127 HORAS (2010)

(127 Hours)

 

Filmes em Geral #78

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: James Franco, Treat Williams, Kate Mara, Lizzy Caplan, Kate Burton, Amber Tamblyn, John Lawrence, Clémence Poésy, Fenton Quinn, Pieter Jan Brugge, Rebecca C. Olson, Jeffrey Wood, Norman Lehnert, Darin Southam, Sean Bott e Parker Hadley.

Roteiro: Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseados em livro de Aron Ralston.

Produção: Danny Boyle, Christian Colson e John Smithson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em 2003, o jovem Aron Ralston ficou famoso por ter sido obrigado a amputar o próprio braço depois de ficar preso por uma rocha num cânion. Mas, apesar de lançar um livro logo no ano seguinte, ele teve que aguardar alguns anos para ver sua história ganhar vida nas telas do cinema, talvez pela curiosa dualidade que o projeto naturalmente carrega. Se por um lado a experiência de Aron possui carga dramática suficiente para se tornar um filme, por outro as extensas 127 horas do título poderiam resultar num longa monótono demais para os padrões cinematográficos contemporâneos. Coube então a Danny Boyle a missão de transportar para a telona esta marcante história. Felizmente, o resultado é satisfatório, ainda que os invencionismos do diretor amenizem o impacto que a narrativa poderia ter.

Escrito pelo próprio Boyle ao lado de Simon Beaufoy e com base no livro do verdadeiro Aron, “127 Horas” apresenta a complicada situação vivida pelo jovem Aron Ralston (James Franco) após cair na fenda de um cânion e ter seu braço preso entre a parede e uma rocha. Desde o início, Boyle faz questão de ressaltar o contraste entre as diversas imagens de multidões reunidas em locais como estádios e shows e a imagem do solitário Aron saindo de casa na madrugada, numa alusão ao espírito aventureiro e solitário do rapaz. Aliás, eu não me recordo qual era a frase que promovia “127 Horas”, mas certamente a mensagem do filme poderia se resumir à frase “Sempre avise alguém aonde você vai estar” – algo, aliás, que o letreiro final deixa claro que Aron aprendeu. O evento que muda radicalmente a narrativa (e a vida de Aron) acontece logo aos 15 minutos de projeção – numa cena de forte impacto visual, amplificada pela boa atuação de Franco, que transmite muito bem a dor e a raiva de Aron. A partir dali, o letreiro com o título do longa anuncia que acompanharemos as angustiantes 127 horas que o jovem passou no local.

Mas esta expectativa se revela levemente falsa, já que as escolhas de Boyle e sua equipe sempre buscam amenizar esta experiência potencialmente sufocante. Repare, por exemplo, como a fotografia inicialmente viva e cheia de cores de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle corretamente dá lugar aos tons mais escuros quando Aron se prende à rocha, mas as constantes interrupções através de flashbacks e delírios evitam que o visual reflita a angústia dele. Da mesma forma, a montagem de Jon Harris surge inicialmente acelerada (ele chega a dividir a tela em três partes) e, reforçada pela trilha sonora agitada de A. R. Rahman, reflete corretamente a euforia do personagem naquele instante. Repare, por exemplo, a seqüência em que ele anda de bicicleta até chegar ao cânion, que intercala diversos planos rapidamente buscando conferir energia à narrativa. Repleta de imagens belíssimas que transmitem ao espectador a mesma alegria dele, dentre as quais vale destacar o local onde ele mergulha com duas garotas, toda esta seqüência inicial deveria servir de contraste para o sufocante restante da narrativa, mas, infelizmente, Harris e Boyle decidem utilizar diversos recursos narrativos que buscam amenizar o aspecto claustrofóbico e monótono que o longa naturalmente evoca.

Além da beleza local, os planos gerais destacam também a imponência da natureza e a nossa insignificância diante dela, algo ressaltado pelo ótimo travelling que revela o quão inúteis são os gritos de Aron, com a câmera saindo de seu rosto para mostrar a imensidão do inabitado local onde ele está preso – a enorme fenda parece minúscula quando observamos toda a região. Boyle acerta também ao destacar a importância da água através de closes no líquido e no rosto do protagonista enquanto bebe (praticamente compartilhamos de sua sede quando vemos garrafas de Gatorade e Coca-Cola), assim como a importância do sol é realçada pela primeira vez num belo momento, quando a luz invade a sombria fenda. Porém, numa decisão puramente comercial que buscava evitar cansar o espectador (e, desta forma, atrair mais público para os cinemas), Boyle acelera a montagem e abusa de transições estilísticas que, reforçadas pela trilha sonora agitada, até alcançam seu objetivo original, mas enfraquecem o drama do protagonista por não transmitir ao espectador a mesma sensação dele. Além disso, o uso de flashbacks e os delírios de Aron com a ex-namorada, por exemplo, aliviam a sensação de isolamento no espectador e, por isso, também enfraquecem o peso dramático da narrativa.

Por sorte, James Franco se sai muito bem na difícil tarefa de carregar “127 Horas” sozinho, evitando que o espectador “se canse” do personagem com seu carisma. Realçando o desespero pontual de Aron através de decisões pouco racionais – como raspar a rocha com um canivete -, o ator expõe com clareza os conflitantes sentimentos de Aron, o sofrimento causado pela fome, pelo frio e pela sede e, especialmente, seu esforço para evitar perder o controle diante da complicada situação em que se meteu – e que por vezes dá espaço às inevitáveis explosões de raiva e desespero, como quando ele grita por ajuda. Aliás, é impressionante notar como Aron consegue manter o raciocínio lógico e até mesmo criar estratégias para sobreviver por mais tempo, ainda que saiba que não resistirá por muitos dias se continuar preso, como na mórbida idéia de gravar suas conversas com a câmera digital, que acaba se transformando numa forma de sair mentalmente do local, uma espécie de janela para o mundo em que ele se refugia – e chega a ser tocante o momento em que ele ameaça se masturbar vendo a imagem de uma das garotas, refutando a idéia logo em seguida por perceber o absurdo da situação.

Em outra idéia inteligente que busca tirá-lo mentalmente dali, Aron imita um programa de rádio e aproveita para externar seus sentimentos, exorcizar os demônios e deixar mensagens gravadas para os pais, o que revela uma comovente conformidade diante da morte eminente e uma tocante esperança de que um dia a câmera seria encontrada a tempo de que eles ouvissem suas palavras. Aron chega até mesmo a imaginar (ou sonhar? ou delirar?) que a chuva moveu a pedra e lhe tirou da fenda, mas seu choro doloroso nos traz de volta à realidade junto com ele.

Este sofrimento se arrasta até que o som de fortes batidas de coração avise ao espectador que algo está prestes a acontecer momentos antes dele enfiar o canivete no braço e iniciar o doloroso processo que resultará na cena mais forte de “127 horas” algum tempo depois. Antes disso, o símbolo da bateria acabando na filmadora serve como uma metáfora para o próprio Aron, que se aproxima da morte e chega à triste conclusão de que aquela rocha o esperava há bilhões de anos (levantando uma interessante tese para discutir entre amigos). Em seguida, são necessários coragem e estômago forte para acompanhar o momento em que Aron decide amputar o próprio braço (com um canivete cego!) para sobreviver, captado em detalhes pela câmera de Danny Boyle. Coragem, aliás, que não faltou ao rapaz, que buscou força nas lembranças da família e na visão do filho que ele ainda não tinha para tomar esta atitude – e confesso que me identifiquei muito neste momento, já que sempre temi morrer antes de ter um filho. Chegava ao fim sua árdua jornada; e as imagens do verdadeiro Aron ao lado da esposa e do filho revelam que aquela dolorosa decisão valeu à pena.

Apesar das equivocadas escolhas de seu diretor, “127 Horas” é um filme sufocante, que poderia ser infinitamente mais angustiante caso Boyle tivesse ousado um pouco mais. Em todo caso, a traumática experiência vivida pelo protagonista e a ótima atuação de James Franco são suficientes para fazer deste um grande filme. Aron descobriu da pior maneira o quanto a natureza pode ser simultaneamente fascinante e implacável.

Texto publicado em 13 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

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Uma resposta to “127 HORAS (2010)”

  1. TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (1996) « Cinema & Debate Says:

    […] e funciona muito bem – algo que não acontece, por exemplo, em outros bons filmes como “127 horas” ou “Quem Quer Ser um Milionário?”. Auxiliado pela montagem rápida e empolgante de Masahiro […]

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