OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

(Raiders Of The Lost Ark) 

 

Videoteca do Beto #24

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Alfred Molina, Denholm Elliott, Wolf Kahler, Don Fellows, William Hootkins, Fred Sorenson e Anthony Higgins. 

Roteiro: Lawrence Kasdan, baseado em estória de George Lucas e Philip Kaufman. 

Produção: Frank Marshall. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O talentoso diretor Steven Spielberg tinha o sonho de dirigir um filme da série James Bond. Quando decidiu aceitar a oferta de seu amigo George Lucas, que estava se dedicando a outro projeto (nada mais nada menos que “Guerra nas Estrelas”), Spielberg realizou seu sonho e esta maravilhosa aventura chamada “Os Caçadores da Arca Perdida” ganhou vida nas telas, dando início a saga de um dos maiores heróis da história do cinema: Indiana Jones.

Tudo tem início quando o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) é contratado para encontrar a Arca da Aliança, que segundo as escrituras sagradas do cristianismo, continha os dez mandamentos que Moisés trouxe do Monte Horeb. Diz a lenda que quem possuir a arca será invencível, e por isso, Indiana terá que evitar que ela caia nas mãos do temível exército alemão, liderado por Adolf Hitler.

O grande mérito da aproximação que o herói Indiana Jones consegue criar com o público reside no fato de que ele parece sempre vulnerável. E isto ocorre porque Indiana é alguém de carne e osso, que comete erros e acertos, e não um super-herói que acerta em todas as decisões e jamais dá a sensação de que corre algum risco. Indiana, por muitas vezes, toma decisões erradas, que pioram ainda mais as coisas, como podemos perceber logo no início do filme, quando ao voltar de um local sagrado onde consegue um artefato indígena, ele passa o artefato para seu colega que se encontra do outro lado de um buraco onde só é possível passar com ajuda, somente para que este o abandone à beira deste abismo. É claro que além desta vulnerabilidade, a excelente atuação de Harrison Ford também é diretamente responsável pelo sucesso do icônico personagem. Sarcástico, ele encarna o arqueólogo de forma tão incrível que mal podemos imaginar outro ator na pele dele. Lembrando a dupla identidade comum em outros heróis (Superman, por exemplo), Indiana aparece como um professor sério e tímido na universidade, mas se transforma completamente quando está na pele do arqueólogo aventureiro. Toda a concepção do personagem é ótima. O chapéu e o chicote se tornaram marcas tão fortes que hoje em dia, qualquer pessoa, mesmo que não tenha visto o filme, sabe de quem se trata somente ao ver a sombra deles. Indiana é um herói que evita, a qualquer custo, trazer problemas para si, como fica claro na engraçada cena em que mata um especialista em espada com um tiro. Ele sempre opta por resolver a situação da forma mais simples possível. Egoísta, Indiana sempre vai tentar salvar sua pele, mas como não é infalível (e sabemos disso), muitas vezes toma decisões erradas e a situação piora ainda mais. E o fato de não sabermos se Indiana vai tomar a decisão correta torna ainda mais plausível um possível fracasso dele, o que aumenta a carga de tensão nas muitas cenas em que corre perigo.

O bom roteiro de Lawrence Kasdan é repleto de dicas e recompensas. Diversas situações ou objetos que aparecem terão reflexo no restante da narrativa, dando uma sensação de prazer ao espectador mais atento, como por exemplo, a mão queimada pelo artefato que serve de cópia para os alemães ou a capacidade de Marion (Karen Allen, em boa atuação) de tomar bebidas alcoólicas. Além disso, o roteiro espalha pelo filme diversos momentos bem humorados, o que, desde que bem realizado, é sempre bem vindo em filmes de ação. Observe, por exemplo, a cena em que Sallah (John Rhys-Davies, muito bem como o fiel amigo de Indiana) olha para o poço das almas e vê algo se mexendo no escuro. Quando a tocha cai e ele percebe que são cobras, dá um grito de susto e em seguida se desculpa com Indiana (“Sorry Indy!”), pois sabe que o amigo as detesta. Outro engraçado momento é a fuga de Indiana da América do Sul, sendo perseguido por índios ferozes e gritando para o amigo ligar o motor do avião.

Outro grande destaque da produção são os excelentes efeitos visuais, conseguidos através de movimentos mecânicos, em uma época onde os efeitos de computadores ainda engatinhavam. Por isso, as trucagens utilizadas para conseguir estes efeitos soam bastante reais, exatamente porque eram feitas com dublês e em estúdio. A enorme carga de ação do longa garante seqüências extremamente interessantes, como por exemplo, a empolgante cena da perseguição no caminhão. Fica evidente ali que os movimentos são reais. Sabemos que o ator (ou o dublê) realmente passou por baixo do caminhão, o que aumenta nossa aflição na cena. Além disso, o filme conta ainda com efeitos absolutamente inovadores na época, como o rosto derretendo (mérito principalmente da maquiagem) e as luzes saindo da arca. A maravilhosa trilha sonora de John Williams é destas trilhas que se tornaram tão famosas que até mesmo quem não viu o filme a reconhece.

Completando o bom trabalho técnico, a direção de fotografia de Douglas Slocombe destaca cores opacas, refletindo bem o local árido que é o deserto no Cairo, a excelente direção de arte de Leslie Dilley cria cenários absolutamente encantadores como o poço das almas, os belíssimos figurinos de Deborah Nadoolman dão um visual perfeitamente coerente com o ambiente (além de colaborar sensivelmente para o já citado visual de Indiana), e finalmente, a montagem de Michael Kahn ajuda a manter o ritmo ágil e empolgante da narrativa, além de criar duas seqüências muito famosas durante toda a saga de Indiana (o logo da Paramount se transformando no primeiro plano do longa e a linha vermelha marcando no mapa a trajetória das viagens do herói).

E finalmente, é claro que para que tudo isto funcionasse de forma tão perfeita seria necessária uma direção competente. E Spielberg merece todos os créditos por isso. Sua direção é segura, conduzindo a narrativa de forma coerente e extraindo grandes atuações do elenco. O diretor cria ainda planos belíssimos e cenas inesquecíveis, como Indiana fugindo da bola gigante, a fuga do poço das almas, a perseguição no caminhão e a abertura da arca. Não podemos dizer que “Os Caçadores da Arca Perdida” seja um filme perfeito. Os defeitos existem, como uma cena pouco verossímil em que Indiana viaja em cima de um submarino por muitos dias, mas a fantasia que cria e a forma que mexe com a imaginação compensam qualquer erro.

A deliciosa aventura “Os Caçadores da Arca Perdida” consegue misturar ação, suspense e bom humor, alcançando um resultado maravilhoso. É inevitável nossa identificação com o carismático personagem principal e, por isso, embarcamos juntos com ele nesta viagem maravilhosa através da imaginação. A grande direção de Spielberg e a ótima atuação de Harrison Ford criaram, junto com toda a equipe, um herói clássico, muito próximo de todos nós, e exatamente por isso, inesquecível.

 

Texto publicado em 08 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

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17 Respostas to “OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)”

  1. ANDRÉ Says:

  2. IMPÉRIO DO SOL (1987) | Cinema & Debate Says:

    […] na construção de narrativas empolgantes após enfileirar sucessos como “Tubarão”, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “E.T. – O Extraterrestre”, entre outros, o diretor parecia trilhar neste instante de sua […]

  3. marcelo Says:

    Filmaco! Não canso de assistir! Infelizmente o último foi uma porcaria!

  4. A MÚMIA (1999) « Cinema & Debate Says:

    […] aventura. O problema é que, infelizmente, não é toda hora que surge um Steven Spielberg e seu “Os Caçadores da Arca Perdida”, filme que influenciou nove entre cada dez produções que surgiram no gênero nos últimos […]

  5. Cross98 Says:

    leva o espirito ao climax maximo

  6. INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989) « Cinema & Debate Says:

    […] iniciar a saga do arqueólogo Indiana Jones com o maravilhoso “Os Caçadores da Arca Perdida”, Steven Spielberg adotou um tom mais obscuro e, conseqüentemente, menos interessante no segundo […]

  7. francisco Says:

    Concordo, roberto ! E Então não foi por acaso que Sean Connery participou do terceiro episódio da série interpretando o pai de indy né ? Uma maneira genial que Spielberg encontrou para associar um personagem à outro e de uma forma sutil e interessante ! Obrigado e um abraço !

  8. francisco Says:

    Gostei demais deste comentáro sobre um dos trabalhos mais geniais deste estupendo diretor, desta feita realizando uma aventura do jeito que tinha que ser…dá pra imaginar como seria um filme de James Bond dos anos 60 dirigido por ele e com Ford no papel deste famoso espião. Outro aspecto que observei foi a capacidade de Spíelberg em homenagear e ao mesmo tempo parodiar aqueles filmes e seriados antigos cheio de clichês que lotavam os cinemas nas matinées dos anos 40 e 50 e por aí vai… Obrigado e um grande abraço…

    • Roberto Siqueira Says:

      É verdade Francisco. Para mim, Indy é o filho cinematográfico de Bond. Spielberg e Ford criaram um personagem icônico em Hollywood, destes que viverão eternamente na memória dos espectadores.
      Um abraço.

  9. Achilles de Leo Says:

    preciso muito rever esse filme… deu saudade…

    • Roberto Siqueira Says:

      Muito legal Achilles! Vale a pena rever mesmo.
      Valeu pela visita ao blog e pelo comentário.
      Abraço!

  10. Mandy Intelecto Says:

    Os Caçadores da Jaca Perdida!!

    huahauhauahuahuahau

    Me mato de rir com vc e o Thi!!!

    Choro de rir…

    E claro que ainda NÃO vi o filme…..

    • Roberto Siqueira Says:

      Quase fiz um post sobre o Horti Frutti hoje. Se bobear faço em breve. Muito engraçado.
      Beijo e valeu!

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