LUZES DA CIDADE (1931)

(City Lights)

 

Filmes em Geral #19

Filmes Comentados #13 (Comentários transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Florence Lee, Harry Myers, Hank Mann, T.S. Alexander, Harry Ayers e Al Ernest Garcia.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É mais que reconhecida a habilidade de Charles Chaplin para misturar humor e drama, provocando a emoção genuína no espectador sem apelar para o melodrama ou narrativas formulaicas. Poucas vezes, porém, esta habilidade funcionou tão perfeitamente como neste lindo “Luzes da Cidade”, que funciona como uma flechada certeira no coração daqueles que verdadeiramente amam a sétima arte. E apesar de entender os riscos de uma afirmação deste tipo, não posso deixar de registrar que este é, para mim, o mais perfeito casamento entre humor e sentimentalismo da carreira deste genial cineasta.

A paixão de um vagabundo (Chaplin) por uma vendedora de flores cega (Virginia Cherrill), que acidentalmente acredita que ele é um milionário, o motiva a tentar conseguir o dinheiro necessário para realizar a cirurgia que poderia lhe restaurar a visão. A oportunidade de ouro aparece quando o vagabundo faz amizade com um homem milionário (Harry Myers), que tentava o suicídio após ser abandonado pela mulher.

Chaplin abriu mão do diálogo, já plenamente utilizado nos filmes da época, para fazer um clássico do cinema mudo de primeira qualidade neste lindo “Luzes da Cidade”, dirigido e interpretado por ele próprio, que, além disso, ainda assina o roteiro, a trilha sonora e a montagem. Sempre inteligente, ele decidiu não utilizar diálogos, pois sabia que isto significaria a destruição da imagem de seu icônico personagem “vagabundo”, claramente identificado com o cinema mudo e que, justamente por não falar, podia ser entendido pelo público de todas as idades e em qualquer idioma. Mas embora não tenha utilizado diálogos, o longa utiliza o som diegético de forma brilhante, sempre trabalhando a favor da narrativa e provocando o riso, como quando podemos ouvir o disparo das armas, o apito que o vagabundo engole e o som do gongo durante a luta. Escrito pelo próprio Chaplin, “Luzes da Cidade” balanceia a comédia e o drama corretamente, mantendo o espectador sempre ligado na trama, graças também a excepcional condução de Chaplin, tanto na direção quanto na montagem, mantendo controle absoluto sobre a narrativa e adotando o ritmo correto em cada cena. E até mesmo o hoje ultrapassado método de passagem do tempo através das folhas de calendário voando soava charmoso e elegante na época. Mais uma vez, o roteiro aborda temas recorrentes em sua filmografia, como os problemas com os guardas e a fome, ilustrada quando o vagabundo é expulso da casa do homem rico e sai pegando as frutas da mesa. Vale destacar também a inteligente fuga do vagabundo da casa do homem rico com os mil dólares, perfeitamente orgânica e aceitável. Tecnicamente, vale destacar ainda a linda trilha sonora, composta pelo próprio Chaplin, e a fotografia de Mark Marklatt, Gordon Pollock e Roland Totheroh, que contrasta bem o sombrio mundo do triste homem rico com os alegres momentos vividos pelo vagabundo ao lado da florista, quase sempre iluminados pela luz do dia. Finalmente, vale observar que durante um intervalo na luta, o sonho do vagabundo com a garota cega revela a simpatia de Chaplin pelos efeitos visuais, sempre utilizados de maneira orgânica, algo já demonstrado anteriormente em outros filmes como “O Circo” e “O Garoto”.

Como ator, Charles Chaplin dispensa comentários. Sensacional intérprete e dançarino, ele é sempre capaz de criar cenas absurdamente engraçadas, ainda que estejam inseridas numa história cativante e bela. Seu talento consegue arrancar gargalhadas somente através de suas expressões corporais, como podemos notar nas inúmeras e excelentes gags visuais do longa, em especial aquelas vividas pelo vagabundo e o excêntrico milionário, interpretado por Harry Myers. Harry Myers, aliás, que também tem boa atuação, alternando da seriedade quando está sóbrio para a alegria desmedida quando está bêbado, como podemos observar em sua engraçada reação quando vê o vagabundo deitado em sua cama, olhando para o céu como quem pensa “Como isso foi acontecer?”. Vale destacar também a maravilhosa atuação de Virginia Cherrill como a garota cega por quem o vagabundo se apaixona. Seu olhar “perdido no horizonte distante” e a forma como ela tateia os objetos tornam a cegueira da personagem em algo muito verossímil. Finalmente, já com a visão restaurada, Cherrill emociona ao lado de Carlitos no belíssimo final do filme.

Dentre todas as ótimas cenas engraçadas do filme, destaca-se a sensacional luta de boxe, repleta de divertidas gags visuais. Trata-se de uma verdadeira aula de cinema, onde a imagem e o som diegético do gongo são suficientes para nos divertir. Além disso, toda a preparação da cena merece destaque, com o vagabundo negociando o prêmio com seu adversário, a fuga deste antes da luta, o pé de coelho e a volta do homem supersticioso desmaiado e a postura de seu novo adversário, claramente mais forte e invocado que o anterior. Chaplin aproveita a situação para nos divertir, através de suas engraçadas reações e de seu criativo método de lutar, utilizando o juiz como escudo e o gongo a seu favor. Mas ainda que seja extremamente divertida, a cena do boxe não pode ser considerada a melhor do longa, simplesmente por causa da existência de outra cena memorável, que acontece no momento sublime em que a garota cega, após a cirurgia, se diverte com as trapalhadas do vagabundo e, através do tato, reconhece emocionada quem ele é. Nunca o fraco trocadilho “o amor é cego” funcionou tão bem. Este arrebatador final inspirou comentários em todo o mundo, como o do crítico de cinema James Agee da revista “Life”, que afirmou ser esta “a melhor atuação já registrada em celulóide”. Um exagero, mas que dá a exata noção do impacto da cena.

Neste lindo “Luzes da Cidade”, o vagabundo tão engraçado e mágico de Charles Chaplin ensaiava sua despedida. Certamente um dos mais belos filmes da carreira do genial inglês, se destaca pela narrativa coesa, pelas divertidas seqüências e, principalmente, pela bela história de amor que narra, conquistando com simplicidade e eficiência o espectador.

PS: Comentários divulgados em 14 de Dezembro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 21 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

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7 Respostas to “LUZES DA CIDADE (1931)”

  1. Luzes da Cidade (1931), Charlie Chaplin | Mil Folhas Says:

    […] https://cinemaedebate.com/2009/12/14/luzes-da-cidade-1931/ […]

  2. Anônimo Says:

    Tenho que ver esse filme . Embora alguns digam que é o melhor do Chaplin eu ainda nao vi

  3. Luzes da Cidade « Cinema & Debate Says:

    […] Dando seqüência à semana Chaplin, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre o lindo “Luzes da Cidade”. Para ler, basta clicar aqui. […]

  4. O CIRCO (1928) « Cinema & Debate Says:

    […] que não tenha o poder de emocionar de “Luzes da Cidade” e o mesmo subtexto crítico de “Tempos Modernos” ou “O Grande Ditador”, “O Circo” é […]

  5. Mandy Intelecto Says:

    Quando terá outro post que eu poderei ler??????

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