Posts Tagged ‘Charles Chaplin’

O CIRCO (1928)

20 outubro, 2010

(The Circus)

 

Filmes em Geral #18

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Henry Bergman, Tiny Sandford, Al Ernest Garcia, George Davis, Merna Kennedy, Harry Crocker, John Rand e Steve Murphy.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Certamente um dos longas mais engraçados da carreira de Charles Chaplin, “O Circo” destaca-se pelas divertidas gags visuais, mas abre espaço também para pequenas reflexões, ainda que de maneira leve e descontraída. A inspiração e o talento deste genial ator e diretor para provocar o riso podem ser comprovados neste divertido filme, que antecedeu aquelas que talvez sejam as maiores obras da carreira deste inglês que marcou a história da sétima arte e da própria humanidade.

Enquanto fugia da policia ao ser confundido com um ladrão de carteiras, o vagabundo (Chaplin) invade acidentalmente um circo e, com seu jeito desajeitado, acaba arrancando gargalhadas do público presente. Logo em seguida, acaba sendo contratado pelo dono do espetáculo (Al Ernest Garcia), que irá se aproveitar do talento dele para salvar o circo da falência. Mas o destino fez com que o vagabundo cruzasse o caminho da filha do proprietário (Merna Kennedy) e se apaixonasse por ela.

“O Circo” é, acima de tudo, uma comédia bastante eficiente. Por isso, as gags visuais estão presentes com força total e, reforçadas pelo talento de Chaplin na expressão corporal, tornam o filme um dos mais engraçados de sua carreira, com destaque para as cenas anteriores à contratação do vagabundo pelo circo. O filme tem todas as características dos tempos de cinema mudo, com trilha sonora presente em todo tempo e letreiros mostrando os principais diálogos na tela, algo que Chaplin lentamente abandonaria em seus filmes posteriores. E apesar de destacar-se como um filme de humor, o longa apresenta muitas das principais características do cinema de Chaplin, como seu costumeiro problema com os guardas e sua eterna luta para conseguir comida, que aparecem principalmente nas cenas do lado externo do circo.

Entre as cenas mais divertidas, destaca-se a primeira entrada de Carlitos no circo. A seqüência de gags é tão bem elaborada e coordenada que é praticamente impossível não gargalhar, por mais mal humorada que a pessoa seja. Mas as cenas engraçadas não se resumem a esta entrada, como podemos notar na divertidíssima cena em que o vagabundo tenta dar uma pílula para um cavalo doente. Já a cena da jaula do leão consegue ser ao mesmo tempo engraçada e tensa, dado o perigo potencial da situação. É interessante notar também como através da comédia, Carlitos revela ao público alguns truques do circo, como o botão que liberta os animais na mesa. Mas o talento de Chaplin não se resumia somente ao humor, e o seu lado humano aparece em duas cenas especiais. A primeira delas acontece quando o vagabundo se comove com a fome da jovem moça e dá sua comida pra ela, enquanto a segunda ocorre no final altruísta, quando Carlitos leva o equilibrista até a jovem moça, abrindo mão de sua paixão para vê-la feliz. E apesar do tom mais leve e descontraído, o roteiro de “O Circo” não deixa de criticar o capitalismo (algo sempre presente nos filmes de Chaplin) ao mostrar a dificuldade do vagabundo passando fome e, posteriormente, os trabalhadores abandonando o emprego por não receber salário.

Como podemos notar, Chaplin tinha o incrível talento de transformar narrativas simples em filmes fascinantes, mas também mostrava competência na parte técnica, como na cena dos espelhos, filmada de um ponto fixo, mas jamais mostrando onde está localizada câmera, o que sempre impressiona em planos feitos diante do espelho. Chaplin também utilizava bem o truque de câmera, uma espécie de efeito visual, como por exemplo, na cena em que ele “sai do corpo” e mostra sua intenção de bater no equilibrista. Ele não faz questão de esconder seu ciúme, num comportamento inocente como o de uma criança, algo que se repete quando ele ri ao ver Rex (Harry Crocker) balançando na corda. Seu Carlitos era puro e simples como uma criança, o que explica a facilidade com que ele conquista o publico infantil. E até mesmo nos movimentos de câmera Chaplin mostra habilidade, criando cenas lindas como o plano geral onde podemos ver o vagabundo se equilibrando na corda e todo o público embaixo dele torcendo por seu sucesso. A montagem dinâmica (sempre dele, Chaplin) também colabora com o ritmo ágil da narrativa, além de trabalhar no melhor estilo Chaplin, com a imagem seguinte muitas vezes complementando o sentido da cena anterior, como quando o público pede pelo “homem engraçado” e, no plano seguinte, vemos Carlitos deitado dormindo. Fechando a parte técnica, a trilha sonora composta por Chaplin é divertida e coerente com a leveza da narrativa.

É desnecessário dizer que Chaplin dá outro show de atuação em “O Circo”. Poucos atores da história tinham tanto talento para demonstrar através de expressões corporais os sentimentos do personagem e, além disso, provocar o riso genuíno no espectador, como podemos notar na cena do ensaio do número da barbearia, entre tantas outras. O dono do circo, interpretado de maneira ríspida por Al Ernest Garcia, explora o talento de Carlitos sem que ele saiba que é a estrela do espetáculo e, conseqüentemente, cobre por isso. Ironicamente, quando desperta para isto (graças à filha do proprietário do circo, interpretada por Merna Kennedy), recebe pelo que vale e salva o circo da falência, lotando as arquibancadas. Note como até mesmo o dono do circo fica menos estressado quando o circo começa a render o esperado, tratando melhor os funcionários. Mas a chegada do equilibrista representa a desilusão amorosa do vagabundo e o fim da felicidade dele, algo que se reflete imediatamente em seu rendimento no palco. Como conseqüência, o dono do circo ameaça demiti-lo, esquecendo-se que ele era o responsável por salvar o circo. Gratidão não é algo comum no mundo dos negócios, e Chaplin, feroz crítico do capitalismo, sabia disto. Basicamente, o lema é “deixou de render, não serve mais”. O belo final, com o vagabundo abrindo mão de seguir com o circo, tem também uma rima narrativa com o primeiro plano do filme, com Carlitos segurando a estrela que inicia “O Circo”.

Ainda que não tenha o poder de emocionar de “Luzes da Cidade” e o mesmo subtexto crítico de “Tempos Modernos” ou “O Grande Ditador”, “O Circo” é uma comédia eficiente, que conta com muitas das principais qualidades do cinema de Chaplin. Se não deixa uma mensagem profunda ou provoca grande reflexão, ao menos diverte com competência o espectador, graças ao enorme talento de seu realizador.

Texto publicado em 20 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

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EM BUSCA DO OURO (1925/1942)

19 outubro, 2010

(The Gold Rush)

 

Filmes em Geral #17

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Mack Swaim, Tom Murray, Henry Bergman, Malcolm Waite e Georgia Hale.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre todas as suas memoráveis obras, Chaplin afirmava ter um carinho extremamente especial por este “Em Busca do Ouro”, uma fábula maravilhosa que relata, de maneira bem humorada, os perigos da chamada corrida do ouro, que motivou multidões a arriscar a vida em busca do sonho de conseguir riqueza através deste precioso metal. Leve e descontraído, o longa consegue balancear muito bem o humor e o drama, algo recorrente na marcante carreira deste memorável cineasta.

Em 1898, milhares de pessoas partem para a serra nevada na tentativa de encontrar ouro, buscando garantir riqueza e conforto pelo resto de suas vidas. Entre estes garimpeiros e aventureiros, encontra-se o vagabundo (Chaplin), que acidentalmente vai parar na cabana do garimpeiro Larsen (Tom Murray) ao lado do gordo Jim McKay (Mack Swaim), conhecido como “Big Jim”. Juntos, eles criam muita confusão e, após uma forte tempestade de neve, o vagabundo conhece a dançarina Georgia (Georgia Hale), por quem se apaixona perdidamente.

A idéia de realizar “Em busca do ouro” surgiu quando Chaplin leu uma reportagem sobre a chamada “corrida do ouro”, em que legiões de pessoas partiam em busca de riqueza, dispostas a enfrentar o frio, a fome e a natureza agressiva da serra nevada. Esta reportagem se transformou num dos primeiros e mais belos planos do longa, onde podemos ver milhares de pessoas subindo o monte coberto de neve, com a esperança de que este sacrifício seja recompensado por uma vida confortável após encontrar o desejado ouro. Chaplin gostou tanto do resultado final que o filme foi relançado 17 anos depois, com a rápida voz de Chaplin substituindo os diálogos na tela. A versão de 1942, no entanto, teve algumas cenas retiradas na montagem, como o beijo final entre Carlitos e Georgia, resultando numa versão um pouco menor que a original.

Charles Chaplin novamente assumiu a responsabilidade pela direção, roteiro, montagem e trilha sonora, além é claro de atuar no longa. O roteiro, que como citado ganhou a narração de Chaplin na versão de 1942, aborda temas interessantes como o poder do dinheiro e o valor que a sociedade dá pra ele, além de mostrar como as aparências enganam, na cena em que o guarda assume que Carlitos é o intruso do navio baseado nas roupas dele. O roteiro mostra ainda como o amor verdadeiro pode surgir de diversas maneiras, além de ilustrar como a solidão atormenta o homem. Como sempre, Chaplin deixa sua marca pessoal, apresentando tudo isto de maneira simples, engraçada e inteligente. O diretor tem domínio absoluto da narrativa, fazendo com que o longa flua muito bem, graças também a montagem, que adota um ritmo alucinante no inicio da narrativa, alternando para um ritmo mais lento no segundo ato, que reflete a tristeza do solitário protagonista. Ainda na parte técnica, vale destacar a fotografia de Roland Totheroth, que prioriza a cor branca, refletindo o vazio e a solidão das pessoas que enfrentam a serra nevada em busca de riqueza. Repare como a fotografia se torna sombria, priorizando a cor preta, quando Carlitos passa a freqüentar o saloon e, principalmente, quando sofre por Georgia sozinho na cabana e vagando pelo exterior do saloon. Finalmente, a trilha sonora, creditada para Chaplin, Gerard Carbonara e Max Terr, é mais lenta e cadenciada na versão de 1921, ao passo em que na versão de 1942 é bastante agitada e pontua muito bem as cenas.

Como de costume nos filmes de Chaplin, as gags visuais são excelentes, com destaque para a seqüência em que Carlitos, Big Jim e Larsen são expulsos da barraca pelo vento, seguida pela briga entre os grandões, apontando a arma para Carlitos. Também merece ser citada a disputa nas cartas para ver quem procuraria comida (repare a divertida reação do vagabundo ao tirar sua carta). O talento de Chaplin para fazer comédia fica ainda mais evidente na seqüência em que Carlitos cozinha um sapato e serve para o amigo Big Jim. Esta cena, aliás, foi inspirada numa trágica notícia que ele havia lido sobre um grupo de exploradores que se viu obrigado a comer os sapatos, roupas e cadáveres de amigos durante sua passagem pela serra nevada. A notícia inspirou ainda os engraçados delírios de Big Jim, que revelam também o ótimo trabalho de efeitos visuais (na realidade, um truque de câmera) ao transformar Carlitos num frango gigante, ilustrando o tamanho da fome do grandalhão. Repare na sincronia dos movimentos do frango e de Carlitos quando este volta a aparecer na forma humana (ele mesmo se vestiu de frango depois que um técnico tentou sem sucesso fazer o papel). Esta seqüência, aliás, é toda sensacional, desde os delírios de Big Jim até a perseguição dentro e fora da barraca, que termina com a chegada do urso. Outra seqüência interessante visualmente é a engraçada cena da casa pendurada no penhasco, que alterna entre o cenário em tamanho real e a maquete, sem que o espectador perceba a diferença claramente. Interessante também como a posição da câmera dá a sensação de que a casa está mesmo pendurada, o que revela a habilidade de Chaplin na direção e remete a um tempo em que o cinema, sem tantos recursos técnicos, era mais puro e criativo.

Chaplin também sabia ser sutil, como na triste cena em que Carlitos espera por Georgia na cabana, onde a vela indica quanto tempo ele esperou pela garota. A desilusão amorosa e a solidão dele na virada do ano estão refletidas em seu semblante, enquanto olha pela porta à espera de sua visita. Quando ele decide ir até a festa, seu rosto mergulhado nas sombras demonstra visualmente os sentimentos de seu coração, partido diante da atitude de Georgia. Georgia, aliás, que é muito bem interpretada pela bela Georgia Hale, demonstrando, ao lado de suas amigas, o cinismo das mulheres do saloon e a lenta transformação da garota. A pureza de Carlitos conquista Georgia e conquista o espectador também. Mas talvez a cena mais marcante de “Em Busca do Ouro” seja o belíssimo momento em que Carlitos faz a dança com os pães, com extrema sensibilidade e carisma. Certamente, esta é uma das muitas imagens que marcaram a carreira deste gênio. Vale citar ainda a linda cena em que Carlitos e Georgia se reencontram no navio. Na versão de 1942 o final é menos romantizado, refletindo o estado de espírito de Chaplin naquele período, após ter enfrentado seu segundo divórcio. Já a versão original tem um longo beijo entre o casal, que revela até mesmo a paixão do diretor por sua mulher, Lita Grey, que inspirou a personagem Georgia.

Extremamente engraçado, com cenas marcantes e uma mensagem humana, podemos afirmar que o belo “Em Busca do Ouro” é um legítimo representante de cinema de Charles Chaplin. E é impressionante notar como seus filmes conseguem transmitir sua visão do mundo, balanceando com grande talento cenas engraçadas e belas. É aí que reside a magia de Chaplin, um cineasta capaz de tocar como poucos o coração do espectador. Ao contrario das dificuldades enfrentadas pelos garimpeiros para conseguir ouro, Chaplin demonstrava enorme facilidade para transformar seus filmes em verdadeiras jóias da sétima arte.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

O GAROTO (1921)

18 outubro, 2010

(The Kid)

 

Filmes em Geral #16

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Edna Purviance, Jackie Coogan, Baby Hathaway, Carl Miller, Granville Redmond, Tom Wilson e May White.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O genial Charles Chaplin demonstra toda sua sensibilidade e talento neste belo “O Garoto”, misturando com perfeição o humor e o drama, demonstrando controle absoluto sobre a narrativa e, como anunciado ainda nos primeiros segundos do longa, provocando no espectador o riso e a lágrima.

Após deixar um hospital de caridade com seu filho recém-nascido, uma jovem mãe solteira (Edna Purviance), temendo não poder cuidar do filho, abandona o garoto no banco de trás de um luxuoso carro, junto com um bilhete. Em seguida, o carro é roubado e os bandidos, desesperados, largam o garoto numa esquina, onde o bebê ficará até ser encontrado pelo vagabundo (Chaplin), que fazia o seu passeio matinal tranquilamente. Após tentar, sem sucesso, se livrar do bebê, o vagabundo decide criá-lo, enquanto a mãe, com o passar dos anos, se arrepende e decide partir em busca do filho abandonado, ainda que com pouca esperança de realmente encontrá-lo.

Como de costume, Chaplin conduz a narrativa com segurança e confirma seu talento ao apresentar uma narrativa extremamente bem estruturada, coesa e com um ritmo excelente. É sempre impressionante notar o talento de Chaplin para envolver o espectador com brilhantismo, misturando humor e drama de maneira extremamente humana. O diretor é competente também nos diversos momentos engraçados do longa, com destaque para o hilário “serviço 13”, em que Carlitos se encanta com a mulher do guarda e foge em disparada pela cidade ao se deparar com o marido dela. Mas o diretor também é sutil na criação de planos simbólicos, como no emocionante encontro casual entre mãe e filho, onde a agora famosa atriz não sabe que está diante de seu filho abandonado há cinco anos. A tristeza estampada em seu rosto some temporariamente quando ela presenteia o garoto, sem saber que estava diante de seu próprio filho. Alguns temas recorrentes da filmografia de Chaplin aparecem também em “O Garoto”, como os constantes problemas com guardas e a fome (Chaplin passou fome na infância e costumeiramente mostrava isso em seus filmes).

Curiosamente, o pai do garoto também se tornara alguém famoso, mostrando claramente que se eles tivessem tentando ficar juntos, poderiam ter sucesso na criação do menino. Por outro lado, pode-se argumentar que ambos não teriam tanto tempo para se dedicar à carreira, pois obviamente cuidar de uma criança é uma tarefa que demanda tempo e dedicação. No acidental encontro entre pai e mãe numa festa, a tristeza toma conta de ambos e a montagem (também mérito de Chaplin) durante a conversa do casal mostra que o livro do passado e das lembranças foi aberto na vida de ambos. Este estilo de montagem (a chamada montagem semântica, onde uma cena complementa o sentido da outra, mas sozinhas não tem o mesmo significado) é usual no cinema de Chaplin, que costumava jogar imagens não diegéticas (ou seja, não pertencentes ao universo daquela narrativa) para complementar o sentido da cena anterior ou seguinte, como quando ele intercala os trabalhadores e as ovelhas em “Tempos Modernos”. Em outro momento, após a frase “uma mulher cujo pecado foi a maternidade”, Chaplin corta inteligentemente para a imagem de Cristo na cruz, simbolizando o peso que aquela criança representava na vida daquela moça sem condições de criá-la e abandonada pelo marido. Chaplin também cria um plano que reforça este peso no momento em que a mãe para com a criança no colo na frente de uma igreja e, ao fundo, podemos ver outra cruz. Segundos depois a mãe se retira e a câmera foca na cruz enquanto a tela escurece.

O roteiro escrito por Chaplin exibe coragem ao abordar as dificuldades de uma mãe solteira para criar uma criança e confirma isto ao mostrar tanto a mãe quanto os bandidos abandonando o bebê à própria sorte, o que revela também uma crítica às desigualdades sociais já existentes naquele período. Outro tema interessante abordado pelo longa que merece reflexão refere-se à verdadeira natureza da paternidade/maternidade. Afinal de contas, quem é o verdadeiro pai/mãe de uma criança? Como o filme demonstra através da relação de afeto e carinho entre Carlitos e o garoto, o verdadeiro pai é aquele que cria (e eu, particularmente, compartilho desta opinião). O excepcional roteiro mostra ainda como era o “tratamento apropriado” dado às crianças abandonadas pela instituição responsável (Asilo para crianças órfãs), reforçando o aspecto crítico de “O Garoto”.

Tecnicamente, vale destacar ainda a direção de fotografia de Roland Totheroh e Jack Wilson, que utiliza o foco da câmera para destacar o que interessa à narrativa e até mesmo brinca com o formato dele, como na cena do casamento em que a sombra em volta da tela forma um coração no centro. Vale notar também como no momento em que Carlitos sai pela noite à procura do garoto, a fotografia obscura reflete sua enorme angústia. Por outro lado, durante o seu sonho (um momento mágico, que utilizou truques para fazer Chaplin voar muito tempo antes da invasão dos efeitos visuais no cinema) a fotografia e os figurinos destacam a cor branca, simbolizando aquele que seria o mundo ideal do vagabundo Carlitos. Os figurinos, aliás, também simbolizam a clara desigualdade social, notável através do contraste entre as roupas rasgadas da dupla e as roupas dos ricos da cidade. E até mesmo a fotografia reflete esta diferença, adotando cores menos escuras quando a ação se passa na casa da família da famosa atriz. Finalmente, vale dizer que a passagem do tempo através de letreiros na tela e nuvens no fundo (“5 anos depois”) hoje é deselegante, mas na época funcionava perfeitamente e Chaplin, excepcional diretor que era, sabia disto.

E se o talento de Chaplin como diretor era enorme, sua qualidade como ator era simplesmente insuperável. Sua facilidade em expressar sentimentos através da expressão facial e corporal é incrível, provocando o riso mais genuíno no espectador. Além das inúmeras gags engraçadas, vale observar também sua reação quando encontra o garoto abandonado e o seu olhar desconfiado para o bueiro e para a câmera quando senta na calçada com o bebê. Destaque também para sua engraçada reação às palavras do pai de um garoto que apanhou na rua (“Se ele apanhar, eu vou bater em você”), além é claro das inúmeras cenas potencialmente cômicas, como a do citado “serviço 13”. Edna Purviance transmite muito bem o sofrimento da mãe através de sua expressão triste e melancólica, como podemos notar quando ela aparece pensativa na ponte e no tocante reencontro com seu filho na delegacia. Colabora também com o sentimento de tristeza que acompanha a moça a trilha sonora melancólica, composta pelo próprio Chaplin. Fechando os destaques do elenco, temos a fantástica atuação de Jackie Coogan como o garoto, conquistando o espectador com sua simpatia. Seu entrosamento com Chaplin é perfeito. Repare como Coogan olha discretamente para o prato de Carlitos antes de fazer a oração e comer, somente para checar se as quantidades de comida se equivalem. A dupla demonstra uma química tão forte que se torna impossível não torcer pelo sucesso de ambos, ainda que eles não ganhem seu dinheiro da forma mais “honesta” possível. Afinal de contas, não podemos dizer que quebrar vidraças e oferecer conserto em seguida seja a mais correta das atividades, mas até mesmo isto funciona como crítica à falta de oportunidades do capitalismo (algo que Chaplin voltaria a criticar em sua filmografia, especialmente na obra-prima “Tempos Modernos”).

Quando a mãe finalmente reencontra o bilhete há tempos deixado junto com o garoto, numa cena de arrepiar, sabemos que o emocionante momento do reencontro está prestes a acontecer. E neste instante, a mistura de sentimentos é inevitável no espectador. Ao mesmo tempo em que gostaríamos de ver aquela mãe sofrida finalmente reencontrar seu filho, sabemos que este reencontro também pode significar o fim da relação entre o garoto e Carlitos. E o reencontro é mesmo emocionante, ainda mais porque também podemos testemunhar a solidão do vagabundo, abandonado depois de perder seu garoto (e a câmera faz questão de diminuí-lo na tela neste instante). Felizmente, Chaplin arranca o sorriso do espectador novamente no final, quando podemos ver o reencontro do vagabundo com o garoto, já na casa da famosa atriz. Mas o que aconteceu depois? Fica a cargo de cada espectador imaginar à sua maneira. O mais importante é a mensagem deixada por Chaplin, sobre a importância da proximidade do adulto na vida de qualquer criança. Como diz o batido ditado popular: “Não basta ser pai, tem que participar”.

Chaplin emociona novamente ao narrar a história do vagabundo que, acidentalmente, se torna pai de um lindo garoto após encontrá-lo abandonado na rua. Com seu costumeiro talento para divertir e emocionar, ele brinda os cinéfilos com outra jóia preciosa. Mas ao contrário do vagabundo de “O Garoto”, que encontrou a felicidade por acidente numa esquina, nós sabemos que este belo presente não é um mero fruto do acaso, mas sim resultado do trabalho de um talentoso diretor, ator, roteirista e compositor, o genial Charles Chaplin.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

VIDA DE CACHORRO (1918)

17 outubro, 2010

(A Dog’s Life)

 

Filmes em Geral #15

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Edna Purviance, Syd Chaplin, Henry Bergman, Charles Reisner, Albert Austin e Tom Wilson.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Charles Chaplin já demonstrava seu incrível talento neste “Vida de Cachorro”, curta metragem que aborda superficialmente temas que ainda seriam melhor explorados pelo genial diretor em seus próximos filmes. Ainda assim, é possível se divertir e se emocionar nos 40 minutos desta pequena jóia estrelada pelo tradicional vagabundo.

Um vagabundo (Chaplin) salva a vida de um cachorro na rua quando este é atacado por outros cães. Com o pobre cão escondido nas calças, ele entra num salão de baile, onde uma cantora desafinada é explorada pelo dono do estabelecimento. É então que dois ladrões roubam a carteira de um milionário bêbado e escondem justamente no local onde dorme o vagabundo, que encontraria ali a chance de mudar definitivamente de vida.

O curta “Vida de Cachorro” tem toda a cara do cinema mudo que traria fama e glória para Chaplin futuramente, com trilha sonora presente durante todo o tempo, letreiros brancos com fundo negro mostrando os diálogos e todo o talento do talentoso ator e diretor para expressar sentimentos e provocar o riso. As inúmeras gags visuais já demonstravam o talento do ator para a comédia, como na seqüência em que ele foge de um policial passando por baixo da cerca, a clássica seqüência em que ele rouba comida e a sensacional fuga de dentro do bar Lanterna Verde com os bandidos correndo atrás dele. Chaplin, aliás, tem como sempre um desempenho fenomenal, provocando o riso e as lágrimas sem necessitar de palavras, simplesmente através de expressões corporais. Vale destacar, entre tantos momentos, a sensacional seqüência em que ele se faz passar por um dos bandidos, que se encontrava desacordado, somente através dos gestos de suas mãos. Edna Purviance, que interpreta a cantora desafinada do salão, também se sai bem, fazendo um belo par com Carlitos.

Tecnicamente, vale destacar a deliciosa trilha sonora do próprio Chaplin, especialmente a divertida música que acompanha a seqüência da dança no salão, além da direção, também de Chaplin, que conduz a narrativa com segurança e acerta o ritmo nas cenas mais engraçadas, como aquela em que o vagabundo come na lanchonete sem que o dono perceba.

A dificuldade de se adaptar ao capitalismo, tema costumeiro nos filmes de Chaplin, aparece aqui na cena em que o vagabundo tenta arrumar emprego sem sucesso e é reforçada pela seqüência do assalto cometido por dois homens, evidenciando as conseqüências da desigualdade social. A importância do dinheiro neste sistema também é abordada pelo roteiro de Chaplin, quando o dono do bar expulsa o vagabundo simplesmente pelo fato dele não ter dinheiro para pedir uma bebida, e fica ainda mais evidente quando Carlitos diz para a cantora que “agora poderemos ficar no país”, após encontrar a carteira de um homem rico. O final do curta mostra o casal feliz, curtindo sua fazenda, graças ao dinheiro que encontraram na carteira, o que não deixa de ser uma irônica crítica, pois eles só conseguiram encontrar a felicidade desta maneira, já que não foram dadas oportunidades para o crescimento de outra forma. E Chaplin, mais uma vez, mostra sua preferência pela vida do campo em detrimento da loucura das grandes cidades.

Chaplin já tinha assombrado o mundo com seu talento absurdo em curtas como este divertido “Vida de Cachorro”, que marcou a transição entre a fase menos famosa de sua carreira e aquela em que registra seus filmes mais famosos em todo o planeta, já num período em que tinha seu próprio estúdio e, portanto, total liberdade como cineasta.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

LUZES DA CIDADE (1931)

14 dezembro, 2009

(City Lights)

 

Filmes em Geral #19

Filmes Comentados #13 (Comentários transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Florence Lee, Harry Myers, Hank Mann, T.S. Alexander, Harry Ayers e Al Ernest Garcia.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É mais que reconhecida a habilidade de Charles Chaplin para misturar humor e drama, provocando a emoção genuína no espectador sem apelar para o melodrama ou narrativas formulaicas. Poucas vezes, porém, esta habilidade funcionou tão perfeitamente como neste lindo “Luzes da Cidade”, que funciona como uma flechada certeira no coração daqueles que verdadeiramente amam a sétima arte. E apesar de entender os riscos de uma afirmação deste tipo, não posso deixar de registrar que este é, para mim, o mais perfeito casamento entre humor e sentimentalismo da carreira deste genial cineasta.

A paixão de um vagabundo (Chaplin) por uma vendedora de flores cega (Virginia Cherrill), que acidentalmente acredita que ele é um milionário, o motiva a tentar conseguir o dinheiro necessário para realizar a cirurgia que poderia lhe restaurar a visão. A oportunidade de ouro aparece quando o vagabundo faz amizade com um homem milionário (Harry Myers), que tentava o suicídio após ser abandonado pela mulher.

Chaplin abriu mão do diálogo, já plenamente utilizado nos filmes da época, para fazer um clássico do cinema mudo de primeira qualidade neste lindo “Luzes da Cidade”, dirigido e interpretado por ele próprio, que, além disso, ainda assina o roteiro, a trilha sonora e a montagem. Sempre inteligente, ele decidiu não utilizar diálogos, pois sabia que isto significaria a destruição da imagem de seu icônico personagem “vagabundo”, claramente identificado com o cinema mudo e que, justamente por não falar, podia ser entendido pelo público de todas as idades e em qualquer idioma. Mas embora não tenha utilizado diálogos, o longa utiliza o som diegético de forma brilhante, sempre trabalhando a favor da narrativa e provocando o riso, como quando podemos ouvir o disparo das armas, o apito que o vagabundo engole e o som do gongo durante a luta. Escrito pelo próprio Chaplin, “Luzes da Cidade” balanceia a comédia e o drama corretamente, mantendo o espectador sempre ligado na trama, graças também a excepcional condução de Chaplin, tanto na direção quanto na montagem, mantendo controle absoluto sobre a narrativa e adotando o ritmo correto em cada cena. E até mesmo o hoje ultrapassado método de passagem do tempo através das folhas de calendário voando soava charmoso e elegante na época. Mais uma vez, o roteiro aborda temas recorrentes em sua filmografia, como os problemas com os guardas e a fome, ilustrada quando o vagabundo é expulso da casa do homem rico e sai pegando as frutas da mesa. Vale destacar também a inteligente fuga do vagabundo da casa do homem rico com os mil dólares, perfeitamente orgânica e aceitável. Tecnicamente, vale destacar ainda a linda trilha sonora, composta pelo próprio Chaplin, e a fotografia de Mark Marklatt, Gordon Pollock e Roland Totheroh, que contrasta bem o sombrio mundo do triste homem rico com os alegres momentos vividos pelo vagabundo ao lado da florista, quase sempre iluminados pela luz do dia. Finalmente, vale observar que durante um intervalo na luta, o sonho do vagabundo com a garota cega revela a simpatia de Chaplin pelos efeitos visuais, sempre utilizados de maneira orgânica, algo já demonstrado anteriormente em outros filmes como “O Circo” e “O Garoto”.

Como ator, Charles Chaplin dispensa comentários. Sensacional intérprete e dançarino, ele é sempre capaz de criar cenas absurdamente engraçadas, ainda que estejam inseridas numa história cativante e bela. Seu talento consegue arrancar gargalhadas somente através de suas expressões corporais, como podemos notar nas inúmeras e excelentes gags visuais do longa, em especial aquelas vividas pelo vagabundo e o excêntrico milionário, interpretado por Harry Myers. Harry Myers, aliás, que também tem boa atuação, alternando da seriedade quando está sóbrio para a alegria desmedida quando está bêbado, como podemos observar em sua engraçada reação quando vê o vagabundo deitado em sua cama, olhando para o céu como quem pensa “Como isso foi acontecer?”. Vale destacar também a maravilhosa atuação de Virginia Cherrill como a garota cega por quem o vagabundo se apaixona. Seu olhar “perdido no horizonte distante” e a forma como ela tateia os objetos tornam a cegueira da personagem em algo muito verossímil. Finalmente, já com a visão restaurada, Cherrill emociona ao lado de Carlitos no belíssimo final do filme.

Dentre todas as ótimas cenas engraçadas do filme, destaca-se a sensacional luta de boxe, repleta de divertidas gags visuais. Trata-se de uma verdadeira aula de cinema, onde a imagem e o som diegético do gongo são suficientes para nos divertir. Além disso, toda a preparação da cena merece destaque, com o vagabundo negociando o prêmio com seu adversário, a fuga deste antes da luta, o pé de coelho e a volta do homem supersticioso desmaiado e a postura de seu novo adversário, claramente mais forte e invocado que o anterior. Chaplin aproveita a situação para nos divertir, através de suas engraçadas reações e de seu criativo método de lutar, utilizando o juiz como escudo e o gongo a seu favor. Mas ainda que seja extremamente divertida, a cena do boxe não pode ser considerada a melhor do longa, simplesmente por causa da existência de outra cena memorável, que acontece no momento sublime em que a garota cega, após a cirurgia, se diverte com as trapalhadas do vagabundo e, através do tato, reconhece emocionada quem ele é. Nunca o fraco trocadilho “o amor é cego” funcionou tão bem. Este arrebatador final inspirou comentários em todo o mundo, como o do crítico de cinema James Agee da revista “Life”, que afirmou ser esta “a melhor atuação já registrada em celulóide”. Um exagero, mas que dá a exata noção do impacto da cena.

Neste lindo “Luzes da Cidade”, o vagabundo tão engraçado e mágico de Charles Chaplin ensaiava sua despedida. Certamente um dos mais belos filmes da carreira do genial inglês, se destaca pela narrativa coesa, pelas divertidas seqüências e, principalmente, pela bela história de amor que narra, conquistando com simplicidade e eficiência o espectador.

PS: Comentários divulgados em 14 de Dezembro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 21 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

TEMPOS MODERNOS (1936)

23 novembro, 2009

(Modern Times) 

 

 

Filmes em Geral #20

Filmes Comentados #11 (Comentários transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin, Hank Mann, Stanley Blystone, Al Ernest Garcia, Cecil Reynolds, Mira McKinney, Murdock McQuarrie e Richard Alexander. 

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Tempos Modernos” é uma fábula maravilhosa sobre a dificuldade de adaptação de uma pessoa racional e genial ao mundo mecânico e engessado das indústrias. Certamente é a crítica mais ácida de Chaplin ao capitalismo, feita de forma inteligente e bem humorada, mas sempre buscando demonstrar a visão de seu realizador a respeito da industrialização.

Um operário de uma linha de produção (Chaplin) é levado à loucura pela rotina frenética de seu trabalho, sendo internado num sanatório após uma crise nervosa. Desempregado, ela passa a tentar sobreviver num mundo caótico, onde uma crise generalizada, provocada pela falta de empregos, o leva a ser preso equivocadamente ao se misturar com um grupo que protestava nas ruas. Ao mesmo tempo, a jovem Ellen (Paulette Goddard), que roubava comida para matar a fome, tem seu pai assassinado e passa a viver vagando pela cidade, onde se encontrará com o operário. Juntos, eles tentarão encontrar um novo caminho para suas vidas.

Quando realizou “Tempos Modernos”, Chaplin ainda resistia à idéia de utilizar a fala, mas já abria espaço para o uso do som, ainda que em boa parte do filme este esteja restrito às máquinas e objetos, como uma tela onde podemos ouvir a voz do presidente, a porta que serve para atingir os bandidos ou o rádio da delegacia. Somente no final do longa é que Chaplin dá voz pela primeira vez ao seu querido vagabundo, o que indicava o caminho que ele seguiria dali em diante e, em contrapartida, apontava para o fim, cada vez mais próximo, deste marcante personagem em sua carreira. Com roteiro escrito pelo próprio Chaplin, o filme mostra de forma competente os problemas causados pelo desemprego, com grupos se formando para protestar e multidões na porta das empresas à procura de uma oportunidade. A importância de ter um trabalho para sobreviver no feroz mundo capitalista aparece novamente na cena em que um homem sai para trabalhar e sua esposa vem se despedir com um largo sorriso no rosto, contrastando com a pobreza do vagabundo e da órfã que estão sentados na grama em frente a casa. Outro problema causado pelo desemprego é a fome, que levou Ellen a roubar e ser presa, assim como levou o ex-companheiro de fábrica de Carlitos a roubar uma loja. Como podemos perceber, Chaplin não hesita em criticar duramente o capitalismo e à industrialização, que em nada valoriza o ser humano e visa somente o lucro para as grandes empresas. Finalmente, o roteiro não deixa de incluir os problemas com guardas e as cenas em que Carlitos mata sua fome, dois temas que sempre estiveram presentes nos filmes dele. Vale destacar também o curioso momento em que o presidente da empresa aparece montando um quebra cabeça e lendo jornal, enquanto os empregados trabalham arduamente o dia inteiro, confirmando as sutilezas com subtexto crítico costumeiras de Chaplin.

Responsável até mesmo pela alegre trilha sonora, Chaplin conduz a narrativa com segurança, mantendo um ritmo ágil através de sua direção e da montagem dinâmica, fazendo com que o espectador esteja sempre atento ao que se passa na tela. Sua tradicional montagem semântica aparece novamente aqui, intercalando imagens de ovelhas entrando aglomeradas no curral e de trabalhadores se amontoando na entrada da fábrica, ilustrando que o empregado não é tão diferente dos animais, tendo que seguir ordens e rotinas. Observe ainda como uma ovelha negra se destaca no meio das outras, simbolizando o personagem do vagabundo, que simplesmente não aceita o modo de vida imposto pela urbanização e industrialização e, portanto, é diferente dos demais. Chaplin faz ainda uma bela transição quando Ellen dança na rua e, em seguida, aparece vestida para dançar no salão.

Como dito, o vagabundo (assim como Chaplin) não se adapta facilmente ao mundo moderno e industrializado em que vive, o que o leva a se sentir melhor na prisão do que no mundo lá fora, onde as oportunidades eram escassas. Por isso, quando tem a chance, Carlitos aproveita para tirar uma casquinha dos policiais e matar sua fome sem pagar um centavo pela comida, o que resulta em seu retorno imediato para a prisão. É como se ele dissesse: “Eu quero comer, mas não tenho dinheiro, pois não me deram emprego. Portanto, pague você pra mim”. Os trabalhos de ajudante de mecânico e de auxiliar na construção de um navio servem para confirmar que o vagabundo, por mais que se esforce, não consegue se adaptar a nova realidade – e de quebra, ainda rendem duas cenas muito engraçadas. Em sua derradeira tentativa, ele tenta se ajeitar como garçom, mas sua atrapalhada (e engraçadíssima!) entrega de um pato assado para um cliente mostra que definitivamente ele não funciona como empregado. E se todas estas frustradas tentativas de se adaptar soam reais, é porque mais uma vez Chaplin confirma o seu talento como ator, provocando o riso e a emoção simplesmente através de suas expressões, sem necessitar das palavras. Já Paulette Goddard tem uma atuação bastante exagerada, algo justificável pela época em que o filme foi lançado e por ser um filme mudo, onde as expressões faciais têm um peso maior na representação.

Como é de se esperar num filme de Chaplin, o longa é repleto de gags visuais sensacionais, como a cena na linha de produção, em que Carlitos claramente satiriza a “revolucionária” forma de trabalhar que consagrou Taylor e Ford ao mostrar como uma simples coceira ou mosquito eram suficientes para atrapalhar todo o processo, ou quando ele sai na rua para apertar os botões da roupa de uma senhora que passava em frente à fábrica. Outro momento memorável é a engraçada cena da curiosa máquina auto-alimentadora, que também serve como crítica à produção em série, mostrando que por mais que inventem novas tecnologias, isto sempre se refletirá em mais trabalho para o homem comum. E é curioso notar como até hoje este raciocínio continua perfeito, já que por mais que tenham surgido diversas tecnologias capazes de acelerar nossa comunicação e até mesmo nossos métodos de produção, jamais o tempo de trabalho foi reduzido, resultando somente em pessoas cada vez mais atarefadas e conectadas o tempo inteiro ao seu ambiente de trabalho, seja através de celulares, de computadores ou de aparelhos como o Blackberry. Além da citada cena na linha de produção, outras duas merecem grande destaque. Aquela em que o vagabundo entra pela primeira vez na prisão, come o “pó proibido” e fica doido, culminando com o momento em que salva os guardas da cadeia de bandidos que vieram resgatar um preso. A outra cena é a casa imaginada por Chaplin e a Ellen, onde eles tiram o leite da vaca para beber, numa clara crítica à industrialização. É como se Chaplin quisesse dizer que ele não precisa de nada que estas fábricas produzem, apanhando frutas no pé e tirando leite da vaca para sobreviver. Já a famosa cena em que o vagabundo se move por dentro da máquina representa visualmente a integração homem-máquina, servindo também para ilustrar como o homem poderia ser engolido pelas máquinas neste ambicioso mundo das indústrias. Mas Carlitos não se entregaria fácil ao capitalismo e o surto de loucura do vagabundo serve também para que Chaplin se vingue das máquinas, destruindo-as e atacando a todos com seu óleo lubrificante. Finalmente, merece destaque a seqüência do conserto da máquina em que Carlitos auxilia o mecânico e a casa que Ellen consegue para viver com o vagabundo, que, como ela diz, não era exatamente o “palácio de Buckingham”.

Chegamos então ao momento histórico em que pela primeira vez foi possível ouvir a voz de um dos personagens mais icônicos da sétima arte. A dança final do vagabundo de Chaplin, improvisando a letra da música (inventando literalmente as palavras), é sensacional e confirma o enorme talento deste gênio da história do cinema. Comprova também que seu personagem se adaptava somente num único lugar neste novo mundo da industrialização: o palco. Ou seja, somente onde a imaginação e a criatividade são valorizadas é que ele era feliz, e não onde as pessoas são apenas peças de uma engrenagem maior que serve para dar lucro a alguns poucos escolhidos.

Divertido e inteligente, “Tempos Modernos” utiliza o humor para mostrar a visão de Chaplin sobre uma mudança na sociedade que resultou no mundo complicado que temos hoje. Percebe-se que desde aquela época alguém já alertava como a ganância, a luta por um lucro sempre crescente e a produção em série sem responsabilidade social e ambiental poderiam resultar num mundo pior. E resultou mesmo.

PS: Comentários divulgados em 23 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 22 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

O GRANDE DITADOR (1940)

13 outubro, 2009

(The Great Dictator)

 

Filmes em Geral #21

Filmes Comentados #7 (Comentários transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Jack Oakie, Paulette Goddard, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Maurice Moscovich e Billy Gilbert.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Chaplin abandonou de vez o cinema mudo nesta corajosa sátira de Hitler, realizada apenas um ano depois do inicio da segunda guerra mundial, recheada de bom humor e com um forte subtexto crítico. Ao realizar “O Grande Ditador”, ele demonstrou sua extrema coragem e genialidade, mostrando ao mundo os absurdos do nazismo antes mesmo que alguns países, como os Estados Unidos, entrassem na guerra.

Um judeu (Chaplin) salva um piloto alemão (Reginald Gardiner) durante a segunda guerra, mas perde a memória na queda do avião em que ambos estavam quando fugiram do campo de batalha. Ao voltar para casa, ele encontra um mundo completamente diferente, agora dominado pelo ditador Hynkel (Chaplin também), ao mesmo tempo em que volta a conviver com seus compatriotas, como a bela Hannah (Paulette Goddard).

Como diz a primeira frase de “O Grande Ditador”, qualquer semelhança entre o ditador e o barbeiro judeu é meramente proposital, o que será a chave para o belíssimo final do filme. O roteiro escrito por Chaplin, além de extremamente corajoso ao claramente criticar Hitler no auge de seu domínio, ainda conta com frases interessantes que demonstram bem como funciona o raciocínio dos grandes ditadores, como a dica de um assistente dada a Hynkel (“Alimente o ódio aos judeus e eles esquecerão o estômago”) e o mundo sonhado pelo nazismo, repleto de “loiros com olhos azuis”. A conversa sobre a intenção de fazer com que a raça ariana dominasse o mundo, aliás, leva à cena mais famosa do longa, em que Hynkel brinca com o globo terrestre e chora quando este explode em suas mãos. Esta famosa cena é recheada de simbolismo, pois Hitler, assim como Hynkel, pensava dominar o planeta e ter o direito de brincar com ele. A história provou que não é bem assim que as coisas funcionam. Que os líderes de hoje em dia pensem nisso também. É interessante notar ainda como o roteiro reflete bem a forma arcaica e despreparada de pensar do ditador. Quando informado que existem trabalhadores descontentes, ele manda fuzilar todos (“Não quero trabalhadores descontentes”, afirma). Estatisticamente ele poderia ter sucesso, mas com certeza esta é uma solução idiota para o problema. Outra crítica sutil e inteligente acontece na cena em que o barbeiro judeu (Chaplin), que perdeu a memória, volta para sua barbearia. Os alemães chegam imponentes ao local, certos de que ele vai obedecer, mas ele não entende o que deve fazer e os ignora. A mensagem é clara. Qualquer pessoa que saísse da terra e voltasse no meio da guerra também acharia uma loucura o que se fazia com o ser humano naquela ocasião.

Mas nem só de críticas vive “O Grande Ditador”. O bom humor característico de Chaplin aparece em muitas cenas, como na fuga do barbeiro num avião, em sua experiência num tanque de guerra, no divertido desfile do exército da Tomania e na calorosa discussão dos ditadores no Buffet. E ainda que não tenham o mesmo espaço de outrora neste primeiro filme falado de Chaplin, as gags aparecem, como quando o vagabundo se esconde dentro de um baú numa fração de segundos ou quando Hynkel é derrubado da escada por Herring (Billy Gilbert). Vale citar também a engraçada tradução do discurso de Hynkel feita por uma assistente numa máquina de escrever. Finalmente, existem as cenas em que crítica e humor se misturam com perfeição, como aquela em que a moeda no pudim apontaria quem deveria morrer pela libertação dos compatriotas. A divertida seqüência revela as verdadeiras intenções de cada integrante do grupo, pois, na realidade, ninguém queria ser mártir de verdade (e quem quer?). Apesar de o discurso ser belo, na prática não é assim que funciona. E repare como no fim do jantar, Chaplin discretamente recolhe as moedas da mesa e as coloca no bolso, revelando as sutilezas de sua grande atuação.

Sem tanto espaço para as famosas gags que fizeram sua fama devido ao fato de ser um filme falado, Chaplin demonstra sua qualidade como ator alternando muito bem entre a eloqüência de Hynkel, sempre agitado, sisudo e com olhar superior, e a simplicidade do barbeiro, sempre tranqüilo e até mesmo amedrontado diante daquela situação. Além disso, Chaplin fala um “alemão” debochado, que funciona muito bem como elemento de humor, satirizando explicitamente a forma de discursar de Hitler – todos sabem que não é alemão de verdade, apenas uma forma eficiente de fazer piada. Ele tosse, engasga, grita, faz careta e arranca boas risadas do espectador, ao mesmo tempo em que alfineta o tirano alemão, em plena segunda guerra mundial. Também se destaca a boa atuação de Jack Oakie, como o ditador Benzino Napaloni, de Bactéria, que satiriza Mussolini (repare no sotaque italiano de seu inglês). Extrovertido, ele completa com perfeição a grande atuação de Chaplin, agindo com espontaneidade diante de toda aquela pompa do palácio de Hynkel. Com seu jeito falastrão, nada parece intimidar o agitado ditador bacteriano, como podemos notar na conversa preparada especialmente para colocá-lo em posição inferior a Hynkel. A cena em que os dois tentam intimidar um ao outro subindo as cadeiras é sensacional. Boa também é a atuação de Billy Gilbert como o marechal de campo Herring. Observe, por exemplo, o leve sorriso de satisfação dele no desfile do exército da Tomania e a transformação de seu rosto quando Napaloni começa a questionar tudo que é mostrado. Paulette Godard se sai bem na pele da determinada Hannah, demonstrando sua fibra e coragem através do olhar penetrante, da voz sempre firme e rápida e, principalmente, dos gestos corajosos, como quando reage sozinha aos abusos dos soldados alemães contra os comerciantes judeus. E finalmente, Reginald Gardiner interpreta Schultz, com destaque para o momento em que diz para Hynkel o que pensa sobre suas políticas, num discurso que critica ferozmente os ideais nazistas. Considerado um traidor, acaba preso e, após fugir e ser capturado no gueto junto com seu amigo judeu que o salvou na guerra, é enviado aos campos de concentração. Esta atitude intempestiva de Hynkel será crucial para o desfecho da trama.

Chaplin também se destaca na direção de “O Grande Ditador”, com belos movimentos de câmera, como quando os judeus se escondem dentro de casa e o plano termina com um passarinho preso na gaiola, simbolizando a perda da liberdade daquele povo. Chaplin também acerta ao filmar o ditador em ângulo baixo diversas vezes, demonstrando visualmente o poder daquele homem, algo também ilustrado através de pequenos detalhes, como o fato dele sequer abrir as portas de seu palácio, relegando esta tarefa aos soldados colocados em cada passagem. O diretor ainda utiliza muito bem o close para enfatizar as emoções dos personagens, como no discurso pré-invasão do gueto de Hynkel ou nas lágrimas emocionadas de Hannah ao escutar as palavras de esperança no último plano do longa. Em outro plano bem realizado, o barbeiro judeu conversa com Hannah sobre sua preferência pela vida no campo em detrimento das poluídas cidades, enquanto a cidade está em chamas ao fundo. Destaca-se também o plano geral em que podemos ver o barbeiro sendo cercado no meio da rua por dezenas de soldados nazistas, além da linda cena em que Chaplin barbeia um senhor no ritmo da música, onde som e imagem se completam. Ainda na parte técnica, os figurinos e a direção de arte de J. Russell Spencer ajudam muito na alusão ao nazismo, trabalhando em pequenos detalhes, como os símbolos dos uniformes, que não são idênticos, mas claramente fazem referência à suástica de Hitler. Além disto, a direção de arte capricha no palácio de Hynkel, demonstrando toda a imponência do local através da estrutura alta e dos longos corredores por onde as pessoas passam. A montagem de Willard Nico intercala muito bem as duas linhas principais da narrativa, divididas entre as decisões de Hynkel e o reflexo delas no gueto, além de saber indicar a passagem do tempo sem que esta soe episódica, como quando a teia espalhada pela barbearia indica o longo tempo que o barbeiro esteve fora. Também colabora com a clara divisão da narrativa a fotografia de Karl Struss e Roland Totheroh, que diferencia o ambiente sombrio da vida no gueto da clara e iluminada vida no palácio. Finalmente, a trilha sonora composta por Chaplin pontua muito bem as cenas, como quando a música indica a felicidade da família de Hannah na chegada a Österlich.

O apaixonado discurso do barbeiro judeu no final de “O Grande Ditador” resume muito bem a mensagem do filme. A inteligente situação criada através da inversão de papéis, que remete elegantemente à frase inicial do longa, representava uma oportunidade única para o judeu (e para Chaplin), expressada através das palavras de Schultz (“Você tem que falar, é nossa última esperança”). Chaplin não perdeu a oportunidade e deu sua mensagem humanista ao mundo de forma inteligente, bem humorada e marcante. Palmas pra ele.

PS: Comentários divulgados em 13 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 23 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira