A MALVADA (1950)

(All About Eve)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Filmes em Geral #100

Vencedores do Oscar #1950

Dirigido por Joseph L. Mankiewicz.

Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Gregory Ratoff, Barbara Bates, Marilyn Monroe e Thelma Ritter.

Roteiro: Joseph L. Mankiewicz, baseado em argumento de Mary Orr.

Produção: Darryl F. Zanuck.

A Malvada[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Assim como sua personagem, Bette Davis já era uma estrela em decadência quando aceitou participar da obra-prima “A Malvada”, longa de Joseph L. Mankiewicz que utiliza o mundo do teatro para retratar com precisão os bastidores do show business de maneira geral. Contando com um elenco formidável, uma atuação antológica de Davis e apoiando-se ainda em seu ótimo roteiro, o diretor entregou um filme memorável, que merece lugar de destaque entre as grandes obras já produzidas pela sétima arte.

Escrito pelo próprio Mankiewicz baseado em conto de Mary Orr, “A Malvada” narra à trajetória de ascensão meteórica de Eve Harrington (Anne Baxter), uma fã da grande estrela do teatro Margo Channing (Bette Davis) que alcançou o estrelato e venceu o respeitado prêmio Sarah Siddons após se envolver com a própria Margo, o marido dela e diretor Bill Sampson (Gary Merrill), sua grande amiga Karen Richards (Celeste Holm), o esposo dela e roteirista Lloyd Richards (Hugh Marlowe) e, finalmente, o crítico Addison DeWitt (George Sanders).

Empregando uma direção clássica e sem firulas que busca valorizar seu talentoso elenco, Mankiewicz demonstra desde o princípio que sabe muito bem onde reside a maior força de “A Malvada”. Não que o longa não tenha aspectos técnicos interessantes, como a fotografia de Milton Krasner que, após iniciar com um visual mais claro e limpo, lentamente vai se tornando mais obscura, simbolizando o lado negro de Eve que aflora com o passar do tempo. Além disso, os charmosos ternos e vestidos que desfilam pela festa na casa de Margo, as roupas e objetos espalhados pelo teatro, a decoração do camarim e a própria roupa simples que Eve veste quando surge pela primeira vez realçam o bom trabalho da figurinista Edith Head e da direção de arte de George W. Davis e Lyle Wheeler.

No entanto, é mesmo no talento de seu elenco e no impecável roteiro que “A Malvada” se ampara. Adotando uma curiosa narração que inicia na voz do crítico DeWitt, passa por Karen no início de um flashback, passa por Margo e volta para DeWitt, o roteiro chama a atenção não apenas pelos diálogos extremamente bem construídos, mas também por sua estrutura narrativa perfeita. De cara, enquanto o apresentador da cerimônia de premiação tece elogios para a jovem Eve, as expressões no rosto de quem conviveu com ela indicam a desaprovação de todos, que se confirma quando Karen e Margo não aplaudem a vencedora do prêmio. Desde então, a estrutura narrativa criada por Mankiewicz deixa claro que o importante não é saber que Eve chegou ao estrelato, mas sim mostrar “como” ela chegou lá. Neste caso, os meios interessam mais do que o fim.

Também é importante compreender que “A Malvada” se passa numa época em que os produtores eram poderosos e os atores eram as grandes estrelas do teatro, como notamos quando DeWitt diz que os “prêmios menores” eram dados para diretores e roteiristas, algo que também ocorria no cinema – somente na Nova Hollywood é que os diretores de cinema se tornariam poderosos nos EUA. Por isso, o longa tem até mesmo um caráter metalinguístico, já que a personagem interpretada pela excepcional Bette Davis era, de certa forma, um retrato da própria estrela decadente do cinema.

Assumindo o papel de Margo Channing com paixão e talento, Davis interpreta a grande estrela do teatro da época que acolhe inocentemente a jovem Eve somente para vê-la tomar seu lugar num curto espaço de tempo. Surgindo confiante e imponente, Margo lentamente vai sendo minada pela situação, ainda que durante o processo ela lute contra tudo e contra todos para permanecer em alta. Ilustrando este processo de degradação com precisão, Davis oferece uma atuação soberba, recheada de momentos antológicos como o tocante monólogo num carro em que ela fala sobre a “carreira de mulher”. Inicialmente tratando Eve como uma simples fã, ela começa a perceber que a garota não é tão ingênua quando a surpreende se imaginando no palco com um vestido dela. Com a convivência, Margo começa a desconfiar de Eve e as expressões de Davis indicam claramente sua mudança de pensamento em relação à garota, reforçada pelas insinuações de sua assistente Birdie. Desconfiada e dona de um humor negro impagável, a ótima Thelma Ritter faz de Birdie o alívio cômico que serve ainda como alerta para o espectador sobre as reais intenções de Eve.

Confiante e imponente MargoCarreira de mulherEve conta sua história de vidaA atuação de Anne Baxter como Eve é igualmente fabulosa. No início, sua fala contida e em tom baixo e o olhar que evita o contato direto com as pessoas criam um contraponto interessante ao olhar superior e confiante da estrela Margo. Só que, embalada pela trilha sonora melancólica de Alfred Newman, Eve conta sua história de vida e, com seu carisma, rapidamente ganha à atenção de todos. Com jeitinho e muito cuidado, ela vai pavimentando seu caminho para o sucesso, ainda que para isto tenha que passar por cima dos outros. Astuta, Eve raramente deixa transparecer suas reais intenções e seu desejo de tornar-se uma estrela, como acontece durante a festa na casa de Margo, quando se empolga sem perceber ao falar sobre os aplausos da plateia. Quando finalmente substitui Margo numa peça, Eve assume sua verdadeira personalidade e Baxter já surge confiante, com o olhar penetrante e a voz firme, sentindo-se capaz até mesmo de seduzir Bill. Não bastava substituir a estrela, ela queria ter tudo que Margo tinha. Esta transformação chega ao auge na excelente cena em que Eve ameaça Karen no banheiro e exige o papel de Cora, surgindo totalmente confiante e persuasiva, com um olhar insinuante que mostra como ela é capaz de fazer qualquer coisa para chegar aonde quer.

Após roubar o estrelato de Margo e tentar roubar até mesmo seu marido, Eve parte para conquistar Lloyd, pensando exclusivamente nos benefícios que esta união traria para sua carreira. E, obviamente, esta jornada trouxe consequências muito graves para todos os envolvidos, gerando discussões calorosas que começam na citada festa na casa de Margo, onde Bette Davis dispara a célebre frase: “Apertem os cintos, esta será uma noite turbulenta”. Comprovando seu controle da misè-en-scene, Mankiewicz extrai ótimas atuações de todo o elenco nestes momentos, como na feroz discussão após um teste em que Eve substitui Margo, onde a guerra de egos entre diretor, roteirista e atriz dá espaço para acusações pesadas enquanto Eve, que provocou tudo aquilo, sai de fininho – observe como após a discussão, Mankiewicz diminui Margo na tela, num plano que indica o início de sua decadência.

Ainda entre os destaques do elenco, Gary Merrill se sai muito bem nas realistas discussões entre Margo e o marido Bill, enquanto Celeste Holm confere humanidade a Karen ao demonstrar seu arrependimento por trair a amiga e, especialmente, quando ri aliviada no jantar após Margo anunciar que não quer mais o papel de Cora. Já Hugh Marlowe ilustra bem como Lloyd é lentamente hipnotizado por Eve, enquanto a linda Marilyn Monroe tem uma rápida participação como uma aspirante ao estrelato que é massacrada por Eve num teste. E finalmente, George Sanders quase rouba a cena como o crítico DeWitt, demonstrando na expressão de seu rosto que desconfia da história contada por Eve desde o princípio e protagonizando a memorável cena em que desmascara a garota e mostra que nem todos caíram na lábia dela.

Confiante, olhar penetrante e voz firmeRi aliviada no jantarCrítico DeWittAliás, é incrível como o tema de “A Malvada” continua atual. Não são raras as ocasiões em que jovens passam por cima de todos para alcançarem o sucesso, não apenas no meio artístico, mas em quase todas as profissões. É possível até mesmo traçar um paralelo entre a trajetória de Eve e a postura de “carreiristas” no meio corporativo. Quem já trabalhou em grandes corporações sabe como este tipo de comportamento é comum e, o que é pior, normalmente é recompensado. Pessoas que fingem serem totalmente altruístas, mas que estão à espreita da primeira oportunidade para chegarem ao topo, independente dos meios que utilizem para isto.

Repleto de diálogos memoráveis e atuações exuberantes, “A Malvada” é destes filmes que não envelhecem. E se o talento de todos os envolvidos é responsável direto por isso, seu tema principal também colabora bastante, já que a ambição pelo sucesso é algo que o ser humano naturalmente carrega, ainda que nem todos precisem de ferramentas tão sujas quanto às utilizadas por Eve Harrington para serem bem sucedidos. Ainda que tenha pisado em todos ao seu redor, Eve de fato chegou ao topo, mas neste mundo tudo é passageiro e a ótima sequência final ilustra que sempre existirão novas “Eves”.

A Malvada foto 2Texto publicado em 19 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

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2 Respostas to “A MALVADA (1950)”

  1. Janerson Says:

    Olá Roberto. A Malvada é um filme atemporal e nos dá a ideia que na selva da vida o mais forte e mais esperto prevalece. Todo o elenco está ótimo. Bette Davis mostra porque é uma das maiores atrizes de todos os tempos. Anne Baxter está ótima como a dissimulada Eve e os demais atores são competentes coadjuvantes dessa história rica e com roteiro bem desenvolvido. realmente uma obra-prima do cinema.
    Abraço.

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