O PACIENTE INGLÊS (1996)

(The English Patient)

Videoteca do Beto #142

Vencedores do Oscar #1996

Dirigido por Anthony Minghella.

Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Naveen Andrews, Colin Firth, Julian Wadham e Jürgen Prochnow.

Roteiro: Anthony Minghella, baseado em romance de Michael Ondaatje.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Sucesso de crítica e público na época de seu lançamento, “O Paciente Inglês” sofreu com a síndrome dos vencedores do Oscar nos anos seguintes, sendo massacrado por boa parte dos cinéfilos sob a acusação de ser “chato demais”. Esta afirmação, no entanto, não poderia estar mais longe da verdade. Apresentando um tom solene e elegante que casa muito bem com os grandes épicos, o longa dirigido por Anthony Minghella utiliza os efeitos da guerra e o nacionalismo exacerbado que surge nestas épocas para narrar uma complexa e trágica história de amor.

Considerada uma obra complicada de se adaptar para o cinema devido a sua estrutura narrativa complexa, baseada nos pensamentos de seu protagonista que não seguem ordem cronológica alguma, “O Paciente Inglês” era um dos grandes sonhos do aclamado produtor Saul Zaentz (“Um Estranho no Ninho”, “Amadeus”), que incumbiu a Anthony Minghella a missão de escrever e dirigir o roteiro baseado no romance de Michael Ondaatje. Abordando épocas e cenários distintos numa história que se passa antes, durante e depois da segunda guerra mundial, o longa tem inicio quando a enfermeira Hana (Juliette Binoche) recebe um misterioso homem que teve o corpo totalmente queimado durante a queda de seu avião e que, por não lembrar a sua origem, foi apelidado de paciente inglês (Ralph Fiennes). Entretanto, ele carrega um livro repleto de recortes que ajudam a recordar o passado, trazendo a tona lembranças de seu relacionamento amoroso com Katharine (Kristin Scott Thomas), a esposa de seu amigo Geoffrey (Colin Firth) que ele conheceu durante uma expedição pelo norte da África. Mas quando David Caravaggio (Willem Dafoe) chega ao local, o paciente passa a enfrentar recordações que ele gostaria de ter esquecido.

Deslumbrante visualmente, “O Paciente Inglês” poderia simplesmente se apoiar nos aspectos técnicos para chamar a atenção, mas felizmente Minghella soube explorar a história que o inspirou e, com o auxilio do próprio Ondaatje, construiu uma narrativa que se baseia na força dos seus personagens. Para isso, o diretor apostou num elenco talentoso e coeso, obtendo um resultado impressionante que torna a tarefa de indicar os destaques do longa numa missão ingrata. Comecemos pela trama do passado. Indicando que a falta de atenção do marido poderia motivar sua traição desde sua primeira aparição na qual conta a história do rei Giges, Katharine é uma mulher sensual e decidida, que não hesita em tomar a iniciativa e procurar o conde Almàsy (nome verdadeiro do personagem título) sem jamais soar oferecida ou desesperada. Conferindo com precisão esta personalidade forte à personagem, a ótima Kristin Scott Thomas entrega uma performance elogiável, acertando no tom e oscilando com destreza entre os momentos em que precisa agir com sobriedade, especialmente ao lado do marido, e aqueles em que pode se entregar à paixão tórrida e avassaladora, como quando reencontra Almàsy durante uma festa. Aliás, ao criarem uma relação realista através da aproximação lenta e da maneira crua com que se entregam aos desejos quando podem, Thomas e Fiennes tornam seus personagens mais humanos, aproximando-os da plateia e fugindo dos clichês básicos de alguns épicos, que costumam enfeitar demais a vida romântica de seus protagonistas.

No outro vértice do triangulo amoroso temos Geoffrey, um homem aparentemente despreocupado mesmo sendo o único que viaja acompanhado no grupo, mas que demonstra sutilmente o incômodo diante da troca de olhares entre Katharine e Almàsy, ainda que raramente tenha força para questionar a esposa ou lutar por ela – e é justamente nesta ambiguidade que reside à força da atuação de Colin Firth, que raramente permite ao espectador perceber o que ele de fato está pensando, o que é essencial, por exemplo, para que a finalidade de sua viagem revelada por Katharine em determinado momento tenha impacto e para que a plateia tenha dúvida sobre o quanto ele sabe do caso extraconjugal de sua mulher.

Personagem central da narrativa, o complexo conde Laszlo de Almàsy é interpretado pelo ótimo Ralph Fiennes, que demonstra a ambiguidade do paciente com competência desde os primeiros instantes, quando ilustra sua dor ao falar com muita dificuldade e agonizar na maior parte do tempo, mas ainda assim se mostra forte o bastante para questionar seu interrogador (“Meus órgãos estão parando, que diferença faz…?”) e reclamar do barulho para Hana (“Pensei que o exército alemão tinha chegado”). Funcionando como ponte entre as diferentes épocas abordadas, Almàsy ganha vida mesmo quando surge imóvel na cama, o que é mérito da boa atuação de Fiennes – aliás, seu rosto desfigurado revela também o ótimo trabalho de maquiagem. E se mesmo imóvel e com o rosto desfigurado ele consegue transmitir emoções distintas como a dor, a saudade e a alegria, quando está livre destas amarras (ou seja, no passado) o ator não tem nenhuma dificuldade para expressar os sentimentos conflituosos do personagem, destacando-se em sequências especiais como quando surge bêbado num jantar, escancarando sua dor após afastar-se de Katharine.

No entanto, o sofrimento não está restrito aos personagens do passado. Após perder o namorado e uma grande amiga na guerra, a enfermeira Hana busca conforto no trabalho, focando seus esforços no tratamento do misterioso paciente. Demonstrando seu grande talento sempre que surge em cena, Binoche cria uma personagem adorável, que esconde seu lado carinhoso e emotivo, já tão castigado pela guerra, sob a carcaça de mulher dedicada e batalhadora, roubando a cena praticamente todas as vezes que aparece. Já William Dafoe empresta seu ar sempre ameaçador a David Caravaggio, mas escapa do maniqueísmo em momentos singelos, como quando demonstra preocupação com o choro de Hana ou quando se compadece ao descobrir as razões da traição de Almàsy. Finalmente, vale citar a presença de Naveen Andrews, eternizado anos depois como o Sayid da série “Lost”, que confere leveza e carisma ao especialista em desarmar bombas Kip.

Captado de maneira exemplar pela bela fotografia de John Seale, o deserto desempenha papel importante na narrativa, oscilando entre momentos de beleza estonteante e outros onde surge ameaçador, como numa tempestade de areia que soterra um carro da expedição. Ciente disto, Minghella demonstra preocupação não apenas com a estética, mas também com detalhes importantes que conferem realismo a narrativa, como ao fazer com que os personagens surjam bebendo água em diversos momentos. Da mesma forma, o design de produção de Stuart Craig acerta em cheio na escolha das locações, ambientando perfeitamente o espectador ao período da guerra através de lugares como o monastério parcialmente destruído na Itália, assim como colaboram os figurinos de Ann Roth, que surgem impecáveis em sua diversidade, através dos uniformes dos soldados ingleses e alemães, das roupas árabes e dos elegantes ternos dos integrantes da expedição. E se os efeitos visuais são discretos, o mesmo não se pode dizer do design de som, que permite captar com precisão desde barulhos mais sutis como a respiração de Almàsy até os sons mais chamativos como as hélices dos aviões e as bombas que explodem – uma delas, em especial, tem a função narrativa de informar a morte de um importante personagem.

Conduzindo as duas linhas narrativas de maneira igualmente competente, Minghella emprega um tom contemplativo típico dos grandes épicos, permitindo que o espectador desfrute das lindas imagens que surgem na tela com tranquilidade. Ainda assim, a trama que envolve Katharine e Almàsy soa levemente mais atrativa ao misturar elementos como guerra, paixão e traição de maneira envolvente, ao passo em que a trama no presente concentra sua força no carisma de Hana e no mistério envolvendo as intenções de Caravaggio. A montagem de Walter Murch, aliás, é o grande destaque da parte técnica, alternando entre o passado e o presente de maneira orgânica e permitindo que o espectador acompanhe as tramas paralelas de maneira clara e sem jamais tornar a narrativa cansativa. Além disso, Murch cria transições muito elegantes, como quando as deformações no terreno do deserto se transformam nas ondas irregulares dos lençóis do paciente ou quando Katharine passa os dedos no vidro do carro e lentamente o segundo plano traz o rosto desfigurado de Almàsy no presente, dando a sensação de que ela está acariciando o rosto dele.

Estes belos momentos surgem em profusão em “O Paciente Inglês”. Observe, por exemplo, a linda cena do voo dos aviões no início da exploração, que parece indicar no tom melancólico da bela trilha sonora de Gabriel Yared o futuro trágico daquele triangulo amoroso. Mas, se é repleto de momentos inspiradores, como quando Kip espalha velas pelo chão e indica o caminho para Hana ou quando ele a leva numa capela para ver de perto as pinturas na parede, “O Paciente Inglês” também tem seus momentos de tensão, dentre os quais vale destacar a cena em que Kip desarma uma bomba durante a chegada dos tanques norte-americanos, que comemoram a rendição germânica. Finalmente, Minghella encontra espaço até mesmo para pequenos alívios cômicos que são conduzidos com uma leveza desconcertante, como quando Hana, Kip e Caravaggio levam Almàsy para debaixo da chuva, realizando um desejo dele e arrancando o riso genuíno do espectador.

Chegamos então ao emocionante terceiro ato de “O Paciente Inglês”, que reúne toda a beleza plástica do longa numa sequência também carregada dramaticamente, onde as razões para a traição de Almàsy são reveladas, deixando a plateia tão perplexa quanto aqueles que ouvem sua versão. Ao acompanharmos aquele homem enfrentando os mais cruéis obstáculos enquanto luta para cumprir sua promessa, o espectador se comove naturalmente, num final poético que foge do melodrama e mantém-se fiel ao tom empregado em todo o filme. Ele traiu seu grupo e o seu país pelo amor de Katharine e nós não podemos julgá-lo por isso, assim como não podemos julgar a reação intempestiva do marido traído. Assim somos nós, seres humanos repletos de falhas e virtudes.

Utilizando a guerra como pano de fundo para narrar uma bela história de amor, “O Paciente Inglês” é um bom representante dos épicos clássicos, que conseguem ser apaixonantes e grandiosos na medida certa. Talvez a chuva de prêmios que recebeu tenha prejudicado sua trajetória ao longo dos anos. Entretanto, se não mereceu sair ovacionado na noite do Oscar, o longa também não merece o injusto tratamento que recebeu após aquela noite.

Texto publicado em 18 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

Anúncios

NASCIDO EM 4 DE JULHO (1989)

(Born on the Fourth of July)

 

Videoteca do Beto #64

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Tom Cruise, Willem Dafoe, Kyra Sedgwick, Bryan Larkin, Raymond J. Barry, Caroline Kava, Tom Berenger, Josh Evans, Seth Allen, Jamie Talisman, Sean Stone, Anne Bobby, Jenna von Oi, Samantha Larkin, Erika Geminder, Kevin Harvey Morse, Jessica Prunell, Frank Whaley, Jason Klein, Jerry Levine, Lane R. Davis, Richard Panebianco, Johnny Pinto, Rob Camilletti, J.R. Nutti, Stephen Baldwin, Oliver Stone e Tom Sizemore.

Roteiro: Oliver Stone e Ron Kovic, baseado em livro de Ron Kovic.

Produção: A. Kitman Ho, Lope V. Juban Jr. e Oliver Stone.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Três anos depois de dirigir “Platoon”, o filme “definitivo” sobre a guerra do Vietnã, o diretor Oliver Stone volta ao tema para contar a “guerra após a guerra” com seu “Nascido em 4 de Julho”, belo drama baseado na história verídica de Ron Kovic, ex-combatente do Vietnã (assim como o diretor) gravemente ferido nos campos de batalha. A luta pessoal de Kovic para conseguir se readaptar a sociedade norte-americana após retornar paralítico do conflito e a sua gradual mudança de ideologia é o tema central do bom longa estrelado pelo então jovem astro Tom Cruise.

Jovem idealista e cheio de sonhos, o patriota Ron Kovic (Tom Cruise) deixa para trás a família e a namorada (Kyra Sedgwick) para lutar voluntariamente no Vietnã. Após se chocar com a triste realidade da guerra, ao ver crianças e mulheres vietnamitas assassinadas acidentalmente, Kovic é gravemente ferido e fica paraplégico. Pra piorar, seu retorno à pátria amada não será glorioso como ele imaginava e Kovic terá de enfrentar o preconceito e as dificuldades provocadas por sua condição física, o que faz com que ele passe a lutar também por seus direitos, agora negados pelo mesmo governo que o enviou para o Vietnã.

Personagem rico e complexo, Ron Kovic é interpretado com competência por Tom Cruise, numa das grandes atuações de sua carreira. A longa introdução de “Nascido em 4 de Julho” serve para criar empatia entre o espectador e o personagem principal, o que faz com que o espectador se importe com o destino do personagem. Nascido no dia da independência de seu país, o jovem Ron tem seu patriotismo reforçado durante o pomposo desfile do dia 04 de Julho, com centenas de bandeiras dos Estados Unidos, música típica norte-americana e o desfile de ex-combatentes do exército nacional. Nesta cena, aliás, vale observar como a câmera lenta de Stone realça um momento emblemático na vida do jovem Ron, auxiliado pela triste trilha sonora de John Williams, que indica o trágico destino do protagonista. Numa interessante rima narrativa, Ron sofrerá muitos anos depois um enorme choque diante da dura realidade quando estiver do lado de lá do desfile, sendo ele o “homenageado”, mas vendo diversas pessoas protestando enquanto desfila, e posteriormente, no discurso hipócrita dos governantes. Jovem determinado a honrar a tradição da família e “servir a pátria”, Ron deixa claro durante uma conversa com os amigos a respeito do alistamento voluntário como o governo utilizava o comunismo para influenciar os jovens a seguir para a guerra. Filho de pais religiosos e muito rígidos (ter a revista Playboy era um pecado mortal), o jovem via no exército a chance de ser alguém importante, o que não impede que ele se sinta aflito momentos antes de seguir para o Vietnã e deixar para trás família e namorada – e neste momento, Cruise transmite muito bem a aflição de Ron quando pede a orientação divina. O ator também demonstra com competência a aflição do personagem quando o padre lhe dá a extrema unção após ferir-se em combate, e novamente, quando o médico o deixa sozinho (“Eu quero minhas pernas!”). A boa atuação de Tom Cruise cresce ainda mais após a tragédia. Repare como ator transmite perfeitamente a revolta do personagem, além de demonstrar com muita veracidade a enorme dificuldade para se movimentar, imposta pela limitação física. A transformação ideológica de Ron, ilustrada até mesmo em seu visual, começa a dar sinais quando ele conversa com um amigo, também ex-combatente, e reflete sobre a validade de todo aquele sacrifício. Em seguida, começa a se afundar na bebida e externar sua revolta, o que resulta na cena mais impactante do filme, quando ele dispara contra a família, o governo e até mesmo contra Deus. Vale observar também como a cena é rica em detalhes, como a decepção de sua mãe, revoltada com as palavras do filho. Caroline Kava, aliás, se sai muito bem na pela da puritana Sra. Kovic, que coloca sua fé acima até mesmo do próprio filho. Completando o elenco, apesar de pequena, a participação do ótimo Willem Dafoe é marcante, transmitindo muito bem a revolta de Charlie pela vida que leva, como fica evidente na sensacional discussão entre ele e Ron na estrada. O longa conta ainda com pequenas aparições do ótimo Tom Berenger, como o Sargento Hayes, e do próprio Oliver Stone, como um repórter. Finalmente, Kyra Sedgwick vive o par romântico de Cruise, interpretando Donna de forma correta, mas sem grande destaque.

O bom roteiro de Oliver Stone e do verdadeiro Ron Kovic, baseado em livro do próprio Kovic, espalha diversas críticas à política belicista norte-americana, seja nas palavras do amigo Steve Boyer (Jerry Levine) sobre as mentiras do governo engolidas pelos jovens idealistas ou na reação do irmão de Ron assim que ele retorna paralítico. Após sua transformação, Ron também passa a questionar a guerra, resumindo em seu discurso para uma emissora de televisão a mensagem principal do longa. E neste discurso também estão as palavras de Stone, que aponta o dedo para os governantes americanos e diz que a guerra do Vietnã foi um erro, levando à morte de milhares de jovens inocentes a mais de 20 mil quilômetros de distância, enquanto os lideres do governo faziam discursos inflamados de terno e gravata. Por outro lado, o roteiro escorrega no melodrama, por exemplo, quando a mãe de Ron diz que sonhou com ele discursando igual ao presidente, com a melancólica trilha sonora ao fundo.

Mas se escorrega em alguns detalhes do roteiro, Oliver Stone compensa o espectador com uma direção impecável, conduzindo a narrativa com firmeza e estilo. Repare, por exemplo, como Stone mantém a câmera agitada durante o conflito, com closes da mata e dos soldados, aumentando a sensação de desorientação. Esta desorientação culmina com a imagem de Wilson (Lili Taylor) vindo contra o sol e sendo acidentalmente morto por Ron, numa tragédia que lhe incomodará pelo resto de sua vida (e Cruise também é competente na transmissão deste sentimento). O diretor cria ainda um impressionante plano quando Ron, atingido por um tiro no peito, cai na mata cuspindo sangue, realçando o impacto da cena através da câmera lenta e do plano da mão dele agarrada à mata, além de utilizar em diversos momentos uma câmera subjetiva, sob o ponto de vista dos personagens, como quando Ron chega ao baile ou quando sua mãe vai ao seu encontro em seu retorno. Esta técnica fica mais evidente quando o diretor mantém a câmera na linha de cintura dos personagens, algo que ocorre principalmente na seqüência do México, nos colocando na mesma situação de desconforto de Kovic. Finalmente, Stone cria ainda planos emblemáticos – como o rosto de Kovic refletindo numa foto, transmitindo a tristeza dele ao ver o passado, quando podia andar – e cenas belíssimas, como a dança entre Ron, molhado pela chuva, e Donna, seguida pelo beijo e a música triste que indicam uma despedida inconsciente do jovem àquela vida, ou a emblemática seqüência do massacre na aldeia vietnamita (que também acontece em “Platoon”), que provoca um choque no jovem Ron (“Nós fizemos isso?!”). Chocado também fica o espectador quando, já no final do filme, os policiais afastam de forma violenta os manifestantes, sem nenhum respeito pelo ser humano, agredindo até mesmo os deficientes físicos.

Ainda na parte técnica de “Nascido em 4 de Julho”, a montagem de David Brenner e Joe Hutshing conduz a narrativa em bom ritmo, apesar de alguns escorregões, como os desnecessários flashbacks de cenas que já vimos anteriormente (como as palavras da mãe de Ron repetidas quando ele caminha para discursar, na última cena do filme). A dupla também utiliza o fade em diversos momentos, escurecendo completamente a tela e refletindo o vazio dentro do coração de Kovic. Além disso, faz um interessante raccord sonoro no momento em que Ron deixa a casa dos Wilson, cortando para o mesmo Ron já entre os veteranos que protestam contra a guerra. A direção de fotografia de Robert Richardson cria um visual opaco no Vietnã, que destaca o amarelo e reforça a aridez do campo de batalha. Por outro lado, a fotografia fria e sem vida durante a infância de Kovic deixa claro que esta época é apenas uma lembrança distante na memória dele, contrastando muito bem com a fotografia vermelha do prostíbulo mexicano em que ele vive seu inferno astral. O trabalho de som é espetacular, captando todos os detalhes, como passos na grama, tiros, bombas, helicópteros e os gritos desesperados dos combatentes. E finalmente, as péssimas condições do hospital refletem o descaso do governo com os “heróis de guerra” – algo que fica evidente quando o médico diz que a verba foi reduzida – e revela o bom trabalho de direção de arte de Richard L. Johnson e Victor Kempster.

Quando o pai de Wilson (Tony Frank) diz com orgulho que a família lutou em todas as guerras em que o país se envolveu, “Nascido em 4 de Julho” está na verdade escancarando a necessidade norte-americana de se envolver em conflitos. Repare como Stone foca o neto dele com uma arma na mão quando o Sr. Wilson diz que “estamos sempre prontos para partir”, num plano simbólico que demonstra o tipo de pensamento que leva estes jovens ao conflito e a morte. Por outro lado, o velho Wilson se redime quando diz que nunca vai entender esta guerra, resumindo também o pensamento dos dois roteiristas do longa. Nesta conversa, aliás, Stone coloca Ron no canto da tela, mostrando como ele está claramente intimidado naquele ambiente, em outro momento de destaque na emocionada atuação de Cruise. Ron precisava aliviar sua alma, aflita desde o momento em que disparou acidentalmente contra Wilson. Stone também precisava dizer ao mundo a verdade sobre a guerra do Vietnã, e fez isso com competência por duas vezes, em trabalhos que se complementam.

Oliver Stone confirma que é um diretor competente e, acima de tudo, corajoso ao tocar novamente na ferida norte-americana provocada pela guerra do Vietnã. Com um roteiro audacioso, ainda que tenha problemas, e uma grande atuação de Tom Cruise, “Nascido em 4 de Julho” consegue transmitir a mensagem que deseja, tocando o espectador e principalmente, abrindo os olhos para a triste realidade da guerra, aquela que não aparece nas propagandas e discursos inflamados de governantes. Felizmente, o cinema se encarregou de mostrar a realidade ao longo dos anos através de obras marcantes como esta.

Texto publicado em 07 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

PLATOON (1986)

(Platoon)

 

Videoteca do Beto #45

Vencedores do Oscar #1986

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Tom Berenger, Willem Dafoe, Charlie Sheen, Forest Whitaker, Francesco Quinn, John C. McGinley, Richard Edson, Kevin Dillon, Reggie Johnson, Keith David, Johnny Depp, David Neidorf, Mark Moses, Chris Pedersen, Tony Todd, Corkey Ford, Dale Dye e Oliver Stone.

Roteiro: Oliver Stone.

Produção: Arnold Kopelson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo de suas primeiras imagens, “Platoon”, maravilhoso e verdadeiro retrato do que foi a guerra do Vietnã dirigido por Oliver Stone, deixa claro uma das grandes perdas da guerra. A frase bíblica “Jovem, regozija-te na juventude” faz questão de reforçar que a juventude e a inocência que ela carrega são deixadas no combate, independente da sobrevivência ou não daqueles jovens que são enviados para o fronte.

O jovem e idealista Chris (Charlie Sheen), insatisfeito com a vida comum que seus pais queriam que vivesse, decide se tornar voluntário na guerra do Vietnã e defender seu país como o pai e o avô fizeram em outras guerras. Mas aos poucos, a convivência com o pelotão liderado por Barnes (Tom Berenger) e Elias (Willem Dafoe) e a terrível violência sem sentido da guerra vão alterando completamente sua visão do mundo.

Oliver Stone dirige “Platoon” com conhecimento de causa, já que o diretor é um ex-combatente da guerra do Vietnã. Não à toa, o excelente roteiro escrito por ele próprio escancara os conflitos internos do pelotão, jamais sendo ufanista ou maniqueísta e fazendo questão de mostrar os norte-americanos como seres humanos normais, que cometem erros e acertos e chegam até mesmo a ser cruéis em determinados momentos, como na chocante cena em que atacam uma aldeia. Stone utiliza ainda o inteligente artifício de expor os pensamentos de Chris através das cartas que envia para a avó, fazendo com que o espectador saiba o que ele pensa sem que a narração soe falsa ou deslocada. Repare como os pensamentos cessam subitamente a partir do momento em que Chris deixa de enviar as cartas, pois o jovem percebe que aquilo não fazia mais sentido e corta sua ligação com o mundo exterior.

Stone é ainda mais competente na direção, utilizando a câmera panorâmica com freqüência para ambientar o espectador dentro da hostil selva que o pelotão vai desbravando e alternando o movimento com closes das folhas e árvores, fazendo com que o incômodo seja praticamente palpável ao caminhar pela mata. Colabora na ambientação o excepcional trabalho de som, perfeito desde os pequenos insetos, cigarras e pés estalando folhas no chão até os muitos tiros e bombas explodindo durante os combates. Aliás, o diretor também mostra sua competência nestas seqüências de combate – auxiliado pela boa montagem de Claire Simpson – alternando o close no rosto dos angustiados soldados com planos que demonstram o ponto de vista deles, buscando desesperadamente encontrar o inimigo entre as brechas da floresta e ao mesmo tempo, tentando se proteger dos ataques. Neste sentido, vale destacar o tenso primeiro contato entre o pelotão e os vietnamitas, extremamente bem dirigido por Stone, deixando o espectador lado a lado com Chris, que está distante de sua arma e das granadas, enquanto nota a aproximação dos nativos disfarçados com galhos de árvore presos aos capacetes. Outro grande momento é a triste seqüência da queima da aldeia, exemplificando perfeitamente a insanidade da guerra. “Platoon” também é extremamente realista na forma como retrata os feridos em combate, não aliviando em nada o desagradável resultado de toda aquela carnificina. Finalmente, é importante ressaltar a excelente direção de fotografia de Robert Richardson, que adota um tom obscuro e torna ainda mais sombrias as cenas noturnas, e que mesmo durante o dia, onde destaca a cor verde, mantém a paleta escura refletindo o clima melancólico do longa.

Inconformado por saber que somente os jovens da base da pirâmide social eram enviados para a guerra, Chris decide abandonar os estudos e tornar-se voluntário, o que faz um companheiro de Vietnã questionar sua sanidade (“Só sendo rico para pensar assim”. “Os ricos pisam nos pobres. Sempre foi assim e sempre será”). Mas infelizmente, a inocência é mesmo a primeira vítima da guerra. Jovem de boa formação e idealista, Chris percebe durante sua passagem pelo Vietnã que “defender o país” não é algo tão nobre assim. Charlie Sheen retrata com precisão a gradual transformação de Chris, que chega até mesmo a perder a cabeça quando atira em um deficiente físico vietnamita para fazê-lo dançar, mas se redime momentos depois ao interromper um estupro coletivo de garotas nativas. Esta cena, vale lembrar, contém uma pequena pérola do roteiro, que capta muito bem a mensagem anti-bélica do filme, quando um dos soldados questiona “Você é homossexual? Ela é uma vietnamita!”, e Chris responde: “Ela é um ser humano!”. No reencontro entre Barnes e Chris, logo após a morte de Elias, Sheen demonstra com o olhar sua raiva, explodindo segundos depois contra o sargento vivido por Berenger (“A verdade está no olhar”). Tom Berenger, aliás, que é o grande destaque do longa, com uma atuação firme e assustadora, que atinge seus melhores momentos na rígida discussão que tem com o sargento Elias e na seqüência em que escuta alguns soldados falando em matá-lo (“Estão falando em matar?”), onde com o olhar firme, questiona a fuga da realidade daquele grupo (“Vocês fumam pra fugir da realidade? Eu sou a realidade”). O seco sargento Barnes é um homem transformado pela guerra, alguém que acredita cegamente que está agindo de forma correta, mesmo que para isto tenha que matar pessoas inocentes. Sua personificação do terror chega ao auge no plano em que se prepara para matar Chris. Ironicamente, Barnes falha e acaba sendo vítima do garoto, que por sua vez, completa ali sua total transformação.

Willem Dafoe também se destaca como o sargento Elias, que após tanto tempo em serviço, simplesmente perdeu a motivação e já não mais acredita na finalidade de tudo aquilo, como deixa claro em um diálogo que tem com Chris. Neste mesmo diálogo, Elias reflete também a perda da inocência do povo americano, simbolizada historicamente no conflito do Vietnã (“Já maltratamos tantos outros povos. Acho que agora chegou a nossa vez”). Além da citada discussão com Barnes, em que Dafoe também se destaca, um plano em especial merece ser citado em sua atuação. Segundos antes de ser baleado pelo sargento rival, o incrédulo Elias muda o olhar e pressente o ataque, e Stone – através de um close em seus olhos – capta o momento inspirado de Dafoe com precisão. Surpreendentemente, Elias sobrevive, somente para morrer depois num ataque em massa dos vietnamitas, em outro plano de grande impacto acompanhado pela melancólica trilha sonora de Georges Delerue. Completam o elenco, entre outros, Forest Whitaker e Johnny Depp (em papéis menores), além do próprio Oliver Stone, que faz uma pequena participação já na seqüência final.

Por tudo isto, “Platoon” pode ser considerado um retrato fiel do que foi a guerra do Vietnã, exposto por alguém que esteve lá dentro de fato, e por isso, sabe como ninguém os efeitos causados pelo conflito na mente do ser humano. Retratada também com competência em outros grandes filmes, como Apocalypse Now (de Francis Ford Coppola), esta guerra parece ser mesmo a ferida aberta no país mais poderoso do mundo atualmente. Ou pelo menos era, até o fatídico dia 11 de Setembro de 2001, que curiosamente, gerou novos conflitos envolvendo os Estados Unidos da América, e provavelmente, gerará novos “Oliver Stone” no futuro.

“Platoon” revela a visão peculiar de Oliver Stone sobre o confronto mais marcante na vida dos norte-americanos. Mas as marcas deixadas no povo, por mais profundas que sejam, não se comparam às marcas deixadas nos combatentes que sobreviveram e levaram consigo aquelas tristes memórias. Os dois momentos marcantes da passagem de Chris pelo Vietnã – a morte de Elias e a saída do Vietnã – acontecem em sobrevôos idênticos, acompanhados pela mesma melancólica trilha sonora. E no segundo vôo, a imagem dos corpos jogados no enorme buraco é simplesmente perturbadora. Nas palavras finais dele, “a guerra acabou, mas aquelas imagens ficarão pra sempre em sua memória”. E ficarão também na memória do espectador, assim como o competente filme dirigido por Oliver Stone.

Texto publicado em 13 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira