças ao seu carisma e a sua capacidade de conferir realismo aos esforços de Ethan Hunt. Normalmente dispensando dubles, Cruise entrega uma atuação visceral, correndo como se estivesse disputando os jogos Olímpicos, por exemplo, quando foge do Akuarium no centro histórico de Praga, além é claro de demonstrar grande capacidade física em cenas complicadas como a da invasão da sede da CIA, quando fica suspenso por alguns cabos a poucos metros do chão. Mas não é apenas graças ao vigor físico que Cruise se destaca, já que, quando não está sendo caçado, seu Ethan parece uma pessoa normal, demonstrando vulnerabilidade, por exemplo, quando vê seus pais sendo presos ou quando desconfia da parceira Claire, o que facilita a identificação da plateia com o personagem.

Entre os coadjuvantes, enquanto Kristin Scott Thomas pouco pode fazer com o escasso tempo que tem como Sarah, Emmanuelle Béart confere charme à misteriosa Claire e Ving Rhames claramente se diverte no papel de Luther Stickell, assim como Vanessa Redgrave dá um show na pele da traficante Max, num abordagem que foge do tradicional e, por isso, agrada bastante. Já a escolha de Jon Voight para o papel de Jim Phelps (o único agente remanescente da série de TV) soa acertada, especialmente quando este se revela o grande vilão, surpreendendo uma plateia acostumada a ver o ator como herói. Finalmente, Jean Reno impõe respeito como Krieger, priorizando a ação física em detrimento do raciocínio lógico, num contraponto interessante para o astuto Ethan que fica evidente quando o segundo brinca com um disquete e irrita o primeiro.

Explorando locações distintas e interessantes, o diretor de fotografia Stephen H. Burum emprega um visual obscuro e predominantemente noturno no primeiro ato, explorando muito bem a atmosfera medieval da belíssima cidade de Praga, o que colabora para aumentar o suspense e contrasta com o visual asséptico empregado em Langley, na Virgínia, onde o suspense também existe, mas baseia-se muito mais na habilidade do diretor Brian De Palma. Quando a narrativa retorna à Europa, os momentos obscuros e banhados pela chuva são mesclados com o ensolarado desfecho em Londres.

Esta transição bem definida entre os atos deve-se também a boa montagem de Paul Hirsch, que se destaca em sequências especiais como a apresentação do sistema de segurança da sede da CIA, conferindo dinamismo à narrativa e sendo importante ainda no sucesso das duas grandes cenas de “Missão: Impossível”. Entretanto, se o trabalho técnico é valioso, a condução de Brian De Palma é fundamental para que o longa seja bem sucedido.

Diretor virtuoso e de grande talento, De Palma emprega os costumeiros movimentos estilizados de câmera em diversos momentos, colaborando sensivelmente para a construção da escala crescente de suspense e ainda brincando com a plateia em diversos momentos, como na surpreendente reaparição de Jim numa cabine telefônica. Extraindo boas atuações do elenco e com um bom roteiro em mãos, o diretor sente-se a vontade para se destacar nas acrobáticas cenas de ação, que se tornam ainda mais empolgantes graças ao espetacular tema composto por Lalo Schifrin para a série de TV, capaz de injetar adrenalina na plateia logo nos primeiros acordes – e que Danny Elfman corretamente utiliza somente em momentos pontuais.

Competente não apenas na concepção visual de seus filmes, mas também na notável habilidade de construir grandes cenas, De Palma é responsável por momentos marcantes, dentre os quais vale destacar a icônica invasão da sede da CIA, capaz de grudar o espectador na cadeira e provocar frio na espinha durante praticamente todo o tempo. Observe a concepção visual, com a sala branca, asséptica, parecendo que foi retirada de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (e se considerarmos os movimentos empregados por Ethan, não podemos descartar alguma influencia do clássico de Kubrick), repare os ângulos inusitados escolhidos por De Palma que nos auxiliam a compreender a geografia da cena (e, neste sentido, a tela de computador utilizada por Luther não só é fundamental, como ainda aumenta a tensão ao nos permitir acompanhar a movimentação do analista da CIA responsável pelo local), e, finalmente, perceba como o silêncio absoluto torna a tensão quase insuportável. Por isso, quando vemos um rato surgir em segundo plano logo atrás de Krieger, o analista (Rolf Saxon) indo e voltando do banheiro e, especialmente, a gota de suor descendo lentamente nos óculos de Ethan, nós praticamente não conseguimos desgrudar os olhos da tela, tendo quase taquicardia quando a faca cai em câmera lenta após a fuga dele, comprovando a aula de direção de Brian De Palma.

Em outra grande cena, Jim afirma que Kittridge (Henry Czerny) era o agente duplo e pensa enganar Ethan, mas a montagem paralela nos mostra os pensamentos do agente, evidenciando que ele já tinha percebido o que realmente tinha acontecido e, na verdade, é ele quem está enganando seu mentor. E fechando o festival de bons momentos, a espetacular sequencia no trem de alta velocidade da TGV inicia com um movimento de câmera ousado que nos aproxima dos vagões e revela Jim e Ethan em cima deles. Contando novamente com o montador Paul Hirsch, De Palma nos mostra múltiplas ações simultâneas que mais uma vez criam uma atmosfera de tensão crescente, culminando na perseguição dentro do túnel. Apesar de certo exagero, a cena é tão empolgante que o espectador se deixa levar até o último instante, embarcando na viagem junto com os personagens – e aqui, vale destacar os ótimos efeitos visuais da ILM, que conferem realismo a sequencia e permitem que o espectador acredite um pouco mais no que vê.

Narrando uma história envolvente, divertida e com ótimas cenas, “Missão: Impossível” é um grande filme de ação, que respeita a inteligência da plateia sem tentar parecer mais do que realmente é. Pra completar, seu desfecho ainda dá a deixa para o segundo filme, fazendo com que o espectador saia empolgado e esperando reencontrar aqueles personagens em breve, o que é um sinal claro do sucesso do longa. Some a isto a icônica trilha sonora, capaz de grudar em nossa memória por um longo tempo, e terá um excelente divertimento, que cumpre exatamente o que se propõe a fazer.

Texto publicado em 04 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994)

(Four Weddings and a Funeral)

 

Videoteca do Beto #106

Dirigido por Mike Newell.

Elenco: Hugh Grant, Andie MacDowell, Kristin Scott Thomas, Rowan Atkinson, James Fleet, Simon Callow, John Hannah, David Bower, Charlotte Coleman, Timothy Walker, Sara Crowe, Ronald Herdman, Elspet Gray e Philip Voss.

Roteiro: Richard Curtis.

Produção: Duncan Kenworthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Abordando com inteligência e bom humor as semelhanças e diferenças culturais que atrapalham um homem e uma mulher apaixonados, o diretor Mike Newell entrega uma comédia leve, com boas atuações e diálogos divertidos, recheados pelo típico humor ácido inglês. Nem mesmo o previsível final compromete o bom resultado do longa, que está longe de figurar entre os cinco melhores do ano (como apontou a Academia de Hollywood), mas que certamente é um entretenimento agradável (especialmente para casais).

Charles (Hugh Grant) é um solteirão que evita de todas as formas um compromisso sério com alguma mulher. Só que no casamento de um amigo, ele conhece Carrie (Andie MacDowell), uma mulher capaz de abalar suas convicções e fazê-lo questionar tudo que defendeu até então.

Escrito por Richard Curtis (que viria a escrever “Um lugar chamado Notting Hill” e dirigir “Simplesmente Amor”), o roteiro de “Quatro casamentos e um funeral” é repleto de diálogos interessantes e boas tiradas, que aproveitam situações costumeiras em casamentos (e funerais) para nos fazer rir, como no ácido discurso de Charles no primeiro casamento, que fica ainda melhor graças à boa interpretação de Grant (repare também no close em Carrie quando ele fala que não teria coragem de casar, indicando a atração dela pelo rapaz). E apesar dos clichês costumeiros do gênero (o primeiro encontro inesquecível, os obstáculos que separam o mocinho e a mocinha antes deles ficarem juntos no final), o longa consegue prender nossa atenção, muito por causa das situações divertidas e inusitadas que envolvem os personagens, ainda que algumas soem artificiais. Além disso, a fotografia viva de Michael Coulter e as roupas coloridas (figurinos de Lindy Hemming) conferem uma atmosfera alegre ao filme, assim como as igrejas muito bem decoradas garantem a ambientação do espectador nos principais cenários – Coulter ainda acerta ao utilizar a chuva no casamento de Carrie e no enterro de Gareth, acentuando a tristeza dos personagens. E finalmente, a trilha sonora de Richard Rodney Bennett surge apenas em momentos pontuais, como na primeira conversa entre Charles e Carrie e no funeral de Gareth, enquanto nos casamentos e festas ela é diegética, surgindo nos cantos na igreja, na marcha nupcial e nas tradicionais músicas tocadas em festas de casamento.

Neste clima leve, Mike Newell conduz a narrativa de maneira solta, empregando muitos closes e planos americanos que valorizam as atuações (o que é correto num filme que depende bastante do desempenho dos atores). O diretor também cria belos planos nas igrejas, explorando o visual rico destes locais, e extrai o riso através de rimas narrativas, como quando Charles se atrasa no segundo casamento, da mesma maneira que fez no primeiro (e o plano dele desligando o despertador faz o espectador pressentir o atraso antes mesmo de vê-lo acordando desesperado). Finalmente, o diretor emprega movimentos de câmera corretos, como quando Charles descobre que Carrie está noiva e o zoom realça a tristeza dele. Essencial numa comédia romântica, a montagem de Jon Gregory imprime um ritmo delicioso ao longa, dividindo a narrativa entre os cinco eventos principais de forma correta, além de ser fundamental em algumas cenas, como quando Carrie diz “Você não é tão bonito” e um corte nos leva à imagem da janela do hotel, indicando que eles dormiram juntos novamente. Em seguida, Carrie dorme no hotel e outro raccord nos mostra Charles dormindo na mesma posição que ela, numa elegante rima visual que indica que eles estão conectados.

E apesar do correto trabalho técnico, é na condução do elenco que Newell tem seu maior mérito. A começar por Hugh Grant, que cai muito bem no papel do atrapalhado Charles, como podemos notar logo na primeira cerimônia, quando sua reação engraçada a uma pergunta indica que ele esqueceu as alianças. Outro momento divertido envolvendo o ator (e suas reações desesperadas) acontece quando Charles senta-se à mesa com muitas ex-namoradas, numa seqüência hilária de revelações comprometedoras do passado. Esta cena também escancara a paixão dele por Carrie, pois sua timidez diante dela contradiz totalmente sua fama de namorador, revelando um nervosismo incomum naquele rapaz. Aliás, o encontro entre Charles e Carrie no bar “Boatman” começa engraçado e termina bastante sensual, e o envolvimento do casal só é crível graças à empatia entre Grant e MacDowell, que parecem de fato estarem apaixonados. A troca de olhares, a forma como se comportam e principalmente a química do casal nos convence. Por isso, quando Charles começa a sentir a falta de Carrie, sabemos que ele foi fisgado – o que leva a atrapalhada declaração dele, no único momento em que a narrativa se passa fora das cerimônias que dão nome ao filme. Obviamente, Andie MacDowell também tem méritos, conferindo sensualidade a norte-americana Carrie, além da notável simpatia, essencial para que o espectador torça pelo casal. E mesmo noiva, ela continua vivendo bons momentos com ele, como na conversa sobre as transas do passado, logo após experimentar vestidos de noiva, numa cena que escancara as diferenças culturais de ambos em relação ao sexo – e é curioso notar também a dica do roteiro, quando Carrie experimenta um vestido na frente dele e diz “Este não. Talvez na próxima vez?”.

Esta afinidade serve também para provocar tristeza nas inúmeras pretendentes de Charles. E uma delas em especial chama a atenção. Trata-se de Fiona, interpretada pela sempre ótima Kristin Scott Thomas, que exala sarcasmo ao mesmo tempo em que parece fina e bela. Vestida sempre de preto, a moça parece ilustrar através das roupas a tristeza de uma garota que há tanto tempo sofre por amar alguém que não a ama (novamente, ponto para os figurinos de Lindy Hemming). Antes mesmo que a platéia confirme o interesse dela pelo protagonista, Fiona indica que é apaixonada por alguém, e o espectador mais ligado sente que é Charles, até pela forma que ela olha pra ele e, principalmente, pela forma como ela se refere à Carrie quando ele demonstra interesse. E mesmo num papel secundário e sem grande destaque, é impressionante notar como Kristin Scott Thomas consegue dar peso à confissão de Fiona, fazendo a cena soar comovente sem ser melodramática. Já Simon Callow faz de seu Gareth um personagem amável, amigo de todos, o que explica a enorme tristeza após sua morte. Além disso, é interessante o momento da revelação sutil de seu caso com Matthew, através do discurso emocionado do rapaz em seu enterro, citando o poema de W.H. Alden, “Funeral Blues” – num bom momento de John Hannah. E finalmente, vale destacar a presença de Rowan Atkinson (hoje famoso pelo papel de “Mr. Bean”) na pele do Padre Gerald, protagonizando uma das cenas engraçadas do segundo casamento.

Ainda durante o funeral, notam-se claramente as semelhanças entre as duas cerimônias centrais da trama, o casamento e o próprio funeral. Ambos são eventos que unem a família e os amigos, sempre com roupas elegantes e dentro da igreja. Nos dois casos, as pessoas choram e sorriem, alguém faz um discurso e alguém é o centro das atenções. Obviamente, as diferenças também aparecem, já que no primeiro caso “quase” todos estão alegres, e no segundo, a tristeza impera. Vale destacar ainda como no funeral, Newell emprega muitos closes e alterna bastante entre os planos, destacando a reação emocionada das pessoas. Após este momento melancólico, a alegria volta a dominar a narrativa e chegamos ao esperado dia em que Charles se entregará ao compromisso do casamento. Só que, inteligentemente, o nome da noiva no convite é escondido por uma flor, mantendo um suspense interessante, que, infelizmente, é quebrado já na cena seguinte. Ao vermos Fiona no carro, percebemos que ela não será a noiva e, pouco tempo depois, ela mesma revela o nome da escolhida. E ao descobrir que a noiva não é Fiona e nem Carrie, o espectador se desanima. Mas, quando Carrie chega e revela que está separada, começamos a torcer pelo politicamente incorreto “não” de Charles na cerimônia. E apesar de ser totalmente previsível, o espectador fica feliz quando ele diz que ama outra no altar – e o plano dele angustiado enquanto a noiva entra na igreja diz mais que qualquer palavra. É clichê? É. Previsível? Sim. Mas funciona muito bem.

Apesar de ser totalmente previsível, o final de “Quatro Casamentos e um Funeral” é coerente com a proposta do filme, que é proporcionar uma sensação de bem estar ao espectador. Além disso, o longa tem o mérito de fazer boas piadas com situações corriqueiras nestas cerimônias, fazendo com que o espectador se identifique com o que vê e, por isso, sinta empatia pelo filme. Pra quem já é casado (como eu), fica a sensação de que, por mais que alguns casamentos não dêem certo, arriscar viver o amor verdadeiro sempre vale à pena.

Texto publicado em 18 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

LUA DE FEL (1992)

(Bitter Moon)

 

Videoteca do Beto #84

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Peter Coyote, Victor Banerjee, Sophie Patel, Patrick Albenque, Luca Vellani e Stockard Channing.

Roteiro: Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner.

Produção: Roman Polanski.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante grande parte de “Lua de Fel”, Roman Polanski faz um profundo e interessante estudo da paixão sem limites, revelando as melhores e as piores conseqüências de se entregar totalmente a uma pessoa, abdicando de si mesmo. Mas, infelizmente, o diretor escorrega no ato final, diminuindo parte do impacto de um filme que tinha tudo para deixar o espectador completamente atordoado com seu retrato pessimista da relação entre duas pessoas perdidamente apaixonadas. O resultado é um longa correto, que deixa a sensação de que Polanski, com um pouco mais de ousadia, poderia ter realizado uma obra marcante.

Casados há sete anos, os ingleses Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) decidem embarcar num cruzeiro marítimo, como forma de renovar a relação. Durante a viagem, eles conhecem a francesa Mimi (Emmanuelle Seigner) e seu marido norte-americano Oscar (Peter Coyote). Ao perceber o interesse de Nigel por sua esposa, Oscar decide contar sua história de paixão doentia pra ele, lentamente revelando como foi parar numa cadeira de rodas.

Roman Polanski é um diretor talentoso. Por isso, não surpreende que “Lua de Fel” apresente momentos marcantes, como a sensual dança de Mimi para Oscar, e tenha um ritmo envolvente, nos sugando pra dentro da história, especialmente nos momentos que envolvem o passado dos amantes. Também não faltam belos planos, como aquele em que Nigel olha para o mar durante a noite com a lua refletindo na água, e inteligentes mecanismos narrativos, como os planos do mar que antecedem as conversas entre Oscar e Nigel, que indicam a intensidade da história que será contada a seguir (ou seja, quanto mais agitado o mar, mais quente e ousada será a nova parte da história). Contando com a montagem de Hervé de Luze, o diretor cria ainda elegantes transições, como quando a imagem de Mimi na tela do computador se transforma na imagem dela dentro do ônibus, durante uma lembrança de Oscar. Além disso, conta também com a bela trilha sonora de Vangelis, com sua melodia triste se alternando com variações sombrias, coroada pelo lindo tema que embala o inicio da relação de Mimi e Oscar em Paris. Mas apesar destes belos momentos, Polanski deixa escapar a chance de realizar um grande filme e se perde no ato final, quando o longa assume contornos de lesbianismo e um clima festivo que contradizem radicalmente a atmosfera pessimista da narrativa até então, apesar do sutil indício de que isto poderia acontecer quando Mimi vê Fiona pela primeira vez e diz que ela é linda.

Para viver Mimi, a mulher que embalaria os melhores sonhos e os piores pesadelos de Oscar, Polanski escolheu sua esposa Emmanuelle Seigner, com quem já havia trabalhado em “Busca Frenética”. Inexpressiva em boa parte da narrativa, a atriz exagera em alguns momentos, como quando chora nas pernas de Oscar, e se sai bem em outros, como nas intensas discussões com Oscar ou quando se mostra insinuante no bar na ousada primeira conversa com Nigel, entregando uma atuação bastante irregular. Ainda assim, é interessante acompanhar a trajetória de sua personagem, que lentamente se transforma de jovem apaixonada numa mulher dominadora, caindo repentinamente ao fundo do poço e voltando para viver um misto de amor e ódio com Oscar. Com pouco tempo em cena, a talentosa Kristin Scott Thomas vive a entediada Fiona, para quem o momento mais excitante da viagem é uma conversa com um desconhecido no bar, que serve de aviso para seu distante marido (“Não há nada que você faça que eu não faça melhor”, ameaça). Observe o olhar ameaçador de Fiona para Nigel quando diz para o rapaz no bar o dito popular “azar no jogo, sorte no amor”, insinuando que não hesitaria em trair o marido caso ele continuasse agindo daquela maneira. Mas o aviso não surtiu efeito, e logo em seguida ele deixa Fiona passando mal na cabine e volta para ouvir o final da história de Oscar. Interpretado por Hugh Grant, o tímido Nigel é o típico homem de família inglês, sempre polido e educado, mas incapaz de se conter diante da insinuante Mimi. O ator demonstra bem a luta constante de Nigel para não demonstrar interesse no que ouve, enquanto claramente se mostra cada vez mais interessado nos detalhes mais obscenos da relação entre Oscar e Mimi (vale citar o engraçado momento em que Nigel se mostra incomodado com os detalhes escatológicos da história que ouve). Já Peter Coyote exagera em alguns momentos, como quando Mimi derruba Oscar da cama no hospital, mas vai bem em muitos outros, principalmente quando desafia Nigel na cabine a ouvir mais de sua história, além de prender a atenção do espectador com sua narração envolvente.

Escrito por Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner, “Lua de Fel” faz um interessante estudo da paixão sem limites, utilizando uma narrativa que intercala a viagem de navio com os flashbacks que ilustram as memórias de Oscar. E é curioso acompanhar a mudança sistemática no relacionamento do casal apaixonado, ilustrada até mesmo através da fotografia de Tonino Delli Colli, mais clara e iluminada no inicio da narrativa, escurecendo na medida em que a relação avança e se afundando inteiramente nas sombras após a conversa deles numa praça, quando Oscar diz que é melhor cada um seguir o seu caminho. Este momento até mesmo tocante se contrapõe diretamente ao promissor inicio do romance, com direito a jantar de gala, brincadeiras e passeio no parque, terminando na belíssima cena da primeira relação sexual do casal, com lareira ao fundo e os closes de Polanski destacando a sensualidade e o erotismo do encontro. Após o romântico passeio no parque, a sensual dança a luz de velas e as brincadeiras com leite, o casal se mostra cada vez mais íntimo. Só que um pequeno corte feito por Mimi enquanto barbeia Oscar indica que a relação entraria em novos terrenos, explorando novas experiências e revelando o lado sádico da jovem. E após comprarem seus “brinquedos” e se trancarem por dias no apartamento para se divertirem, Oscar começa a perceber que a relação está entrando em decadência, e na tentativa de se renovar, sai com ela e os amigos, nos levando ao momento que mudaria pra sempre aquela história, quando uma crise de ciúmes de Mimi é o estopim para uma serie de atitudes entre eles que os levará ao outro extremo da paixão, o ódio. O choro compulsivo de Mimi após esta briga evidencia sua paixão doentia e desperta as piores idéias na cabeça de Oscar, reforçadas pelo momento em que ele bate nela e ela, após desmaiar, acorda e diz que o ama. Faltava amor próprio a Mimi (algo refletido até mesmo em seu visual dali em diante) e Oscar percebe isto, revelando sua pior faceta com verdadeiros requintes de crueldade. Mas um acidente viraria o jogo novamente, colocando Mimi numa posição favorável e abrindo a possibilidade de vingança pra ela. Revigorada (algo também refletido no visual dela), ela aproveita para devolver o amargo gosto do desprezo ao amante, que, incapaz de reagir, se afunda em solidão, algo ilustrado no obscuro plano em que olha pela janela a distante Torre Eiffel, simbolizando o romance perdido e fazendo-o sentir a humilhação que Mimi sentiu ao olhar para a lua no avião. Oscar finalmente chega ao fundo do poço na melancólica seqüência em que Mimi transa com outro na frente dele e o travelling de Polanski pelo quarto nos leva ao rosto incrédulo daquele homem em ruínas. A paixão tinha se transformado em ódio.

A triste história de Oscar e Mimi desperta Nigel, que finalmente compreende que sua relação com a esposa estava deteriorada, o que o leva a ensaiar uma conversa franca com ela (“Vamos ser adultos”, diz sozinho olhando para o mar). Em seguida, ele se entrega a paixão por Mimi, que não corresponde. Ela não queria sofrer mais, por isso, era melhor nem se envolver com alguém que quisesse mais do que sexo com ela. Assim como Oscar, ela já não acreditava mais no amor. E então o surpreendente (e até certo ponto incompreensível) final contraria toda a atmosfera amarga do longa, quando Mimi e Fiona se beijam na festa e dormem juntas. Embalada pela música “Slave to Love” (a mesma que embalou “9 ½ Semanas de Amor”, outro longa que aborda o tema “paixão sem limites”), a festa destoa do restante da narrativa e parece deslocada. Mas os tiros impiedosos de Oscar contra Mimi e na própria cabeça devolvem o pessimismo à “Lua de Fel”, deixando, com o perdão do trocadilho, um gosto amargo na boca do espectador, refletido no melancólico plano final, com Nigel e Fiona, solitários, diante do mar.

Com muito mais acertos do que erros, “Lua de Fel” apresenta um retrato cruel e pessimista da paixão avassaladora, mas, infelizmente, boa parte de seu impacto é reduzido pelo inexplicável terceiro ato. Talvez se Fiona tivesse ficado com o homem que conheceu no bar e Nigel tivesse perdido as duas mulheres em definitivo, o tom pessimista soaria homogêneo em toda a narrativa. Ainda assim, o longa faz jus ao fel de seu título.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira