A MÚMIA (1999)

(The Mummy)

Filmes em Geral #92

Dirigido por Stephen Sommers.

Elenco: Brendan Fraser, Rachel Weisz, John Hannah, Arnold Vosloo, Kevin J. O’Connor, Oded Fehr, Jonathan Hyde, Erick Avari, Bernard Fox, Omid Djalili e Patricia Velasquez.

Roteiro: Stephen Sommers.

Produção: Sean Daniel e James Jacks.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostar na mistura de ação e bom humor tornou-se algo comum na indústria de Hollywood, quase como um mantra que deve ser seguido à risca nos filmes de aventura. O problema é que, infelizmente, não é toda hora que surge um Steven Spielberg e seu “Os Caçadores da Arca Perdida”, filme que influenciou nove entre cada dez produções que surgiram no gênero nos últimos trinta anos. Entretanto, nem tudo está perdido neste “A Múmia”, de Stephen Sommers, que, apesar da irregularidade, acerta justamente pelo tom leve e descontraído empregado pelo diretor.

Escrito pelo próprio Sommers, “A Múmia” conta a história de um grupo de arqueólogos que, liderados por Rick O’Connell (Brendan Fraser) e Evelyn Carnahan (Rachel Weisz), trazem acidentalmente o lendário Faraó Imhotep (Arnold Vosloo) de volta à vida, séculos após este sofrer o terrível castigo de ser mumificado vivo em Hamunaptra, a lendária cidade dos mortos. Surgindo de maneira curiosa através de uma brincadeira que transforma o logo da Universal no sol (assim como nos filmes de Indiana Jones, nos quais o logo da Paramount era alvo de brincadeiras similares), a narrativa inicia através de um travelling que nos leva ao Egito antigo e seus cenários imponentes, seguido pela excelente introdução que, em poucos minutos, nos revela a origem da lendária história de Imhotep e, numa elegante transição de três mil anos através de uma estátua, nos traz para o tempo em que se passará a narrativa, captando imediatamente a atenção da plateia.

Empregando acertadamente um tom de autoparódia que jamais se leva a sério, Sommers alterna entre momentos empolgantes e insossos que tornam a narrativa bastante irregular. Além disso, o diretor falha em algumas tentativas pouco inspiradas de provocar o riso, como a negociação entre Evelyn e Hassan (Omid Djalili) sobre a porcentagem de cada um durante o enforcamento de O’Connell, errando ainda ao investir no eterno clichê do casal que se estranha inicialmente e depois se apaixona – neste caso, ao menos Evelyn dá sinais de que gosta de Rick desde o principio. Por outro lado, o diretor se sai bem em outros inúmeros momentos engraçados e também nas sequências de ação, empregando um ritmo intenso que prende a atenção do espectador, além de demonstrar habilidade na criação de planos interessantes, como no imponente muro de areia comandado por Imhotep no deserto ou aqueles que revelam toda a riqueza escondida no submundo da região de Hamunaptra.

Apesar de sua clara inspiração em Indiana Jones, “A Múmia” peca ao não seguir algo que conferia bastante realismo aos filmes do famoso arqueólogo, já que Sommers prefere deixar de lado as trucagens e abusa do CGI, diminuindo, por exemplo, o impacto dos insetos que surgem em diversos momentos, já que sabemos que os atores estão contracenando com imagens criadas em computador. Aliás, Sommers não parece prezar pela verossimilhança, tentando nos fazer acreditar que, três anos depois, durante a noite e a muitos metros de distancia, o guardião Bay (Oded Fehr) reconheceria Rick no deserto, ou então que, no extenso terceiro ato, a Múmia hesitaria diante da indefesa Evelyn mesmo estando tão próxima de ressuscitar sua amada Anck Su Namun (Patricia Velasquez).

Utilizando cores quentes nas áridas sequências que exploram a beleza do deserto e iluminando muito bem os ambientes fechados para colaborar na criação da atmosfera de suspense, a fotografia de Adrian Biddle reflete a alternância entre suspense e bom humor da narrativa, algo ressaltado também pela empolgante trilha sonora do ótimo Jerry Goldsmith. Por sua vez, os figurinos de John Bloomfield conferem realismo ao que vemos na tela e colaboram na imersão do espectador, assim como os imponentes cenários (direção de arte de Giles Masters, Tony Reading, Clifford Robinson e Peter Russell) e o ótimo design de som. E finalmente, a montagem de Bob Ducsay é essencial para que as cenas de ação funcionem, alternando com agilidade entre os planos sem deixar a plateia confusa.

Também apresentado numa sequência empolgante, Richard O’Connell mostra suas credenciais logo de cara com seu sorriso canastrão, evidenciando que a seriedade não é um traço forte de sua personalidade. Da mesma forma, Fraser deixa claro desde então que as performances caricaturais predominarão na narrativa, entretanto, mesmo abusando das expressões exageradas, ele se sai bem como protagonista, conduzindo a trama e criando empatia com a heroína interpretada por Weisz. Também apresentada numa sequência divertida onde, após derrubar toda a biblioteca em que trabalha, um diálogo expositivo nos explica sua origem, Evelyn surge como uma jovem inteligente, destemida e curiosa, numa combinação que se torna ainda mais perigosa graças ao jeito atrapalhado e gracioso da bibliotecária. Não é à toa, aliás, que a personagem de Rachel Weisz tem esta profissão, funcionando como guia para que o espectador compreenda a importância das descobertas do grupo e a história por trás de cada objeto encontrado nas lendárias terras egípcias – repare como Evelyn surge constantemente explicando algo que leu sobre os lugares ou os artefatos encontrados. Claramente se divertindo no papel, Weisz se sai bem e agrada em diversos momentos, ainda que evidencie sua falta de talento esporadicamente, como quando Evelyn fica bêbada no deserto.

Aparecendo pela primeira vez numa tentativa barata de assustar o espectador, o Jonathan de John Hannah surge repentinamente (e acompanhado pela alta trilha sonora) de um sarcófago e já indica que funcionará como alívio cômico, algo que de fato acontece praticamente o tempo inteiro. Da mesma forma, o Beni de Kevin J. O’Connor é responsável por arrancar risadas do espectador mesmo quando a Múmia aparece, graças ao ótimo desempenho do ator. Mas se esta abordagem leve e descontraída ajuda a tornar o longa mais agradável, por outro lado dilui a força do vilão, algo reforçado também pelas constantes aparições do personagem. Logo na introdução de Rick, por exemplo, temos uma demonstração dos perigos que a Múmia representa e, mesmo que ela volte a surgir somente uma hora depois, este breve momento já diminui o impacto de sua aparição. Contrariando a regra básica do suspense, Sommers ainda usa e abusa dos ótimos efeitos digitais para nos bombardear com diversos closes da Múmia, que sofre também com a expressão imutável de Arnold Vosloo. Obviamente, tudo isso contribui para que este não seja um vilão aterrorizante, o que é um problema grave, considerando que estamos falando de ninguém menos que o personagem título.

Seguindo a fórmula básica das aventuras, “A Múmia” diverte, mas peca em aspectos básicos que poderiam resultar num grande filme. Pelo menos, Stephen Sommers parece ter ciência disto e jamais leva seu filme muito a sério. O resultado é um passatempo agradável, mas completamente esquecível.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

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