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A PRAIA (2000)

9 maio, 2017

(The Beach)

 

 

Videoteca do Beto #235

Dirigido por Danny Boyle.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Robert Carlyle, Tilda Swinton e Paterson Joseph.

Roteiro: John Hodge, baseado em romance de Alex Garland.

Produção: Andrew Macdonald.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um diretor em ascensão conhecido pela habilidade na abordagem de narrativas voltadas para o público jovem, um ator jovem, talentoso e igualmente em plena ascensão e um cenário paradisíaco num dos países mais exóticos do circuito turístico são os ingredientes que poderiam fazer de “A Praia” um grande sucesso de público e crítica. E se utilizo a palavra “poderiam” é por que o resultado, infelizmente, fica aquém do esperado, especialmente pelo roteiro pouco coeso que não sabe muito bem em que direção seguir, algo que nas mãos de um diretor nada enxuto como Boyle se torna um problema ainda maior.

Escrito por John Hodge, baseado em romance de Alex Garland, “A Praia” nos apresenta ao jovem Richard (Leonardo DiCaprio) que, numa viagem a Bangkok, encontra um sujeito estranho que lhe conta sobre uma misteriosa praia numa ilha antes de cometer suicídio e deixar o mapa do local. Após conversar com um casal de franceses, Françoise (Virginie Ledoyen) e Étienne (Guillaume Canet), os três decidem partir em busca da ilha e, ao chegarem lá, encontram uma sociedade alternativa que vive com suas próprias regras, sob a liderança de Sal (Tilda Swinton).

O início de “A Praia” não poderia ser mais promissor. Através de uma eficiente apresentação do personagem central e de suas motivações, que se torna ainda mais interessante na voz do próprio protagonista, Boyle logo de cara estabelece a linguagem jovial característica de sua filmografia e que tem tudo a ver com o clima da narrativa, conectando-se imediatamente com a fatia mais jovem e aventureira da plateia e mantendo esta conexão em boa parte do longa através do uso de músicas contemporâneas e até mesmo de recursos cinematograficamente pouco usuais como telas de videogame.

Esta direção histriônica transmite uma energia que faz bem ao filme, especialmente no início quando tanto o protagonista quanto o espectador estão excitados pela simples expectativa de chegar a mítica praia, tão famosa naquele universo diegético que até inspira mochileiros a pensarem nela como mais uma das muitas lendas urbanas comuns em tantos lugares do mundo. Este clima de aventura é importante para que o espectador se sinta como um dos viajantes que partem em busca do local misterioso, criando a empatia necessária para que ele sinta a praia como o próprio Richard, o que será vital quando os conflitos surgirem e o choque, inevitável, virar realidade.

O próprio Di Caprio exagera nas expressões em diversos instantes, o que é coerente com a intenção do diretor de criar esta atmosfera empolgante, repleta de adrenalina, como se a ilha e a própria praia fossem alucinógenos que abastecem a necessidade daquele jovem por aventuras. Por isso, quando cruza com turistas regulares que buscam apenas as praias comuns e as massagens tailandesas nas areias de Bangkok, Di Caprio lança um olhar de desprezo, como se aquilo fosse algo totalmente sem sentido para ele. O que Richard buscava era adrenalina e não relaxamento.

Aliás, a loucura provocada pelas drogas ou qualquer situação extrema é um tema recorrente na filmografia de Boyle, que muitas vezes ilustra as viagens mentais de seus personagens de maneira criativa, nos permitindo participar do processo ativamente, e aqui não é diferente. No entanto, é justamente quando se aprofunda demais nesta abordagem que o diretor perde a mão, no instante em que Richard enlouquece, já no segundo ato, quando a narrativa perde força enquanto ele se isola dos demais e vive sua loucura particular – ainda assim, existem acertos, como quando ele conversa sobre “O Perdedor” e seu rosto surge afundado nas sombras, realçando seu desequilíbrio momentâneo. Desnecessário também é o momento em que Richard alivia a dor do sueco ferido, numa ação incoerente com o personagem até então. Só que, apesar do roteiro irregular não cooperar, Di Caprio segura bem o papel e ajuda a salvar o longa do fracasso.

“A Praia” traz também uma gama de personagens periféricos interessantes, como o excêntrico Sr. Patolino, o “Perdedor”, que fala sobre a ilha e a praia misteriosa para Richard no início e os carismáticos franceses que cruzam o caminho dele. No entanto, o personagem mais interessante não é de carne e osso, mas tem vida própria e é o alvo de toda aquela jornada. Aumentando a expectativa por sua aparição através da trilha sonora empolgante que embala a viagem até ela e da aura mística que a cerca antes da primeira aparição, a praia não decepciona em nada quando surge aos olhos do espectador, sendo um verdadeiro deleite admirar aquele local extraordinário que não poderia fazer mais jus à fama que recebe. Captadas com perfeição pela fotografia de Darius Khondji, aquelas paisagens criam um visual arrebatador, que ganham contornos românticos nas muitas cenas noturnas em que fica evidente o uso da técnica conhecida como noite americana, notável por exemplo na linda cena do beijo entre Richard e Françoise.

O contraste entre a beleza daquele lugar e as grandes cidades fica evidente quando eles voltam a Bangkok, com a câmera agitada, o som dos carros e pessoas transitando e o alto volume da trilha sonora causando uma sensação incômoda que reflete o que os personagens sentiam distantes da praia. Até por isso, os premiados moradores daquele paraíso criaram um código rígido de regras que buscava preservar a natureza mítica do local, o que também acaba gerando problemas pela forma como este código é conduzido por sua líder – voltaremos a ela em instantes.

Mas nem só de beleza vive “A Praia” e descobrimos isso de maneira traumática através das fortes imagens que surgem repentinamente após um dos integrantes da comunidade ser atacado por um tubarão. O banho de sangue, exposto propositalmente por Boyle, demonstra que a natureza pode ser bela, mas igualmente cruel. Mais cruel ainda, no entanto, é a postura do restante do grupo que trata o companheiro ferido com desprezo, numa postura até mesmo pouco realista diante da gravidade da situação, que estereotipa pessoas que querem viver apenas da natureza como selvagens sem sentimento, o que é bem questionável. Por outro lado, quando eles decidem largar o ferido no meio das árvores para não sofrerem mais com seus gemidos, de certa forma estão agindo como boa parte da sociedade que prefere não ver os problemas do local onde vive, apoiando, por exemplo, a remoção de pessoas carentes, mendigos e moradores de rua de forma brutal pelo Estado (num processo cruelmente chamado de “higienização”), para que possa transitar livremente e pensar que tais problemas sociais não existem.

Esta postura impassível que muitos esperam do Estado nas grandes cidades aqui é representada pela figura de Sal, a líder da comunidade vivida corretamente de maneira fria e rígida por Tilda Swinton. Através do olhar gélido e da voz firme, ela impõe respeito como alguém extremamente controladora, que adota uma postura ditatorial para tentar preservar seu paraíso quase particular, provocando calafrios naqueles que quebram esta regra sagrada, como fica evidente no reencontro de Richard com os compatriotas para quem havia entregue o mapa da ilha, no qual ele surge com o rosto sob tons vermelhos, ilustrando seu inferno astral e o pecado que havia cometido. Só que, como saberemos na boa conclusão da narrativa, nenhum paraíso resiste a esta postura controladora e extremista. Assim, tanto Tilda quanto Di Caprio encerram muito bem este conflito de ideias no confronto final entre os personagens, que escancara o lado podre da líder do grupo e destrói de vez o sonho de viver na mítica praia. E é justamente na destruição deste sonho que “A Praia” escorrega.

Partindo de um ponto inicial repleto de boas ideias, o longa dirigido por Danny Boyle escorrega em diversos detalhes e acaba soando moralista demais, quase que julgando a intenção daquelas pessoas de viverem afastados do mundo moderno como algo errado e impossível de se praticar. Uma pena.

Texto publicado em 09 de Maio de 2017 por Roberto Siqueira

TITANIC (1997)

17 novembro, 2013

(Titanic)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #179

Vencedores do Oscar #1997

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill, David Warner, Victor Garber, Jonathan Hyde, Suzy Amis, Danny Nucci e Ioan Gruffudd.

Roteiro: James Cameron.

Produção: James Cameron e Jon Landau.

Titanic[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é difícil entender as razões do sucesso avassalador de “Titanic”, superprodução grandiosa de James Cameron que alcançou números impressionantes nas bilheterias e ainda igualou o recorde de “Ben-Hur” ao levar 11 estatuetas do Oscar. Também não é tão complicado entender porque, ao longo do tempo, o filme ganhou a antipatia de parte do público e até mesmo de alguns cinéfilos, tamanha foi a sua exposição ao longo dos anos (pense, por exemplo, quantas vezes na sua vida você já ouviu tocar sua famosa música tema em algum lugar). Mas o fato é que, mesmo com seus pecadilhos aqui e ali, o longa estrelado pelos então jovens astros Leonardo DiCaprio e Kate Winslet é mesmo um grande filme, destes que merecem serem lembrados eternamente e, não à toa, conquistou seu lugar cativo na história do cinema.

Escrito pelo próprio Cameron, “Titanic” narra a história de amor entre Jack (Leonardo DiCaprio), um jovem quase nômade que ganha sua passagem numa partida de pôquer, e Rose (Kate Winslet na juventude e Gloria Stuart na velhice), a noiva do rico Cal (Billy Zane) que viaja ao lado de sua mãe (Frances Fisher) em busca de uma nova e promissora vida. Mas o destino de todos eles e dos mais de dois mil passageiros do transatlântico muda completa e tragicamente quando o imponente navio se choca com um iceberg.

Usando a busca por um artefato raro no que restou do Titanic no fundo do mar como ponto de partida, o roteiro de James Cameron nos traz o típico romance já visto inúmeras vezes anteriormente (“A Dama e o Vagabundo”, por exemplo) entre a menina rica cansada da vida aborrecida que leva e o menino pobre e cheio de vida. No entanto, Cameron sabe muito bem que no seu cinema (e no cinema de maneira geral), a forma é muito mais importante do que o conteúdo. Assim, sua preocupação não está apenas na história que será contada, mas na maneira pela qual aquela história será contada. Não que o diretor/roteirista não se preocupe com a estruturação de sua narrativa. Observe, por exemplo, como ele insere dicas que serão essenciais no clímax de “Titanic”, como a explicação técnica do naufrágio que permite ao espectador antecipar como o navio afundará (sabemos, por exemplo, que ele se partirá ao meio, o que aumenta a tensão no ato final). Repare também como a primeira conversa entre Jack e Rose faz questão de mencionar a temperatura da água, o que também será importante após o naufrágio, assim como o roteiro também tem o cuidado de mencionar a famosa frase “Nem Deus afunda o Titanic”, dando às plateias mais jovens a dimensão do tamanho daquela tragédia para a época.

Busca por um artefato raroExplicação técnica do naufrágioPrimeira conversa entre Jack e RoseTransitando com elegância do presente para o passado através dos escombros do navio que se transformam no imponente transatlântico e fazendo o caminho inverso através do olho de Winslet que de repente se transforma no de Stuart, a montagem de Conrad Buff, Richard A. Harris e Cameron é essencial para que o longa não se torne enfadonho ao longo de suas três horas de projeção (egocêntrico, Cameron faz questão de colocar seu nome, mas todo bom diretor participa do processo de montagem dos filmes). Assim, Cameron e seus montadores investem um bom tempo na construção lenta daquele romance, sedimentando a empatia pelo casal na plateia e permitindo que a narrativa respire, o que é crucial para que o espectador sinta toda a escalada dramática da tragédia com intensidade durante o segundo e terceiro atos. A partir do momento em que o espectador realmente se identifica e se importa com Rose e Jack, a tragédia também tocará a plateia com a mesma intensidade e, desde então, o sucesso de “Titanic” está garantido.

Imponente transatlânticoOlho de WinsletOlho de StuartÉ claro que existem os excessos. O escorregão dela na proa do navio, por exemplo, é desnecessário, assim como toda a sequência em que Cal persegue o casal, que culmina na cena em que eles tentam salvar um garoto e quase morrem afogados. Este melodrama todo surge também quando Jack é incriminado por roubo, o que também soa desnecessário, mas por outro lado cria o cenário para a tensa busca de Rose por ele, nos permitindo passear pelo navio enquanto ele afunda e ver alguns detalhes do processo internamente. Assim, aqueles longos corredores brancos se tornam aterrorizantes quando as luzes começam a falhar e a água começa a subir, chegando a níveis insuportáveis de tensão graças também ao design de som que cria com precisão os barulhos daquele gigante que se desfaz e à trilha sonora que emula a batida acelerada de um coração neste instante.

Cal persegue o casalLongos corredores brancosÁgua começa a subirO espetacular design de som, aliás, nos permite notar desde os pequenos movimentos nos talheres durante um jantar até o barulhento impacto da água durante o naufrágio, sendo essencial na imersão do espectador naquele ambiente. Enquanto isto, o ótimo James Horner cria uma trilha sonora grandiosa, alcançando a escala épica exigida pela história sem jamais deixar de lado o romantismo que emana da narrativa, inserindo trechos da melodia da música tema “My heart will go on” (imortalizada na voz de Celine Dion) e encontrando espaço ainda para criar variações interessantes que incluem elementos tipicamente irlandeses nas sequências que se passam na terceira classe e composições agitadas que embalam os momentos de tensão.

O trabalho técnico formidável liderado pelo perfeccionista Cameron segue com a reconstituição precisa das roupas usadas na época (figurinos de Deborah L. Scott), que servem também para diferenciar as classes sociais que embarcaram no navio, além é claro dos objetos utilizados na decoração dos ambientes e até mesmo das louças e talheres utilizados nos luxuosos jantares (design de produção de Peter Lamont). Assim, “Titanic” mostra-se um verdadeiro deleite para os olhos, um esplendor visual que ganha contornos épicos através dos planos belíssimos do transatlântico navegando pelo oceano tanto durante os dias ensolarados como sob a luz das estrelas ao anoitecer.

Reconstituição precisa das roupasDecoração dos ambientesTalheres utilizados nos luxuosos jantaresEssencial na criação deste visual marcante, a fotografia de Russell Carpenter prioriza tons azulados em diversos momentos do presente, transmitindo a melancolia que a história evoca e a nostalgia de Rose, transitando com precisão para o visual vivo e iluminado durante o início da viagem que realça não apenas o brilho e o luxo do navio, como também a empolgação daquele jovem casal que se conhece. Já no ato final, os tons mais escuros e o predomínio das cenas noturnas ajudam a criar na plateia a mesma sensação de angústia dos personagens.

Tons azuladosVisual vivo e iluminadoTons mais escurosPersonagens que são interpretados por um elenco heterogêneo, encabeçado por dois nomes que despontavam na época. Ainda bem jovem, mas já dono de grande talento (conforme atestam “Gilbert Grape” e “Diário de um Adolescente”), Leonardo DiCaprio vive Jack com a intensidade e a empolgação que se espera de um jovem que consegue embarcar naquele luxuoso navio, conseguindo ainda uma ótima química com Kate Winslet, o que é essencial para o sucesso do romance. Winslet, por sua vez, confere carisma e vivacidade a jovem Rose, mostrando-se inteligente para compreender o ambiente em que está inserida e, ao mesmo tempo, passional o bastante para se atirar de cabeça num verdadeiro romance impossível. São deles alguns dos momentos mais icônicos do longa, como o lindo primeiro beijo ao pôr-do-sol na proa do navio (“Estou voando Jack”, diz ela) e o famoso grito “Eu sou o rei do mundo!”. A coleção de lindas cenas continua quando Jack desenha Rose nua e especialmente na clássica cena em que a mão dela indica o sexo e o romance alcança seu clímax, segundos antes do impacto no Iceberg que mudaria aquela história para sempre.

Lindo primeiro beijoJack desenha Rose nuaMão dela indica o sexoRose seguiria sua vida, constituiria família e viveria muito ainda, até que finalmente encontrasse coragem para embarcar novamente no Titanic. Aos 86 anos, Gloria Stuart tem uma atuação sensível e emocionante, transmitindo o quanto aquelas lembranças eram importantes para Rose através de seu olhar, participando ainda da desnecessária narração que mastiga alguns acontecimentos para o público. Ainda entre os destaques, Kathy Bates diverte-se na pele da espirituosa e divertida Molly, ao passo que Bill Paxton está apenas discreto como o caçador de tesouros Brock Lovett.

Atuação sensível e emocionanteEspirituosa e divertida MollyCaçador de tesouros Brock LovettInfelizmente, “Titanic” também tem sua porção de personagens unidimensionais e odiáveis, como o canalha Cal de Billy Zane que, além de atormentar a vida do casal principal, ainda é capaz de usar uma criança abandonada a seu favor no ato final. Já Frances Fisher encarna a Sra. Ruth de maneira tão gélida e impassível que por vezes chegamos a duvidar que ela seja mesmo a mãe de Rose, salvando-se apenas por demonstrar preocupação genuína ao ver a filha voltar para o transatlântico enquanto este afunda e pelo pequeno momento de humanidade quando tenta justificar sua maneira de agir e seu interesse financeiro acima da própria vontade (“Somos mulheres, nossas escolhas nunca foram fáceis”). E finalmente, não posso deixar de mencionar alguns dos oficiais que agem de maneira irracional, segurando a terceira classe já durante o naufrágio e não utilizando toda a capacidade dos botes, chegando ao ápice quando um deles atira num dos amigos de Jack e suicida-se depois, o que ao menos demonstra remorso.

Canalha CalGélida e impassívelAtira num dos amigos de JackE por falar em ápice, chegamos então aos momentos que fizeram de “Titanic” um longa tão impactante. Conduzida de maneira vigorosa por Cameron, a cena do acidente é tensa o bastante para envolver o espectador, com a câmera trêmula do diretor nos colocando dentro do ambiente e criando uma sensação de urgência sem que, por isso, deixemos de ter a exata noção de tudo que acontece na tela. O desespero e o egoísmo durante o naufrágio e o verdadeiro comportamento de manada que toma conta das pessoas após o acidente simboliza o ser humano em seu estado mais cru, em momentos captados com precisão pelos closes e planos fechados de Cameron que buscam valorizar as expressões de medo e angústia das pessoas.

Cena do acidenteComportamento de manadaExpressões de medo e angústiaMas o diretor sabe ser sutil também. Em certo momento do naufrágio, um plano geral mostra os fogos de artifício estourando no centro da tela com o navio pequeno ao fundo, dando a exata noção da insignificância daquele transatlântico diante da magnitude do oceano. E se a banda tocando até o último instante é o mais puro símbolo do melodrama que permeia “Titanic”, a linda sequência embalada por uma das músicas da banda exemplifica muito bem como Cameron sabe utilizar isto a seu favor, quando vemos um casal de idosos esperando a morte e uma mãe contando histórias para os filhos enquanto a água invade aqueles compartimentos. Da mesma forma, o tocante momento em que o capitão Smith (Bernard Hill, em boa atuação) se recolhe desolado para esperar o fim torna o personagem ainda mais interessante.

Fogos de artifícioBanda tocando até o último instanteMãe contando histórias para os filhosObviamente, se toda a produção preza pelo primor técnico, a impactante cena do naufrágio é a cereja do bolo de “Titanic”. Colocando o espectador dentro do navio enquanto vemos as pessoas caindo na água e sua estrutura desmoronando, Cameron e sua equipe criam um momento tão sublime tecnicamente e poderoso dramaticamente que é praticamente impossível não reconhecer seus méritos. Assim, a força devastadora da água preenche a tela com tanta verossimilhança que o espectador praticamente se encolhe na poltrona, buscando segurar-se em algo enquanto aquele gigante se prepara para finalmente afundar. Após o naufrágio, a fotografia azulada e a boa atuação do elenco transmite com precisão a histeria coletiva que toma conta do local, nos fazendo em seguida quase sentir o frio que os personagens sentem no meio do oceano. E então o momento que levou milhões de espectadores às lágrimas chega e Jack finalmente se torna apenas uma lembrança para Rose.

Impactante cena do naufrágioGigante se prepara para finalmente afundarHisteria coletivaO final delicado e sensível nos mostra rapidamente a vida que Rose levou através de algumas fotografias e nos permite uma última visita ao mais famoso transatlântico da história, recriado com precisão nesta obra grandiosa, tecnicamente perfeita e dramaticamente poderosa, com alguns excessos é verdade, mas que jamais chegam a prejudicar sua qualidade soberba. James Cameron pode ser egocêntrico e megalomaníaco. Certamente, os criadores do “Titanic” também eram. Mas, ironicamente, a junção entre o primeiro e a história trágica do segundo criaram um dos filmes mais emblemáticos dos anos 90 e, certamente, um dos grandes da história do cinema em todos os tempos.

Titanic foto 2Texto publicado em 17 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (1995)

21 maio, 2012

(The Basketball Diaries)

 

Videoteca do Beto #127

Dirigido por Scott Kalvert.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Lorraine Bracco, Mark Wahlberg, James Madio, Patrick McGaw, Juliette Lewis, Michael Imperioli e Ernie Hudson.

Roteiro: Bryan Goluboff, baseado em romance de Jim Carroll.

Produção: Liz Heller e John Bard Manulis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Freqüentemente, Leonardo DiCaprio é acusado por cinéfilos desavisados de ser apenas um rostinho bonito que explodiu após o sucesso avassalador de Titanic, como se as excelentes escolhas que ele faz na carreira e o óbvio talento demonstrado não significassem nada. Entretanto, basta assistir aos filmes anteriores ao sucesso de James Cameron para constatar como ele já demonstrava talento muito antes da fama, como comprova este “Diário de um Adolescente”, drama inspirado na história real do músico e poeta Jim Carroll.

Escrito por Bryan Goluboff baseado em romance do próprio Carroll, “Diário de um Adolescente” mostra a trajetória nada agradável de seu protagonista (Leonardo DiCaprio) rumo ao fundo do poço, após conhecer e se encantar pelo mundo das drogas. Mas, se por um lado o envolvimento pessoal do verdadeiro Carroll confere peso à narrativa – os trechos narrados por DiCaprio, por exemplo, foram gravados pelo próprio poeta -, por outro a forma exagerada que estes fatos são apresentados distancia o longa da realidade, ainda que Goluboff acerte ao retratá-lo como um jovem talentoso, já que Carroll, além de liderar a banda “The Jim Carroll Band”, é responsável por seis livros que vão de poemas a autobiografias.

Responsável por captar em imagens esta alma romântica do protagonista e, ao mesmo tempo, retratar a degradação física e psíquica do personagem, Scott Kalvert se sai razoavelmente bem na direção, mas falha na condução de aspectos relevantes da narrativa que abordaremos em instantes. Entretanto, o diretor é competente na criação de cenas de impacto, especialmente quando retrata os efeitos do uso das drogas, errando em raros momentos como a pouco convincente briga dos garotos na saída de um restaurante. O diretor acerta também na condução dos jogos de basquete, imprimindo um bom ritmo e transmitindo o calor da partida com eficiência ao colocar a câmera na linha de visão dos jogadores – colabora também o bom design de som, que cria o ambiente ideal para os jogos. Caprichando também na estilização de muitas cenas, como no sonho do massacre na escola em que Jim entra em câmera lenta atirando nos alunos, o diretor reequilibra a balança ao exagerar em outros instantes, como no jogo de basquete embalado pela clássica “Riders on the Storm”, do The Doors, em que os garotos mal conseguem pegar na bola. E são justamente estes exageros que distanciam a mensagem transmitida pela narrativa da realidade e reduzem o impacto do filme sobre o espectador.

Kalvert conta também com o apoio técnico de sua equipe para transmitir algumas das sensações dos personagens, através das ruas sujas da escola e do bairro onde Jim vive que contrastam com as ruas limpas e largas que cercam o ginásio de esportes, ilustrando onde ele se sentia feliz (mérito da direção de arte de Christopher Nowak). Da mesma forma, a trilha sonora agitada de Graeme Revell, composta por algumas músicas da banda do próprio Jim, funciona em muitos momentos ao transmitir a adrenalina daqueles jovens, assim como a fotografia de David Phillips acerta ao iluminar os momentos iniciais, quando os garotos se divertem jogando basquete e pulando no rio, contrastando diretamente com a escuridão da fase decadente do grupo, notável após a morte de Bobby (Michael Imperioli), com a noite fria e chuvosa e os figurinos pesados dos personagens ilustrando a dor de Jim (figurinos de David C. Robinson). Aliás, o próprio diretor se encarrega de ilustrar esta diferença, filmando inicialmente com a câmera levemente inclinada em ângulo baixo enquanto acompanha os personagens saindo da escola, sob a luz do sol e embalados pela trilha agitada, transmitindo a sensação de poder que aqueles jovens estavam sentindo, o que contrasta com os closes freqüentes que realçam a degradação deles no terceiro ato e transmitem a sensação claustrofóbica pretendida por Kalvert.

Infelizmente, Kalvert e seu montador Dana Congdon erram ao acelerar demasiadamente a transformação de Jim de um garoto normal em viciado, apresentando uma droga após a outra rapidamente, como se quisessem levá-lo logo ao fundo do poço, o que soa forçado e pouco convincente (repare como ele salta da cocaína para a heroína e as drogas sintéticas em poucos minutos). Por outro lado, a montagem demonstra elegância em algumas transições, como quando a imagem da mãe de Jim é substituída pela imagem da virgem Maria. E se erra na velocidade com que conduz o processo de degradação de Jim, Kalvert acerta na maneira cadenciada com que desenvolve o relacionamento dos quatro amigos, aproximando aquele grupo do espectador e fazendo com que este se importe com eles.

Obviamente, esta aproximação conta também com o talento do ator responsável por viver o problemático protagonista. Com uma atuação eficiente e alguns momentos realmente marcantes, DiCaprio carrega o papel com facilidade, numa atuação que já dava sinais do grande ator que ele viria a ser – algo, aliás, que já havia acontecido antes em filmes como “Gilbert Grape, aprendiz de sonhador” e “O Despertar de um Homem”. Repare, por exemplo, sua convincente reação após usar cocaína, tremendo, fungando e mexendo a língua como quem tem a boca seca, mal conseguindo abrir os olhos enquanto procura por remédios no banheiro. Transitando com naturalidade do dócil Jim do início para o agressivo garoto que encerra o longa, o ator contorna os problemas causados pela citada transformação acelerada do personagem e convence no papel. Entre os momentos impressionantes de sua atuação, certamente a forte crise de abstinência na casa de Reggie (Ernie Hudson) e a comovente cena em que volta pra casa e implora pela ajuda da mãe (Lorraine Bracco) se destacam, com o ator transmitindo a dor do personagem de maneira muito convincente.

Também demonstrando talento precocemente, Mark Wahlberg convence como o valentão Mickey, o mais conturbado dos amigos de Jim, saindo-se bem em momentos difíceis como nas duas vezes em que eles precisam abandonar a cena de um crime – repare sua voz ofegante num bar após abandonar Pedro, indicando seu cansaço pela corrida e sua tensão. Vale destacar ainda a boa atuação de Ernie Hudson, que confere firmeza e carisma ao ex-viciado Reggie, e Juliette Lewis que, como sempre, se sai muito bem no papel de drogada, mas a redenção de sua Diane soa artificial, especialmente pela rapidez com que esta transformação acontece. Fechando o elenco, James Madio vive o inseguro Pedro e Patrick McGaw interpreta Neutron, o único dos quatro amigos que não se afunda nas drogas.

De certa maneira, “Diário de um Adolescente” tenta forçar uma mensagem moralista, falhando justamente por se distanciar da realidade através de alguns exageros. Por isso, dificilmente alguém evitará o mundo das drogas após assisti-lo. Em todo caso, se falha em seu propósito de “ensinar” os jovens sobre os perigos das drogas, ao menos sua narrativa tem força suficiente para nos envolver.

A cena final, com Jim falando diretamente para a câmera, comprova a intenção de doutrinar a platéia de “Diário de um Adolescente”, mas este excesso de moralismo não arruína completamente a experiência graças à ótima atuação do elenco e a profundidade dramática da história que o inspirou.

Texto publicado em 21 de Maio de 2012 por Roberto Siqueira

A ORIGEM (2010)

14 fevereiro, 2012

(Inception)

 

 

Filmes em Geral #79

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Lukas Haas, Tohoru Masamune, Dileep Rao e Tom Hardy.

Roteiro: Christopher Nolan.

Produção: Christopher Nolan e Emma Thomas.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dono de uma filmografia impecável, o diretor Christopher Nolan já comprovou diversas vezes que é possível comandar blockbusters sem que para isto tenha que ofender a inteligência do espectador. Mas se acertou em cheio nas experiências anteriores, na obra-prima “A Origem” o diretor inglês foi ainda mais longe, trazendo uma narrativa extremamente complexa e desafiadora que explora de maneira inteligente o universo dos sonhos e suga o espectador pra dentro da trama, apresentando ainda proezas técnicas impressionantes e excelentes atuações.

Escrito pelo próprio Nolan, o inteligente e muito bem estruturado roteiro de “A Origem” traz o espião Don Cobb (Leonardo DiCaprio), um especialista em invadir a mente das pessoas e roubar segredos durante os sonhos, que não pode voltar aos Estados Unidos por ser suspeito de assassinar a própria esposa Mal (Marion Cotillard). Desesperado para rever seus filhos, ele aceita a missão proposta pelo empresário Saito (Ken Watanabe) de implantar uma idéia na mente do concorrente Fischer (Cillian Murphy) – que herdará a empresa do pai doente assim que ele falecer -, tendo a promessa de poder voltar ao seu país como recompensa. Para cumprir sua tarefa, ele contará com a ajuda dos parceiros Arthur (Joseph Gordon-Levitt) e Eames (Tom Hardy), do especialista em sedação Yusuf (Dileep Rao) e da novata arquiteta Ariadne (Ellen Page).

Exigindo ao máximo o raciocínio lógico do espectador, “A Origem” parte de uma premissa inteligente e complexa, explorando o universo dos sonhos de maneira bastante lógica e racional, ainda que abra espaços para visões oníricas e desconexas tão comuns quando estamos sonhando, como quando Cobb se esfrega entre duas paredes tentando escapar de perseguidores (num momento digno de um pesadelo) ou quando um trem atravessa uma rua cheia de carros – e o mais interessante é que estas visões sempre têm alguma ligação com os sonhadores, como neste caso em que o trem é reflexo de uma frase marcante dita por Cobb. Também de forma inteligente, Nolan justifica estes ambientes pouco confusos, que fogem completamente do que esperamos num ambiente onírico, ao utilizar arquitetos para projetar o mundo dos sonhos – Nash (Lukas Haas), no começo, e depois Ariadne. Ainda assim, é interessante notar como o mundo real interfere diretamente nos sonhos, como quando Cobb cai na banheira enquanto dorme e, imediatamente, a água invade seu sonho, assim como a chuva no sonho de Yusuf apenas reflete sua vontade de urinar (“Não podia ter urinado antes!”, reclama Arthur).

Logo de cara, Nolan insere uma premissa importante que faz o espectador se acostumar com a complexa idéia das várias camadas de sonhos, trazendo Cobb e Saito de volta de dois sonhos até acordarem num trem, o que é essencial para que compreendamos melhor o excepcional terceiro ato de “A Origem”. Mantendo-se fiel à lógica interna da narrativa, Nolan também explica de maneira clara e coerente alguns conceitos importantes, como o interessante conceito da diferença na passagem do tempo em cada nível de sonho. Mas apesar desta complexidade narrativa, “A Origem” jamais deixa o espectador confuso, graças à clareza com que o diretor conduz o projeto, confiando na inteligência do espectador ao evitar o excesso de informações que poderia poluir a narrativa.

Contando com um elenco numeroso e de muito talento, Nolan também consegue extrair ótimas atuações de praticamente todos os envolvidos, ainda que estejam em papéis menores, como no caso de Tom Berenger, que vive o tio Browning, e de Michael Caine como o professor. Vivendo a projeção de esposa Mal, Marion Cotillard convence no papel e consegue até mesmo plantar a dúvida na cabeça de Cobb (e do espectador) em determinado momento, assim como Ken Watanabe transmite segurança na pele do empresário Saito. E se Cillian Murphy surge corretamente fragilizado como o indeciso Fischer, Joseph Gordon-Levitt faz de seu Arthur um personagem cativante, especialmente quando precisa tomar as rédeas em determinado momento sob o risco de colocar toda a ação da equipe em perigo – e o faz muito bem.

Fechando o elenco, temos ainda Tom Hardy, que vive o camaleão Eames e tem papel fundamental em diversos momentos (vale notar a sutileza com que ele se “transforma” no tio Browning e vice-versa, especialmente quando está sentado nas pedras após sair da água no sonho de Yusuf), além da arquiteta Ariadne de Ellen Page (a eterna Juno!), que funciona como uma espécie de guia para o espectador, com seus questionamentos trazendo à tona explicações vitais para compreendermos o que está acontecendo na tela, mas que também colabora muito com a equipe durante a missão. Mas o grande destaque de “A Origem” fica mesmo para o astro Leonardo DiCaprio, que confirma seu talento e carisma ao carregar este projeto complexo com facilidade. Desejando apenas poder voltar para casa e rever os filhos, seu Cobb comove em sua luta para esquecer Mal, colocada em cheque todas as vezes que ele entra em um sonho, projetando involuntariamente a esposa “morta” e colocando em risco suas missões, num reflexo direto da morte traumática dela que DiCaprio demonstra muito bem. Transmitindo o dilema de Cobb com precisão quando suas convicções são questionadas pela esposa, o ator faz com que o espectador compartilhe de seus sentimentos, demonstrando ainda a angústia crescente do personagem de maneira convincente no decorrer da narrativa.

Exibindo enquadramentos perfeitos e planos simétricos, além de belos movimentos de câmera como o travelling que revela a estrutura do limbo, Nolan capricha no aspecto visual, utilizando também a câmera lenta com precisão em momentos cruciais, como quando objetos começam a explodir em Paris após Cobb revelar que Ariadne está num sonho, num momento que confirma também a qualidade dos efeitos visuais de “A Origem”. E o que dizer do estranho e magnífico momento em que a cidade se curva e une os tetos dos prédios? Além disto, Nolan mostra competência também na condução das cenas de ação, como as perseguições, os tiroteios e a invasão da fortaleza, mas sempre inserindo estas seqüências de maneira orgânica e contribuindo para o andamento da narrativa, comprovando sua capacidade de comandar blockbusters com cérebro, já revelada antes nos excelentes “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas”.

Obviamente, ele conta com uma equipe técnica talentosa para conseguir este apuro visual. Observe, por exemplo, a diferença entre tons da fotografia de Wally Pfister, que ajuda a identificar com clareza em que sonhos os personagens estão, além de revelar características importantes de cada sonhador. Repare que o primeiro sonho, caótico e chuvoso, reflete o modo impulsivo de agir de Yusuf, enquanto que no segundo, o hotel organizado, limpo e simétrico revela o perfeccionismo de Arthur, ao passo em que a neve do terceiro sonho confirma a personalidade fria de Eames. Da mesma maneira, o design de produção busca diferenciar cada sonho, mantendo uma lógica fiel à personalidade de cada um (“Julgando pela decoração este é o seu sonho Arthur”, diz Mal em certo momento), além de se destacar na criação do impressionante e surreal limbo, repleto de construções imaginadas por Cobb e Mal, trazendo ainda o objeto símbolo do filme, que é o totem que revela ao protagonista o que é real e o que é sonho.

Os espetaculares efeitos visuais citados acima tornam tudo mais convincente e realista, destacando-se também na briga que ocorre no sonho de Arthur, em que os personagens flutuam na tela devido à alteração da gravidade, num reflexo interessante do que ocorre no ambiente caótico em que eles estão sonhando na camada anterior. Também se destacam os ótimos efeitos sonoros e o design de som, que captam cada movimento dos personagens, os tiros, o barulho dos carros e até mesmo o estalar de uma taça quebrada, vital em certo momento da narrativa. Já a trilha sonora de Hans Zimmer chama pouca atenção para si, surgindo apenas em momentos pontuais e ganhando força nas grandes cenas, especialmente através da música diegética de Edith Piaf que conecta os sonhos – que faz ainda uma referencia ao papel que rendeu o Oscar a Marion Cotillard. Fechando a parte técnica, a excepcional montagem de Lee Smith mantém um ritmo dinâmico durante toda a narrativa, chegando quase à perfeição durante os quatro sonhos simultâneos (que abordaremos em instantes) ao transitar entre cada um deles de maneira fluída e orgânica.

Após cumprirem à risca o plano traçado, os agentes finalmente conseguem invadir a mente de Fischer, iniciando a sensacional seqüência em que eles invadem sonhos dentro de sonhos, chegando a percorrer três camadas até que o jovem empresário seja atingido no último estágio, colocando em risco toda a missão. É quando eles decidem salvar Fischer e buscar Saito, também ferido e já abandonado no limbo, indo para uma quarta camada e criando um desafio interessante para o espectador, agora obrigado a acompanhar quatro ações paralelas, em diferentes níveis de tempo e com objetivos distintos. Nolan conduz toda a seqüência com maestria e atinge a perfeição técnica naquele que certamente é o grande momento de “A Origem”, quando o “chute” começa a trazer de volta os sonhadores para a realidade – e impressiona como ele respeita com rigidez quase militar a lógica interna da narrativa, não apenas neste momento, mas em todo o filme. Contando novamente com o ótimo trabalho do montador Lee Smith, Nolan cria uma seqüência belíssima e potencialmente tensa, capaz de nos fazer grudar na tela enquanto acompanhamos os personagens despertando sucessivamente. A câmera lenta mostrando a queda da van no primeiro sonho, a queda do elevador no segundo, a explosão da fortaleza que segue o momento em que Fischer abre o cofre no terceiro e o instante em que Ariadne joga Fischer do prédio e se joga no quarto sonho são seqüências memoráveis, conduzidas num ritmo perfeito por Nolan, que ainda amarra a narrativa com perfeição ao trazer Cobb acordando na praia do limbo novamente, assim como no primeiro plano do longa.

Como se não bastasse, ainda temos o belo final, com todos acordando no avião e Cobb confirmando que sua missão foi bem sucedida ao ver Saito pegando o telefone, permitindo-lhe passar pela imigração e reencontrar os filhos. E então Nolan decide brincar com nossa percepção ao encerrar esta obra-prima da ficção científica com um plano polêmico, em que vemos o totem girando, mas não vemos sua queda, criando duas possibilidades interessantes de interpretação. Na primeira e mais plausível delas, Cobb retorna pra casa, reencontra os filhos na “vida real” e o totem cai após o encerramento do filme. Mas o fato de cortar o plano antes de mostrar a queda do objeto levanta outra curiosa possibilidade, ventilada algumas vezes durante a narrativa (especialmente por Mal e por um senhor que ministra sedação). Estaria Cobb vivendo um longo e complexo sonho? O fato de ser perseguido por inimigos e até mesmo por autoridades, assim como os “sonhadores” são perseguidos nos sonhos que ele invade, reforça esta teoria – e Nolan é inteligente o bastante para não mostrar a queda do totem, plantando assim a dúvida em nossas mentes, especialmente porque Mal afirma com convicção em diversos momentos que Cobb é quem ficou preso no mundo dos sonhos, e não ela. E desta forma, o diretor faz o espectador compartilhar da mesma dúvida do personagem, que, diante de tudo que testemunhou e viveu, já não sabe mais o que é sonho e o que é realidade. Não é genial?

Se Cobb estava sonhando ou não, pouco interessa. O importante é que os cinéfilos podem comemorar, pois “A Origem” é uma realidade, um filme sensacional dirigido por um realizador competente e cada vez mais ousado, recheado por um elenco do mais alto nível. Complexo e inteligente, pertence ao seleto grupo de filmes que desafiam a mente do espectador, fazendo-o sair da cômoda posição de “platéia” e participar da narrativa, usando seu cérebro para algo mais do que comer pipoca e tomar refrigerante. Se você não se incomoda em ser estimulado desta forma, certamente acompanhar a trajetória de Cobb e sua turma foi uma experiência memorável.

Texto publicado em 14 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira