O POVO CONTRA LARRY FLYNT (1996)

(The People vs. Larry Flynt)

Videoteca do Beto #143

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Woody Harrelson, Courtney Love, Edward Norton, Brett Harrelson, Donna Hanover, James Cromwell, Crispin Glover, Vincent Schiavelli, Miles Chapin, James Carville, Richard Paul e Burt Neuborne.

Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski.

Produção: Michael Hausman, Oliver Stone e Janet Yang.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Numa época em que deputados tentam proibir a exibição de filmes no Brasil, nada melhor do que recordar a trajetória do exótico editor da revista Hustler, adaptada para os cinemas neste excelente “O Povo contra Larry Flynt”. Sendo assim, não deixa de ser curioso que somente agora eu possa escrever sobre o filme, já que originalmente eu pretendia terminar 1996 ainda no primeiro trimestre deste ano, quando a polêmica envolvendo o filme “TED” sequer existia e a discussão sobre “Um Filme Sérvio” já fazia parte do passado. Dirigido pelo ótimo Milos Forman, o longa tem todos os ingredientes necessários para provocar polêmica (algo que certamente atraiu a atenção do produtor Oliver Stone), misturando temas bombásticos como religião, política e pornografia.

Baseado na biografia de Larry Flynt, o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski narra a trajetória do editor da revista Hustler, que rivalizou com a Playboy ao apresentar pornografia explícita e se transformou numa verdadeira febre nos anos 70. Após o sucesso, Larry (Woody Harrelson) tornou-se um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, casou-se com a ex-prostituta Althea (Courtney Love) e, ao lado do irmão Jimmy (Brett Harrelson), construiu um verdadeiro império, mas também sofreu pesados processos judiciais e até mesmo um atentado por causa disto. Coube então ao jovem advogado Alan Isaacman (Edward Norton) a árdua missão de defendê-lo nos tribunais.

Se existe um tema que ainda é tabu na nossa sociedade, este tema é o sexo. Mesmo quando tratamos apenas da nudez, muitas pessoas ainda se comportam como se estivessem diante da maior das aberrações, num comportamento puritano que muitas vezes é proporcionalmente inverso ao que elas de fato sentem. Aproveitando-se deste interessante traço da sociedade e com o auxilio do material original que inspirou a obra, o afiado roteiro de “O Povo contra Larry Flynt” é repleto de discursos no mínimo interessantes, como aquele em que Larry constrói um raciocínio divertidíssimo a respeito da origem do homem, da mulher e, consequentemente, do órgão genital feminino. Outro discurso marcante é aquele em que Larry questiona porque as pessoas consideram o sexo obsceno, mas aceitam os horrores da guerra, levando o espectador a uma importante reflexão. Entretanto, entre todos os discursos, aquele que melhor resume a mensagem do longa acontece quando Isaacman ilustra para o júri como a censura pode significar o fim da liberdade de toda a sociedade, trabalhando como um vírus que começa agindo em coisas pequenas e se agiganta com o passar do tempo – uma discussão, aliás, que é muito bem vinda atualmente após os episódios envolvendo “Um Filme Sérvio” e “TED”.

Censura pode significar o fim da liberdadeA fórmula do sucesso do longa, entretanto, vai além do ótimo roteiro, passando diretamente pela escolha de diretor e elenco. Historicamente, personagens excêntricos sempre despertaram o interesse de Forman (lembre-se de “Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”), que, por sua vez, sempre demonstrou competência para extrair atuações marcantes de seus protagonistas. Se considerarmos ainda que poucos atores poderiam encarnar Larry Flynt com a mesma desenvoltura de Woody Harrelson, temos a combinação perfeita para dar vida ao folclórico personagem nas telonas. Debochado e expressivo, o ator se sai muito bem na pele do polêmico editor, chamando a atenção pelo comportamento excêntrico nos tribunais, pela relação nada convencional com Althea e pela decadência gradual que transforma Flynt a partir do acidente e que o ator demonstra muito bem (repare como até sua voz muda após a cirurgia).

Aliás, a breve introdução na infância de Larry já nos apresenta um importante traço de sua personalidade: ele fará qualquer coisa para ter sucesso comercialmente. Por isso, chega a ser brilhante o momento em que Forman traz Flynt em primeiro plano e uma cruz vermelha no segundo, indicando que aquela decisão seria trágica para o futuro dele. E não é apenas neste momento que o aspecto visual diz muito sobre o personagem, já que os objetos eróticos espalhados por seu escritório (design de produção de Patrizia von Brandenstein) e as roupas que ele usa nos julgamentos (“Fuck this court”) só confirmam sua personalidade conturbada (figurinos de Arianne Phillips e Theodor Pistek). Neste sentido, o Jimmy Flynt de Brett Harrelson mostra-se o contraponto ideal para que o espectador não seja totalmente influenciado pela visão de Larry, funcionando como o outro lado da moeda em diversas situações, já que ele é o único membro da equipe capaz de questionar as ideias do irmão.

Se considerarmos seu comportamento fora dos palcos, não chega a ser surpreendente o bom desempenho de Courtney Love na pele da maluca Althea Flynt. Ainda assim, pouca gente poderia esperar uma atuação tão segura da cantora, que demonstra a degradação da personagem com precisão na medida em que o tempo passa, chegando até mesmo a emagrecer sensivelmente e a falar com mais dificuldade no ato final, quando já está infectada com o vírus da AIDS. E finalmente, para viver um advogado jovem e promissor, ninguém melhor que um ator igualmente jovem e promissor como Edward Norton, que interpreta Isaacman com uma desenvoltura notável, demonstrando com competência como o advogado se sente desnorteado diante de seu cliente, parecendo incapaz de prever quais serão seus próximos passos mesmo convivendo o tempo todo com ele. Ainda assim, Norton acerta o tom quando Isaacman se revolta com Larry, finalmente se impondo diante dele, além de nos convencer plenamente durante os julgamentos de que Isaacman defenderá até o fim o direito de Larry se manifestar, ainda que não goste do resultado do trabalho dele.

Ciente de que todo cuidado é pouco numa biografia, Forman não teme explorar o lado cômico de seu protagonista, criando sequências hilárias como aquela em que Larry é cercado pelo FBI em sua mansão e acompanha tudo enlouquecido pela televisão até finalmente ser preso. Em outro momento, logo após Larry afirmar que mudará para onde os pervertidos são bem vindos, temos a imagem dos famosos letreiros de Hollywood, numa transição divertida que conta com o trabalho do montador Christopher Tellefsen. Saltando de tempos em tempos de maneira episódica (até mesmo letreiros são utilizados para indicar a passagem do tempo), Tellefsen compensa este erro com muito dinamismo na primeira metade do longa, mantendo a atenção do espectador até o instante em que Larry é baleado. Desde então, o filme sofre uma queda sensível no ritmo, tornando-se um pouco arrastado ao focar demasiadamente nos julgamentos e na decadência do casal.

Demonstrando visualmente esta decadência através do quarto escuro e sombrio em que eles passam os últimos dias juntos, Forman chega ao auge na chocante cena da morte de Althea, criando um plano assustador com a moça afogada dentro da banheira, seguido pelo tocante choro desesperado de Larry (num dos inúmeros momentos inspirados de Harrelson). Entretanto, esta abordagem sombria destoa do restante do longa. Buscando ilustrar a mente criativa de seu protagonista, a fotografia de Philippe Rousselot abusa de cores vivas, priorizando sempre que possível as cores da bandeira norte-americana, o que, somado a trilha sonora repleta de músicas típicas do país de Thomas Newman, reforça o sentimento nacionalista tão evidente no longa. Mas isto tudo tem um propósito. Lembre-se que Milos Formam é tcheco e, portanto, não teria razão alguma para exaltar o ufanismo. Na verdade, sua intenção é espelhar as ações de seu protagonista e tocar na ferida da nação mais poderosa do mundo. Afinal de contas, como um país que diz prezar tanto pela liberdade pode ser tão preconceituoso? Existe uma sequência em especial que, sutilmente, indica como o radicalismo tem grande espaço na sociedade norte-americana, quando, em questão de segundos, os integrantes da equipe de Larry levantam suspeita sobre diversos grupos distintos como a máfia, a KKK e até mesmo a CIA.

Entre todos estes grupos, os fanáticos religiosos são os que ganham mais espaço em “O Povo contra Larry Flynt”. Sem medo de tocar num tema tão polêmico, Forman aproveita muito bem a história verdadeira do personagem para nos levar a interessantes reflexões. E ainda que tenha um tom folclórico em diversos instantes, o longa não hesita em criticar acidamente algumas instituições religiosas norte-americanas. Chega a provocar náuseas a forma como o reverendo Jerry Falwell usa a morte de Althea para se promover, num comportamento que não é unânime, mas que se repete em muitas das instituições religiosas contemporâneas, contrariando um dos ensinamentos básicos do Cristianismo que é a compaixão. Por outro lado, a sequência final na suprema corte dos EUA tem um tom leve e descontraído que encerra bem o filme, ainda que as lembranças de Larry confiram um tom nostálgico ao ato final.

Com muito talento, “O Povo contra Larry Flynt” transporta para o cinema o espírito controverso de seu protagonista, levando o espectador a refletir sobre sua trajetória e, o que é mais interessante, a debater sobre conceitos importantíssimos da nossa sociedade. Podemos detestar a obra de qualquer pessoa, mas jamais devemos impedi-la de realizar seu trabalho. É neste direito que reside à essência da liberdade.

Texto publicado em 26 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira

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