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A PRAIA (2000)

9 maio, 2017

(The Beach)

 

 

Videoteca do Beto #235

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Robert Carlyle, Tilda Swinton e Paterson Joseph.

Roteiro: John Hodge, baseado em romance de Alex Garland.

Produção: Andrew Macdonald.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um diretor em ascensão conhecido pela habilidade na abordagem de narrativas voltadas para o público jovem, um ator jovem, talentoso e igualmente em plena ascensão e um cenário paradisíaco num dos países mais exóticos do circuito turístico são os ingredientes que poderiam fazer de “A Praia” um grande sucesso de público e crítica. E se utilizo a palavra “poderiam” é por que o resultado, infelizmente, fica aquém do esperado, especialmente pelo roteiro pouco coeso que não sabe muito bem em que direção seguir, algo que nas mãos de um diretor nada enxuto como Boyle se torna um problema ainda maior.

Escrito por John Hodge, baseado em romance de Alex Garland, “A Praia” nos apresenta ao jovem Richard (Leonardo DiCaprio) que, numa viagem a Bangkok, encontra um sujeito estranho que lhe conta sobre uma misteriosa praia numa ilha antes de cometer suicídio e deixar o mapa do local. Após conversar com um casal de franceses, Françoise (Virginie Ledoyen) e Étienne (Guillaume Canet), os três decidem partir em busca da ilha e, ao chegarem lá, encontram uma sociedade alternativa que vive com suas próprias regras, sob a liderança de Sal (Tilda Swinton).

O início de “A Praia” não poderia ser mais promissor. Através de uma eficiente apresentação do personagem central e de suas motivações, que se torna ainda mais interessante na voz do próprio protagonista, Boyle logo de cara estabelece a linguagem jovial característica de sua filmografia e que tem tudo a ver com o clima da narrativa, conectando-se imediatamente com a fatia mais jovem e aventureira da plateia e mantendo esta conexão em boa parte do longa através do uso de músicas contemporâneas e até mesmo de recursos cinematograficamente pouco usuais como telas de videogame.

Esta direção histriônica transmite uma energia que faz bem ao filme, especialmente no início quando tanto o protagonista quanto o espectador estão excitados pela simples expectativa de chegar a mítica praia, tão famosa naquele universo diegético que até inspira mochileiros a pensarem nela como mais uma das muitas lendas urbanas comuns em tantos lugares do mundo. Este clima de aventura é importante para que o espectador se sinta como um dos viajantes que partem em busca do local misterioso, criando a empatia necessária para que ele sinta a praia como o próprio Richard, o que será vital quando os conflitos surgirem e o choque, inevitável, virar realidade.

O próprio Di Caprio exagera nas expressões em diversos instantes, o que é coerente com a intenção do diretor de criar esta atmosfera empolgante, repleta de adrenalina, como se a ilha e a própria praia fossem alucinógenos que abastecem a necessidade daquele jovem por aventuras. Por isso, quando cruza com turistas regulares que buscam apenas as praias comuns e as massagens tailandesas nas areias de Bangkok, Di Caprio lança um olhar de desprezo, como se aquilo fosse algo totalmente sem sentido para ele. O que Richard buscava era adrenalina e não relaxamento.

Aliás, a loucura provocada pelas drogas ou qualquer situação extrema é um tema recorrente na filmografia de Boyle, que muitas vezes ilustra as viagens mentais de seus personagens de maneira criativa, nos permitindo participar do processo ativamente, e aqui não é diferente. No entanto, é justamente quando se aprofunda demais nesta abordagem que o diretor perde a mão, no instante em que Richard enlouquece, já no segundo ato, quando a narrativa perde força enquanto ele se isola dos demais e vive sua loucura particular – ainda assim, existem acertos, como quando ele conversa sobre “O Perdedor” e seu rosto surge afundado nas sombras, realçando seu desequilíbrio momentâneo. Desnecessário também é o momento em que Richard alivia a dor do sueco ferido, numa ação incoerente com o personagem até então. Só que, apesar do roteiro irregular não cooperar, Di Caprio segura bem o papel e ajuda a salvar o longa do fracasso.

“A Praia” traz também uma gama de personagens periféricos interessantes, como o excêntrico Sr. Patolino, o “Perdedor”, que fala sobre a ilha e a praia misteriosa para Richard no início e os carismáticos franceses que cruzam o caminho dele. No entanto, o personagem mais interessante não é de carne e osso, mas tem vida própria e é o alvo de toda aquela jornada. Aumentando a expectativa por sua aparição através da trilha sonora empolgante que embala a viagem até ela e da aura mística que a cerca antes da primeira aparição, a praia não decepciona em nada quando surge aos olhos do espectador, sendo um verdadeiro deleite admirar aquele local extraordinário que não poderia fazer mais jus à fama que recebe. Captadas com perfeição pela fotografia de Darius Khondji, aquelas paisagens criam um visual arrebatador, que ganham contornos românticos nas muitas cenas noturnas em que fica evidente o uso da técnica conhecida como noite americana, notável por exemplo na linda cena do beijo entre Richard e Françoise.

O contraste entre a beleza daquele lugar e as grandes cidades fica evidente quando eles voltam a Bangkok, com a câmera agitada, o som dos carros e pessoas transitando e o alto volume da trilha sonora causando uma sensação incômoda que reflete o que os personagens sentiam distantes da praia. Até por isso, os premiados moradores daquele paraíso criaram um código rígido de regras que buscava preservar a natureza mítica do local, o que também acaba gerando problemas pela forma como este código é conduzido por sua líder – voltaremos a ela em instantes.

Mas nem só de beleza vive “A Praia” e descobrimos isso de maneira traumática através das fortes imagens que surgem repentinamente após um dos integrantes da comunidade ser atacado por um tubarão. O banho de sangue, exposto propositalmente por Boyle, demonstra que a natureza pode ser bela, mas igualmente cruel. Mais cruel ainda, no entanto, é a postura do restante do grupo que trata o companheiro ferido com desprezo, numa postura até mesmo pouco realista diante da gravidade da situação, que estereotipa pessoas que querem viver apenas da natureza como selvagens sem sentimento, o que é bem questionável. Por outro lado, quando eles decidem largar o ferido no meio das árvores para não sofrerem mais com seus gemidos, de certa forma estão agindo como boa parte da sociedade que prefere não ver os problemas do local onde vive, apoiando, por exemplo, a remoção de pessoas carentes, mendigos e moradores de rua de forma brutal pelo Estado (num processo cruelmente chamado de “higienização”), para que possa transitar livremente e pensar que tais problemas sociais não existem.

Esta postura impassível que muitos esperam do Estado nas grandes cidades aqui é representada pela figura de Sal, a líder da comunidade vivida corretamente de maneira fria e rígida por Tilda Swinton. Através do olhar gélido e da voz firme, ela impõe respeito como alguém extremamente controladora, que adota uma postura ditatorial para tentar preservar seu paraíso quase particular, provocando calafrios naqueles que quebram esta regra sagrada, como fica evidente no reencontro de Richard com os compatriotas para quem havia entregue o mapa da ilha, no qual ele surge com o rosto sob tons vermelhos, ilustrando seu inferno astral e o pecado que havia cometido. Só que, como saberemos na boa conclusão da narrativa, nenhum paraíso resiste a esta postura controladora e extremista. Assim, tanto Tilda quanto Di Caprio encerram muito bem este conflito de ideias no confronto final entre os personagens, que escancara o lado podre da líder do grupo e destrói de vez o sonho de viver na mítica praia. E é justamente na destruição deste sonho que “A Praia” escorrega.

Partindo de um ponto inicial repleto de boas ideias, o longa dirigido por Danny Boyle escorrega em diversos detalhes e acaba soando moralista demais, quase que julgando a intenção daquelas pessoas de viverem afastados do mundo moderno como algo errado e impossível de se praticar. Uma pena.

Texto publicado em 09 de Maio de 2017 por Roberto Siqueira

TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (1996)

13 dezembro, 2012

(Trainspotting)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #146

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Ewan McGregor, Pauline Lynch, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Kelly Macdonald e Peter Mullan.

Roteiro: John Hodge, baseado em livro de Irvine Welsh.

Produção: Andrew Macdonald.

Trainspotting - Sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um dos grandes problemas de filmes que abordam o mundo das drogas é que, na tentativa de deixar uma mensagem que ajude a afastar as pessoas do vício, eles acabam distanciando-se da realidade e, por consequência, perdem a credibilidade junto àqueles que conhecem o tema. Pois o fato é que para o viciado, o mundo das drogas é alegre, divertido e colorido num primeiro momento e, em alguns casos, pode levar anos para se transformar de fato num pesadelo. Por isso, ao exagerar nas consequências do vício, certos filmes acabam soando falsos e trabalham no sentido contrário ao desejado. Não é o que acontece neste interessante “Trainspotting – Sem Limites”, que evita a panfletagem e o moralismo barato ao trazer o mundo sob o olhar dos viciados, ainda que não fuja à responsabilidade de mostrar as graves consequências do uso constante de heroína para alguns personagens do grupo.

Baseado em livro homônimo de Irvine Welsh, o roteiro de John Hodge narra a história sob a perspectiva de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem escocês que, para escapar da vida entediante e frustrante de sua cidade, se entrega ao uso da heroína ao lado dos amigos Spud (Ewen Bremner), Lizzy (Pauline Lynch), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd). Entre pesadas sessões e idas aos bares, o grupo se mete em diversas confusões, ainda mais quando o estourado Begbie (Robert Carlyle) está por perto. Só que a chegada da garota Diane (Kelly Macdonald) fará com que Renton pense em seguir novos caminhos.

Desde os primeiros instantes de “Trainspotting”, Danny Boyle evidencia que tentará simular a euforia de seus personagens através do visual e do ritmo insano de sua narrativa, empregando constantemente a aceleração da imagem num ritmo histriônico que já deixava claro seu estilo inquieto e exagerado de dirigir. Neste caso, porém, este estilo casa perfeitamente com os personagens e funciona muito bem – algo que não acontece, por exemplo, em outros bons filmes como “127 horas” ou “Quem Quer Ser um Milionário?”. Auxiliado pela montagem rápida e empolgante de Masahiro Hirakubo, o diretor cria momentos memoráveis, como a sequência em que todos (ou quase todos) os amigos transam – na qual, aliás, Boyle faz questão de mostrar órgãos genitais em profusão. Além disso, ele filma as baladas com intensidade, utilizando câmeras subjetivas para nos colocar dentro da pista e, com o auxilio de excelentes músicas, fazer com que o espectador se sinta vivo – vale notar também as curiosas legendas utilizadas para reforçar o que está sendo dito pelos personagens devido ao volume da música ambiente.

Todos os amigos transamDentro da pistaCuriosas legendasA trilha sonora, aliás, é um capitulo a parte. Na tentativa de ilustrar a euforia do grupo, Boyle fez uma verdadeira seleção de músicas empolgantes que vão de clássicos do rock britânico como Iggy Pop até sucessos da cena Techno como Underworld, criando inúmeras sequências memoráveis que casam perfeitamente a canção com as imagens, como a cena de abertura em que os jovens surgem correndo pelas ruas. Por sua vez, a fotografia de Brian Tufano contrasta as cores chamativas das viagens de heroína com as tonalidades frias e acinzentadas tão comuns na Escócia que predominam quando os jovens tentam deixar o vício, refletindo a tristeza deles quando estão distantes da droga.

Cena de aberturaViagens de heroínaJovens tentam deixar o vícioPor outro lado, o ambiente escuro e sombrio em que eles se drogam só ganha vida no apertado espaço em que compram heroína, onde o vermelho ganha destaque e realça o aspecto infernal do local. Repleto de objetos espalhados pelo chão, o ambiente é apenas mais um entre os vários que ilustram a degradação do grupo, contrastando diretamente com os apartamentos limpos e claros que Renton vende em Londres e realçando o bom trabalho de design de produção de Kave Quinn. Finalmente, os figurinos de Rachael Fleming auxiliam em nossa imersão naquele ambiente ao utilizar roupas bem joviais como calças jeans e camisetas básicas.

Ambiente escuro e sombrioAspecto infernalApartamentos limpos e clarosMas se por um lado o trabalho técnico é todo voltado para nos proporcionar a mesma euforia de Renton e seu grupo, por outro os personagens nada simpáticos que permeiam a narrativa reequilibram a balança, fazendo com que o espectador reflita um pouco mais a respeito do que vê. Utilizando a narração de Ewan McGregor por todo o filme, Boyle evidencia desde o início que Renton será o personagem central da trama, injetando adrenalina na plateia enquanto acompanhamos o garoto correndo pela cidade. Por isso, o desempenho de McGregor é essencial para o sucesso do longa e, felizmente, o ator consegue carregar a trama com facilidade. Sendo assim, Boyle se sente a vontade para nos colocar na posição dele em diversos instantes, como quando as alucinações chegam ao auge após seu tratamento, numa cena inspirada em que praticamente todos os personagens surgem no quarto enquanto ele sofre com a forte crise de abstinência.

Garoto correndo pela cidadeAlucinações chegam ao augeForte crise de abstinênciaAs alucinações, aliás, trazem alguns dos melhores momentos de “Trainspotting”, como a viagem de Renton pelo banheiro, que é capaz de revirar qualquer estômago, assim como o café da manhã escatológico de Spud. Entretanto, estes momentos de humor negro abrem espaço para a tragédia na chocante morte do bebê de Lizzy, que ilustra perfeitamente os problemas que o vício pode trazer, chegando a provocar náuseas quando o grupo não encontra outra saída para aliviar a dor que não seja usar mais uma vez a heroína – e, neste aspecto, a boa atuação do restante do elenco colabora bastante para o resultado final. É a degradação total.

Viagem de Renton pelo banheiroCafé da manhã escatológicoChocante morte do bebê de LizzyOscilando entre a euforia e a tristeza, a vida de Renton segue indefinida até que Diane surge em sua vida e, sem querer, lhe dá a dica que pode mudar seu destino. Após deixar os amigos para trás e mudar-se para Londres, ele consegue emprego e escapa ileso dos perigos que o cercavam, mas apenas por pouco tempo. Após seu sucesso, era apenas uma questão de tempo para que seus amigos fossem atrás dele. No entanto, aparentemente Renton estava mesmo mudado e, com inteligência, ele consegue se livrar deles outra vez. Só que a morte de Tommy traz todos de volta a Escócia e, desta reunião, surge uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil que eles não irão desperdiçar. Renton é sugado pelos amigos de volta às drogas e, neste instante, o espectador se questiona se este não seria um caminho sem volta.

Consegue emprego e escapa ilesoReuniãoRenton é sugado de volta às drogasMas Boyle não está preocupado em criar rótulos ou em transformar “Trainspotting” num libelo antidrogas e, desta complicada situação, nasce uma sequência tensa e marcante onde acompanhamos a negociação dos jovens com experientes traficantes e, em seguida, a comemoração no bar onde mal podemos prever o que acontecerá somente por causa da troca de olhares e do diálogo dos personagens. Em seguida, a traição de Renton não nos surpreende tanto quanto o sentimento de satisfação parcial que surge ao vê-lo agindo daquela maneira – e este sentimento é reforçado pelo plano final em que Spud é recompensado. Boyle encerra o longa com uma excelente rima narrativa que remete a abertura, nos jogando pra fora da projeção com um estranho sentimento de euforia que, erroneamente, faz com que muitas pessoas acusem o filme de fazer apologia às drogas.

Negociação dos jovensComemoração no barTraição de RentonNa verdade, Boyle fez um excelente estudo sobre o vício, sem se colocar a favor ou contra ele. Somos nós que devemos tirar nossas conclusões após tudo que vimos – e isto é ótimo.

Trainspotting - Sem Limites foto 2Texto publicado em 13 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

127 HORAS (2010)

13 fevereiro, 2012

(127 Hours)

 

Filmes em Geral #78

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: James Franco, Treat Williams, Kate Mara, Lizzy Caplan, Kate Burton, Amber Tamblyn, John Lawrence, Clémence Poésy, Fenton Quinn, Pieter Jan Brugge, Rebecca C. Olson, Jeffrey Wood, Norman Lehnert, Darin Southam, Sean Bott e Parker Hadley.

Roteiro: Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseados em livro de Aron Ralston.

Produção: Danny Boyle, Christian Colson e John Smithson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em 2003, o jovem Aron Ralston ficou famoso por ter sido obrigado a amputar o próprio braço depois de ficar preso por uma rocha num cânion. Mas, apesar de lançar um livro logo no ano seguinte, ele teve que aguardar alguns anos para ver sua história ganhar vida nas telas do cinema, talvez pela curiosa dualidade que o projeto naturalmente carrega. Se por um lado a experiência de Aron possui carga dramática suficiente para se tornar um filme, por outro as extensas 127 horas do título poderiam resultar num longa monótono demais para os padrões cinematográficos contemporâneos. Coube então a Danny Boyle a missão de transportar para a telona esta marcante história. Felizmente, o resultado é satisfatório, ainda que os invencionismos do diretor amenizem o impacto que a narrativa poderia ter.

Escrito pelo próprio Boyle ao lado de Simon Beaufoy e com base no livro do verdadeiro Aron, “127 Horas” apresenta a complicada situação vivida pelo jovem Aron Ralston (James Franco) após cair na fenda de um cânion e ter seu braço preso entre a parede e uma rocha. Desde o início, Boyle faz questão de ressaltar o contraste entre as diversas imagens de multidões reunidas em locais como estádios e shows e a imagem do solitário Aron saindo de casa na madrugada, numa alusão ao espírito aventureiro e solitário do rapaz. Aliás, eu não me recordo qual era a frase que promovia “127 Horas”, mas certamente a mensagem do filme poderia se resumir à frase “Sempre avise alguém aonde você vai estar” – algo, aliás, que o letreiro final deixa claro que Aron aprendeu. O evento que muda radicalmente a narrativa (e a vida de Aron) acontece logo aos 15 minutos de projeção – numa cena de forte impacto visual, amplificada pela boa atuação de Franco, que transmite muito bem a dor e a raiva de Aron. A partir dali, o letreiro com o título do longa anuncia que acompanharemos as angustiantes 127 horas que o jovem passou no local.

Mas esta expectativa se revela levemente falsa, já que as escolhas de Boyle e sua equipe sempre buscam amenizar esta experiência potencialmente sufocante. Repare, por exemplo, como a fotografia inicialmente viva e cheia de cores de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle corretamente dá lugar aos tons mais escuros quando Aron se prende à rocha, mas as constantes interrupções através de flashbacks e delírios evitam que o visual reflita a angústia dele. Da mesma forma, a montagem de Jon Harris surge inicialmente acelerada (ele chega a dividir a tela em três partes) e, reforçada pela trilha sonora agitada de A. R. Rahman, reflete corretamente a euforia do personagem naquele instante. Repare, por exemplo, a seqüência em que ele anda de bicicleta até chegar ao cânion, que intercala diversos planos rapidamente buscando conferir energia à narrativa. Repleta de imagens belíssimas que transmitem ao espectador a mesma alegria dele, dentre as quais vale destacar o local onde ele mergulha com duas garotas, toda esta seqüência inicial deveria servir de contraste para o sufocante restante da narrativa, mas, infelizmente, Harris e Boyle decidem utilizar diversos recursos narrativos que buscam amenizar o aspecto claustrofóbico e monótono que o longa naturalmente evoca.

Além da beleza local, os planos gerais destacam também a imponência da natureza e a nossa insignificância diante dela, algo ressaltado pelo ótimo travelling que revela o quão inúteis são os gritos de Aron, com a câmera saindo de seu rosto para mostrar a imensidão do inabitado local onde ele está preso – a enorme fenda parece minúscula quando observamos toda a região. Boyle acerta também ao destacar a importância da água através de closes no líquido e no rosto do protagonista enquanto bebe (praticamente compartilhamos de sua sede quando vemos garrafas de Gatorade e Coca-Cola), assim como a importância do sol é realçada pela primeira vez num belo momento, quando a luz invade a sombria fenda. Porém, numa decisão puramente comercial que buscava evitar cansar o espectador (e, desta forma, atrair mais público para os cinemas), Boyle acelera a montagem e abusa de transições estilísticas que, reforçadas pela trilha sonora agitada, até alcançam seu objetivo original, mas enfraquecem o drama do protagonista por não transmitir ao espectador a mesma sensação dele. Além disso, o uso de flashbacks e os delírios de Aron com a ex-namorada, por exemplo, aliviam a sensação de isolamento no espectador e, por isso, também enfraquecem o peso dramático da narrativa.

Por sorte, James Franco se sai muito bem na difícil tarefa de carregar “127 Horas” sozinho, evitando que o espectador “se canse” do personagem com seu carisma. Realçando o desespero pontual de Aron através de decisões pouco racionais – como raspar a rocha com um canivete -, o ator expõe com clareza os conflitantes sentimentos de Aron, o sofrimento causado pela fome, pelo frio e pela sede e, especialmente, seu esforço para evitar perder o controle diante da complicada situação em que se meteu – e que por vezes dá espaço às inevitáveis explosões de raiva e desespero, como quando ele grita por ajuda. Aliás, é impressionante notar como Aron consegue manter o raciocínio lógico e até mesmo criar estratégias para sobreviver por mais tempo, ainda que saiba que não resistirá por muitos dias se continuar preso, como na mórbida idéia de gravar suas conversas com a câmera digital, que acaba se transformando numa forma de sair mentalmente do local, uma espécie de janela para o mundo em que ele se refugia – e chega a ser tocante o momento em que ele ameaça se masturbar vendo a imagem de uma das garotas, refutando a idéia logo em seguida por perceber o absurdo da situação.

Em outra idéia inteligente que busca tirá-lo mentalmente dali, Aron imita um programa de rádio e aproveita para externar seus sentimentos, exorcizar os demônios e deixar mensagens gravadas para os pais, o que revela uma comovente conformidade diante da morte eminente e uma tocante esperança de que um dia a câmera seria encontrada a tempo de que eles ouvissem suas palavras. Aron chega até mesmo a imaginar (ou sonhar? ou delirar?) que a chuva moveu a pedra e lhe tirou da fenda, mas seu choro doloroso nos traz de volta à realidade junto com ele.

Este sofrimento se arrasta até que o som de fortes batidas de coração avise ao espectador que algo está prestes a acontecer momentos antes dele enfiar o canivete no braço e iniciar o doloroso processo que resultará na cena mais forte de “127 horas” algum tempo depois. Antes disso, o símbolo da bateria acabando na filmadora serve como uma metáfora para o próprio Aron, que se aproxima da morte e chega à triste conclusão de que aquela rocha o esperava há bilhões de anos (levantando uma interessante tese para discutir entre amigos). Em seguida, são necessários coragem e estômago forte para acompanhar o momento em que Aron decide amputar o próprio braço (com um canivete cego!) para sobreviver, captado em detalhes pela câmera de Danny Boyle. Coragem, aliás, que não faltou ao rapaz, que buscou força nas lembranças da família e na visão do filho que ele ainda não tinha para tomar esta atitude – e confesso que me identifiquei muito neste momento, já que sempre temi morrer antes de ter um filho. Chegava ao fim sua árdua jornada; e as imagens do verdadeiro Aron ao lado da esposa e do filho revelam que aquela dolorosa decisão valeu à pena.

Apesar das equivocadas escolhas de seu diretor, “127 Horas” é um filme sufocante, que poderia ser infinitamente mais angustiante caso Boyle tivesse ousado um pouco mais. Em todo caso, a traumática experiência vivida pelo protagonista e a ótima atuação de James Franco são suficientes para fazer deste um grande filme. Aron descobriu da pior maneira o quanto a natureza pode ser simultaneamente fascinante e implacável.

Texto publicado em 13 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira