CHINATOWN (1974)

(Chinatown)

 

 

Filmes em Geral #77

Videoteca do Beto #210 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 13 de Julho de 2015)

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Diane Ladd, Perry Lopez, John Hillerman, Darrell Zwerling, Roy Jenson, Richard Bakalyan, Joe Mantell, Bruce Glover, Nandu Hinds, Burt Young e Belinda Palmer.

Roteiro: Robert Towne.

Produção: Robert Evans.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apenas cinco anos após perder sua esposa Sharon Tate, assassinada no auge da contracultura pelo grupo liderado por Charles Manson, Roman Polanski voltou à Hollywood para dirigir este excepcional “Chinatown”, que com sua atmosfera noir e seu tom melancólico, reflete o estado de espírito de seu diretor e se confirma como uma das muitas obras-primas de Hollywood nos anos 70. Contando ainda com atuações inspiradas e um roteiro praticamente perfeito, o longa se estabelece também como uma das mais bem sucedidas incursões no gênero que se notabilizou nas décadas de 40 e 50.

Em “Chinatown”, acompanhamos a trajetória do detetive particular J. J. Gittes (Jack Nicholson) quando este é contratado pela esposa de Hollis Mulwray (Darrell Zwerling), o chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, para descobrir se ele está tendo um caso extraconjugal. Após a confirmação da traição, Gittes descobre que a verdadeira esposa dele, Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), jamais solicitou os seus serviços, exatamente no mesmo dia em que Hollis aparece morto. Gittes decide então investigar o assassinato e as possíveis ligações entre o crime e o pai de Evelyn, o poderoso Noah Cross (John Huston), que também era sócio de Hollis.

Escrito pelo ótimo Robert Towne, “Chinatown” apresenta uma estrutura narrativa perfeita, que gradativamente envolve o protagonista numa situação bastante complicada e, conseqüentemente, conquista também a atenção da platéia. Com um texto precioso e coeso, a narrativa intrincada e repleta de sutilezas aborda muitos temas complexos sob sua superfície de filme policial, apresentando personagens nada unidimensionais, que parecem sempre serem muito mais do que o que vemos na tela. Towne também espalha diversas pistas pela narrativa, que obrigam o espectador a prestar atenção em cada pequeno detalhe da investigação conduzida por Gittes, somente para descobrir momentos depois que muitas delas eram falsas. Além disso, ele constrói diversos diálogos marcantes, entre os quais vale destacar aquele no restaurante em que Evelyn confessa que também traía o marido e o embate entre Noah e Gittes, que também acontece num almoço e nos deixa em dúvida sobre o caráter do milionário e de sua filha.

Com este ótimo roteiro em mãos, Polanski conduz o longa com paciência até os 30 minutos de projeção, quando a morte de Hollis Mulwray insere o elemento noir que faltava para a narrativa definitivamente engrenar: o crime. Claramente inspirado na estética noir, como podemos notar através do terno do detetive Gittes (figurinos de Anthea Sylbert) e dos ambientes fechados, como o escritório dele e a casa dos Mulwray – que, por exemplo, indica a boa situação financeira do casal (direção de arte de W. Stewart Campbell) -, “Chinatown” só não apresenta o forte contraste entre o preto e o branco característico do gênero, mas ainda assim tem diversos momentos em que as sombras tomam conta da tela, como no diálogo entre Gittes e Evelyn num carro, logo após ela revelar quem é a sua irmã, onde podemos ver apenas parcialmente o rosto dos personagens. Além disso, os tradicionais ambientes esfumaçados e as sombras das persianas que invadem os escritórios criam o típico visual noir. Neste aspecto, vale destacar a fotografia de John A. Alonzo, que emprega cores sóbrias na maior parte do tempo (preto, marrom, cinza), conferindo uma aura melancólica coerente com o tom da narrativa. Ainda na parte técnica, a trilha sonora de Jerry Goldsmith acentua o clima apreensivo em diversos momentos e a direção de arte de Campbell volta a se destacar nos pequenos detalhes com função narrativa, como os quadros na parede que indicam a sociedade entre Hollis e Noah, além dos carros e casas que nos jogam para a Los Angeles dos anos 30 com precisão.

Voltando à direção, Polanski também comanda com precisão as cenas de alta tensão, como quando Gittes tenta invadir o Departamento de Águas à noite e é surpreendido por um tiro, pela água e por dois homens (um deles, armado com uma faca, é interpretado pelo próprio Polanski) ou quando ele é atacado num laranjal e perseguido por homens montados em cavalos. Auxiliado pela montagem de Sam O’Steen, o diretor conduz a narrativa com tranqüilidade e sutileza, acelerando a trama na medida em que Gittes se aproxima da verdade sobre o assassinato de Hollis ao emendar uma grande cena após a outra, como na seqüência em que Gittes visita um asilo, foge com Evelyn de carro, dorme com ela e descobre a natureza da relação dela com a amante de Hollis. E apesar de parecer quebrar o ritmo, a cena em que eles ficam juntos (embalada pela trilha romântica) serve para revelar um pouco mais sobre o passado misterioso de Gittes em Chinatown e indicar que a morte de alguma mulher o traumatizou. Outro aspecto importante a se ressaltar é que Polanski procura nos guiar na narrativa sob a perspectiva de Gittes, o que justifica sua presença em todas as cenas e a câmera que o acompanha por trás dos ombros em diversos momentos.

Tranqüilo e com tom de voz baixo, Jack Nicholson cria um personagem diferente do habitual, comprovando sua versatilidade e competência como ator. Ainda assim, seu Gittes é determinado e impõe respeito junto aos seus subordinados, como podemos notar logo no início quando ele repreende um de seus assistentes, saindo-se ainda melhor nos embates verbais com Noah, Evelyn e com o tenente Lou, quando sempre soa convincente em suas afirmações. Extremamente inteligente, seu Gittes sabe muito bem se adaptar aos ambientes que freqüenta – o que explica sua preocupação com a aparência (repare sua reação ao molhar os sapatos) e sua constante mudança de comportamento (no escritório, conta piadas; diante dos milionários, fala de forma refinada). Faye Dunaway também se destaca, criando uma Evelyn misteriosa e imponente, que sempre parece esconder algo através da fala reticente e do olhar enigmático quando que se refere ao marido e, especialmente, ao pai – um comportamento, aliás, que descobriremos ser totalmente coerente com o passado da personagem. Interpretado por John Huston (que dirigiu “O Falcão Maltês”), Noah Cross é mesmo um personagem ameaçador e Huston tem grande mérito nisto com sua presença marcante na tela. No restante do elenco, vale destacar o tenente Lou Escobar, interpretado por Perry Lopez, e a jovem Katherine Cross, interpretada por Belinda Palmer, que se destaca na cena final, com seu desespero tocante ao ver a mãe ser assassinada.

Após um encontro inesperado entre Gittes e Lou no apartamento de uma prostituta, entramos na parte final de “Chinatown”, onde a revelação da relação incestuosa entre Noah e Evelyn abala as estruturas tanto do detetive como do espectador e inicia outra seqüência atordoante, em que descobrimos o verdadeiro assassino de Hollis e caminhamos para o clímax pessimista, na primeira vez em que o tão citado bairro chinês Chinatown aparece. E novamente, Polanski confirma sua habilidade na direção de maneira sutil. Em certo momento do filme, Evelyn encosta involuntariamente a cabeça na buzina de um carro. Parece uma cena sem propósito, mas não é à toa que ela está lá. Com este momento em mente, o espectador já sabe o destino cruel de Evelyn nesta cena final, somente através do som da buzina no plano distante em que vemos o carro parado na rua. Sua trágica morte é confirmada de maneira forte e tocante, com Katherine desesperada e o violento resultado do tiro surgindo na tela diante do espectador. O final amargo, com a chocante morte de Evelyn e Noah escapando ileso, deixa o espectador reflexivo e melancólico – algo refletido também na trilha que fecha a narrativa.

Repleta de momentos memoráveis, com um roteiro impecável e atuações inspiradas, a obra-prima “Chinatown” confirma o talento de Roman Polanski na direção e reforça o time dos maravilhosos filmes pessimistas que invadiram Hollywood em sua era dourada. Nestes casos, o gosto amargo que fica na boca do espectador ao final da projeção é gradualmente substituído pelo sentimento de respeito diante da grandiosidade da obra que testemunhamos.

Texto publicado em 25 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

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14 Respostas to “CHINATOWN (1974)”

  1. Aline Menezes Says:

    Amigo, bom dia.

    Li sua resenha, e achei legal. Mas, sinceramente, você poderia, sucintamente claro, me explicar algumas coisas. Assim, eu vi esse filme, mas não consegui entende-lo. Eu não sei se é isso, mas a impressão que ficou pra mim é que todos ali estavam envolvidos no assassinato, excluindo o detetive e a mulher assassinada no final. Tipo, o pai dela, a policia, os outros detetives, eles eram um bando, é isso?

    Por favor, se você puder, me explica esse final.

  2. Boletim da 212ª Sessão: “Chinatown”, de Roman Polanski, 1974 | Cineclube de Caminha Says:

    […] https://cinemaedebate.com/2011/11/25/chinatown-1974/ […]

  3. Ricardo Tenório Rodrigues Says:

    Olá! Roberto Tudo bem?
    Meu Deus que análise coesa e soberba. Você escreve maravilhosamente bem Roberto.
    Os detalhes que muitas vezes deixamos de prestar atenção você descreve com detalhismo e precisão.
    Sou suspeita em falar de Chinatown de Roman Polansky, até porque tenho esse e outros títulos do diretor em minha DVDTECA particular. risos…
    Ele é simplesmente genial neste filme.
    Tudo é soberbo neste longa os planos, roteiro, narrativa, elenco, atuações, trilha sonora, figurino… excepcional.
    Para mim Roberto um autêntico Noir.

    Parabéns pela análise do filme.
    E adoro visitar sua página.
    Abraços!

    • Roberto Siqueira Says:

      Muito obrigado Ricardo. Fico muito feliz que gostou.

      Um grande abraço e fique a vontade para comentar sempre que quiser.

  4. Videoteca do Beto #210 – Chinatown | Cinema & Debate Says:

    […] a crítica de “Chinatown” já tinha sido publicada como “Filmes em Geral #77”, somente adicionei em seu cabeçalho a […]

  5. Chinatown (1974) | Não são as Imagens Says:

    […] Disponível em: https://cinemaedebate.com/2011/11/25/chinatown-1974/ Acessado em: […]

  6. Ianne Says:

    Olá, Roberto. Quer me ver feliz? É assistir a um bom filme e seguir direto pra seu blog e ler suas críticas. Esse filme é fantástico. é bem como você diz no final, a gente fica entra uma sensação desagradável (pela atmosfera do filme) e boquiaberto com a obra. Outra cena desse filme que marcou foi quando Gittes bate no rosto de Evelyn ao mesmo tempo que pergunta o que Katherine é dela e ela responde: “é minha irmã, é minha filha. É minha irmã, é minha filha”. Nesse momento a gente percebe toda a carga emocional e sofrimento que Evelyn carrega, e melhor, sem melodramas.
    P.S: sou sua fã (:

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Ianne,

      Desculpe pela resposta extremamente atrasada. Fiquei muito tempo ausente e sem responder comentários, mas aos poucos vou colocando a casa em ordem.
      Agradeço muito o comentário e o elogio.

      Um abraço.

  7. Cross98 Says:

    Não sei porque , mas eu não gosto de filmes de mafia

    • Roberto Siqueira Says:

      Mas Chinatown não é de máfia Mateus, é um filme clássico de detetive.
      Abraço.

    • cross98 Says:

      pra mim poderoso chefao chinatown os bons companheiros é a mesma coisa

    • Roberto Siqueira Says:

      Mas não é não. O Poderoso Chefão foca mais na família e na ascenção e queda dos Corleone. Chinatown é um filme de detetive, especificamente sobre o J. Gittes. E Os Bons Companheiros sim é um filme de gangster.
      Abraço.

  8. Says:

    Oi Bé!
    Passando pra dizer que seu site está cada dia melhor, aliás, não só o site em geral, mas você e suas críticas.
    Tenho muito orgulho de você!
    Beijos!

    Ká.

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