O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1956)

(The Man Who Knew Too Much)

 

Filmes em Geral #59

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Doris Day, Brenda De Banzie, Bernard Miles, Ralph Truman, Daniel Gélin, Mogens Wieth, Alan Mowbray, Hillary Brooke, Christopher Olsen, Reggie Nalser, Noel Willman, Alix Talton, Carolyn Jones e Alfred Hitchcock.

Roteiro: John Michael Hayes, baseado em história de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

As principais características que marcaram a carreira do mestre do suspense estão presentes neste ótimo “O homem que sabia demais”, remake superior ao filme original dirigido pelo próprio Hitchcock em 1934, no Reino Unido. Nas palavras dele próprio, o filme de 1956 é resultado do trabalho de um profissional, ao passo em que o filme de 1934 era o trabalho de um amador. E quando Hitchcock dizia que este thriller repleto de suspense era o trabalho de um profissional estava repleto de razão, pois o longa consegue prender o espectador de uma maneira que somente os filmes do mestre conseguiam fazer.

Viajando de férias pelo Marrocos, o casal Ben (James Stewart) e Jo McKenna (Doris Day), acompanhados do filho Hank (Christopher Olsen), se envolve acidentalmente numa trama internacional que planejava o assassinato de um líder político, quando o moribundo Bernard (Daniel Gélin), que o casal havia acabado de conhecer, sussurra no ouvido de Ben a terrível conspiração. Buscando evitar que o Dr. Ben conte à polícia o que ouviu do homem assassinado, os conspiradores resolvem seqüestrar seu filho.

Mantendo a mais pura tradição hitchcockiana, o roteiro de John Michael Hayes, baseado em história de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis, é bastante complexo e repleto de possibilidades, levando o espectador a temer constantemente pelo destino dos personagens. Hayes intercala muito bem as duas linhas narrativas principais, envolvendo o planejamento e execução do assassinato e o seqüestro do jovem Hank, auxiliado também pela montagem dinâmica de George Tomasini, que tem participação fundamental na melhor cena do longa, dentro do Albert Hall. A atmosfera de suspense que envolve “O homem que sabia demais” é construída minuciosamente através de pequenos detalhes, como a ajuda de Bernard, no incidente com o véu da mulher mulçumana no ônibus, que serve para levantar suspeita a respeito de seu caráter, como podemos notar na conversa entre Jo e Ben logo em seguida. Como sabemos, nos filmes de Hitchcock toda atitude é vista com certa desconfiança pelo espectador. Por isso, toda esta seqüência do Marrocos é repleta de mistério, graças também ao próprio ar enigmático do local – e neste sentido, vale destacar o bom trabalho de ambientação feito em conjunto pela direção de arte de Henry Bumstead e Hal Pereira e pelos figurinos de Edith Head. O roteiro de Hayes mantém ainda a principal característica dos filmes do mestre do suspense, apresentando um ponto de reviravolta completa na trama, através da ligação recebida por Ben na delegacia. Finalmente, as pessoas que ficam esperando o casal McKenna na casa deles servem de alivio cômico, algo essencial numa narrativa tão carregada, mas que infelizmente peca pelo exagero quando o casal volta pra casa e diz “Desculpem, tivemos que buscar Hank”. Apesar de divertido, este final não condiz com o clima tenso de todo o filme, mas este é apenas um pequeno deslize dentro de uma obra com importantes qualidades.

Colabora para o envolvimento do espectador com a trama a boa atuação de James Stewart, que transmite muito bem o crescente sentimento de desespero em Ben. Sempre carismático, o ator encarna perfeitamente o homem comum que de repente se vê numa situação inesperada e por isso provoca empatia imediata no espectador. E é comovente acompanhar sua gradual transformação num homem desesperado em busca do filho, ao mesmo tempo em que tenta controlar os seus nervos e os de sua esposa, interpretada por Doris Day. Cantora profissional, Day oferece uma atuação que, surpreendentemente, vai além do seu notável talento com a voz, destacando-se também nos momentos dramáticos, como quando recebe a notícia, já sob sedativos, de que seu filho havia sido seqüestrado, com um choro comovente e um desespero bastante verossímil. E até mesmo nos momentos que exigem uma atuação mais sutil a atriz se sai bem, como quando Bernard pergunta sobre seu passado e ela olha discretamente para o marido, com um ar de desconfiança. Observe também como a trilha misteriosa que sublinha a conversa dela com Bernard colabora com o clima de mistério, reforçado ainda pelo fato de Bernard falar o idioma local e tanto ela quanto o espectador ficarem sem entender nada quando ele conversa com os habitantes locais. Já o garoto Hank, interpretado por Christopher Olsen, oscila entre momentos de extremo carisma e simpatia, como na viagem de ônibus pelo Marrocos, e momentos em que é irritante, como no passeio pelas ruas de Marrakesh.

Completando o elenco, temos o misterioso casal Drayton, interpretado por Bernard Miles e Brenda De Banzie. Apresentados na engraçada cena do jantar, que mostra também os interessantes costumes locais, o casal Drayton se mostra bastante simpático e inicialmente não gera desconfiança em Jo e Ben, o que aumenta o choque no doutor (e no espectador) quando a bombástica notícia chega através do telefone. Mas, infelizmente, Miles não consegue jamais fazer com que seu personagem represente um perigo real como fez o sensacional Peter Lorre no filme original. Ainda assim, ele vive bons momentos, como na cena em que o Sr. Drayton diz que o bater de pratos é a deixa para o tiro, que faz o espectador se lembrar do inicio do filme, revelando uma elegante rima narrativa. Por outro lado, Brenda De Banzie oferece uma atuação ambígua na pela da Sra. Drayton, alternando entre a vontade de ajudar o marido e o sentimento maternal, que será elemento chave para a solução da trama. Quando Jo começa a cantar dentro da embaixada, nos lembrando da cena em que ela canta com Hank no hotel (outra rima narrativa interessante), a sugestão da Sra. Drayton para o garoto será responsável por sua salvação. E neste momento, vale observar atentamente a meticulosa condução da cena. Enquanto ouvimos a música de Jo, somos levados plano após plano até o quarto, ao mesmo tempo em que o som diminui o volume, dando a exata noção da importância da música naquela situação. Felizmente o som superou as barreiras e chegou ao quarto, assim como a Sra. Drayton superou suas convicções e abriu mão de seu plano para salvar aquele menino.

Obviamente, o mérito pela condução da cena citada é de Hitchcock, que conduz a câmera com segurança durante todo o filme, fazendo movimentos interessantes, como o travelling pelo quarto de hotel que mostra Jo e Hank cantando enquanto Bernard e Ben conversam. Além disto, ele utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano em que podemos ver Ben caminhando pela rua enquanto um homem se aproxima dele e, logo em seguida, quando a câmera assume o seu ponto de vista e nos leva para dentro do local, mantendo a constante sensação de que algo aparecerá a nossa frente. Hitchcock sabia como poucos prolongar ao máximo o suspense e em “O homem que sabia demais” ele utiliza este artifício diversas vezes, como quando Ben telefona para Ambrose Chapel e algumas pessoas entram no apartamento, atrapalhando a conversa. O próprio trocadilho com o nome “Ambrose Chapel” serve para estender um pouco mais a trama, evitando que o casal vá direto à capela onde se encontra o jovem Hank. Mas o mestre reafirma toda sua qualidade como diretor em dois momentos especiais. O primeiro deles é a morte de Bernard, quando a câmera acompanha as costas do homem ferido até que este encontre o Dr. Ben e somente então revela seu rosto. O segundo e mais emblemático momento é a sensacional cena dentro do Albert Hall. Outra cena sensacional é o tenso encontro dentro da capela, onde a simples troca de olhares durante a ceia diz mais que qualquer palavra. Stewart e Day demonstram com competência a aflição dos personagens, algo que se repete com De Banzie e Miles. Vale destacar ainda aspectos menores, porém interessantes, da direção de Hitchcock, como o desmaio de Ben, que provoca uma distorção na imagem, transmitindo ao espectador a exata sensação do personagem (algo que seria ainda mais notável na obra-prima “Um corpo que cai”), assim como a utilização dos animais empalhados, que por si só colaboram com a aflição provocada no espectador (e que também seriam utilizados novamente por Hitchcock, na obra-prima “Psicose”). Observe ainda como o diretor encerra esta cena com um close no leão empalhado, simbolizando que Ben havia se transformado numa verdadeira fera em busca de seu filho.

Hitchcock conta ainda com a direção de fotografia de Robert Burks, que logo após o seqüestro de Hank, envolve o casal em sombras dentro do hotel, refletindo o abismo que eles haviam se metido, algo também ilustrado quando ambos conversam com Hank por telefone e o diretor filma em plongée (de cima pra baixo), diminuindo o casal na tela. Além de Burks, merece destaque o sempre excelente Bernard Herrmann, tradicional colaborador de Hitchcock e responsável pela boa trilha sonora do filme, que inclusive é homenageado através de um cartaz na entrada do Albert Hall. E já que citei a casa de espetáculos londrina, aproveito para voltar à cena mais sensacional de “O homem que sabia demais”, cuidadosamente planejada para aumentar lentamente o suspense até alcançar níveis insuportáveis. Hitchcock cria a atmosfera perfeita ao alternar entre os belíssimos planos gerais do teatro e os diversos planos que mostram a lenta construção do clímax. Observe, por exemplo, como apenas pela disposição das pessoas na platéia Jo pressente a execução do assassinato e gradualmente se desespera. Podemos ver a chegada de Ben, os preparativos do assassino, sua parceira acompanhando a letra da música, o primeiro ministro sentado, o coral cantando a ópera (a própria música confere uma aura épica à cena) e o homem responsável pelos pratos se ajeitando para entrar em ação, tudo isto numa seqüência angustiante e incrivelmente bem conduzida pelo diretor e pela montagem. Pra completar, temos o plano genial da arma aparecendo entre as cortinas e o surpreendente desfecho, quando Jo salva o ministro através de seu grito estridente.

Confirmando sua incrível capacidade de conduzir a narrativa, mantendo o espectador sempre atento ao que se passa na tela, Alfred Hitchcock nos brinda com outro grande filme neste “O homem que sabia demais”, que conta também com atuações inspiradas de James Stewart e, pasmem, Doris Day. O crescente clima de suspense e o desespero dos pais em busca do filho prendem o espectador do início ao fim. E assim como a perseverança de Hank é recompensada ao assoviar insistentemente a música tocada por sua mãe, o espectador se sente recompensado pelo tempo que investe neste ótimo filme feito “por um profissional”. Talvez, em se tratando de cinema, Hitchcock é quem deveria ser chamado de “o homem que sabia demais”.

Texto publicado em 07 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

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3 Respostas to “O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1956)”

  1. Pedro Says:

    A direção é incrível, mas o roteiro deixou a desejar.

  2. UM CORPO QUE CAI (1958) « Cinema & Debate Says:

    […] 50, emendando uma série de filmes de excelente qualidade como “Disque M para Matar” e o “O Homem que sabia demais”, além de algumas obras-primas, como “Janela Indiscreta” e este “Um Corpo que Cai”, que […]

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